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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

19.04.24

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

A mistura cinematográfica de acção e aventura com toques de humor e romance foi, desde o início da História da Sétima Arte, uma das mais populares combinações entre o grande público, um paradigma que se mantém até aos dias de hoje – ou não fosse esta a fórmula-padrão para qualquer 'blockbuster' de super-heróis ou ficção científica lançado nos últimos quinze anos. Apesar deste apelo perene, no entanto, o género sofre, como qualquer outro, de 'altos e baixos' de popularidade, e o final dos anos 90 representava um dos períodos 'baixos'. O dealbar da era mais 'futurista', 'extrema' e 'radical' da História da humanidade não tinha lugar para aventuras 'à moda antiga', e a maioria dos filmes mais populares da época iam, propositadamente, na direcção contrária, apresentando estéticas sombrias e heróis sorumbáticos e sem grande apetência para interacções sociais, e menos ainda para ligações românticas - e os que não iam ou se traduziam em, na melhor das hipóteses, entradas menores nas respectivas franquias, ou, na pior, lendários 'flops' . Em meio a este paradigma, no entanto, um filme tentou 'resgatar' o clássico 'cocktail' que produzira, em décadas anteriores, mega-sucessos como a trilogia 'Indiana Jones', e acabou por dar início a, não uma, mas duas franquias distintas em décadas subsequentes.

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Falamos de 'A Múmia', um 'remake' do filme com o mesmo nome lançado pela icónica Hammer em 1932 protagonizado por Brendan Fraser e Rachel Weisz que chegava às salas de cinema portuguesas há quase exactos vinte e cinco anos, a 16 de Abril de 1999 – curiosamente, duas semanas antes da sua estreia em solo norte-americano – e cuja toada ao estilo comédia de acção imediatamente captava o interesse da 'geração Matrix', que crescera a ver a trilogia original de Lucas e Spielberg na televisão, e acolhia de bom grado uma actualização da fórmula 'incrementada' pelos novos recursos tecnológicos. E a verdade é que o primeiro capítulo da nova franquia excedia expectativas, conseguindo 'acertar' tanto no tom leve mas intenso que caracterizara as aventuras de Indy, como também na estética 'anos 30' e até na química do par romântico, que transcende o ecrã, e que apenas se viria a destacar ainda mais na sequela. De facto, só as interpretações de Fraser e Weisz fazem com que valha a pena 'gastar' duas horas de uma noite de final de semana com o filme, ou, melhor ainda, fazer uma Sessão de Sexta dupla com a sua igualmente divertida sequela; no entanto, há muito mais do que gostar nesta nova encarnação d''A Múmia', das paisagens desérticas de Marrocos aos efeitos especiais da lendária Industrial Light & Magic, de George Lucas, passando pela trilha sonora do não menos famoso Jerry Goldsmith.

Dado o envolvimento de todos estes nomes, e a boa recepção de que gozou por todo o mundo aquando da estreia, não é de admirar que este primeiro filme da franquia tenha rapidamente tido direito a uma sequela, com o óbvio título de 'A Múmia Regressa' lançada já no Novo Milénio, e que, apesar da duvidosa adição ao elenco de personagens de um 'puto esperto' – um dos piores personagens-tipo do cinema moderno – e do infame efeito especial durante a batalha climática com o Rei Escorpião (sim, esse mesmo), consegue manter e a até superar o nível do primeiro filme, afirmando-se como um dos melhores 'filmes de família' de inícios do século XXI, e valendo bem a visualização ao lado do seu antecessor.

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Talvez o legado mais importante da sequela, no entanto, tenha sido a personagem do referido Rei Escorpião, interpretada por um lutador da WWF à época acabado de se lançar na carreira cinematográfica, e de quem ninguém esperava mais do que o fraco nível atingido por antecessores como Hulk Hogan – um tal de Dwayne Johnson, conhecido como 'The Rock', e que, em 2002, daria vida à encarnação anterior do Rei Escorpião, um guerreiro residente num mundo de 'espadas e sandálias' puramente fantástico, a remeter às velhas aventuras de Conan, o Bárbaro.

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Este filme, por sua vez, faria tal sucesso entre o público-alvo que se transformaria, ele próprio, no ponto de partida de uma franquia, que renderia nada menos do que mais quatro filmes, embora todos já sem o contributo de 'The Rock', que seria substituído por uma sucessão de lutadores da UFC com talentos dramáticos consideravelmente mais limitados. Escusado será dizer que as restantes aventuras do Rei Escorpião são tão fracas como qualquer outra continuação de baixo orçamento destinada ao mercado do vídeo e DVD, merecendo bem o esquecimento a que são hoje em dia votadas; o mesmo, no entanto, não se pode dizer do original, um filme de aventura familiar 'tão mau que é bom', e que fará certamente as delícias de um público jovem e pouco exigente.

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'A Múmia', essa, voltaria apenas mais uma vez na presente encarnação - já depois de muitos imitadores terem, sem sucesso, tentado ocupar o seu trono nos anos subsequentes - numa aventura que via Jet Li juntar-se a Fraser e Maria Bello (que substituía Weisz), no papel do Imperador Dragão, o novo vilão que o casal deve combater. Apesar de perfeitamente aceitável, no entanto, o nível desta segunda continuação ficava bastante aquém do dos originais, sendo o filme bastante 'esquecido' (porque pouco memorável) e tendo, inadvertidamente, lançado a franquia para um limbo de vários anos, do qual só um 'desastre' encabeçado por Tom Cruise a retiraria – e para muito pior...

