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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

24.11.22

NOTA: As imagens neste post foram cedidas em exclusivo ao Anos 90 pelo Sr. Joel Pereira, a partir da sua colecção pessoal. Ao mesmo, os nossos sinceros agradecimentos.

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

Enquanto principal competição futebolística ao nível das Selecções, não é de estranhar que cada novo Campeonato do Mundo desperte, durante as duas semanas em que se desenrola, o interesse dos periódicos desportivos um pouco por todo o Mundo, não sendo Portugal, de todo, excepção neste campo. No entanto, enquanto a maioria das publicações se contenta em fazer algumas capas alusivas ao certame, outros há que vão mais longe, dedicando suplementos inteiros à análise da competição em curso. O lendário jornal desportivo português 'A Bola' insere-se nesta última categoria, tendo dedicado, ao longo dos anos, vários números especiais da sua revista-suplemento a diferentes Mundiais – incluindo, em 1994, ao dos Estados Unidos.

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A capa do suplemento (crédito: Joel Pereira/OLX)

Esta revista, simplesmente designada pelo mesmo nome da competição, e que se encontra hoje quase totalmente Esquecida Pela Net (obrigado, Sr. Joel, pela cooperação no envio de fotos) tinha uma estrutura semelhante à de outros números do Magazine A Bola, reunindo uma série de artigos e secções mais ou menos detalhadas alusivas ao tema em causa; no caso, podemos encontrar entre as suas páginas, entre outros, uma galeria de cartazes alusivos à competição, bem exemplificativos do estilo gráfico adoptado pelos organizadores, e uma relação de atletas com ligação ao Campeonato Português presentes entre as equipas em prova – sempre com a qualidade jornalística que era, e continua a ser, apanágio do jornal em causa. O resultado é um suplemento que, à época, terá certamente feito as delícias dos leitores do periódico – entre os quais não deixavam de se contar uma enorme quantidade de crianças e jovens – da mesma forma que alguns dos seus outros congéneres, como o relativo à Geração de Ouro, lançado alguns anos depois, e de que aqui, paulatinamente, falaremos.

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Algumas das páginas e secções da revista (crédito: Joel Pereira/OLX)

Em suma, com a produção e lançamento desta revista em conjunto com o diário-base, 'A Bola' soube capitalizar sobre um nicho de mercado pouco explorado – é, aliás, de admirar que este seja o único suplemento deste tipo a surgir na senda de um certame como um Mundial de Futebol – sem com isso descurar os seus habituais padrões de qualidade, criando uma publicação com um 'tempo de vida' e interesse forçosamente mais limitado do que outros da mesma série, mas que não deixa, ainda assim, de ser um valioso documento de época para fãs de futebol que desejem reviver (ou, até, conhecer) um dos Mundiais da fase áurea de finais do século XX

22.11.22

A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.

Enquanto competição mais importante do panorama do futebol a nivel internacional (isto é, de selecções por oposição a equipas) não é de admirar que cada nova edição do Mundial de Futebol desperte, forçosamente, uma quota-parte de interesse, que nem mesmo controvérsias como a actualmente vigente em relação ao Qatar conseguem eliminar totalmente. Com isto em mente, ão-pouco é de admirar que, derivado desse mesmo interesse, surjam no mercado, a cada quatro anos, uma verdadeira catadupa de novos produtos licenciados alusivos à competição, normalmente adornados com a respectiva mascote e prontos a servirem como recordação eterna da referida competição – entre os quais se conta, invariavelmente, um jogo de vídeo oficial, permitindo não só recriar a competição e respectivas fases de acesso em casa, como também mudar (ainda que apenas virtualmente) o decurso da mesma, com base na perícia de dedos.

Os Mundiais dos anos 90 não foram, de todo, excepção a esta regra – pelo contrário, por terem decorrido numa época em que os jogos de vídeo gozavam a sua era dourada, todas as três competições daquela década tiveram direito a reprodução electrónica nos principais sistemas da altura, tendo algumas delas, inclusivamente, adquirido o estatuto de clássicos (ainda que menores) entre a oferta de jogos da época.

Foi o caso, por exemplo, de 'World Cup Italia '90', jogo que muitas crianças e jovens portugueses receberam de oferta com a sua Mega Drive – no inescapável e icónico cartucho triplo que incluía, ainda, outros dois clássicos da época, 'Columns' (o concorrente da Sega ao lendário 'Tetris') e o jogo de corridas de motos, 'Hang-On' - mas que surgiu também na Master System, ainda que apenas um ano depois. E a verdade é que é discutível se o jogo da US Gold teria conseguido o estatuto de clássico sem esse 'empurrão', já que se trata de um jogo de futebol bem típico e dentro da média do que era feito na época, com vista isométrica ao estilo dos (verdadeiros) clássicos 'Sensible Soccer' e 'Goal', e música - sim, música! - a mascarar a ausência de som ambiente.

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As capas dos três jogos alusivos à competição de 1990, e um exemplo da jogabilidade da versão para Mega Drive

Em suma, um título divertido, mas que sem a (genial) estratégia de marketing por parte da Sega, talvez nunca se tivesse destacado de entre os titulos de desporto para as consolas da mesma. De referir que este jogo recebeu, ainda, uma versão para os computadores caseiros da época ('Italy 1990', também conhecido como 'World Class Soccer') a qual fica, sem quaisquer surpresas, muito próxima dos supramencionados 'Sensi' e 'Goal' no tocante a gráficos e jogabilidade, sendo, também ele, um jogo bastante típico e mediano para o que o mercado dos PCs oferecia na época.

