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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

16.09.22

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

De entre os muitos géneros cinematográficos normalmente associados com os anos 90, os filmes de família estão entre os mais imediatamente memoráveis, dada a quantidade e qualidade das longas-metragens deste estilo produzidas durante essa década. De Sozinho em Casa e Papá Para Sempre a Hook e Parque Jurássico, passando pelos filmes das Tartarugas Ninja, por vários grandes sucessos de Jim Carrey e, claro, por uma sucessão de obras-primas da Disney, não faltam exemplos de obras que justificaram bem a ida ao cinema, e que, mais tarde, gozaram de nova vida no circuito de vídeo e DVD.

Uma dessas obras, que completou em finais do mês transacto três décadas sobre a sua estreia em Portugal, foi 'Beethoven', o filme que criou em muitas crianças da altura (em Portugal e não só) o desejo de adoptar um cão São Bernardo, ao mesmo tempo que tentava alertar para os perigos de tal acto, especialmente para quem não soubesse 'ao que ia'; e por, por alturas do referido aniversário, termos estado ocupados com outros temas (além de, na última Sessão de Sexta, termos preferido falar sobre 'O Quinto Elemento') dedicaremos agora, ainda que já algo tardiamente, algumas linhas a um filme que, quase sem querer, acabou por ter influência não só na geração em causa, como também na seguinte.

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Representante perfeito de um tipo de filme intemporal, mas cuja fase moderna remonta a finais dos anos 80, 'Beethoven' conta a história de como o cão homónimo, um São Bernardo de raça pura, afecta a vida da família que o adopta, após o encontrar abandonado na rua em cachorro – um processo que engloba todas as peripécias expectáveis, do desespero inicial à eventual aceitação e à formação de elos de amizade e amor. A este enredo junta-se ainda, a partir de meio, uma segunda trama, centrada em torno de um veterinário pouco escrupuloso, como que para justificar a existência deste filme enquanto obra cinematográfica; no entanto, não há como negar que o principal interesse deste filme para o seu público-alvo estava mesmo no farfalhudo protagonista, e nos 'desastres' que o seu tamanho e movimentos abrutalhados causavam, sendo estas as principais razões por detrás do sucesso do filme à época da sua estreia.

Claro que, da perspectiva de um cinéfilo adulto, e com trinta anos de filmes de permeio, 'Beethoven' dificilmente pode ser considerado um bom filme; mesmo dentro do sector infantil, existem opções bem mais sofisticadas, divertidas e bem conseguidas. No entanto, pode-se argumentar que nunca terá sido esse o propósito do filme, inserindo-se o mesmo na 'escola Sozinho em Casa' de obras em que o principal foco cai sobre a comédia física, causada (acidental ou propositadamente) por um protagonista declarada e descaradamente 'fofo' – humano no caso de 'Sozinho em Casa', animal no de 'Beethoven'; e o mínimo que se pode dizer é que essa receita resultou esplendidamente para ambas as propriedades, as quais viriam, em anos vindouros, a dar origem a toda uma série de filmes com o mesmo título. E se, para ambas, esse desenvolvimento apenas se deu várias décadas após a estreia do original, também é verdade que as duas tiveram direito à obrigatória sequela ainda na mesma década, apenas um par de anos depois do lançamento do primeiro filme – a qual, previsivelmente, obedecia à quase obrigatória fórmula das sequelas de apresentar 'mais do mesmo', mas ampliado.

No caso de 'Beethoven 2' (lançado logo no ano seguinte, em 1993) essa estratégia implicava o aparecimento não só de uma companheira para Beethoven, como da respectiva ninhada, sextuplicando o quociente de destruição massiva em casa dos pobres Newtons. Apesar de sobejamente divulgado por publicações como a Super Jovem, no entanto, este filme passou algo despercebido junto da mesma audiência que tornara o primeiro um sucesso – uma ocorrência algo inesperada, tendo em conta que se passara pouco menos de um ano desde a estreia do mesmo – e foi rapidamente esquecido pelo mundo cinematográfico em geral, sendo hoje em dia sobretudo recordado por ter dado azo a um jogo de vídeo para Super Nintendo, Game Gear e Mega Drive.

Esta relativa falta de interesse por parte do público-alvo não desencorajou, no entanto, os produtores do filme, que ressuscitariam o 'franchise', já no novo milénio, no âmbito do mercado do 'direct-to-video'. 'Beethoven 3', de 2000, deu o mote para nada menos do que SEIS novos filmes na década e meia subsequente, nos quais Beethoven viveu com aristocratas, foi estrela de cinema (dentro do próprio mundo do filme, claro está) e pirata e, como qualquer bom ícone comercial infantil, ajudou a salvar o Natal – tudo isto com a qualidade (ou falta dela) habitual deste tipo de produção, que fazia o primeiro filme parecer uma obra-prima por comparação. Ainda assim, os filmes foram, claramente, encontrando o seu público – presumivelmente, entre a mesma demografia que comprava as diversas sequelas de 'Sozinho em Casa', e que consistia já dos irmãos mais novos, e até filhos, de quem tinha assistido no cinema ao original.

