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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

16.02.24

Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.

Ao longo do tempo de vida deste 'blog', e desta rubrica em particular, temos vindo a recordar os mais diversos estilos de calçado, não sendo as botas excepção a esta regra – até por, no Portugal dos anos 90, este ter estado entre os tipo de calçado que mais frequentemente 'entrou' e 'saiu' de moda. Das Panama Jack às botas texanas, passando pelas 'famosas' Timberland ou Doc Martens, foram muitos (e muito saudosos) os tipos e modelos de bota a adornar os pés das crianças e adolescentes (bem como de muitos adultos) durante a última década do século XX. E enquanto que alguns destes formatos estavam associados aos chamados 'betinhos', e outros a estilos mais 'alternativos', apenas um conseguia conferir, quase imediatamente, ao seu dono o estatuto de 'mauzão': as botas de biqueira de aço.

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De facto, para muitos 'millennials' nacionais, a mera menção deste termo conjurará imagens do 'metaleiro' lá da escola, ou daquele indivíduo que todos receavam, pela sua propensão para brigas e outras actividades menos do que desejáveis. Isto porque, durante o breve período em que deixaram de ser instrumentos de trabalho para passarem a moda adolescente, as botas de biqueira de aço tendiam a ser compradas e utilizadas pelo sector da 'sociedade' escolar que procurava projectar uma imagem vagamente 'perigosa', fosse a mesma puramente estética ou baseada em aspectos da sua personalidade. Talvez por isso este modelo de calçado fosse tão cobiçado por aqueles que, por uma razão ou outra, eram incapazes de se 'impôr' – talvez na esperança que, como os sapatinhos vermelhos de Dorothy ou os ténis de 'Like Mike', as mesmas lhes conferissem 'poderes' especiais de auto-confiança uma vez envergadas. O preço proibitivo das mesmas – bem como o aspecto algo austero e pouco condicente com indumentárias 'normais' – mantinha, no entanto, essa ambição no plano do simples desejo, restringindo o uso destas botas ao tal sector mais 'feio, porco e mau' da população escolar.

Mais de vinte anos depois, as botas de biqueira de aço parecem ter regressado ao nicho do calçado de trabalho, sendo raros os modelos puramente estético deste tipo de sapato, pelo menos para quem não se insere nos meandros do movimento 'metaleiro'; para qualquer 'millennial' que tenha andado no ensino secundário em finais dos anos 90 e inícios do Novo Milénio, no entanto, as mesmas continuarão, sem dúvida, a simbolizar uma certa estética e forma de estar tão invejada quanto temida nos pátios de recreio do País de então...

 

16.10.23

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Todas as cenas musicais as têm: aquelas bandas que ficam juntas durante pouco tempo, lançam talvez um ou dois álbuns, sem nunca almejar grande sucesso, mas adquirem um estatuto de culto que as faz permanecer relevantes entre os círculos de melómanos mais 'curiosos' durante várias décadas. O movimento pop-rock português não é excepção nesse aspecto, como bem demonstra o grupo que abordamos nesta Segunda de Sucessos, cujo único álbum continua a ser uma das grandes 'curiosidades' do estilo, tal como era praticado em Portugal na primeira metade dos anos 90.

Formados em Chaves no final da década anterior, o projecto conhecido como Adamastor começou por apostar numa sonoridade mais pesada, com letras em Inglês, que chegou a render uma 'demo' com dois originais e uma versão de Thin Lizzy; no entanto, a entrada do vocalista e compositor Artur Órfão mudou o idioma para Português e o som para um registo mais voltado para o pop-rock radiofónico, já com muito pouco a ver com o hard rock tradicional e conservador da maqueta.

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Capa e contracapa do único álbum da banda.

