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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

10.06.22

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Os anos 80 e 90 representaram o auge absoluto da carreira do realizador Steven Spielberg, que seria responsável, durante esse período, por uma sucessão de êxitos de bilheteira, a começar em 'Salteadores da Arca Perdida', de 1981, e que se estenderia durante mais de vinte anos, até pelo menos a 'Apanha-me Se Puderes', de 2002. Os filmes dirigidos a um público infanto-juvenil, em particular – 'E.T. - O Extraterrestre', 'Poltergeist', 'Os Goonies', as sagas 'Indiana Jones' e 'Parque Jurássico' – granjearam ao nova-iorquino uma reputação suficiente para que qualquer projecto por ele encabeçado e dirigido a esta demografia se tornasse um sucesso, por mais megalómano ou exagerado que fosse.

Serve este preâmbulo para falar de 'Hook', talvez O mais megalómano e exagerado de todos os filmes infanto-juvenis de Spielberg, que – mesmo com quase duas horas e meia de duração, e apresentando muitos dos piores 'tiques' do realizador – não deixou ainda assim de ser bem acolhido pelas crianças e jovens de inícios dos 90, não constituindo Portugal excepção neste aspecto.

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De facto, aquando da sua estreia em território nacional, a sequela para a clássica história de Peter Pan – que documenta o regresso do herói à Terra do Nunca, décadas depois de finalmente ter sucumbido à maturidade – suscitou considerável interesse entre o público-alvo, a quem nem mesmo a longa duração do filme (quase uma hora mais longo do que a maioria das películas destinadas à mesma demografia) conseguiu refrear o entusiasmo; como consequência, 'Hook' acabou mesmo por se afirmar como mais um na infindável lista de sucessos de Spielberg – mesmo sendo um dos filmes mais fracos do realizador durante esse período.

De facto, conforme referimos acima, a longa-metragem apresenta várias pechas, que não se resumem apenas à longa duração e ritmo algo indulgente; não foi à toa que, por exemplo, Julia Roberts foi nomeada para a Framboesa de Ouro relativa a Pior Atriz Coadjuvante – a sua prestação como Sininho, já de si repleta de todos os mais irritantes clichés da actriz, não sai de todo beneficiada pelos efeitos especiais da época. De igual modo, Williams surge neste filme em modo 'sentimentalão', sem a 'chama' que trazia a papéis sérios como 'O Clube dos Poetas Mortos' nem a veia cómica desenfreada das suas futuras prestações em 'Aladdin', 'Flubber' ou 'Papá Para Sempre'.

Valem, pois, as prestações de Dustin Hoffman como o titular Capitão Gancho – declaradamente e propositalmente afectada e exagerada – e do jovem Dante Basco como Rufio (líder dos Meninos Perdidos e 'substituto' de Peter tanto em idade como em aspecto e atitude) para manter o interesse do espectador comum, não sendo de estranhar que ambas constituam os elementos mais memoráveis da película.

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O Rufio de Dante Basco e o Capitão Gancho de Dustin Hoffman são os elementos mais memoráveis do filme

Em suma, apesar de não constituir de todo uma má opção para uma tarde chuvosa em família – quem conhece o Spielberg deste período sempre soube que estaria em boas mãos – 'Hook' deixa algo a desejar quando comparado com a esmagadora maioria das obras que o rodeiam na filmografia do realizador americano, devendo pois ser recordado (ou apresentado às gerações mais novas) apenas depois de esgotados todos os restantes marcos da filmografia Spielbergiana. Ainda assim, o filme chegou, à época, a ser marcante para um determinado sector da juventude portuguesa, pelo que, qualidade à parte, estas breves linhas em sua homenagem acabam por não ser totalmente descabidas...

28.05.22

NOTA: Este post diz respeito a Sexta-feira, 27 de Maio de 2022.

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Oa filmes baseados em videojogos têm, historicamente, estado entre as adaptações menos bem conseguidas da História do cinema moderno – um pódio que, em tempos, partilharam com as adaptações de banda desenhada. Mas enquanto que a reputação destas veio ser (muito) melhorada pelas produções multimilionárias dos estúdios da Marvel e DC Comics, o percurso dos videojogos no cinema continua a ser marcadamente errático, sendo cada tentativa razoavelmente conseguida (os três filmes de Tomb Raider ou o recente Uncharted) anulada pela existência de um desastre absoluto, que parece não ter qualquer ideia do que torna o material original apelativo para o seu público-alvo.

Serve este preâmbulo para apresentar, precisamente, um desses desastres absolutos que parecem não ter qualquer ideia do que torna o material original apelativo para o público-alvo – ou antes, aquele que talvez seja O exemplo-mor desta tendência: o filme de Super Mário.

