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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

22.03.24

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Os anos 90 representaram uma das épocas áureas para os filmes de família, com inúmeras propostas de elevada qualidade, tanto no tocante a películas de animação (com a Renascença Disney e o florescer da Pixar e da Dreamworks) como no campo da acção real, que rendeu clássicos como 'Sozinho em Casa', 'Beethoven', 'Libertem Willy', 'Space Jam', 'Pequenos Guerreiros', 'Voando P'ra Casa', 'Papá Para Sempre', 'Matilda, A Espalha Brasas', 'Jamaica Abaixo de Zero' ou 'Dennis o Pimentinha', entre muitos outros. A esta lista há, ainda, que juntar um filme sobre cuja estreia nacional se celebram este fim-de-semana exactos vinte e cinco anos, e que marcou toda uma geração de 'millennials' portugueses mais novos.

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Falamos de 'Babe - Um Porquinho Na Cidade', a sequela do já de si bem-sucedido 'Um Porquinho Chamado Babe', lançado em Portugal no Natal de 1995, e que voltava a apresentar os jovens espectadores ao suíno titular, 'estrela da companhia' na quinta do Sr. Hoggett, após a sua vitória no concurso de pastoreio, nas últimas cenas do filme original; é, precisamente, desse ponto que parte esta sequela, que segue Babe na sua primeira aventura fora da quinta, e o lança num ambiente urbano totalmente desconhecido para o herói animal. Está, assim, dado o mote para uma hora e meia de peripécias estilo 'peixe fora de água' (ou, neste caso, 'porco') à medida que Babe se vê obrigado a usar de toda a sua coragem para enfrentar o novo desafio de sobreviver num ambiente hostil - uma premissa que, sem ser exactamente original, nunca deixa de render uma boa trama para um filme infantil.

E é, precisamente, isso que 'Babe - Um Porquinho na Cidade' é - um bom filme infantil ou 'de família', alicerçado nos sempre 'confiáveis' animais falantes e 'fofinhos' com vozes de celebridades sobre os quais se centravam tantos outros filmes da época, e que 'envelheceu' suficientemente bem para não aborrecer as crianças das hiperactivas gerações 'Z' e 'Alfa', podendo assim constituir uma boa aposta para uma Sessão de Sexta (ou Sábado) em família, que permita aos mais novos conhecer mais um bom filme para a sua faixa etária, e aos pais 'matar saudades' de quando o viram no cinema, em pequenos, nos idos de Março de 1999...

29.12.23

NOTA: Por motivos de relevância, todas as Sextas-feiras de Dezembro serão Sessões.

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

No mundo do cinema comercial, qualquer filme ou propriedade que faça sucesso entre a sua demografia-alvo está, inevitavelmente, 'fadada' a transformar-se numa franquia, com tantos filmes quantos forem viáveis até os lucros começarem a diminuir. Foi assim, nos anos 80, com os filmes de terror para adolescentes, e tem sido assim, desde então, com grande parte dos filmes para crianças, tendo à cabeça a aparentemente interminável série de sequelas para 'Em Busca do Vale Encantado'. Além de Pézinho e seus amigos, no entanto, também propriedades como 'Shrek', 'Toy Story', 'O Panda do Kung Fu', 'Air Bud' (e a complementar série 'Buddies', com cachorrinhos bebés) ou 'Beethoven' tiveram direito a um sem-fim de filmes, especiais de Natal e Halloween, séries animadas e outros produtos relacionados, normalmente dirigidos à parcela 'resistente' (ou menos exigente) da base de fãs, e muitas vezes sem direito a estreia cinematográfica, sendo lançados directamente para o mercado de vídeo.

Como uma das mais conhecidas, famosas e historicamente apreciadas franquias de comédia infantis dos anos 90, não é de estranhar que 'Sozinho em Casa' tenha tido direito ao mesmo tratamento; surpreendente foi, apenas, o facto de a série ter ficado tanto tempo em 'águas de bacalhau' antes de os executivos da 20th Century Fox decidirem enveredar pelo rumo em causa. De facto, meia década medeia entre 'Sozinho em Casa 2: Perdido em Nova Iorque' (a natural sequela para o mega-sucesso que foi o original) e 'Sozinho em Casa 3', o primeiro dos 'restantes' filmes da franquia, sobre cuja estreia em Portugal se celebraram na semana transacta vinte e seis anos. E porque já vem sendo tradição deste nosso 'blog' abordar um capítulo da série por ano - e apesar de termos falhado a marca de quarto de século, tendo a nossa atenção, nessa instância, sido focada no trigésimo aniversário do segundo filme - nada melhor do que terminar este mês de Natal com uma breve análise do terceiro capítulo daquela que é, talvez, a franquia mais frequentemente associada à quadra em Portugal.