De facto, o que se ouve no primeiro e único longa-duração da banda, editado em 1992 pela incongruente Espacial, rainha dos discos de 'pimba' de tabacaria ou estação de serviço (ao lado dos quais este disco muita vezes figura) está mais próximo de uns GNR do que das referências 'metálicas' nortenhas da época, como Xeque-Mate ou Tarantula, com músicas conduzidas, sobretudo, pela guitarra semi-acústica dedilhada - raramente se ouve um 'riff' electrificado na dúzia de temas que compõem o disco - pela percussão simples e compassada, tipicamente pop-rock, e pela voz dramática e meio declamada de Órfão, que traz muitos ecos de Rui Reininho, bem como uma pitada de Xico Soares (dos referidos Xeque-Mate), ainda que com mais talento e técnica do que este último. Uma fórmula que até poderia resultar, não fora a péssima produção (praticamente só se ouvem os três instrumentos atrás citados) e a desinspiração das composições de Órfão, que parece só saber escrever um único tipo de música, mudando apenas a letra e os arranjos. Aliado à dificuldade em ouvir as 'nuances' de cada tema, derivada da pobre produção, este factor faz com que o disco soe como um 'bolo' uniforme de música, sem que haja um único refrão memorável ou arranjo diferenciado que ajude qualquer das composições a destacar-se, o que torna a audição do disco algo penosa e retira a apetência para dar a habitual segunda ou terceira oportunidade a estes doze temas.

Assim, e dado o relativo insucesso do álbum, não é de surpreender que os Adamastor pouco mais tenham durado após a gravação do mesmo; com material mal produzido, aborrecido e parcamente promovido por uma editora totalmente errada, a banda estava condenada ao falhanço, e o principal contributo da mesma para a cena musical nacional continua, até aos dias de hoje, a ser a revelação do baterista Rui Danin, que viria posteriormente a fundar os Web – estes sim, uma banda de metal – e a colaborar com grupos tanto estabelecidos como emergentes da cena, como os supramencionados Tarantula (ídolos do metal nortenho), os Pitch Black, os Hyubris ou os ThanatoSchizo. Quanto ao único registo da sua primeira banda, certamente será encarado, hoje em dia, como um 'desvario' de juventude, cujo estatuto de culto se deve apenas ao seu relativo desconhecimento e raridade, e à presença de Danin entre os músicos participantes – uma situação que, face ao material apresentado, acaba até por ser algo lisonjeira...

A banda chegou a reunir-se em 2018, para tocar num evento local.

06.03.23

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Apesar de não ter, de longe, tanta expressão como a vizinha Espanha e os outros 'enclaves' mediterrânicos, como a Itália e a Grécia, Portugal não deixa, ainda assim, de ter uma cena hard rock e heavy metal bastante saudável, com várias bandas a conseguirem ganhar reconhecimento a nível nacional ao longo dos anos, e mais do que uma publicação especializada a gozar de alguma longevidade. Ainda assim, a triste verdade é que, destas, são mesmo muito poucas as que chegam a gozar de algum sucesso ao nível do 'mainstream', sendo pouco provável que o fã médio de música radiofónica (mesmo que com inclinações mais 'rock') seja capaz de nomear mais do que dois ou três nomes nesta categoria. Destes, o primeiro será inevitavelmente o dos Moonspell, expoente máximo do metal português, e talvez a única banda pesada verdadeiramente bem-sucedida a alguma vez sair do nosso país; logo atrás dos 'mestres' liderados por Fernando Ribeiro virão talvez, no entanto, nomes como os dos Tarantula – veterana banda de metal clássico do Porto, no activo há quase quatro décadas – e o da banda visada nesta Segunda de Sucessos, os lisboetas R.A.M.P.

