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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

14.03.25

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Já aqui anteriormente mencionámos os filmes com animais falantes como uma das principais tendências do cinema infantil nos anos imediatamente anteriores e imediatamente posteriores à viragem do Milénio – e cuja popularidade continua em alta, como o atesta o sucesso da trilogia 'Paddington', cujo mais recente filme foi lançado há apenas alguns meses à data deste 'post'. De facto, enquanto em tempos a 'magia' vinha das peripécias protagonizadas pelas estrelas de quatro patas, a partir dos anos 90 verificou-se uma tendência cada vez maior para guarnecer os referidos animais com vozes humanas, normalmente de celebridades que se pudessem publicitar no cartaz.

Esse paradigma foi levado ainda mais ao extremo já perto do final da década em causa, quando a 'moda' dos animais falantes foi combinada com outra – a do 'hóspede' invulgar mas amigável que deve ser mantido em segredo, muito popular na televisão americana dos anos 80 – dando origem a uma série de filmes relativamente bem sucedidos, e que terão marcado a infância de muitas crianças das duas gerações seguintes. Talvez o mais famoso exemplo desse novo género seja o filme que comemorou há pouco mais de uma semana (a 7 de Março) os vinte e cino anos da sua estreia em Portugal; e por, nessa ocasião, termos escolhido erroneamente falar de outro filme, vimos nas linhas seguintes rectificar esse erro, e celebrar o aniversário 'atrasado' de um dos filmes mais falados entre as crianças e jovens nos primeiro meses do Novo Milénio.

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Referimo-nos à primeira adaptação cinematográfica do livro infantil 'Stuart Little', concebida nos anos 40 por E. B. White, mas que o filme, talvez por questões de conveniência, actualiza para os anos 90. Já a trama-base mantém-se semelhante, seguindo as aventuras de Stuart Little, um rapaz sobredotado que faz jus ao seu apelido, tendo apenas trinta centímetros de altura e, por razões nunca explicadas, o aspecto de um rato branco, apesar de se tratar de uma criança filha de humanos - isto no livro, já que no filme, é apenas filho adoptivo dos Little, e se trata verdadeiramente de um rato falante e com inteligência humana. Em ambos os casos, Stuart deve fazer uso da sua agilidade e pensamento rápido para ultrapassar situações típicas do dia-a-dia de um ser do seu tamanho, e para manter a distância o gato da família, Snowball, cujos instintos lhe dizem que cace Stuart, pese embora saiba tratar-se de um membro da família. A fórmula perfeita para um filme de família, que balança o factor puramente estético do adorável Stuart com uma história capaz de manter cativados os elementos do público-alvo, e interpretações com a qualidade expectável de nomes como Geena Davis, Hugh Laurie, Steve Zahn, Nathan Lane, Jennifer Tilly e Michael J. Fox, que volta a dar voz a um animal, após viver o impetuoso pitbull no 'remake' de 'Regresso A Casa'.

Não admira, pois, que 'O Pequeno Stuart Little' tenha feito sucesso, senão entre os críticos especializados, pelo menos junto de quem interessava: os mais pequenos. Tanto assim que o filme viria a gerar duas sequelas (em 2002 e 2006) e uma série animada (em 2003), além dos habituais videojogos licenciados e produtos de 'merchandising'. O apelo e sucesso de Stuart foram, aliás, suficientemente continuados ao longo das duas décadas e meia seguintes para justificar a proposta de um 'reboot', em formato de série televisiva, há apenas um par de anos. Mas se esse projecto ficou em 'águas de bacalhau' – pelo menos até à data – os filmes, esses, continuam a fazer parte da 'rotação' de filmes dos canais portugueses em alturas de férias escolares e festas familiares, e a constituir excelentes alternativas para visionamento em família durante uma Sessão de Sexta, mesmo um quarto de século após a sua chegada às salas de cinema nacionais.

Spot televisivo do filme, transmitido em Julho de 2012 no canal AXN White.

20.07.24

NOTA: Este post é respeitante a Sexta-Feira, 19 de Julho de 2024.

