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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

25.11.22

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

De entre os muitos géneros cinematográficos que viveram um 'estado de graça' durante os anos 90, a comédia foi um dos principais; a primeira metade da década, em particular, forneceu uma série de verdadeiros clássicos ao género, muitos deles protagonizados pelo binómio Robin Williams e Jim Carrey, responsáveis por êxitos como 'Doidos À Solta', 'Papá Para Sempre', 'A Máscara', 'A Gaiola das Malucas' ou a duologia 'Ace Ventura', (quase) todos eles tão bem-sucedidos entre o público jovem como entre os mais velhos. Para lá desse eixo, no entanto, existia todo um outro género de filme de comédia, mais declaradamente apontado a um público juvenil, e cujo humor se baseava na falta de inteligência dos seus protagonistas, normalmente adolescentes; era o Mundo das ainda hoje hilariantes duologias 'Bill e Ted' e 'Quanto Mais Idiota Melhor', e é também o 'habitat' natural do filme que hoje abordamos, uma 'cópia' de segunda linha do conceito que conseguiu, ainda assim, afirmar-se como um 'clássico menor' entre os fãs deste tipo de película.

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Falamos de 'O Rapaz da Pedra Lascada' ('Encino Man' no original e 'California Man' em vários pontos da Europa), filme que completa este fim-de-semana trinta anos sobre a sua estreia em Portugal, e que ajudou a revelar ao Mundo aquele que viria a ser outro nome de monta da comédia noventista e dos anos 2000: Brendan Fraser, que surge aqui no seu primeiro papel principal como o cavernícola homónimo, desenterrado de um quintal suburbano (!) e subsequentemente retirado de um bloco de gelo pelo habitual duo de protagonistas desmiolados (no caso Sean Astin, o futuro Sam Gamgee de 'O Senhor dos Anéis', e Pauly Shore, um dos muitos pretendentes falhados ao trono de Mike Myers, Keanu Reeves e Jim Carrey) que prontamente decidem inscrevê-lo na escola secundário que ambos frequentam.

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O trio de protagonistas do filme, dois dos quais se viriam, num futuro próximo, a tornar verdadeiras estrelas de cinema.

É claro que esta decisão rapidamente dá azo ao tipo de peripécias bem típico e esperado neste estilo de filme, e que poderão ou não arrancar uns sorrisos ao espectador, dependendo da sua tolerância para a variante humorística em causa. Isto porque 'O Rapaz da Pedra Lascada' não é mais nem menos do que um filme perfeitamente dentro da média para o estilo em que se insere, e daquilo que a Disney vinha produzindo durante aqueles anos ao nivel dos filmes de acção real - ou seja, longe do nível dos líderes 'Bill e Ted' ou 'Quanto Mais Idiota...' (ou até de 'Jamaica Abaixo de Zero', futuro clássico infanto-juvenil da mesma companhia lançado no ano seguinte) mas passível de proporcionar bons momentos cinematográficos a um espectador menos exigente numa tarde de fim-de-semana de chuva.

Nos dias que correm, no entanto, não há como negar que o principal mérito desta película é o de ter servido de plataforma de impulso para a carreira não só de Fraser (que meia-dúzia de anos depois estaria a combater múmias em CGI e a ser seduzido por uma Elizabeth Hurley em 'fase imperial') e de Astin como também de Robin Tunney, futura protagonista principal feminina de 'Prison Break' e 'O Mentalista' (de entre o restante elenco, destaque ainda para Michael DeLuise, filho do então também hiper-requisitado Dom, e que viria posteriormente a participar em séries como 'Rua Jump, 21' e 'Gilmore Girls'.) Quanto mais não seja pela sua importância enquanto 'trampolim' para estas futuras estrelas do cinema e televisão, 'O Rapaz da Pedra Lascada' merece, no trigésimo aniversário da sua estreia em terras lusas, ser 'desenterrado' (passe a piada) do esquecimento, e 'brindado' com estas breves linhas, à laia de retrospectiva.

14.10.22

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Uma das principais características de qualquer propriedade intelectual de sucesso é a sua eventual expansão para meios, contextos e géneros diferentes daquele em que se originou – e, destes, um dos primeiros a ser explorado é o da Sétima Arte. Apesar de o rácio de sucessos ser, ainda, algo inconstante, é, já, dado quase adquirido que qualquer produto cultural de sucesso, sobretudo entre os mais jovens, terá inevitavelmente direito a um filme.

Esta tendência está, aliás, longe de ser nova ou recente, podendo que a realização de filmes alusivos a propriedades intelectuais de sucesso ser traçada, pelo menos, até inícios da segunda metade do século XX; nos anos 60 e 70, por exemplo, já era prática comum transformar em longa-metragem tudo aquilo de que os mais jovens gostassem.

Não é, pois, de admirar que um herói tão popular na Europa como Astérix tenha sido alvo de inúmeras adaptações cinematográficas, a primeira das quais meros anos depois da sua criação, em 1956, estando a mais recente planeada para lançamento algures neste ano de 2022; menos surpreendente ainda é o facto de a fase de 'renascimento' da popularidade do guerreiro gaulês ter, também ela, visto serem lançados novos filmes alusivos às suas aventuras. É, precisamente, desses títulos que falaremos nas próximas linhas.

