Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

22.12.23

NOTA: Por motivos de relevância, todas as Sextas-feiras de Dezembro serão Sessões.

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Apesar da sua riqueza narrativa e textual, e de fazerem parte do imaginário da maioria das crianças ocidentais, as histórias da Bíblia apenas esporadicamente têm servido de base a criações mediáticas para crianças, continuando a grande maioria dos exemplos de adaptações tanto do Novo como do Velho Testamento a apontar a um público adulto ou, no limite, familiar. Àparte a ocasional série ou filme animado de baixo orçamento baseado numa única história, o único exemplo verdadeiramente relevante de uma adaptação bíblica declaradamente infanto-juvenil celebrou no início desta semana exactos vinte e cinco anos sobre a sua estreia em Portugal, a 18 de Dezembro de 1998, e continua a ser lembrado como um dos melhores filmes 'para crianças' de finais do século XX, tendo contribuído, em larga medida, para cimentar a Dreamworks como concorrente da Walt Disney no mercado da animação.

download (2).jpg

Falamos, claro está, de 'O Príncipe do Egipto', um dos últimos filmes 'tradicionalmente' animados do catálogo da companhia (que, poucos meses antes, dera o primeiro 'salto' total para o 3D, com o lançamento de 'Antz - Formiga Z') e unanimemente considerado um dos seus melhores, pela sua cuidada junção e curação de aspectos narrativos e artísticos em prol de um todo de elevadíssima qualidade, que aperfeiçoava o que o antecessor 'O Caminho Para El Dorado' estabelecera dois anos antes.

Propondo-se narrar a lendária história de Moisés, o profeta que, segundo a Bíblia, fez abrir o Mar Vermelho e permitiu a fuga de milhares de judeus do Egipto, o filme dá, no entanto, quase igual atenção ao irmão adoptivo do protagonista, o titular Príncipe (ou Faraó) Ramsés. Toda a primeira parte do filme se centra em mostrar a dinâmica fraternal entre ambos, com Moisés a comportar-se como o típico herdeiro de um soberano, em camaradagem com Ramsés; apenas após descobrir a verdade sobre as suas origens se começa a ver a transformação no protagonista, e, como consequência, na sua relação com o irmão adoptivo. A grande 'proeza' do filme é conseguir que, nesta fase, nenhum dos dois irmãos surja como vilão declarado, sendo fácil compreender os pontos de vista e sentimentos de ambos, e cabendo ao espectador decidir com quem alinhar as suas simpatias; ainda que seja Moisés quem é codificado como o herói, a vilania de Ramsés apenas se manifesta no terceiro acto, quando o mesmo leva a cabo a famosa perseguição a bebés. O resultado é um filme mais interessado no aspecto humano da narrativa do que na grandiosidade dos antigos épicos bíblicos, ainda que este aspecto não se encontre em falta, com a Dreamworks a fazer excelente uso não só das capacidades dos seus animadores como também dos melhores recursos CGI disponíveis à época.

Não é, pois, de surpreender que 'O Príncipe do Egipto' se tenha traduzido num enorme sucesso entre o seu público-alvo, não só em Portugal como um pouco por todo o Mundo, sendo que a versão nacional contava, ainda, com uma excelente dobragem, na linha das realizadas para os filmes da Disney da mesma época. Foi, portanto, também com naturalidade que a obra foi capaz de reter a percepção crítica, tanto por parte do público como da imprensa, ao longo das duas décadas e meia seguintes, tendo a sua 'fama' sobrevivido, mesmo, à 'passagem' de gerações - um feito notável para qualquer filme de finais do século XX. É, pois, mais que merecida esta homenagem, na semana em que se celebra um quarto de século sobre a estreia de um dos últimos grandes épicos infantis do século XX.

A versão em Português de uma das cenas icónicas do filme.

03.11.23

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

A década de 90 é unanimemente reconhecida, hoje, como um dos melhores períodos para o cinema de animação; afinal, foi nesse período de dez anos no final do século XX que se verificaram a chamada 'Renascença' dos estúdios Disney (que produziriam uma série de filmes ainda hoje icónicos e míticos, ao ritmo de um por ano, durante a grande maioria dos anos 90), a ponta final do período áureo de Don Bluth (iniciado na década anterior), o surgimento da Dreamworks como grande potência dentro do meio e, talvez mais significativamente, o nascimento da animação 3D, pela mão da inovadora Pixar, que, em tempo, aqui terá o seu espaço.

E se não eram muitos os que, à época arriscavam apostar nessa nova tecnologia – que conjugava a falta de créditos firmados com o preço exorbitante, numa combinação muito pouco apelativa – a verdade é que a referida Dreamworks resolveu mesmo dar esse 'salto', e seguir nas passadas da concorrente associada à Disney; e embora viesse a ser na década seguinte que a companhia de Jeffrey Katzenberg verdadeiramente 'abraçaria' a tecnologia, os anos 90 deixaram, ainda, pelo menos um exemplo de animação 3D criada pela mesma, o qual celebra dentro de poucos dias (a 6 de Novembro) um quarto de século sobre a sua estreia em Portugal.

Trata-se de 'Antz', que em Portugal levou o título de 'Formiga Z', conseguindo a proeza de, ao mesmo tempo, perder o trocadilho original e acabar por criar um novo. Isto porque o protagonista do filme se chama, precisamente, Z, dando ao título português um cariz biográfico que o original não tinha, e que se conjuga bem com o enredo do filme, que se centra precisamente sobre a crise existencial vivida pela referida formiga, e pelas suas tentativas falhadas de escapar da sociedade totalitária e ditatorial que habita, e de ganhar a mão da princesa das formigas.