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Já aqui por várias vezes referimos a existência de videojogos licenciados como a grande marca de sucesso de qualquer franquia infanto-juvenil de finais do século XX; no entanto, existe outro indicador, apenas ligeiramente abaixo desse, que denota que uma propriedade intelectual tem tracção junto do público-alvo – o lançamento de um filme de longa-metragem com os seus personagens. As criações de Hanna-Barbera, que viviam, nos anos 90, um surpreendente 'segundo fôlego', não foram diferentes nesse aspecto, tendo a referida década e o início da seguinte visto serem lançados uma série de filmes alusivos aos mais diversos grupos de personagens criados pela dupla em meados do século XX.

De facto, dos principais núcleos saídos da imaginação de William e Joe, apenas um não teve, até à data, direito a adaptação para longa-metragem – a futurista família Jetson. Dos restantes, dois protagonizariam filmes ainda nos anos 90, e outros dois na década seguinte, entre 2000 e 2010. E se estes últimos ficam, já, fora do âmbito deste nosso blog, os dois primeiros merecem ser recordados, por terem sido (de uma forma ou de outra) marcos do cinema infanto-juvenil de finais do século XX. De um deles, falaremos na próxima Sessão de Sexta, que sairá dias antes de se comemorar o trigésimo aniversário do seu lançamento em Portugal; este post será, pois, dedicado a relembrar o outro, que atingiu há cerca de três semanas esse mesmo marco. E por, nessa altura, termos escolhido falar de 'Libertem Willy', outro clássico do cinema infantil da época, nada melhor do que celebrarmos agora, ainda que tardiamente, essa efeméride – ainda que, à altura do seu lançamento, o referido filme se tenha revelado largamente desapontante.

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Até mesmo o cartaz prometia algo que os fãs queriam ver, mas que ficava muito longe do que o filme apresentava.

Isto porque 'Tom e Jerry: O Filme' (que chegava às salas portuguesas a 1 de Julho de 1994, com quase dois anos de atraso sobre os seus EUA natais, num dos piores casos de 'décalage' cultural da época) cometia o erro simples, honesto, mas irreparável de tentar ser aquilo que não era, e que ninguém queria que fosse – nomeadamente, um típico filme infantil, com a clássica estrutura criada e implementada pela Walt Disney. De facto, ao pensar num filme protagonizado pelo gato e rato mais famosos da televisão (e ainda com a popularidade em alta, graças à repetição dos episódios clássicos nos diversos canais abertos e de TV Cabo portugueses, e de séries como 'Tom and Jerry Kids') a maioria dos fãs imaginaria uma hora e meia de caos, numa espécie de versão alargada das velhas curtas dos anos 40 e 50, por oposição a um filme em que Tom e Jerry falam (!), travam amizade (!!) e defendem uma jovem orfã de parentes malvados (!!!).

Sim, 'Tom e Jerry: O Filme' pouco mais é do que uma versão mal disfarçada do primeiro filme de Bernardo e Bianca (à época já com duas décadas de vida) que revela um total e perfeitamente estarrecedor desconhecimento da dupla de personagens sobre a qual supostamente se centra, e que, precisamente por esse facto, não logrou convencer o jovem público, que antecipava humor violento e pastelão – uma premissa que talvez não 'segurasse' um filme de noventa minutos, mas que poderia ser utilizada para, pelo menos, ancorar uma história característica da dupla e coerente com as suas aventuras passadas, talvez com Tom a ter de proteger a casa onde ambos vivem, ou de percorrer a cidade para evitar uma situação lesante para a sua pessoa. Estes são apenas dois dos muitos argumentos que se poderiam criar em torno de Tom e Jerry sem os descaracterizar completamente, e sem ter de recorrer a mais palavras do que as poucas ocasionalmente proferidas por Tom – dois factores que, inevitavelmente, teriam resultado num muito melhor filme do que o apresentado pela Hanna-Barbera. Pior – a primeira cena do filme apresenta precisamente aquilo que os fãs esperavam, elevando-lhes as expectativas com uma clássica (e hilariante) perseguição para depois os defraudar apresentando algo totalmente incaracterístico.

