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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

13.01.23

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Um dos estilos cinematográficos mais prolíficos e bem sucedidos dos anos 80 e 90 – a par do cinema de acção – foi a comédia, especificamente a dirigida a um público mais jovem. Senão, veja-se: só os primeiros anos da década a que este blog diz respeito viram ser lançados filmes como 'Sozinho em Casa', 'Beethoven', 'Papá Para Sempre', 'Jamaica Abaixo de Zero', 'Doidos À Solta' e 'A Máscara', além de duas 'duologias' normalmente mencionadas em conjunto: a de 'Bill e Ted', e aquela cujo primeiro filme completa daqui a precisamente uma semana trinta anos sobre a sua estreia em Portugal – 'Wayne's World', ou como é conhecida nos países lusófonos, 'Quanto Mais Idiota Melhor'.

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Apesar do título nacional dantesco, e que faz diminuir, desde logo, a vontade de assistir ao filme, a película que ajudou a lançar a carreira cinematográfica de Mike Myers – e que é, ainda hoje, o mais bem-sucedido exemplo de uma longa-metragem derivada do popularíssimo 'Saturday Night Live' – é muito melhor do que possa parecer à partida, que inclui alguns momentos de sátira subtil em meio às piadas propositamente básicas em torno dos dois protagonistas, e que consegue a proeza de 'cair no gosto' da mesma demografia que parodia: os fãs de 'rock' e 'heavy metal' clássico.

Muito deste sucesso deve-se às interpretações sem mácula de Myers e Dana Carvey como Wayne e Garth, os dois 'idiotas' do título, cujo programa de televisão amador produzido na sua cave para a rede de TV 'aberta' da sua pequena cidade se vê, subitamente, elevado ao estatuto de fenómeno nacional, depois de um produtor de escrúpulos duvidosos (Rob Reiner) ver nele uma oportunidade de facturar sobre a 'cultura jovem' da época, da qual o programa em causa inclui muitos dos principais elementos. O que se segue são noventa minutos de sátira à estrutura das grandes corporações, referências musicais aos principais artistas 'electrificados' da época (de Peter Frampton a Meat Loaf e Alice Cooper, ambos os quais fazem inesperadas e inusitadas participações especiais) e pelo menos um momento 'memético', em que Wayne, Garth e os restantes membros do seu grupo fazem 'headbanging' ao som de 'Bohemian Rhapsody', dos Queen. Um filme que, apesar de datado nas suas referências e atmosfera, ainda se 'aguenta' surpreendentemente bem três décadas volvidas, e pode render boas gargalhadas a qualquer fã deste tipo de comédia.

A melhor cena do filme, e um dos grandes momentos da Hstória da comédia noventista.

O mesmo, infelizmente, não se pode dizer da sequela. Lançado apenas um ano após o original, como era apanágio das segundas partes da época, 'Quanto Mais Idiota Melhor 2' tem alguns momentos inspirados, mas os mesmos perdem-se numa história algo desconexa, daquelas que mais parece um conjunto de situações 'retalhado' para parecer um todo coeso.

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Desta feita, Wayne e Garth tentam organizar um festival na sua área de residência, mas deparam-se com inúmeras complicações – uma premissa que, tal como aconteceu com o primeiro filme, poderia render alguns bons momentos de sátira à burocracia que tende a rodear a organização de eventos públicos, mas que acaba por ser gasta por entre visitas místico-espirituais a Jim Morrison e Sammy Davis Jr e participações especiais dos Aerosmith que pouco mais são que uma cópia deslavada das cenas de Alice Cooper no original. Tal como naquela obra, também o segundo filme tem o seu 'momento memético' – derivado de uma história contada, a dado ponto, por um suposto ex-'roadie' de Ozzy Osbourne – e algumas passagens inspiradas (além de uma Kim Basinger lindíssima como interesse romântico em moldes 'MILF' para Garth) mas o produto em geral fica muito abaixo do seu antecessor, sendo mais uma das muitas sequelas 'apressadas' criadas apenas para prolongar o sucesso da franquia, sem grandes considerações artísticas ou qualitativas – mas que, ainda assim, consegue ser melhor do que a esmagadora maioria dos produtos semelhantes feitos em décadas subsequentes.

No geral, aliás, qualquer dos dois filmes de Wayne e Garth continua a constituir uma excelente aposta para quem não queira mais da sua Sessão de Sexta do que dar umas boas gargalhadas nostálgicas – uma proeza admirável em tratando-se de filmes produidos numa era sócio-cultural tão diferente da actual como o foram os primeiros anos da década de 90...

23.12.22

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Apesar de a principal vertente da sua fama ter surgido no contexto do cinema de acção - do qual foi um dos grandes heróis durante os anos 80 e 90, tendo participado numa série de filmes marcantes do género - Arnold Schwarzenegger atravessou, no início e meados da última década do século XX, uma fase em que se tentou, também, afirmar como actor de comédia, tirando proveito do seu aguçado 'timing' cómico; e a verdade é que esta experiência, apesar de nem sempre totalmente bem conseguida, não deixou de render pelo menos um verdadeiro clássico, no excelente 'Um Polícia no Jardim-Escola', lançado logo em 1990. E apesar de os filmes seguintes do actor no mesmo registo - como 'Júnior' ou 'O Último Grande Herói' - não terem conseguido o mesmo sucesso, 'Arnie' viria, ainda, a contribuir para mais um filme de culto entre a juventude dos anos 90, bem como entre os fãs dos filmes de Natal. É desse filme, que completou esta semana vinte e seis anos sobre a sua estreia em Portugal, que falaremos nesta última Sexta de Sucessos antes da Consoada.

