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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

20.04.22

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

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Quem foi jovem na viragem dos anos 90 para o século e milénio seguinte, certamente terá ainda programada, algures no seu ser, uma resposta inata, quase 'pavloviana', a uma determinada maneira de pronunciar as palavras 'Oh, Elsa' - nomeadamente, responder na mesma moeda, com precisamente a mesma entoação ao estilo cântico de futebol ('Oh Ellll-saaaaa!') e no máximo de volume que conseguir.

Isto porque, durante um determinado espaço de tempo entre o Verão de 1998 e finais da década, esse cântico foi omnipresente entre uma determinada camada da população portuguesa, afirmando-se como um daqueles 'memes' que antecedem a criação do próprio termo, e até da Internet 2.0. Durante aqueles 12 ou 18 meses, o grito foi entoado em pátios de escola, em transmissões em directo de jogos de futebol, em estádios, nos festivais de música de Verão onde tivera origem, por participantes em colónias de férias...enfim, onde houvesse 'malta jovem', aí se ouviria esse cântico, independentemente do contexto ou até sentido do mesmo naquela situação.

Mais curioso era que muitos dos que berravam a plenos pulmões pela Elsa nunca chegaram a saber de quem a mesma se tratava, ou de onde o grito surgira; muitos julgavam ter tido o mesmo origem num anúncio que passava na época (embora também esse simplesmente aproveitasse a febre) e para os restantes, era simplesmente uma coisa que se passara a fazer, que surgira de parte incerta e estava agora na moda. E a verdade é que mesmo a suposta origem do grito (alegadamente ideado como forma de um grupo de participantes no Festival do Sudoeste '98 localizarem uma amiga, chamada precisamente Elsa, e rapidamente tornado 'viral' entre os restantes campistas e, daí, para o resto do Mundo) pode não passar de uma 'lenda urbana'; na verdade, ninguém sabe ao certo a verdadeira origem do 'Oh Elsa' - com a possível excepção, claro, de quem o tenha criado.

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O Festival do Sudoeste, suposto local de origem do grito

Fosse qual fosse a sua origem, no entanto, uma coisa é certa - o cântico pegou, e durante mais tempo do que costuma ser regra para este tipo de coisa. Com o seu balanço ideal de potencial 'memético-viral', valor alto no 'irritómetro' e factor 'malta fixe', o grito passou, durante um breve mas marcante período, a constituir mais um elemento aglutinador e identificador da demografia jovem, que - ao contrário de outros - ultrapassava demarcações de 'tribos' ou níveis de popularidade, unindo toda a população nacional abaixo de uma certa idade num único e ensurdecedor clamor pela quase mítica Elsa, então (presume-se) já de há muito encontrada pelos seus colegas de festival, e para quem deverá ter sido no mínimo estranho ouvir, durante mais de um ano, metade do País utilizar o menor pretexto para berrar a plenos pulmões por ela...

07.10.21

NOTA: Este post é relativo a Quarta-feira, 6 de Outubro de 2021.

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Nas últimas edições desta rubrica, temos vindo a recordar alguns dos mais famosos exemplos do formato ‘tirinha de jornal’ dos anos 90, a começar pelos ‘príncipes’ Calvin and Hobbes. No entanto, ainda antes do ‘puto reguila’ e o seu tigre de peluche / amigo imaginário capturarem a imaginação e o coração das crianças e jovens portugueses, já uma outra menina, de cabelo escorrido, vestido e lacinho, o vinha fazendo há mais de uma década, fazendo assim por merecer o seu espaço nesta retrospectiva do formato ‘comic’ daquelas décadas clássicas.

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Falamos, claro, de Mafalda, criada nos anos 80 mas que, nos primeiros anos da década seguinte, ainda fazia ‘mexer’ uma quantidade considerável de produtos licenciados dirigidos ao público mais jovem, desde cadernos escolares a figurinhas em vinil (os clássicos ‘bonequinhos’) e até alguns artigos menos óbvios, como aventais (um dos quais ‘morava’ lá em casa). O que não seria nada de particularmente estranho ou digno de nota…não fosse o facto de Mafalda não ser, de forma alguma, uma tira para crianças.

De facto, a menina reivindicativa criada por Quino foi – pelo menos em Portugal – alvo daquela ideia errónea, ainda hoje tida como verdadeira por grande parte da sociedade, de que toda e qualquer propriedade intelectual com personagens infantis é, forçosamente, dirigida a crianças. No caso das tiras de Quino, não só tal não é verdade (a grande maioria das piadas e situações de ‘Mafalda’ será de difícil compreensão para uma criança comum) como a apreciação das tiras requer conhecimento de um contexto muito específico – nomeadamente, aquele em que Mafalda, a sua família e os seus amigos vivem, isto é, a Argentina ditatorial dos anos 80. Efectivamente, só quem tiver algum contexto, ainda que de base, sobre o que então se passava no país natal do ‘cartoonista’ será capaz de apreciar inteiramente os comentários mordazes da pequena Mafalda sobre aquilo que a rodeia, quer a um nível mais imediato, quer mais global e social.