Apesar deste desaire, no entanto, os primórdios da franquia continuam a constituir excelentes comédias de acção de índole familiar - os chamados 'filmes de família' de molde clássico – tendo sido responsáveis pela ressurreição, qual múmia do Antigo Egipto, de um género que se julgava morto e enterrado, mas que estes filmes vieram provar ainda ter 'pernas para andar' no panorama cinematográfico da viragem de Milénio. Quanto mais não seja por isso, os filmes de Stephen Sommers merecem ser recordados (e elogiados) por alturas do vigésimo-quinto aniversário da estreia do original...

08.03.24

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

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Há quase exactos trinta anos, no fim-de-semana de 18, 19 e 20 de Fevereiro de 1994, dois filmes completamente distintos dividiam as atenções do público cinéfilo português; e se os mais velhos ou eruditos gravitavam naturalmente para 'Filadélfia', drama que versava sobre assuntos relevantes e importantes, bem veiculados por excelentes interpretações de Tom Hanks e Denzel Washington, para os mais novos ou 'descompromissados' a atracção principal era mesmo a terceira parte de uma das muitas franquias de acção e ficção científica 'herdadas' dos anos 80, que marcava o regresso aos écrãs nacionais de um dos ciborgues mais famosos da História do cinema – e, dada a boa recepção de que os dois primeiros filmes alusivos ao mesmo tinham sido alvo aquando da sua estreia, era natural que esta nova película fosse, também, aguardada com enorme entusiasmo.

De facto, o 'RoboCop' original, de 1987, ainda hoje goza do estatuto (merecido) de clássico da ficção científica oitentista, louvado por conseguir 'disfarçar' uma mensagem sobre a condição humana e a substituição de mão-de-obra por maquinaria de filme de 'acção científica', cheio de tiros e frases de efeito, como era apanágio da época, e 'fazer milagres' com um orçamento relativamente baixo. O sucesso imediato e considerável não podia, evidentemente, deixar de dar azo a uma sequela (lançada já nos primeiros meses da nova década, e estreada em Portugal em Novembro de 1990) de orçamento e pretensões filosóficas significativamente reduzidas (a ênfase era agora posta nos tiros e cenas de acção) mas que constituía, ainda assim, uma divertida proposta dentro do seu campo, perfeita para uma ida ao cinema ou 'sessão da tarde' de fim-de-semana descontraída e despretensiosa. 'RoboCop 3 – Fora da Lei' apenas precisava, portanto, de oferecer 'mais do mesmo', e o sucesso de bilheteira estaria quase garantido, tal era a força do nome da franquia no mercado cinematográfico.

E se é verdade que o terceiro filme consegue atingir esse objectivo, também não deixa de ser justo dizer que o mesmo fica alguns furos abaixo dos seus dois sucessores, como reflecte a opinião da crítica especializada, tanto da altura como dos dias de hoje. Comparativamente ao inflexível original e mesmo à algo mais simplista segunda parte, 'RoboCop 3' afirmava-se como um filme consideravelmente mais sanitizado e, simultaneamente, menos inteligente – uma combinação ainda piorada pela ausência de Peter Weller (icónico no papel do humano por baixo da armadura), substituído pelo desconhecido Robert Burke. Para agravar ainda mais a situação, o orçamento para filmagens foi ainda mais reduzido que o de 'RoboCop 2', tendo o projecto sido realizado meramente como tentativa de evitar a falência da produtora e distribuidora Orion Pictures – missão na qual falhou redondamente, tendo sido um falhanço de bilheteira não só nos EUA como um pouco por todo o Mundo, e contando hoje em dia com uma classificação média de apenas 9% (sim, NOVE POR CENTO!) no 'site' agregador de críticas especializadas Rotten Tomatoes.

Ainda assim, e de alguma forma, a franquia 'RoboCop' conseguiu sobreviver a esta verdadeira 'bomba' durante tempo suficiente para dar azo a não uma, mas duas séries televisivas (em 1994 e 2001), ambas as quais vêem o polícia-ciborgue lutar não só contra outros robôs futuristas, mas também contra as restrições de orçamento e argumento típicas de produções televisivas. Apesar de praticamente irrelevantes, ambas estas séries (mais tarde lançadas em alguns países como 'filmes', contidos num único DVD estilo '4 em 1') conseguiram ainda assim manter RoboCop suficientemente relevante no seio da cultura popular para que se justificasse um 'reinício' da franquia, com um inevitável 'remake' dirigido por Fernando Meirelles em 2014. O generalizado insucesso dessa tentativa de regresso (em contraste absoluto com o 'renascimento', no mesmo período, de outro polícia futurista, o Juiz Dredd) deverá, no entanto, ter ditado o fim de RoboCop como personagem cinematográfica relevante, relegando-o à condição de 'relíquia' de décadas passadas e deixando-o longe dos tempos em que, num fim-de-semana de Fevereiro de 1994, tinha feito toda uma geração de crianças e jovens portugueses antecipar o que previam vir a ser uma experiência inesquecível numa sala de cinema, a acompanhar as peripécias do polícia-robô...