Em suma, apesar da boa animação e do orçamento razoável para a época, 'Tom e Jerry: O Filme' dá um gigantesco 'tiro no pé', conseguindo algo que parecia quase impossível: desperdiçar a premissa fácil e lucrativa de um filme centrado na dupla titular. Por esse motivo, e ao contrário da maioria dos filmes que passam nestas nossas Sessões, o mesmo apenas deve ser mostrado às novas gerações como exemplo do que NÃO fazer ao criar um filme licenciado, dado por pais que ainda lembram vivamente a desilusão que sentiram ao sair do cinema naquele Verão de 1994. Para esse efeito, fica abaixo o 'link' para o filme completo, em versão original; vejam por vossa própria conta e risco...

22.06.24

NOTA: Este post é respeitante a Sexta-feira, 21 de Junho de 2024.

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Nas últimas semanas, temos virado o foco de vários 'posts' do nosso blog para as séries animadas noventistas da Walt Disney, a maioria das quais foi transmitida em Portugal no icónico 'Clube Disney', da RTP. Como seria de esperar, cada um desses programas deu, também, azo a vários produtos e produções a eles alusivos, de que são exemplo os jogos de vídeo ou os álbuns de banda desenhada; assim, não é de todo surpreendente que, ao longo das duas décadas seguintes, tenham também sido realizadas várias longas-metragens com os personagens dessas séries como protagonistas principais. Destas, chegaram a Portugal três, duas ainda nos anos 90 e com direito a lançamento nas salas de cinema, e a terceira já no Novo Milénio, em formato directo-a-vídeo. É sobre esse trio que se debruçará o nosso 'post' de hoje.

O primeiro dos três filmes em análise, e primeiro filme alusivo às personagens de uma das séries em causa, foi 'DuckTales O Filme – O Tesouro da Lâmpada Perdida', muita vezes abreviado como apenas 'DuckTales: O Filme' e que trazia como protagonistas o Tio Patinhas e os seus sobrinhos-netos, bem como os restantes personagens do núcleo duro de 'Novas Aventuras Disney', o nome inexplicavelmente escolhido para 'DuckTales' em terras lusas.

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Produzido pelos estúdios Toon Disney em 1990, e estreado em Portugal na Primavera seguinte, na habitual versão dobrada em brasileiro, o 'filme' mais não era do que um episódio de duração dupla da série em causa (com cerca de uma hora de duração, por oposição aos habituais vinte a trinta minutos) lançado no cinema como forma de capitalizar sobre a popularidade da série e dos personagens. Resumi-lo a tal estatuto seria, no entanto, algo redutor, e também injusto para com a sua qualidade, já que, sem ser uma obra-prima ao nível dos filmes a que a Disney ia habituando os seus fãs à época, trata-se ainda assim de uma produção honrosa e bastante divertida, sobretudo para quem já tem familiaridade com os personagens.

Com referências explícitas a 'Salteadores da Arca Perdida' (no cartaz) e à história de Aladino (dois anos antes de a companhia avançar para uma adaptação oficial da mesma) a pseudo-longa metragem vê Patinhas e os Sobrinhos (e Sobrinha) desenterrarem uma lâmpada maravilhosa que contém dentro o espírito de um jovem génio, o qual, apesar dos milhares de anos de existência, é ainda, essencialmente, uma criança. Imediatamente afeiçoados ao novo amigo, cabe então ao grupo de heróis protegê-lo de vilões locais sem escrúpulos, que pretendem utilizar a lâmpada para fins tipicamente egoístas. Uma trama sem nada de particularmente novo ou original, mas que serve perfeitamente os fins a que se destina, e consegue entreter tanto os mais novos como até espectadores mais velhos – um feito notável, em tratando-se de um filme infantil sem grandes pretensões e de (relativamente) baixo orçamento.

Se 'DuckTales: O Filme' representou um bom começo, no entanto, o mesmo foi superado em todos os aspectos pelo 'outro' filme baseado em séries da Disney Afternoon. Lançado em Portugal no Verão de 1996, concretamente a 12 de Julho, 'Pateta: O Filme' é um 'clássico esquecido' da época áurea da Disney, que consegue compensar a falta de orçamento com uma trama bem engendrada e plena de momentos memoráveis, aos quais ajuda também a excelente dobragem portuguesa a que o filme teve direito, esta já realizada em solo nacional, por oposição ao outro lado do Atlântico.

