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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

17.10.25

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

O género de terror para (e com) adolescentes – em que um assassino mascarado persegue e mata um grupo de jovens – foi um dos mais bem-sucedidos das décadas de 80 e 90, com clássicos como 'Halloween' ou 'Sexta-Feira 13' a estabelecerem as bases que inúmeros filmes e franquias exploraram ao longo dos dez a quinze anos seguintes. Nos anos 90, ver-se-ia nova mudança de paradigma, com a trilogia 'Gritos' a redefinir o género injectando um toque de humor e meta-comentário à fórmula que continuava a ser seguida à risca por filmes como 'Sei O Que Fizeste No Verão Passado', 'A Faculdade' ou 'Destino Final' – uma mudança que seria tão bem recebida pelo público-alvo que daria a um grupo de humoristas de créditos firmados a ideia de amplificar os elementos humorísticos utilizados por aquela trilogia para criar uma paródia declarada de todo um género cinematográfico. O resultado – que viria, sem que ninguém soubesse ou esperasse, a originar tanto uma franquia própria como todo um novo género – chegava às salas de cinema nacionais há quase exactos vinte e cinco anos (a 13 de Outubro de 2000) e captava de imediato a atenção de toda uma demografia, que incorporaria várias das suas falas no 'calão' diário, num daqueles exemplos de existência de um 'meme' uma década antes de tal conceito ter sido inventado.

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A obra em causa era, claro, 'Scary Movie – Um Susto de Filme', um projecto dos irmãos Wayans que, de uma assentada, parodiava não só os mais populares filmes de terror adolescente, mas também outros trabalhos cinematográficos de realce à época – com alusões aos inevitáveis 'Matrix', 'O Sexto Sentido' e 'Projecto Blair Witch' – e até anúncios publicitários contemporâneos, um dos quais serve de base à mais famosa e icónica cena do filme. A fórmula, essa, era simples: recriações, muitas vezes plano a plano, de cenas dos referidos filmes, mas com variações inesperadas, irreverentes, e politicamente incorrectas: Carmen Electra (no papel originalmente interpretado por Drew Barrymore no início do primeiro 'Gritos') a escapar à morte graças ao silicone dos peitos, o personagem de David Arquette no mesmo 'Gritos', Dewey, a ser transformado em 'Doofy', uma caricatura de um indivíduo com deficiências cognitivas, um assassino que se 'moca' juntamente com o grupo de 'janados' local (sem nunca tirar a máscara), e mil e uma referências a alguns dos mais 'batidos' axiomas dos filmes para adolescentes, como a utilização de actores já algo longe da faixa etária que representam ou a tendência dos personagens para perderem a capacidade de reagir inteligentemente ao ouvirem um barulho.

Uma estratégia que resultava em pleno no imediato, mas que (um pouco como acontecia, na mesma altura, com o videoclip para 'All The Small Things', dos Blink-182) limitava o filme a um espaço e tempo tão determinado como limitado. Isto porque quem não soubesse a que se referia cada uma das piadas (ou seja, quem não fosse da faixa etária correcta ou conhecesse minimamente os filmes em causa) ficaria inevitavelmente 'perdido', sem saber porque (ou do que) era suposto estar-se a rir. Para quem percebia a premissa, no entanto (e tinha menos de vinte e cinco anos na altura da estreia) 'Scary Movie – Um Susto de Filme' era provavelmente a película mais divertida do ano, e punha milhares de jovens da viragem do Milénio a gritar 'Wazaaaaaaaap?' uns para os outros em pátios de escola de Norte a Sul do País – tal como, aliás, sucedia também em outras nações na mesma altura. E embora, hoje em dia, o mesmo deva ser devidamente contextualizado (sendo muito do seu humor actualmente visto como problemático, para não falar em datado) não haverá decerto quem tivesse cerca de quinze anos no ano 2000 e não diga que adorou 'Scary Movie' quando o foi ver ao cinema,

Face ao sucesso do filme junto do seu público-alvo, não é de admirar que Keenan, Shawn e Marlon Wayans tenham procurado tornar 'Scary Movie' numa franquia, tendo sido produzidos mais quatro (!) filmes ao longo da década seguinte; infelizmente, como costuma suceder neste tipo de casos, cada novo acrescento à série era menos original e bem-conseguido que o anterior, e nenhum chegava aos calcanhares do original – embora a primeira sequela não seja uma má proposta para uma Sessão de Sexta dupla, tendo inclusivamente um argumento mais forte que o do primeiro filme. O mesmo se pode dizer das inúmeras séries de 'imitadores' surgidos imediatamente após o lançamento do primeiro filme (embora alguns, como 'Oh, Não! Outro Filme De Adolescentes' chegassem a ser bem-conseguidos) e, sobretudo, da insuportável série de 'filmes temáticos' lançada por dois dos produtores em finais da década, cada um como paródia (sem qualquer graça) de um género específico, dos filmes de fantasia aos românticos, históricos ou de desastres.