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Capa do jogo, e exemplo da jogabilidade da versão para Super Nintendo

O mesmo, sem tirar nem pôr, se pode dizer de 'World Cup USA '94', novamente produzido pela US Gold (na sua última aparição antes de entregarem o 'trono' à Electronic Arts) para todos os sistemas da época (incluindo os PCs da era pré-Pentium e placas aceleradoras, que desta vez não teve direito a título exclusivo lançado separadamente) e que, previsivelmente, tem muitas semelhanças com o seu antecessor, nomeadamente a vista a partir de cima. É claro que os aspectos técnicos surgiam muito mais cuidados, reflectindo os consideráveis avanços tecnológicos almejados apenas naqueles quatro anos, mas de resto, não há muito a dizer, sendo este – de longe – o menos memorável dos títulos oficiais lançados durante a década em análise.

Felizmente, a mudança de 'governo' revelar-se-ia mais bem sucedida do que alguém alguma vez poderia imaginar, ao ponto de, chegada a altura de lançar mais um título alusivo a um Mundial de Futebol, a nova 'chefe' ter já conseguido instaurar uma franquia tão bem sucedida que lhe permitia lançar jogos praticamente em piloto automático (algo que, aliás, sucede até aos dias de hoje) e atingir, ainda assim, padrões de qualidade consideravelmente elevados.

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Capa e jogabilidade do título de 98

É o caso de 'World Cup '98', uma mera versão reduzida e simplificada do absolutamente clássico 'FIFA '98: Road to the World Cup' - com vários modos de jogo a menos, e um acervo de equipas forçosamente limitado às participantes no certame em causa, mais duas mãos-cheias de 'repescados', entre eles uma equipa de Portugal da fase áurea da Geração de Ouro – mas que não deixou, ainda assim, de ser um sucesso de vendas, muito por conta da reputação de que a série principal já começava a gozar. Como seria de esperar, os avanços técnicos em relação ao jogo de 1994 são consideráveis (ou não se tivesse, entretanto, entrado na era dos jogos em 3D, com ambiente realista e comentários quase em tempo real) embora, no cômputo dos jogos da época, e especificamente da série FIFA, o título tenha menos destaque, quer a nível técnico, quer de jogabilidade, limitando o seu público a quem ainda não tinha 'FIFA '98', ou a quem fazia questão de ter absolutamente TODOS os títulos lançados pela editora de referência para jogos de desporto de finais do Segundo Milénio.

Antes de darmos por concluída esta breve revisão dos títulos electrónicos oficiais dos Mundiais dos anos 90, uma nota ainda para alguns jogos que, apesar de não gozarem da licença oficial, faziam ainda assim questão de incluir no nome a chamativa expressão 'World Cup'. É o caso, nomeadamente, de 'Nintendo World Cup', jogo de costela 'arcade' pura e dura lançado para NES em 1990, em que cada equipa apenas tinha cinco jogadores e faltas e foras-de-jogo eram conceitos inexistentes; e que serviu de base ao não menos popular 'Soccer', para Game Boy, bem como para alguns jogos com a licença 'Captain Tsubasa', por terras japonesas.

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O jogo da Nintendo tinha uma forte costela 'arcade'

O outro grande exemplo desta tendência foi a série 'Tecmo World Cup', que chegou a ter títulos lançados em 1990 (o primeiro) e 1998, mas que viu também serem organizadas competições em quase todos os anos intervenientes, tornando as duas datas correctas em meras coincidências. Tal como 'Nintendo World Cup', trata-se de uma série mais divertida que realista, de jogabilidade extremamente simples (nos primeiros jogos, praticamente só é preciso um botão para se ser bem-sucedido) e com mais em comum com 'Super Sidekicks', da Neo Geo, do que com as séries 'FIFA' ou 'International Superstar Soccer', constituindo assim uma excelente proposta para quem gosta do seu futebol virtual 'descompromissado' e mais parecido com uma partida de rua do que com a alta competição.

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Capa e jogabilidade da versão para Master System da edição '93 de 'Tecmo World Cup'.

Em suma, não é difícil de perceber que os Mundiais dos anos 90 – tal como os seus sucessores – serviram de inspiração para uma gama bem variada de títulos, a maioria dos quais sem muito que os distinguisse dos seus congéneres mais 'generalistas', mas qualquer deles certamente instigador de profunda nostalgia em pelo menos um segmento dos leitores deste blog.

20.11.22

NOTA: Dada a natureza temporalmente sensível do post de hoje, trocámos a ordem dos posts de Domingo, sendo que celebraremos o Domingo Divertido na próxima semana.

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.

E numa altura em que tem início mais um Mundial de futebol – o qual, apesar de uns meses adiantado em relação ao 'normal' e envolto em controvérsia, não deixa ainda assim de ser um evento de monta no panorama desportivo mundial – nada melhor do que recordarmos as competições deste calibre que tiveram lugar nos anos 90.