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E o primeiro aspecto a abordar ao falar de 'Sozinho em Casa 3' é o mais óbvio e, quiçá, impactante - nomeadamente, a ausência do icónico Macaulay Culkin, o qual, nos cinco anos desde a sequela directa, havia não só atingido e ultrapassado a puberdade - sendo, por isso, demasiado 'velho' para retomar o seu papel mais icónico - como também abandonado o mundo do cinema, ao qual apenas voltaria várias décadas depois; assim, apesar de o personagem principal deste terceiro filme também se chamar Kevin, o mesmo é marcadamente diferente do homónimo de Culkin, sendo mais novo, menos inocente, e de cabelo moreno, por oposição à icónica franja loira do seu antecessor. A época em que se passa o filme é, também, diferente, com o realizador Raja Gosnell (sucessor do entretanto conceituado Chris Columbus) a abandonar a ligação ao Natal e a ambientar o seu filme no tradicional período de Primavera/Verão, o que faz com que o mesmo se pareça menos com a ideia da geração 'millennial' do que deveria ser um filme da franquia 'Sozinho em Casa'.

Para além destas diferenças óbvias, no entanto, a fórmula continua a ser a mesma, com Kevin a encontrar-se, inesperadamente, 'Sozinho em Casa', e a ter de combater por si mesmo, com recurso a armas 'caseiras' e muita imaginação, bandidos que pretendem infiltrar-se no seu lar - no caso, para roubar um 'chip' informático acidentalmente escondido no carro telecomandado de Alex. Um enredo que procura recuperar a atmosfera do original, mas que acaba por ser prejudicado por certos toques de ambição desnecessários (os bandidos, por exemplo, são agora terroristas internacionais, ao invés de simples assaltantes de casas oportunistas) e que, apesar do envolvimento do histórico John Hughes, não consegue atingir o mesmo nível dos seus antecessores, fazendo desta terceira parte um notório 'passo atrás' em termos de qualidade e apelo familiar. De facto, ao contrário do que sucedia com os dois primeiros, 'Sozinho em Casa 3' é, declaradamente, um filme para crianças, do qual adultos ou até jovens um pouco mais velhos retirarão muito pouco; o foco é posto (ainda) mais na comédia física, e a vertente sentimental que ancorava os dois primeiros fica quase totalmente de lado, tornando a 'parte três' um daqueles filmes algo 'parvos' de que apenas um público muito jovem consegue gostar.

Ainda assim, e apesar das diferenças e 'fraquezas' assinaladas, 'Sozinho em Casa 3' conseguiu atingir moderado sucesso comercial, granjeando cerca de duas vezes e meia o seu orçamento - uma vantagem algo duvidosa, já que levou à produção, já no Novo Milénio, de mais dois filmes ainda mais fracos, e de projecção e impacto praticamente nulos (como referência, enquanto 'Sozinho em Casa 3' ainda saiu no cinema, a quarta e quinta partes foram...telefilmes). No entanto, enquanto produtos da década de 2000, ambas essas sequelas (bem como o inenarrável 'remake' criado já na presente década) ficam (felizmente) fora da jurisdição deste nosso 'blog', permitindo-nos finalizar este 'trio' de artigos sobre a franquia numa nota, ainda assim, relativamente positiva, mesmo que distante dos 'tempos áureos' em que Culkin fizera as delícias de toda uma geração com a sua 'tortura' semi-acidental de dois desafortunados ladrões...

22.12.23

NOTA: Por motivos de relevância, todas as Sextas-feiras de Dezembro serão Sessões.

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Apesar da sua riqueza narrativa e textual, e de fazerem parte do imaginário da maioria das crianças ocidentais, as histórias da Bíblia apenas esporadicamente têm servido de base a criações mediáticas para crianças, continuando a grande maioria dos exemplos de adaptações tanto do Novo como do Velho Testamento a apontar a um público adulto ou, no limite, familiar. Àparte a ocasional série ou filme animado de baixo orçamento baseado numa única história, o único exemplo verdadeiramente relevante de uma adaptação bíblica declaradamente infanto-juvenil celebrou no início desta semana exactos vinte e cinco anos sobre a sua estreia em Portugal, a 18 de Dezembro de 1998, e continua a ser lembrado como um dos melhores filmes 'para crianças' de finais do século XX, tendo contribuído, em larga medida, para cimentar a Dreamworks como concorrente da Walt Disney no mercado da animação.

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Falamos, claro está, de 'O Príncipe do Egipto', um dos últimos filmes 'tradicionalmente' animados do catálogo da companhia (que, poucos meses antes, dera o primeiro 'salto' total para o 3D, com o lançamento de 'Antz - Formiga Z') e unanimemente considerado um dos seus melhores, pela sua cuidada junção e curação de aspectos narrativos e artísticos em prol de um todo de elevadíssima qualidade, que aperfeiçoava o que o antecessor 'O Caminho Para El Dorado' estabelecera dois anos antes.