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Estreado em Portugal em inícios de 1994, e produzido no ano anterior, 'Super Mário' (o filme) parece – ainda mais do que outros filmes deste tipo – fazer um esforço consciente para ignorar praticamente todos os elementos popularizados por jogos como 'Super Mario World', usando apenas os mais básicos e reconhecíveis (Mario, Luigi e Daisy são facilmente reconhecíveis, o vilão chama-se Rei Koopa, e há referências a cogumelos) e alterando rigorosamente TUDO o resto, por vezes de forma nada menos do que abstrusa; veja-se, por exemplo, o ambiente cyberpunk (!) do Reino dos Cogumelos, que apresenta os tradicionais Goombas (os atarracados e instantaneamente reconhecíveis cogumelos ambulantes que se popularizaram como o primeiríssimo inimigo do primeiríssimo jogo de Mario) como mutantes musculados e de feições deformadas (!!), o referido Koopa como um empresário (!!!) também ele mutante (!!!!) e com cabelo constituído por pequenos esporos de cogumelo (!!!!!), e Yoshi como um dinossauro semi-realista (!!!!!!).               smb-1280b-1623444752449.jpgsuper-mario-bros-movie-fans-restore-20-minutes-of-

No universo deste filme, ISTO é um Goomba (em cima) e ESTE é Koopa (em baixo)!!

Todo o filme toma esta toada, consistente com o credo, popular na Hollywood da época, de que para um filme de acção dirigido ao público jovem ser bem sucedido, tinha forçosamente de apresentar ambientes escuros e desolados - veja-se também, como exemplo deste fenómeno, o primeiro filme das Tartarugas Ninja. No entanto, onde essa obra apresentava cuidado, dedicação e sobretudo respeito pelo material de base, 'Super Mário' faz exactamente o contrário, quase parecendo um insulto propositado aos fãs do 'franchise' da Nintento por gostarem de algo tão tolo e colorido – o que torna ainda mais incongruentes os vários 'easter eggs' e referências aos jogos escondidos no cenário, prontos a serem encontrados por espectadores mais atentos.

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O universo do filme contém diversas referências a elementos dos jogos originais, apesar de pouco ou nada aproveitar dos mesmos.

Por este mesmo motivo, a primeira longa-metragem dos irmãos Mario (de quem ficamos, pelo menos, a saber ser esse o apelido) saldou-se como nada mais do que uma desilusão, que desperdiçava actores de confiança – Bob Hoskins e John Leguizamo vivem os personagens tanto ou mais do que 'Captain' Lou Albano e Danny Wells na versão televisiva do canalizador – num argumento pobre e sem qualquer tipo de relação com o universo estabelecido pelo franchise.

O resultado foi uma 'bomba' de proporções épicas, que merece plenamente o seu estatuto e reputação como um dos piores filmes, não só de videojogos, mas da década de 90 em geral – mas que muitos dos leitores deste blog terão, mesmo assim, ido ver ao cinema, dada a popularidade do material no qual (não) era baseado. Esperemos, pois, que a de há muito anunciada versão animada do canalizador italiano (a ser lançada pela francesa Illumination, de 'Gru, O Maldisposto' e 'Cantar!') consiga superar a sua antecessora 'de carne e osso' – embora, como este post terá demonstrado, tal não se afigure como uma missão particularmente espinhosa...

13.05.22

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

O cinema dos anos 90 foi frutíferos, acima de tudo, para actores de três géneros específicos: o romance, a acção e a comédia. E enquanto que Richard Gere, Brad Pitt, Johnny Depp e Leo DiCaprio arrasavam corações, e Bruce Willis, Stallone, Schwarzenegger e Van Damme arrasavam 'mauzões', no campo da comédia, agigantavam-se dois nomes: Robin Williams e Jim Carrey.

Em lados opostos do espectro de carreira – um já veterano de duas décadas, o outro ainda a lançar carreira – estes dois homens travaram, ao longo da década, uma fascinante batalha pela supremacia no campo da comédia 'mainstream' juvenil, a qual rendeu ao mundo do cinema alguns dos melhores exemplos de sempre do género; e enquanto Robin conquistava o público alvo com o seu trabalho de voz em 'Aladdin' e 'Ferngully', além de filmes como 'Papá Para Sempre', 'O Fabricante de Sonhos' ou 'Flubber - O Professor Distraído', Carrey utilizava da melhor maneira a sua impressionante elasticidade facial para dar vida a desenhos animados 'de carne e osso', em filmes como 'Doidos Á Solta', 'A Máscara', 'Batman Para Sempre' ou o binómio de filmes de Ace Ventura.

Desenrolava-se, assim, uma batalha fascinantemente 'taco a taco', que coincidiu até mesmo nos seus pontos mais fracos, tendo ambos os actores visto os seus filmes menos memoráveis serem lançados no mesmo ano, 1997. Mas se o referido 'Flubber', de Robin Williams, rapidamente cairia no esquecimento, a contribuição de Jim Carrey afirmar-se-ia, ainda assim, como um pouco mais memorável.

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Não, não existe imagem melhor do cartaz português do filme (crédito da imagem: Wook)

Prestes a completar vinte e cinco anos sobre a sua estreia em Portugal (a 16 de Maio de 1997), 'O Mentiroso Compulsivo' destaca-se hoje em dia, sobretudo, por ter marcado o final da 'fase cómica' da carreira de Carrey, tendo o actor procurado, em filmes subsequentes, diversificar o seu leque de géneros, com resultados surpreendentemente favoráveis; aqui, no entanto, o comediante surge ainda firmemente apoiado nas bocas, expressões e caretas que o haviam tornado conhecido, e que faziam, à época, o gáudio do público-alvo. No papel do titular mentiroso compulsivo – um advogado a quem um desejo de aniversário do filho obriga a apenas dizer a verdade durante 24 horas – Carrey tem inúmeras oportunidades para utilizar todo o seu repertório de expressões faciais, bem como os restantes truques no seu arsenal, das vozes aos gestos exagerados; pena é que o filme não seja suficientemente bom para dissipar a sensação de que a performance de Carrey nada mais é do que 'mais do mesmo', e que mais valia estar a ver novamente qualquer dos outros filmes do actor lançados até essa altura da década.