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Trata-se de 'O Tesouro de Natal' ('Jingle All The Way' de seu título original) estreado em terras lusas a 20 de Dezembro de 1996, numa altura em que a imagem de Schwarzenegger era, ainda, suficiente para 'vender' filmes por si só. E a verdade é que, sem 'Arnie', este filme talvez nem tivesse adquirido o estatuto de 'meme' 'tão mau que é bom' de que hoje goza, já que é das 'caretas' e dichotes de efeito do actor que advêm os momenos mais memoráveis da película, ficando as intervenções sem graça do insuportável Sinbad e restantes tentativas falhadas de fazer rir a audiência algo 'esquecidas' por comparação.

Schwarzenegger é responsável por muitos dos melhores momentos do filme.

Tal como existe, e longe de ser um bom filme ou merecer o estatuto de clássico da época natalícia gozado por filmes como 'Gremlins', 'O Estranho Mundo de Jack' ou o binómio 'Sozinho em Casa', 'O Tesouro de Natal' vale o visionamento apenas pela exibição tresloucada de 'Arnie', ao estilo das que tornam, hoje, conhecido Nicolas Cage, mas bastante mais intencional, e que transforma uma comédia de Natal comercial e medíocre em algo ainda hoje lembrado - ainda que ironicamente - por toda a geração que a ela assistiu há um quarto de século.

09.12.22

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

O 'filme de Natal' é, regra geral, um género cinematográfico adstrito a um conjunto de regras, simbologia e elementos extremamente específica e limitada, estabelecida ainda nos 'anos de Ouro' de Hollywood; tal não tem, no entanto, impedido certos cineastas de tentarem criar filmes tematizados em torno desta época que procuram fugir aos estereótipos e criar algo diferente (ou, pelo menos, diferenciado.) Um dos melhores exemplos deste fenómeno é uma película que completa hoje, 9 de Dezembro de 2022, exactos vinte e oito anos sobre a sua estreia em território nacional e que, ao longo desse tempo, se conseguiu tornar objecto de culto junto de várias gerações de um determinado sub-sector (ou, se preferirmos, 'tribo urbana') da sociedade ocidental.

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Falamos de 'O Estranho Mundo de Jack' (no original, 'The Nightmare Before Christmas'), um dos mais famosos trabalhos de um Tim Burton em estado de graça, e parcialmente responsável por popularizar os filmes de animação 'stop-motion' para adultos, filão a que o realizador e produtor viria a regressar por diversas vezes ao longo dos anos subsequentes.

Todo o culto em torno deste filme não é, aliás, imerecido: adequado tanto para audiências natalinas como para a festividade anterior, o 'Halloween', a odisseia de Jack Skellington para trazer o espírito de Natal a Halloweentown e ganhar o amor de Sally tem um estilo visual muito próprio e instantaneamente reconhecível (o qual representa, aliás, o principal factor do seu sucesso) um argumento inteligente e números musicais memoráveis, que fazem dele, com mérito, um dos clássicos de Natal modernos – um estatuto que merece bem mais do que obras como 'Elf – O Falso Duende', por exemplo.

Aliás, ainda que a técnica por detrás dos movimentos dos personagens comece já a mostrar alguns sinais de envelhecimento (natural, dadas as quase três décadas desde o seu lançamento) o filme continua a ser um feito técnico e tecnológico notável, bem como uma excelente escolha para uma sessão de cinema em casa nestas semanas de 'aquecimento' para a grande festa – sobretudo para quem gosta de uma certa vertente menos 'feliz' (se quisermos, mais 'gótica') nas suas produções festivas. Quem 'alinhar' nesta ideia, só tem, aliás, de clicar no 'link' abaixo (a versão integral dobrada em brasileiro, tal como teria saído nas salas portuguesas em 1994) e ver por si mesmo as razões que tornam este um dos maiores filmes de culto dos últimos trinta anos...

09.09.22

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Já anteriormente aqui abordámos o facto de, apesar de o género da ficção científica ter rendido muito mais clássicos nos anos 80 do que na década seguinte, os poucos grandes filmes do género que saíram durante os anos 90 terem, quase universalmente, adquirido o estatuto de clássicos desde a sua estreia; de 'O Exterminador Implacável 2' e 'O Dia da Independência' a 'Matrix' e 'Episódio I - A Ameaça Fantasma', a lista de mega-producções de temática futurista da última década constituiu um verdadeiro ror de êxitos de bilheteira, os quais almejaram também, muitas vezes, o consenso entre a sempre exigente crítica especializada.

Curiosamente, o ano de 1997 acabou por ser particularmente prolífero nesse campo, oferecendo às salas de cinema mundiais vários filmes de qualidade dentro deste género. De 'Homens de Negro' já aqui falámos; a 'O Enigma do Horizonte', atempadamente chegaremos; no entrementes, chega a altura de falar de um filme que celebrou há pouco mais de duas semanas o vigésimo-quinto aniversário da sua estreia nas salas portuguesas – facto que, por um lapso de calendarização, não chegámos na altura a assinalar. Neste 'post', corrigimos esse erro, e dedicamos finalmente umas linhas a 'O Quinto Elemento'.

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Realizado pelo excêntrico francês Luc Besson, conhecido pelos seus filmes de acção estilosos e com cenas 'a mil à hora', 'O Quinto Elemento' destoa um pouco na filmografia do cineasta, tendo muito pouco a ver com o anterior 'Léon, o Profissional', com o futuro mega-sucesso 'Taken' ou com a série 'Taxi', onde Besson foi guionista e produtor; onde esses eram filmes relativamente simples, de ambiente (mais ou menos) realista e focados na acção pura e dura, a longa-metragem de 1997 leva-nos até um futuro distante, claramente influenciado pelo clássico 'Blade Runner', e adopta um tom mais próximo deste do que da habitual linha 'Guy-Ritchie-parisiense' das obras de Besson. Em comum com muita da restante obra do francês, o filme tem a componente visual – repleta de penteados e perucas mirabolantes, a concorrer com o inevitável 'neon' que qualquer filme futurista tem que incluir – e o cuidado no desenvolvimento de personagens marcantes, com particular destaque para o andrógino empresário da vida nocturna Ruby, interpretado por Chris Tucker, hoje em dia talvez o elemento mais icónico e lembrado do filme.