19.01.24

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Para a maioria das crianças e jovens dos anos 80 e 90, Robin Williams é conhecido, sobretudo, pelos seus dotes cómicos, ombreando com nomes como Eddie Murphy, Tim Allen, Rowan Atkinson ou Jim Carrey no panteão de grandes actores de comédia da época; para os espectadores mais velhos, no entanto, o malogrado actor era, também, famoso pela sua versatilidade, sendo capaz de interpretar de forma convincente (embora sempre imbuída da sua fisicalidade e dramatismo propositadamente exagerados) papéis mais 'sérios'. A própria filmografia do actor demonstra explicitamente essa dicotomia, com filmes como 'Papá Para Sempre', 'Flubber – O Professor Distraído' ou a versão original do 'Aladdin' da Disney a serem contrapostos com magníficas interpretações dramáticas em obras como 'Bom Dia Vietname', 'O Bom Rebelde', ou o filme que inspira esta Sessão extra, por ocasião do trigésimo-quarto aniversário da sua estreia em Portugal.

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De facto, apesar de tecnicamente o post da passada Quinta-feira servir 'função dupla' como Sexta com Style, não poderíamos deixar de aproveitar a ocasião de falar de um dos filmes mais marcantes do início dos anos 90, no exacto dia em que, no primeiro mês da nova década, o mesmo surgia nos cinemas lusitanos, dando-nos, assim, a 'desculpa' perfeita para o incluirmos neste nosso 'blog'. Falamos de 'O Clube dos Poetas Mortos', clássico do género dramático que, fosse no cinema ou, mais tarde, através do mercado de vídeo, teve impacto directo sobre pelo menos duas gerações de cinéfilos, pela sua bem conseguida mistura de drama 'para chorar' com elementos relativos ao processo de amadurecimento, com que o público-alvo facilmente se conseguia identificar.

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O ´professor' e 'alunos' nos quais se centra o filme.

Guiado por uma magnífica interpretação de Williams como o novo professor de Literatura de uma escola privada norte-americana determinado a fazer 'sair da casca' os seus alunos, o filme conta, ainda, com 'performances' de alto nível por parte dos jovens actores que compõem a turma, com destaque para um jovem Ethan Hawke e para Robert Sean Leonard, futura 'cara conhecida' de várias séries de televisão. E apesar de o tempo se ter encarregue de tornar certas falas e cenas 'meméticas' ao ponto de quase parecerem paródias, a verdade é que é difícil negar a qualidade de escrita e interpretação das mesmas, e do filme em geral, e a validade da sua mensagem – embora, neste último caso, seja fácil a um espectador mais experiente oferecer contrapontos a várias das ideias do filme. Para o público-alvo, no entanto, as mensagens de auto-determinação, auto-descoberta e rejeição do destino por outros traçado terão sido por demais eficazes, explicando o estatuto de culto de que o filme continua a gozar.

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A cena mais icónica do filme.

Acima de tudo, o filme de Peter Weir faz parte daquele contingente de obras cinematográficas que se recusa a 'envelhecer', podendo tão facilmente ter sido rodado no ano transacto como três décadas antes - como foi o caso – e que, por isso, continuam a constituir uma excelente experiência fílmica, mesmo para a geração habituada a efeitos especiais mirabolantes e ritmos de acção frenéticos. Isto porque, conforme acima notámos, as mensagens transmitidas pela obra continuam a afirmar-se como universais, o que, aliado ao excelente elenco, poderá fazer com que a geração digital levante o olhar do TikTok durante duas horas, e se delicie com uma Sessão de Sexta ainda hoje acima da média - teoria que pode ser testada seguindo este link...

29.12.23

NOTA: Por motivos de relevância, todas as Sextas-feiras de Dezembro serão Sessões.

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

No mundo do cinema comercial, qualquer filme ou propriedade que faça sucesso entre a sua demografia-alvo está, inevitavelmente, 'fadada' a transformar-se numa franquia, com tantos filmes quantos forem viáveis até os lucros começarem a diminuir. Foi assim, nos anos 80, com os filmes de terror para adolescentes, e tem sido assim, desde então, com grande parte dos filmes para crianças, tendo à cabeça a aparentemente interminável série de sequelas para 'Em Busca do Vale Encantado'. Além de Pézinho e seus amigos, no entanto, também propriedades como 'Shrek', 'Toy Story', 'O Panda do Kung Fu', 'Air Bud' (e a complementar série 'Buddies', com cachorrinhos bebés) ou 'Beethoven' tiveram direito a um sem-fim de filmes, especiais de Natal e Halloween, séries animadas e outros produtos relacionados, normalmente dirigidos à parcela 'resistente' (ou menos exigente) da base de fãs, e muitas vezes sem direito a estreia cinematográfica, sendo lançados directamente para o mercado de vídeo.

Como uma das mais conhecidas, famosas e historicamente apreciadas franquias de comédia infantis dos anos 90, não é de estranhar que 'Sozinho em Casa' tenha tido direito ao mesmo tratamento; surpreendente foi, apenas, o facto de a série ter ficado tanto tempo em 'águas de bacalhau' antes de os executivos da 20th Century Fox decidirem enveredar pelo rumo em causa. De facto, meia década medeia entre 'Sozinho em Casa 2: Perdido em Nova Iorque' (a natural sequela para o mega-sucesso que foi o original) e 'Sozinho em Casa 3', o primeiro dos 'restantes' filmes da franquia, sobre cuja estreia em Portugal se celebraram na semana transacta vinte e seis anos. E porque já vem sendo tradição deste nosso 'blog' abordar um capítulo da série por ano - e apesar de termos falhado a marca de quarto de século, tendo a nossa atenção, nessa instância, sido focada no trigésimo aniversário do segundo filme - nada melhor do que terminar este mês de Natal com uma breve análise do terceiro capítulo daquela que é, talvez, a franquia mais frequentemente associada à quadra em Portugal.