Foram dois os filmes de Astérix estreados em Portugal na década a que este blog diz respeito, ainda que o primeiro dos dois filmes não pertence, tecnicamente, a essa década, tendo sido produzido ainda bem dentro da anterior, em 1985; no entanto, o habitual (à época) atraso na chegada de produtos mediáticos a Portugal fez com que os jovens lusos apenas pudessem desfrutar da nova aventura do herói em 1990 – CINCO ANOS após a estreia na sua França natal! Um intervalo de tempo exagerado mesmo para os padrões daquele final do século XX, e que fez com que Portugal fosse mesmo o último país a receber o filme nas suas salas de cinema, tendo o mesmo, inclusivamente, ficado disponível APÓS o seu sucessor, 'Astérix Entre os Bretões'; como diz o ditado, no entanto, 'mais vale tarde do que nunca', e a verdade é que os fãs do irredutível gaulês acabaram mesmo por poder deliciar-se com aquele que é uma excelente adição à filmografia do personagem de Goscinny e Uderzo.

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A anos-luz dos seus antecessores em termos técnicos (ou não se tivesse passado quase uma década desde o seu antecessor mais próximo) e tirando proveito dos recursos disponíveis à época, 'Astérix e a Surpresa de César' é, de todos os filmes animados de Astérix e Obélix, aquele que mais se assemelha a uma verdadeira longa-metragem, contando inclusivamente com uma memorável cena de acção durante uma corrida de quadrigas no Coliseu romano, que rende a imagem mais icónica do filme, e ilustração do cartaz. Baseado no álbum 'Astérix Legionário', o filme vê o irredutível duo alistar-se nas legiões de César, como forma de salvar Falbala, a beldade da aldeia, e o seu garboso namorado, Tragicomix, após o casal ser capturado pelos romanos; fica, assim, dado o mote para uma hora e meia das habituais confusões, zaragatas e tiradas de humor sarcástico típicas da obra de Goscinny e Uderzo, num filme que só perde mesmo para o seu antecessor directo - o hilariante 'Os Doze Trabalhos de Astérix', de 1976 - no cômputo geral da filmografia do gaulês, e que ainda dá ao Mundo uma daquelas 'malhas' pop tão 'de época' como irresistíveis, sob a forma da contagiante 'Astérix Est Là', interpretada pelo excêntrico 'herói de culto' da música oitentista francesa, Plastic Bertrand. Em suma, um filme animado acima da média para a época – especialmente tratando-se de uma produção europeia, e como tal, de menor orçamento – e que ainda hoje deverá fazer as delícias de qualquer jovem fã das BD's de Astérix e Obélix.

O tema principal do filme é, no mínimo, contagiante.

O mesmo, infelizmente, não se pode dizer do OUTRO filme alusivo aos personagens, estreado na 'outra ponta' da década, em 1999 (mesmo ano de outros dois 'desastres' cinematográficos, 'Guerra nas Estrelas Episódio I' e 'Wild Wild West'); isto porque, apesar do 'casting' absolutamente PERFEITO (Gerard Dépardieu como Obélix é uma daquelas escolhas tão óbvias que se tornam quase inevitáveis) e da novidade de ver os heróis gauleses em 'carne e osso', 'Astérix e Obélix Contra César' salda-se como um mero aglomerado de cenas retiradas de diferentes álbuns de Astérix e 'coladas com cuspo' por um argumento que tenta, sem sucesso, fundir várias aventuras do gaulês, com destaque para 'O Adivinho' e – novamente – 'Astérix Legionário'.

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O resultado é uma espécie de 'Homem-Aranha 3' em formato de comédia francesa, com Depardieu, Christian Clavier – também ele perfeito como Astérix – e Roberto Benigni a tentarem desesperadamente transformar o pobre argumento em algo minimamente divertido, sem nunca verdadeiramente o conseguirem. Assim, a melhor forma de encarar este filme é como um 'ensaio geral' para a segunda película 'live-action' dos gauleses, 'Astérix e Obélix: Missão Cleópatra', obra diametralmente oposta a 'Contra César' em termos de qualidade, e que tira o máximo proveito da química inegável que Depardieu e Clavier haviam começado a desenvolver no primeiro filme. Já os aldeões voltariam a ter destaque no também excelente 'Astérix e Obélix: Ao Serviço de Sua Majestade', que – esse sim! - consegue fundir elementos de diversas aventuras sem com isso perder a coesão. Quanto a 'Contra César', e mesmo dando o desconto de algumas 'dores de crescimento' derivadas de ser a primeira tentativa, o mesmo é sem dúvida o pior filme alusivo aos heróis de Goscinny e Uderzo de sempre, não chegando sequer à fasquia de qualidade do fraquíssimo 'Astérix o Gaulês', a primeira aventura animada do personagem, realizada nos anos 60.

Dois filmes, portanto, que surgem em extremos opostos da filmografia do herói, sendo um legitimamente bem conseguido, enquanto o outro apenas justifica o visionamento na perspectiva 'tão mau que é bom'. Quanto à carreira cinematográfica de Astérix e Obélix, a mesma continua de vento em popa (mesmo depois dos problemas de Depardieu com o fisco francês) sendo de esperar que continuem a surgir novas aventuras (reais ou animadas) do duo em anos vindouros.

16.09.22

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

De entre os muitos géneros cinematográficos normalmente associados com os anos 90, os filmes de família estão entre os mais imediatamente memoráveis, dada a quantidade e qualidade das longas-metragens deste estilo produzidas durante essa década. De Sozinho em Casa e Papá Para Sempre a Hook e Parque Jurássico, passando pelos filmes das Tartarugas Ninja, por vários grandes sucessos de Jim Carrey e, claro, por uma sucessão de obras-primas da Disney, não faltam exemplos de obras que justificaram bem a ida ao cinema, e que, mais tarde, gozaram de nova vida no circuito de vídeo e DVD.

