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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

22.01.24

NOTA: Este post é respeitante a Domingo, 21 de Janeiro de 2023.

Ser criança é gostar de se divertir, e por isso, em Domingos alternados, o Anos 90 relembra algumas das diversões que não cabem em qualquer outra rubrica deste blog.

As batalhas e conflitos, e a estratégia militar inerente aos mesmos, exercem desde sempre um fascínio particular sobre grande parte da juventude, não só portuguesa, como de todas as partes do Mundo, sendo rara a criança que nunca se 'perdeu' numa ilustração bélica ou tentou armar exércitos com os seus bonecos, ou até com os soldadinhos verdes do balde. Assim, não é de todo de estranhar que tenha sido feita uma tentativa de transformar este conceito num jogo de tabuleiro, nem que o mesmo tenha, nas décadas subsequentes, gozado de considerável sucesso entre o público-alvo.

Falamos, claro está, de 'Risco', o jogo de estratégia militar da Parker Brothers que, desde finais da década de 50, tem apelado à natureza mais ambiciosa e calculista da juventude mundial, propondo-lhe a literal conquista do Mundo – ainda que apenas num tabuleiro de jogo. Nos anos 90, o jogo vivia, talvez, o auge da sua relevância no seio da cultura popular, chegando a ser mostrado na icónica série de comédia 'Seinfeld' (a qual terá também, a dado ponto, o seu 'lugar ao Sol' nestas páginas); como tal, era com naturalidade que o mesmo surgia, com frequência, nas prateleiras de jogos dos jovens portugueses (e não só) durante esse mesmo período.

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A caixa do jogo, tal como surgiu em Portugal nos anos 90.

E embora as minúcias da estratégia militar e diplomacia possam, à primeira vista, parecer um tema algo árido e desinteressante para um público infanto-juvenil, 'Risco' possuía um 'gancho' quase irresistível para qualquer membro da demografia – nomeadamente, a utilização de miniaturas simbolizando soldados e outros elementos bélicos (semelhantes, em conceito, às casas e hotéis do Monopólio), que permitiam criar um campo de batalha tridimensional, e verdadeiramente 'viver' os conflitos e outras movimentações das tropas ao redor do mapa-múndi tornado tabuleiro de jogo. A utilização de cartas (novamente à semelhança do Monopólio) ajudava também a dar um carácter de imprevisibilidade ao jogo, impedindo que o mesmo caísse na monotonia e perdesse o interesse, não só para o público mais jovem, mas para os jogadores em geral.

Foram estas características, a par da supramencionada exploração do lado menos 'simpático' da psique humana, que garantiram, e continuam a garantir, a 'Risco' uma posição destacada entre os jogos de tabuleiro mais 'clássicos'; afinal, tanto nos anos 90 como nos dias de hoje, dificilmente haverá quem renegue a perspectiva de conquistar e dominar grande parte do Mundo conhecido...

 

04.09.23

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Numa altura em que Lisboa (e Portugal como um todo) se encontra, ainda, na ressaca da actuação dos Blur no festival MEO Kalorama 2023, a parcela de espectadores desse concerto acima dos trinta e cinco anos estará, provavelmente, a recordar a época em que, pela primeira vez, se ouvia falar desta banda, juntamente com uma outra, supostamente arqui-rival, de seu nome Oasis. Corria o ano de 1995, eclodia no Reino Unido um movimento conhecido como 'Britpop', e as equipas de 'marketing' de ambos os grupos – com uma ajudinha da sempre hiperbólica comunicação social especializada – engendravam um plano infalível para introduzir dois dos principais grupos do movimento às audiências internacionais; nascia, assim, a 'guerra' Blur-Oasis, que ainda chegaria a dividir muitas opiniões durante aquele ano e o seguinte.

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A narrativa desta suposta batalha era muito simples: os Blur, criadores de 'malhas' orelhudas e abertamente radiofónicas, e liderados pelo excêntrico Damon Albarn, eram posicionados como os 'meninos-bonitos' levemente irreverentes, enquanto os Oasis (co-liderados pelos voláteis, desbocados e 'gadelhudos' irmãos Gallagher) eram os 'roqueiros' 'feios, porcos e maus', sempre prontos a disparar mais uma asneira na direcção de um jornalista em dias de pior humor. Uma espécie de repetição da suposta rivalidade entre os Beatles e os Rolling Stones, embora agora, curiosamente, com os papéis invertidos, já que a banda abertamente inspirada por Lennon e McCartney era colocada no papel de 'vilã'.

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Capa do 'NME' da época que 'atiçava' a 'fogueira'.