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O excêntrico e andrógino Ruby de Chris Tucker é um dos personagens mais memoráveis do filme

Estes pequenos toques ajudam, em grande medida, a colmatar a história, que nada tem de especial, sendo a habitual trama sobre um polícia futurista (o Korben Dallas de Bruce Willis), também claramente herdada de 'Blade Runner', mas que é, ainda assim, apresentada e contada com competência acima da média, proporcionando duas horas de entretenimento garantido - como é, aliás, apanágio do realizador francês.

Em suma, 'O Quinto Elemento' é um filme bem típico da época estival (apesar do ambiente escuro e pós-apocalíptico) e que constituiu, à época da sua estreia, uma desculpa mais do que válida para escapar do sol de finais de Agosto para o frescor de uma sala de cinema; hoje, vinte e cinco anos depois desse momento, a obra de Luc Besson, além de continuar a 'aguentar-se' bastante bem, tem o prestígio adicional de não só ter inspirado futuras incursões do cineasta pelo ramo da ficção científica – como 'Lucy' ou o mais recente 'Valerian e a Cidade dos Mil Planetas' – como também se contar entre os melhores lançamentos do género a sair da década de 90, tendo-se merecidamente tornado um clássico dos videoclubes da viragem de milénio. Razões mais que suficientes para que lhe dediquemos (ainda que já atrasadamente) esta mão-cheia de parágrafos...

22.07.22

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Mesmo depois do incidente ocorrido durante a cerimónia dos Óscares deste ano, continua a ser seguro considerar Will Smith uma das mais conhecidas celebridades do Mundo. Um raro caso de sucesso a duas frentes (além de um dos actores mais bem pagos da actualidade, conseguiu também enorme sucesso com a sua carreira discográfica) o natural de Filadélfia é uma daquelas caras instantaneamente reconhecíveis até para os mais distraídos – e é difícil negar que grande parte desse reconhecimento deve-se ao que o artista construiu durante a década de 90.

De facto, foi durante a última década do século XX que Smith viveu o apogeu da sua carreira, apresentando-se ao Mundo por meio da mítica 'sitcom' 'O Príncipe de Bel-Air' (que, paulatinamente, aqui merecerá destaque) e fazendo posteriormente a transição para o grande ecrã através de uma série de filmes de grande orçamento e ainda maior sucesso, iniciada em 'Os Bad Boys', de 1995 (que o lançou como actor de cinema e marcou outra estreia cinematográfica, no caso a do realizador Michael Bay), e que incluiu ainda dois mega-'blockbusters', que cimentaram definitivamente o estatuto do actor: primeiro 'O Dia da Independência', de Roland Emmerich, em 1996, e depois, no ano seguinte, o filme que abordamos neste texto, 'Homens de Negro'.

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Estreado por terras lusas há quase exactos 25 anos – a 28 de Julho de 1997 – a adaptação da BD homónima a cargo de Barry Sonnenfeld foi um dos maiores sucessos daquele ano, muito por conta da incrível química entre Smith e o seu coadjuvante, o veterano Tommy Lee Jones. No papel de dois agentes intergalácticos cuja missão é localizar e apreender extra-terrestres infiltrados entre os humanos – conhecidos apenas pelas suas iniciais, J e K – os dois actores elevam aquele que era já um guião de qualidade, tirando o máximo proveito dos seus 'tipos' opostos (o habitual homem pacato e carismático de Smith e o 'durão' de poucas palavras e com cara de poucos-amigos de Jones) para criar uma parelha dicotómica, mas que se prova capaz de trabalhar em conjunto para resolver a missão encomendada pelo seu chefe, Z; juntem-se a esta receita actuações secundárias de enorme qualidade, 'bonecos' impagáveis (como Frank, o carlino falante que se tornou imagem de marca da série) e uma mistura perfeita de humor, acção e ficção científica, e não é de admirar que 'Homens de Negro' tenha 'caído no gosto' da juventude portuguesa – como, aliás, já se passara no resto do Mundo.

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Cartaz da primeira sequela, lançada em 2002

Este sucesso prolongou-se, aliás, suficientemente no tempo para manter a 'marca' 'Homens de Negro' relevante não só até à estreia nacional da série animada baseada no filme (de que já aqui falámos num post recente), em 1999, como até à estreia da primeira sequela, cinco anos após o original e de há quase exactamente duas décadas a esta parte; previsivelmente, esse reconhecimento ajudou a que o segundo filme conhecesse, também, considerável sucesso – que, aliás, merecia, ficando quase ao nível do primeiro em termos de guião e desempenhos.

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Os dois últimos filmes da série já não conheceram o sucesso dos seus antecessores

O mesmo, infelizmente, não se pode dizer das duas sequelas seguintes, sendo que o terceiro filme (lançado DEZ ANOS depois de 'Homens de Negro II', e há quase exactamente uma década) apresentava uma fórmula já algo 'estafada' e a perder gás, enquanto que o quarto, de 2019 (já sem o envolvimento de qualquer dos actores principais do original) é universalmente considerado um daqueles 'remakes' desnecessários, cujo único intuito é capitalizar numa vaga percepção de nostalgia em relação ao 'franchise' em causa; nada, no entanto, que retire o mérito ao filme original, que continua – exactamente um quarto de século após a sua estreia em Portugal – a constituir uma excelente forma de passar duas horas em família, numa tarde chuvosa.