Como se pode ver, portanto, uma obra que passava muito longe das histórias da Turma da Mônica, por exemplo, e cujo único atractivo para a demografia infanto-juvenil residia mesmo nas personagens de Mafalda, Manelito, Miguelito e Filipito, crianças aparentemente perfeitamente normais, mas que – como Calvin alguns anos mais tarde, e em certa medida os Peanuts de Schulz antes deles – eram dados a acessos de filosofia e contestação da ordem social vigente, em meio às suas inocentes brincadeiras.

Ainda assim, e pese embora o conteúdo pouco acessível de muitas das tiras, este trio demonstrou ter carisma suficiente para conseguir duas décadas de sucesso continuado entre o público infantil e juvenil um pouco por todo o Mundo - incluindo em Portugal, onde chegou pela mão da editora Dom Quixote.

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Capa da edição original de 'Toda a Mafalda' lançada pelas Edições Dom Quixote

E ainda que, hoje em dia, a ‘estrela’ de ‘Mafalda’ esteja um pouco mais apagada, na época que nos concerne, a menina da bandolete de lacinho fez - conforme já mencionamos no início deste texto - mais do que o suficiente para justificar a sua presença nesta nossa rubrica…

25.08.21

NOTA: Este post é relativo a Terça-feira, 24 de Agosto de 2021.

A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.

Hoje em dia, existem tantas e tão imediatas formas de contactar tudo e todos através da Internet, que parece quase caricato pensar que, há pouco mais de vinte anos atrás, a comunicação por este meio era extremamente limitada, e restrita a meia-dúzia de canais na ainda incipiente plataforma global. Na era pré-MSN Messenger (ao qual, paulatinamente, chegaremos) o contacto em tempo real entre utilizadores geográfica e temporalmente deslocados requeria o acesso a um dos arcaicos programas de ‘chat’ do fim do segundo milénio – de entre os quais, pelo menos em Portugal, se destacava um em particular.

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O mIRC (sigla para Internet Relay Chat, sendo que nunca ninguém teve a certeza do que significava o ‘m’) não era o único programa de ‘chat’ online disponível naqueles anos – nem sequer o único a dar acesso aos servidores de IRC – mas, por alguma razão, foi aquele que ‘pegou’, tendo, para muitos jovens da época, sido sinónimo com ambos os tipos de tecnologia. Milhares de jovens portugueses aderiram, em finais dos anos 90, a este novo ‘vício’, que capturou, inclusivamente, a significativa porção da demografia que não estaria, normalmente, interessada neste tipo de serviço. ‘Totós’, ‘betinhos’, góticos (já a praticar para os anos vindouros de abuso do MSN) ou ‘freaks’, todos se renderam à magia daquelas pequenas janelinhas azuis e cinzentas, com letras verdes, vermelhas e pretas, dentro das quais se escondiam potenciais novas amizades (sempre iniciadas pelo característico e memorável 'oi, ddtc?'), ou simplesmente experiências ‘maradas’, como é apanágio da Internet.

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É incrível como algo com ESTE aspecto suscitava um 'vício' tão forte...

Fosse para conhecer raparigas ou rapazes de outras turmas da escola, os quais se seria de outro modo demasiado tímido para abordar, ou simplesmente para trocar piadas ‘foleiras’ com os amigos em canal privado, a maioria dos jovens portugueses da época arranjava maneira de fazer a cara do criador do programa, Khaled Mardam-Bey, aparecer num qualquer ecrã de computador público de forma quase diária (o uso em casa dependia de uma série de variáveis, a começar pela existência de um computador com Internet, o que à época não era um dado adquirido.) E embora, visto do futuro, o serviço pareça quase pitoresco – graficamente, parece uma espécie de Elifoot 2 em versão programa de ‘chat’ – a verdade é que, na altura, o mesmo representava o auge da tecnologia de conversação online disponível, e fez a felicidade da primeira geração de portugueses a ter contacto mais directo com a Internet nos seus anos formativos.

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A cara deste senhor foi, a dada altura de finais dos anos 90, mais vista e conhecida que a de muitas celebridades...

Hoje em dia, o mIRC continua vivo (e com novas versões do mesmo velho software a serem periodicamente lançadas), embora seja uma mera sombra do que era naqueles idos da viragem do milénio. A PTNet (a rede em que todos crescemos a conversar) retém pouquíssimos usuários, quase todos da ‘velha guarda’, e os restantes servidores ficam sobretudo circunscritos aos Estados Unidos e a alguns países asiáticos. Ainda assim, é bom ver um programa – não importa quão obsoleto – ‘aguentar-se’ através das diferentes eras da Internet, recusando-se a morrer por completo, apesar de todas as contingências. A dúvida que fica ao ver o mIRC ainda vivo, no entanto, é só uma: seré que, em todo este tempo, já alguém alguma vez pagou para registar o programa?

 

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