A razão para esta estratégia era simples: ambos os grupos promoviam excelentes duologias musicais, com os Blur a atingirem a fama com a 'dose dupla' de 'Parklife' (de 1994) e 'The Great Escape' (do ano seguinte), enquanto os Oasis respondiam com 'Definitely Maybe' (também de 1994) e o mega-sucesso '(What's the Story) Morning Glory' (de 1996). E apesar de os dois grupos nem sequer se aproximarem por aí além sonicamente – os Blur tocavam pop-rock com sopros, enquanto os Oasis faziam um rock alternativo movido a guitarradas – os 'singles' que ambos lançavam precisamente no mesmo dia 14 de Agosto de 1995 ('Country House' e 'Roll With It') foram, imediatamente, posicionados numa espécie de 'duelo dos tops', que acabou por ser apenas mais uma 'acha' para uma 'fogueira' já 'ateada' em pleno; durante um par de Verões, simplesmente não foi possível a qualquer fã de música 'mainstream' com guitarras ficar indiferente a esta suposta rivalidade, com a maioria dos jovens (portugueses e não só) a escolherem e defenderem acirradamente um ou outro dos dois grupos (por aqui, éramos da 'equipa Oasis').

Escusado será dizer que, como todas as estratégias de marketing, também esta acabou, eventualmente, por perder a eficácia, e quando os dois grupos voltaram a lançar álbuns, em 1997, já ninguém alimentava o suposto duelo entre ambos; cada um tinha a sua base de fãs e, embora as duas ainda pouco ou nada se interceptassem, a 'coisa' não passava muito daí. Ainda assim, para quem viveu aqueles anos de 1995 e 1996 como fã de música electrificada – e recordou a sua juventude frente ao palco do Kalorama – esta 'guerra' terá sido, pelo menos, tão vital quanto os eternos duelos entre Sega e Nintendo, ou entre a Pepsi e a Coca-Cola. A questão que se põe é, portanto, se cada um terá mantido o seu 'alinhamento' até aos dias de hoje, ou eventualmente 'desertado' para o 'outro lado'...

 

Quem ganha? Tirem as vossas próprias conclusões.

01.03.23

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

E numa altura em que se assinala (infelizmente) um ano sobre o início da guerra na Ucrânia, faz sentido relembrar outro conflito que marcou os anos noventa, e cujo término se deu há quase exactamente trinta e dois anos. Falamos da Guerra do Golfo, o segundo conflito a envolver o Iraque no espaço de poucos anos, depois da escaramuça com o Irão que devassara o país durante a maior parte da década anterior. Esta segunda ofensiva tinha, no entanto, um adversário diferente (o outro país vizinho do Iraque, o Kuwait) e acabou por se revelar bem mais curta, durando, no total, pouco mais de seis meses – tempo ainda assim suficiente para deixar o conflito marcado na memória colectiva das três gerações que a viveram directamente, mesmo da que era demasiado nova para ter a percepção exacta do que se passava naquela terra distante.

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Montagem de momentos da guerra.

Iniciada a 2 de Agosto de 1990 – data em que o Iraque invadiu e conquistou o Kuwait – esta ofensiva teria, de imediato, a intervenção da ONU, que impôs as habituais sanções económicas ao país governado por Saddam Hussein, ao mesmo tempo que o Reino Unido e os EUA enviavam tropas para o Médio Oriente a fim de auxiliar o exército kuwaitiano. E apesar de a esmagadora maioria dos soldados que formaram a chamada 'coalisão' terem mesmo sido norte-americanos, mais de trinta países seguiram o exemplo de George Bush pai, destacando-se de entre estes a França, a Arábia Saudita (também grande financiadora das tropas 'aliadas'), o Egipto e, sim, também Portugal. O financiamento do próprio governo kuwaitiano, bem como do Saudita, permitiu ainda a aquisição de novas tecnologias que viriam a alterar o rumo do conflito, como aviões 'camuflados', bombas inteligentes, e outras armas até então exclusivamente do domínio dos videojogos de ficção científica futurista.

Estes revolucionários recursos, bem como a estrondosa mobilização de homens para a frente de combate, permitiram à 'Coalisão' obter uma vitória rápida e avassaladora sobre as forças de Saddam Hussein, tendo o conflito em si durado apenas cinco semanas - entre 17 de Janeiro e 24 de Fevereiro de 1991 - com apenas um total de cem horas de ofensiva terrestre, tendo a restante guerra sido travada sobretudo pelo ar. Nem mesmo a tentativa de envolver Israel – jogando com as tensões entre aquele país e a maioria das nações que constituía a força aliada – conseguiu evitar a derrota do exército Iraquiano, tendo os objectivos militares da 'coalisão' sido declarados como atingidos no último dia de Fevereiro daquele ano – há quase exactamente trinta e dois anos atrás.

Apesar de curta, no entanto, esta guerra foi alvo de extensa cobertura mediática (como, aliás, sempre acontece neste tipo de situações) e grande parte dos portugueses hoje na casa dos trinta e muitos a cinquenta e poucos anos terão, certamente, memórias mais ou menos difusas de verem na televisão, durante o Telejornal, cenas e reportagens sobre o conflito, narradas pelo icónico Artur Albarran, o que torna quase obrigatório este pequeno resumo do mesmo por alturas do 'aniversário' do seu término.