 

 

24.06.22

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

A segunda metade dos anos 90 assistiu a uma espécie de 'segunda vaga' de um género cinematográfico que marcara a década anterior para milhões de adolescentes um pouco por todo o Mundo: o filme de terror em que um assassino em série persegue grupos de jovens, matando-os um a um por qualquer motivo esotérico, revelado no final do filme.

Este reviver do 'slasher film' não se dava, no entanto, exactamente nos mesmos moldes da década anterior. Isto porque, onde os anos 80 haviam sido um período marcado por uma mentalidade social de ingenuidade e optimismo, os dez anos seguintes viram essa atitude tornar-se, progressivamente, mais sarcástica e auto-consciente, acabando essa mudança, como é natural, por se reflectir nos trabalhos artísticos desse período; assim, onde filmes como 'Sexta-Feira, 13' ou 'Halloween' haviam sido feitos para serem levados a sério, os seus congéneres da década de 90 vinham pré-equipados com uma atitude auto-referencial, que os leva a serem considerados por alguns críticos como sátiras do próprio género.

Talvez o melhor exemplo dessa mesma tendência seja o primeiro desses filmes, e grande responsável por 'lançar' toda essa segunda vaga de 'slasher films' – 'Gritos', obra que viria a dar azo a todo um franchise (ao melhor estilo dos clássicos originadores do género anteriormente referidos) e que celebra por estes dias o vigésimo-quinto aniversário da sua estreia em Portugal, a 27 de Junho de 1997.

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Realizado pelo mestre Wes Craven (de 'Hills Have Eyes' e 'Pesadelo em Elm Street') e tão ou mais conhecido pelas sequelas e paródias que suscitou (quem não se lembra da recriação da cena inicial no início de 'Scary Movie - Um Susto de Filme'?) como por mérito próprio, o primeiro 'Gritos' foi ainda responsável por adicionar outra cara icónica ao rol de vilões do género, na pessoa do carismático Ghostface – um assassino encapuçado e com uma máscara comprida de expressão triste, que rapidamente se tornaria tão reconhecível como Jason Voorhees, Freddy Krueger ou Michael Myers, com quem ombreia hoje em dia na galeria de 'monstros' deste tipo de filme.

Nem só do vilão, no entanto, vive este primeiro capítulo da série, que apresenta também uma Drew Barrymore adolescente, ainda a alguns anos de se tornar membro dos Anjos de Charlie, e que protagoniza precisamente a icónica cena de abertura (memoravelmente parodiada por Carmen Electra, no referido 'Um Susto de Filme'), um David Arquette então em alta (e a poucos meses de se tornar campeão de luta-livre pela WCW), a futura mulher deste último, Courteney Cox, e ainda nomes como Liev Schreiber e Neve Campbell, actriz que prometia bastante mas que nunca se notabilizou para além desta série de filmes. Este forte elenco ajuda a garantir prestações de qualidade num filme que, estando muito longe de ser uma obra-prima, deu nas vistas na época, e merece a reputação como clássico moderno do género.

A fórmula da série não seria, no entanto, aperfeiçoada até ao segundo filme, lançado nos Estados Unidos dois anos depois do original, mas que, em Portugal, surgiria com meros meses de diferença, em Fevereiro de 1998.

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Muito menos preocupado em ser levado a sério que o primeiro, 'Gritos 2' investe ainda mais na auto-referência, satirizando não só o seu género de filme como a indústria de Hollywood em geral, maioritariamente pela boca do personagem de Jamie Kennedy, que trabalha numa loja de vídeos e, como tal, não tem qualquer pejo em tecer comentários sobre toda uma panóplia de filmes e práticas cinematográficas. No restante elenco, além do regresso de todos os 'repetentes' sobreviventes do primeiro, destaque para a presença de Sarah Michelle Gellar, na altura sinónima com o seu papel de lançamento como Buffy Summers, a Caçadora de Vampiros, mas que aqui surge como apenas mais uma vítima do regressado Ghostface. Muito mais divertido e menos estereotipado que o original – muito por conta das supracitadas auto-referências – 'Gritos 2' é o melhor dos cinco capítulos da franquia lançados até hoje, e merece ser visto por qualquer fã deste tipo de filme.

E já que falamos em humor auto-referencial, uma palavra para o terceiro capítulo, lançado no ano 2000 (já um pouco fora do âmbito do nosso blog) mas que merece ser abordado, por assinalar a altura em que a série decide dar o 'meio passo' que já a separava da paródia assumida, e tornar-se, assumidamente, uma 'horror comedy'.

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É certo que muita da sátira fica reservada para o filme-dentro-do-filme, intitulado 'Stab' e baseado nos eventos do primeiro 'Gritos', mas a longa-metragem inclui também uma sequência mirabolante em que os personagens Jay e Silent Bob, criados pelo realizador de culto Kevin Smith, são vistos a visitar o estúdio em que o referido 'Stab' é filmado, e assistem em primeira mão à rodagem da cena final do filme, em que Shannen Doherty (a eterna rebelde Brenda, de Beverly Hills 90210) retira o capuz a Ghostface, e revela que este é...um orangotango! Juntamente com falas como 'tenho trinta e cinco anos e estou a interpretar uma personagem de vinte e um', estes elementos ajudam a transformar 'Gritos 3' na sátira ao género que a crítica tinha feito dos seus dois antecessores, mas que estes nunca haviam querido assumir totalmente.