Esta sinopse é, por si só, suficiente para dar a perceber o principal atractivo de 'Formiga Z' – nomeadamente, o facto de ser uma resposta adulta e sardónica ao que a rival Pixar vinha fazendo, e especificamente ao segundo filme da companhia, 'Uma Vida de Insecto', estreado no mesmo ano nos EUA mas que, paradoxalmente, viria a chegar a Portugal apenas quatro meses depois, já no início de 1999. Assim, o primeiro 'filme de formigas' para muitas crianças da época terá sido aquele em que uma formiga com a voz (no original) e atitude de Woody Allen discute temas sérios e adultos com o seu melhor amigo, o típico personagem 'brutamontes', que na versão original conta com a voz de Sylvester Stallone – uma experiência, diga-se, absolutamente incomum, numa era em que a Dreamworks ainda era mais conhecida pelos seus épicos pseudo-Disneyanos do que pelas comédias subversivas que a tornariam famosa na década e século seguintes.

Talvez por isso 'Formiga Z' tenha sido, e continue a ser, um filme polarizante, tanto entre os críticos como junto do público, que (pelo menos à época) esperava 'mais um' filme animado para 'matar' hora e meia com os pequenotes no cinema, e se deparava com uma espécie de versão animada das comédias negras realizadas e protagonizadas por Allen; a verdade, no entanto, é que apesar de 'Uma Vida de Insecto' ser vastamente superior do ponto de vista técnico, este talvez seja o mais interessante dos dois 'filmes de formigas', ainda que passe longe de constituir uma obra-prima. Talvez mais relevante seja a possibilidade de este filme ter encorajado a Dreamworks a prosseguir a via da animação 3D, a qual, três anos depois, lhe daria o filme (e franquia) com o qual é ainda hoje sinónima; por outras palavras, sem 'Formiga Z' talvez não tivesse havido 'Shrek'. Quanto mais não seja por isso, esta primeira 'aventura' da Dreamworks por terrenos 3D merece destaque, quando se assinala um quarto de século sobre a sua estreia nos ecrãs nacionais.

08.09.23

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

O mercado de produções filmográficas tem, desde o advento do 'cinema em casa', estado tradicionalmente dividido em dois grandes grupos: o dos filmes que chegam às salas de cinema, e o dos que se ficam pelo lançamento directamente em vídeo, DVD ou Blu-Ray. O cinema infantil não é excepção, antes pelo contrário – esta categoria conta, se possível, com mais filmes 'directos para vídeo' do que qualquer género dirigido a adultos, quase todos eles episódios alargados de séries populares, 'imitações' baratas dos filmes dos grandes estúdios, ou sequelas falhadas para franquias em tempos populares. No entanto, o mercado em causa conta ainda com uma quarta categoria, mais rara, mas significativa o suficiente para merecer atenção: a dos filmes que, por uma razão ou outra, nunca chegam a estrear em sala, apesar de exibirem qualidade suficiente para tal.

Nos anos 90, a principal afectada por este tipo de prática era a Warner Brothers, que para cada filme que chegava aos cinemas via outros dois irem directamente para o mercado caseiro, apesar de, muitas vezes, nada ficarem a dever aos lançados no grande ecrã. Um dos melhores exemplos desta tendência tinha lugar há exactos vinte e cinco anos, quando o mercado caseiro nacional via ser lançado um filme da companhia, realizado no ano anterior, mas que nunca chegara a passar pelas salas de cinema, e cujo destino aparentemente trágico lhe viria, no entanto, a outorgar inesperado sucesso.

image.webp

A caixa do VHS lançado em Portugal.

Lançado em Portugal na dobragem brasileira habitual à época (sem que haja registo de uma versão original), 'Gatos Não Sabem Dançar' nada fica a dever, pelo menos ao nível visual, ao grande lançamento da Warner naquele ano, 'A Espada Mágica'; e se as músicas e mesmo a história são menos memoráveis do que as daquele filme, a verdade é que as aventuras de Danny, o gato aspirante a artista de Hollywood, não deixam de ter o seu mérito como forma de ocupar uma hora e meia, e apresentam a qualidade esperada de um estúdio especialista em animação, como era a Warner - até porque o filme possui um subtexto que, sem interferir na experiência das crianças, agrada também aos adultos, visto tratar-se de uma homenagem muito pouco velada aos velhos musicais de Hollywood. Dos cenários extravagantes às complexas coreografias, passando pela mimada e sádica estrela infantil (que parece irmã mais velha do Bebé Herman, do clássico da Disney 'Quem Tramou Roger Rabbit') tudo remete à era em que Frank Sinatra, Judy Garland e outros nomes semelhantes dominavam as preferências do público cinematográfico mundial.

Esta declarada homenagem, a animação cuidada, e os números musicais a cargo de Randy Newman (ele mesmo, de 'Toy Story') não foram, no entanto, suficientes para prevenir o fracasso de 'Gatos Não Sabem Dançar' nos seus EUA natais, onde o filme sofreu de falta de promoção, resultante num desempenho muito abaixo do esperado. Talvez tenha sido essa a razão para o filme nunca ter sido lançado em sala no nosso País, mas a verdade é que o seu aparecimento em vídeo acabou, até, por ser benéfico para uma obra que, vista em sala, correria o risco de ser rapidamente esquecida – algo que nunca aconteceria sendo a mesma alvo de visualização semanal no ecrã caseiro. Assim, a estratégia de marketing 'acidental' da Warner Bros acabou por tornar o filme numa memória afectiva da infãncia de muitos portugueses, os quais, ao ler este texto, já estarão potencialmente a recordar alguns dos momentos mais marcantes do filme, e a planear uma 'Sessão da Tarde' em que o possam mostrar aos filhos- Para esses, aqui fica o 'link' para uma playlist do filme completo no YouTube, tal e como surgia em Portugal no Verão de 1998; para os restantes, vale a homenagem a assinalar os vinte e cinco anos de um filme que parecia 'nado-morto', mas que acabou por deixar uma marca maior do que inicialmente se esperava.