De facto, embora ainda hoje seja frequentemente exibido na televisão portuguesa, e esteja disponivel no Netflix europeu, 'Liar Liar' (o título original do filme) não é particularmente memorável, sendo até um pouco 'piroso' e sentimental, como só os filmes de família dos anos 90 o sabiam ser; comparado com a restante obra de Carrey, fica a faltar à obra de Tom Shadyac aquela sensação de anarquia e imprevisibilidade que o actor sempre trazia a qualquer um dos seus papéis. Como despedida do actor do mundo da comédia familiar, é, certamente, bem menos do que o mesmo merecia, e dá até algumas indicações sobre as razões que o levaram a afastar-se deste género – por sinal, no momento certo, justamente quando se arriscava a ficar, para sempre, 'preso' a um tipo de papel.

Em suma, na filmografia de Jim Carrey, 'O Mentiroso Compulsivo' perde-se entre as referidas obras-primas da comédia noventista e os não menos bem-conseguidos dramas que se lhes seguiram (e dos quais aqui paulatinamente falaremos), e só mesmo a efeméride do aniversário da estreia justifica que lhe sejam dedicadas estas linhas - isso e o facto de, à época, o filme ter (por qualquer razão inescrutável) sido pretexto para a oferta de um calendário de bolso na revista 'Super Jovem', que, ainda hoje, talvez seja a melhor coisinha associada a esta descartável comédia...

O YouTube não tem o 'trailer' em português, mas pelo menos tem os 'bloopers'...

15.04.22

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Para a geração que tinha uma certa idade nos anos 90, o humor cinematográfico era personificado, essencialmente, por dois nomes: Jim Carrey e Robin Williams. E se o primeiro gozou de uma daquelas décadas de fazer inveja a qualquer novato (à revelação com Ace Ventura - Detective Animal seguiram-se Doidos À Solta, A Máscara, Ace Ventura em África, Batman Para Sempre e O Mentiroso Compulsivo, antes da viragem para filmes mais sérios com os excelentes The Truman Show e Homem Na Lua) o segundo - de quem Carrey foi, em certa medida, sucessor, e cujo papel no terceiro filme de Batman acabou por 'usurpar' - efectivou nos anos 90 uma viragem de carreira, deixando de parte os papéis algo mais sérios que desempenhara nos anos 80 e retornando às suas raízes mais cómicas e direccionadas a um público mais infantil.

E o mínimo que se pode dizer é que essa opção foi extremamente bem sucedida, tendo o actor caído nas boas graças do público pré-adolescente da época, graças aos seus desempenhos em sucessos como O Fabricante de Sonhos, Aladdin (um dos melhores filmes da chamada 'Renascença' da Disney, em que interpretou, memoravelmente, o Génio da Lâmpada), Ferngully: As Aventuras de Zack e Krysta na Floresta Tropical, Papá Para Sempre, Hook (de Steven Spielberg) Jumanji ou Jack (de Francis Ford Coppolla) entre outros.

Foi, precisamente, em meio a este estado de graça que Williams aceitou representar um professor distraído (numa altura em que Eddie Murphy revivia a carreira com um papel muito semelhante, num filme também baseado num clássico do cinema a preto a branco) num 'remake' de uma comédia familiar da Disney, hoje algo esquecido - para ser sincero, algo justificadamente - mas cuja data de estreia em Portugal completou recentemente 24 anos.

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Falamos de Flubber - O Professor Distraído, estreado em Portugal a 27 de Março de 1998 e que procurava ser mais um na longa lista de sucessos infanto-juvenis de Williams, bem como na lista de 'remakes' bem-sucedidos de obras de décadas passadas (onde se contam também O Professor Distraído e Doutor Doolittle, de Murphy, e a versão em 'acção real' do clássico animado Os 101 Dálmatas, produzida no ano anterior.) No entanto, apesar do bom desempenho do filme nas bilheteiras mundiais, o mesmo é, hoje em dia, bem menos lembrado do que os seus congéneres acima mencionados, talvez por se tratar de um daqueles filmes que entretêm no imediato, mas caem no quase total esquecimento algum tempo depois de terem sido vistos.

De facto, apesar de as aventuras do professor Phillip Brainard (Williams) e da sua criação, a borracha voadora Flubber (corruptela de 'flying rubber') terem tudo para agradar ao público a que o filme se destina - a começar por muito, mas muito humor tipo 'pastelão' - existem, na mesma época e com a mesma demografia em mente - opções muito mais bem conseguidas, como Space Jam (também de 1997), Pequenos Soldados, do ano seguinte, ou o próprio Jumanji, em que Williams participara pouco mais de um ano antes. Comparado com estes, o filme de Williams sai, definitivamente, a perder, sendo a sua exibição recomendada apenas àqueles pais já falhos de opções para entreter os filhos, e que não querem recorrer ao 'Baby Shark' ou à Porca Peppa.