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E a verdade é que os adeptos noventistas não tiveram de esperar muito para ver o primeiro Mundial de Futebol da nova década, o qual teve lugar logo no primeiro Verão da mesma. Tratou-se do Mundial de Itália  '90 (segunda nação 'repetente' no tocante à recepção de eventos deste tipo) hoje em dia melhor lembrado pelo mítico jogo licenciado lançado para a Sega Mega Drive, mas que, visto a mais de três décadas de distância, marcou também uma certa transição entre o futebol da 'velha escola' dos anos 80 e o estilo que marcaria a primeira metade da década seguinte; esse sentimento de 'fim de uma era' é, aliás, hoje em dia exacerbado pela presença da Alemanha Ocidental, vencedora do certame e que, sem o saber, participava no seu último evento desportivo nessa capacidade, vindo a queda do Muro e respectiva unificação vindo a ocorrer meros meses depois, em Outubro de 1990, e das equipas da União Soviética e Checoslováquia, também elas à beira da dissolução como resultado da Guerra Fria, no ano seguinte. Mais a Oeste, o Mundial de '90 foi, também, responsável pelo 'nascimento' dos Camarões para o Mundo do futebol, bem como pela re-emergência do futebol inglês das trevas em que habitara na década de 80, tendo começado a criar as condições para a criação daquele que é, hoje, o maior campeonato de futebol do Mundo (a famosa Premiership) alguns anos mais tarde. Em termos futebolísticos, no entanto, tratou-se de um Mundial pobre, longe das emoções e momentos de antologia criados pelos seus antecessores directos, e que se destaca apenas por ter proporcionado aos adeptos uma das últimas oportunidades de ver craques como Diego Maradona em acção a nível internacional.

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O mesmo não se pode dizer do Mundial de 1994, disputado nos EUA, um país ainda hoje emergente para o futebol, mas certamente entusiástico em relação ao mesmo, e cuja equipa conseguiria uma inesperada qualificação para os oitavos-de-final (na qualidade de 'melhor terceiro'), tendo sido eliminados pelos futuros campeões, o Brasil (ironicamente, no Dia da Independência norte-americano, 4 de Julho.). Agora já com a Alemanha unificada e a Rússia (enquanto país independente) no lote de participantes, este Mundial ficou marcado pela final decidida a 'penalties' – a primeira na História da competição – e pela consagração da segunda 'fase imperial' do Brasil enquanto nação futebolística, com uma equipa extraordinária em que pontificavam nomes como Bebeto, Dunga, Romário e tantos outros bem conhecidos dos adeptos da época. Os 'canarinhos' não eram, no entanto, a única equipa a revelar ao Mundo autênticos craques – a Bulgária, por exemplo, viu despontar nesta competição a 'lenda' Hristo Stoichkov, grande responsável pela sua surpreendente prestação na prova. No cômputo geral, um Mundial de transição, mas bem melhor sucedido do que o seu antecessor.

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Qualquer marca atingida pela prova de '94 seria, no entanto, largamente superada pelo seu sucessor, o lendário Mundial de França '98 – talvez a mais 'presente' e memorável competição internacional da década para a maioria das crianças e jovens da época. Vencida pela anfitriã França - então ainda 'movida' a Zinedine Zidane - frente a um Brasil já sem muitos dos seus nomes do certame anterior, mas que contava na frente de ataque com um certo jovem de cabeça rapada e apelidado de 'Fenómeno', a prova mostrou já um estilo de futebol exacerbadamente moderno, próximo ao praticado hoje em dia, e proporcionou aos adeptos momentos de enorme emoção, como os provocados pelos intensamente emotivos jogos das meias-finais (que viram o Brasil eliminar a entusiasmante Holanda, praticante do segundo melhor futebol do certame, e a França sobrepôr-se à 'surpresa' Croácia) e da própria final, em que a nação anfitriã, 'movida' a Zinedine Zidane, soçobraria perante a 'Canarinha', que se sagraria assim vice campeã mundial.

No cômputo geral, e apesar de a Selecção Nacional portuguesa – então a assistir ao dealbar da Geração de Ouro - ter primado pela ausência de qualquer das três competições, os Mundiais da década de 90 não deixaram (ainda mais que os da anterior, e quase tanto como os da seguinte) de deixar a sua marca entre os jovens adeptos da época, portugueses e não só; pena, pois, que o estilo de futebol nelas praticado se encontre, há muito, extinto em favor de um futebol mais táctico, pausado e pensado. Ainda assim, quem lá esteve (ou antes, quem viu pela televisão) certamente se lembrará das emoções que cada uma destas provas suscitou no seu pequeno coração de adepto, fazendo, sem dúvida, crescer a sua paixão pelo desporto-rei – o que, no fundo, se pode considerar um sucesso no que toca a uma competição deste tipo.

13.11.22

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.

Apesar de grande parte da atenção de um adepto de futebol recair nos jogadores de campo, e sobretudo nos da metade ofensiva do terreno, a importância de uma presença e personalidade consistente e talentosa entre os postes não pode ser descurada – sobretudo se a mesma exibir, também, lealdade, brio profissional e genuína dedicação ao emblema que representa.

Serve esta introdução para falar de um nome que, apesar de nunca ter sido dos mais conhecidos ou recordados pelos adeptos portugueses, exibiu, enquanto jogador, todas essas características, afirmando-se como um verdadeiro e autêntico 'grande dos pequenos', e que celebra precisamente hoje, dia 13 de Novembro, o seu vigésimo-segundo aniversário. Falamos de Paulo Sérgio Rodrigues Firmino, comummente conhecido apenas pelos seus dois primeiros nomes, e que foi figura central do histórico Campomaiorense durante as épocas em que o emblema ribatejano militou na então chamada Primeira Divisão nacional.

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O guarda-redes no Beira-Mar, já em final de carreira.