28.07.23

NOTA: Por motivos de relevância, esta Sexta será também de cinema. Voltaremos a falar de moda na próxima semana.

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

O Verão foi, e continua a ser, tradicionalmente uma 'época alta' no que toca a estreias de filmes, sobretudo 'blockbusters' e películas destinadas a um público mais jovem, tendo, inclusivamente, sido um dos dois períodos do ano, juntamente com o Natal, em que era expectável um novo lançamento por parte da Disney; e, tendo os anos 90 sido um dos períodos áureos do cinema infanto-juvenil (com a própria Disney, por exemplo, em plena 'Renascença'), não é de estranhar que os últimos dias de Julho tivessem, tanto há trinta anos como há um quarto de século, visto chegar ao nosso País filmes capazes de entusiasmar o público mais jovem, e que se tornariam clássicos nostálgicos para os hoje adultos da geração 'millennial'.

De facto, os dias 30 e 31 de Julho tanto de 1993 como de 1998 assinalaram a estreia nacional de nada menos do que três longas-metragens hoje recordadas com carinho pelos portugueses na casa dos trinta a quarenta anos, duas delas explicitamente destinadas a um público infantil, e a terceira um potencial alvo para o tradicional visionamento 'às escondidas', com amigos ou depois de os pais já terem ido para a cama.

Começando pelo 'início' – isto é, pelo filme mais antigo dos três – o dia 30 de Julho de 1993 via chegar às salas lusas 'Ferngully', filme de Don Bluth que, em Portugal, receberia o incompreensivelmente longo sub-título de 'As Aventuras de Zak e Krysta na Floresta Tropical'. Lançada no auge da era de ouro da sensibilização para a ecologia, a longa-metragem conta com uma mensagem de protecção da natureza, envolta na habitual história de um humano comum 'puxado' para um reino mágico que deve ajudar a proteger - neste caso, o das fadas protectoras da 'última floresta tropical', que se encontra ameaçada por madeireiros.

514569.jpg

Com o padrão de qualidade habitual de Bluth, e talentos vocais de qualidade (entre eles Robin Williams, então em estado de graça após a sua interpretação do Génio em 'Aladdin', do ano anterior, e que ainda em 1993 faria outro clássico, 'Papá Para Sempre') o filme divide, hoje em dia, opiniões, com muitos críticos a apontarem para a mensagem do filme e para o número musical do personagem de Williams, Batty - que interpreta um 'rap' bem ao estilo da década então em curso - como pontos negativos. Para quem lá esteve em 1993, no entanto - a duas semanas de completar oito anos, 'impante' e ufano por ter conseguido bilhetes para a ante-estreia – nada disso era minimamente relevante, e 'Zak e Krysta' pareceu um excelente filme; ou seja, para o público-alvo, menos preocupado com questões de detalhe, esta foi, e provavelmente continuará a ser, uma excelente forma de passar uma hora e meia com uma animação de qualidade, a qual fez sucesso suficiente para, inclusivamente, dar azo a uma sequela, esta sem qualquer repercussão em Portugal.

a9ebee85e62b3dd0a78a1adca537b769b8c5109f4e4638fefd

Um dia após a estreia da última obra de Bluth, a 31 de Julho, chegava ao nosso País um futuro 'clássico' dos canais de filmes a cabo: 'O Último Grande Herói', uma comédia de acção que via Arnold Schwarzenegger fazer um papel bem 'meta-textual', interpretando o personagem titular, o típico herói musculado da época, que se vê a braços com um jovem espectador que, graças a um bilhete mágico, consegue entrar no filme, e se vê envolto na trama do mesmo. Os dois membros deste insólito par têm, assim, de trabalhar juntos para travar o vilão, aliando a força e armamaento de Arnie ao conhecimento sobre estereótipos e fórmulas cinematográficas do seu jovem coadjuvante.

E é, precisamente, a química entre os 'músculos de Bruxelas' e o jovem Austin O'Brien que rende os momentos mais divertidos deste filme, como aquele em que o Danny Madigan de O'Brien menciona, jocosamente, o facto de todos os números de telefone do filme começarem por 555, o indicativo tradicionalmente usado por Hollywood neste tipo de situações. Apesar de não ser uma obra-prima intemporal (o único filme de Arnie qualificado para essa categoria continua a ser 'O Predador') trata-se de uma longa-metragem bem divertida, que doseia bem o humor e a acção (à maneira de antecessores como 'O Caça-Polícias' e de sucessores como 'Hora de Ponta'), sabe explorar a veia cómica de Schwarzenegger, e conta com uma banda sonora à altura, povoada por nomes como AC/DC, Alice in Chains, Def Leppard, Queensryche, Aerosmith, Anthrax ou Cypress Hill, entre outros.

Exactos cinco anos após a literal explosão de Arnie nos cinemas nacionais, estreava em Portugal outro filme teoricamente para um público mais 'maduro', mas que muitas crianças terão, decerto, visto em anos subsequentes, no contexto do 'home video' – aqui, por exemplo, viu-se aos cerca de treze ou catorze anos, na noite de cinema da colónia de férias.