Com tanto tempo passado (e tantos filmes lançados) desde o início da franquia, era inevitável que, mais cedo ou mais tarde, a popularidade do São Bernardo se principiasse a desvanecer – e a verdade é que 'Beethoven e o Tesouro Secreto', de 2014, marca, até agora, o último sinal de vida do 'franchise' iniciado doze anos e uns impressionantes OITO filmes antes (quase o dobro dos 'Sozinho em Casa' lançados até hoje). A verdade, no entanto, é que a maioria deste tempo de vida foi passado no 'subterrâneo' cinematográfico do 'direct-to-video', tendo apenas os dois primeiros filmes da série tido verdadeiro impacto cultural – e mesmo esses, trinta anos volvidos, servem mais como exemplo de que os 'putos' dos anos 90 eram pouco exigentes no tocante a material de longa-metragem do que propriamente como obras de qualidade intemporal. Ainda assim, quem na infância desejou ter (ou teve) um São Bernardo, quase certamente recordará com carinho o filme do cão com nome de compositor, e as suas tropelias em casa dos seus desafortunados donos...

09.09.22

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Já anteriormente aqui abordámos o facto de, apesar de o género da ficção científica ter rendido muito mais clássicos nos anos 80 do que na década seguinte, os poucos grandes filmes do género que saíram durante os anos 90 terem, quase universalmente, adquirido o estatuto de clássicos desde a sua estreia; de 'O Exterminador Implacável 2' e 'O Dia da Independência' a 'Matrix' e 'Episódio I - A Ameaça Fantasma', a lista de mega-producções de temática futurista da última década constituiu um verdadeiro ror de êxitos de bilheteira, os quais almejaram também, muitas vezes, o consenso entre a sempre exigente crítica especializada.

Curiosamente, o ano de 1997 acabou por ser particularmente prolífero nesse campo, oferecendo às salas de cinema mundiais vários filmes de qualidade dentro deste género. De 'Homens de Negro' já aqui falámos; a 'O Enigma do Horizonte', atempadamente chegaremos; no entrementes, chega a altura de falar de um filme que celebrou há pouco mais de duas semanas o vigésimo-quinto aniversário da sua estreia nas salas portuguesas – facto que, por um lapso de calendarização, não chegámos na altura a assinalar. Neste 'post', corrigimos esse erro, e dedicamos finalmente umas linhas a 'O Quinto Elemento'.

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Realizado pelo excêntrico francês Luc Besson, conhecido pelos seus filmes de acção estilosos e com cenas 'a mil à hora', 'O Quinto Elemento' destoa um pouco na filmografia do cineasta, tendo muito pouco a ver com o anterior 'Léon, o Profissional', com o futuro mega-sucesso 'Taken' ou com a série 'Taxi', onde Besson foi guionista e produtor; onde esses eram filmes relativamente simples, de ambiente (mais ou menos) realista e focados na acção pura e dura, a longa-metragem de 1997 leva-nos até um futuro distante, claramente influenciado pelo clássico 'Blade Runner', e adopta um tom mais próximo deste do que da habitual linha 'Guy-Ritchie-parisiense' das obras de Besson. Em comum com muita da restante obra do francês, o filme tem a componente visual – repleta de penteados e perucas mirabolantes, a concorrer com o inevitável 'neon' que qualquer filme futurista tem que incluir – e o cuidado no desenvolvimento de personagens marcantes, com particular destaque para o andrógino empresário da vida nocturna Ruby, interpretado por Chris Tucker, hoje em dia talvez o elemento mais icónico e lembrado do filme.

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O excêntrico e andrógino Ruby de Chris Tucker é um dos personagens mais memoráveis do filme

Estes pequenos toques ajudam, em grande medida, a colmatar a história, que nada tem de especial, sendo a habitual trama sobre um polícia futurista (o Korben Dallas de Bruce Willis), também claramente herdada de 'Blade Runner', mas que é, ainda assim, apresentada e contada com competência acima da média, proporcionando duas horas de entretenimento garantido - como é, aliás, apanágio do realizador francês.

Em suma, 'O Quinto Elemento' é um filme bem típico da época estival (apesar do ambiente escuro e pós-apocalíptico) e que constituiu, à época da sua estreia, uma desculpa mais do que válida para escapar do sol de finais de Agosto para o frescor de uma sala de cinema; hoje, vinte e cinco anos depois desse momento, a obra de Luc Besson, além de continuar a 'aguentar-se' bastante bem, tem o prestígio adicional de não só ter inspirado futuras incursões do cineasta pelo ramo da ficção científica – como 'Lucy' ou o mais recente 'Valerian e a Cidade dos Mil Planetas' – como também se contar entre os melhores lançamentos do género a sair da década de 90, tendo-se merecidamente tornado um clássico dos videoclubes da viragem de milénio. Razões mais que suficientes para que lhe dediquemos (ainda que já atrasadamente) esta mão-cheia de parágrafos...

20.08.22

NOTA: Este post é correspondente a Sexta-feira, 19 de Agosto de 2022.

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Independentemente do tipo de educação e contexto que tenham tido durante a infância, há filmes que todos os portugueses se lembram de ter visto, pelo menos uma vez, durante esse período, seja por terem sido daqueles filmes que 'tinham' de se ver - à maneira de um 'Parque Jurássico', 'Space Jam' ou dos filmes lançados uma a duas vezes por ano pela Disney - ou simplesmente por se terem tornado 'clássicos' do aluguer em vídeo ou das emissões televisivas. O advento da TV Cabo - com os seus canais exclusivamente dedicados a filmes e, como tal, obrigados a mostrar repetidas vezes o mesmo material - veio exacerbar ainda mais esta tendência, e apresentar a toda uma geração mais uma série de 'clássicos' das tardes de fim-de-semana.