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Tendo por base a série 'A Pandilha do Pateta', a única aparição do icónico Pateta no grande ecrã centra-se na relação conflituosa entre o mesmo e o filho, Max, aqui alguns anos mais velho do que na série original, e já em plena crise de adolescência. (Mal) aconselhado pelo eterno 'melhor inimigo' Bafo-de-Onça, Pateta procura então criar laços com o jovem da mesma forma que o seu pai tinha feito com o próprio Pateta: através de uma viagem de carro pelos Estados Unidos, com o objectivo de ir pescar. Quando Max 'inventa' uma mentira para impressionar a colega de turma de quem gosta, no entanto, os objectivos de pai e filho colidem de forma tão tocante quanto hilariante, dando azo a pouco mais de setenta minutos de peripécias, que incluem um encontro com o Pé-Grande e uma subida ao palco de um concerto, onde Pateta acaba, acidentalmente, por se tornar o centro das atenções. O resultado é um filme que merecia mais atenção, e cujos aspectos técnicos podem ter acabado por o prejudicar nesse aspecto.

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Se o 'Pateta: O Filme' original era mais que merecedor do lançamento em sala, no entanto, o mesmo não se pode dizer da sequela 'Radicalmente Pateta', lançada directamente em VHS nos primeiros meses do Novo Milénio. Apesar de uma história bastante aceitável, que vê clivar-se novamente o fosso geracional entre Pateta e Max (este agora um universitário fanático do 'skate') toda a componente técnica 'tresanda' a directo-a-vídeo, com animação muito menos fluida do que no original e um todo bem menos memorável, apesar de perfeitamente capaz de 'matar' uma hora durante uma tarde 'preguiçosa' de fim-de-semana, especialmente para fãs de Pateta.

Além destes três filmes, a única outra série a ter honras de longa-metragem foi 'Recreio', um dos baluartes da segunda fase do Clube Disney, que viu serem lançados três filmes já no século XXI; na mesma época, saíram também vários pseudo-filmes que mais não eram do que compilações de episódios falhados para séries alusivas a 'Tarzan' ou 'Atlantis', bem como duas longas-metragens directamente ligadas ao universo da série de 'Lilo e Stitch', uma das quais constituía mesmo o grande final da dita-cuja. Todos estes filmes extravasam, no entanto, a linha temporal deste 'blog' (além de nem todos terem sido lançados em Portugal) pelo que o presente 'post' se cingirá mesmo aos três acima descritos, os quais, apesar de algumas falhas aparentes, se afirmam ainda hoje como excelentes exemplos de como realizar uma longa-metragem baseada numa série, bem como formas perfeitamente viáveis de entreter crianças e adolescentes durante cerca de uma hora.

22.03.24

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Os anos 90 representaram uma das épocas áureas para os filmes de família, com inúmeras propostas de elevada qualidade, tanto no tocante a películas de animação (com a Renascença Disney e o florescer da Pixar e da Dreamworks) como no campo da acção real, que rendeu clássicos como 'Sozinho em Casa', 'Beethoven', 'Libertem Willy', 'Space Jam', 'Pequenos Guerreiros', 'Voando P'ra Casa', 'Papá Para Sempre', 'Matilda, A Espalha Brasas', 'Jamaica Abaixo de Zero' ou 'Dennis o Pimentinha', entre muitos outros. A esta lista há, ainda, que juntar um filme sobre cuja estreia nacional se celebram este fim-de-semana exactos vinte e cinco anos, e que marcou toda uma geração de 'millennials' portugueses mais novos.

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Falamos de 'Babe - Um Porquinho Na Cidade', a sequela do já de si bem-sucedido 'Um Porquinho Chamado Babe', lançado em Portugal no Natal de 1995, e que voltava a apresentar os jovens espectadores ao suíno titular, 'estrela da companhia' na quinta do Sr. Hoggett, após a sua vitória no concurso de pastoreio, nas últimas cenas do filme original; é, precisamente, desse ponto que parte esta sequela, que segue Babe na sua primeira aventura fora da quinta, e o lança num ambiente urbano totalmente desconhecido para o herói animal. Está, assim, dado o mote para uma hora e meia de peripécias estilo 'peixe fora de água' (ou, neste caso, 'porco') à medida que Babe se vê obrigado a usar de toda a sua coragem para enfrentar o novo desafio de sobreviver num ambiente hostil - uma premissa que, sem ser exactamente original, nunca deixa de render uma boa trama para um filme infantil.