Propondo-se narrar a lendária história de Moisés, o profeta que, segundo a Bíblia, fez abrir o Mar Vermelho e permitiu a fuga de milhares de judeus do Egipto, o filme dá, no entanto, quase igual atenção ao irmão adoptivo do protagonista, o titular Príncipe (ou Faraó) Ramsés. Toda a primeira parte do filme se centra em mostrar a dinâmica fraternal entre ambos, com Moisés a comportar-se como o típico herdeiro de um soberano, em camaradagem com Ramsés; apenas após descobrir a verdade sobre as suas origens se começa a ver a transformação no protagonista, e, como consequência, na sua relação com o irmão adoptivo. A grande 'proeza' do filme é conseguir que, nesta fase, nenhum dos dois irmãos surja como vilão declarado, sendo fácil compreender os pontos de vista e sentimentos de ambos, e cabendo ao espectador decidir com quem alinhar as suas simpatias; ainda que seja Moisés quem é codificado como o herói, a vilania de Ramsés apenas se manifesta no terceiro acto, quando o mesmo leva a cabo a famosa perseguição a bebés. O resultado é um filme mais interessado no aspecto humano da narrativa do que na grandiosidade dos antigos épicos bíblicos, ainda que este aspecto não se encontre em falta, com a Dreamworks a fazer excelente uso não só das capacidades dos seus animadores como também dos melhores recursos CGI disponíveis à época.

Não é, pois, de surpreender que 'O Príncipe do Egipto' se tenha traduzido num enorme sucesso entre o seu público-alvo, não só em Portugal como um pouco por todo o Mundo, sendo que a versão nacional contava, ainda, com uma excelente dobragem, na linha das realizadas para os filmes da Disney da mesma época. Foi, portanto, também com naturalidade que a obra foi capaz de reter a percepção crítica, tanto por parte do público como da imprensa, ao longo das duas décadas e meia seguintes, tendo a sua 'fama' sobrevivido, mesmo, à 'passagem' de gerações - um feito notável para qualquer filme de finais do século XX. É, pois, mais que merecida esta homenagem, na semana em que se celebra um quarto de século sobre a estreia de um dos últimos grandes épicos infantis do século XX.

A versão em Português de uma das cenas icónicas do filme.

01.12.23

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Os anos 90 estiveram entre as décadas mais pródigas no que a filmes de família diz respeito. Senão, veja-se: o início da década viu serem lançados clássicos como 'O Meu Primeiro Beijo', 'Voando P'ra Casa', 'Beethoven', 'Sozinho em Casa', 'Papá Para Sempre', 'Três Bruxas Loucas', 'Hook' e 'Um Porquinho Chamado Babe', bem como vários dos melhores filmes da Disney, enquanto que os últimos anos antes da viragem do Milénio viram surgir a sequela do referido 'Babe', 'Pequenos Guerreiros', 'Anastasia', 'Matilda a Espalha-Brasas' ou a adaptação em 'acção real' d''Os 101 Dálmatas', além de ainda mais clássicos intemporais da chamada 'Renascença Disney'. A esta ilustre lista, há ainda que juntar um filme que comemora dentro de poucos dias vinte e cinco anos sobre a sua estreia em Portugal, e que, certamente, terá marcado a infância de muitos dos membros mais novos da geração 'millennial'.

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Trata-se de 'Pai Para Ti...Mãe Para Mim', um daqueles títulos desnecessariamente longos e complexos para um filme que, no original, se chamava simplesmente 'The Parent Trap'. Estreada em Portugal a 11 de Dezembro de 1998, esta actualização do filme do mesmo nome originalmente produzido em 1961 é, hoje em dia, famosa por ter servido de 'rampa de lançamento' para a carreira de uma tal Lindsay Lohan, que, na década seguinte, se tornaria presença frequente nas páginas dos tablóides e imprensa 'cor-de-rosa'. Em 1998, no entanto, a jovem actriz contava apenas doze anos, surgindo ainda com a inocência e charme infantil intactos, no papel de duas gémeas fisicamente idênticas, mas de personalidades opostas, que concebem um plano para evitar que os pais se separem, dando azo às habituais confusões e peripécias típicas deste género de filme.

E se Lohan era mesmo o principal foco de interesse para o público-alvo, já os espectadores adultos podiam apreciar as interpretações de Dennis Quaid e Natasha Richardson como pais das meninas, as quais podem ajudar a aliviar um pouco o tédio que, inevitavelmente, se abate sobre esta demografia ao assistir a filmes infantis – categoria na qual 'Pai Para Mim...' definitivamente se insere. De facto, este é um daqueles filmes em que um adulto sem filhos dificilmente terá interesse, sendo que mesmo os mais jovens apenas o revisitarão por questões mais nostálgicas. Para quem tem a cargo crianças da idade apropriada, no entanto, 'Pai Para Mim...' pode constituir uma interessante 'descoberta', e introduzir alguma variedade na infinita rotação de 'Frozen', 'Encanto', 'Carros' e 'Homem-Aranha'...

03.11.23

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

A década de 90 é unanimemente reconhecida, hoje, como um dos melhores períodos para o cinema de animação; afinal, foi nesse período de dez anos no final do século XX que se verificaram a chamada 'Renascença' dos estúdios Disney (que produziriam uma série de filmes ainda hoje icónicos e míticos, ao ritmo de um por ano, durante a grande maioria dos anos 90), a ponta final do período áureo de Don Bluth (iniciado na década anterior), o surgimento da Dreamworks como grande potência dentro do meio e, talvez mais significativamente, o nascimento da animação 3D, pela mão da inovadora Pixar, que, em tempo, aqui terá o seu espaço.