Um dos mais relembrados de entre essa 'safra' de filmes é 'Voando P'ra Casa', uma ficcionalização de uma história verídica sobre o elo entre uma jovem e um bando de gansos do Canadá, que revelou ao Mundo a promissora Anna Paquin, e que completa no próximo fim-de-semana um exacto quarto de século sobre a sua estreia cinematográfica em Portugal, a 29 de Agosto de 1997. Não terá, no entanto, sido nessa altura que a maioria dos jovens portugueses terá visto o filme, que, conforme acima referimos, se tornou presença assídua (quase perene) na grelha do Canal Hollywood e, mais tarde, de outros canais de cinema dos pacotes de cabo, onde pode ser visto até aos dias de hoje.

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Baseado numa obra autobiográfica da autoria de Bill Lishman, 'Fly Away Home' (de seu título original) conta a história da jovem canadiana Amy Alden (Paquin, então com apenas treze anos) que, após a morte da mãe, é forçada a ir morar com o pai (Jeff Bridges), de quem terá de aprender como se aproximar; o seu processo de adaptação é, então, 'espelhado' na descoberta de um ninho de gansos do Canadá, também órfãos, que Amy acolhe e se empenha em criar o melhor que pode. Inevitavelmente, no entanto, chega a hora de ter que devolver os gansos à liberdade, um desafio que Amy terá de se esforçar por superar...

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Anna Paquin com as verdadeiras estrelas do filme.

Há bons motivos para 'Voando P'ra Casa' ser considerado um clássico entre os filmes de família modernos; para além da constante repetição em diferentes canais do Cabo, a película tem tudo o que se requer de uma obra deste tipo: animais bebés fofinhos, momentos sentimentais (positivos e negativos), drama quanto baste, cenas marcantes e memoráveis (quem não se lembra de Amy a acompanhar os gansos na sua bicicleta, numa das cenas finais?) e também alguns momentos mais leves. Sem grandes coadjuvantes (além, é claro, dos com penas e asas), Paquin e Bridges provam-se mais do que à altura de 'carregar' às costas o filme com a primeira em particular a chamar a atenção pela interpretação adulta e multi-facetada. Apesar de não ser particularmente bem realizado ou 'espalhafatoso' (não que precisasse) é um filme que se vê muito bem até aos dias de hoje, e que certamente agradará a fãs de obras semelhantes, como a duologia 'Babe', também eles clássicos infanto-juvenis da época (e de que aqui, paulatinamente, falaremos); uma película, portanto, que vale bem a recordação por ocasião do vigésimo-quinto aniversário da sua estreia em Portugal.

05.08.22

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Nas últimas edições desta rubrica, temos dedicado atenção à carreira de Will Smith, que – na segunda metade dos anos 90 – progredia de mega-sucesso em mega-sucesso, transformando o actor numa das maiores estrelas de cinema da década, a par de um Robin Williams ou Jim Carrey; no entanto, nas imortais palavras do tio do Homem-Aranha, Ben Parker, 'grande poder acarreta grande responsabilidade', e o facto é que, já no final da década, século e milénio, Smith utilizou o seu poder para fazer uma escolha irresponsável – e quase deitou a sua carreira a perder com a mesma.

A escolha em causa foi a de aceitar o papel principal na adaptação para cinema da clássica série dos anos 60 'Wild Wild West' (encabeçada por Barry Sonnenfeld, com quem Smith trabalhara no mega-sucesso 'Homens de Negro') em detrimento de outro projecto, um ambicioso filme de ficção científica realizado por uma dupla de irmãos... Sim, Smith recusou mesmo o papel de Neo em 'Matrix', para representar um ex-coronel do exército americano do século XIX numa comédia de acção com estética de 'western cyberpunk' – um conceito tão confuso quanto o próprio filme em si.

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Não há como 'dourar a pílula' – 'Wild Wild West' foi uma bomba, daquelas de tais proporções que continuam a ser recordadas mais de duas décadas após o seu lançamento. Apesar de bem aceite pelo autor deste blog, ali por alturas do seu décimo-quarto aniversário, o filme foi pessimamente recebido tanto pela crítica como pelos fãs, tornando-se um 'ponto negro' na filmografia não só de Smith como de actores do calibre de Kevin Kline, Kenneth Branagh ou mesmo Salma Hayek, então em 'estado de graça'.

O mais curioso é que o filme tinha tudo para dar certo, desde um realizador já com provas dadas no género da comédia de acção até um elenco de luxo; o todo, no entanto, acabou por ser bem menos que a soma das partes, não obstante alguns elementos visuais memoráveis – como o corpo de aranha do vilão Dr. Loveless, de Branagh – e um tema-título contagiante, interpretado pelo próprio Smith (que já cantara o equivalente em 'Homens de Negro') com alguns convidados de primeira categoria. Nada, no entanto, que chegasse para evitar a 'derrocada' do filme nas bilheteiras de todo o Mundo – 'derrocada' essa que quase se verificava, também, nas carreiras dos principais envolvidos...

