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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

27.03.22

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.

O que têm em comum nomes como João Vieira Pinto, Nuno Gomes, Ricardo ou Bosingwa? Para além de terem sido alguns dos melhores jogadores nacionais de finais do século XX e inícios do XXI, todos eles emergiram do mesmo clube, um verdadeiro 'viveiro de talentos' durante a última década do Segundo Milénio: o Boavista.

Sim, o Boavista – o histórico 'segundo grande' da cidade do Porto que - antes de produzir um dos primeiros choques desportivos do novo milénio ao vencer, de forma totalmente inesperada, o Campeonato Nacional da Primeira Divisão, na primeira época completa do século XXI – se afirmava como 'incubadora' de jovens futebolistas talentosos, que se 'mostravam' na equipa principal antes de, invariavelmente, partirem para mais altos vôos.

Destes, talvez o mais notável tenha sido um jovem loiro e de baixa estatura, descrito pelo então Seleccionador Nacional sub-20, Carlos Queiroz, como tímido e de falas mansas, mas que dentro de campo se afirmava como um líder, graças à sua técnica apurada, raça, classe e talento.

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João Pinto, aqui ao serviço do clube pelo qual se celebrizou

Falamos, claro, de João Vieira Pinto, cujas duas primeiras passagens pela equipa principal do clube onde se formara (em 1988-89, ainda com idade júnior, e novamente em 1991-92, já depois da revalidação do título mundial de sub-20 e de uma bem-sucedida temporada em Espanha) se saldaram num total de 51 jogos e 12 golos – números bem distantes dos que viria a conseguir mais tarde, enquanto estrela absoluta e campeão por ambos os rivais da capital, mas já indicativos do talento que 'morava' naquele corpo franzino. Melhor, mesmo após a afirmação, JVP nunca esqueceu as suas origens, regressando uma terceira vez ao Boavista, já em final de carreira, mas ainda a tempo de fazer duas épocas em grande nível, contribuindo com 57 jogos e 11 golos, uma marca muito semelhante às que conseguira enquanto jovem talento dos axadrezados. E embora não tenha terminado carreira na casa que o viu nascer (foi mais acima, em Braga) o talentoso avançado continua, ainda assim, a merecer o seu estatuto como lenda do clube nortenho.

Mas embora João Pinto seja a 'estrela' mais imediatamente associada ao Boavista, existiu outro nome cuja carreira rivaliza com a do franzino criativo, tendo partido da mesma casa-mãe: Nuno Miguel Soares Pereira Ribeiro, mundialmente conhecido pelo seu apelido-alcunha, Nuno Gomes.

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Tendo, como JVP, feito a sua formação no clube axadrezado, o avançado chegou a alinhar na equipa principal do clube do Bessa durante três épocas – nas quais participou em 79 jogos, marcando 23 golos – antes de chamar a atenção do Benfica, clube com o qual é inevitavelmente (e merecidamente) associado, e do qual se tornaria histórico. Pelos encarnados, foram quase 300 partidas ao longo de 12 épocas (divididas em duas passagens, separadas por uma aventura de duas épocas em Itália, ao serviço da Fiorentina) que lhe valeriam lugar cativo na Selecção Nacional portuguesa, pela qual marcou golos importantes e memoráveis em competições como o Euro 2000 (cinco golos, incluindo um 'bis' à Turquia e o golo da confirmação da 'remontada' e vitória contra a Inglaterra) ou Euro 2004, onde marcou o golo da vitória sobre a Espanha. E embora a sua carreira tenha terminado de forma discreta – com passagens por Braga e Inglaterra, no Blackburn Rovers – é difícil negar a Nuno Gomes o estatuto de segundo maior nome alguma vez saído das escolas do Boavista.

E se os dois primeiros dessa restrita lista são avançados, o terceiro joga no extremo exactamente oposto do campo – à baliza.

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Já terão adivinhado tratar-se de Ricardo, o futuro guarda-redes titular do Sporting e da Selecção Nacional, que começou a carreira profissional como suplente do eterno William Andem, histórico máximo do clube durante a década de 90, com quem se bateria pela titularidade durante as sete épocas seguintes. E apesar de William ser o nome mais associado com a baliza do Boavista durante o referido período, seria com Ricardo entre os postes que a agremiação do Bessa conquistaria o referido campeonato, em 2000-2001.