E se não eram muitos os que, à época arriscavam apostar nessa nova tecnologia – que conjugava a falta de créditos firmados com o preço exorbitante, numa combinação muito pouco apelativa – a verdade é que a referida Dreamworks resolveu mesmo dar esse 'salto', e seguir nas passadas da concorrente associada à Disney; e embora viesse a ser na década seguinte que a companhia de Jeffrey Katzenberg verdadeiramente 'abraçaria' a tecnologia, os anos 90 deixaram, ainda, pelo menos um exemplo de animação 3D criada pela mesma, o qual celebra dentro de poucos dias (a 6 de Novembro) um quarto de século sobre a sua estreia em Portugal.

Trata-se de 'Antz', que em Portugal levou o título de 'Formiga Z', conseguindo a proeza de, ao mesmo tempo, perder o trocadilho original e acabar por criar um novo. Isto porque o protagonista do filme se chama, precisamente, Z, dando ao título português um cariz biográfico que o original não tinha, e que se conjuga bem com o enredo do filme, que se centra precisamente sobre a crise existencial vivida pela referida formiga, e pelas suas tentativas falhadas de escapar da sociedade totalitária e ditatorial que habita, e de ganhar a mão da princesa das formigas.

Esta sinopse é, por si só, suficiente para dar a perceber o principal atractivo de 'Formiga Z' – nomeadamente, o facto de ser uma resposta adulta e sardónica ao que a rival Pixar vinha fazendo, e especificamente ao segundo filme da companhia, 'Uma Vida de Insecto', estreado no mesmo ano nos EUA mas que, paradoxalmente, viria a chegar a Portugal apenas quatro meses depois, já no início de 1999. Assim, o primeiro 'filme de formigas' para muitas crianças da época terá sido aquele em que uma formiga com a voz (no original) e atitude de Woody Allen discute temas sérios e adultos com o seu melhor amigo, o típico personagem 'brutamontes', que na versão original conta com a voz de Sylvester Stallone – uma experiência, diga-se, absolutamente incomum, numa era em que a Dreamworks ainda era mais conhecida pelos seus épicos pseudo-Disneyanos do que pelas comédias subversivas que a tornariam famosa na década e século seguintes.

Talvez por isso 'Formiga Z' tenha sido, e continue a ser, um filme polarizante, tanto entre os críticos como junto do público, que (pelo menos à época) esperava 'mais um' filme animado para 'matar' hora e meia com os pequenotes no cinema, e se deparava com uma espécie de versão animada das comédias negras realizadas e protagonizadas por Allen; a verdade, no entanto, é que apesar de 'Uma Vida de Insecto' ser vastamente superior do ponto de vista técnico, este talvez seja o mais interessante dos dois 'filmes de formigas', ainda que passe longe de constituir uma obra-prima. Talvez mais relevante seja a possibilidade de este filme ter encorajado a Dreamworks a prosseguir a via da animação 3D, a qual, três anos depois, lhe daria o filme (e franquia) com o qual é ainda hoje sinónima; por outras palavras, sem 'Formiga Z' talvez não tivesse havido 'Shrek'. Quanto mais não seja por isso, esta primeira 'aventura' da Dreamworks por terrenos 3D merece destaque, quando se assinala um quarto de século sobre a sua estreia nos ecrãs nacionais.

06.10.23

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

O género cinematográfico dos 'animais falantes' teve, nos anos imediatamente antes e depois da viragem do Milénio, a sua época áurea. Ao passo que os filmes centrados em animais do período mais clássico – entre os anos 50 e 70 – preferiam que fossem as acções dos protagonistas a construir e conduzir a narrativa, os seus congéneres de finais do século XX e inícios do seguinte não deixavam qualquer informação importante ao acaso, fazendo questão de transmiti-la na voz de uma qualquer celebridade, super-imposta aos movimentos labiais (acidentais ou gerados por computador) de um qualquer 'bicho'. E a verdade é que, no que toca a animais para 'fazer' falar, os papagaios estão inegavelmente entre as escolhas mais naturais, dada a sua habilidade intrínseca para aprender e reproduzir sons.

Está, assim, explicada a linha de pensamento por detrás de 'Paulie – O Papagaio Que Falava Demais', um filme cuja premissa é, literalmente, o reconto, por parte de um papagaio falante, das suas aventuras depois de ser separado da sua família adoptiva, e que procurava, claramente, almejar o mesmo nível de sucesso dos dois 'Regresso a Casa' ou da então incipiente franquia 'Doutor Doolittle'. E apesar de não ser, hoje em dia, lembrado com a mesma nostalgia de qualquer dessas duas propriedades, a verdade é que a película não deixa de constituir uma boa alternativa para uma tarde de fim-de-semana em família, até por não se dar aos excessos pseudo-cómicos de qualquer dos seus 'concorrentes'.

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Capa do DVD nacional do filme (crédito da foto: OLX).