Nascido no Barreiro, na Margem Sul do Rio Tejo, Paulo Sérgio iniciou a sua carreira sénior, não no emblema local, mas no 'vizinho' Vitória Futebol Clube, onde ingressaria na última época da década de 80, com apenas dezanove anos; a primeira oportunidade de alinhar pelo novo emblema demoraria ainda, no entanto, duas épocas a surgir, tendo o guardião efectuado os primeiros jogos pelos sadinos no decurso da época 1991/92, em que alinharia num total de vinte partidas. A época seguinte traria mais do mesmo (19 partidas, cerca de metade das que um clube das divisões superiores realiza no decurso de uma época) antes de Paulo Sérgio voltar a perder preponderância no histórico emblema setubalense, realizando apenas um total de nove partidas ao longo das duas épocas seguintes.

Sem espaço para jogar, foi com naturalidade que o guarda-redes procurou, logo na época seguinte, novas paragens, encontrando nova 'casa' em Campo Maior; também aqui, no entanto, a afirmação tardaria a chegar, tendo Paulo Sérgio acumulado apenas uma dezena de jogos durante a sua primeira época no novo emblema. Desta vez, no entanto, a situação viria a alterar-se logo na época seguinte, quando o ex-sadino se tornaria escolha principal para a baliza do Campomaiorense, posto de que não mais viria a largar mão durante as restantes seis épocas que passou na histórica agremiação; da época de 1996/97 até à sua saída para o Beira-Mar, em 2002/2003, o número mínimo de partidas que Paulo Sérgio amealharia durante uma época seria de dezasseis (na época 1998/99, em que foi suplente de Poleksic, outro histórico da Primeira Divisão da época) ficando este número, quase sempre, bem acima das duas dezenas nas restantes temporadas. Durante este período, o guardião teve, ainda, o privilégio de partilhar o balneário com nomes como Jimmy Floyd Hasselbaink (um dos mais notáveis 'Grande dos Pequenos'), Beto Severo, Isaías, Paulo Torres, Jordão, Isaías, Rogério Matias (outro jogador cuja carreira justifica a presença nesta secção) e outro verdadeiro histórico dos ribatejanos, o angolano Fernando Sousa.

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O jogador ao serviço do clube que o notabilizou.

Tendo em conta este historial, e a forma como acompanhara o clube durante a sua 'queda' da Primeira Divisão e eventual regresso aos escalões secundários, foi talvez com alguma surpresa que os adeptos viram Paulo Sérgio abandonar o Campomaiorense em favor do Beira-Mar, em 2003 – ainda a tempo de fazer uma época em 'alta' pelos aveirenses, alinhando em vinte e quatro das partidas disputadas nessa época, antes de seguir o percurso natural de um jogador em fase descendente de carreira, assumindo papéis de apoio primeiro no próprio Beira-Mar, (onde alinharia em apenas nove jogos no cômputo geral das duas épocas seguintes), depois no Pinhalnovense (onde ficaria uma temporada sem nunca sair do banco) e finalmente no Olivais e Moscavide, onde viria a terminar a carreira em campo - após apenas dois jogos em outras tantas épocas - antes de rumar ao vizinho Oriental, para assumir o cargo de treinador de guarda-redes. Um desfecho honroso para um nome que, apesar de não figurar entre os 'ilustres' da Primeira Divisão de finais do século XX, não deixa, no entanto, de ter desempenhado papel de relevo em alguns dos principais emblemas 'periféricos' da mesma, fazendo, assim, por merecer o epíteto de 'Grande dos Pequenos' - e esta pequena homenagem na data do seu aniversário. Parabéns, Paulo Sérgio - que conte muitos!

30.10.22

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.

O mercado africano foi, e continua a ser, um dos principais 'filões' de reforços para os clubes de segunda e terceira linha das diferentes divisões nacionais. Nos anos 90, esta tendência não era, de todo, diferente – pelo contrário, os países a Sul do Estreito de Gibraltar forneciam aos emblemas lusitanos jogadores como William AndemFary, Bambo, Serifo ou mesmo Eric Tinkler, entre outros 'históricos' daquela época de quem ainda viremos a falar, como o farense Hassan ou o moçambicano Chiquinho Conde.

A esse rol de nomes há, ainda, que juntar o do futebolista que abordamos neste 'post', um daqueles 'grandes' de um 'pequeno' ao nível dos supramencionados Serifo e Fary, ou ainda de nomes como Camberra, Gama, Martelinho ou Erwin Sánchez. Trata-se de Kabwe Kasongo, lateral congolês que, mesmo sem nunca ter passado por um dos três ou quatro principais emblemas do futebol português, é ainda assim conhecido de qualquer adepto que tenha acompanhado os campeonatos nacionais daquela época.

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O jogador ao serviço do clube pelo qual se notabilizou

Nascido em Kinshasa a 31 de Julho de 1970, Kasongo iniciou a carreira em modestos emblemas do seu país, com destaque para o perfeitamente desconhecido Lubumbashi Sport, por onde teve duas passagens e onde foi 'descoberto' (já com vinte e seis anos, o que o tornou uma revelação algo tardia pelos padrões do desporto-rei) pela 'velha glória' do Vitória de Guimarães, N'Dinga, e convidado a desenvolver uma carreira no continente europeu, especificamente em Portugal.

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O congolês ao serviço do Sporting da Covilhã.

No entanto, as dificuldades em se afirmar no plantel dos vimaraneses levariam o congolês a passar a sua primeira época no estrangeiro, não na Cidade-Berço, mas na Covilhã, onde o congolês foi peça importante do Sporting local durante a época de 1996-97, realizando vinte partidas e – apesar de não ter conseguido evitar a despromoção - dando nas vistas o suficiente para garantir a titularidade nos alvinegros logo na época seguinte, após a transferência do 'concorrente' Quim Berto para o Sporting.