O resto da história é bem conhecido, tendo o atleta cuja carreira se iniciara no modesto Montijo granjeado um lugar na mesma Selecção Nacional onde figuravam Nuno Gomes e João Vieira Pinto, bem como uma transferência para os 'leões' de Lisboa, ao serviço dos quais disputaria quase 120 partidas, ao longo de quatro anos. Do Sporting, saiu para o Betis, onde apenas se conseguiu afirmar na primeira das três épocas que passou com o clube, naquilo que se pode considerar uma aposta, infelizmente, gorada; a partir desse ponto, a carreira do guardião entrou em ciclo descendente, tendo terminado de forma ainda mais discreta que a de Nuno Gomes, com passagens anónimas pelo Leicester City, de Inglaterra, Vitória de Setúbal e Olhanense, onde viria a 'pendurar as botas' em 2014, tendo já granjeado um merecido estatuto como um dos melhores guardiões portugueses da era moderna, e mais um talento a emergir do relvado do Bessa.

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Já no novo milénio, o Boavista veria, ainda, um último produto das suas escolas noventistas despontar para o mundo do futebol: José Bosingwa, lateral-direito que se viria a tornar indiscutível do 'vizinho' FC Porto, bem como da Selecção Nacional pós-Geração de Ouro, antes de emigrar para o estrangeiro, primeiro para Inglaterra (onde continuaria a brilhar de azul, e sob a tutela de José Mourinho, agora ao serviço do Chelsea), depois para a Escócia, para representar o Q. P. R., e finalmente para a Turquia, onde terminaria a carreira após três épocas no Trabzonspor. E embora a sua passagem pelo clube axadrezado tenha sido bem mais discreta do que a dos nomes anteriormente mencionados, o lateral merece, ainda assim, uma referência quando o assunto são talentos saídos da 'fábrica' do Bessa durante a década de 90.

E embora a hegemonia do Boavista neste particular não tenha sobrevivido à viragem do milénio, uma coisa é certa: o clube axadrezado pode, com toda a legitimidade, gabar-se de ter, durante os últimos anos do século XX, produzido e oferecido ao futebol mundial um naipe de grandes nomes, que honrarariam subsequentemente o nome do seu clube formador numa miríade de grandes palcos, tanto nacionais como internacionais.

05.12.21

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.

Já aqui falámos, aquando do último encontro entre Benfica e Sporting, na época passada, da importância que o 'derby' de Lisboa tem para os adeptos de ambos os clubes, ao ponto de, muitas vezes, o seu resultado ser quase mais importante do que o desempenho de cada uma das equipas na restante prova; agora, na ressaca de novo encontro entre os dois emblemas, já no âmbito da nova época, recordamos um jogo em que se verificou, precisamente, essa situação - o famoso 3-6 de 1994, ainda hoje uma das partidas mais históricas e recordadas da História do futebol português.

Ainda hoje custa a ver, para um adepto do Sporting...

Corria o mês de Maio de 1994, e o então Campeonato Português da I Divisão aproximava-se a passos largos do final, quando os eternos rivais da Segunda Circular lisboeta se encontravam, sob chuva torrencial, no velhinho e saudoso Estádio José Alvalade, em partida a contar para a 30ª jornada. O Benfica liderava a prova, mas o Sporting mantinha acesa a perseguição, 'mordendo os calcanhares' às águias na segunda posição da tabela. O 'derby' de Alvalade era, portanto, um daqueles jogos que ajudaria a definir a classificação: o Sporting precisava de ganhar para manter a luta em aberto, e não se deixar ultrapassar pelo outro rival de ambas as equipas, o FC Porto, enquanto que o Benfica tinha na partida uma oportunidade de cimentar a liderança, deixando os dois adversários na luta apenas pelo posto de vice-campeão.

E foi precisamente isso que acabou por se verificar, muito graças a uma das melhores exibições individuais de sempre num jogo do campeonato português, por parte de um 'loirinho' endiabrado com talento inversamente proporcional à altura, de seu nome João Vieira Pinto; o número 8 benfiquista ajudou a manter o Benfica na luta durante a primeira parte de um jogo que até havia começado com o Sporting em vantagem (por duas vezes), tendo os golos do empate sido apontados, em ambas as instãncias, por...João Vieira Pinto. Foi, também, dele o golo que deu a vantagem ao Benfica pela primeira vez, assegurando que os encarnados iam para o intervalo a vencer por 2-3, num jogo em que haviam estado em desvantagem por 1-0 e 2-1 (golos de Cadete e Figo.)