De facto, no cômputo geral dos filmes de animais da década de 90, 'Paulie' é um filme menos frenético e hiperactivo do que 'Doutor Doolittle' ou 'Beethoven', colocando maior ênfase na aventura e nas relações interpessoais do que nas piadas constantes, sem no entanto perder o humor trazido pela interpretação de Jay Mohr como o personagem principal – sendo que, neste aspecto, o mesmo se aproxima sobremaneira do supramencionado 'Regresso a Casa' e respectiva sequela, ou ainda dos dois capítulos da saga 'Babe', o segundo dos quais produzido no mesmo ano. Efectivamente, apesar de as peripécias de Paulie se prestarem a vários momentos cómicos, sempre pontuados pelos 'dichotes' do papagaio, e dos diversos e caricatos humanos com quem se cruza, o cerne do filme reside, sobretudo, na carga emocional de ver o 'bicharoco' perder a família e acabar como cobaia num laboratório, sem que tal destino lhe retire a esperança e o optimismo, apesar do adivinhado fim trágico que se avizinha – um desfecho que, podendo ser algo 'forte' para a geração actual, não era totalmente incomum em filmes infantis mais clássicos, em que nem sempre tudo acabava bem.

Em suma, apesar de estar longe de ser um clássico ao nível dos restantes filmes mencionados neste 'post', 'Paulie' não deixa de constituir uma forma agradável de 'matar' uma hora e meia, capaz de manter as crianças interessadas sem aborrecer (muito) os adultos; perfeito, portanto, para um qualquer fim-de-tarde deste 'Verão de S. Martinho' antecipado que se vive actualmente em território português.

13.08.23

NOTA: Este post é respeitante a Sexta-Feira, 11 de Agosto de 2023.

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcante.

A transformação de propriedades intelectuais infanto-juvenis em filmes ou séries com actores de 'carne e osso' não era já, mesmo nos anos 90, nada de particularnente novo; pelo contrário, as duas décadas anteriores haviam já visto serem realizados filmes alusivos a criações como Super-Homem ou He-Man, e a própria década em causa já tinha, nos seus primeiros anos, acolhido filmes de Batman e das Tartarugas Ninja. Assim, foi sem grandes surpresas que, em 1993, os jovens de todo o Mundo viram chegar às salas de cinema mais uma adaptação deste tipo, no caso alusiva às aventuras do jovem 'terrorista' Dennis, o Pimentinha, cujo desenho animado continuava a ser visto por milhares de crianças naquele Portugal de fim de século.

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Estreado há quase exactos trinta anos, a 13 de Agosto de 1993, o filme da Warner Bros. trazia o jovem Mason Gamble (mais um dos muitos 'aspirantes a Macaulay Culkin' surgidos na sequência do sucesso de 'Sozinho em Casa') no papel do personagem principal, e o veterano da comédia Walter Matthau como o sofredor vizinho Sr. Wilson, o qual surgia com um pouco de cabelo a mais em relação à sua versão desenhada, mas de outra forma perfeitamente caracterizado. A este duo-charneira juntava-se, ainda, outro nome fulcral do cinema de humor da época, Christopher Lloyd, no papel de um vagabundo com quem Dennis se vê envolvido no desenrolar da trama, além de Lea Thompson e de uma jovem Natasha Lyonne, ainda a meia década do sucesso com 'American Pie'. Em conjunto, estes nomes são garantia de actuações de qualidade (o jovem Gamble dá boa conta de si ao lado dos actores veteranos que o rodeiam) e rendem bons momentos individuais, que qualquer fã da série ou da banda desenhada que a inspirou certamente reconhecerá.

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Dennis e os amigos, em 'carne e osso'.

Pena é, pois, que a trama seja pouco adequada ao estilo de Dennis e companhia, cujas aventuras tendem a ter um teor mais corriqueiro e de vida quotidiana; apesar de ser compreensível o esforço por criar uma história que prendesse o interesse durante noventa minutos (e que envolvesse bandidos, claro, ou não fosse essa a fórmula do mega-êxito de Chris Columbus) neste caso, essa abordagem acaba mesmo por trabalhar contra o filme - um problema que afectou também outras obras do mesmo período, como 'Tom e Jerry - O Filme'. Isto porque a maioria dos espectadores interessados num filme de Dennis, o Pimentinha, certamente prefeririam algo mais próximo aos enredos do desenho animado e respectiva BD, com Dennis a 'torturar' involuntariamente o pobre Sr. Wilson, a discutir com a pomposa e convencida Margaret, ou a arranjar sarilhos juntamente com o inseparável amigo Joey e o carismático cão Ruff - todos os quais surgem no filme perfeitamente caracterizados, mas apenas por breves momentos, sendo a maioria da película passada só com Dennis e o vagabundo de Lloyd, o que deixa a sensação de oportunidade perdida. Assim, tal como sucederia com 'Tom e Jerry' no ano seguinte, os primeiros momentos do filme acabam por ser os melhores, já que mostram, precisamente, o que o público-alvo esperava ver de uma longa-metragem deste tipo; quanto aos restantes noventa minutos, configuram um bom filme para crianças (ou não tivesse tido a intervenção de John Hughes) mas que acaba por ficar aquém do seu potencial.