De realçar, ainda, que, em Portugal, a estreia de 'Flubber' ficou marcada pela oferta da novelização oficial do filme - numa daquelas traduções manhosas e meio 'às três pancadas' a que a Abril já habituara os jovens leitores com a série 'Arrepios' - como brinde numa edição da revista 'Super Jovem', então já na fase final da sua existência. E ainda que, presumivelmente, tal estratagema tenha ajudado a gerar interesse pelo filme por parte do público-alvo à época, o certo é que nem a mais bem conseguida campanha publicitária conseguiria transformar 'Flubber - O Professor Distraído' em algo mais do que uma das produções 'menores' da fase 'imperial' de Williams, um filme 'engraçado' para ver uma vez, mas que não chega aos calcanhares da obra anterior do actor (o clássico 'O Bom Rebelde') e que, quase um quarto de século após a sua estreia, se afirma como relevante apenas num contexto de recordação do passado, como o proposto por este blog; para o público cinéfilo em geral, o filme merece mesmo continuar no esquecimento...

01.04.22

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

As palavras 'Disney' e 'remake' causam, hoje em dia, uma reacção manifestamente negativa por parte da maioria dos fãs dos originais animados em que se baseiam; isto porque, independentemente dos actores, realizadores ou equipa técnica que contratem, e das maravilhas que consigam fazer com a tecnologia, a maioria destes filmes limita-se a reproduzir, de forma inferior, obras que, no formato animado, estavam próximas da perfeição – ou não fossem a maioria das visadas parte da chamada 'Renascença' da companhia, responsável por uma série de clássicos absolutos durante os anos 90. Mesmo as adaptações de filmes menores e menos bem-amados, como 'Dumbo', 'Tarzan' ou o eternamente injustiçado 'O Livro da Selva', deixam que a 'magia' dos originais se perca em meio a toda a 'magia' técnica, resultando em obras aborrecidas e com muito pouca razão de ser.

Nos anos 90, no entanto, a situação era diametralmente diferente – ainda em plena 'Renascença', a casa do Rato Mickey gozava de um estado de graça entre os fãs de filmes para toda a família, o qual, por sua vez, lhe concedia o direito a algumas experiências; e entre essas experiências contava-se, em 1996, a primeira instância de um 'remake' em acção real de um clássico animado, no caso 'Os 101 Dálmatas'.

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Acrescido, em Portugal, do nada prático e perfeitamente desnecessário sub-título 'Desta Vez A Magia É Real', o '101 Dálmatas' de 'carne e osso' fazia o que os 'remakes' modernos não conseguem, apresentando uma actualização da história, sem que, com a mesma, se perdessem os ingredientes básicos da fórmula que tornava o original tão querido por várias gerações. Os animais não falavam, e não havia canções (mas, verdade seja dita, o original também poucas tinha) mas continuava a haver quase uma centena de cachorrinhos dálmata, um casal de donos sem mãos a medir para tomar conta de tantos animais (Jeff Daniels e Joely Richardson), dois ladrões trapalhões, mas competentes (Hugh Laurie e Mark Williams) e, claro, a espampanante vilã Cruela de Vil, talvez o elemento mais memorável do original animado, e que, nesta nova versão, continua a roubar todas as cenas em que aparece, por via da fabulosa interpretação de Glenn Close. Só esta já vale os cerca de 100 minutos daquilo que é, de outro modo, um filme muito típico da época e do público-alvo a que se destinava.

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Jeff Bridges e Joely Richardson como Roger e Anita, com os respectivos cães

De facto, sem ser mau, '101 Dálmatas – Desta Vez A Magia É Real' (argh!) tem significativamente menos a oferecer a um público mais velho do que o original; este é, muito mais declaradamente, um filme para crianças – embora, graças aos padrões menos estritos da época, tenha ainda assim mais interesse para adultos do que os ultra-politicamente-correctos equivalentes actuais. 

No entanto, para aquilo que é, trata-se de uma obra bem conseguida – conforme mencionado, as actualizações dos anos 50-60 para o fim do século XX resultam de forma natural, e em nada alteram aquela que continua a ser uma história simples, com um dos vilões, simultaneamente, menos grandiosos e mais cruéis de todo o acervo Disney. Os números, aliás, comprovam-no, tendo o sucesso deste primeiro filme sido suficiente para dar azo a uma sequela, '102 Dálmatas', já no dealbar do novo milénio - tratando-se esta, ainda mais que o original, de uma obra estritamente dirigida aos mais pequenos, e que realça e exacerba alguns dos problemas que todos esperavam que o original tivesse (incluindo animais falantes - e irritantes), e que o mesmo conseguiu evitar.

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'Poster' original da sequela, 'Os 102 Dálmatas', de 2000

Quanto ao primeiro esforço, no entanto, sem ser nada que tenha ficado para a História – ou mereça ficar – mas ainda hoje (três semanas depois de se ter celebrado o quarto de século sobre a sua estreia em Portugal, a 10 de Março de 1997) o mesmo continua a ser um bom filme para ir 'buscar' ao Disney+ numa tarde chuvosa, para uma sessão de nostalgia partilhada com os filhos ou sobrinhos...

18.03.22

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Há cerca de um mês, quando aqui analisávamos a adaptação cinematográfica de 'Matilda, a Espalha-Brasas', celebrava-se o aniversário da estreia em Portugal de uma outra adaptação a filme de uma obra de Roald Dahl; agora, ainda que com algum atraso, remediamos esse 'esquecimento', e falamos da versão de 1990 de 'As Bruxas'.