Embora esse se afirmasse como o ponto ideal para terminar a franquia, no entanto, o dinheiro e a nostalgia falaram mais alto, e – talvez inspirados nos outros 'franchises' clássicos do género - transformaram a trilogia numa pentalogia.

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Infelizmente, tanto 'Gritos 4' como o filme realizado já este ano são significativamente menos inovadores ou divertidos que os seus (já algo derivativos) antecessores, pelo que não será levado a mal qualquer entusiasta que resolva fingir que a série só tem, mesmo, três títulos - constituindo qualquer um desses três uma excelente experiência de 'cinema-pipoca', mesmo à medida dos adolescentes da viragem do milénio. Não é, portanto, de admirar que a franquia tenha 'caído no gosto' da referida demografia, integrando as memórias nostálgicas da mesma e sendo ainda recordada com afeição por muitos dos que a vivenciaram, mesmo um quarto de século depois do seu início.

10.06.22

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Os anos 80 e 90 representaram o auge absoluto da carreira do realizador Steven Spielberg, que seria responsável, durante esse período, por uma sucessão de êxitos de bilheteira, a começar em 'Salteadores da Arca Perdida', de 1981, e que se estenderia durante mais de vinte anos, até pelo menos a 'Apanha-me Se Puderes', de 2002. Os filmes dirigidos a um público infanto-juvenil, em particular – 'E.T. - O Extraterrestre', 'Poltergeist', 'Os Goonies', as sagas 'Indiana Jones' e 'Parque Jurássico' – granjearam ao nova-iorquino uma reputação suficiente para que qualquer projecto por ele encabeçado e dirigido a esta demografia se tornasse um sucesso, por mais megalómano ou exagerado que fosse.

Serve este preâmbulo para falar de 'Hook', talvez O mais megalómano e exagerado de todos os filmes infanto-juvenis de Spielberg, que – mesmo com quase duas horas e meia de duração, e apresentando muitos dos piores 'tiques' do realizador – não deixou ainda assim de ser bem acolhido pelas crianças e jovens de inícios dos 90, não constituindo Portugal excepção neste aspecto.

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De facto, aquando da sua estreia em território nacional, a sequela para a clássica história de Peter Pan – que documenta o regresso do herói à Terra do Nunca, décadas depois de finalmente ter sucumbido à maturidade – suscitou considerável interesse entre o público-alvo, a quem nem mesmo a longa duração do filme (quase uma hora mais longo do que a maioria das películas destinadas à mesma demografia) conseguiu refrear o entusiasmo; como consequência, 'Hook' acabou mesmo por se afirmar como mais um na infindável lista de sucessos de Spielberg – mesmo sendo um dos filmes mais fracos do realizador durante esse período.

De facto, conforme referimos acima, a longa-metragem apresenta várias pechas, que não se resumem apenas à longa duração e ritmo algo indulgente; não foi à toa que, por exemplo, Julia Roberts foi nomeada para a Framboesa de Ouro relativa a Pior Atriz Coadjuvante – a sua prestação como Sininho, já de si repleta de todos os mais irritantes clichés da actriz, não sai de todo beneficiada pelos efeitos especiais da época. De igual modo, Williams surge neste filme em modo 'sentimentalão', sem a 'chama' que trazia a papéis sérios como 'O Clube dos Poetas Mortos' nem a veia cómica desenfreada das suas futuras prestações em 'Aladdin', 'Flubber' ou 'Papá Para Sempre'.

Valem, pois, as prestações de Dustin Hoffman como o titular Capitão Gancho – declaradamente e propositalmente afectada e exagerada – e do jovem Dante Basco como Rufio (líder dos Meninos Perdidos e 'substituto' de Peter tanto em idade como em aspecto e atitude) para manter o interesse do espectador comum, não sendo de estranhar que ambas constituam os elementos mais memoráveis da película.

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O Rufio de Dante Basco e o Capitão Gancho de Dustin Hoffman são os elementos mais memoráveis do filme

Em suma, apesar de não constituir de todo uma má opção para uma tarde chuvosa em família – quem conhece o Spielberg deste período sempre soube que estaria em boas mãos – 'Hook' deixa algo a desejar quando comparado com a esmagadora maioria das obras que o rodeiam na filmografia do realizador americano, devendo pois ser recordado (ou apresentado às gerações mais novas) apenas depois de esgotados todos os restantes marcos da filmografia Spielbergiana. Ainda assim, o filme chegou, à época, a ser marcante para um determinado sector da juventude portuguesa, pelo que, qualidade à parte, estas breves linhas em sua homenagem acabam por não ser totalmente descabidas...

29.04.22

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

O 25 de Abril é, por razões óbvias, um dos mais importantes no calendário de feriados português; afinal, foi neste dia que (sem disparar sequer um tiro ou fazer sequer um morto) o Movimento das Forças Armadas conseguiu levar a bom porto uma operação clandestina que destronou a ditadura e instaurou a democracia em Portugal.

Naturalmente, uma data de tal importância histórica foi, desde a sua ocorrência, inspiração para inúmeros trabalhos criativos e mediáticos, nos mais diversos campos; e se na passada Quarta-feira demos a conhecer uma dessas obras no campo da banda desenhada, chega agora a altura de 'adaptarmos' um pouco as nossas regras para falar do seu principal representante na área do cinema.

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Isto porque 'Capitães de Abril', o filme de que se fala neste post, saiu a 21 de Abril de 2000 – portanto, já uns meses 'fora' da década que dá nome ao nosso blog; no entanto, há uma máxima que diz que o primeiro ano de uma nova década ainda faz, mais ou menos, parte da anterior, pelo que este excelente representante do cinema português moderno acaba por se enquadrar no âmbito desta página.