E é, precisamente, isso que 'Babe - Um Porquinho na Cidade' é - um bom filme infantil ou 'de família', alicerçado nos sempre 'confiáveis' animais falantes e 'fofinhos' com vozes de celebridades sobre os quais se centravam tantos outros filmes da época, e que 'envelheceu' suficientemente bem para não aborrecer as crianças das hiperactivas gerações 'Z' e 'Alfa', podendo assim constituir uma boa aposta para uma Sessão de Sexta (ou Sábado) em família, que permita aos mais novos conhecer mais um bom filme para a sua faixa etária, e aos pais 'matar saudades' de quando o viram no cinema, em pequenos, nos idos de Março de 1999...

03.11.23

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

A década de 90 é unanimemente reconhecida, hoje, como um dos melhores períodos para o cinema de animação; afinal, foi nesse período de dez anos no final do século XX que se verificaram a chamada 'Renascença' dos estúdios Disney (que produziriam uma série de filmes ainda hoje icónicos e míticos, ao ritmo de um por ano, durante a grande maioria dos anos 90), a ponta final do período áureo de Don Bluth (iniciado na década anterior), o surgimento da Dreamworks como grande potência dentro do meio e, talvez mais significativamente, o nascimento da animação 3D, pela mão da inovadora Pixar, que, em tempo, aqui terá o seu espaço.

E se não eram muitos os que, à época arriscavam apostar nessa nova tecnologia – que conjugava a falta de créditos firmados com o preço exorbitante, numa combinação muito pouco apelativa – a verdade é que a referida Dreamworks resolveu mesmo dar esse 'salto', e seguir nas passadas da concorrente associada à Disney; e embora viesse a ser na década seguinte que a companhia de Jeffrey Katzenberg verdadeiramente 'abraçaria' a tecnologia, os anos 90 deixaram, ainda, pelo menos um exemplo de animação 3D criada pela mesma, o qual celebra dentro de poucos dias (a 6 de Novembro) um quarto de século sobre a sua estreia em Portugal.

Trata-se de 'Antz', que em Portugal levou o título de 'Formiga Z', conseguindo a proeza de, ao mesmo tempo, perder o trocadilho original e acabar por criar um novo. Isto porque o protagonista do filme se chama, precisamente, Z, dando ao título português um cariz biográfico que o original não tinha, e que se conjuga bem com o enredo do filme, que se centra precisamente sobre a crise existencial vivida pela referida formiga, e pelas suas tentativas falhadas de escapar da sociedade totalitária e ditatorial que habita, e de ganhar a mão da princesa das formigas.

Esta sinopse é, por si só, suficiente para dar a perceber o principal atractivo de 'Formiga Z' – nomeadamente, o facto de ser uma resposta adulta e sardónica ao que a rival Pixar vinha fazendo, e especificamente ao segundo filme da companhia, 'Uma Vida de Insecto', estreado no mesmo ano nos EUA mas que, paradoxalmente, viria a chegar a Portugal apenas quatro meses depois, já no início de 1999. Assim, o primeiro 'filme de formigas' para muitas crianças da época terá sido aquele em que uma formiga com a voz (no original) e atitude de Woody Allen discute temas sérios e adultos com o seu melhor amigo, o típico personagem 'brutamontes', que na versão original conta com a voz de Sylvester Stallone – uma experiência, diga-se, absolutamente incomum, numa era em que a Dreamworks ainda era mais conhecida pelos seus épicos pseudo-Disneyanos do que pelas comédias subversivas que a tornariam famosa na década e século seguintes.