Na segunda parte, foi a vez de outro jogador benfiquista 'abrir o livro' – no caso, o avançado brasileiro Isaías, que ajudou a dilatar e avolumar o resultado em favor das águias, com dois golos consecutivos, aos 48 e 57'. Aos 74', Hélder Cristóvão dava ao resultado contornos de massacre, que nem um penálti tardio do 'mago' Balakov ajudou a suavizar; o Sporting saía, mesmo, de sua casa humilhado (e bem!) pelo eterno rival, e com o Campeonato definitivamente perdido (esta mesma equipa viria aliás, semanas depois, a pôr o ponto final numa época desapontante, ao perder também a Taça de Portugal para o outro rival, por 1-2 após finalíssima.)

À distância de quase três décadas, é fácil perceber porque continua este a ser um dos jogos mais falados de sempre do futebol português: um resultado de 3-6 é tudo menos comum, e quando associado a um 'derby', com todas as 'picardias' que esse tipo de jogo acarreta, ainda mais memorável se torna. E ainda que o Sporting tivesse, mais de uma década e meia depois, conseguido 'vingar-se' deste resultado com um 5-3 para a Taça de Portugal, o jogo de 14 de Maio de 1994 continua a ser uma das 'feridas abertas' para os adeptos leões, e um dos maiores motivos de orgulho para os adeptos benfiquistas que o presenciaram...

FICHA DE JOGO

SPORTING 3-6 BENFICA

14/05/1994

Estádio José Alvalade

Campeonato Nacional da I Divisão – 30ª Jornada

Árbitro: António Marçal

SPORTING: Lemajic; Nélson, Valckx, Vujacic e Paulo Torres (Pacheco, int.); Paulo Sousa, Capucho, Balakov e Figo; Cadete e Iordanov (Poejo, 60').

BENFICA: Neno; Hélder Cristóvão, Mozer, Abel Xavier e Veloso; Kenedy, Paneira, Schwarz e Aílton; João Vieira Pinto (Rui Águas, 78') e Kenedy (Rui Costa, 71').

GOLOS: 1-0 por Cadete (8'); 1-1, por João Vieira Pinto (30'); 2-1 por Figo (35'); 2-2, por João Vieira Pinto (37'); 2-3, por João Vieira Pinto (44'); 2-4, por Isaías (47'); 2-5, por Isaías (57'); 2-6 por Hélder Cristóvão (74'); 3-6 por Balakov (pen, 80'.)

22.08.21

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.

A vida de um adepto de futebol – tenha que idade tiver – nunca é fácil. Mesmo aqueles que seguem os clubes de maior dimensão nacional ou mundial não conseguem escaper a uma ou outra época de desilusões, frustrações e amarguras. E apesar de, eventualmente, esses períodos passarem a ser apenas uma recordação mais ou menos embaraçosa para partilhar com os amigos numa jantarada, na altura, ao vivo e a cores…doem. Doem muito.

O primeiro assunto que iremos abordar nesta nova rubrica do nosso espaço desportivo - dedicada a recordar plantéis memoráveis da nossa década de eleição - trata, precisamente, de um desses momentos, no caso relativo a um dos chamados ‘três grandes’ portugueses – nomeadamente, o Benfica. E, tendo em conta a época em que a maioria dos leitores deste blog nasceu (e o título do post…) certamente já sabem de que momento se trata.

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Sim, hoje vamos falar daquelas duas épocas em que o clube encarnado de Lisboa foi treinado por um escocês crédulo e com uns ‘parafusos a menos’, que o tentou transformar numa espécie de versão portuguesa de uma equipa do Championship ou League One, recheada de ‘pernetas’ britânicos de variáveis graus de hilaridade para os adeptos adversários. Só essa lista já deverá ser suficiente para fazer arrepiar qualquer adepto ‘lampião, tal o calibre dos nomes que a compõem. Senão vejamos: na época e meia em que Souness esteve à frente da equipa, constaram da folha salarial do Benfica nomes como Scott Minto, Mark Pembridge, Michael Thomas, Gary Charles, Brian Deane, Steve Harkness e Dean Saunders (que, em abono da verdade, até era bom jogador). Já sentiram um friozinho na espinha? Pois… Até os adeptos de outros clubes tinham pena de quem tinha que ‘gramar’ com estes toscos semana sim, semana sim, durante um campeonato inteiro.

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Quem se poderá esquecer deste gigantesco craque, notável pela sua velocidade de movimentos e execução?