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Estreado logo no segundo mês da década, no famoso festival de cinema fantástico Fantasporto, o filme do desconhecido Nicolas Roeg traz como nome maior no seu elenco Anjelica Huston, na altura ainda a um ano de distância do papel que a tornaria famosa entre toda uma geração de crianças e jovens, o de Morticia Addams. Aqui, Huston interpreta a Grande Chefe das Bruxas, que vê a convenção anual desta 'classe', realizada num popular hotel inglês, ser inadvertidamente exposta por dois jovens hóspedes do hotel, prontamente transformados em ratos para os impedir de contar o que descobriram.

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Huston como bruxa-chefe

O resto do filme segue os esforços dos protagonistas, Luke e Bruno, para conseguir o antídoto que lhes permitirá desfazer a maldição da bruxa, e travar os seus planos para criar uma poção que elimine do Mundo todas as crianças – uma missão que deixa muito espaço à criatividade e imaginação típicas da obra de Dahl (e o argumento de Alan Scott é extremamente fiel ao enredo do livro) bem como a alguns momentos bem assustadores, daqueles que o autor também muito apreciava, e que já raramente se vêem nos filmes de hoje em dia (e que dão azo a alguns excelentes efeitos práticos, bem típicos dessa era do cinema fantástico.)

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Uma imagem que certamente criou medo de bruxas em quem já não o tinha...

No cômputo geral, apesar de não atingir o estatuto de clássico, 'As Bruxas' não deixa de ser um filme bem representado (Huston, a favorita de Dahl para o papel de bruxa-chefe, justifica plenamente a escolha, tiramdo o máximo partido do seu papel) e que, como é habitual na obra de Dahl, respeita o seu público-alvo o suficiente para lhe providenciar duas horas de diversão inteligente, que justificava bem a ida ao cinema à época, e de que até mesmo os acompanhantes adultos conseguirão desfrutar sem adormecer na cadeira, como é o caso com tantos outros filmes infantis. Apesar de menos lembrado que 'Matilda' ou qualquer das duas adaptações de 'Charlie e a Fábrica de Chocolate', 'As Bruxas' de 90 merecem o seu lugar perto do cimo da lista de adaptações ao cinema de Dahl, sendo bem melhor do que coisas como 'James e o Pêssego Gigante' ou o recente (e aborrecidíssimo) 'BFG', de Steven Spielberg.

E por falar em recente, 'As Bruxas' foi, há cerca de dois anos, alvo de um daqueles inevitáveis 'remakes' de que Hollywood tanto parece gostar de momento. No novo filme, a acção é mudada do litoral inglês para o americano, sem qualquer justificação (uma espécie de 'Alta Fidelidade, Parte 2') e o papel de Grande Bruxa é atribuído a Anne Hathaway, uma herdeira e sucessora bem à altura de Huston, embora mais caricatural e, como tal, menos assustadora.

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Anne Hathaway é a nova bruxa-chefe no 'remake' de 2019

A performance da multi-facetada actriz é, infelizmente, a principal razão para ver um filme que, de resto, 'inventa' muito, adicionando personagens e momentos perfeitamente desnecessários, sem no entanto deixar de ser uma opção válida (e invulgarmente inteligente) no campo dos filmes para crianças modernos, e (como o original) perfeita para uma sessão de Halloween em família. Ainda assim, havendo escolha, o original de 1990 é bem mais recomendável, mesmo para quem não tem por ele qualquer nostalgia; é, simplesmente, um filme mais bem feito, que sobreviveu bem à passagem de mais de duas décadas, e que – como 'Matilda' ou os 'Charlies' – é bem-sucedido na sua missão de prestar homenagem áquele que continua a ser um dos maiores autores infanto-juvenis de sempre.

25.02.22

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Nas Olimpíadas de Inverno de 1988, disputadas em Calgary, no Canadá, uma equipa de um país totalmente improvável protagonizou uma daquelas histórias de 'sangue, suor, lágrimas e triunfo' que normalmente só se vêem nos filmes; cinco anos depois, essa mesma história teve direito ao inevitável tratamento 'Hollywoodesco', que transformava a saga puramente 'underdog' da equipa jamaicana de 'bobsledding' (e que estranho é pensar que algo assim existiu MESMO, e não apenas na mente de um argumentista sob o efeito de drogas) numa daquelas comédias infantis coloridas e barulhentas típicas dessa época do cinema infantil. O que talvez não fosse de esperar seria que dessa manobra potencialmente cínica resultasse um filme que (no fim-de-semana em que se celebram exactos vinte e oito anos da sua estreia em Portugal, a 26 de Fevereiro de 1994) continua a ser um dos melhores representantes do seu estilo de cinema, e a agregar novos fãs a cada geração.

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Vendo bem as coisas, talvez isso não seja assim TÃO surpreendente – afinal, 'Jamaica Abaixo de Zero' (o horrendo título lusófono para 'Cool Runnings', o filme de que aqui se fala) teve a chancela da Walt Disney Pictures, ela que já havia sido responsável, um ano antes, por outro clássico do género, 'A Hora dos Campeões' (no original, 'The Mighty Ducks'), cuja sequela, lançada um ano depois de 'Cool Runnings', continua ainda hoje, a constituir o 'standard' máximo para as comédias desportivas infanto-juvenis. Uma companhia que percebia da 'poda', portanto, e que utilizou as suas décadas de experiência no ramo do cinema para crianças para assegurar que o filme sobre os jamaicanos a andar de trenó obedecia aos seus padrões de qualidade.- uma missão que não se pode considerar nada menos do que um retumbante sucesso.