Uma dessas obras, que completou em finais do mês transacto três décadas sobre a sua estreia em Portugal, foi 'Beethoven', o filme que criou em muitas crianças da altura (em Portugal e não só) o desejo de adoptar um cão São Bernardo, ao mesmo tempo que tentava alertar para os perigos de tal acto, especialmente para quem não soubesse 'ao que ia'; e por, por alturas do referido aniversário, termos estado ocupados com outros temas (além de, na última Sessão de Sexta, termos preferido falar sobre 'O Quinto Elemento') dedicaremos agora, ainda que já algo tardiamente, algumas linhas a um filme que, quase sem querer, acabou por ter influência não só na geração em causa, como também na seguinte.

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Representante perfeito de um tipo de filme intemporal, mas cuja fase moderna remonta a finais dos anos 80, 'Beethoven' conta a história de como o cão homónimo, um São Bernardo de raça pura, afecta a vida da família que o adopta, após o encontrar abandonado na rua em cachorro – um processo que engloba todas as peripécias expectáveis, do desespero inicial à eventual aceitação e à formação de elos de amizade e amor. A este enredo junta-se ainda, a partir de meio, uma segunda trama, centrada em torno de um veterinário pouco escrupuloso, como que para justificar a existência deste filme enquanto obra cinematográfica; no entanto, não há como negar que o principal interesse deste filme para o seu público-alvo estava mesmo no farfalhudo protagonista, e nos 'desastres' que o seu tamanho e movimentos abrutalhados causavam, sendo estas as principais razões por detrás do sucesso do filme à época da sua estreia.

Claro que, da perspectiva de um cinéfilo adulto, e com trinta anos de filmes de permeio, 'Beethoven' dificilmente pode ser considerado um bom filme; mesmo dentro do sector infantil, existem opções bem mais sofisticadas, divertidas e bem conseguidas. No entanto, pode-se argumentar que nunca terá sido esse o propósito do filme, inserindo-se o mesmo na 'escola Sozinho em Casa' de obras em que o principal foco cai sobre a comédia física, causada (acidental ou propositadamente) por um protagonista declarada e descaradamente 'fofo' – humano no caso de 'Sozinho em Casa', animal no de 'Beethoven'; e o mínimo que se pode dizer é que essa receita resultou esplendidamente para ambas as propriedades, as quais viriam, em anos vindouros, a dar origem a toda uma série de filmes com o mesmo título. E se, para ambas, esse desenvolvimento apenas se deu várias décadas após a estreia do original, também é verdade que as duas tiveram direito à obrigatória sequela ainda na mesma década, apenas um par de anos depois do lançamento do primeiro filme – a qual, previsivelmente, obedecia à quase obrigatória fórmula das sequelas de apresentar 'mais do mesmo', mas ampliado.

No caso de 'Beethoven 2' (lançado logo no ano seguinte, em 1993) essa estratégia implicava o aparecimento não só de uma companheira para Beethoven, como da respectiva ninhada, sextuplicando o quociente de destruição massiva em casa dos pobres Newtons. Apesar de sobejamente divulgado por publicações como a Super Jovem, no entanto, este filme passou algo despercebido junto da mesma audiência que tornara o primeiro um sucesso – uma ocorrência algo inesperada, tendo em conta que se passara pouco menos de um ano desde a estreia do mesmo – e foi rapidamente esquecido pelo mundo cinematográfico em geral, sendo hoje em dia sobretudo recordado por ter dado azo a um jogo de vídeo para Super Nintendo, Game Gear e Mega Drive.

Esta relativa falta de interesse por parte do público-alvo não desencorajou, no entanto, os produtores do filme, que ressuscitariam o 'franchise', já no novo milénio, no âmbito do mercado do 'direct-to-video'. 'Beethoven 3', de 2000, deu o mote para nada menos do que SEIS novos filmes na década e meia subsequente, nos quais Beethoven viveu com aristocratas, foi estrela de cinema (dentro do próprio mundo do filme, claro está) e pirata e, como qualquer bom ícone comercial infantil, ajudou a salvar o Natal – tudo isto com a qualidade (ou falta dela) habitual deste tipo de produção, que fazia o primeiro filme parecer uma obra-prima por comparação. Ainda assim, os filmes foram, claramente, encontrando o seu público – presumivelmente, entre a mesma demografia que comprava as diversas sequelas de 'Sozinho em Casa', e que consistia já dos irmãos mais novos, e até filhos, de quem tinha assistido no cinema ao original.

Com tanto tempo passado (e tantos filmes lançados) desde o início da franquia, era inevitável que, mais cedo ou mais tarde, a popularidade do São Bernardo se principiasse a desvanecer – e a verdade é que 'Beethoven e o Tesouro Secreto', de 2014, marca, até agora, o último sinal de vida do 'franchise' iniciado doze anos e uns impressionantes OITO filmes antes (quase o dobro dos 'Sozinho em Casa' lançados até hoje). A verdade, no entanto, é que a maioria deste tempo de vida foi passado no 'subterrâneo' cinematográfico do 'direct-to-video', tendo apenas os dois primeiros filmes da série tido verdadeiro impacto cultural – e mesmo esses, trinta anos volvidos, servem mais como exemplo de que os 'putos' dos anos 90 eram pouco exigentes no tocante a material de longa-metragem do que propriamente como obras de qualidade intemporal. Ainda assim, quem na infância desejou ter (ou teve) um São Bernardo, quase certamente recordará com carinho o filme do cão com nome de compositor, e as suas tropelias em casa dos seus desafortunados donos...