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Caso paradoxal da música nacional, o grupo da Margem Sul do Tejo (cujo nome é um acrónimo das iniciais dos membros fundadores) conseguiu a proeza – considerável mesmo nos dias de hoje, e ainda mais nos anos 90 - de atingir a aceitação do grande público melómano sem nunca comprometer ou 'amaciar' a sua sonoridade power/thrash/groove, muito influenciada por bandas como Pantera. Ao contrário do que acontece em tantos outros casos, as guitarras pesadas e vocalizações fortes do fundador Rui Duarte não impediam a banda de bater recordes de vendas para uma banda pesada (o segundo disco, 'Intersection', entrou nos tops nacionais em 1995) e ser convidada a marcar presença em eventos e programas de índole generalista, como o 'Buereré', no qual se afirmaram como, talvez, o convidado musical mais insólito, incongruente e inesperado da década, senão mesmo da História da televisão portuguesa. A imagem daqueles 'cabeludos' a berrar e a fazer o tradicional 'headbanging' no cenário multi-colorido do programa de Ana Malhoa, rodeados de 'bonecos' e crianças em idade de instrução primária ficou, desde esse momento, gravada na memória de toda uma geração – o que, no fundo, faz com que a presença da banda no programa possa ser considerada um sucesso...

Imaginem ligar a televisão num fim-de-semana de manhã e 'ouver' isto entre o Dragon Ball Z e os Power Rangers...

Não era só a televisão infanto-juvenil que dava um nível inusitado de atenção à banda do Seixal; também a rádio parecia gostar do colectivo liderado por Rui Duarte e Ricardo Mendonça, tendo a Rádio Comercial considerado 'For A While', uma das faixas de 'Evolution, Devolution, Revolution', o terceiro trabalho do grupo, como uma das dez melhores músicas do ano de 1998 – uma distinção meritória e difícil de atingir para muitos artistas pop, que dizer de uma banda de metal! Também radialistas como António Sérgio consideravam o grupo uma 'pedrada no charco' do rock português, tendo-se este apoio (declarado ainda por alturas do primeiro álbum do grupo, 'Thoughts', de 1992) provado determinante na ascensão da banda dentro da cena musical nacional.

'For a While', o tema considerado como um dos dez melhores de 1998 pela Rádio Comercial.

Ascensão essa que, aliás, continuaria Novo Milénio adentro, com o grupo a continuar a ser 'a' banda de abertura por excelência para grandes nomes do metal mais pesado em território nacional, e a lançar mais dois álbuns álbuns de originais, um ao vivo, e uma colectânea celebratória do quarto de século de actividade, todos bastante bem sucedidos, pesem embora algumas mudanças de formação.

Comemorada a referida marca de vinte e cinco anos de actividade, no entanto, o grupo perde proeminência, remetendo-se ao relativo silêncio (pelo menos a nível discográfico) durante quase uma década, antes de ensaiar um regresso tão inesperado quanto explosivo em 2022 – a reacção ao qual foi suficientemente entusiasta para provar que os R.A.M.P. continuavam a ser capazes de atrair os 'metaleiros' portugueses em massa, e que a reputação da banda dentro da cena se mantinha intacta, mesmo que longe do sucesso comercial de outros tempos. Quanto ao que o futuro reserva para o grupo de Rui Duarte e companhia, há que esperar para ver, mas uma coisa é certa: os R.A.M.P. merecem já o seu lugar na lista de grandes nomes da música alternativa portuguesa, não só dos anos 90 como a nível geral – uma façanha invejável para um grupo de um estilo tão pouco 'acessível' como o thrash metal...

13.01.23

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Um dos estilos cinematográficos mais prolíficos e bem sucedidos dos anos 80 e 90 – a par do cinema de acção – foi a comédia, especificamente a dirigida a um público mais jovem. Senão, veja-se: só os primeiros anos da década a que este blog diz respeito viram ser lançados filmes como 'Sozinho em Casa', 'Beethoven', 'Papá Para Sempre', 'Jamaica Abaixo de Zero', 'Doidos À Solta' e 'A Máscara', além de duas 'duologias' normalmente mencionadas em conjunto: a de 'Bill e Ted', e aquela cujo primeiro filme completa daqui a precisamente uma semana trinta anos sobre a sua estreia em Portugal – 'Wayne's World', ou como é conhecida nos países lusófonos, 'Quanto Mais Idiota Melhor'.