De facto, 'Jamaica Abaixo de Zero' é aquele raro filme que consegue ter piada sem sacrificar o âmago da história – no caso, a luta dos quatro protagonistas (jamaicanos, mas interpretados por quatro actores nova-iorquinos...) para conseguirem a 'missão impossível' de qualificar pela primeira vez o seu país para as Olimpíadas de Inverno, com a ajuda de um treinador caído em desgraça, interpretado pelo malogrado John Candy.

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Os quatro protagonistas do filme

Um enredo que facilmente seria transformável numa sucessão de quedas supostamente 'humorísticas', mas que na verdade, deriva muito do seu humor e momentos mais memoráveis das interacções entre os personagens, cinco personalidades muito diferentes (e, por vezes, diametralmente opostas) que se vêem forçados a aprender a conviver em prol do bem comum; sim, há algumas quedas (a esmagadoria maioria protagonizadas pelo personagem de Doug E. Doug, Sanka Coffie, suscitando, inevitavelmente, o memorável bordão 'Sanka, morreste?') mas mesmo essas são bem contextualizadas pelos treinos e dificuldades da equipa em se adaptar a um desporto totalmente novo, nunca parecendo gratuitas ou forçadas.

E depois, claro, há o final, em que a Disney, numa atitude de louvar, decidiu preservar a verdade dos factos, em vez de optar pelo tradicional final feliz, que retiraria algum do impacto; tal como acaba, o filme suscita uma mistura de sentimentos perfeitamente deliciosa, que dificilmente se esperaria de um filme deste tipo. Um dos poucos casos em que o eterno 'cliché' do aplauso lento que vai aumentando de intensidade é bem merecido.

Grande parte destas decisões talvez derivem do facto de, na sua génese, 'Jamaica Abaixo de Zero' ter sido pensado como um filme totalmente sério, uma autobiografia ficcionada daquela equipa heróica, cuja história superava qualquer guião. Dificuldades na criação desta versão do filme ditaram, no entanto, a mudança de tom e toada, e a verdade é que – como sucederia com 'Pacha e o Imperador', do mesmo estúdio, alguns anos mais tarde – o filme não ficou a perder; antes pelo contrário, 'Cool Runnings' continua (conforme mencionado no início deste texto) a ser muitíssimo bem cotado por membros da 'geração X' e seguintes, tendo sobrevivido às enormes mudanças vividas pelo mundo do cinema nos últimos trinta anos. Como a equipa que retrata, o filme afirma-se como um 'sobrevivente', conseguindo manter-se à tona de sucessivas 'mudanças de maré', como que desafiando a que alguém pergunte: 'filme, morreste?', para que possa triunfalmente responder 'ná, meu...'

28.01.22

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

A habilidade para interpretar, convincentemente, elementos do sexo oposto sempre foi, e continua a ser, uma das marcas de um cómico acima da média. Do teatro de revista a conjntos como os Monty Python ou actores como Dustin Hoffman, são inúmeros os exemplos de actores e artistas que souberam explorar esta vertente humorística com arte e categoria, demonstrando assim a sua versatilidade.

A estes nomes, há que juntar outro, já conhecido pela sua capacidade de encarnar qualquer personagem, mas que teve na comédia 'travesti' a sua última prova de fogo; falamos, é claro, de Robin Williams, que, em 1993, envergou uma peruca, vestido e peitos de silicone para ajudar a criar um clássico do cinema familiar dos anos 90 – o inesquecível 'Papá Para Sempre'.

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Estreado em Portugal há quase exactamente 28 anos (a 4 de Fevereiro de 1994), 'Mrs. Doubtfire' oferecia, desde logo, um motivo de enorme interesse para o público-alvo, por trazer a chancela de Chris Columbus (futuro responsável por trazer a saga 'Harry Potter' para o grande ecrã), que fizera nome no início da década com o mega-clássico de Natal 'Sozinho em Casa', e fora também responsável pela sua (muito inferior) sequela, dois anos depois. O nome do realizador, juntamente com o de Robin Williams – favorito do público jovem após a participação em 'Hook', de Steven Spielberg, dois anos antes – terão sido, por si só, motivos mais que suficientes para atrair a demografia infanto-juvenil; o facto de o filme ser marcante e memorável terá constituído, tão-sómente, um bónus acrescido.

E a verdade é que é mesmo a mestria de Columbus e Williams que eleva 'Papá Para Sempre´acima daquilo que parece ser – um filme parvo de comédia para crianças – e o torna num clássico nostálgico ainda hoje lembrado e acarinhado por quem o viu em pequeno. O realizador faz uso de toda a sua experiência como director de filmes infantis – e reúne em seu redor uma equipa de efeitos práticos e maquiagem de topo, responsável pela transformação justamente premiada do actor principal em 'velhota' de carrapito - enquanto que o actor surge em magnífica forma, 'desaparecendo' na personagem da velha ama Euphegenia Doubtfire, num desempenho ora caracteristicamente caricatural e exagerado, ora mais vulnerável e subtil, à semelhança do que Williams apresentara em filmes como 'O Clube dos Poetas Mortos'. Nenhum dos dois intervenientes precisava de ter dado o seu melhor num filme tão aparentemente banal, mas foi exactamente isso que aconteceu – e é precisamente graças a esse esforço extra que 'Papá Para Sempre' NÃO se salda como apenas 'mais um' filme para crianças, tendo mesmo sido premiado com um Oscar (para melhor maquiagem, naturalmente) na cerimónia de 1994, algo que normalmente se afiguraria praticamente impensável para um filme deste tipo.