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E o primeiro aspecto a abordar ao falar de 'Sozinho em Casa 3' é o mais óbvio e, quiçá, impactante - nomeadamente, a ausência do icónico Macaulay Culkin, o qual, nos cinco anos desde a sequela directa, havia não só atingido e ultrapassado a puberdade - sendo, por isso, demasiado 'velho' para retomar o seu papel mais icónico - como também abandonado o mundo do cinema, ao qual apenas voltaria várias décadas depois; assim, apesar de o personagem principal deste terceiro filme também se chamar Kevin, o mesmo é marcadamente diferente do homónimo de Culkin, sendo mais novo, menos inocente, e de cabelo moreno, por oposição à icónica franja loira do seu antecessor. A época em que se passa o filme é, também, diferente, com o realizador Raja Gosnell (sucessor do entretanto conceituado Chris Columbus) a abandonar a ligação ao Natal e a ambientar o seu filme no tradicional período de Primavera/Verão, o que faz com que o mesmo se pareça menos com a ideia da geração 'millennial' do que deveria ser um filme da franquia 'Sozinho em Casa'.

Para além destas diferenças óbvias, no entanto, a fórmula continua a ser a mesma, com Kevin a encontrar-se, inesperadamente, 'Sozinho em Casa', e a ter de combater por si mesmo, com recurso a armas 'caseiras' e muita imaginação, bandidos que pretendem infiltrar-se no seu lar - no caso, para roubar um 'chip' informático acidentalmente escondido no carro telecomandado de Alex. Um enredo que procura recuperar a atmosfera do original, mas que acaba por ser prejudicado por certos toques de ambição desnecessários (os bandidos, por exemplo, são agora terroristas internacionais, ao invés de simples assaltantes de casas oportunistas) e que, apesar do envolvimento do histórico John Hughes, não consegue atingir o mesmo nível dos seus antecessores, fazendo desta terceira parte um notório 'passo atrás' em termos de qualidade e apelo familiar. De facto, ao contrário do que sucedia com os dois primeiros, 'Sozinho em Casa 3' é, declaradamente, um filme para crianças, do qual adultos ou até jovens um pouco mais velhos retirarão muito pouco; o foco é posto (ainda) mais na comédia física, e a vertente sentimental que ancorava os dois primeiros fica quase totalmente de lado, tornando a 'parte três' um daqueles filmes algo 'parvos' de que apenas um público muito jovem consegue gostar.

Ainda assim, e apesar das diferenças e 'fraquezas' assinaladas, 'Sozinho em Casa 3' conseguiu atingir moderado sucesso comercial, granjeando cerca de duas vezes e meia o seu orçamento - uma vantagem algo duvidosa, já que levou à produção, já no Novo Milénio, de mais dois filmes ainda mais fracos, e de projecção e impacto praticamente nulos (como referência, enquanto 'Sozinho em Casa 3' ainda saiu no cinema, a quarta e quinta partes foram...telefilmes). No entanto, enquanto produtos da década de 2000, ambas essas sequelas (bem como o inenarrável 'remake' criado já na presente década) ficam (felizmente) fora da jurisdição deste nosso 'blog', permitindo-nos finalizar este 'trio' de artigos sobre a franquia numa nota, ainda assim, relativamente positiva, mesmo que distante dos 'tempos áureos' em que Culkin fizera as delícias de toda uma geração com a sua 'tortura' semi-acidental de dois desafortunados ladrões...

16.12.23

NOTA: Por motivos de relevância, todas as Sextas-feiras de Dezembro serão Sessões.

NOTA: Este post é respeitante a Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2023.

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

O facto de, hoje em dia, quase todos os filmes surgirem em cinemas um pouco por todo o globo ao mesmo tempo, em estreia mundial, pode fazer esquecer que, nos anos 90, passava-se precisamente o contrário, podendo a mesma película estrea em dois países adjacentes com várias semanas ou até meses de atraso. Na maioria dos casos, esta 'décalage' não ultrapassava alguns dias, mas chegava a haver casos extremos em que certos filmes estreavam em determinadas regiões com intervalos absurdos - como no caso de 'Sozinho em Casa', que, em Portugal, estreou quase exactamente um ano após o seu aparecimento nos EUA. E embora esse mesmo filme tenha, ainda assim, surgido na época natalícia, pese embora o atraso, outros havia que o fenómeno em causa 'empurrava' para alturas descabidas e algo aleatórias, retirando-lhe parte da potencial audiência que pudesse ter tido interesse na época certa do ano. Foi o caso do filme abordado nesta Sessão de Sexta, o qual, apesar de ter completado na semana que ora finda trinta anos sobre a sua estreia, seria muito mais adequado para exibição em finais de Outubro ou inícios de Novembro, na época do Halloween.

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Falamos de 'A Família Addams 2', ou 'Addams Family Values', sequela da popular película de 1991 sobre uma família algo 'monstruosa', a qual, por sua vez, adaptava a banda desenhada de Charles Addams, E a verdade é que, talvez previsivelmente, muitos dos elementos que garantiram o sucesso dessa primeira empreitada voltam a surgir neste segundo filme, do icónico elenco com Raul Julia, Anjelica Huston, Christopher Lloyd ou Christina Ricci à atmosfera declaradamente arrepiante em que os seus personagens desenvolvem as suas vida - uma receita que funcionaria ainda melhor não tivesse o filme estreado em plena 'marcha' para o Natal, já longe do clima de abóboras, morcegos e casas assombradas dos dois meses anteriores. Sob as iluminações com motivos de Pais Natais, velinhas e bolas para a árvore, a família titular do filme parecia mais deslocada do que assustadora, sendo este daqueles casos em que um intervalo algo excessivo para colocar o filme em sala terá impedido a facturação de uma parcela significativa de receitas.