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O 'tanque-aranha' de Loveless é talvez o elemento mais memorável do filme.

Felizmente, o tempo provou que Smith tinha carisma suficiente para ultrapassar uma má escolha (pelo menos uma que não envolvesse altercações físicas com colegas de profissão) tendo o actor oriundo de Filadélfia continuado a gozar de enorme sucesso nas duas décadas subsequentes, embora agora, maioritariamente, em papéis mais sérios; já Branagh e Kline souberam aproveitar as suas credenciais para 'endireitarem' as respectivas carreiras, enquanto Hayek, jovem e bonita, não teve quaisquer problemas em recuperar deste 'tropeção'. A 'bomba' em que todos participaram – e que celebra este ano exactos vinte e três anos sobre a sua estreia em Portugal – acabou, assim, por não ter grandes consequências, àparte a sua inclusão na lista de crédito dos respectivos actores, que decerto prefeririam apagá-la dos registos; infelizmente para eles, tal não é possível, e 'Wild Wild West' servirá, para sempre, como exemplo de como uma má escolha pode, potencialmente, levar a consequências muito drásticas...

22.07.22

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Mesmo depois do incidente ocorrido durante a cerimónia dos Óscares deste ano, continua a ser seguro considerar Will Smith uma das mais conhecidas celebridades do Mundo. Um raro caso de sucesso a duas frentes (além de um dos actores mais bem pagos da actualidade, conseguiu também enorme sucesso com a sua carreira discográfica) o natural de Filadélfia é uma daquelas caras instantaneamente reconhecíveis até para os mais distraídos – e é difícil negar que grande parte desse reconhecimento deve-se ao que o artista construiu durante a década de 90.

De facto, foi durante a última década do século XX que Smith viveu o apogeu da sua carreira, apresentando-se ao Mundo por meio da mítica 'sitcom' 'O Príncipe de Bel-Air' (que, paulatinamente, aqui merecerá destaque) e fazendo posteriormente a transição para o grande ecrã através de uma série de filmes de grande orçamento e ainda maior sucesso, iniciada em 'Os Bad Boys', de 1995 (que o lançou como actor de cinema e marcou outra estreia cinematográfica, no caso a do realizador Michael Bay), e que incluiu ainda dois mega-'blockbusters', que cimentaram definitivamente o estatuto do actor: primeiro 'O Dia da Independência', de Roland Emmerich, em 1996, e depois, no ano seguinte, o filme que abordamos neste texto, 'Homens de Negro'.

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Estreado por terras lusas há quase exactos 25 anos – a 28 de Julho de 1997 – a adaptação da BD homónima a cargo de Barry Sonnenfeld foi um dos maiores sucessos daquele ano, muito por conta da incrível química entre Smith e o seu coadjuvante, o veterano Tommy Lee Jones. No papel de dois agentes intergalácticos cuja missão é localizar e apreender extra-terrestres infiltrados entre os humanos – conhecidos apenas pelas suas iniciais, J e K – os dois actores elevam aquele que era já um guião de qualidade, tirando o máximo proveito dos seus 'tipos' opostos (o habitual homem pacato e carismático de Smith e o 'durão' de poucas palavras e com cara de poucos-amigos de Jones) para criar uma parelha dicotómica, mas que se prova capaz de trabalhar em conjunto para resolver a missão encomendada pelo seu chefe, Z; juntem-se a esta receita actuações secundárias de enorme qualidade, 'bonecos' impagáveis (como Frank, o carlino falante que se tornou imagem de marca da série) e uma mistura perfeita de humor, acção e ficção científica, e não é de admirar que 'Homens de Negro' tenha 'caído no gosto' da juventude portuguesa – como, aliás, já se passara no resto do Mundo.

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Cartaz da primeira sequela, lançada em 2002

Este sucesso prolongou-se, aliás, suficientemente no tempo para manter a 'marca' 'Homens de Negro' relevante não só até à estreia nacional da série animada baseada no filme (de que já aqui falámos num post recente), em 1999, como até à estreia da primeira sequela, cinco anos após o original e de há quase exactamente duas décadas a esta parte; previsivelmente, esse reconhecimento ajudou a que o segundo filme conhecesse, também, considerável sucesso – que, aliás, merecia, ficando quase ao nível do primeiro em termos de guião e desempenhos.

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Os dois últimos filmes da série já não conheceram o sucesso dos seus antecessores

O mesmo, infelizmente, não se pode dizer das duas sequelas seguintes, sendo que o terceiro filme (lançado DEZ ANOS depois de 'Homens de Negro II', e há quase exactamente uma década) apresentava uma fórmula já algo 'estafada' e a perder gás, enquanto que o quarto, de 2019 (já sem o envolvimento de qualquer dos actores principais do original) é universalmente considerado um daqueles 'remakes' desnecessários, cujo único intuito é capitalizar numa vaga percepção de nostalgia em relação ao 'franchise' em causa; nada, no entanto, que retire o mérito ao filme original, que continua – exactamente um quarto de século após a sua estreia em Portugal – a constituir uma excelente forma de passar duas horas em família, numa tarde chuvosa.