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Ainda assim, o primeiro filme do Pimentinha conseguiu fazer sucesso suficiente para justificar a inevitável sequela exclusiva para o mercado de vídeo, cinco anos depois. Intitulada 'Dennis o Pimentinha Ataca de Novo', este segundo filme já não trazia quaisquer das estrelas envolvidas no original, nem mesmo Gamble. No seu lugar surge o desconhecido Justin Cooper (curiosamente, da mesma idade de Gamble, e como tal, igualmente 'velho' para interpretar o menino de cinco anos), ao lado de nomes consagrados da comédia americana como Don Rickles (a voz do Sr. Cabeça de Batata em 'Toy Story', aqui como o muito semelhante Sr. Wilson), Betty White (uma das célebres 'Golden Girls') ou o então 'na berra' Carrot Top, um daqueles comediantes frenéticos na linha Jim Carrey que o público americano da altura parecia adorar. A história, essa, continua na linha do original, com Dennis a tentar evitar que o igualmente travesso avô materno seja enganado por dois burlões que prometem a 'fonte da juventude'; o resultado é precisamente como se possa imaginar, com a agravante de o filme mal chegar à marca dos setenta minutos, o mínimo exigido para poder ser considerado uma longa-metragem. Não admira, pois, que esta segunda aventura não tenha jamais visto o interior de uma sala de cinema, e tenha feito todo o seu dinheiro no mercado VHS (onde, em Portugal, foi lançado em versão dobrada, tal como sucedera com o original.)

À distância de três décadas e um quarto de século, respectivamente, qualquer dos dois filmes do Pimentinha está longe de poder ser considerado um clássico infantil dos anos 90, uma década mais que prolífera nesse particular; ainda assim, ambos poderão, ainda, constituir boas escolhas para ocupar os mais pequenos durante uma tarde de chuva em casa, já que exibem todas as características que a referida demografia procura num filme, e provocarão certamente algumas gargalhadas. Nenhum deles é, no entanto, daqueles filmes de que o público mais 'crescido' poderá desfrutar juntamente com os mais novos; tratam-se, estritamente, de filmes para crianças, e qualquer adulto dará certamente por si a cabecear logo nos primeiros minutos de qualquer um deles...

21.07.23

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Os filmes 'de animais' sempre foram um dos géneros mais populares (e, como tal, lucrativos) do chamado 'cinema de família'; afinal, quem não gosta de passar uma hora e meia a ver patuscas criaturas livrarem-se de todo o tipo de peripécias? Não é, pois, de estranhar que este 'filão' tenha, tradicionalmente, sido bastante explorado por Hollywood ao longo das décadas, ainda que de formas algo diferentes: se em meados do século XX, os filmes tendiam a ser mais bucólicos e centrados nas façanhas dos animais em si, à medida que os anos avançaram, esta tendência inverteu-se, dando lugar à grande vaga de filmes com 'animais falantes' (ou quase) de finais do século. No entanto, apesar das diferenças, estas duas 'fases' do cinema 'de animais' têm, pelo menos, um elemento em comum: um filme em que dois cães e uma gata atravessam zonas rurais dos Estados Unidos na senda para se reunirem com os donos.

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De facto, 'Regresso a Casa' (no original, 'Homeward Bound: The Incredible Journey') acaba por ser o exemplo perfeito da mudança de sensibilidades entre as décadas de 60 e 90; isto porque se o filme de que é 'remake' – 'A Incrível Jornada', de 1963 – se focava mais nas façanhas dos três animais protagonistas e na beleza das zonas rurais da Califórnia, já a 'actualização' três décadas mais nova (e que celebra este fim-de-semana exactos trinta anos sobre a sua chegada a Portugal) aposta todas as suas 'fichas' nas piadas incessantemente 'debitadas' pelos actores de 'primeira linha' contratados para dar voz ao trio de personagens principais.

Reside, aliás, aí a principal diferença entre os dois filmes, já que os dois cães e gato de 1963 eram mudos, sendo as suas aventuras narradas por um elemento externo, enquanto que o Chance, Shadow e Sassy de 1993 relatam (de forma constante) as suas próprias aventuras, pelas vozes de, respectivamente, Michael J. Fox (inconfundível, mas aqui numa prestação frenética mais ao estilo Jack Black ou Robin Williams), Don Ameche e Sally Field, de 'Papá Para Sempre' e 'Matilda, a Espalha-Brasas'. E se Ameche consegue transmitir a dignidade necessária ao seu golden retriever sénior, e Field faz o mesmo quanto ao sarcasmo da adequadamente chamada Sassy (Atrevida), Fox é absolutamente insuportável no papel do jovem buldogue americano (que, no original, era um bull terrier) encarregue de carregar o arco dramático secundário da história, em que aprende a respeitar os seus companheiros e a amar os humanos que os acolhem – uma adição perfeitamente desnecessária a um filme onde as motivações e conflitos ficam já de si evidentes na própria premissa.