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A espantosa transformação de Robin Williams é um dos grandes trunfos (e triunfos) do filme.

Seria injusto, no entanto, destacar a prestação de Williams sem falar dos seus coadjuvantes (entre os quais se destacam Sally Fields, o futuro 007 Pierce Brosnan, e Mara Wilson, que até ao final da década voltaria a brilhar nos papéis principais de 'Milagre em Manhattan' e 'Matilda') que – embora nunca se desviem muito dos protótipos dos seus respectivos papéis – ajudam também a manter o nível técnico e artístico do filme acima da média, e a justificar, assim, o sucesso do mesmo entre as crianças de todo o Mundo.

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O excelente elenco do filme

De facto, 'Papá Para Sempre' é daqueles filmes – a exemplo de 'Sozinho em Casa', ou dos filmes da era de ouro da Disney – que continua a ser descoberto por cada nova geração de crianças, seja em DVD ou nas plataformas digitais, seja através da exibição na televisão - e numa altura em que quem viu o filme no cinema se começa a tornar pai de filhos em idade apropriada para serem apresentados ao filme, não se prevê que essa tendência se venha a alterar, ou sequer a abrandar. Não, o 'Papá' de Robin Williams faz jus ao nome escolhido para exibição em Portugal, já que promete mesmo permanecer na vida das crianças e jovens portugueses 'Para Sempre'....

03.12.21

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Um dos mais antigos e universalmente aceites axiomas do cinema diz que 'as sequelas nunca são tão boas quanto os originais'. E embora esta afirmação já não seja cem por cento verdadeira ('Shrek 2', por exemplo, é um filme vastamente superior ao original em quase todos os aspectos) o rácio de sequelas de valor para sequelas desapontantes permanece baixo o suficiente para a podermos considerar, no cômputo geral, correcta.

Ainda assim, 'abaixo do original' nem sempre significa, necessariamente, 'mau'; existem casos em que o filme de origem se situa tão acima da média que mesmo uma sequela menos bem conseguida não deixa de ser um bom filme. A 13 de Dezembro de 1991, há quase exactamente trinta anos, estreava em Portugal um filme que ilustrava perfeitamente este paradigma, ficando uns furos abaixo do magnífico original, mas afirmando-se mesmo assim como uma experiência cinematográfica bem divertida.

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Falamos de 'Fievel no Faroeste', a primeira das três sequelas para 'Fievel: Um Conto Americano', a obra-prima de Don Bluth lançada em 1987, e que conseguia a proeza de usar roedores animados para explorar (e de forma bastante séria!) o fenómeno da imigração de cidadãos europeus para a América, em finais do século XIX e inícios do seguinte. Com momentos tocantes, assustadores e divertidos em igual medida, este filme foi um merecido sucesso entre o seu público-alvo, e continua hoje a ser lembrado como talvez o melhor dos vários grandes filmes lançados por Bluth – um feito nada desprezível, se considerarmos que essa lista também inclui clássicos como 'Em Busca do Vale Encantado' e 'Todos os Cães Merecem o Céu', cada um dos quais capaz de ombrear com o melhor que a Disney vinha oferecendo na altura.

'Fievel no Faroeste' não está a esse nível, mas verdade seja dita, também não parece muito preocupado em o atingir; trata-se de um filme muito mais assumidamente 'para crianças', que tem no gato vocalizado (no original) por Dom DeLuise muitos dos seus motivos de interesse, e em que a vertente de análise e crítica social é muito menos pronunciada. Tal não significa, no entanto, que se trate de uma sequela 'às três pancadas', antes pelo contrário – a par de 'Todos os Cães...2', é uma das poucas sequelas dos estúdios de Bluth que NÃO se insere nesta categoria, apresentando um trabalho técnico cuidado e um enredo sem momentos mortos nem cenas 'para encher chouriços', que faz com que os seus cerca de 80 minutos de duração passem prazerosamente.

Em suma, sem ser um clássico intemporal como o seu antecessor, 'Fievel no Faroeste' é – ainda hoje – um filme para crianças acima da média, que não deixa o primeiro 'Conto Americano' ficar mal, e que certamente será alvo de boas reacções por parte do seu público-alvo, mesmo nos dias de hoje (por aqui, foi visto à época da estreia, com seis anos, e muito apreciado.) Pena é, pois, que tanto Bluth como os seus antigos empregadores, e mais tarde rivais – a Disney – tenham decidido enveredar pelo ramo das sequelas 'directas para vídeo' destinadas exclusivamente a 'sossegar os putos' durante uma hora – fazem falta filmes (e sequelas) como 'Fievel no Faroeste', capazes de justificar a transformação de uma propriedade intelectual em 'franchise', e de se 'aguentarem' tão bem ao fim de três décadas como na época da sua estreia.