E o pior é que essas equipas do Benfica não eram, de todo, desprovidas de talento – antes pelo contrário. A equipa que Souness herdou de Manuel José e Mário Wilson tinha, por exemplo, um dos melhores guarda-redes de sempre a actuar no campeonato português moderno (o eterno Preud’Homme), um dos melhores criativos (o igualmente eterno João Vieira Pinto) e ainda nomes como Tahar El-Khalej, Paulo Madeira, El-Hadrioui, Karel Poborsky (que viria a atingir outros vôos), Ovchinnikov (aqui suplente de Preud’Homme, mais tarde titularíssimo do FC Porto), Jorge Cadete ou um jovem Nuno Gomes, que já mostrava a veia goleadora pela qual se tornaria conhecido na década seguinte. A nível de resultados, também nada fora do normal – um segundo lugar e um terceiro, embora este ultimo se tenha iniciado com uma pouco típica série de cinco derrotas. E, no entanto, a principal memória tanto de adeptos como de adversários é mesmo aquela ‘colecção’ de ‘pernetas’ britânicos, que entre eles talvez perfizessem um jogador mediano...

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...imediatamente seguida pela desta 'maravilha' de equipamento alternativo, que consegue, ainda assim, a proeza de NÃO ser o pior da história recente do clube.

Mas, afinal de contas, que mais se poderia esperar do homem que, ao comando do Sunderland, adquirira sem qualquer prospecção um suposto ‘primo’ de George Weah, que afinal não passava de um ilustre desconhecido das divisões amadoras francesas? Não, caros amigos do clube rival, vocês até tiveram sorte de as ‘fézadas’ de Souness no vosso clube se terem resumido a uns quantos ‘coxos’ ao nível do segundo escalão inglês, e nunca se terem alargado a um Ali Dia; como o próprio Souness talvez dissesse, ‘be thankful for small mercies’ - entre as quais a de nunca ter havido no vosso clube outro treinador como o escocês, nem outra equipa como a que ele montou naquela recta final do século XX, da qual os maiores beneficiários eram mesmo os clubes rivais, que tinham a vida significativamente facilitada sempre que chegava a altura de um ‘derby’…

13.06.21

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.

E porque precisamente este fim-de-semana se celebra uma ocasião única no seio do futebol internacional – um Campeonato Europeu disputado no Verão de 2021, mas anacronisticamente chamado Euro…2020 – nada melhor do que recordar aquele que foi, para as crianças da ‘nossa’ década, um dos primeiros e mais marcantes contactos com o futebol ‘de selecções’, e que, devido ao referido anacronismo, acaba mesmo por ver o seu 25º aniversário ser celebrado com a realização de outro certame do mesmo género.

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Falamos, é claro, do Euro 96, disputado em Inglaterra entre 8 e 30 de Junho desse ano, e que marcaria o regresso das grandes competições internacionais ao ‘berço’ do futebol, após exactas três décadas – daí o slogan da prova, ‘football’s coming home’.

Nostalgias à parte, no entanto, a maior influência deste campeonato para o futebol moderno foi mesmo o facto de ter sido utilizado como prova-modelo para a implementação definitiva do modelo competitivo pelo qual os Campeonatos Europeus modernos ainda hoje se regem, com 16 equipas (o dobro de campeonatos anteriores) divididas em grupos de apuramento de quatro equipas cada, das quais duas são eliminadas e outras duas seguem para as fases eliminatórias da prova.

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A nova configuração das fases de grupos introduzida pelo Euro 96

Embora alguns dos nossos leitores mais velhos possam ainda recordar o Euro 92, o Mundial de 90 ou até de algum ou outro campeonato da década anterior, para a maioria das crianças nascidas na década de 80, o binómio Mundial 94 – Euro 96 representa a primeira memória relacionada ao futebol internacional, e a primeira vez que o futebol não-clubístico foi seguido com verdadeiro interesse. E se no caso do Mundial o principal motivo de interesse se prendia com o exoticismo de o certame ser realizado num país com pouca ou nenhuma tradição futebolística, no caso do Euro 96, havia um ‘gancho’ adicional, nomeadamente a participação de uma selecção portuguesa em ascensão, conduzida, pela primeira de muitas vezes, pelos elementos da equipa bicampeã do Mundo de sub-20 – a chamada ‘Geração de Ouro’.