 

 

08.07.22

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Hoje em dia, o nome de Michael Bay é imediatamente evocativo de filmes 'blockbuster' repletos de explosões, efeitos especiais, enredos sem grande substância (com algumas excepções, como o surpreendente 'A Ilha') e, provavelmente, com o envolvimento de Megan Fox algures – no fundo, o realizador representa uma espécie de James Cameron com as ambições megalómanas substituídas por uma dose 'extra' de impacto visual.

Em meados dos anos 90, no entanto, a situação era algo distinta, sendo Bay apenas mais um dos muitos realizadores de 'videoclips' musicais com ambições de fazer a transição para o mundo do cinema, a exemplo de um McG, por exemplo; e, como muitos dos seus semelhantes, o californiano viria mesmo a almejar o seu objectivo ainda nessa mesma década, e logo com um filme de acção de grande orçamento, e com o envolvimento de uma das maiores estrelas de cinema (na altura, ainda em ascensão) da era moderna.

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Falamos de 'Os Bad Boys', comédia policial que comemora no próximo fim-de-semana os vinte e sete anos da sua estreia em Portugal, e que junta Martin Lawrence e Will Smith (que cimentaria aqui as credenciais que o levariam a ser escolhido para 'O Dia da Independência' e 'Homens de Negro', dois dos mais bem-sucedidos filmes da década) como uma dupla de polícias com sentido de humor, ao mais puro estilo 'Arma Mortífera' ou 'Hora de Ponta' – ainda que, claro, bem mais 'cool' do que os 'trapalhões' Chris Tucker e Jackie Chan, ou os rezingões 'demasiado velhos para esta treta' interpretados por Mel Gibson e Danny Glover.

De facto, todo o filme é bastante mais 'estiloso' do que a maioria das produções suas contemporâneas (ou não se tratasse de uma película de Michael Bay), tendo mais em comum, do ponto de vista visual, com o que se viria a fazer no género alguns anos depois, já perto do final da década. Pode, pois, dizer-se que, pelo menos neste aspecto, Bay esteve 'à frente do seu tempo'; pena que, no que toca aos restantes parâmetros, 'Os Bad Boys' esteja longe de ser uma obra-prima, ainda que não deixe de ser um exemplo perfeitamente aceitável de 'filme de Sábado à tarde'.

Independentemente da qualidade, no entanto, a verdade é que a estreia de Bay como realizador fez sucesso suficiente para justificar uma sequela, já no novo milénio, e que, previsivelmente, mais não faz do que repetir a fórmula do original, utilizando a química entre Smith e Lawrence para 'carregar' mais uma historieta que pouco mais é do que um pretexto para tiros, perseguições automóveis e as famosas explosões de que o realizador se tornou sinónimo.

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Ainda que tão ou mais bem-sucedida do que o original, no entanto, 'Os Bad Boys II' não deu azo a nova sequela...pelo menos não no imediato, já que, DEZASSETE anos depois da estreia da segunda parte, o mundo do cinema viu a série ser elevada, à laia de 'presente' pelo seu vigésimo-quinto aniversário ao estatuto de trilogia, com a estreia de 'Bad Boys Para Sempre' ('Bad Boys For Life') que voltava a juntar a dupla de comediantes – agora mais velha e menos 'em forma' – para 'mais uma corrida, mais uma viagem' repleta de todos os elementos que os fãs da série certamente esperavam – à excepção de um enredo, claro está.

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Tendo em conta as idades avançadas dos protagonistas, e no rescaldo do 'estalo ouvido no Mundo inteiro', é, no entanto, muito pouco provável que alguma vez volte a ser produzido outro episódio da saga d''Os Bad Boys' – embora, a julgar pelo exemplo da supramencionada série 'Arma Mortífera', será mesmo melhor seguir o ditado que aconselha a 'nunca dizer nunca'... Enquanto se espera que Bay recupere e reviva a carreira do ostracizado e excomungado Will Smith, no entanto, resta recordar o filme que apresentou ao Mundo um deles, cimentou o segundo como 'mega-estrela', e ofereceu ao chamado 'cinema-pipoca' moderno o seu mais conhecido e divisivo realizador.

24.06.22

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

A segunda metade dos anos 90 assistiu a uma espécie de 'segunda vaga' de um género cinematográfico que marcara a década anterior para milhões de adolescentes um pouco por todo o Mundo: o filme de terror em que um assassino em série persegue grupos de jovens, matando-os um a um por qualquer motivo esotérico, revelado no final do filme.

Este reviver do 'slasher film' não se dava, no entanto, exactamente nos mesmos moldes da década anterior. Isto porque, onde os anos 80 haviam sido um período marcado por uma mentalidade social de ingenuidade e optimismo, os dez anos seguintes viram essa atitude tornar-se, progressivamente, mais sarcástica e auto-consciente, acabando essa mudança, como é natural, por se reflectir nos trabalhos artísticos desse período; assim, onde filmes como 'Sexta-Feira, 13' ou 'Halloween' haviam sido feitos para serem levados a sério, os seus congéneres da década de 90 vinham pré-equipados com uma atitude auto-referencial, que os leva a serem considerados por alguns críticos como sátiras do próprio género.

Talvez o melhor exemplo dessa mesma tendência seja o primeiro desses filmes, e grande responsável por 'lançar' toda essa segunda vaga de 'slasher films' – 'Gritos', obra que viria a dar azo a todo um franchise (ao melhor estilo dos clássicos originadores do género anteriormente referidos) e que celebra por estes dias o vigésimo-quinto aniversário da sua estreia em Portugal, a 27 de Junho de 1997.