Apesar deste legado mais do que questionável, no entanto – e de não ter envelhecido particularmente bem, tanto pelo conceito como pelo humor – 'Scary Movie – Um Susto de Filme' é, ainda assim, um dos filmes icónicos para a geração que atravessava a adolescência nos anos de viragem do Milénio, mais do que merecendo ser recordado na semana em que se completam vinte e cinco anos sobre a sua estreia nacional – um evento cuja melhor maneira de celebrar será, evidentemente, com um 'Wazaaaaaaaaaap??'

07.10.25

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década

Os programas de humor estavam entre os mais populares e bem-sucedidos das décadas de 80, 90 e 2000 – e, destes, grande parte tinha como formato uma sucessão de 'sketches' não relacionados entre si, normalmente vividos por uma série de personagens recorrentes. E se, no Novo Milénio, o grande exemplo deste tipo de emissão seria o ainda hoje histórico 'Gato Fedorento', na década de 90, a honra de líder de audiências dividiu-se entre dois programas concorrentes: a 'Herman Enciclopédia', da RTP, e o programa que abordamos neste 'post', cerca de um mês após se terem celebrado os trinta anos sobre a sua estreia.

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Era a 1 de Setembro de 1995 que a SIC transmitia, pela primeira vez, um episódio daquele que se viria a tornar, durante a década subsequente, um dos seus programas-estandartes, e pôr tanto crianças como adultos de Norte a Sul do País a repetir dichotes e imitar personagens por si veiculadas, e criadas por um veterano da comédia nacional, Guilherme Leite, cuja carreira o havia ajudado a perceber exactamente o que agradava ao público nacional. 'Malucos do Riso' apostava, assim, num estilo de humor popular e brejeiro, mais próximo do anedotário popular ou teatro de revista do que das piadas mais subtis e baseadas na personalidade de cada figurino propostas pela 'Enciclopédia' de Herman José. O resultado não podia ser outro que não a adesão quase total de certos segmentos da sociedade portuguesa, com destaque para as crianças e membros da classe trabalhadora, a quem o humor simples, quotidiano e ligeiramente 'maroto' nunca deixava de agradar.

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Alguns dos muitos personagens memoráveis do programa.

Não é, assim, de admirar que 'Malucos do Riso' se tenha, eventualmente, afirmado como um dos programas de entretenimento mais longevos da SIC, completando uma década no ar com a fórmula praticamente inalterada. Seria apenas já em meados da primeira década do Novo Milénio, que este bastião da estação de Carnaxide viria a sair do ar – embora durante pouco tempo, já que não passariam mais de quatro anos até 'Novos Malucos do Riso' procurar continuar o legado deixado pelo original. E apesar de esta segunda tentativa ter ficado longe do sucesso da original – num panorama televisivo já algo diferente em termos de sensibilidades e interesses do público-alvo – os 'Malucos' originais continuam, até hoje, a afirmar-se como um dos clássicos mais absolutos e indeléveis das mais de três décadas de História da SIC, merecendo bem esta homenagem (ainda que um pouco atrasada) por altura do seu trigésimo aniversário. E para quem quiser recordar, fica abaixo um compêndio completo da série, com quase NOVE HORAS de duração - embora, claro, não se recomende a visualização toda de uma vez...