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A Selecção portuguesa de 1996

De facto, o Euro 96 marcava o início da ‘era de ouro’ da Selecção Nacional portuguesa, cujo percurso durante os próximos dez anos se daria em claro ascendente, culminando na quase-vitória em pleno solo ‘caseiro’, durante o Europeu de 2004. Em 1996, no entanto, esta equipa-maravilha apresentava-se ainda em fase embrionária, já com todos os elementos no sítio, mas sem a química quase maquinal que os seus elementos viriam a adquirir com o passar dos anos.

Ainda assim, a prestação de Portugal no Campeonato Europeu de meados da década de 90 seria valorosa e meritória – ainda que, em muitos aspectos, frustrantemente típica. Exemplo disto mesmo foi a fase de grupos de ‘serviços mínimos’, que se iniciaria com um empate frente à Dinamarca dos irmãos Laudrup, e prosseguiria com um ‘meio a zero’ frente à poderosa Turquia; quando já estava tudo a fazer ‘contas à vida’ no entanto, a Selecção Portuguesa fez aquilo a que, durante os próximos anos, habituaria os adeptos, ‘esmagando’ por 3-0 a Croácia de Suker e companhia, e usurpando à mesma, por apenas um ponto, o primeiro lugar do grupo.

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Classificação final do grupo D

No entanto, no jogo dos quartos-de-final da prova, a equipa nacional voltaria a estar ‘igual a si mesma’ (ou, pelo menos, àquilo que viria a ser) sendo eliminada pela República Checa, na sua primeira participação enquanto país independente, com um golo solitário de Karel Poborsky, uma das estrelas reveladas nesta competição. Uma saída agri-doce, até porque o jogo foi bem disputado e renhido, mas ao mesmo tempo um ensaio de preparação para a sensação que os adeptos portugueses se viriam a habituar a sentir  muitas e muitas mais vezes ao longo dos anos seguintes – a sensação do ‘foi quase’. Porque, sim, foi quase – mas…

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Os onzes iniciais do jogo dos quartos-de-final entre Portugal e a República Checa

Fica a consolação de, pelo menos, a equipa que eliminou as Quinas ter sido uma das eventuais finalistas, constituindo talvez a surpresa da prova ao ‘dar luta’ à Alemanha de Lothar Matthaus, acabando por sucumbir por honrosos 2-1. Mais uma vez, esta viria a ser a primeira instância de uma ocorrência recorrente para Portugal em provas internacionais – a de ser eliminado por uma equipa finalista da prova.

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O homem do jogo dos quartos-de-final, Karel Poborsky, em disputa com o central português Fernando Couto

Enfim, em muitos aspectos, o Euro 96 foi uma espécie de primeiro ensaio para aquilo que viria a ser o futebol internacional português durante as duas décadas seguintes – um futebol bonito, esforçado, com lampejos de génio, mas que acabava sempre por se ficar pelo ‘quase’. A situação viria a mudar, é claro, exactos 20 anos após o certame em causa, quando muitos dos mini-adeptos que com ele vibraram eram já, eles próprios, pais de mini-adeptos que vibraram com a turma de Ronaldo e companhia.

Os mais velhos, no entanto, não poderão, ainda hoje, deixar de recordar o ponto de partida dessa gloriosa odisseia, que pode ter continuidade já daqui a poucas semanas – aquele Verão de 96 em que uma equipa de vermelho e verde, oriunda de um pequeno país mediterrânico, tentava replicar o sucesso atingido pelas suas camadas jovens alguns anos antes, e afirmar-se como potência a ter em conta no panorama do futebol internacional. Objectivo que, aliás, viriam a cumprir, ainda que para tal tivessem que esperar até à década, século e milénio seguintes…

16.05.21

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.

E porque ontem houve ’derby’ de Lisboa, nada melhor do que falar desses jogos que apaixonavam os pequenos fãs de futebol durante a década de 90.

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Dimas, um dos grandes nomes do futebol português dos anos 90, aqui em jogo contra o Sporting.

Um ‘derby’ – ou seja, uma confrontação directa entre dois clubes historicamente rivais, normalmente da mesma cidade ou de localizações adjacentes – tende a ser, invariavelmente, um dos pontos altos de qualquer campeonato, especialmente se disputado entre equipas de qualidade equivalente, e que ambas militem no primeiro escalão dos respectivos campeonatons nacionais. Os ‘derbies’ portugueses reúnem ambas estas condições, e adicionam-lhe uma terceira – nomeadamente, o facto de as equipas intervenientes serem as maiores e mais poderosas do campeonato. Assim, não é de estranhar que os jogos entre essas equipas sejam sempre os de maior interesse para adeptos de todas as idades, e especialmente para as crianças, que sentem o futebol como ninguém.