Ou melhor, 'cinema português' assim, entre aspas, dado 'Capitães de Abril' ser uma colaboração entre Portugal, a vizinha Espanha, e os 'primos' latinos França e Itália, que não só financiam o filme como contribuem com alguns actores para o mesmo: sim, um filme sobre o principal evento da História de Portugal tem um elenco mais de metade estrangeiro – incluindo a maioria dos actores principais, os quais têm direito a dobragens estilo 'western spaghetti' que deixariam Sergio Leone orgulhoso (num memorável momento, o Salgueiro Maia de Stefano Acorsi lança um 'gaita!' que se consegue ver claramente, pelo movimento dos lábios, ser na verdade um 'cazzo!'...)

Apontar este tipo de defeitos ao filme de estreia de Maria de Medeiros como realizadora (ela que também encarna Antónia, a mulher de um dos Capitães), e que também conta no elenco com nomes sonantes do cinema nacional, como Rogério Samora, Joaquim Leitão, Canto e Castro e o 'internacional' português Joaquim de Almeida (além de, por qualquer razão desconhecida, Manuel João Vieira); isto porque - para lá de quaisquer dobragens ou daqueles momentos de representação menos conseguidos que todos os filmes portugueses têm - 'Capitães de Abril' consegue prender a atenção do espectador durante as suas duas horas de duração, levando-o numa 'viagem' na qual também cabem alguns momentos cómicos (estes propositados) e até românticos. E apesar de a maioria dos factos sobre o dia da revolução em si serem bem conhecidos, Medeiros consegue, ainda assim, apresentá-los de uma forma que faz com que os mesmos quase pareçam 'frescos' e inéditos, evitando que o filme caia na lentidão característica do cinema português e fazendo desta uma boa obra para mostrar aos mais jovens, para que aprendam sobre o dia que retrata; de ressalvar, no entanto, que este não é um filme para crianças – dizem-se asneiras, e existem alguns momentos de franca tensão mesmo para um público adulto.

Para os mais velhos, no entanto – e para aqueles que, mais de vinte anos depois, são já maduros o suficiente para aguentar uns palavrões e 'safanões' em filmes – o visionamento de 'Capitães de Abril' afigura-se como uma excelente maneira de celebrar o Dia da Liberdade português, na semana em que se completam 48 anos sobre o retorno da democracia ao nosso país. Por isso cliquem no link abaixo, e desfrutem!

04.03.22

NOTA: Para celebrar a estreia, esta sexta-feira, do novo filme de Batman, todos os 'posts' desta semana serão dedicados ao Homem-Morcego.

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Hoje, 4 de Março de 2022, assinala-se a chegada às salas de cinema de todo o Mundo de um novo filme de Batman, o Homem-Morcego – no caso, o quinto, primeiro desde há mais de uma década, e primeiro com Robert Pattinson no papel do justiceiro e milionário Bruce Wayne, em substituição de Ben Affleck; para comemorar esta efeméride, e terminar da melhor maneira uma semana em que temos vindo a recordar a época de auge de popularidade para o Cavaleiro das Trevas, iremos dedicar a Sessão desta Sexta a recordar os filmes que lançaram a carreira do herói de Gotham no grande ecrã, precisamente durante a década de 90.

De facto, apesar de ter havido, nos anos 60, uma tentativa de transformar em filme de longa-metragem a impagável série televisiva do Homem-Morcego (tendo o filme subsequente sido responsável por apresentar ao Mundo a engenhoca mais mirabolante do cinto de utilidades do herói, o Bat-Repelente para Tubarões) a maioria dos cinéfilos e fãs de super-heróis de banda desenhada considera como ponto de partida da carreira de Batman no cinema o filme homónimo, realizado e lançado em 1989, mas chegado à maioria dos países europeus apenas no ano seguinte, mesmo no dealbar de uma nova década. Com realização a cargo de Tim Burton, música da autoria de Prince, e uma campanha publicitária adequadamente milionária a gerar interesse garantido, 'Batman' (o filme) ajudou a provar que havia interesse num filme sobre um super-herói, e imbuiu o estilo de uma muito necessária dignidade, que dificilmente se encontrava em obras concorrentes mas de orçamentos comparativamente microscópicos, como o fraquinho 'Capitão América', do mesmo ano.

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Detentor de uma estética em tudo fiel à dos 'comics' do herói, inspirada no período da Lei Seca norte-americana, e imbuída das sensibilidades góticas de Burton - então ainda longe dos excessos 'Technicolor' que marcariam a fase posterior da sua carreira – o 'Batman' de 1989-90 é um filme surpreendentemente sombrio (pelo menos tendo em conta o público a que supostamente se destinava) e que consegue balancear na perfeição aspectos de policial 'noir' com aquilo que se poderia esperar de uma adaptação para o cinema das aventuras de um herói de banda desenhada, Apesar da escolha de Michael Keaton como Batman requerer alguma suspensão do cepticismo (é melhor não perguntar de onde surgem aqueles centímetros extra quando o 'baixote' Wayne põe o fato), o filme justifica a sua boa reputação, contando com uma realização previsivelmente personalizada e actuações de alto calibre, com destaque para Jack Nicholson, que 'rouba a cena' como Jack Napier, mais tarde conhecido como Joker. Àparte alguns aspectos mais simplistas, típicos da época (como a relação quase instantânea entre o Wayne de Keaton e uma Kim Basinger no auge da beleza) o filme continua a afirmar-se como uma excelente forma de passar duas horas numa noite de fim-de-semana, tendo resistido bastante bem ao passar das décadas.