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Kasongo no Guimarães

Durante a época seguinte, no entanto, e apesar de ter sido um dos esteios da defesa menos batida da Primeira Divisão no campeonato transacto, o lateral-esquerdo viu o habitual suplente Tito roubar-lhe a titularidade absoluta, tendo perdido preponderância no seio do plantel vimaranense. Assim, era sem grandes surpresas que, no mercado de Verão seguinte (o último do Segundo Milénio) os adeptos viam o congolês despedir-se do local de nascimento de D. Afonso Henriques para rumar à vizinha Chaves e ingressar no Desportivo local, então ainda nos escalões (muito) inferiores do futebol luso (em sentido contrário seguia o espanhol Carlos Alvarez, por quem o congolês serviria como 'moeda de troca'). Seria, igualmente, sem surpresas que o jogador se viria a tornar um dos 'nomes da casa' para o conjunto flaviense, ao serviço do qual colocou toda a sua experiência de Primeira Divisão, e com quem viria a terminar a carreira, em 2008, após um total de nove épocas (quase sempre com papel preponderante) e quase 230 partidas, ao longo das quais contribuiu com dois golos. Números que tornam o congolês – um daqueles 'tanques' bem típicos das equipas pequenas da época e que, após o término da actividade profissional, se dedicou à carreira de treinador, embora apenas em emblemas sem expressão – um verdadeiro 'grande' do 'pequeno' Chaves, bem como um nome sonante para quem seguia as competições portuguesas daquela era pré-futebol de topo.

16.10.22

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.

Uma das narrativas mais frequentes e típicas do futebol moderno é a do jovem que, após demonstrar talento acima da média durante os seus anos formativos, é incapaz de dar o 'salto' para um nível competitivo mais exigente. De facto, esse percurso verifica-se vezes suficientes para se poder considerar o seu oposto como a excepção, ao invés da regra; por outras palavras, por cada jogador que atinge um patamar superior na sua carreira, há múltiplos (provavelmente seus colegas nas sempre enganadoras selecções jovens) que 'ficam pelo caminho', tendo de se contentar com um percurso honrado nas divisões inferiores, ou – na melhor das hipóteses – em clubes de meio da tabela do escalão principal.

Nos anos 90, a situação não era, de todo, diferente, estando também reunidas as condições para que um jovem que se destacava nas selecções 'Sub' acabasse como 'andarilho' por entre clubes históricos da I e II Divisão portuguesas da época, sem nunca conseguir almejar a mais após a transição para sénior. Foi esse o caso – entre tantos outros – de Luís António Soares Cassamá (vulgo Bambo), ponta-de-lança guineense naturalizado português que, após uns primeiros anos auspiciosos, acabou por embarcar na inevitável trajectória descendente.

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Produto das academias do Boavista, responsáveis pela revelação de nomes como João Vieira Pinto, Nuno Gomes, Ricardo ou Bosingwa, Bambo parecia, inicialmente, capaz de seguir a mesma trajectória do que qualquer destes, tendo sido presença assídua nas Selecções de formação entre os escalões de sub-16 e sub-21 (as então chamadas 'esperanças'); a passagem para sénior, no entanto, viu ter início a habitual 'dança' entre emblemas secundários, com o avançado a almejar apenas onze jogos com a camisola dos axadrezados antes de transitar, primeiro, para a União de Leiria (onde realizou dezassete jogos e marcou um golo durante a época 1994-95) e depois para o Estrela da Amadora, primeira equipa onde verdadeiramente se impôs, jogando vinte e três partidas e conseguindo três golos na época e meia que ali passou.

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O inevitável cromo da Panini do jogador, aqui nos tempos da União de Leiria

O mercado de Inverno de 1996 traria, no entanto, nova mudança, embarcando o guineense em nova aventura, agora no Farense, para apenas seis meses (e outros tantos jogos) depois se mudar para Felgueiras, onde registou a sua melhor fase em termos de golos, com sete em dezoito partidas; estes números valeram-lhe, no final da época 96/97, nova mudança, desta feita para a Madeira, mas a sua incapacidade de se impôr no Nacional insular (conseguindo apenas sete jogos no decurso de uma época) forçaram a nova 'descida de nível', passando o avançado a representar o Esposende. Mais uma época (com vinte partidas e um golo) e mais uma mudança para Bambo, que regressava aos escalões profissionais com a camisola da Naval; no entanto, o ano e meio seguinte apenas 'rendeu' dúzia e meia de partidas, e o dealbar do novo milénio via Bambo 'tropeçar' novamente para os escalões inferiores, como um dos novos membros do plantel do Ribeira Brava.

Uma última tentativa de se impôr via, na época seguinte, o avançado rumar a França, para representar o Grenoble Foot, antes de a falta de sucesso também no estrangeiro o levar a pendurar definitivamente as botas no final da época 2000/01, pondo, com apenas vinte e sete anos, um ponto final numa carreira que nunca conseguiu chegar a cumprir aquilo que parecia prometer nos seus primórdios – narrativa, conforme já referimos, desapontantemente frequente no Mundo do futebol.

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O avançado chegou a alinhar pela equipa de jogadores desempregados do Sindicato da FPF.