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Realizado pelo mestre Wes Craven (de 'Hills Have Eyes' e 'Pesadelo em Elm Street') e tão ou mais conhecido pelas sequelas e paródias que suscitou (quem não se lembra da recriação da cena inicial no início de 'Scary Movie - Um Susto de Filme'?) como por mérito próprio, o primeiro 'Gritos' foi ainda responsável por adicionar outra cara icónica ao rol de vilões do género, na pessoa do carismático Ghostface – um assassino encapuçado e com uma máscara comprida de expressão triste, que rapidamente se tornaria tão reconhecível como Jason Voorhees, Freddy Krueger ou Michael Myers, com quem ombreia hoje em dia na galeria de 'monstros' deste tipo de filme.

Nem só do vilão, no entanto, vive este primeiro capítulo da série, que apresenta também uma Drew Barrymore adolescente, ainda a alguns anos de se tornar membro dos Anjos de Charlie, e que protagoniza precisamente a icónica cena de abertura (memoravelmente parodiada por Carmen Electra, no referido 'Um Susto de Filme'), um David Arquette então em alta (e a poucos meses de se tornar campeão de luta-livre pela WCW), a futura mulher deste último, Courteney Cox, e ainda nomes como Liev Schreiber e Neve Campbell, actriz que prometia bastante mas que nunca se notabilizou para além desta série de filmes. Este forte elenco ajuda a garantir prestações de qualidade num filme que, estando muito longe de ser uma obra-prima, deu nas vistas na época, e merece a reputação como clássico moderno do género.

A fórmula da série não seria, no entanto, aperfeiçoada até ao segundo filme, lançado nos Estados Unidos dois anos depois do original, mas que, em Portugal, surgiria com meros meses de diferença, em Fevereiro de 1998.

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Muito menos preocupado em ser levado a sério que o primeiro, 'Gritos 2' investe ainda mais na auto-referência, satirizando não só o seu género de filme como a indústria de Hollywood em geral, maioritariamente pela boca do personagem de Jamie Kennedy, que trabalha numa loja de vídeos e, como tal, não tem qualquer pejo em tecer comentários sobre toda uma panóplia de filmes e práticas cinematográficas. No restante elenco, além do regresso de todos os 'repetentes' sobreviventes do primeiro, destaque para a presença de Sarah Michelle Gellar, na altura sinónima com o seu papel de lançamento como Buffy Summers, a Caçadora de Vampiros, mas que aqui surge como apenas mais uma vítima do regressado Ghostface. Muito mais divertido e menos estereotipado que o original – muito por conta das supracitadas auto-referências – 'Gritos 2' é o melhor dos cinco capítulos da franquia lançados até hoje, e merece ser visto por qualquer fã deste tipo de filme.

E já que falamos em humor auto-referencial, uma palavra para o terceiro capítulo, lançado no ano 2000 (já um pouco fora do âmbito do nosso blog) mas que merece ser abordado, por assinalar a altura em que a série decide dar o 'meio passo' que já a separava da paródia assumida, e tornar-se, assumidamente, uma 'horror comedy'.

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É certo que muita da sátira fica reservada para o filme-dentro-do-filme, intitulado 'Stab' e baseado nos eventos do primeiro 'Gritos', mas a longa-metragem inclui também uma sequência mirabolante em que os personagens Jay e Silent Bob, criados pelo realizador de culto Kevin Smith, são vistos a visitar o estúdio em que o referido 'Stab' é filmado, e assistem em primeira mão à rodagem da cena final do filme, em que Shannen Doherty (a eterna rebelde Brenda, de Beverly Hills 90210) retira o capuz a Ghostface, e revela que este é...um orangotango! Juntamente com falas como 'tenho trinta e cinco anos e estou a interpretar uma personagem de vinte e um', estes elementos ajudam a transformar 'Gritos 3' na sátira ao género que a crítica tinha feito dos seus dois antecessores, mas que estes nunca haviam querido assumir totalmente.

Embora esse se afirmasse como o ponto ideal para terminar a franquia, no entanto, o dinheiro e a nostalgia falaram mais alto, e – talvez inspirados nos outros 'franchises' clássicos do género - transformaram a trilogia numa pentalogia.

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Infelizmente, tanto 'Gritos 4' como o filme realizado já este ano são significativamente menos inovadores ou divertidos que os seus (já algo derivativos) antecessores, pelo que não será levado a mal qualquer entusiasta que resolva fingir que a série só tem, mesmo, três títulos - constituindo qualquer um desses três uma excelente experiência de 'cinema-pipoca', mesmo à medida dos adolescentes da viragem do milénio. Não é, portanto, de admirar que a franquia tenha 'caído no gosto' da referida demografia, integrando as memórias nostálgicas da mesma e sendo ainda recordada com afeição por muitos dos que a vivenciaram, mesmo um quarto de século depois do seu início.