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O mesmo, aliás, pode ser dito da sua sequela directa. Lançado em 1992, e de novo com Burton ao comando e Keaton como Bruce Wayne (tornando-o o único actor a envergar o fato do herói por dois filmes consecutivos até à chegada de Christian Bale, quinze anos depois) 'Batman Regressa' é, se possível, ainda mais escuro e sombrio que o seu antecessor a nível visual, com uma Gotham invernal, sempre coberta de neve, semi-escondida nas sombras, e tudo menos acolhedora, como que a dar valência ao argumento de que, lá porque um filme se passa na altura do Natal, não significa que seja, necessariamente, natalício (referimo-nos, claro, ao eterno debate sobre 'Assalto ao Arranha-Céus', sobre o qual demarcamos aqui a nossa posição.)

É neste mundo de sombras que se movem tanto o Cavaleiro das Trevas como dois vilões que nada ficam a dever a Joker, e que voltam a constituir o melhor aspecto do filme: uma sensualíssima Michelle Pfeiffer como Selina Kyle, a Mulher-Gato, e Danny DeVito como Oswald Cobblepot, o Pinguim, numa daquelas acções de 'casting' tão óbvias e perfeitas que chega a custar a acreditar serem reais. Mais uma vez, todos os três personagens são interpretados de forma magistral, justificando a colocação deste filme ao mesmo nível do seu antecessor por parte da maioria dos fãs do Homem-Morcego, e garantindo ao mesmo uma carreira cinematográfica ao mais alto nível na primeira metade da década.

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Infelizmente, desse ponto para a frente, o percurso de Batman no cinema far-se-ia em sentido descendente, pelo menos no que toca aos anos 90. Apesar de o sucesso de 'Regressa' ter aberto a porta a um terceiro filme, o mesmo – intitulado 'Batman Para Sempre' e lançado em 1995 - já não contaria com o contributo de Burton, que seria substituído por um realizador de características substancialmente diferentes, e algo menos talentoso, Joel Schumacher. De igual modo, Keaton cedia o fato do Homem-Morcego a Val Kilmer, até hoje o único Bruce Wayne loiro, e sem dúvida o que menos se assemelhava fisicamente ao personagem das BD's. Pior, a escolha de Kilmer representou um decréscimo considerável ao nível da representação, ainda para mais tendo em conta o calibre dos seus coadjuvantes, que eram compostos, mais uma vez, por uma loira sensual (desta vez, Nicole Kidman) e dois vilões cheios de personalidade e que 'roubam' o filme ao protagonisa – o que, tendo em conta que o mesmo se trata de Val Kilmer e que os vilões são interpretados por Tommy Lee Jones e um Jim Carrey no auge da fama e totalmente em modo 'caretas e negaças', é uma tarefa ainda mais fácil do que em capítulos anteriores.

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Os dois impagáveis vilões, talvez o principal ponto alto de 'Batman Para Sempre'

A principal pecha de 'Batman Para Sempre' não é, no entanto, a mudança de protagonista, mas antes o guião e abordagem algo mais 'infantilizados' do que antes – como o demonstra a presença de Carrey, então super-popular entre as crianças pelas suas interpretações de Ace Ventura e Stanley Ipkiss, A Máscara, e cujo Riddler constitui um 'boneco' bastante semelhante. A introdução de Robin, vivido por Chris O'Donnell, é mais uma aparente concessão ao público infanto-juvenil, tendo em conta a atitude de adolescente rebelde de que o personagem é imbuído, e os muitos momentos de (mau) diálogo 'espertalhão' que partilha com Batman.

Ainda assim, e apesar dos seus defeitos, 'Para Sempre' marcou época com uma determinada geração, demasiado nova para ter visto os Batmans de Burton, e para quem este filme era, portanto, o primeiro contacto com o Homem-Morcego; para esses (entre os quais nos contamos) o filme foi um 'acontecimento', e terá constado na lista de favoritos durante pelo menos alguns meses, até ao lançamento do próximo filme da Disney. Hoje em dia, o terceiro filme de Batman é tido como apenas mediano, longe do brilho dos dois primeiros, mas ainda assim muito melhor do que aquilo que se lhe seguiria.

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E aquilo que se lhe seguiria, em 1997, era provavelmente o mais incompreendido e erroneamente interpretado de todos os filmes do Cavaleiro das Trevas. Novamente realizado por Joel Schumacher (os realizadores dos filmes do Morcego eram bem mais constantes do que os actores escolhidos para o protagonizar) 'Batman & Robin' leva a série ainda mais declaradamente para a arena dos filmes para crianças, com diálogos repletos de frases-feitas e ápartes cómicos, e uma estrela (de)cadente (mas ainda reconhecível pelo público-alvo) no papel de vilão – desta feita o Exterminador Implacável em pessoa, Arnold Schwarzenegger, numa acção de 'casting' cómica de tão incompreensível. A seu lado está uma irreconhecível Uma Thurman, que o ajuda a fazer frente a O'Donnell, Alicia Silverstone (outra nova adição ao elenco, no papel de Batgirl) e George Clooney, mais um Bruce Wayne 'baixote' e munido de apetrechos algo insólitos, como mamilos de borracha no fato (…?) e um Bat-Cartão de Crédito, um dos alvos mais famosos de Doug Walker na sua série Nostalgia Critic (mas que, ainda assim, faz mais sentido do que Bat-Repelente para Tubarões, especialmente tendo em conta que Batman é, efectivamente, milionário.) E o mínimo que se pode dizer é que os dois vilões fazem jus aos seus antecessores, divertindo-se visivelmente com papéis que foram escritos para jogar com os seus pontos fortes (o diálogo de Schwarzenegger é quase totalmente constituído por frases de efeito.)