Tal como muitas outras que lhe são semelhantes, no entanto, a história de Bambo tem final feliz – terminada a carreira, o jogador foi ao encontro da irmã, em Inglaterra, e acabou por encontrar uma nova vocação como...designer de moda, tendo a sua primeira colecção sido lançada durante a estação Outono/Inverno de 2015. Um desfecho que, longe de ser o idealizado por Bambo vinte anos antes, não deixa no entanto de ser honroso, permitindo-lhe brilhar por mérito próprio, e afastar definitivamente o estigame de ser apenas mais uma 'promessa adiada' do futebol nacional. Que a actual carreira lhe traga o sucesso que o futebol nunca lhe proporcionou, são os votos do Anos 90!

 

02.10.22

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.

Desde que demos início a esta rubrica dedicada a celebrar jogadores cuja carreira se fez longe dos 'três grandes', e como figura maior de clubes mais pequenos, temos mencionado vários nomes que acabam por ficar associados a apenas um ou dois clubes em particular ao longo da sua carreira, mostrando um amor e dedicação à(s) camisola(s) pouco habitual num meio mercenário como é o do futebol. Agora, chega a altura de juntar mais um desses jogadores à lista que já inclui nomes como Serifo, Fary ou Martelinho, e de falar de um dos mais sonantes e influentes futebolistas a passar pelo histórico Rio Ave durante a década de 90.

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O jogador com a camisola com que se tornou sinónimo durante a década de 90

Nascido João Paulo Santiago Albuquerque, em Luanda, Angola, a 02 de Abril de 1974, este jogador viria – como tantos outros - a ficar conhecido nos meandros do futebol nacional por uma alcunha: Camberra. Foi sob esse nome que deu os seus primeiros passos, ainda com idade de juvenil – em outro histórico do futebol nacional, o Atlético CP, corria a época de 1989/90 – e seria por ele que se daria a conhecer nos campeonatos profissionais, duas épocas depois, ao serviço de ainda mais um emblema de enorme tradição, o Gil Vicente. E apesar de essa passagem pelo clube barcelense ter sido tão discreta quanto as anteriores por Atlético e Ovarense, até pela tenra idade do jogador, as suas oito exibições com a camisola dos gilistas foram, ainda assim, suficientes para despertar, o interesse do Rio Ave, que o contrataria no inicio da época 1992/93, quando Camberra contava, ainda, apenas dezoito anos.

Sem que qualquer das partes ainda o soubesse, iniciava-se nesse momento uma daquelas relações de sinergia que, cada vez mais, vão faltando no futebol moderno; no total, Camberra passaria seis épocas e meia no clube vilacondense, sempre como membro preponderante no coração do meio-campo dos alviverdes, cimentando o seu estatuto como um dos Grandes daquele Pequeno que contava, também, com outro nome ainda mais histórico em Vila do Conde que o de Gamboa: Augusto Gama, de quem paulatinamente também aqui falaremos.

Tão-pouco seria esse o último contacto de Camberra com um nome histórico no seio de um clube, já que a sua próxima aventura o levaria a cruzar-se com Serifo, nome maior do Leça, a quem o médio se juntaria na janela de transferências de Inverno da época 1997/98; precisamente um ano depois, e após trinta e duas partidas pelo seu novo clube, o angolano viria a aceitar o desafio de outro clube nortenho das divisões inferiores, no caso o Freamunde, onde passaria meia época, contribuindo com 17 aparições. O novo milénio veria, no entanto, o médio rumar ainda a outras paragens, tendo as últimas duas décadas da sua carreira sido passadas, respectivamente, com o Desportivo das Aves (27 partidas, 1 golo) e Famalicão (25 partidas) antes de o angolano pôr um ponto final na mesma, com apenas 28 anos.

Apesar do seu contributo para todos estes 'históricos' do desporto-rei nacional, no entanto, não restam dúvidas sobre qual o clube com o qual Camberra é mais frequentemente e imediatamente identificado: são mesmo as seis épocas e meia e quase 170 partidas do médio angolano ao serviço do Rio Ave que lhe outorgam o estatuto de verdadeiro Grande dos Pequenos, demonstrando enorme brio profissional e verdadeira dedicação ao clube vilacondense, e justificando a sua presença nesta nossa rubrica, ao lado de outros nomes tão históricos quanto ele próprio.

18.09.22

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.

Quando se fala em 'históricos' do futebol português, o Farense – o simpático emblema algarvio recentemente regressado à 'alta-roda' do desporto-rei nacional – é uma escolha tão natural como os dois Vitórias, o Belenenses (o verdadeiro, e não a recém-criada versão SAD) ou os desaparecidos Salgueiros ou Campomaiorense; em conjunto com estes emblemas, o Sporting sulista perfazia um grupo de equipas que, fosse na então Primeira Divisão ou no escalão directamente abaixo, foram parte integrante e perene dos campeonatos nacionais daquela década.

No caso do Farense (como no do Beira-Mar ou Salgueiros) esse legado ficou ainda mais consolidado após um histórico (e, à época, inédito) apuramento para uma prova europeia, no caso a então chamada Taça UEFA – hoje Liga Europa – obtido na época 1994/95, depois de a turma de Paco Fortes ter terminado o campeonato interno num honroso quinto lugar. E embora, como no caso do Salgueiros, essa passagem pelos grandes palcos europeus fosse fugaz – tendo os farenses sido afastados logo na primeira eliminatória, pelos franceses do Lyon – a mesma não deixa de ser um marco na história do clube algarvio, que, nas quase três décadas subsequentes, não mais conseguiria repetir a façanha.