30.09.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Segunda-feira, 29 de Setembro de 2025.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

As adaptações localizadas para formatos bem-sucedidos no estrangeiro não são nada de novo, tendo sido uma fórmula adoptada pelos países mais periféricos desde os primórdios dos 'mass media'. Portugal não foi, de todo, excepção a esta regra, antes pelo contrário – são inúmeros os exemplos desta prática ao longo dos anos, sobretudo no espectro televisivo, onde os produtos deste tipo se dividem entre adaptações declaradas e o mais literais possíveis, e conceitos simplesmente inspirados por outros criados 'lá por fora'. A série que abordamos neste 'post', e sobre a estreia da qual se assinalaram este mês os exactos vinte e cinco anos, insere-se na primeira categoria, 'copiando' fielmente um formato britânico e aplicando-lhe uma 'demão' de 'verniz nacional', para mais facilmente captar e cativar o seu público-alvo. O resultado é uma série que, apesar de ficar bem aquém do sucesso do original, merece ainda assim ser relembrada por ocasião do seu quarto de século.

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Estreada a 7 de Setembro de 2000, na SIC (à época a principal veiculadora de 'sitcoms' nacionais) 'Cuidado Com As Aparências' é uma adaptação da série do mesmo nome produzida pela BBC em inícios dos anos 90, e cujo título original era 'Keeping Up Appearances'. Londres dá lugar a Lisboa, Hyacinth Bucket torna-se Jacinta Bimbó, mas tanto o conceito (uma mulher de classe baixa com pretensões à 'subida' social) como muitas das situações são transferidas directamente do original britânico – o que não é de estranhar, já que a maioria das mesmas era relativamente universal, sem grande 'carga' social específica do Reino Unido, e, como tal, fácil de adaptar a uma realidade tão diferente (mas também tão semelhante) como era a portuguesa.

A dar a cara e o corpo às 'aportuguesadas' aventuras de Jacinta e da sua família declaradamente e orgulhosamente popular estavam um conjunto de actores bem habituados às lides da comédia, e capazes de fazerem até as situações mais caricatas ressoar junto do público-alvo. Catarina Avelar (que vivia Jacinta), Helena Isabel, Lídia Franco, Margarida Carpinteiro ou Vítor de Sousa eram apenas alguns dos nomes num elenco fixo cujo talento era inversamente proporcional ao seu tamanho, e que era capaz, por si mesmo, de justificar a sintonização da série – como, aliás, sucedia com a maioria dos projectos em que se envolviam.

Infelizmente, conforme mencionado nas linhas iniciais deste texto, a versão portuguesa de 'Cuidado Com As Aparências' não logrou o mesmo sucesso da original, dando origem a apenas duas temporadas (por oposição às cinco da série da BBC) e encontrando-se hoje largamente esquecida pelo público telespectador da época. Ainda assim, a mesma não deixa de ser um exemplo relativamente bem conseguido – e absolutamente típico – de 'sitcom' portuguesa do período em causa, fazendo por merecer ser revisitada por fãs deste tipo de programa, no mês em que se celebram os vinte e cinco anos da sua primeira 'ida ao ar.'

18.03.25

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

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Um dos fenómenos sociais mais pervasivos das últimas cinco décadas em Portugal – sensivelmente desde a globalização dos televisores caseiros – vem sendo a miscigenação da cultura portuguesa com a brasileira, não só através da imigração, como também da importação de produtos mediáticos daquele País. E se, hoje em dia, esse cruzamento se limita às eternas telenovelas, a um ou outro canal da TV Cabo e às revistas da Turma da Mônica, há trinta anos, o panorama de propriedades intelectuais brasileiras presentes em Portugal era bem mais vasto, com as referidas telenovelas e as bandas desenhadas da Abril e Globo à cabeça. E terá sido, precisamente, através das referidas bandas desenhadas que uma larga parcela da população nacional terá tido o primeiro contacto com um dos mais famosos produtos mediáticos saídos do país-irmão – a 'troupe' de comediantes conhecida como Os Trapalhões.

E se a referida BD da Globo tinha como foco versões infantis do quarteto, não tardaria também a que as crianças e jovens daquela época ficassem a conhecer os 'verdadeiros' Didi, Dedé, Mussum e Zacarias, quando – há quase exactos trinta e um anos, em Março de 1994 – o seu programa, lendário no Brasil, chegou finalmente aos televisores nacionais, pela mão da SIC. E a verdade é que, previsivelmente, a inspirada colecção de 'sketches' cómicos de índole 'pastelona' (com alguns dichotes brejeiros à mistura) não tardou a conquistar o público-alvo, sempre aberto a tentativas de humor deste tipo – sobretudo quando se afirmavam como bem acima da média, como era o caso. Sem nunca se terem tornado um 'caso de estudo' de popularidade, como o eram no seu país natal, Os Trapalhões encontravam, assim, em Portugal uma audiência suficientemente devota e fiel para justificar a 'aventura' inédita que o quarteto encetaria logo no ano seguinte, e sobre cuja estreia se comemoram por estes dias exactas três décadas.