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Apesar do título nacional dantesco, e que faz diminuir, desde logo, a vontade de assistir ao filme, a película que ajudou a lançar a carreira cinematográfica de Mike Myers – e que é, ainda hoje, o mais bem-sucedido exemplo de uma longa-metragem derivada do popularíssimo 'Saturday Night Live' – é muito melhor do que possa parecer à partida, que inclui alguns momentos de sátira subtil em meio às piadas propositamente básicas em torno dos dois protagonistas, e que consegue a proeza de 'cair no gosto' da mesma demografia que parodia: os fãs de 'rock' e 'heavy metal' clássico.

Muito deste sucesso deve-se às interpretações sem mácula de Myers e Dana Carvey como Wayne e Garth, os dois 'idiotas' do título, cujo programa de televisão amador produzido na sua cave para a rede de TV 'aberta' da sua pequena cidade se vê, subitamente, elevado ao estatuto de fenómeno nacional, depois de um produtor de escrúpulos duvidosos (Rob Reiner) ver nele uma oportunidade de facturar sobre a 'cultura jovem' da época, da qual o programa em causa inclui muitos dos principais elementos. O que se segue são noventa minutos de sátira à estrutura das grandes corporações, referências musicais aos principais artistas 'electrificados' da época (de Peter Frampton a Meat Loaf e Alice Cooper, ambos os quais fazem inesperadas e inusitadas participações especiais) e pelo menos um momento 'memético', em que Wayne, Garth e os restantes membros do seu grupo fazem 'headbanging' ao som de 'Bohemian Rhapsody', dos Queen. Um filme que, apesar de datado nas suas referências e atmosfera, ainda se 'aguenta' surpreendentemente bem três décadas volvidas, e pode render boas gargalhadas a qualquer fã deste tipo de comédia.

A melhor cena do filme, e um dos grandes momentos da Hstória da comédia noventista.

O mesmo, infelizmente, não se pode dizer da sequela. Lançado apenas um ano após o original, como era apanágio das segundas partes da época, 'Quanto Mais Idiota Melhor 2' tem alguns momentos inspirados, mas os mesmos perdem-se numa história algo desconexa, daquelas que mais parece um conjunto de situações 'retalhado' para parecer um todo coeso.

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Desta feita, Wayne e Garth tentam organizar um festival na sua área de residência, mas deparam-se com inúmeras complicações – uma premissa que, tal como aconteceu com o primeiro filme, poderia render alguns bons momentos de sátira à burocracia que tende a rodear a organização de eventos públicos, mas que acaba por ser gasta por entre visitas místico-espirituais a Jim Morrison e Sammy Davis Jr e participações especiais dos Aerosmith que pouco mais são que uma cópia deslavada das cenas de Alice Cooper no original. Tal como naquela obra, também o segundo filme tem o seu 'momento memético' – derivado de uma história contada, a dado ponto, por um suposto ex-'roadie' de Ozzy Osbourne – e algumas passagens inspiradas (além de uma Kim Basinger lindíssima como interesse romântico em moldes 'MILF' para Garth) mas o produto em geral fica muito abaixo do seu antecessor, sendo mais uma das muitas sequelas 'apressadas' criadas apenas para prolongar o sucesso da franquia, sem grandes considerações artísticas ou qualitativas – mas que, ainda assim, consegue ser melhor do que a esmagadora maioria dos produtos semelhantes feitos em décadas subsequentes.

No geral, aliás, qualquer dos dois filmes de Wayne e Garth continua a constituir uma excelente aposta para quem não queira mais da sua Sessão de Sexta do que dar umas boas gargalhadas nostálgicas – uma proeza admirável em tratando-se de filmes produidos numa era sócio-cultural tão diferente da actual como o foram os primeiros anos da década de 90...