Por sorte, quem cresceu nos anos 90 teve oportunidade de assistir a alguns ‘derbies’ verdadeiramente apaixonantes. Os ‘três grandes’ portugueses tiveram, ao longo da década, equipas muito equilibradas, com alguns grandes jogadores - entre eles a grande maioria dos elementos da chamada 'Geração de Ouro' - que ajudavam a garantir a emoção e o bom futebol a cada confronto directo.

No início da década, por exemplo, o Sporting apresentava uma equipa ‘movida’ a Balakov, e que contava ainda com nomes como Figo, Carlos Xavier, Paulo Torres, Oceano ou Cadete; o Benfica, por sua vez, respondia com Rui Águas, Veloso, Paulo Madeira, Paneira, Sánchez e Magnusson, enquanto o Porto apresentava uma equipa muito física, com nomes como Aloísio, Fernando Couto, João (Manuel) Pinto, Jorge Couto, Kostadinov, Madjer e, claro, Domingos. Ao longo dos anos seguintes, pontificariam nos diferentes ‘grandes’ nomes que marcaram época no futebol português, como o binómio Drulovic/Zahovic, Iordanov, Michel Preud’Homme, Vidigal, Marco Aurélio, e os vários ‘Paulos’ que se destacavam à época (como Bento, Futre, Sousa ou Paulinho Santos.)

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Figo (à esquerda) num dos 'derbies' em que participou

Ainda mais à frente, fariam história na I Divisão portuguesa nomes como João Vieira Pinto - um dos mais talentosos futebolistas portugueses de todos os tempos - Rui Jorge, Jorge Costa ou Dimas, além de estrangeiros de enorme qualidade como Karel Poborsky (vindo do Manchester United de Cantona e onde despontava já a Class of '92) ou o incontornável e exímio cabeceador brasileiro, Mário Jardel. Já no final da década, um Sporting campeão após jejum de 18 anos contava com Peter Schmeichel na baliza (uma das mais inacreditáveis contratações da história do futebol nacional) e um ‘velhote’ reabilitado chamado Acosta a mandar ‘charutadas’ na frente, e a rivalizar com o goleador do outro lado da estrada, um jovem de cabelo comprido chamado Nuno Gomes. Mais a Norte, o Porto segurava Jardel mais um ano e revelava ao mundo do futebol um ‘mago’ descoberto no Salgueiros – Anderson Luís de Souza, mais conhecido como Deco…

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Jorge Costa em acção contra o Benfica

É claro que, com nomes deste calibre, os ‘derbies’ da década de 90 (e inícios da seguinte) nunca poderiam ser menos do que emocionantes; no entanto, o entusiasmo natural decorrente deste tipo de jogo era, ainda, aumentado por alguns resultados atípicos em termos de volume de golos, como o 3-3 entre Benfica e Porto, em 1993, o histórico 3-6 do Benfica ao Sporting em Alvalade, em 1994, o 1-4 (novamente em Alvalade) na época seguinte, o outro empate a 3 bolas, desta vez entre os rivais de Lisboa, em 1998-99, ou os ‘três secos’ do Porto ao Sporting, na época em que este último se sagraria campeão. E embora este tipo de resultados acabasse sempre por ‘doer’ a alguém – e ainda mais tratando-se de adeptos jovens e ainda na fase da paixão assolapada pelos ‘seus’ clubes – a verdade é que em termos de espectáculo, estes jogos contavam-se entre o melhor que o campeonato português ainda algo ‘desnivelado’ da época tinha para oferecer.

Infelizmente, a evolução do futebol nas duas décadas subsequentes, de um jogo mais emocional e disputado para outro mais clínico e táctico, tornou este tipo de resultado cada vez menos frequente – o que torna resultados como o 4-3 de ontem (conseguido num jogo emotivo e bem disputado, à moda antiga) ainda mais dignos de nota. Pena, pois, que o contacto das gerações futuras com este tipo de partida tenda a ser cada vez mais ocasional, pois a verdade é que, para um jovem adepto, estes são os jogos que tendem a ficar na memória para sempre…

E vocês? Que memórias têm dos ‘derbies’ daquela época? Por quem ‘sofriam’? Partilhem as vossas histórias nos comentários! Entretanto, fiquem com a recordação da noite mais memorável (seja positiva ou negativamente) do futebol daquela década...

 

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