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Artur Albarran, o jornalista que ficaria associado à Guerra do Golfo na mente dos portugueses.

Infelizmente, as guerras que se seguiriam não teriam, nem de longe, um desfecho tão célere nem um final tão 'feliz' – mas isso já são outras histórias; por agora, fica a recordação de um dos primeiros conflitos de que a geração de finais dos 70 e inícios dos 80 terá memória.

08.03.22

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Há pouco menos de um mês, nesta mesma data, celebrámos uma efeméride – o aniversário do Vitinho – enquanto deixávamos passar em claro outra, bem mais trágica – a morte de Artur Albarran. Agora, e porque mais vale tarde do que nunca, trataremos de rectificar esse erro, e prestar homenagem a um dos mais carismáticos jornalistas portugueses da sua geração.

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Nascido em Moçambique logo nas primeiras semanas do ano de 1953, Artur Manuel de Oliveira Rodrigues Albarran 'nasceu' para a comunicação aos 18 anos - altura em que se mudou para Portugal - como integrante de uma equipa do Rádio Clube Português que incluía múltiplas futuras lendas do ramo, de Cândido Mota a Júlio Isidro (ambos futuros apresentadores de programas de que, paulatinamente, aqui falaremos). No entanto, mais do que como profissional de comunicação, o jovem Albarran era conhecido como activista de extrema-esquerda, afiliação que fazia questão de arvorar em directo, e que lhe valeu vários dissabores com a lei, a culminar na sua fuga para França, a 20 de Julho de 1978, evitando assim a prisão como resultado de uma acção policial que atingiu a maioria dos dirigentes e operacionais do seu partido, o PRP (Partido Revolucionário do Proletariado.) Apesar deste facto, Albarran não deixaria de ser julgado pelo assalto a um banco em Soure, crime do qual seria posteriormente absolvido, juntamente com os restantes visados pela rusga, quatro anos depois.

Por esta altura, já o português nascido em Moçambique vivera uma realidade completamente diferente, enquanto colaborador das britânicas BBC e ITV. Como repórter desta última, visita os Estados Unidos e o Brasil, antes de a vida o trazer de volta para Portugal, desta vez para integrar a equipa da RTP.

É na qualidade de colaborador do icónico programa 'Grande Reportagem' da estação estatal que Albarran surge na consciência popular de toda uma nova geração de portugueses, que se habituam a vê-lo associado a más notícias, nomeadamente respeitantes a conflitos, sejam eles a Guerra do Golfo em 1991 ou o conflito na Somália, no ano seguinte. Para além das funções de enviado especial que desempenhou em ambas estas situações, no entanto, Albarran é também, por esta altura, chefe de redacção da RTP, bem como do jornal 'O Século Ilustrado', que integrara em 1988. Esta situação mantém-se até 1993, quando o aparecimento de uma concorrente privada à RTP alicia Albarran, que aceita o convite da TVI para se tornar seu pivô,

O verdadeiro momento definidor do apresentador na mente de toda uma geração de crianças e jovens não se dá, no entanto, até 1996, quando o jornalista volta a trocar de estação, viajando de Queluz para Carnaxide para dar a cara (e emprestar a sua inconfundível voz) a uma série de programas, com início em 'A Cadeira do Poder', de 1997, e fim já no novo milénio, com o inenarrável 'Acorrentados'.

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O 'Acorrentados' acabaria por ser o último programa de Albarran enquanto apresentador

Pelo meio ficou aquele que terá sido, de todos os programas por si apresentados, aquele que mais cimentou Albarran na cultura popular; 'Imagens Reais', uma emissão que misturava informação e entretenimento e que fica na História da televisão portuguesa por ter dado origem ao famoso bordão 'o drama, a tragédia, o horror' – o qual, mais tarde, se tornaria peça fulcral de um dos mais famosos 'bonecos' de um Herman José a atravessar uma segunda fase imperial.

Ao mesmo tempo que deixava esta marca na televisão portuguesa, Albarran tornava-se também presidente do Conselho de Administração da EuroAmer, uma 'holding' imobiliária pertencente a um grupo de políticos e empresários norte-americanos, entre os quais se contava Frank Corlucci, ex-director da CIA e embaixador americano em Portugal. O seu envolvimento com este novo ramo, e as exigências do mesmo, obrigaram ao seu afastamento gradual da actividade televisiva, acabando 'Acorrentados' por ser, mesmo, a sua última aparição nos ecrãs nacionais. O seu legado, no entanto, é inegável e indelével, tanto pelo seu contributo para a informação jornalística e noticiosa em Portugal durante a primeira metade dos anos 90, como por aquele bordão que qualquer 'puto' repetia, naquela entoação característica, nos pátios de recreio daquela época. Que descanse em paz.

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