Falamos de 'Os Trapalhões em Portugal', a produção nacional (da própria SIC) que procurava recuperar o formato de sucesso do programa original, ao mesmo tempo que o ambientava por terras lusitanas, com os Trapalhões ainda restantes – Didi e Dedé – a contracenarem com coadjuvantes com sotaque português, em cenas típicas da vida quotidiana nacional. Uma ideia que poderia ter resultado – e que, sob algumas métricas, resultou mesmo, já que o programa fez tanto sucesso quanto o seu antecessor – mas que perdia consideravelmente pela ausência da 'outra metade' do grupo, a saber, os malogrados Mussum e Zacarias, que muitos consideravam serem as principais fontes da comédia do grupo. Com apenas Didi como verdadeiro Trapalhão (Dedé sempre desempenhou o papel de elemento mais sério do grupo) e com a presença de actores portugueses a ressalvar a diferença de abordagem e desempenho em relação aos brasileiros, o resultado era um produto algo menos fluido, e mais 'bem-comportado', do que o hilariante original da Globo.

Ainda assim, conforme referimos acima, 'Trapalhões em Portugal' chegou a fazer sucesso entre a juventude lusitana da época, e será ainda recordado por parte dela como um dos elementos nostálgicos da sua infância ou adolescência, merecendo assim destaque nestas nossas páginas no mês em que se completam trinta anos sobre a sua primeira emissão.

14.01.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Segunda-feira, 13 de Janeiro de 2025.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

De entre os vários géneros pelos quais a televisão portuguesa ficou conhecida em finais do século passado, a comédia de costumes talvez seja o mais destacado. Fosse em moldes mais brejeiros, em formato de 'sketch' ou no contexto de uma série propriamente dita, eram muitos, e de muita qualidade, os programas de índole cómica a captar a atenção dos telespectadores nacionais nos últimos anos do Segundo Milénio, normalmente concebidos e/ou representados por um grupo de 'suspeitos do costume' que eram garantia quase certa de gargalhadas. Era, precisamente, essa a fórmula por detrás de um dos mais icónicos exemplos deste género, o qual surgia pela primeira vez nos ecrãs portugueses pela mão da RTP, há pouco mais de trinta anos.

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Falamos d''A Mulher do Sr. Ministro', série cómica estreada a 29 de Novembro de 1994, e que imediatamente 'caiu no gosto' dos espectadores da emissora estatal, com a sua sátira mordaz de um dos 'alvos' mais fáceis da sociedade lusitana, os políticos. Capitaneada por dois dos supramencionados 'suspeitos do costume' – Ana Bola e Vítor de Sousa – realizada por um terceiro (Nicolau Breyner) e contando no elenco com vários outros – como as 'duas Marias' do humor nacional, Rueff e Vieira, o eterno 'braço-direito' de Herman JoséCândido Mota, ou nomes como Ricardo Carriço, Virgílio Castelo, Lídia Franco, José Raposo ou José Jorge Duarte – a série centrada na personagem titular e na sua relação com o plácido representante governamental com quem era casada trazia todos os elementos característicos das produções deste grupo, quer em termos de escrita quer de representação, levando o espectador para um espaço familiar e agradável, onde o mesmo se poderia 'perder' durante meia hora, por entre gargalhadas. Em conjunção com o supracitado elemento satírico, esta fórmula assegurava sucesso praticamente garantido à série, que se afirmaria mesmo popular o suficiente ente o público-alvo para se manter no ar durante uns honrosos três anos (uma 'eternidade' para qualquer programa de humor português não chamado 'Os Malucos do Riso') e justificar uma sequela, 'A Senhora Ministra', em que a própria Ana Bola assumia o cargo antes 'detido' por Vítor de Sousa.

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O casal de protagonistas, prova de que 'os opostos se atraem'...