Também desnecessários são elementos como a relação das crianças com o novo padrasto, ou uma sequência de 'pastelão' passada num canil que parece só existir porque 'Sozinho em Casa' popularizara este género. Isto porque, na sua essência, o 'Regresso a Casa' de 1963 quer ser precisamente o mesmo que o seu antecessor – um filme de família tocante sobre um acontecimento naturalmente emotivo, ao estilo de um 'Voando P'ra Casa' mas com toques de comédia; e a verdade é que, a espaços, consegue mesmo atingir esse desiderato, nomeadamente nas cenas retiradas do primeiro filme, como a luta com uma mãe ursa ou a famosa cena em que a gata é apanhada pela corrente do rio. Pena, pois, que estes bons momentos sejam minimizados pelas CONSTANTES (e fraquinhas) 'piadolas', que nada acrescentam ao todo, e que tornam os primeiros minutos, em particular, praticamente inassistíveis.

Ainda assim, e apesar destes defeitos, 'Regresso a Casa' fez sucesso suficiente junto de crítica e público para justificar uma sequela, numa época em que qualquer filme para crianças tinha de ter, pelo menos, uma continuação. Lançado três anos após o original, 'Regresso a Casa II: Perdidos em São Francisco' traz 'mais do mesmo', mas agora em ambiente urbano, por oposição às florestas e montanhas do primeiro filme – e, curiosamente, na mesma cidade para a qual a família vai em lua-de-mel no primeiro filme, suscitando a necessidade de deixar para trás os animais...

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Como costuma suceder com este tipo de filme, no entanto, a segunda parte ficou aquém da primeira em termos de recepção, o que – a juntar às mudanças no panorama dos filmes infantis na ponta final do século XX – ditou o final prematuro do que, de outra forma, seria certamente uma franquia ao estilo 'Beethoven' ou 'Air Bud'.

Hoje, trinta anos após a sua estreia e vinte e sete após a sequela, 'Regresso a Casa' parece uma espécie de 'cápsula do tempo' para o início dos anos 90, tendo muito mais em comum com contemporâneos como 'Libertem Willy', 'Paulie', 'Querida, Encolhi Os Miúdos' ou o supramencionado 'Voando P'ra Casa' do que com obras como 'À Dúzia É Mais Barato', que representariam o protótipo do cinema infantil a partir de 1997 ou 98. Ainda assim, para quem se queira distanciar do humor mais 'vulgaróide' dessas obras (e tenha tolerância para um Michael J. Fox em 'modo Jim Carrey', requisito essencial para sequer pensar em abordar esta duologia) estes dois filmes continuam a constituir uma forma tolerável de passar uma tarde de chuva em família, especialmente quando combinados com o seu excelente antecessor, em formato 'Sessão Tripla', de forma a 'educar' a geração mais nova no que toca a bons filmes para a sua faixa etária...

30.06.23

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Apesar de ser a rainha inquestionável das longas-metragens infantis dos anos 90, a Disney não deixava de ter, na ponta final do século XX, 'concorrência' à altura neste campo – nomeadamente, da parte da Amblin Entertainment, de Spielberg e Don Bluth (sua concorrnte desde a década transacta), da recém-criada Dreamworks (que 'agitava as águas' com o excelente 'O Príncipe do Egipto'), e da Warner Brothers, que fazia por essa altura as suas primeiras tentativas de se estabelecer como criadora de filmes animados de grande orçamento. E apesar de este desiderato não ter sido inteiramente bem sucedido (no Novo Milénio, a companhia seria conhecida, sobretudo, com produtora de filmes animados com os super-heróis da DC, destinados ao mercado de vídeo e DVD) a divisão de animação da Warner não deixou de produzir pelo menos duas longas-metragens de considerável sucesso junto do público alvo. Da primeira, 'Space Jam', já aqui falámos anteriormente; agora, num fim-de-semana em que se assinalam os vinte e cinco anos sobre a sua estreia em Portugal, chega a altura de dedicarmos algumas linhas à outra.

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Capa do lançamento em DVD do filme.

Lançado nas salas de cinema lusitanas a 3 de Julho de 1998, 'A Espada Mágica' ('Quest for Camelot', no original) não disfarça as suas intenções de rivalizar com a Disney, que, nesse mesmo ano, lançaria o fabuloso épico de guerra 'Mulan'; pelo contrário, das personagens à história, formato musical e até ambientação, tudo neste filme é uma tentativa declarada de replicar a fórmula que, à época, tantos dividendos vinha rendendo à multi-nacional californiana. Senão veja-se: a trama segue uma humilde jovem camponesa da Inglaterra Arturiana, Kayley, que sonha ser cavaleira, mas encontra resistência por parte da sua família e comunidade, até um ataque à quinta da sua família por parte de um Cavaleiro da Távola Redonda renegado lhe dar a oportunidade de se tornar a heroína que sempre sonhou ser, e salvar não só a sua família, como todo o reino, tendo como aliados um eremita cego residente na floresta e um dragão de duas cabeças com as vozes de um elemento dos Monty Python e do Senhor Cabeça-de-Batata de 'Toy Story'. Junte-se a isto a presença de um vilão totalmente 'angular', cuja silhueta lembra tanto Radcliffe, de 'Pocahontas', como Jafar e até Frollo, e que conta com os habituais asseclas de teor cómico, e os vários interlúdios musicais (incluindo, claro, um logo na abertura do filme) e 'A Espada Mágica' quase podia fazer parte da lista de sucessos do chamado 'Renascimento Disney'.