31.10.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Apesar de não ter tido tanta evolução ou expressão ao longo dos anos como o pop-rock, o hip-hop ou o rock alternativo, o metal não deixou, ao longo das décadas, de ter os seus próprios heróis em solo nacional, dos pioneiros Xeque-Mate a bandas como Ramp, Filii Nigrantium Infernalium, ou outras mais recentes como Painstruck ou Shadowsphere. No entanto, sempre que se fala deste estilo musical no contexto lusitano, surge inevitavelmente um nome que, a pulso, se conseguiu erguer acima de todos estes, afirmando-se hoje como a principal referência do metal português e que teve precisamente nos anos 90 a sua década de afirmação: os históricos Moonspell. E que melhor altura para recordar o legado daqueles que continuam a ser os embaixadores do metal nacional do que neste início da estação com dias mais curtos, 'cinzentos', e convidativos aos ambientes melancólicos por ele propostos?

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A primeira formação do grupo, como sexteto.

Formados em 1992 na zona da Brandoa, nos arredores de Lisboa, os Moonspell optariam, inicialmente, por um estilo mais extremo de metal, com tempos rápidos e vozes ora ríspidas, ora urradas, da responsabilidade do carismático Fernando Ribeiro. Este tipo de sonoridade ficaria oficialmente registado no EP de estreia do sexteto ('Under the Moonspell', de 1994) e nos seus dois primeiros discos, 'Wolfheart' e 'Irreligious' (de 1995 e 1996, respectivamente) mas não tardaria muito até os músicos que compunham o grupo começarem a dar largas à sua vertente mais experimental: 'Sin/Pecado' (de 1998), o disco da afirmação, trazia já alguns elementos electrónicos e passagens mais limpas (como na faixa 'Alma Mater', um 'hino' patriótico que, estivesse o grupo a lançar-se hoje, talvez fosse mal compreendido), e o sucessor 'The Butterfly Effect', do ano seguinte, era já um disco de rock-metal gótico-industrial, a 'milhas' de distância do metal extremo com toques 'folk' que caracterizara os primeiros álbuns da banda.

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O disco de afirmação do grupo, lançado em 1998.

Apesar de pouco consensual entre os fãs – que atribuíram a Ribeiro e companhia o sempre temido rótulo de 'vendidos' – esta sonoridade viria mesmo a marcar a transição do grupo para o novo milénio, que veria o grupo 'explodir' também em terras estrangeiras, e Fernando Ribeiro tornar-se um dos 'decanos' do metal português, no mesmo patamar de um António Freitas. Os dois álbuns seguintes do grupo exacerbavam as tendências góticas do seu som, com cada vez menor presença de vozes agrestes e cada vez maior proporção do tipo de passagens orquestrais, acústicas ou simplesmente melódicas que sempre haviam marcado o metal dos lisboetas. Só com 'Memorial', de 2005, é que a agressividade de outros tempos se voltaria a fazer sentir no som do grupo, que a misturaria às ainda presentes tendências góticas para fazer aquilo a que se convencionou chamar 'dark metal' – um som obscuro, pesado e melancólico, sem no entanto transpôr a linha de demarcação entre metal melódico e extremo.

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A formação mais recente do grupo.