O-Enigma-do-Horizonte.webp

Falamos de 'O Enigma do Horizonte' (no original, 'Event Horizon') um excelente filme de ficção científica encabeçado por Laurence Fishburne (em 'ensaios' para 'Matrix', dois anos depois), Sam Neill e Jason Isaacs e realizado pelo hoje conceituado Paul W. S. Anderson. Com uma história algo semelhante à de 'Alien – O Oitavo Passageiro' (em que uma equipa de salvamento espacial fica presa numa nave abandonada, à mercê de uma força sinistra) o filme é notável, sobretudo, pelos efeitos especiais, de entre os quais se destaca o 'rio' de sangue a descer um dos corredores da nave – imagem que deixou boquiaberto aquele adolescente de finais do Segundo Milénio, sentado em colchões no chão da sala principal de uma colónia de férias presencial na Margem Sul do Tejo. Mesmo para um público mais adulto e exigente, no entanto, este filme continua a ser uma boa proposta para uma noite mais escura e chuvosa, de preferência em boa companhia...

Em suma: em apenas dois dias de dois anos distintos, o público infanto-juvenil português viu surgirem nas telas nacionais três excelentes filmes (mais ou menos) apropriados à sua faixa etária, e que ainda hoje são conceituados dentro dos seus respectivos estilos – uma coincidência, sem dúvida, digna de nota nas páginas deste 'nosso' Portugal Anos 90, numa altura em que se assinalam aniversários marcantes sobre as estreias de todos os três.

30.06.23

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Apesar de ser a rainha inquestionável das longas-metragens infantis dos anos 90, a Disney não deixava de ter, na ponta final do século XX, 'concorrência' à altura neste campo – nomeadamente, da parte da Amblin Entertainment, de Spielberg e Don Bluth (sua concorrnte desde a década transacta), da recém-criada Dreamworks (que 'agitava as águas' com o excelente 'O Príncipe do Egipto'), e da Warner Brothers, que fazia por essa altura as suas primeiras tentativas de se estabelecer como criadora de filmes animados de grande orçamento. E apesar de este desiderato não ter sido inteiramente bem sucedido (no Novo Milénio, a companhia seria conhecida, sobretudo, com produtora de filmes animados com os super-heróis da DC, destinados ao mercado de vídeo e DVD) a divisão de animação da Warner não deixou de produzir pelo menos duas longas-metragens de considerável sucesso junto do público alvo. Da primeira, 'Space Jam', já aqui falámos anteriormente; agora, num fim-de-semana em que se assinalam os vinte e cinco anos sobre a sua estreia em Portugal, chega a altura de dedicarmos algumas linhas à outra.

A_Espada_M%3Fgica_hd.webp

Capa do lançamento em DVD do filme.

Lançado nas salas de cinema lusitanas a 3 de Julho de 1998, 'A Espada Mágica' ('Quest for Camelot', no original) não disfarça as suas intenções de rivalizar com a Disney, que, nesse mesmo ano, lançaria o fabuloso épico de guerra 'Mulan'; pelo contrário, das personagens à história, formato musical e até ambientação, tudo neste filme é uma tentativa declarada de replicar a fórmula que, à época, tantos dividendos vinha rendendo à multi-nacional californiana. Senão veja-se: a trama segue uma humilde jovem camponesa da Inglaterra Arturiana, Kayley, que sonha ser cavaleira, mas encontra resistência por parte da sua família e comunidade, até um ataque à quinta da sua família por parte de um Cavaleiro da Távola Redonda renegado lhe dar a oportunidade de se tornar a heroína que sempre sonhou ser, e salvar não só a sua família, como todo o reino, tendo como aliados um eremita cego residente na floresta e um dragão de duas cabeças com as vozes de um elemento dos Monty Python e do Senhor Cabeça-de-Batata de 'Toy Story'. Junte-se a isto a presença de um vilão totalmente 'angular', cuja silhueta lembra tanto Radcliffe, de 'Pocahontas', como Jafar e até Frollo, e que conta com os habituais asseclas de teor cómico, e os vários interlúdios musicais (incluindo, claro, um logo na abertura do filme) e 'A Espada Mágica' quase podia fazer parte da lista de sucessos do chamado 'Renascimento Disney'.

Verdade seja dita, no entanto, esta 'cópia' é feita de forma bastante bem sucedida, ficando longe das produções barateiras que, no mesmo período, 'inundavam' o mercado caseiro com variações sobre os temas dos filmes da companhia do Rato Mickey, como forma de facturar sem grande esforço; pelo contrário, o orçamento disponível para este filme é evidente em todos os aspectos do mesmo, com um elenco original repleto de celebridades, personagens e canções cuidadas e memoráveis e até o uso ocasional de tecnologia CGI, como na cena inicial em torno da Távola Redonda.

A única pecha do filme acaba, assim, por ser o seu carácter declaradamente derivativo, o qual ajudou, ainda assim, a atrair às salas de cinema o público familiar (numa época em que era quase obrigatório ir ver cada novo filme de animação lançado em sala) mas rendeu postumamente ao filme o escárnio da Internet, para quem 'A Espada Mágica' se tornou - a par de 'As Aventuras de Zack e Chrysta na Floresta Tropical', outro filme que aqui terá paulatinamente o seu espaço – um dos alvos de crítica mais fáceis de toda a cultura nostálgica.

Quem não tenha tanto interesse em dissecar cada minúcia de um filme para criar interesse e provocar risos, no entanto, certamente achará que não era caso para tanto; 'A Espada Mágica' era, e continua a ser, um filme infantil perfeitamente aceitável (até acima da média) e envelheceu apenas um pouco menos bem do que os clássicos intemporais sugeridos na mesma época pela Disney. Como tal, aos vinte e cinco anos da sua estreia em Portugal, a grande aposta da Warner Brothers para fazer frente à 'casa' do Rato Mickey merece bem o mesmo tipo de homenagem que, logo nos primórdios deste nosso 'blog', prestámos aos referidos filmes, continuando a constituir uma excelente adição à ´rotação' de filmes infantis de qualquer lar de família nacional.