Verdade seja dita, no entanto, esta 'cópia' é feita de forma bastante bem sucedida, ficando longe das produções barateiras que, no mesmo período, 'inundavam' o mercado caseiro com variações sobre os temas dos filmes da companhia do Rato Mickey, como forma de facturar sem grande esforço; pelo contrário, o orçamento disponível para este filme é evidente em todos os aspectos do mesmo, com um elenco original repleto de celebridades, personagens e canções cuidadas e memoráveis e até o uso ocasional de tecnologia CGI, como na cena inicial em torno da Távola Redonda.

A única pecha do filme acaba, assim, por ser o seu carácter declaradamente derivativo, o qual ajudou, ainda assim, a atrair às salas de cinema o público familiar (numa época em que era quase obrigatório ir ver cada novo filme de animação lançado em sala) mas rendeu postumamente ao filme o escárnio da Internet, para quem 'A Espada Mágica' se tornou - a par de 'As Aventuras de Zack e Chrysta na Floresta Tropical', outro filme que aqui terá paulatinamente o seu espaço – um dos alvos de crítica mais fáceis de toda a cultura nostálgica.

Quem não tenha tanto interesse em dissecar cada minúcia de um filme para criar interesse e provocar risos, no entanto, certamente achará que não era caso para tanto; 'A Espada Mágica' era, e continua a ser, um filme infantil perfeitamente aceitável (até acima da média) e envelheceu apenas um pouco menos bem do que os clássicos intemporais sugeridos na mesma época pela Disney. Como tal, aos vinte e cinco anos da sua estreia em Portugal, a grande aposta da Warner Brothers para fazer frente à 'casa' do Rato Mickey merece bem o mesmo tipo de homenagem que, logo nos primórdios deste nosso 'blog', prestámos aos referidos filmes, continuando a constituir uma excelente adição à ´rotação' de filmes infantis de qualquer lar de família nacional.

24.03.23

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Os filmes de animação de finais do século XX tendiam a estar associados a um de três nomes: por um lado, o da tradicional e decana Walt Disney, então a atravessar um 'renascimento' que lhe viria a render um segundo estado de graça, por outro o da 'estreante' Pixar e, apenas um meio passo atrás, o do realizador Don Bluth, o qual, em parceria com a Amblin Entertainment de Steven Spielberg, deixaria um legado de 'clássicos' de animação modernos. E apesar de a melhor fase do criador ter tido lugar entre meados da década de 80 e inícios da seguinte – quando produziu obras-primas como 'Fievel, Um Conto Americano' (e respectiva sequela), 'Em Busca do Vale Encantado' e 'Todos os Cães Merecem o Céu' – os últimos anos do século XX ainda veriam ser lançado pelo menos mais um clássico com o nome de Bluth à cabeça: 'Anastasia', uma versão ficcionalizada, bem ao estilo da concorrente Disney, da história verídica de Anastasia Romanoff, czarina russa que, reza a lenda, terá sobrevivido ao atentado que vitimou a sua família em 1917.

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Considerado hoje como o filme que marcou o regresso à forma do realizador norte-americano após obras menos conseguidas como 'Um Duende no Parque', 'Hubie, o Pinguim' ou a sequela de 'O Segredo de Nimh', a animação estreou em Portugal há quase exactos vinte e cinco anos, tendo chegado aos cinemas nacionais a 27 de Março de 1998, e conseguido boa aceitação entre o público infanto-juvenil nacional, apesar (ou talvez por causa) das semelhanças com as obras que a Disney vinha, à época, lançando anualmente. E se é verdade que o filme contém muitos dos elementos que se tornaram sinónimos com as animações da companhia do Rato Mickey – da protagonista que deseja mais da vida ao par romântico 'atrevido' e bem-parecido, sem esquecer os alivios cómicos, o vilão de traços angulares e, claro, as canções - nem por isso o mesmo deixa de ser um exemplo extremamente bem conseguido de um filme de família, capaz de maravilhar e até assustar o público-alvo (muito por conta do vilão Rasputin, uma daquelas criações que a equipa de animadores da Disney talvez desejasse ter concebido) sem descurar o público mais adulto – uma dicotomia que os melhores filmes animados e de família tendem a valorizar, e a saber balancear.

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O núcleo central de personagens do filme era bastante bem conseguido, com destaque para o pérfido vilão, Rasputin.

Talvez por isso 'Anastasia' se tenha tornado um dos 'clássicos menores' da animação dos anos 90, que, sem chegar ao nível de notabilidade de um 'Aladino' ou 'O Rei Leão', não deixa ainda assim de fazer parte das memórias nostálgicas de muitas crianças – portuguesas e não só. E a verdade é que tanto a animação quanto a história do filme 'envelheceram' marcadamente bem, afirmando-se como perfeitamente aceitáveis (e até acima da média) mesmo um quarto de século após o seu lançamento, e fazendo de 'Anastasia', ainda hoje, uma excelente proposta para um fim-de-semana chuvoso em família, em frente à televisão – quem sabe, como comemoração da data marcante que ora se assinala...?

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