Ainda assim, quem se deu ao trabalho de ir ver o filme naquela 'recta final' do ano de 1993 certamente não terá ficado desapontado, já que, conforme acima referido, o filme oferece 'mais do mesmo' ao nível do humor, interpretações e mesmo história, além de adicionar mais um nome de talento ao elenco, no caso Joan Cusack, no papel da noiva 'interesseira' (e assassina) do Fester Addams de Christopher Lloyd. As diferenças ficam por conta de um tom mais negro e menos abertamente cómico, que torna 'Família Addams 2' um filme mais 'adulto' do que o seu antecessor, e que o ajudou a ser melhor recebido pela crítica do que este, embora o desempenho em bilheteira tenha sido inferior. No entanto, numa época da História em que o visionamento de um filme não fica confinado ou limitado pela presença do mesmo em sala ou na televisão, 'Addams 2' encaixa muito melhor como filme de Halloween, em formato de 'maratona' com o primeiro e com os dois 'remakes' animados, numa estratégia que permite ignorar o facto de esta sequela ter estreado no nosso País no incongruente mês de Dezembro...

08.12.23

NOTA: Por motivos de relevância, todas as Sextas-feiras de Dezembro serão Sessões.

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Hoje em dia, os filmes de super-heróis, ou simplesmente baseados em obras de banda desenhada, são um dos géneros mais prolíficos, bem-sucedidos e de maior orçamento do panorama cinematográfico. No entanto, quem já era fã deste tipo de filme antes do advento dos Multiversos Cinematográficos Marvel e DC sabe que nem sempre foi esse o caso, antes pelo contrário, e que os filmes baseados em BD's tiveram, durante várias décadas, custos de produção baixíssimos e níveis de qualidade que oscilavam entre o aceitável e o tenebroso. De facto, já nos primeiros anos do Novo Milénio, era ainda possível sentir o receio dos 'nerds' de todo o Mundo sempre que era anunciado um novo filme do estilo, mesmo depois de terem já havido vários exemplos do género de qualidade muito acima da média. E se os 'Batmans' de Tim Burton e Joel Schumacher e os 'X-Men' de Bryan Singer são, normalmente, creditado como os primeiros filmes a contribuir para o inverter da tendência, a verdade é que o género 'quadradinhos no grande ecrã' produzia, na mesma altura, outro filme de algum sucesso, sobre cuja estreia em Portugal se celebram na próxima semana vinte e cinco anos.

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Surgido nas salas lusas a 11 de Dezembro de 1998 (mesmo dia em que era lançado o muito diferente 'Pai Para Mim...Mãe Para Ti', de que falámos na última edição desta rubrica), 'Blade' baseava-se no personagem da Marvel com o mesmo nome, um 'híbrido' de vampiro e humano conhecido como 'dhampir', que utiliza as suas habilidades vampíricas para caçar e eliminar os 'puros sangues', em cenas bem 'sangrentas', repletas de acção com armas brancas e do tipo de artes marciais que viria a ganhar (ainda mais) popularidade com o lançamento de 'Matrix', no ano seguinte.

No papel do enigmático e sorumbático personagem surgia Wesley Snipes, actor em tempos tido como revelação (actuou em filmes como 'New Jack City', por exemplo) mas cuja carreira ficara marcada pela combinação de um temperamento complicado com abuso de substâncias, que o vira embarcar em obras de muito menor calibre – embora ainda tivesse conseguido trabalhar com um dos grandes heróis de acção dos anos 80 e 90, Sylvester Stallone, durante a segunda 'fase áurea' deste último, ao representar o vilão em 'Homem Demolidor', de 1994. No entanto, 'Blade' é geralmente tido como o filme que permitiu trazer Snipes de volta à ribalta, numa trajectória semelhante à que Eddie Murphy encetava no mesmo período, com a sua participação vocal em 'Mulan' e o sucesso de 'Doutor Doolittle'.

E a verdade é que, sem ser nenhum portento cinematográfico, 'Blade' resulta bem para aquilo que é – um veículo para Snipes, que nada mais pretende do que oferecer noventa minutos de entretenimento descartável para adolescentes e fãs do personagem. A referida demografia respondeu, aliás, em peso, tornando 'Blade' num dos primeiros verdadeiros sucessos de um género até então representado por obras medianas, como 'O Juiz', ou declaradamente fracas.

Tendo em conta este sucesso, não é de surpreender que Snipes tenha voltado a vestir a capa de cabedal do 'dhampir' dos quadradinhos, não uma, mas duas vezes – a primeira em 2002, sob a direcção do 'lunático' Guillermo del Toro, num filme considerado uma versão melhorada e alargada do seu antecessor, e a segunda em 2004, para o menos consensual 'Blade III: Trinity', que conseguiu ainda assim um desempenho meritório nas bilheteiras tanto nacionais quanto mundiais. Já a série baseada no personagem, também com argumento de David S. Goyer (que escrevera todos os filmes e realizara o terceiro) mas com o 'rapper' Sticky Fingaz no lugar do demissionário Snipes, não chegou a estrear em Portugal.

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Os dois filmes que completam a trilogia, também eles bastante bem sucedidos.