24.03.23

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Os filmes de animação de finais do século XX tendiam a estar associados a um de três nomes: por um lado, o da tradicional e decana Walt Disney, então a atravessar um 'renascimento' que lhe viria a render um segundo estado de graça, por outro o da 'estreante' Pixar e, apenas um meio passo atrás, o do realizador Don Bluth, o qual, em parceria com a Amblin Entertainment de Steven Spielberg, deixaria um legado de 'clássicos' de animação modernos. E apesar de a melhor fase do criador ter tido lugar entre meados da década de 80 e inícios da seguinte – quando produziu obras-primas como 'Fievel, Um Conto Americano' (e respectiva sequela), 'Em Busca do Vale Encantado' e 'Todos os Cães Merecem o Céu' – os últimos anos do século XX ainda veriam ser lançado pelo menos mais um clássico com o nome de Bluth à cabeça: 'Anastasia', uma versão ficcionalizada, bem ao estilo da concorrente Disney, da história verídica de Anastasia Romanoff, czarina russa que, reza a lenda, terá sobrevivido ao atentado que vitimou a sua família em 1917.

anastasia_movie.webp

Considerado hoje como o filme que marcou o regresso à forma do realizador norte-americano após obras menos conseguidas como 'Um Duende no Parque', 'Hubie, o Pinguim' ou a sequela de 'O Segredo de Nimh', a animação estreou em Portugal há quase exactos vinte e cinco anos, tendo chegado aos cinemas nacionais a 27 de Março de 1998, e conseguido boa aceitação entre o público infanto-juvenil nacional, apesar (ou talvez por causa) das semelhanças com as obras que a Disney vinha, à época, lançando anualmente. E se é verdade que o filme contém muitos dos elementos que se tornaram sinónimos com as animações da companhia do Rato Mickey – da protagonista que deseja mais da vida ao par romântico 'atrevido' e bem-parecido, sem esquecer os alivios cómicos, o vilão de traços angulares e, claro, as canções - nem por isso o mesmo deixa de ser um exemplo extremamente bem conseguido de um filme de família, capaz de maravilhar e até assustar o público-alvo (muito por conta do vilão Rasputin, uma daquelas criações que a equipa de animadores da Disney talvez desejasse ter concebido) sem descurar o público mais adulto – uma dicotomia que os melhores filmes animados e de família tendem a valorizar, e a saber balancear.

anastasia-review-image-1024x587.jpgRasputin_1.webp

O núcleo central de personagens do filme era bastante bem conseguido, com destaque para o pérfido vilão, Rasputin.

Talvez por isso 'Anastasia' se tenha tornado um dos 'clássicos menores' da animação dos anos 90, que, sem chegar ao nível de notabilidade de um 'Aladino' ou 'O Rei Leão', não deixa ainda assim de fazer parte das memórias nostálgicas de muitas crianças – portuguesas e não só. E a verdade é que tanto a animação quanto a história do filme 'envelheceram' marcadamente bem, afirmando-se como perfeitamente aceitáveis (e até acima da média) mesmo um quarto de século após o seu lançamento, e fazendo de 'Anastasia', ainda hoje, uma excelente proposta para um fim-de-semana chuvoso em família, em frente à televisão – quem sabe, como comemoração da data marcante que ora se assinala...?

09.12.22

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

O 'filme de Natal' é, regra geral, um género cinematográfico adstrito a um conjunto de regras, simbologia e elementos extremamente específica e limitada, estabelecida ainda nos 'anos de Ouro' de Hollywood; tal não tem, no entanto, impedido certos cineastas de tentarem criar filmes tematizados em torno desta época que procuram fugir aos estereótipos e criar algo diferente (ou, pelo menos, diferenciado.) Um dos melhores exemplos deste fenómeno é uma película que completa hoje, 9 de Dezembro de 2022, exactos vinte e oito anos sobre a sua estreia em território nacional e que, ao longo desse tempo, se conseguiu tornar objecto de culto junto de várias gerações de um determinado sub-sector (ou, se preferirmos, 'tribo urbana') da sociedade ocidental.

capa-imagoi.jpg

Falamos de 'O Estranho Mundo de Jack' (no original, 'The Nightmare Before Christmas'), um dos mais famosos trabalhos de um Tim Burton em estado de graça, e parcialmente responsável por popularizar os filmes de animação 'stop-motion' para adultos, filão a que o realizador e produtor viria a regressar por diversas vezes ao longo dos anos subsequentes.

Todo o culto em torno deste filme não é, aliás, imerecido: adequado tanto para audiências natalinas como para a festividade anterior, o 'Halloween', a odisseia de Jack Skellington para trazer o espírito de Natal a Halloweentown e ganhar o amor de Sally tem um estilo visual muito próprio e instantaneamente reconhecível (o qual representa, aliás, o principal factor do seu sucesso) um argumento inteligente e números musicais memoráveis, que fazem dele, com mérito, um dos clássicos de Natal modernos – um estatuto que merece bem mais do que obras como 'Elf – O Falso Duende', por exemplo.

Aliás, ainda que a técnica por detrás dos movimentos dos personagens comece já a mostrar alguns sinais de envelhecimento (natural, dadas as quase três décadas desde o seu lançamento) o filme continua a ser um feito técnico e tecnológico notável, bem como uma excelente escolha para uma sessão de cinema em casa nestas semanas de 'aquecimento' para a grande festa – sobretudo para quem gosta de uma certa vertente menos 'feliz' (se quisermos, mais 'gótica') nas suas produções festivas. Quem 'alinhar' nesta ideia, só tem, aliás, de clicar no 'link' abaixo (a versão integral dobrada em brasileiro, tal como teria saído nas salas portuguesas em 1994) e ver por si mesmo as razões que tornam este um dos maiores filmes de culto dos últimos trinta anos...