Os álbuns seguintes continuariam a explorar esta vertente, mas sempre sem esquecer a veia gótica, tendo 'Alpha Noir/Omega White', de 2012, sido o primeiro a tornar efectiva a demarcação estilística, com cada um dos discos que o compunham a representar uma das duas vertentes do som do grupo. Um conceito ousado, e que abriria portas à experimentação de '1755', um álbum conceptual sobre o terramoto de Lisboa, com letras em português, lançado em 2017. E se o álbum seguinte – o mais recente do sexteto até agora – voltava a ser 'apenas' mais um álbum de metal, a verdade é que o mesmo dava, também, novo 'abanão' no som do grupo, com algumas tendências progressivas e até mais 'roqueiras' a surgirem no 'caldeirão' de elementos que é o som de Moonspell – um grupo que, pela referida amostra lançada o ano passado, se recusa a abraçar o seu estatuto como entidade veterana do movimento no nosso país, preferindo continuar a experimentar, inovar e correr o tipo de risco calculado que lhe permitiu, há já quase um quarto de século, iniciar o seu percurso rumo a uma fama e fortuna que escapava, e continua a escapar, a tantos outros colectivos do género, em Portugal e não só...

 

22.09.22

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

Há algumas edições atrás, falámos nesta rubrica da revista Riff, tendo à data erroneamente insinuado tratar-se da primeira revista nacional dedicada ao som de peso, vulgo metal; nas próximas linhas, iremos desfazer esse equívoco, e falar da revista que merece, verdadeiramente, essa distinção, e que foi a verdadeira pioneira das publicações especializadas sobre rock pesado em solo nacional – a Rock Power.

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Capa do número 1 da revista. (Crédito da foto: Rock no Sótão)

'Braço' nacional de uma publicação de âmbito internacional, publicada em oito países (a edição lusa mantinha, aliás, o 'slogan' em inglês), a Rock Power portuguesa 'rebentava' nas bancas em Junho de 1991, tendo como editor o antigo colaborador inglês da Música e Som, Ray Bonici, e como redactores a equipa por detrás do também imensamente popular programa 'Lança-Chamas', liderada pelo inevitável António Freitas - talvez o principal dinamizador do 'som de peso' na imprensa portuguesa, e que viria também a colaborar nas duas outras revistas nacionais sobre este tópico, a Riff e a ainda mais famosa e bem-sucedida Loud! Quanto à Rock Power, a sua função e dos seus colaboradores passava, primeiramente, apenas por traduzir e adaptar os textos da edição inglesa (a qual, aliás, servia também de base à edição espanhola, em tudo idêntica à portuguesa), num molde semelhante aos de revistas 'multinacionais' como a Mega Force, Super Power ou Revista Oficial Playstation; com o passar dos números, no entanto – e à medida que a revista se estabelecia – os mesmos principiaram também a criar, de raiz, tópicos especificamente ligados à cena rock e 'heavy metal' lusa, dando à publicação uma personalidade mais vincadamente portuguesa, à semelhança do que, lá por fora, iam fazendo congéneres como a Kerrang! e Metal Hammer espanholas.

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Outro número da revista, no caso, o Nº8 (Crédito da foto: Divulgando Banda Desenhada)

Além das habituais notícias, entrevistas, biografias e críticas aos mais recentes lançamentos, a revista destacava-se, ainda, por incluir banda desenhada, nomeadamente a famosa série 'Judge Dredd', originalmente publicada na compilação de culto inglesa '2000 AD'; apenas mais uma razão para os 'metaleiros' nacionais, até então totalmente privados de conteúdos editoriais oficiais relativos à sua 'cena', desembolsarem mensalmente os 350 escudos que a revista custava - muita 'massa' em dinheiro de 1991, talvez, mas – como as linhas anteriores terão, espera-se, demonstrado – um 'sacrifício' mais do que justificado para quem, até então, tivera de recorrer a 'fanzines' amadoras para se manter a par do que se ia passando no seu panorama musical de eleição.

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Uma página de Judge Dredd, tal como apareceu no número 8 da revista. (Crédito da foto: Divulgando Banda Desenhada)

Quanto à revista em si, e apesar de não ter tido um ciclo de vida particularmente longo, nada lhe tira a distinção de ter desbravado um caminho sem o qual as posteriores 'versões melhoradas' da fórmula não poderiam ter existido – facto que, só por si, já torna merecido que se levantem um par de 'chifres' e uma imperial bem geladinha em sua homenagem.