E embora, hoje em dia, o panorama televisivo português se vai afastando cada vez mais deste tipo de séries (as quais foram, praticamente, 'deixadas' nos anos 90 e inícios dos 2000) a verdade é que, para toda uma geração de portugueses, as mesmas formaram parte integrante das suas semanas televisivas, e terão criado memórias nostálgicas suficientes para justificar estas breves linhas à laia de recordação – bem como, quiçá, um saltinho ao YouTube ou aos arquivos da RTP, onde a totalidade desta série se encontra disponível de forma gratuita, pronta a ser recordada por quem se recorda de, em criança ou adolescente, ter rido à gargalhada com as peripécias de Lola, Américo e respectiva 'posse'...

18.11.24

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

As décadas de 1970 a 1990 representaram um período áureo para a produção cómica britânica, com alguns dos seus melhores e maiores nomes não só no activo, como prolíficos nas suas produções, tornando a 'marca' 'Britcom' tão conceituada quanto apetecível para qualquer estação de televisão. E ainda que nem todas as séries da altura tenham almejado expandir-se além das fronteiras das Ilhas, houve ainda assim vários nomes que lograram 'invadir' não só a Europa como também o resto do Mundo. Portugal não foi excepção, tendo acolhido, no período em causa, várias produções do género, das quais se destacavam duas, de cariz diametralmente oposto: por um lado, as diatribes coléricas de Basil Fawlty, proprietário do hotel menos bem cotado do Mundo televisivo, maravilhosamente interpretado pelo ex-Monty Python John Cleese, e por outro, as caretas e humor físico do icónico Mr. Bean, de Rowan Atkinson, que vem fazendo rir sucessivas gerações de crianças desde a sua chegada a Portugal, algures nos anos 90.

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De facto, desde essa transmissão original, no horário nobre da RTP, a série produzida e interpretada por Atkinson vem sendo presença constante na grelha não só do canal estatal como também da 'concorrente' privada SIC, que a adquiriu nos primeiros anos do Novo Milénio, criando uma situação em que o simpático personagem semi-mudo passava quase em simultâneo em dois dos quatro canais portugueses! Seja em versão original legendada ou numa quase sacrílega dobragem portuguesa (embora Mr. Bean nunca tenha muito a dizer...) as diferentes 'curtas' do personagem raramente têm saído do imaginário colectivo português, com o seu humor baseado na elasticidade física de Atkinson a garantir o apelo universal, mesmo para quem não fala Inglês nem tem familiaridade com o típico humor britânico; e apesar de a série animada produzida para capitalizar sobre a gigantesca popularidade do personagem entre o público jovem também ter passado no nosso País, continua a ser no Mr. Bean de 'carne e osso' que as crianças portuguesas imediatamente pensam ao ouvir mencionar o seu nome.

A referida popularidade só foi, aliás, auxiliada pela edição dos episódios em VHS, no tradicional formato periódico característico da Planeta deAgostini, e acompanhados do inevitável fascículo - ao qual, neste caso, poucos terão 'ligado', sendo o mesmo pouco mais que um complemento à verdadeira 'proposta de valor', no caso as 'cassettes' com episódios. Felizmente, hoje em dia, não é preciso esperar pelo próximo fascículo, sintonizar a televisão à hora correcta, nem tão-pouco gastar dinheiro para conseguir ver e rever clássicos como 'Boa Noite, Mr. Bean' ou 'Feliz Natal, Mr. Bean', graças à 'magia' de portais cibernéticos como o YouTube, os quais proporcionam a oportunidade perfeita para recordar a fonte de tantas gargalhadas ao longo da infância, e para apresentar aos membros mais 'distraídos' das novas gerações o 'Grande Mestre' das caretas silenciosas, cujo génio fica patente no clip 'de época' com que fechamos este 'post', retirado directamente da emissão do Canal 1 da RTP do ano de 1997. Desfrutem!

 

 

02.01.24

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

De todas as personalidades televisivas portuguesas, Herman José talvez tenha sido a que mais 'peles' encarnou ao longo das suas já cinco décadas de carreira. De humorista de 'vanguarda', o luso-alemão passou, em inícios da década de 90, a ícone dos concursos e entretenimento, ao mesmo tempo que, à margem destas duas facetas, continuava a cultivar uma terceira, que se lhes sobrepunha: a de 'cara' oficial das passagens de ano portuguesas.