14.10.22

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Uma das principais características de qualquer propriedade intelectual de sucesso é a sua eventual expansão para meios, contextos e géneros diferentes daquele em que se originou – e, destes, um dos primeiros a ser explorado é o da Sétima Arte. Apesar de o rácio de sucessos ser, ainda, algo inconstante, é, já, dado quase adquirido que qualquer produto cultural de sucesso, sobretudo entre os mais jovens, terá inevitavelmente direito a um filme.

Esta tendência está, aliás, longe de ser nova ou recente, podendo que a realização de filmes alusivos a propriedades intelectuais de sucesso ser traçada, pelo menos, até inícios da segunda metade do século XX; nos anos 60 e 70, por exemplo, já era prática comum transformar em longa-metragem tudo aquilo de que os mais jovens gostassem.

Não é, pois, de admirar que um herói tão popular na Europa como Astérix tenha sido alvo de inúmeras adaptações cinematográficas, a primeira das quais meros anos depois da sua criação, em 1956, estando a mais recente planeada para lançamento algures neste ano de 2022; menos surpreendente ainda é o facto de a fase de 'renascimento' da popularidade do guerreiro gaulês ter, também ela, visto serem lançados novos filmes alusivos às suas aventuras. É, precisamente, desses títulos que falaremos nas próximas linhas.

Foram dois os filmes de Astérix estreados em Portugal na década a que este blog diz respeito, ainda que o primeiro dos dois filmes não pertence, tecnicamente, a essa década, tendo sido produzido ainda bem dentro da anterior, em 1985; no entanto, o habitual (à época) atraso na chegada de produtos mediáticos a Portugal fez com que os jovens lusos apenas pudessem desfrutar da nova aventura do herói em 1990 – CINCO ANOS após a estreia na sua França natal! Um intervalo de tempo exagerado mesmo para os padrões daquele final do século XX, e que fez com que Portugal fosse mesmo o último país a receber o filme nas suas salas de cinema, tendo o mesmo, inclusivamente, ficado disponível APÓS o seu sucessor, 'Astérix Entre os Bretões'; como diz o ditado, no entanto, 'mais vale tarde do que nunca', e a verdade é que os fãs do irredutível gaulês acabaram mesmo por poder deliciar-se com aquele que é uma excelente adição à filmografia do personagem de Goscinny e Uderzo.

Capture.PNG

A anos-luz dos seus antecessores em termos técnicos (ou não se tivesse passado quase uma década desde o seu antecessor mais próximo) e tirando proveito dos recursos disponíveis à época, 'Astérix e a Surpresa de César' é, de todos os filmes animados de Astérix e Obélix, aquele que mais se assemelha a uma verdadeira longa-metragem, contando inclusivamente com uma memorável cena de acção durante uma corrida de quadrigas no Coliseu romano, que rende a imagem mais icónica do filme, e ilustração do cartaz. Baseado no álbum 'Astérix Legionário', o filme vê o irredutível duo alistar-se nas legiões de César, como forma de salvar Falbala, a beldade da aldeia, e o seu garboso namorado, Tragicomix, após o casal ser capturado pelos romanos; fica, assim, dado o mote para uma hora e meia das habituais confusões, zaragatas e tiradas de humor sarcástico típicas da obra de Goscinny e Uderzo, num filme que só perde mesmo para o seu antecessor directo - o hilariante 'Os Doze Trabalhos de Astérix', de 1976 - no cômputo geral da filmografia do gaulês, e que ainda dá ao Mundo uma daquelas 'malhas' pop tão 'de época' como irresistíveis, sob a forma da contagiante 'Astérix Est Là', interpretada pelo excêntrico 'herói de culto' da música oitentista francesa, Plastic Bertrand. Em suma, um filme animado acima da média para a época – especialmente tratando-se de uma produção europeia, e como tal, de menor orçamento – e que ainda hoje deverá fazer as delícias de qualquer jovem fã das BD's de Astérix e Obélix.

O tema principal do filme é, no mínimo, contagiante.

O mesmo, infelizmente, não se pode dizer do OUTRO filme alusivo aos personagens, estreado na 'outra ponta' da década, em 1999 (mesmo ano de outros dois 'desastres' cinematográficos, 'Guerra nas Estrelas Episódio I' e 'Wild Wild West'); isto porque, apesar do 'casting' absolutamente PERFEITO (Gerard Dépardieu como Obélix é uma daquelas escolhas tão óbvias que se tornam quase inevitáveis) e da novidade de ver os heróis gauleses em 'carne e osso', 'Astérix e Obélix Contra César' salda-se como um mero aglomerado de cenas retiradas de diferentes álbuns de Astérix e 'coladas com cuspo' por um argumento que tenta, sem sucesso, fundir várias aventuras do gaulês, com destaque para 'O Adivinho' e – novamente – 'Astérix Legionário'.

unnamed.png

O resultado é uma espécie de 'Homem-Aranha 3' em formato de comédia francesa, com Depardieu, Christian Clavier – também ele perfeito como Astérix – e Roberto Benigni a tentarem desesperadamente transformar o pobre argumento em algo minimamente divertido, sem nunca verdadeiramente o conseguirem. Assim, a melhor forma de encarar este filme é como um 'ensaio geral' para a segunda película 'live-action' dos gauleses, 'Astérix e Obélix: Missão Cleópatra', obra diametralmente oposta a 'Contra César' em termos de qualidade, e que tira o máximo proveito da química inegável que Depardieu e Clavier haviam começado a desenvolver no primeiro filme. Já os aldeões voltariam a ter destaque no também excelente 'Astérix e Obélix: Ao Serviço de Sua Majestade', que – esse sim! - consegue fundir elementos de diversas aventuras sem com isso perder a coesão. Quanto a 'Contra César', e mesmo dando o desconto de algumas 'dores de crescimento' derivadas de ser a primeira tentativa, o mesmo é sem dúvida o pior filme alusivo aos heróis de Goscinny e Uderzo de sempre, não chegando sequer à fasquia de qualidade do fraquíssimo 'Astérix o Gaulês', a primeira aventura animada do personagem, realizada nos anos 60.