20.08.22

NOTA: Este post é correspondente a Sexta-feira, 19 de Agosto de 2022.

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Independentemente do tipo de educação e contexto que tenham tido durante a infância, há filmes que todos os portugueses se lembram de ter visto, pelo menos uma vez, durante esse período, seja por terem sido daqueles filmes que 'tinham' de se ver - à maneira de um 'Parque Jurássico', 'Space Jam' ou dos filmes lançados uma a duas vezes por ano pela Disney - ou simplesmente por se terem tornado 'clássicos' do aluguer em vídeo ou das emissões televisivas. O advento da TV Cabo - com os seus canais exclusivamente dedicados a filmes e, como tal, obrigados a mostrar repetidas vezes o mesmo material - veio exacerbar ainda mais esta tendência, e apresentar a toda uma geração mais uma série de 'clássicos' das tardes de fim-de-semana.

Um dos mais relembrados de entre essa 'safra' de filmes é 'Voando P'ra Casa', uma ficcionalização de uma história verídica sobre o elo entre uma jovem e um bando de gansos do Canadá, que revelou ao Mundo a promissora Anna Paquin, e que completa no próximo fim-de-semana um exacto quarto de século sobre a sua estreia cinematográfica em Portugal, a 29 de Agosto de 1997. Não terá, no entanto, sido nessa altura que a maioria dos jovens portugueses terá visto o filme, que, conforme acima referimos, se tornou presença assídua (quase perene) na grelha do Canal Hollywood e, mais tarde, de outros canais de cinema dos pacotes de cabo, onde pode ser visto até aos dias de hoje.

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Baseado numa obra autobiográfica da autoria de Bill Lishman, 'Fly Away Home' (de seu título original) conta a história da jovem canadiana Amy Alden (Paquin, então com apenas treze anos) que, após a morte da mãe, é forçada a ir morar com o pai (Jeff Bridges), de quem terá de aprender como se aproximar; o seu processo de adaptação é, então, 'espelhado' na descoberta de um ninho de gansos do Canadá, também órfãos, que Amy acolhe e se empenha em criar o melhor que pode. Inevitavelmente, no entanto, chega a hora de ter que devolver os gansos à liberdade, um desafio que Amy terá de se esforçar por superar...

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Anna Paquin com as verdadeiras estrelas do filme.

Há bons motivos para 'Voando P'ra Casa' ser considerado um clássico entre os filmes de família modernos; para além da constante repetição em diferentes canais do Cabo, a película tem tudo o que se requer de uma obra deste tipo: animais bebés fofinhos, momentos sentimentais (positivos e negativos), drama quanto baste, cenas marcantes e memoráveis (quem não se lembra de Amy a acompanhar os gansos na sua bicicleta, numa das cenas finais?) e também alguns momentos mais leves. Sem grandes coadjuvantes (além, é claro, dos com penas e asas), Paquin e Bridges provam-se mais do que à altura de 'carregar' às costas o filme com a primeira em particular a chamar a atenção pela interpretação adulta e multi-facetada. Apesar de não ser particularmente bem realizado ou 'espalhafatoso' (não que precisasse) é um filme que se vê muito bem até aos dias de hoje, e que certamente agradará a fãs de obras semelhantes, como a duologia 'Babe', também eles clássicos infanto-juvenis da época (e de que aqui, paulatinamente, falaremos); uma película, portanto, que vale bem a recordação por ocasião do vigésimo-quinto aniversário da sua estreia em Portugal.

05.08.22

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Nas últimas edições desta rubrica, temos dedicado atenção à carreira de Will Smith, que – na segunda metade dos anos 90 – progredia de mega-sucesso em mega-sucesso, transformando o actor numa das maiores estrelas de cinema da década, a par de um Robin Williams ou Jim Carrey; no entanto, nas imortais palavras do tio do Homem-Aranha, Ben Parker, 'grande poder acarreta grande responsabilidade', e o facto é que, já no final da década, século e milénio, Smith utilizou o seu poder para fazer uma escolha irresponsável – e quase deitou a sua carreira a perder com a mesma.

A escolha em causa foi a de aceitar o papel principal na adaptação para cinema da clássica série dos anos 60 'Wild Wild West' (encabeçada por Barry Sonnenfeld, com quem Smith trabalhara no mega-sucesso 'Homens de Negro') em detrimento de outro projecto, um ambicioso filme de ficção científica realizado por uma dupla de irmãos... Sim, Smith recusou mesmo o papel de Neo em 'Matrix', para representar um ex-coronel do exército americano do século XIX numa comédia de acção com estética de 'western cyberpunk' – um conceito tão confuso quanto o próprio filme em si.

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Não há como 'dourar a pílula' – 'Wild Wild West' foi uma bomba, daquelas de tais proporções que continuam a ser recordadas mais de duas décadas após o seu lançamento. Apesar de bem aceite pelo autor deste blog, ali por alturas do seu décimo-quarto aniversário, o filme foi pessimamente recebido tanto pela crítica como pelos fãs, tornando-se um 'ponto negro' na filmografia não só de Smith como de actores do calibre de Kevin Kline, Kenneth Branagh ou mesmo Salma Hayek, então em 'estado de graça'.

O mais curioso é que o filme tinha tudo para dar certo, desde um realizador já com provas dadas no género da comédia de acção até um elenco de luxo; o todo, no entanto, acabou por ser bem menos que a soma das partes, não obstante alguns elementos visuais memoráveis – como o corpo de aranha do vilão Dr. Loveless, de Branagh – e um tema-título contagiante, interpretado pelo próprio Smith (que já cantara o equivalente em 'Homens de Negro') com alguns convidados de primeira categoria. Nada, no entanto, que chegasse para evitar a 'derrocada' do filme nas bilheteiras de todo o Mundo – 'derrocada' essa que quase se verificava, também, nas carreiras dos principais envolvidos...