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A equipa europeia do Farense

Só isso já chegaria para deixar nos anais da História 'Aquela' Equipa do Farense de 1994/95, mas a mesma merece, ainda, menção pelas várias Caras (Des)Conhecidas e 'Grandes' dos Pequenos que apresentava no seu plantel. Senão veja-se: entre os nomes levados à quase-glória europeia por Paco Fortes naquele ano encontravam-se o do guarda-redes internacional nigeriano Peter Rufai, o do futuro reforço do Benfica Jorge Soares, e o dos 'históricos' do clube Miguel Serôdio e Hassan, entre outros. Uma 'turma' capaz de causar nostalgia a qualquer adepto dos campeonatos portugueses de finais do século XX, especialmente os do tempo em que a maioria dos jogos eram disputados em lodaçais e acompanhados através da imagem escura e granulada da RTP, e em que o futebol jogado era invariavelmente feio - aliás, esta mesma equipa do Farense não se furtava ao futebol físico e de contacto. Por isso, tanto como pelo próprio feito alcançado, 'Aquela' Equipa do emblema algarvio merece, em tempo de rescaldo de mais uma jornada de um ano europeu em que a maioria dos clubes portugueses envolvidos vão, por enquanto, surpreendendo, que se recorde a época em que também eles foram 'grandes' europeus...

04.09.22

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.

O avançado africano parco em técnica mas que compensa esse defeito com muita velocidade e boa compleição física é uma das figuras clássicas do futebol, não só português, como mundial; e se mesmo na era do futebol moderno e 'rendilhado' é possível encontrar exemplos deste tipo de futebolista um pouco por todo o Mundo, escusado será dizer que, na época em que o desporto-rei era bem mais físico e 'feio', os mesmos eram presença constante, sobretudo em clubes e ligas mais 'periféricos'. Portugal não constituiu de todo, excepção a esta regra, bastando lembrar nomes tão icónicos dos campeonatos dos anos 90 e 2000 como Chiquinho Conde, Douala, Cafu (um dos exemplos mais 'acabados' deste tipo de futebolista) ou o 'Grande dos Pequenos' que focaremos esta semana, Faye Fary.

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Um dos inevitáveis cromos da Panini referentes ao jogador

Nome tão conhecido de quem acompanhava o futebol português da época como qualquer dos anteriores, o avançado senegalês chegava a Portugal na segunda metade da década de 90, pela mão da modesta União de Montemor, após ter sido 'descoberto' a jogar na desconhecida ASC Diaraf, do seu país natal, e contratado para reforçar o plantel da referida equipa para a época 1996/97. Seguir-se-iam duas auspiciosas épocas de estreia no futebol europeu, com Fary a não acusar a transição para o futebol europeu (algo que continua a afectar um grande número de futebolistas oriundos de outros continentes, mesmo nos dias que correm) e facturando um total de quarenta golos em pouco menos de sessenta jogos – uma marca admirável, mesmo numa divisão inferior.

Foi, portanto, sem surpresas que a pré-época de 1998-99 viu Fary dar o 'salto' profissionalizante, ao ingressar no histórico Beira-Mar, um dos dois clubes 'pequenos' de que se viria a tornar 'Grande'; no total, foram cinco épocas equipado de aurinegro, durante as quais participou em 165 jogos e marcou 63 golos (tendo-se mesmo afirmado como Bola de Prata da I Liga na temporada 2002-2003), venceu uma Taça de Portugal (logo na sua época de estreia), visitou palcos europeus, e se assumiu como parte importante da equipa principal dos aveirenses, com os quais empreendeu uma viagem de 'ida e volta' entre a I Divisão Nacional e a então chamada II Divisão de Honra.

Os 18 golos do jogador valeram-lhe a Bola de Prata em 2002/2003

Foi já no novo milénio, no entanto, que Fary deu o passo que o tornaria nome de charneira nos campeonatos portugueses, e cimentaria o seu estatuto como 'Grande dos Pequenos' – a transferência para o Boavista, clube onde se viria a tornar símbolo, não obstante a alarmante falta de golos (apenas dezassete em cinco épocas e cem jogos pelo emblema axadrezado), constituindo uma das principais constantes na verdadeira 'montanha russa' que foram os anos após a conquista do campeonato nacional pelos axadrezados, que seriam relegados à II Divisão B umas meras três épocas após o histórico feito.

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O senegalês com a camisola do segundo clube de que se viria a tornar ídolo

Os anos seguintes veriam o avançado senegalês reforçar ainda mais o seu lugar no coração dos adeptos dos dois emblemas nortenhos, primeiro com um regresso ao Beira-Mar, por duas épocas (embora, desta vez, como peça bastante secundário, tendo amealhado umas parcas trinta exibições e quatro golos ao longo desse período) e, mais tarde, com novo ingresso no Boavista, onde viria a fazer as últimas quatro épocas da sua carreira profissional, cimentando o seu estatuto como representante da 'mística' boavisteira no balneário, e recuperando mesmo a sua veia goleadora, com uns honrosos 31 golos apontados em 79 aparições (incluindo 15 em uma época, que lhe valiam o título de melhor marcador da II Divisão B em 2012/2013), o seu melhor registo pessoal desde a viragem do milénio. Pelo meio, ficava uma passagem apagada pelo Desportivo das Aves de 2010-2011, onde nunca 'contou para o Totobola', e que o impede de conquistar a marca bonita de ter representado apenas dois clubes nas suas quinze épocas de carreira no século XXI.