Dois filmes, portanto, que surgem em extremos opostos da filmografia do herói, sendo um legitimamente bem conseguido, enquanto o outro apenas justifica o visionamento na perspectiva 'tão mau que é bom'. Quanto à carreira cinematográfica de Astérix e Obélix, a mesma continua de vento em popa (mesmo depois dos problemas de Depardieu com o fisco francês) sendo de esperar que continuem a surgir novas aventuras (reais ou animadas) do duo em anos vindouros.

03.12.21

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Um dos mais antigos e universalmente aceites axiomas do cinema diz que 'as sequelas nunca são tão boas quanto os originais'. E embora esta afirmação já não seja cem por cento verdadeira ('Shrek 2', por exemplo, é um filme vastamente superior ao original em quase todos os aspectos) o rácio de sequelas de valor para sequelas desapontantes permanece baixo o suficiente para a podermos considerar, no cômputo geral, correcta.

Ainda assim, 'abaixo do original' nem sempre significa, necessariamente, 'mau'; existem casos em que o filme de origem se situa tão acima da média que mesmo uma sequela menos bem conseguida não deixa de ser um bom filme. A 13 de Dezembro de 1991, há quase exactamente trinta anos, estreava em Portugal um filme que ilustrava perfeitamente este paradigma, ficando uns furos abaixo do magnífico original, mas afirmando-se mesmo assim como uma experiência cinematográfica bem divertida.

cImuS7FE9MHT5vnwIHGx1Ryh0K1.jpg

Falamos de 'Fievel no Faroeste', a primeira das três sequelas para 'Fievel: Um Conto Americano', a obra-prima de Don Bluth lançada em 1987, e que conseguia a proeza de usar roedores animados para explorar (e de forma bastante séria!) o fenómeno da imigração de cidadãos europeus para a América, em finais do século XIX e inícios do seguinte. Com momentos tocantes, assustadores e divertidos em igual medida, este filme foi um merecido sucesso entre o seu público-alvo, e continua hoje a ser lembrado como talvez o melhor dos vários grandes filmes lançados por Bluth – um feito nada desprezível, se considerarmos que essa lista também inclui clássicos como 'Em Busca do Vale Encantado' e 'Todos os Cães Merecem o Céu', cada um dos quais capaz de ombrear com o melhor que a Disney vinha oferecendo na altura.

'Fievel no Faroeste' não está a esse nível, mas verdade seja dita, também não parece muito preocupado em o atingir; trata-se de um filme muito mais assumidamente 'para crianças', que tem no gato vocalizado (no original) por Dom DeLuise muitos dos seus motivos de interesse, e em que a vertente de análise e crítica social é muito menos pronunciada. Tal não significa, no entanto, que se trate de uma sequela 'às três pancadas', antes pelo contrário – a par de 'Todos os Cães...2', é uma das poucas sequelas dos estúdios de Bluth que NÃO se insere nesta categoria, apresentando um trabalho técnico cuidado e um enredo sem momentos mortos nem cenas 'para encher chouriços', que faz com que os seus cerca de 80 minutos de duração passem prazerosamente.

Em suma, sem ser um clássico intemporal como o seu antecessor, 'Fievel no Faroeste' é – ainda hoje – um filme para crianças acima da média, que não deixa o primeiro 'Conto Americano' ficar mal, e que certamente será alvo de boas reacções por parte do seu público-alvo, mesmo nos dias de hoje (por aqui, foi visto à época da estreia, com seis anos, e muito apreciado.) Pena é, pois, que tanto Bluth como os seus antigos empregadores, e mais tarde rivais – a Disney – tenham decidido enveredar pelo ramo das sequelas 'directas para vídeo' destinadas exclusivamente a 'sossegar os putos' durante uma hora – fazem falta filmes (e sequelas) como 'Fievel no Faroeste', capazes de justificar a transformação de uma propriedade intelectual em 'franchise', e de se 'aguentarem' tão bem ao fim de três décadas como na época da sua estreia.

17.07.21

NOTA: Este post corresponde a Sexta-feira, 16 de Julho de 2021.

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

 

E porque esta semana marca a estreia da sequela de Space Jam - com LeBron James no lugar do seu homólogo dos anos 90, Michael Jordan – nada melhor do que dedicar algumas linhas a recordar o original, estreado há quase exactamente vinte e cinco anos (em Novembro de 1996) e que conseguiu a proeza de se manter popular e relevante desde essa altura, justificando o investimento numa sequela, mesmo tantos anos depois.

Spcejam.jpg

Essa popularidade continuada é – pelo menos para a geração que era da idade certa aquando da estreia do filme – bastante fácil de explicar; afinal, só quem viveu aquele momento da História consegue perceber o quão atrativa era a ideia de ter Michael Jordan e Bugs Bunny a contracenar no mesmo filme. Aquela que foi a primeira ‘mega-estrela’ do basquetebol norte-americano estava em plena alta de popularidade, graças às suas inacreditáveis exibições ao comando da ‘Dream Team’ dos Bulls e da Selecção Nacional norte-americana, enquanto o líder dos Looney Tunes é daquelas figuras perpetuamente populares entre os fãs de desenhos animados, muito graças às frequentes repetições das suas clássicas ‘curtas’ em canais de televisão por esse Mundo fora; assim, juntar os dois numa mesma produção tinha tudo para dar certo. E deu.