De facto mesmo após as 'novatas' SIC e TVI terem tentado introduzir alternativas próprias para ter no ecrã aquando das doze badaladas, continuava a ser com Herman que os portugueses preferiam passar a meia-noite, fosse num formato mais típico - como as edições de fim-de-ano dos seus programas regulares - fosse através da vertente favorita do artista, ou seja, o humor puro e duro. Foi, aliás, neste último registo que o luso-alemão criou dois dos mais memoráveis especiais de fim-de-ano de sempre da TV portuguesa: 'Hermanias', em 1991/92, e, no ano anterior, o não menos memorável (bem como pioneiro) 'Crime Na Pensão Estrelinha'.

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Concebido como paródia directa dos programas de detectives que continuam, até hoje, a fazer sucesso (ainda que seguindo os moldes vigentes na altura, estabelecidos por séries como 'Poirot'), o especial de duas horas e meia proposto pela RTP como acompanhamento do 'reveillon' de 1990/91 excedeu todas as expectativas, mantendo 'colada' ao ecrã uma parcela significativa da audiência televisiva portuguesa, e fazendo História no contexto dos especiais de fim-de-ano. Com o próprio Herman no papel de um óbvio 'boneco' de Hercule Poirot, o programa alternava a trama de mistério com 'sketches' humorísticos, bem ao estilo do que o seu criador fizera em 'O Tal Canal', na década transacta, e voltaria a fazer em 'Hermanias' e, mais tarde, 'Herman Enciclopédia'. O resultado foi uma emissão que, apesar do carácter híbrido e algo invulgar, resultou em cheio, tornando Herman na 'estrela' das passagens de ano' noventistas e criando, involuntariamente, o molde para o não menos mítico programa de 'reveillon' do ano seguinte.

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Herman como Hércules Pirô, detective e personagem principal do especial.

Infelizmente, as passagens de ano subsequentes investiriam em formatos bem mais clássicos e menos inovadores - não obstante o sucesso de que haviam gozado esta 'Pensão Estrelinha' e as 'Hermanias' de 91 - facto que, aliado à ligeira alteração de carreira de Herman, significaria que o humorista raramente voltaria a ter ensejo de explorar a sua veia puramente cómica no contexto dos programas de 'reveillon' da década de 90. Ainda assim, o humorista luso-alemão tirou o máximo proveito das oportunidades que teve, criando dois absolutos clássicos das passagens de ano das gerações 'X' e 'millennial', ainda hoje eminentemente 'visíveis' e lembrados por todos os que, naqueles idos de 90, se deixaram embrenhar, juntamente com o detective Hércules Pirô, no mistério de quem havia assassinado o dono da Pensão Estrelinha...

01.01.24

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

O início dos anos 90 assistiu a uma segunda vaga de programas de comédia totalmente produzidos em Portugal e, muitas vezes, criados também a partir de um conceito original português. Os mais famosos de entre estes - nomeadamente 'Herman Enciclopédia' e 'Os Malucos do Riso' - adoptavam um formato baseado em 'sketches' individuais e sem conexão entre si, à maneira do que faziam, no estrangeiro, 'Os Trapalhões' ou o elenco de 'Saturday Night Live'; outros tantos, no entanto, adoptavam um formato episódico, semelhante aos das 'sitcoms' britânicas e norte-americanas que tanto sucesso faziam em finais do século XX. É nesta última leva, ao lado de programas como 'Camilo e Filho' ou 'A Mulher do Senhor Ministro', que se insere a série que abordaremos nesta primeira Segunda-feira de 2024.

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Estreada em Novembro de 1993, e transmitida durante quase exactamente um ano, 'Sozinhos em Casa' - não confundir com a popular série de filmes do mesmo nome, ainda que a parecença nos nomes pudesse não ser, de todo, acidental - tinha por base a série americana 'The Odd Couple', transmitida cerca de duas décadas antes no seu país natal. Ainda assim, apesar da discrepância temporal entre o material original e a adaptação portuguesa, o conceito-base da série era mais ou menos intemporal, prestando-se tão bem a situações humorísticas naqueles inícios dos 90 como o havia feito vinte anos antes, e como o faria, já no Novo Milénio, no mega-sucesso 'Dois Homens e Meio', com Charlie Sheen. Isto porque a premissa da série segue dois melhores amigos de personalidades marcadamente diferentes - um jornalista desportivo desmazelado e 'desenrasca', e um fotógrafo hipocondríaco e maníaco das limpezas - que são forçados a viver juntos após serem expulsos de casa pelas respectivas mulheres, dando azo a todas as situações que tal convivência não podia deixar de despertar.