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Alicia Silverstone/Batgirl, a principal adição ao elenco de 'Batman & Robin'

Quanto ao filme em si, o mesmo procura prestar homenagem aos recursos limitados e ambiente 'fatela' da série dos anos 60, conforme ilustrado pelos cenários propositadamente pouco convincentes e diálogos em modo 'tão mau que é bom'. Se 'Para Sempre' representara já um distanciamento da seriedade sombria dos filmes de Burton. 'Batman & Robin' afasta-se ainda mais na direcção oposta, servindo como a representação mais próxima de uma banda desenhada desde o filme dos anos 60. Talvez por isso seja visto como não só, de longe, o pior dos filmes do herói da DC (que é, confortavelmente) mas também um dos piores filmes de todos os tempos – título algo hiperbólico e que, convenhamos, não chega a merecer.

Ainda assim, a recepção a este quarto capítulo das aventuras do Vingador Mascarado foi negativa o suficiente para colocar a sua carreira cinematográfica no limbo durante quase exactamente uma década; a próxima aparição do Morcego no grande ecrã dar-se-ia já no novo milénio, com toda uma geração que não tinha vivido os filmes originais pronta a acolher de braços abertos o herói de Gotham City. Essa história (que acaba de ter continuidade) já fica, no entanto, fora do âmbito deste blog, pelo que esta Bat-retrospectiva (e a Bat-semana em geral) se fica, por agora, por aqui.

25.02.22

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Nas Olimpíadas de Inverno de 1988, disputadas em Calgary, no Canadá, uma equipa de um país totalmente improvável protagonizou uma daquelas histórias de 'sangue, suor, lágrimas e triunfo' que normalmente só se vêem nos filmes; cinco anos depois, essa mesma história teve direito ao inevitável tratamento 'Hollywoodesco', que transformava a saga puramente 'underdog' da equipa jamaicana de 'bobsledding' (e que estranho é pensar que algo assim existiu MESMO, e não apenas na mente de um argumentista sob o efeito de drogas) numa daquelas comédias infantis coloridas e barulhentas típicas dessa época do cinema infantil. O que talvez não fosse de esperar seria que dessa manobra potencialmente cínica resultasse um filme que (no fim-de-semana em que se celebram exactos vinte e oito anos da sua estreia em Portugal, a 26 de Fevereiro de 1994) continua a ser um dos melhores representantes do seu estilo de cinema, e a agregar novos fãs a cada geração.

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Vendo bem as coisas, talvez isso não seja assim TÃO surpreendente – afinal, 'Jamaica Abaixo de Zero' (o horrendo título lusófono para 'Cool Runnings', o filme de que aqui se fala) teve a chancela da Walt Disney Pictures, ela que já havia sido responsável, um ano antes, por outro clássico do género, 'A Hora dos Campeões' (no original, 'The Mighty Ducks'), cuja sequela, lançada um ano depois de 'Cool Runnings', continua ainda hoje, a constituir o 'standard' máximo para as comédias desportivas infanto-juvenis. Uma companhia que percebia da 'poda', portanto, e que utilizou as suas décadas de experiência no ramo do cinema para crianças para assegurar que o filme sobre os jamaicanos a andar de trenó obedecia aos seus padrões de qualidade.- uma missão que não se pode considerar nada menos do que um retumbante sucesso.

De facto, 'Jamaica Abaixo de Zero' é aquele raro filme que consegue ter piada sem sacrificar o âmago da história – no caso, a luta dos quatro protagonistas (jamaicanos, mas interpretados por quatro actores nova-iorquinos...) para conseguirem a 'missão impossível' de qualificar pela primeira vez o seu país para as Olimpíadas de Inverno, com a ajuda de um treinador caído em desgraça, interpretado pelo malogrado John Candy.

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Os quatro protagonistas do filme

Um enredo que facilmente seria transformável numa sucessão de quedas supostamente 'humorísticas', mas que na verdade, deriva muito do seu humor e momentos mais memoráveis das interacções entre os personagens, cinco personalidades muito diferentes (e, por vezes, diametralmente opostas) que se vêem forçados a aprender a conviver em prol do bem comum; sim, há algumas quedas (a esmagadoria maioria protagonizadas pelo personagem de Doug E. Doug, Sanka Coffie, suscitando, inevitavelmente, o memorável bordão 'Sanka, morreste?') mas mesmo essas são bem contextualizadas pelos treinos e dificuldades da equipa em se adaptar a um desporto totalmente novo, nunca parecendo gratuitas ou forçadas.

E depois, claro, há o final, em que a Disney, numa atitude de louvar, decidiu preservar a verdade dos factos, em vez de optar pelo tradicional final feliz, que retiraria algum do impacto; tal como acaba, o filme suscita uma mistura de sentimentos perfeitamente deliciosa, que dificilmente se esperaria de um filme deste tipo. Um dos poucos casos em que o eterno 'cliché' do aplauso lento que vai aumentando de intensidade é bem merecido.

Grande parte destas decisões talvez derivem do facto de, na sua génese, 'Jamaica Abaixo de Zero' ter sido pensado como um filme totalmente sério, uma autobiografia ficcionada daquela equipa heróica, cuja história superava qualquer guião. Dificuldades na criação desta versão do filme ditaram, no entanto, a mudança de tom e toada, e a verdade é que – como sucederia com 'Pacha e o Imperador', do mesmo estúdio, alguns anos mais tarde – o filme não ficou a perder; antes pelo contrário, 'Cool Runnings' continua (conforme mencionado no início deste texto) a ser muitíssimo bem cotado por membros da 'geração X' e seguintes, tendo sobrevivido às enormes mudanças vividas pelo mundo do cinema nos últimos trinta anos. Como a equipa que retrata, o filme afirma-se como um 'sobrevivente', conseguindo manter-se à tona de sucessivas 'mudanças de maré', como que desafiando a que alguém pergunte: 'filme, morreste?', para que possa triunfalmente responder 'ná, meu...'

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