04.10.25
NOTA: Este post é respeitante a Sexta-feira, 03 de Outubro de 2025.
Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.
No início dos anos 90, o género da comédia romântica moderna (a chamada 'rom-com') não era, ainda, tão prevalente quanto viria a ser na segunda metade da década, e durante grande parte da seguinte. Já havia, é claro, exemplos do género, mas mesmo estes apresentavam moldes um pouco diferentes daqueles que viriam a formar a tão conhecida e bem-sucedida fórmula que levaria milhões de casais às salas de cinema durante os dez a quinze anos seguintes. Isto porque, apesar de o famoso 'boy meets girl' ter sido o cerne da ficção – cinematográfica e não só – durante séculos, muitas das obras criadas até finais do século XX incorporavam outros elementos além da tensão romântica, e punham muitas vezes mais foco nestes do que propriamente nas desventuras do 'casalinho' de serviço.
Um dos filmes que ajudaria a mudar esse paradigma, e a lançar o género da 'rom-com' como a maioria dos 'millennials' o viriam a conhecer, chegava às salas de cinema portuguesas há exactos vinte e cinco anos, a 4 de Outubro de 1990, e afirmava-se imediatamente como um sucesso tão retumbante no nosso País como já o havia sido internacionalmente. E não é difícil perceber porquê – afinal, quem não se deixaria cativar pela velha história do 'ricaço' que descobre e se apaixona por uma jovem de origens comuns, mas com um coração de ouro e personalidade a condizer?

Sim, a história de 'Pretty Woman: Um Sonho de Mulher' mais não era do que uma variação do enredo de 'My Fair Lady', transposto da Inglaterra vitoriana para a América urbanizada, transformando o 'professor distraído' num 'yuppie' e a vendedora de flores numa prostituta, mas mantendo, de outra forma, a premissa-base do clássico musical. Para viver as personagens desta espécie de 'actualização não declarada' eram escolhidos o veterano 'bonitão' Richard Gere – então já com uma década como 'sex symbol' de Hollywood – e uma jovem de apenas vinte e um anos, de sorriso luminoso e longos cabelos frisados, de quem este filme faria uma das maiores estrelas do planeta durante pelo menos uma década. O seu nome? Julia Roberts, pois claro.
Curiosamente, e um pouco em linha com o pensamento veiculado no parágrafo inicial deste 'post', 'Um Sonho de Mulher' – que conta ainda com a participação de Hector Elizondo e Jason Alexander, o George Costanza de 'Seinfeld' - não tinha, inicialmente, sido pensado como romance, e muito menos como comédia; pelo contrário, a ideia inicial do argumentista J. F. Lawton era criar um drama sério e sombrio sobre a prostituição que então grassava em Los Angeles, um conceito que não podia estar mais longe do filme que acabou por 'ir a cena'. De igual modo, nem Gere nem (especialmente) Roberts teriam sido primeiras escolhas da equipa técnica, que queria Karen Allan no papel da prostituta Vivian (com as alternativas a passarem por Molly Ringwald, a 'menina do lado' dos anos 80, e ainda por nomes como Jennifer Connelly, Wynona Ryder, Drew Barrymore, Brooke Shields, Kristin Davis, Uma Thurman e Patricia Arquette), e havia considerado nomes tão díspares como Al Pacino, Christopher Lambert, Burt Reynolds, Daniel Day-Lewis, Kevin Kline, Christopher Reeve, Albert Brooks e até Denzel Washington ou Sylvester Stallone (!!) para o papel do galã. Se a ideia de um filme em que Michael Corleone, o Super-Homem ou o Rambo contracenam com a Poison Ivy de 'Batman e Robin' ou com a 'menina bonita' de 'O Clube' é por demais intrigante, a mesma terá, no entanto, de permanecer exclusivamente (e infelizmente) no campo da imaginação, já que todos esses actores rejeitaram o convite dos produtores, com mesmo Gere a só ficar totalmente convencido após conhecer Julia Roberts.
Como se costuma dizer, no entanto, 'há males que vêm por bem', já que os dois actores viriam a beneficiar largamente da sua participação no projecto, o qual – já depois de transformado numa trama leve e de cariz romântico – viria não só a afirmar-se como um dos maiores sucessos de sempre no seu género, como também a fornecer a matriz para duas décadas de filmes com cartazes de fundo branco e casais em poses ligeiramente 'marotas' ou divertidas – embora, na maioria dos casos, sem as alusões ao trabalho sexual que o original utilizava como base. Tivessem Lawton e os restantes elementos técnicos do filme seguido a sua ideia original, talvez o panorama cinematográfico dos anos 90 e 2000 tivesse sido significamente diferente, e talvez Gere e especiamente Roberts nunca tivessem conhecido o sucesso de que gozaram durante esse período. Tal e como existe, no entanto, 'Um Sonho de Mulher' é, sem dúvida, um marco do cinema americano moderno, totalmente merecedor de homenagem, quando se celebram trinta e cinco anos desde o dia em que apresentou ao público português as personagens de Edward Lewis e da 'mulher bonita' Vivian Ward.