É precisamente, o humor inerente aos estilos de vida díspares dos dois homens que serve de âncora a toda a série, num estilo de comédia que, conforme acima referido, estava, ainda, longe de se esgotar - e que, no caso da série em análise, beneficiava muito tanto do talento cómico da dupla Miguel Guilherme e Henrique Viana, como das capacidades literárias e conhecimento do meio televisivo dos argumentistas Virgílio Castelo (à época conhecido, sobretudo, como o apresentador de 'Isto Só Vídeo!') Mário Zambujal (esse mesmo, o escritor da 'Crónica dos Bons Malandros', entre outros clássicos da literatura portuguesa) e Carlos Cruz, já então uma 'lenda viva' da televisão portuguesa, ligada a programas tão icónicos como 'Um, Dois, Três' ou 'O Preço Certo'. Uma equipa de consumados profissionais que conseguiram fazer da série um bom exemplo da comédia portuguesa da época, mas que, infelizmente, não lograram prolongar o seu tempo de vida para além daquela primeira temporada de cinquenta e dois episódios, tornando 'Sozinhos em Casa' uma daquelas 'pérolas esquecidas' da televisão lusa do período em causa, bem merecedora de ser revisitada por fãs de programas similares estreados em anos subsequentes, e que gozariam de bastante mais sucesso.

 

 

 

27.06.23

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Tinha início o último fim-de-semana do mês de Julho de 2023 quando alastrava a notícia: o mundo do espectáculo português, e do humor em particular, ficava órfão de mais um nome, e logo de um actor bem mais jovem do que alguns dos 'históricos' lusitanos ainda em actividade. Tratava-se de Luís Aleluia, actor com extensa e reconhecida carreira no teatro e televisão mas que, para uma certa geração de portugueses, ficará para sempre eternizado como a versão televisiva, de 'carne e osso', do Menino Tonecas de José de Oliveira Cosme, protagonista de quatro temporadas de enorme sucesso na RTP1, em finais da década de 90.

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O actor no papel que o celebrizou junto de toda uma geração.

Nascido em Setúbal a 23 de Fevereiro de 1960, Luís Filipe Aleluia da Costa desde sempre esteve ligado à representação, na qual se estreou aos dez anos, numa récita da filial local da Casa do Gaiato, instituição caridosa à qual esteve ligado até aos dezasseis anos; a primeira experiência mais 'a sério', no entanto, surgiria já no final da adolescência, quando se junta a um grupo de teatro amador e ajuda a fundar outro na Escola Comercial de Setúbal, onde era aluno de Humanísticas.

O início da década de 80 vê o jovem actor entrar, pela mão de Vasco Morgado, no mundo do teatro de revista, onde ganharia fama, chegando mesmo a ganhar o prémio de Revelação do Teatro Musicado atribuído pela revista Nova Gente, no caso referente ao ano de 1984. Simultaneamente, vai acumulando também experiência em companhias de teatro itinerantes, onde adquire conhecimentos que põe, posteriormente, a uso no contexto da sua própria empresa de produção, a Cartaz, fundada em 1991.

É, também, por volta dessa altura que surge a oportunidade de trabalhar em televisão, primeiro como actor convidado na série 'Os Homens da Segurança', e posteriormente como membro fixo de 'Sétimo Direito', com Henrique Santana, Lia Gama e Cláudia Cadima. Torna-se, em seguida, membro da companhia de Nicolau Breyner, com quem leva a palco uma série de espectáculos teatrais, além de participar da novela 'Na Paz dos Anjos'. De volta ao teatro de revista, participa como convidado no 'Cabaret' televisionado de Filipe La Féria, e acumula participações especiais nos mais populares programas de humor da época, d''Os Malucos do Riso' da SIC (que aqui terá, paulatinamente, o seu espaço) à 'Companhia do Riso' da RTP.