03.06.22

Nota: Este post é respeitante a Quinta-feira, 2 de Junho de 2022.

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

A par de países como o Brasil, a Alemanha ou a Finlândia, Portugal é um dos países onde o movimento 'hard rock' e 'heavy metal' continua a ser mais popular. Apesar da pouca quantidade de bandas de expressão verdadeiramente internacional saídas das suas fronteiras (a lista resume-se a Moonspell, e pouco mais) e da falta de infra-estruturas para concertos e gravações (problema recorrente há mais de quatro décadas) o nosso País continua a apresentar uma considerável densidade populacional de 'metaleiros', 'rockers' e 'punks', prontos a consumir todas as novidades do estilo.

Assim, não é de estranhar que, na era pré-Internet 2.0, tenham surgido em território nacional não uma, mas duas revistas especificamente dedicadas a divulgar essas mesmas novidades, fossem elas novos lançamentos, concertos, notícias sobre os mais populares artistas do estilo, entrevistas, ou até classificados para procura de músicos ou anúncios de lançamento de maquetes. Das duas, foi a mítica revista Loud! que acabou por singrar, tornando-se A referência do género em Portugal (referência essa, aliás, ainda hoje existente, embora apenas em formato online) e acumulando bem mais de uma centena de números, sempre num padrão de qualidade elevadíssimo; no entanto, é a sua antecessora que adquire maior importância histórica, por ter sido pioneira no que toca a publicações sobre o tema, acabando por desbravar caminho para o sucesso da revista lançada nos primeiros meses do novo milénio.

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Capa e grafismo do primeiro número da revista (crédito das imagens: blog Rock no Sótão)

Falamos da revista Riff, surgida nas bancas sensivelmente um ano antes da Loud! (em Janeiro de 2000) e que tinha como principal impulsionador António Freitas, nome maior do jornalismo 'metálico' nacional, tendo sido, entre outros, colaborador de música do programa Curto Circuito, apresentador de programas de rock pesado na Antena 3 e Rádio Comercial, e membro da redacção da referência Blitz, bem como da referida Loud!. A Riff representava uma tentativa de colocar o seu estilo de eleição também nas bancas portuguesas, desiderato esse que, no entanto, apenas seria aperfeiçoado com a sucessora desta publicação, deixando este primeiro esforço algo a desejar; entre 'gralhas', gramática duvidosa e um grafismo mais a dar para 'fanzine' do que publicação oficial, a Riff só se destacava mesmo pelo CD que oferecia com cada edição, no qual se incluíam temas dos mais recentes trabalhos de muitos dos artistas mencionados ou abordados em cada edição.

Ainda assim, num panorama isento de quaisquer outras opções, a Riff representava uma forma – ainda que algo amadora - de os 'metaleiros' de Norte a Sul do País poderem ir sabendo o que se passava dentro do seu género de eleição; no entanto, o surgimento da Loud!, apenas um ano depois, veio tornar mesmo esse objectivo obsoleto, visto oferecer uma alternativa de muito melhor qualidade, que não deixava qualquer motivo para continuar a apoiar a revista mais 'fraquinha'.

Assim, não foi minimamente de estranhar que a longevidade da Riff nas bancas após o aparecimento da sucessora tenha sido extremamente reduzido, e que, nos dias que correm (e ao contrário da referida sucessora) a mesma esteja praticamente Esquecida Pela Net, e seja descrita pelo próprio Freitas como 'não tendo corrido muito bem'; há, no entanto, que atribuir crédito à publicação pelo trabalho 'de sapa' e de desbravamento de caminho que realizou em prol do jornalismo musical 'pesado' em Portugal, dando aos milhares de 'metaleiros' do País uma primeira representação dentro da imprensa escrita portuguesa, e ajudando-os, assim, a sentirem-se menos ostracizados dentro da cena musical nacional como um todo.

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