Apesar dos percalços e passos em falso, no entanto, a carreira de Faye Fary não deixa de ser um exemplo perfeito de brio profissional e dedicação a (neste caso) dois emblemas, características que compensavam algumas deficiências técnicas que (presumivelmente) terão sido o único obstáculo a que o senegalês ingressasse num dos 'três grandes' portugueses; ainda assim, aquando da sua reforma - aos quarenta (!!) anos – o jogador podia orgulhar-se de ter sido ídolo de mais do que uma agremiação histórica do futebol português, e de ter verdadeiramente adquirido o estatuto de 'Grande dos Pequenos'. E pensar que tudo começou nas divisões amadoras de meados dos anos 90...

O tributo de um adepto boavisteiros ao jogador, aquando do fim da sua carreira, mostra bem o estatuto de que Fary gozava no seio dos axadrezados

22.08.22

NOTA: Este post é respeitante a Domingo, 21 de Agosto de 2022.

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidades do desporto da década.

Apesar de o mundo do futebol ser dos que mais exalta os seus 'craques', nem todos os jogadores mais memoráveis da História do desporto-rei foram, necessariamente, sobredotados ou prodígios de talento; muitos deles destacaram-se por outras qualidades, como a raça, a entrega, a dedicação a um determinado clube, a aparência bizarra ou original, ou simplesmente a longevidade no seio de uma determinada liga. O homem de quem vamos, nas próximas linhas, traçar um esboço de carreira faz, precisamente, parte deste segundo lote - apesar de ter chegado a ser internacional portuguêm em plena era da Geração de Ouro e a jogar no Real Madrid, dificilmente será recordado como um portento técnico; quaisquer memórias positivas a ele associadas terão, precisamente, a ver com os factores acima elencados, em particular a sua dedicação a um clube específico do campeonato português.

Falamos de Carlos Secretário, eterno defesa-direito do FC Porto da fase hegemónica, e que dedicou ao emblema nortenho nove das suas quinze épocas como profissional de futebol - mais de metade do total da sua carreira - apenas entrecortadas por uma passagem algo 'desastrada' pelo referido Real Madrid, por quem não conseguiu almejar mais do que treze jogos antes de voltar à 'casa de partida', para mais seis épocas. Conforme é apanágio desta secção, no entanto, não é nessas épocas ao mais alto nível que nos focaremos; pelo contrário, neste post, contaremos a história futebolística de Secretário enquanto foi uma Cara (Des)conhecida do panorama desportivo português.

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O defesa ao serviço da Selecção das Quinas, em 1999

Nascido em S. João da Madeira a 12 de Maio de 1970, foi, com naturalidade, no clube local que o jovem Secretário iniciou a sua formação futebolística, já relativamente tarde, aos 14 anos; os quatro anos que mediariam até à sua estreia como sénior veriam, ainda, o lateral passar pelas academias de Sporting e Porto, iniciando-se aí, aos dezassete anos, a relação do atleta com a agremiação azul e branca. A estreia como profissional, no entanto, dar-se-ia não no seio do clube das Antas, mas (ainda) mais a Norte, em Barcelos, onde um Secretário de apenas dezoito anos amealharia vinte e nove jogos e dois golos ao serviço do clube local, o Gil Vicente.

De Barcelos, o atleta rumaria, na época seguinte, a Penafiel, onde permaneceria por duas épocas, afirmando-se como presença quase indiscutível na equipa; no total, foram sessenta e quatro jogos com a camisola dos penafidelenses, com mais dois golos a juntar à conta pessoal do defesa. Nas duas épocas seguintes, ao serviço do Famalicão e Braga, respectivamente, o defesa conseguiria a proeza de totalizar números exactamente iguais, terminando cada uma das épocas com exactamente trinta e uma exibições e...dois golos!

Seria aqui, no final da época 1992-93 (e já como internacional sub-21 por Portugal) que Secretário chegaria, finalmente, à sua casa (quase) definitiva, onde viria a 'morar' por duas vezes: primeiro entre 1993 e 1996, contabilizando 86 jogos e mantendo a sua média de dois golos por época (num total de seis) e depois entre 1998 e 2004, período durante o qual alinharia praticamente cento e trinta vezes pelo clube das Antas, ainda que sem qualquer golo. Pelo meio, ficavam a referida (e azarada) passagem pelo campeonato espanhol, e umas nada despiciendas trinta e cinco internacionalizações AA, com duas competições internacionais disputadas ao serviço das Quinas (os Campeonatos Europeus de 1996 e 2000) e um golo marcado.

Apesar do seu longo e honroso vínculo ao FC Porto, no entanto, não seria nas Antas que Secretário viria a terminar carreira; ao invés, a última época do futebolista seria disputada ao serviço do Maia, tendo o lateral alinhado por vinte e quatro vezes com a camisola do clube dos arredores do Porto. Seria, aliás, também no Maia que Secretário iniciaria a sua nova carreira, a de treinador, que o veria passar por diversos clubes amadores e semi-profissionais dos campeonatos português (Lousada, Arouca, Salgueiros 08 e Cesarense) e francês (Lusitanos Saint-Maur e Créteil Lusitanos, clube que actualmente orienta); e apesar de não ter tanto 'brilho' como a sua carreira de jogador, esta nova etapa do ex-internacional português não deixa de ser honrada e honrosa, merecendo tanto respeito quanto foi atribuído à sua profissão passada. Numa altura em que o ex-defesa enfrenta problemas de saúde - tendo, por esse motivo, sido homenageado no último 'derby' entre Sporting e Porto - não queríamos, pois, deixar de homenagear o ex-atleta, a quem enviamos também votos de rápidas melhoras, e de que a carreira de treinador venha a ser tão notável como a de jogador profissional.

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