19.11.21

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Os meados de Novembro marcam, no calendário de muito boa gente – e, certamente, da maioria das empresas e estabelecimentos de comércio – o início da época natalícia. As iluminações, armadas e colocadas nos respectivos lugares desde há pelo menos seis semanas, são finalmente acesas; os supermercados inserem uma série de temas natalícios nas suas 'playlists' musicais; o comércio de rua toma a liberdade de começar a decorar as montras com Pais Natais, árvores decoradas e desenhos de flocos de neve; e milhares de ex-crianças dos anos 90 começam a tentar prever em que data passará na televisão o 'Sozinho em Casa'.

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Uma imagem que está indelevelmente gravada na memória de todos nós.

Um dos três filmes de Natal inescapáveis em Portugal – ao lado de 'Mary Poppins' e 'Música no Coração', sendo, nos últimos anos, também provável que alguma emissora exiba um dos filmes da série 'Shrek' – 'Sozinho em Casa' é uma das obras cinematográficas mais imediatamente associadas a esta época do ano por qualquer pessoa que fosse da idade certa quando o mesmo estrou nos cinemas de todo o Mundo há quase exactamente trinta e um anos, a 16 de Novembro de 1990. E ainda que a constante e quase anual repetição do filme nos diversos canais da TV portuguesa tenha contribuído para reduzir significativamente a boa-vontade exibida por essa mesma geração em relação ao filme, a verdade é que também há pouco quem se oponha a ver o filme ainda mais uma vez...

Vendo bem, em retrospectiva, era inevitável que 'Sozinho em Casa' fizesse sucesso entre o público-alvo da altura, que não podia deixar de se rever no protagonista Kevin McAllister, interpretado por um rapazinho de nove anos que se viria em anos subsequentes a tornar um dos principais actores juvenis de Hollywood – o inconfundível Macaulay Culkin, cuja cara seria em breve objecto de capa de revistas infanto-juvenis como a Super Jovem, sempre acompanhada do icónico 'pullover' castanho-avermelhado envergado por Kevin durante a grande maioria da hora e 45 do filme. Quanto ao realizador Chris Columbus, vir-se-ia também a tornar uma estrela por direito próprio, tendo o seu segundo momento de glória surgido quase exactamente uma década após o primeiro, quando foi seleccionado para realizar as primeiras duas adaptações cinematográficas da estratosférica saga 'Harry Potter'.

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Macaulay Culkin, então e agora

E se a carreira do seu actor principal viria eventualmente a descarrilar, levando Culkin a afastar-se do mundo do cinema durante quase vinte anos, o legado do filme em si sobreviveria, tanto por culpa das repetições constantes como parte da programação natalícia de canais de televisão em todo o Mundo, como por mérito próprio do seu guião, assumidamente 'pastelão' a pontos de se assemelhar a um desenho animado de acção real, mas ao mesmo tempo alicerçado numa situação realista q.b., e tão excitante quanto aterrorizante para o seu público-alvo – ser esquecido pelos pais aquando de uma viagem, e ter que defender a sua casa contra assaltantes. Junte-se a isto uma pitada de sentimentalismo, sem exageros, e muitos, muitos momentos memoráveis (encabeçadas pela impagável cena do 'after-shave' e pelo icónico 'keep the change, ya filthy animal!') e está encontrada a receita perfeita para o maior filme de Natal do ano – ou, no caso de Sozinho em Casa, um dos maiores filmes do ano, ponto (ao que também ajudou o facto de a proposta da Disney para esse Natal ser 'Bernardo e Bianca na Cangurulândia', um dos filmes menos lembrados da safra anos 90 da companhia.) 

Méritos à parte, o facto é que Sozinho em Casa foi um estrondoso sucesso (só por aqui, foram CINCO as idas ao cinema para ver o filme!), tendo não só justificado, à época, a inevitável sequela (por sinal muito abaixo do nível do original) como também dado origem, anos mais tarde, a um inenarrável 'franchise' de lançamentos 'direct-to-video', já sem o envolvimento de qualquer membro da equipa original (Columbus só não sentirá vergonha destes filmes porque deve receber 'royalties' relativas aos mesmos), e com orçamentos significativamente mais reduzidos. Isto sem esquecer o 'remake' recém-estreado no canal Disney +, agora com um jovem britânico (Archie Yates, de 'Jojo Rabbit') inexplicavelmente residente nos EUA, no papel outrora interpretado pelo americaníssimo Culkin. MV5BNDI1MzM0Y2YtYmIyMS00ODE3LTlhZjEtZTUyNmEzMTNhZW

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A primeira regra das sequelas de 'Sozinho em Casa' é que não se fala das sequelas de 'Sozinho em Casa'...

Pelo caminho, o filme original foi também indelevelmente incorporado na cultura 'pop' (na Primark britânica podiam, há uns anos, encontrar-se 'pullovers' de Natal com a legenda 'Merry Christmas, you filthy animal!') a um ponto que tornava inevitável que o seu aniversário fosse celebrado, e lhe fossem dadas honras de abertura da época natalícia, neste nosso blog nostálgico. Chegou, pois, oficialmente a altura de começar a consultar as grelhas de programação dos diversos canais (vai passar ALGURES. Todos sabemos que vai passar ALGURES!) e a 'arrumar' a agenda para, no momento certo, podermos estar à frente da televisão a ver o gorro de Joe Pesci a pegar fogo e Daniel Stern a apanhar com a bola de bólingue na cabeça pela 6,427,139ª vez... Feliz Natal, seus animais!

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