Talvez por isso 'Formiga Z' tenha sido, e continue a ser, um filme polarizante, tanto entre os críticos como junto do público, que (pelo menos à época) esperava 'mais um' filme animado para 'matar' hora e meia com os pequenotes no cinema, e se deparava com uma espécie de versão animada das comédias negras realizadas e protagonizadas por Allen; a verdade, no entanto, é que apesar de 'Uma Vida de Insecto' ser vastamente superior do ponto de vista técnico, este talvez seja o mais interessante dos dois 'filmes de formigas', ainda que passe longe de constituir uma obra-prima. Talvez mais relevante seja a possibilidade de este filme ter encorajado a Dreamworks a prosseguir a via da animação 3D, a qual, três anos depois, lhe daria o filme (e franquia) com o qual é ainda hoje sinónima; por outras palavras, sem 'Formiga Z' talvez não tivesse havido 'Shrek'. Quanto mais não seja por isso, esta primeira 'aventura' da Dreamworks por terrenos 3D merece destaque, quando se assinala um quarto de século sobre a sua estreia nos ecrãs nacionais.

06.10.23

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

O género cinematográfico dos 'animais falantes' teve, nos anos imediatamente antes e depois da viragem do Milénio, a sua época áurea. Ao passo que os filmes centrados em animais do período mais clássico – entre os anos 50 e 70 – preferiam que fossem as acções dos protagonistas a construir e conduzir a narrativa, os seus congéneres de finais do século XX e inícios do seguinte não deixavam qualquer informação importante ao acaso, fazendo questão de transmiti-la na voz de uma qualquer celebridade, super-imposta aos movimentos labiais (acidentais ou gerados por computador) de um qualquer 'bicho'. E a verdade é que, no que toca a animais para 'fazer' falar, os papagaios estão inegavelmente entre as escolhas mais naturais, dada a sua habilidade intrínseca para aprender e reproduzir sons.

Está, assim, explicada a linha de pensamento por detrás de 'Paulie – O Papagaio Que Falava Demais', um filme cuja premissa é, literalmente, o reconto, por parte de um papagaio falante, das suas aventuras depois de ser separado da sua família adoptiva, e que procurava, claramente, almejar o mesmo nível de sucesso dos dois 'Regresso a Casa' ou da então incipiente franquia 'Doutor Doolittle'. E apesar de não ser, hoje em dia, lembrado com a mesma nostalgia de qualquer dessas duas propriedades, a verdade é que a película não deixa de constituir uma boa alternativa para uma tarde de fim-de-semana em família, até por não se dar aos excessos pseudo-cómicos de qualquer dos seus 'concorrentes'.

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Capa do DVD nacional do filme (crédito da foto: OLX).

De facto, no cômputo geral dos filmes de animais da década de 90, 'Paulie' é um filme menos frenético e hiperactivo do que 'Doutor Doolittle' ou 'Beethoven', colocando maior ênfase na aventura e nas relações interpessoais do que nas piadas constantes, sem no entanto perder o humor trazido pela interpretação de Jay Mohr como o personagem principal – sendo que, neste aspecto, o mesmo se aproxima sobremaneira do supramencionado 'Regresso a Casa' e respectiva sequela, ou ainda dos dois capítulos da saga 'Babe', o segundo dos quais produzido no mesmo ano. Efectivamente, apesar de as peripécias de Paulie se prestarem a vários momentos cómicos, sempre pontuados pelos 'dichotes' do papagaio, e dos diversos e caricatos humanos com quem se cruza, o cerne do filme reside, sobretudo, na carga emocional de ver o 'bicharoco' perder a família e acabar como cobaia num laboratório, sem que tal destino lhe retire a esperança e o optimismo, apesar do adivinhado fim trágico que se avizinha – um desfecho que, podendo ser algo 'forte' para a geração actual, não era totalmente incomum em filmes infantis mais clássicos, em que nem sempre tudo acabava bem.

Em suma, apesar de estar longe de ser um clássico ao nível dos restantes filmes mencionados neste 'post', 'Paulie' não deixa de constituir uma forma agradável de 'matar' uma hora e meia, capaz de manter as crianças interessadas sem aborrecer (muito) os adultos; perfeito, portanto, para um qualquer fim-de-tarde deste 'Verão de S. Martinho' antecipado que se vive actualmente em território português.

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