10.06.22

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Os anos 80 e 90 representaram o auge absoluto da carreira do realizador Steven Spielberg, que seria responsável, durante esse período, por uma sucessão de êxitos de bilheteira, a começar em 'Salteadores da Arca Perdida', de 1981, e que se estenderia durante mais de vinte anos, até pelo menos a 'Apanha-me Se Puderes', de 2002. Os filmes dirigidos a um público infanto-juvenil, em particular – 'E.T. - O Extraterrestre', 'Poltergeist', 'Os Goonies', as sagas 'Indiana Jones' e 'Parque Jurássico' – granjearam ao nova-iorquino uma reputação suficiente para que qualquer projecto por ele encabeçado e dirigido a esta demografia se tornasse um sucesso, por mais megalómano ou exagerado que fosse.

Serve este preâmbulo para falar de 'Hook', talvez O mais megalómano e exagerado de todos os filmes infanto-juvenis de Spielberg, que – mesmo com quase duas horas e meia de duração, e apresentando muitos dos piores 'tiques' do realizador – não deixou ainda assim de ser bem acolhido pelas crianças e jovens de inícios dos 90, não constituindo Portugal excepção neste aspecto.

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De facto, aquando da sua estreia em território nacional, a sequela para a clássica história de Peter Pan – que documenta o regresso do herói à Terra do Nunca, décadas depois de finalmente ter sucumbido à maturidade – suscitou considerável interesse entre o público-alvo, a quem nem mesmo a longa duração do filme (quase uma hora mais longo do que a maioria das películas destinadas à mesma demografia) conseguiu refrear o entusiasmo; como consequência, 'Hook' acabou mesmo por se afirmar como mais um na infindável lista de sucessos de Spielberg – mesmo sendo um dos filmes mais fracos do realizador durante esse período.

De facto, conforme referimos acima, a longa-metragem apresenta várias pechas, que não se resumem apenas à longa duração e ritmo algo indulgente; não foi à toa que, por exemplo, Julia Roberts foi nomeada para a Framboesa de Ouro relativa a Pior Atriz Coadjuvante – a sua prestação como Sininho, já de si repleta de todos os mais irritantes clichés da actriz, não sai de todo beneficiada pelos efeitos especiais da época. De igual modo, Williams surge neste filme em modo 'sentimentalão', sem a 'chama' que trazia a papéis sérios como 'O Clube dos Poetas Mortos' nem a veia cómica desenfreada das suas futuras prestações em 'Aladdin', 'Flubber' ou 'Papá Para Sempre'.

Valem, pois, as prestações de Dustin Hoffman como o titular Capitão Gancho – declaradamente e propositalmente afectada e exagerada – e do jovem Dante Basco como Rufio (líder dos Meninos Perdidos e 'substituto' de Peter tanto em idade como em aspecto e atitude) para manter o interesse do espectador comum, não sendo de estranhar que ambas constituam os elementos mais memoráveis da película.

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O Rufio de Dante Basco e o Capitão Gancho de Dustin Hoffman são os elementos mais memoráveis do filme

Em suma, apesar de não constituir de todo uma má opção para uma tarde chuvosa em família – quem conhece o Spielberg deste período sempre soube que estaria em boas mãos – 'Hook' deixa algo a desejar quando comparado com a esmagadora maioria das obras que o rodeiam na filmografia do realizador americano, devendo pois ser recordado (ou apresentado às gerações mais novas) apenas depois de esgotados todos os restantes marcos da filmografia Spielbergiana. Ainda assim, o filme chegou, à época, a ser marcante para um determinado sector da juventude portuguesa, pelo que, qualidade à parte, estas breves linhas em sua homenagem acabam por não ser totalmente descabidas...

02.06.22

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 1 de Junho de 2022.

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

Eram caixinhas de surpresas. Folhas em branco, à espera de serem povoadas com o que mais aprouvesse a quem as adquiria. Portas para um mundo mágico, repleto de possibilidades ao alcance dos dedos (e da carteira). Instrumentos de sedução. Provas de amizade. Métodos de documentação. Tudo isto, e muito mais, pelo preço de duas semanas da mesada de um jovem dos anos 90.

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Falamos das cassettes ditas 'virgens' (tanto de áudio, como de vídeo), que estiveram entre as invenções mais populares das décadas de 80 e 90. Numa altura em que a aquisição dos formatos 'oficiais' – vinil, cassettes musicais pré-gravadas, CD, Betamax ou VHS – requeriam algum investimento, esta inovação veio permitir a muitos jovens gravar os seus filmes, músicas e programas de televisão ou rádio favoritos, em blocos de várias horas, dependendo da duração e qualidade da cassette; escusado será dizer que poucos foram os jovens que não tiraram partido dessa apelativa possibilidade.

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Comercializadas, em Portugal, sobretudo pela Sony, TDK, Fuji, Mitsubishi e BASF (embora não fosse, de todo, difícil encontrar 'marcas' muito menos conhecidas, algo mais baratas, mas de qualidade significativamente menos comprovada) este tipo de cassette era relativamente fácil de encontrar, podendo normalmente ser adquirida na secção audio-visual de estabelecimentos dos mais variados tamanhos, desde lojas de bairro a supermercados e hipermercados – o 'truque' estava, apenas, em descobrir onde eram praticados os preços mais apelativos. Depois – uma vez adquirido o número desejado de cassettes em branco – restava gravar a nosso bel-prazer, tanto quanto as horas das referidas cassettes permitissem, e, no fim, identificá-las através de um dos característicos rótulos que qualquer ex-jovem da época terá repetidamente criado para saber o que continha cada 'volume' (ou, caso a família fosse leitora da TV Guia, através de uma das não menos icónicas 'capas' oferecidas semanalmente pela revista, e alusivas aos grandes filmes a passar na televisão nessa semana.)