É fácil de perceber, portanto, que apesar de algo esquecida vinte anos passados, a trilogia 'Blade' não deixou de marcar época entre os adolescentes das gerações 'X' e 'millennial', aos quais ofereceu, precisamente, aquilo que procuravam: acção bem sangrenta e com a estética de 'cabedal negro' tão apreciada naqueles anos de viragem de Milénio. Além disso, a série explora o reavivar de interesse em vampiros, iniciado com 'Entrevista com o Vampiro', de 1995, e que viria, em anos subsequentes, a inspirar várias versões do conto de Drácula, além, claro, da inescapável 'Saga Crepúsculo'. Em finais de 1998, no entanto, os vampiros estavam, ainda, muito longe de brilhar ao sol, sendo Blade um muito melhor exemplo de como modernizar as míticas criaturas, e o seu primeiro filme um clássico nostálgico menor para a geração crescida durante os anos 90.

03.11.23

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

A década de 90 é unanimemente reconhecida, hoje, como um dos melhores períodos para o cinema de animação; afinal, foi nesse período de dez anos no final do século XX que se verificaram a chamada 'Renascença' dos estúdios Disney (que produziriam uma série de filmes ainda hoje icónicos e míticos, ao ritmo de um por ano, durante a grande maioria dos anos 90), a ponta final do período áureo de Don Bluth (iniciado na década anterior), o surgimento da Dreamworks como grande potência dentro do meio e, talvez mais significativamente, o nascimento da animação 3D, pela mão da inovadora Pixar, que, em tempo, aqui terá o seu espaço.

E se não eram muitos os que, à época arriscavam apostar nessa nova tecnologia – que conjugava a falta de créditos firmados com o preço exorbitante, numa combinação muito pouco apelativa – a verdade é que a referida Dreamworks resolveu mesmo dar esse 'salto', e seguir nas passadas da concorrente associada à Disney; e embora viesse a ser na década seguinte que a companhia de Jeffrey Katzenberg verdadeiramente 'abraçaria' a tecnologia, os anos 90 deixaram, ainda, pelo menos um exemplo de animação 3D criada pela mesma, o qual celebra dentro de poucos dias (a 6 de Novembro) um quarto de século sobre a sua estreia em Portugal.

Trata-se de 'Antz', que em Portugal levou o título de 'Formiga Z', conseguindo a proeza de, ao mesmo tempo, perder o trocadilho original e acabar por criar um novo. Isto porque o protagonista do filme se chama, precisamente, Z, dando ao título português um cariz biográfico que o original não tinha, e que se conjuga bem com o enredo do filme, que se centra precisamente sobre a crise existencial vivida pela referida formiga, e pelas suas tentativas falhadas de escapar da sociedade totalitária e ditatorial que habita, e de ganhar a mão da princesa das formigas.

Esta sinopse é, por si só, suficiente para dar a perceber o principal atractivo de 'Formiga Z' – nomeadamente, o facto de ser uma resposta adulta e sardónica ao que a rival Pixar vinha fazendo, e especificamente ao segundo filme da companhia, 'Uma Vida de Insecto', estreado no mesmo ano nos EUA mas que, paradoxalmente, viria a chegar a Portugal apenas quatro meses depois, já no início de 1999. Assim, o primeiro 'filme de formigas' para muitas crianças da época terá sido aquele em que uma formiga com a voz (no original) e atitude de Woody Allen discute temas sérios e adultos com o seu melhor amigo, o típico personagem 'brutamontes', que na versão original conta com a voz de Sylvester Stallone – uma experiência, diga-se, absolutamente incomum, numa era em que a Dreamworks ainda era mais conhecida pelos seus épicos pseudo-Disneyanos do que pelas comédias subversivas que a tornariam famosa na década e século seguintes.

Talvez por isso 'Formiga Z' tenha sido, e continue a ser, um filme polarizante, tanto entre os críticos como junto do público, que (pelo menos à época) esperava 'mais um' filme animado para 'matar' hora e meia com os pequenotes no cinema, e se deparava com uma espécie de versão animada das comédias negras realizadas e protagonizadas por Allen; a verdade, no entanto, é que apesar de 'Uma Vida de Insecto' ser vastamente superior do ponto de vista técnico, este talvez seja o mais interessante dos dois 'filmes de formigas', ainda que passe longe de constituir uma obra-prima. Talvez mais relevante seja a possibilidade de este filme ter encorajado a Dreamworks a prosseguir a via da animação 3D, a qual, três anos depois, lhe daria o filme (e franquia) com o qual é ainda hoje sinónima; por outras palavras, sem 'Formiga Z' talvez não tivesse havido 'Shrek'. Quanto mais não seja por isso, esta primeira 'aventura' da Dreamworks por terrenos 3D merece destaque, quando se assinala um quarto de século sobre a sua estreia nos ecrãs nacionais.

20.10.23

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Embora, em Portugal, seja tradição 'importada' – e recente – o Halloween tem, para países como os Estados Unidos, um significado especial, traduzido na iconografia própria (e, para muitos jovens americanos, altamente nostálgica), em rituais como o 'Doces ou Travessuras' (o famoso 'trick or treat') e a criação de disfarces ligados ao terror e, claro, na escolha de filmes próprios para a época, os quais se tendem a dividir em duas grandes categorias: as comédias familiares como 'Hocus Pocus' e 'A Família Addams' (muitas delas passadas, precisamente, na também chamada Noite das Bruxas) e os filmes de terror, de entre os quais se destaca a franquia que leva o mesmo nome da própria celebração, e que, em finais dos anos 70, revelou ao Mundo uma jovem chamada Jamie Lee Curtis.

Tal como sucedeu a todas as outras franquias de terror da mesma época, no entanto, os anos seguintes viram o seu vilão (o verdadeiramente sinistro Michael Myers, que perde apenas para o Leatherface de 'O Massacre da Serra Eléctrica' como assassino mais assustador do cinema de terror) ser muito 'mal tratado', numa série de sequelas de qualidade decrescente que contribuíram para retirar a Michael uma parte significativa da sua mística. Ainda assim, e ao contrário do que aconteceu com os contemporâneos Jason Voorhees e Freddie Krueger, viria a ser lançada a Michael uma 'corda de salvação', sob a forma de um novo capítulo, comemorativo dos vinte anos dos seus primeiros ataques, e com execução bastante mais cuidada em relação aos filmes anteriores da franquia.

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O DVD nacional do filme

Chamava-se 'Halloween H20: O Regresso', estreou nos cinemas norte-americanos há quase exactos vinte e cinco anos (mesmo a tempo do Halloween) e, apesar de apenas ter chegado ao nosso País em Março (!!!) do ano seguinte, constitui a Sessão de Sexta perfeita para a altura do ano que se aproxima - como, aliás, já demos a entender quando o incluímos, juntamente com alguns dos filmes acima referidos, na nossa Sessão de Sexta Especial de Halloween, há quase exactos dois anos; aproveitamos, agora, nova aproximação da referida data para lhe dedicarmos algumas linhas mais alargadas e específicas, por alturas de um 'aniversário' marcante para qualquer obra mediática.

Como o próprio título dá a entender, 'H20' (não confundir com H2O) tem lugar vinte anos após o original, ou seja, no ano de 1998. Laurie Strode (Jamie Lee Curtis), irmã do assassino mascarado e única vítima a ter sobrevivido a repetidos ataques por parte do mesmo, descobre que não consegue escapar ao seu passado quando o irmão a descobre na pequena cidade californiana onde reside sob um nome falso, e prontamente enceta nova tentativa de acabar com a sua vida de uma vez por todas. Na 'linha de mira' do assassino estão também o filho adolescente de Strode, John (interpretado pelo jovem galã da altura, Josh Hartnett) que organiza com os amigos uma festa de Halloween particular longe dos adultos e de outros jovens, tornando-se assim alvos fáceis para Myers, e Will Brennan, companheiro de Laurie que, juntamente com a mesma e com um segurança da escola, tenta proteger os jovens do tresloucado assassino, para quem os mesmos seriam, de outra forma, alvos fáceis.

Uma receita sem muito de inovador, e que recorre mesmo a alguns (senão a todos) os clichés dos chamados 'slasher movies', mas cujo segredo reside em saber precisamente o que o público de filmes como 'Sei O Que Fizeste No Verão Passado' espera e pretende de uma obra deste tipo, e oferecer, precisamente, isso, sem o tipo de tentativas de inovação ou experimentação que haviam morto, aos poucos, as franquias concorrentes 'Pesadelo em Elm Street' e 'Sexta-Feira 13'. Ao contrário de muitos dos filmes de ambas, 'Halloween H20: O Regresso' é, só e apenas, o que apregoa ser: uma revisão e actualização do conceito do original de John Carpenter, já longe da qualidade do mesmo, mas ainda assim criado com assumido respeito e apreço pelas bases por ele estabelecidas. Assim, e embora não suplante (e ainda menos substitua) o mesmo, este primeiro reviver de uma franquia ainda hoje vive merece bem o investimento de menos de hora e meia por parte dos entusiastas do terror 'pop', seja como parte de uma 'maratona' mais alargada de todos os títulos da série, seja por si mesmo, como 'refeição rápida' para saciar a vontade de apanhar uns 'sustos' frente ao ecrã na noite de Sexta-feira de Halloween.

06.10.23

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

O género cinematográfico dos 'animais falantes' teve, nos anos imediatamente antes e depois da viragem do Milénio, a sua época áurea. Ao passo que os filmes centrados em animais do período mais clássico – entre os anos 50 e 70 – preferiam que fossem as acções dos protagonistas a construir e conduzir a narrativa, os seus congéneres de finais do século XX e inícios do seguinte não deixavam qualquer informação importante ao acaso, fazendo questão de transmiti-la na voz de uma qualquer celebridade, super-imposta aos movimentos labiais (acidentais ou gerados por computador) de um qualquer 'bicho'. E a verdade é que, no que toca a animais para 'fazer' falar, os papagaios estão inegavelmente entre as escolhas mais naturais, dada a sua habilidade intrínseca para aprender e reproduzir sons.

Está, assim, explicada a linha de pensamento por detrás de 'Paulie – O Papagaio Que Falava Demais', um filme cuja premissa é, literalmente, o reconto, por parte de um papagaio falante, das suas aventuras depois de ser separado da sua família adoptiva, e que procurava, claramente, almejar o mesmo nível de sucesso dos dois 'Regresso a Casa' ou da então incipiente franquia 'Doutor Doolittle'. E apesar de não ser, hoje em dia, lembrado com a mesma nostalgia de qualquer dessas duas propriedades, a verdade é que a película não deixa de constituir uma boa alternativa para uma tarde de fim-de-semana em família, até por não se dar aos excessos pseudo-cómicos de qualquer dos seus 'concorrentes'.

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Capa do DVD nacional do filme (crédito da foto: OLX).

De facto, no cômputo geral dos filmes de animais da década de 90, 'Paulie' é um filme menos frenético e hiperactivo do que 'Doutor Doolittle' ou 'Beethoven', colocando maior ênfase na aventura e nas relações interpessoais do que nas piadas constantes, sem no entanto perder o humor trazido pela interpretação de Jay Mohr como o personagem principal – sendo que, neste aspecto, o mesmo se aproxima sobremaneira do supramencionado 'Regresso a Casa' e respectiva sequela, ou ainda dos dois capítulos da saga 'Babe', o segundo dos quais produzido no mesmo ano. Efectivamente, apesar de as peripécias de Paulie se prestarem a vários momentos cómicos, sempre pontuados pelos 'dichotes' do papagaio, e dos diversos e caricatos humanos com quem se cruza, o cerne do filme reside, sobretudo, na carga emocional de ver o 'bicharoco' perder a família e acabar como cobaia num laboratório, sem que tal destino lhe retire a esperança e o optimismo, apesar do adivinhado fim trágico que se avizinha – um desfecho que, podendo ser algo 'forte' para a geração actual, não era totalmente incomum em filmes infantis mais clássicos, em que nem sempre tudo acabava bem.

Em suma, apesar de estar longe de ser um clássico ao nível dos restantes filmes mencionados neste 'post', 'Paulie' não deixa de constituir uma forma agradável de 'matar' uma hora e meia, capaz de manter as crianças interessadas sem aborrecer (muito) os adultos; perfeito, portanto, para um qualquer fim-de-tarde deste 'Verão de S. Martinho' antecipado que se vive actualmente em território português.

22.09.23

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Quando se fala em heróis de cinema de acção de finais do século XX, vêm imediatamente à memória uma série de nomes: Arnold Schwarzenegger (cuja fama fora adquirida na década de 80, e apenas aumentaria no início da seguinte, com filmes como 'Exterminador Implacável 2'  e 'O Último Herói de Acção', não-obstante um 'desvio' para filmes de índole mais cómica), Sylvester Stallone, Bruce Willis, Steven Seagal e, claro, Jean-Claude Van Damme, o culturista e ginasta que se transformaria na principal estrela de filmes de artes marciais da época.

Revelado ao Mundo, como os restantes nomes da lista acima, em meados dos anos 80, o belga conhecido pela alcunha de 'Músculos de Bruxelas' tinha já o estatuto mais do que definido à entrada para a última década do Segundo Milénio; filmes como 'Força Destruidora', de 1988, 'Cyborg' e 'Kickboxer – Golpe de Vingança', ambos do ano seguinte, haviam cimentado a perícia do actor nas mais mirabolantes peripécias físicas, que suplantavam o seu forte sotaque e limitado talento dramático e o tornavam num dos grandes ídolos para as crianças e jovens daquele período.

Era, pois, já com o rótulo de 'mega-estrela', e um público totalmente rendido às suas capacidades, que o belga chegaria àquele que era o seu décimo filme como actor principal, e o oitavo em apenas três anos: 'Duplo Impacto', que celebra na próxima semana os trinta e dois anos sobre a sua estreia em Portugal, a 27 de Setembro de 1991, e que se destaca pela invulgar particularidade de ver Van Damme representar não um, mas dois papéis, encarnando ambas as metades de um par de irmãos gémeos.

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O facto de permitir ao público-alvo experienciar Van Damme em 'dose dupla' foi, aliás, posicionado como o principal atractivo do filme à época – e o mínimo que se pode dizer é que resultou em cheio (pelo menos com o autor deste blog), O facto de os dois personagens interpretados pelo belga apenas se distinguirem por características superficiais e estereotipadas (um deles é mais recatado e usa óculos, o outro mais rebelde e vestido com o inevitável blusão de cabedal) e se tornarem homólogos a partir de meados do filme (quando o irmão 'choninhas' se revela tão capaz quanto o seu gémeo) pouco importava à demografia-alvo, demasiado ocupada a ponderar como teriam os realizadores conseguido fazer com que dois Jean-Claudes estivessem em cena ao mesmo tempo, e a conversar um com o outro – uma questão que apenas teria cabimento naquela era pré-DVD e reportagens de produção. O intuito declarado de Van Damme em fazer algo diferente do habitual e com maior âmbito dramático (à semelhança do que Arnie vinha fazendo, com sucesso, na mesma altura) ficava, assim, algo diluído, naquela que acaba por ser apenas mais uma película típica da filmografia do belga, ainda que com menor ênfase nas artes marciais e maior nos tiroteios e cenas de acção.

Ainda assim, 'mais do mesmo (mas em dobro)' era precisamente o que o público-alvo queria e esperava de um filme com esta premissa, e 'Duplo Impacto' saldou-se como mais um sucesso de bilheteira para a parceria entre Jean-Claude Van Damme, Sheldon Lettich (o homem que escrevera 'Força Destruidora' e realizara 'Coração de Leão', um dos filmes anteriores de Van Damme) e o lendário Bolo Yeung, amigo pessoal do belga desde 'Força Destruidora' e especialmente requisitado pelo mesmo para encarnar o 'mau da fita', tal como fizera naquele filme. E ainda que – à semelhança da maioria da restante filmografia do belga daquela época – o filme não tenha envelhecido, de todo, bem, vale ainda assim a pena recordar aquele que, para os 'millennials' mais novos, terá sido um dos primeiros contactos directos com os 'Músculos de Bruxelas', e talvez mesmo - como foi o caso com o autor deste blog - um dos primeiros filmes 'para crescidos' alguma vez vistos em 'primeira mão' numa sala de cinema.

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