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O 'tanque-aranha' de Loveless é talvez o elemento mais memorável do filme.

Felizmente, o tempo provou que Smith tinha carisma suficiente para ultrapassar uma má escolha (pelo menos uma que não envolvesse altercações físicas com colegas de profissão) tendo o actor oriundo de Filadélfia continuado a gozar de enorme sucesso nas duas décadas subsequentes, embora agora, maioritariamente, em papéis mais sérios; já Branagh e Kline souberam aproveitar as suas credenciais para 'endireitarem' as respectivas carreiras, enquanto Hayek, jovem e bonita, não teve quaisquer problemas em recuperar deste 'tropeção'. A 'bomba' em que todos participaram – e que celebra este ano exactos vinte e três anos sobre a sua estreia em Portugal – acabou, assim, por não ter grandes consequências, àparte a sua inclusão na lista de crédito dos respectivos actores, que decerto prefeririam apagá-la dos registos; infelizmente para eles, tal não é possível, e 'Wild Wild West' servirá, para sempre, como exemplo de como uma má escolha pode, potencialmente, levar a consequências muito drásticas...

10.06.22

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Os anos 80 e 90 representaram o auge absoluto da carreira do realizador Steven Spielberg, que seria responsável, durante esse período, por uma sucessão de êxitos de bilheteira, a começar em 'Salteadores da Arca Perdida', de 1981, e que se estenderia durante mais de vinte anos, até pelo menos a 'Apanha-me Se Puderes', de 2002. Os filmes dirigidos a um público infanto-juvenil, em particular – 'E.T. - O Extraterrestre', 'Poltergeist', 'Os Goonies', as sagas 'Indiana Jones' e 'Parque Jurássico' – granjearam ao nova-iorquino uma reputação suficiente para que qualquer projecto por ele encabeçado e dirigido a esta demografia se tornasse um sucesso, por mais megalómano ou exagerado que fosse.

Serve este preâmbulo para falar de 'Hook', talvez O mais megalómano e exagerado de todos os filmes infanto-juvenis de Spielberg, que – mesmo com quase duas horas e meia de duração, e apresentando muitos dos piores 'tiques' do realizador – não deixou ainda assim de ser bem acolhido pelas crianças e jovens de inícios dos 90, não constituindo Portugal excepção neste aspecto.

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De facto, aquando da sua estreia em território nacional, a sequela para a clássica história de Peter Pan – que documenta o regresso do herói à Terra do Nunca, décadas depois de finalmente ter sucumbido à maturidade – suscitou considerável interesse entre o público-alvo, a quem nem mesmo a longa duração do filme (quase uma hora mais longo do que a maioria das películas destinadas à mesma demografia) conseguiu refrear o entusiasmo; como consequência, 'Hook' acabou mesmo por se afirmar como mais um na infindável lista de sucessos de Spielberg – mesmo sendo um dos filmes mais fracos do realizador durante esse período.

De facto, conforme referimos acima, a longa-metragem apresenta várias pechas, que não se resumem apenas à longa duração e ritmo algo indulgente; não foi à toa que, por exemplo, Julia Roberts foi nomeada para a Framboesa de Ouro relativa a Pior Atriz Coadjuvante – a sua prestação como Sininho, já de si repleta de todos os mais irritantes clichés da actriz, não sai de todo beneficiada pelos efeitos especiais da época. De igual modo, Williams surge neste filme em modo 'sentimentalão', sem a 'chama' que trazia a papéis sérios como 'O Clube dos Poetas Mortos' nem a veia cómica desenfreada das suas futuras prestações em 'Aladdin', 'Flubber' ou 'Papá Para Sempre'.

Valem, pois, as prestações de Dustin Hoffman como o titular Capitão Gancho – declaradamente e propositalmente afectada e exagerada – e do jovem Dante Basco como Rufio (líder dos Meninos Perdidos e 'substituto' de Peter tanto em idade como em aspecto e atitude) para manter o interesse do espectador comum, não sendo de estranhar que ambas constituam os elementos mais memoráveis da película.

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O Rufio de Dante Basco e o Capitão Gancho de Dustin Hoffman são os elementos mais memoráveis do filme

Em suma, apesar de não constituir de todo uma má opção para uma tarde chuvosa em família – quem conhece o Spielberg deste período sempre soube que estaria em boas mãos – 'Hook' deixa algo a desejar quando comparado com a esmagadora maioria das obras que o rodeiam na filmografia do realizador americano, devendo pois ser recordado (ou apresentado às gerações mais novas) apenas depois de esgotados todos os restantes marcos da filmografia Spielbergiana. Ainda assim, o filme chegou, à época, a ser marcante para um determinado sector da juventude portuguesa, pelo que, qualidade à parte, estas breves linhas em sua homenagem acabam por não ser totalmente descabidas...

28.05.22

NOTA: Este post diz respeito a Sexta-feira, 27 de Maio de 2022.

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Oa filmes baseados em videojogos têm, historicamente, estado entre as adaptações menos bem conseguidas da História do cinema moderno – um pódio que, em tempos, partilharam com as adaptações de banda desenhada. Mas enquanto que a reputação destas veio ser (muito) melhorada pelas produções multimilionárias dos estúdios da Marvel e DC Comics, o percurso dos videojogos no cinema continua a ser marcadamente errático, sendo cada tentativa razoavelmente conseguida (os três filmes de Tomb Raider ou o recente Uncharted) anulada pela existência de um desastre absoluto, que parece não ter qualquer ideia do que torna o material original apelativo para o seu público-alvo.