Em suma, um verdadeiro ritual de passagem de qualquer adolescente da época, que perdurou durante toda a década seguinte (apenas substituindo as cassettes por CDs ou DVDs) mas que, como tantos outros de que falamos nestas páginas, inexoravelmente se perdeu na era do 'streaming'. Hoje em dia, as 'mixtapes' são 'playlists', e os filmes que não estão na Netflix acabam, mais tarde ou mais cedo, por entrar em rotação constante num qualquer canal da TV Cabo. Restam, pois, as memórias de toda uma geração para preservar a experiência que era pôr uma cassette em branco no vídeo, aparelhagem ou 'tijolo', e nela documentar os gostos pessoais naquele ponto das nossas vidas...

 

28.05.22

NOTA: Este post diz respeito a Sexta-feira, 27 de Maio de 2022.

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Oa filmes baseados em videojogos têm, historicamente, estado entre as adaptações menos bem conseguidas da História do cinema moderno – um pódio que, em tempos, partilharam com as adaptações de banda desenhada. Mas enquanto que a reputação destas veio ser (muito) melhorada pelas produções multimilionárias dos estúdios da Marvel e DC Comics, o percurso dos videojogos no cinema continua a ser marcadamente errático, sendo cada tentativa razoavelmente conseguida (os três filmes de Tomb Raider ou o recente Uncharted) anulada pela existência de um desastre absoluto, que parece não ter qualquer ideia do que torna o material original apelativo para o seu público-alvo.

Serve este preâmbulo para apresentar, precisamente, um desses desastres absolutos que parecem não ter qualquer ideia do que torna o material original apelativo para o público-alvo – ou antes, aquele que talvez seja O exemplo-mor desta tendência: o filme de Super Mário.

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Estreado em Portugal em inícios de 1994, e produzido no ano anterior, 'Super Mário' (o filme) parece – ainda mais do que outros filmes deste tipo – fazer um esforço consciente para ignorar praticamente todos os elementos popularizados por jogos como 'Super Mario World', usando apenas os mais básicos e reconhecíveis (Mario, Luigi e Daisy são facilmente reconhecíveis, o vilão chama-se Rei Koopa, e há referências a cogumelos) e alterando rigorosamente TUDO o resto, por vezes de forma nada menos do que abstrusa; veja-se, por exemplo, o ambiente cyberpunk (!) do Reino dos Cogumelos, que apresenta os tradicionais Goombas (os atarracados e instantaneamente reconhecíveis cogumelos ambulantes que se popularizaram como o primeiríssimo inimigo do primeiríssimo jogo de Mario) como mutantes musculados e de feições deformadas (!!), o referido Koopa como um empresário (!!!) também ele mutante (!!!!) e com cabelo constituído por pequenos esporos de cogumelo (!!!!!), e Yoshi como um dinossauro semi-realista (!!!!!!).               smb-1280b-1623444752449.jpgsuper-mario-bros-movie-fans-restore-20-minutes-of-

No universo deste filme, ISTO é um Goomba (em cima) e ESTE é Koopa (em baixo)!!

Todo o filme toma esta toada, consistente com o credo, popular na Hollywood da época, de que para um filme de acção dirigido ao público jovem ser bem sucedido, tinha forçosamente de apresentar ambientes escuros e desolados - veja-se também, como exemplo deste fenómeno, o primeiro filme das Tartarugas Ninja. No entanto, onde essa obra apresentava cuidado, dedicação e sobretudo respeito pelo material de base, 'Super Mário' faz exactamente o contrário, quase parecendo um insulto propositado aos fãs do 'franchise' da Nintento por gostarem de algo tão tolo e colorido – o que torna ainda mais incongruentes os vários 'easter eggs' e referências aos jogos escondidos no cenário, prontos a serem encontrados por espectadores mais atentos.

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O universo do filme contém diversas referências a elementos dos jogos originais, apesar de pouco ou nada aproveitar dos mesmos.

Por este mesmo motivo, a primeira longa-metragem dos irmãos Mario (de quem ficamos, pelo menos, a saber ser esse o apelido) saldou-se como nada mais do que uma desilusão, que desperdiçava actores de confiança – Bob Hoskins e John Leguizamo vivem os personagens tanto ou mais do que 'Captain' Lou Albano e Danny Wells na versão televisiva do canalizador – num argumento pobre e sem qualquer tipo de relação com o universo estabelecido pelo franchise.

O resultado foi uma 'bomba' de proporções épicas, que merece plenamente o seu estatuto e reputação como um dos piores filmes, não só de videojogos, mas da década de 90 em geral – mas que muitos dos leitores deste blog terão, mesmo assim, ido ver ao cinema, dada a popularidade do material no qual (não) era baseado. Esperemos, pois, que a de há muito anunciada versão animada do canalizador italiano (a ser lançada pela francesa Illumination, de 'Gru, O Maldisposto' e 'Cantar!') consiga superar a sua antecessora 'de carne e osso' – embora, como este post terá demonstrado, tal não se afigure como uma missão particularmente espinhosa...

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