É em 1996, no entanto, que se dá o grande momento de mudança para Luís Aleluia, quando, ao lado de Morais e Castro, ajuda a dar vida aos textos escritos no início do século por José de Oliveira Cosme, sobre um aluno pouco inteligente e muito atrevido, e respectivo professor 'sofredor'. Caracterizado como uma criança em idade de instrução primária estereotipada, de boné às riscas e calções com suspensórios, mas com rugas que não enganavam, dizia numa voz propositalmente esganiçada piadas brejeiras, muitas escritas por Cosme, outras tantas originais, num formato semelhante ao de programas como 'Escolinha do Professor Raimundo' ou 'El Chavo del Ocho' ('Chaves', na sua icónica dobragem brasileira).

Tinha tudo para dar errado, mas deu muito, muito certo, considerada a série de maior impacto na televisão portuguesa em toda a década de 90, 'As Lições do Tonecas' ficaria no ar de 1996 a 2000, e levaria mesmo à criação de um 'spin-off', 'O Recreio do Tonecas', que não conseguiu o mesmo sucesso. De súbito, a cara daquele actor até então restrito a papéis convidados ou de apoio tornava-se, para uma geração de crianças e jovens lusos, tão sinónima com o humor como a de Herman José ou Camilo de Oliveira. A própria indústria reconheceria o excelente trabalho de Aleluia, que voltaria a ganhar um troféu Nova Gente em 1997, agora na categoria de Melhor Actor de Televisão.

O problema de um papel de tal sucesso – especialmente ao tratar-se do primeiro, ao qual se ficará para sempre associado – reside, normalmente, na dificuldade em lhe dar seguimento, acabando muitos actores por nunca conseguir o mesmo nível de expressividade; tal não foi, no entanto, o caso com Aleluia, que continuou a 'somar e seguir' na televisão portuguesa, com papéis em diversas séries tanto humorísticas como mais 'sérias', além de posto fixo como argumentista e actor nos popularíssimos 'talk-shows' matinais da RTP, 'Praça da Alegria' e 'Portugal no Coração'. A carreira do actor continuaria, assim, a par e passo até ao fatídico dia 23 de Junho, quando foi encontrado sem vida na sua própria garagem, no que se veio mais tarde a revelar ter sido um suicídio. O mundo do teatro e da televisão portuguesas ficam mais pobres, e uma geração de ex-jovens chora o personagem (e actor) que tantas alegrias e risos lhes proporcionou durante quatro dos seus anos formativos, na recta final do século e Milénio passados. Descansa em paz, Tonecas.

28.12.22

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Numa edição passada desta rubrica, falámos de Mafalda, uma das mais influentes personagens de banda desenhada das décadas de 70, 80 e 90. No entanto, apesar de a contestatária menina ter sido o principal contributo do seu criador, Quino, para a História desta forma de arte, a mesma esteve longe de ser a sua única criação de sucesso, tendo o mercado português sido testemunha de, pelo menos, mais uma: a colecção 'Humor Com Humor Se Paga', cujos últimos volumes completam, neste ano que ora finda, precisamente três décadas sobre a sua edição nacional.

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Os três volumes da série editados nos anos 90

Iniciada ainda nos anos 70, e concluída vinte anos e trinta e seis volumes depois (tendo apenas os três últimos sido editados já nos anos 90), a colecção da Dom Quixote permitiu, aliás, a outros autores que não apenas Quino cimentar a sua marca na indústria portuguesa; Sempé, por exemplo (o co-criador do popular 'O Menino Nicolau' ao lado de René Goscinny, guionista de Astérix) teve direito a vários volumes, além de artistas menos conhecidos, mas dentro do mesmo estilo satírico e 'cartoonesco', como Coco e Palomo. No entanto, a esmagadora maioria dos tomos da colecção trazia, mesmo, autoria de Quino, servindo como uma introdução algo mais 'leve' que Mafalda ao seu inconfundível estilo, através de 'gags' de imagem única, bem ao estilo do que se podia encontrar em muitos jornais mundiais da altura, e declaradamente dirigidas a adultos, afastando assim parcialmente o público infantil que (talvez erroneamente) se afeiçoara e fidelizara à menina da bandolete e aos seus amigos.

Apesar de - por esse mesmo motvo - ser potencialmente menos nostálgico para a juventude portuguesa que a criação principal do desenhador argentino, ou que outros 'ilustres' como Calvin e Hobbes, a série em causa merece, ainda assim, destaque nestas nossas páginas, por alturas do trigésimo aniversário da sua conclusão, por constituir mais um dos inúmeros exemplos da 'era de ouro' dos 'cartoonistas' disponíveis no mercado português.

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