Serve este preâmbulo para apresentar, precisamente, um desses desastres absolutos que parecem não ter qualquer ideia do que torna o material original apelativo para o público-alvo – ou antes, aquele que talvez seja O exemplo-mor desta tendência: o filme de Super Mário.

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Estreado em Portugal em inícios de 1994, e produzido no ano anterior, 'Super Mário' (o filme) parece – ainda mais do que outros filmes deste tipo – fazer um esforço consciente para ignorar praticamente todos os elementos popularizados por jogos como 'Super Mario World', usando apenas os mais básicos e reconhecíveis (Mario, Luigi e Daisy são facilmente reconhecíveis, o vilão chama-se Rei Koopa, e há referências a cogumelos) e alterando rigorosamente TUDO o resto, por vezes de forma nada menos do que abstrusa; veja-se, por exemplo, o ambiente cyberpunk (!) do Reino dos Cogumelos, que apresenta os tradicionais Goombas (os atarracados e instantaneamente reconhecíveis cogumelos ambulantes que se popularizaram como o primeiríssimo inimigo do primeiríssimo jogo de Mario) como mutantes musculados e de feições deformadas (!!), o referido Koopa como um empresário (!!!) também ele mutante (!!!!) e com cabelo constituído por pequenos esporos de cogumelo (!!!!!), e Yoshi como um dinossauro semi-realista (!!!!!!).               smb-1280b-1623444752449.jpgsuper-mario-bros-movie-fans-restore-20-minutes-of-

No universo deste filme, ISTO é um Goomba (em cima) e ESTE é Koopa (em baixo)!!

Todo o filme toma esta toada, consistente com o credo, popular na Hollywood da época, de que para um filme de acção dirigido ao público jovem ser bem sucedido, tinha forçosamente de apresentar ambientes escuros e desolados - veja-se também, como exemplo deste fenómeno, o primeiro filme das Tartarugas Ninja. No entanto, onde essa obra apresentava cuidado, dedicação e sobretudo respeito pelo material de base, 'Super Mário' faz exactamente o contrário, quase parecendo um insulto propositado aos fãs do 'franchise' da Nintento por gostarem de algo tão tolo e colorido – o que torna ainda mais incongruentes os vários 'easter eggs' e referências aos jogos escondidos no cenário, prontos a serem encontrados por espectadores mais atentos.

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O universo do filme contém diversas referências a elementos dos jogos originais, apesar de pouco ou nada aproveitar dos mesmos.

Por este mesmo motivo, a primeira longa-metragem dos irmãos Mario (de quem ficamos, pelo menos, a saber ser esse o apelido) saldou-se como nada mais do que uma desilusão, que desperdiçava actores de confiança – Bob Hoskins e John Leguizamo vivem os personagens tanto ou mais do que 'Captain' Lou Albano e Danny Wells na versão televisiva do canalizador – num argumento pobre e sem qualquer tipo de relação com o universo estabelecido pelo franchise.

O resultado foi uma 'bomba' de proporções épicas, que merece plenamente o seu estatuto e reputação como um dos piores filmes, não só de videojogos, mas da década de 90 em geral – mas que muitos dos leitores deste blog terão, mesmo assim, ido ver ao cinema, dada a popularidade do material no qual (não) era baseado. Esperemos, pois, que a de há muito anunciada versão animada do canalizador italiano (a ser lançada pela francesa Illumination, de 'Gru, O Maldisposto' e 'Cantar!') consiga superar a sua antecessora 'de carne e osso' – embora, como este post terá demonstrado, tal não se afigure como uma missão particularmente espinhosa...

13.05.22

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

O cinema dos anos 90 foi frutíferos, acima de tudo, para actores de três géneros específicos: o romance, a acção e a comédia. E enquanto que Richard Gere, Brad Pitt, Johnny Depp e Leo DiCaprio arrasavam corações, e Bruce Willis, Stallone, Schwarzenegger e Van Damme arrasavam 'mauzões', no campo da comédia, agigantavam-se dois nomes: Robin Williams e Jim Carrey.

Em lados opostos do espectro de carreira – um já veterano de duas décadas, o outro ainda a lançar carreira – estes dois homens travaram, ao longo da década, uma fascinante batalha pela supremacia no campo da comédia 'mainstream' juvenil, a qual rendeu ao mundo do cinema alguns dos melhores exemplos de sempre do género; e enquanto Robin conquistava o público alvo com o seu trabalho de voz em 'Aladdin' e 'Ferngully', além de filmes como 'Papá Para Sempre', 'O Fabricante de Sonhos' ou 'Flubber - O Professor Distraído', Carrey utilizava da melhor maneira a sua impressionante elasticidade facial para dar vida a desenhos animados 'de carne e osso', em filmes como 'Doidos Á Solta', 'A Máscara', 'Batman Para Sempre' ou o binómio de filmes de Ace Ventura.

Desenrolava-se, assim, uma batalha fascinantemente 'taco a taco', que coincidiu até mesmo nos seus pontos mais fracos, tendo ambos os actores visto os seus filmes menos memoráveis serem lançados no mesmo ano, 1997. Mas se o referido 'Flubber', de Robin Williams, rapidamente cairia no esquecimento, a contribuição de Jim Carrey afirmar-se-ia, ainda assim, como um pouco mais memorável.

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Não, não existe imagem melhor do cartaz português do filme (crédito da imagem: Wook)

Prestes a completar vinte e cinco anos sobre a sua estreia em Portugal (a 16 de Maio de 1997), 'O Mentiroso Compulsivo' destaca-se hoje em dia, sobretudo, por ter marcado o final da 'fase cómica' da carreira de Carrey, tendo o actor procurado, em filmes subsequentes, diversificar o seu leque de géneros, com resultados surpreendentemente favoráveis; aqui, no entanto, o comediante surge ainda firmemente apoiado nas bocas, expressões e caretas que o haviam tornado conhecido, e que faziam, à época, o gáudio do público-alvo. No papel do titular mentiroso compulsivo – um advogado a quem um desejo de aniversário do filho obriga a apenas dizer a verdade durante 24 horas – Carrey tem inúmeras oportunidades para utilizar todo o seu repertório de expressões faciais, bem como os restantes truques no seu arsenal, das vozes aos gestos exagerados; pena é que o filme não seja suficientemente bom para dissipar a sensação de que a performance de Carrey nada mais é do que 'mais do mesmo', e que mais valia estar a ver novamente qualquer dos outros filmes do actor lançados até essa altura da década.

De facto, embora ainda hoje seja frequentemente exibido na televisão portuguesa, e esteja disponivel no Netflix europeu, 'Liar Liar' (o título original do filme) não é particularmente memorável, sendo até um pouco 'piroso' e sentimental, como só os filmes de família dos anos 90 o sabiam ser; comparado com a restante obra de Carrey, fica a faltar à obra de Tom Shadyac aquela sensação de anarquia e imprevisibilidade que o actor sempre trazia a qualquer um dos seus papéis. Como despedida do actor do mundo da comédia familiar, é, certamente, bem menos do que o mesmo merecia, e dá até algumas indicações sobre as razões que o levaram a afastar-se deste género – por sinal, no momento certo, justamente quando se arriscava a ficar, para sempre, 'preso' a um tipo de papel.

Em suma, na filmografia de Jim Carrey, 'O Mentiroso Compulsivo' perde-se entre as referidas obras-primas da comédia noventista e os não menos bem-conseguidos dramas que se lhes seguiram (e dos quais aqui paulatinamente falaremos), e só mesmo a efeméride do aniversário da estreia justifica que lhe sejam dedicadas estas linhas - isso e o facto de, à época, o filme ter (por qualquer razão inescrutável) sido pretexto para a oferta de um calendário de bolso na revista 'Super Jovem', que, ainda hoje, talvez seja a melhor coisinha associada a esta descartável comédia...

O YouTube não tem o 'trailer' em português, mas pelo menos tem os 'bloopers'...

15.04.22

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Para a geração que tinha uma certa idade nos anos 90, o humor cinematográfico era personificado, essencialmente, por dois nomes: Jim Carrey e Robin Williams. E se o primeiro gozou de uma daquelas décadas de fazer inveja a qualquer novato (à revelação com Ace Ventura - Detective Animal seguiram-se Doidos À Solta, A Máscara, Ace Ventura em África, Batman Para Sempre e O Mentiroso Compulsivo, antes da viragem para filmes mais sérios com os excelentes The Truman Show e Homem Na Lua) o segundo - de quem Carrey foi, em certa medida, sucessor, e cujo papel no terceiro filme de Batman acabou por 'usurpar' - efectivou nos anos 90 uma viragem de carreira, deixando de parte os papéis algo mais sérios que desempenhara nos anos 80 e retornando às suas raízes mais cómicas e direccionadas a um público mais infantil.

E o mínimo que se pode dizer é que essa opção foi extremamente bem sucedida, tendo o actor caído nas boas graças do público pré-adolescente da época, graças aos seus desempenhos em sucessos como O Fabricante de Sonhos, Aladdin (um dos melhores filmes da chamada 'Renascença' da Disney, em que interpretou, memoravelmente, o Génio da Lâmpada), Ferngully: As Aventuras de Zack e Krysta na Floresta Tropical, Papá Para Sempre, Hook (de Steven Spielberg) Jumanji ou Jack (de Francis Ford Coppolla) entre outros.

Foi, precisamente, em meio a este estado de graça que Williams aceitou representar um professor distraído (numa altura em que Eddie Murphy revivia a carreira com um papel muito semelhante, num filme também baseado num clássico do cinema a preto a branco) num 'remake' de uma comédia familiar da Disney, hoje algo esquecido - para ser sincero, algo justificadamente - mas cuja data de estreia em Portugal completou recentemente 24 anos.

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Falamos de Flubber - O Professor Distraído, estreado em Portugal a 27 de Março de 1998 e que procurava ser mais um na longa lista de sucessos infanto-juvenis de Williams, bem como na lista de 'remakes' bem-sucedidos de obras de décadas passadas (onde se contam também O Professor Distraído e Doutor Doolittle, de Murphy, e a versão em 'acção real' do clássico animado Os 101 Dálmatas, produzida no ano anterior.) No entanto, apesar do bom desempenho do filme nas bilheteiras mundiais, o mesmo é, hoje em dia, bem menos lembrado do que os seus congéneres acima mencionados, talvez por se tratar de um daqueles filmes que entretêm no imediato, mas caem no quase total esquecimento algum tempo depois de terem sido vistos.

De facto, apesar de as aventuras do professor Phillip Brainard (Williams) e da sua criação, a borracha voadora Flubber (corruptela de 'flying rubber') terem tudo para agradar ao público a que o filme se destina - a começar por muito, mas muito humor tipo 'pastelão' - existem, na mesma época e com a mesma demografia em mente - opções muito mais bem conseguidas, como Space Jam (também de 1997), Pequenos Soldados, do ano seguinte, ou o próprio Jumanji, em que Williams participara pouco mais de um ano antes. Comparado com estes, o filme de Williams sai, definitivamente, a perder, sendo a sua exibição recomendada apenas àqueles pais já falhos de opções para entreter os filhos, e que não querem recorrer ao 'Baby Shark' ou à Porca Peppa.

De realçar, ainda, que, em Portugal, a estreia de 'Flubber' ficou marcada pela oferta da novelização oficial do filme - numa daquelas traduções manhosas e meio 'às três pancadas' a que a Abril já habituara os jovens leitores com a série 'Arrepios' - como brinde numa edição da revista 'Super Jovem', então já na fase final da sua existência. E ainda que, presumivelmente, tal estratagema tenha ajudado a gerar interesse pelo filme por parte do público-alvo à época, o certo é que nem a mais bem conseguida campanha publicitária conseguiria transformar 'Flubber - O Professor Distraído' em algo mais do que uma das produções 'menores' da fase 'imperial' de Williams, um filme 'engraçado' para ver uma vez, mas que não chega aos calcanhares da obra anterior do actor (o clássico 'O Bom Rebelde') e que, quase um quarto de século após a sua estreia, se afirma como relevante apenas num contexto de recordação do passado, como o proposto por este blog; para o público cinéfilo em geral, o filme merece mesmo continuar no esquecimento...

01.04.22

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

As palavras 'Disney' e 'remake' causam, hoje em dia, uma reacção manifestamente negativa por parte da maioria dos fãs dos originais animados em que se baseiam; isto porque, independentemente dos actores, realizadores ou equipa técnica que contratem, e das maravilhas que consigam fazer com a tecnologia, a maioria destes filmes limita-se a reproduzir, de forma inferior, obras que, no formato animado, estavam próximas da perfeição – ou não fossem a maioria das visadas parte da chamada 'Renascença' da companhia, responsável por uma série de clássicos absolutos durante os anos 90. Mesmo as adaptações de filmes menores e menos bem-amados, como 'Dumbo', 'Tarzan' ou o eternamente injustiçado 'O Livro da Selva', deixam que a 'magia' dos originais se perca em meio a toda a 'magia' técnica, resultando em obras aborrecidas e com muito pouca razão de ser.

Nos anos 90, no entanto, a situação era diametralmente diferente – ainda em plena 'Renascença', a casa do Rato Mickey gozava de um estado de graça entre os fãs de filmes para toda a família, o qual, por sua vez, lhe concedia o direito a algumas experiências; e entre essas experiências contava-se, em 1996, a primeira instância de um 'remake' em acção real de um clássico animado, no caso 'Os 101 Dálmatas'.

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Acrescido, em Portugal, do nada prático e perfeitamente desnecessário sub-título 'Desta Vez A Magia É Real', o '101 Dálmatas' de 'carne e osso' fazia o que os 'remakes' modernos não conseguem, apresentando uma actualização da história, sem que, com a mesma, se perdessem os ingredientes básicos da fórmula que tornava o original tão querido por várias gerações. Os animais não falavam, e não havia canções (mas, verdade seja dita, o original também poucas tinha) mas continuava a haver quase uma centena de cachorrinhos dálmata, um casal de donos sem mãos a medir para tomar conta de tantos animais (Jeff Daniels e Joely Richardson), dois ladrões trapalhões, mas competentes (Hugh Laurie e Mark Williams) e, claro, a espampanante vilã Cruela de Vil, talvez o elemento mais memorável do original animado, e que, nesta nova versão, continua a roubar todas as cenas em que aparece, por via da fabulosa interpretação de Glenn Close. Só esta já vale os cerca de 100 minutos daquilo que é, de outro modo, um filme muito típico da época e do público-alvo a que se destinava.

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Jeff Bridges e Joely Richardson como Roger e Anita, com os respectivos cães

De facto, sem ser mau, '101 Dálmatas – Desta Vez A Magia É Real' (argh!) tem significativamente menos a oferecer a um público mais velho do que o original; este é, muito mais declaradamente, um filme para crianças – embora, graças aos padrões menos estritos da época, tenha ainda assim mais interesse para adultos do que os ultra-politicamente-correctos equivalentes actuais. 

No entanto, para aquilo que é, trata-se de uma obra bem conseguida – conforme mencionado, as actualizações dos anos 50-60 para o fim do século XX resultam de forma natural, e em nada alteram aquela que continua a ser uma história simples, com um dos vilões, simultaneamente, menos grandiosos e mais cruéis de todo o acervo Disney. Os números, aliás, comprovam-no, tendo o sucesso deste primeiro filme sido suficiente para dar azo a uma sequela, '102 Dálmatas', já no dealbar do novo milénio - tratando-se esta, ainda mais que o original, de uma obra estritamente dirigida aos mais pequenos, e que realça e exacerba alguns dos problemas que todos esperavam que o original tivesse (incluindo animais falantes - e irritantes), e que o mesmo conseguiu evitar.

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'Poster' original da sequela, 'Os 102 Dálmatas', de 2000

Quanto ao primeiro esforço, no entanto, sem ser nada que tenha ficado para a História – ou mereça ficar – mas ainda hoje (três semanas depois de se ter celebrado o quarto de século sobre a sua estreia em Portugal, a 10 de Março de 1997) o mesmo continua a ser um bom filme para ir 'buscar' ao Disney+ numa tarde chuvosa, para uma sessão de nostalgia partilhada com os filhos ou sobrinhos...

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