A história de Space Jam é, objectivamente, algo parva; uma raça de ‘aliens’ pretende raptar os Looney Tunes para os usar como atracção principal no seu parque de diversões espacial, e a ‘troupe’ animada decide confundi-los, apostando a sua liberdade num jogo de basquete, um conceito perfeitamente desconhecido para os pequenos seres espaciais (os quais não primam pela proeza física, assemelhando-se, mais do que nada, a pequenas lagartas de olhos grandes.) Um plano que teria tudo para dar certo – não fora o facto de os extraterrestres conseguirem roubar os talentos de alguns dos principais jogadores da NBA, com os quais se transformam em literais ‘monstros de esteròides’, bem maiores e mais poderosos do que os Tunes. A última esperança para Bugs Bunny e companhia – aqui aumentada com a adição da recém-chegada ‘craque’ e futura namorada de Bugs, Lola Bunny - reside, pois, numa ex-super-estrela do desporto, a qual se havia retirado do basquete para se dedicar ao beisebol – Michael Jordan, claro. Um rapto bem 'animado’ mais tarde, o prodígio dos Chicago Bulls vê-se convertido em capitão da auto-intitulada TuneSquad, e envolvido num desafio em que, por uma vez na sua carreira, não é favorito…

Uma premissa algo tola, portanto, e que serve, mais que nada, de pretexto para juntar as duas ‘estrelas’ do filme – bem como vários dos mais conhecidos jogadores da NBA à época, de Muggsy Bogues a Charles Barkley, Patrick Ewing, Shawn Bradley e Larry Johnson, os quais alinham numa bem-humorada sátira ao seu próprio estatuto, fingindo ter perdido as suas habilidades e ‘desaprendido’ a jogar basquetebol. ‘Space Jam’ conta, ainda, com Bill Murray, Theresa Randle e Wayne Knight em papéis de apoio, dando ao filme um elenco de luxo, bem acima do que seria expectável para uma produção deste tipo.

A intenção de criar algo que respeitasse o público-alvo não se fica, no entanto, pelo elenco e interpretações; apesar do argumento algo tonto, o filme conta com uma excelente banda sonora (a começar pelo tema-título, e passando pelo entretanto infame ‘I Believe I Can Fly’, de R. Kelly) e tem o cuidado de retratar os Looney Tunes exactamente como os conhecemos, sem quaisquer concessões ao politicamente correcto – tirando, talvez, o facto de Bugs Bunny nunca se vestir de mulher. De resto, e apesar do novo ‘look’ assistido por CGI, a turma animada aparece igual a si própria, com muitas ‘gags’ absurdas (incluindo uma no famoso lance final do jogo decisivo) e literalmente explosivas, assegurando que – ao contrário do infame filme de Tom e Jerry, lançado alguns anos antes – quem conhecesse os Looney Tunes não sairia defraudado do cinema.

As cenas de jogo contêm muitas das melhores 'gags' do filme

O resultado foi, previsivelmente, um sucesso de bilheteira, que reavivou o interesse nos Looney Tunes, e justificou o lançamento de vários novos produtos alusivos a Bugs e companhia, agora, previsivelmente, com o seu novo ‘look’ e equipados à basquetebol; entre os mais memoráveis encontravam-se um jogo para PlayStation (basicamente um 'NBA Jam', mas com os Looney Tunes no lugar dos jogadores cabeçudos) e o relançamento, em formato VHS, de vários episódios clássicos de cada um dos principais personagens, com uma nova dobragem em português, sob a denominação ‘Estrelas do Space Jam’.

Capture.PNG

Um volume da colecção 'Estrelas do Space Jam', focada no personagem de Marvin, o Marciano

Nada de muito surpreendente – não fosse o facto de o ‘merchandise’ alusivo ao filme ter continuado a vender (e bem) durante as duas décadas seguintes (ainda em 2018-2019, o Primark lançava uma t-shirt alusiva ao filme, destinada a um público-alvo que mal era nascido quando o filme estreou!) Um caso de popularidade apenas explicável pelo facto de este filme aparentemente menor ter sido passado de irmãos para irmãos e de pais para filhos, beneficiando da nostalgia prevalente pela década de 1990 para se manter ‘nas bocas do povo’.

m_5d47204eb146cc66d6e2a4e1.jpg

T-shirt alusiva ao filme, lançada pela Primark mais de uma década após a estreia do mesmo

Seja qual for o motivo por detrás da intemporalidade de um filme que, teoricamente, só funcionaria no contexto específico em que foi lançado, a verdade é que ‘Space Jam’ a merece – por muito que a Internet queira fazer dele ‘bombo de festa’, a verdade é que se continua a tratar de uma excelente obra para toda a família, com muita diversão, momentos memoráveis, uma boa mensagem, e aquele tipo de violência animada que nunca sai de moda, por muito politicamente correcto que o Mundo se torne. Seria uma pena, portanto, se a recém-estreada sequela destruísse o consenso que o original ainda hoje consegue reunir – embora, a julgar pelas primeiras críticas, seja exactamente isso que se vá passar. Resta o consolo de, pelo menos, ainda termos o original para nos relembrar de que, na verdade, esta fórmula pode ser executada, mais do que correctamente, com louvor e distinção. ‘COME ON AND SLAM! AND WELCOME TO THE JAM!’

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2024
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2023
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub