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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

04.10.23

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

As duas últimas semanas do mês de Setembro assinalavam, para os alunos portugueses das gerações 'X' e 'millennial', o regresso às aulas, com todos os trâmites e rituais nele implicados, das matrículas à compra de material e livros e, claro, a sempre importante decisão sobre a côr do carimbo a estampar no cartão da escola, e subsequente nível de liberdade e autonomia. Em meio a tudo isto, havia ainda outro componente, menos trabalhoso e consequente, mas nem por isso menos importante: a obtenção e preenchimento de um horário escolar.

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Exemplo de um horário promocional, no caso alusivo aos sumos Joi.

De facto, numa era em que a maioria dos processos eram, ainda, analógicos, aquelas folhinhas de papel ou plástico com uma grelha dividida em dias da semana e número de períodos típico de um dia de aulas constituíam a principal forma de um aluno recordar as datas, horas, ordem e até salas em que teriam lugar cada uma das suas aulas, tornando-os um auxiliar essencial para as primeiras semanas de aulas, antes de essas mesmas informações serem interiorizadas e o processo se tornar 'mecanizado' na mente do aluno.

Efectivamente, a importância dos horários era tal que, mesmo servindo apenas e só uma função utilitária, os mesmos estavam sujeitos às mesmas regras estéticas que qualquer outro elemento do 'kit' escolar; embora houvesse quem preferisse simplesmente anotar essas informações no verso do cartão da escola – que oferecia uma grelha para o efeito – a maioria das crianças e jovens procurava um horário de aspecto diferenciado, muitas vezes obtido gratuitamente como brinde numa qualquer revista juvenil, ou numa loja de material escolar, e orgulhosamente exibido no verso do 'dossier' ou na parede do quarto.

Escusado será dizer que, em plena era digital, os horários perderam toda e qualquer relevância que alguma vez pudessem ter tido; para os alunos de finais do século XX e inícios do seguinte, no entanto, esta aparentemente singela parte do processo de 'rentrée´ escolar revestia-se de uma importância que a torna, ainda hoje, memorável ao recordar os inícios de ano lectivo daquela época.

20.09.23

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

Naquela que teria sido a primeira semana de regresso às aulas para a maioria dos 'putos' dos anos 90, vêm inevitavelmente à memória certas particularidades da vida escolar daquela época. Mas entre as memórias sobre ir comprar mochilas, cadernos, tabuadas e outros materiais, as recordações relativas ao processo de matrícula e as imagens mentais das infindáveis e icónicas circulares, surge também um aspecto algo mais esquecido por essa (agora adulta) geração, mas que, a dada altura do seu desenvolvimento, constituiu um ritual de passagem tão importante quanto o primeiro café ou a passagem de 'menino/a' a 'senhor/a' nas lojas: a obtenção do 'carimbo azul' no cartão escolar.

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Traseira de um cartão escolar português da época; o tão importante carimbo encontrava-se no verso, ou seja, na parte da frente, junto à fotografia.

De facto, numa altura em que os cartões de aluno eram, ainda, impressos em cartão, e isentos de quaisquer funcionalidades digitais, o tradicional processo de carimbagem assumia contornos cruciais para o futuro imediato de qualquer criança ou jovem daqueles finais do século XX. Isto porque a maioria das escolas, sobretudo as dirigidas ao segundo e terceiro ciclos do ensino básico, tendiam a adoptar um sistema dualitário para controlar as entradas e saídas dos alunos, quer após, quer durante as aulas; assim, apenas os alunos cujo cartão estivesse carimbado a azul eram autorizados a transpôr os portões da escola sem a presença de um adulto, sendo os portadores de cartões com carimbo vermelho obrigados a esperar pela chegada de um maior de idade, preferencialmente um dos encarregados de educação.

Não é difícil, mesmo para quem não tenha vivido aqueles tempos, perceber a importância de ser autorizado a ter no cartão o selo azul: não só o mesmo tornava possível acompanhar os amigos à saída da escola (e, quiçá, até regressar a casa totalmente sozinho!) como também sair durante os intervalos ou aquando dos famosos 'furos' – algo que, no caso do autor deste 'blog', permitia ir à drogaria da esquina comprar uma bola para o intervalo seguinte, à papelaria comprar chupa-chupas ou cromos, ou ao café comer um bolo não disponível no bar da escola. Além destas considerações mais práticas, o carimbo azul era, ainda, um sinal de confiança por parte dos pais, com fortes implicações de maturidade – um dos objectivos principais de qualquer criança ou jovem, sobretudo durante os anos da pré-adolescência.

Não é, pois, de admirar que a questão do carimbo no cartão da escola assumisse, durante a presente época do ano, tal importância para os 'putos' da geração 'millennial' portuguesa, sobretudo os residentes em ambientes citadinos, onde havia uma maior preocupação com a segurança por parte das escolas. E apesar de o advento dos cartões magnéticos e electrónicos ter vindo a extinguir por completo a prática em causa, é de acreditar que exista, presentemente, um sistema alternativo, que se revista de tanta ou mais importância para a 'geração Z' quanto um simples círculo estampado teve para a dos seus pais...

19.07.23

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

A natureza, e todos os seus mistérios, exercem tradicionalmente um considerável fascínio junto do público jovem, em Portugal e não só; assim, não é de surpreender que muitas escolas primárias por esse Mundo fora optassem (e continuem a optar) por introduzir um elemento de sensibilização natural nos seus programas lectivos, normalmente por meio de uma 'horta' (ou simplesmente alguns vasos na parte traseira da sala) ou da interacção com um qualquer animal. E ainda que os métodos e pontos de vista em relação a estas práticas se tenham alterado consideravelmente nos últimos anos, em Portugal, em finais do século XX, um projecto deste tipo era quase sempre sinónimo com a criação de bichos da seda.

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As origens desta quase-tradição das escolas básicas portuguesas de então é pouco clara, mas serão poucos os jovens daquela época que afirmem nunca ter tentado manter vivos aqueles bicharocos dentro de uma caixa de sapatos forrada com algodão. Fosse como projecto de turma ou para 'levar para casa', a criação de larvas de 'Bombyx mori' era quase tão comum como a germinação de sementes num frasco (curiosamente, também com recurso a algodão) ou do que aqueles bonecos de estopa com 'cabelo de relva' tão populares na altura (e que também aqui terão, paulatinamente, o seu momento.) E embora a experiência raramente durasse mais do que uns dias (ou, quando muito, alguma semanas)

Tendo em conta a mudança de mentalidades referida no início deste post, não é de estranhar que esta prática tenha caído em desuso; afinal, o espectro de atenção das crianças é notoriamente curto, e muitos terão, certamente, sido os pobres 'bicharocos' sacrificados em prol destas experiências pedagógicas, fosse como resultado de negligência, fosse pela falta dos recursos e ambiente necessários à sua sobrevivência. Assim, tal como sucedeu com a adopção de animais de estimação exóticos, este é um costume cujo abandono acaba por ser positivo – o que não obsta a que o mesmo tenha feito parte integrante do processo formativo e pedagógico de toda uma geração de jovens portugueses...

05.07.23

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

Os últimos dias do mês de Junho e inícios do seguinte representavam um período agridoce para a maioria dos estudantes do terceiro ciclo e ensino secundário de finais do século XX e inícios do Novo Milénio. Isto porque se, por um lado, as férias de Verão estavam à porta (e, muitas vezes, também as respectivas viagens de finalistas) por outro, havia ainda um enorme obstáculo a ultrapassar – nomeadamente, os exames que tendiam a ser marcados para esta época do ano. E se no caso dos finalistas do secundário os mesmos eram de âmbito nacional, já os mais novos eram sujeitos a uma espécie de 'versão de treino', normalmente de âmbito intra-escolar, mas de igual relevância para a sua média final do ano: as chamadas provas globais.

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De conceito exactamente igual ao dos exames nacionais – ou seja, um único teste que compreendia toda a matéria leccionada durante o ano escolar no âmbito daquela disciplina – as provas globais tinham, no entanto, algumas diferenças-chave de significativa relevância: por um lado, não eram criadas pelo Estado, mas sim pelo próprio departamento de professores daquela disciplina pertencentes à escola e, por outro, também não eram revistas por juízes neutros aleatoriamente escolhidos, mas sim pelos colegas do docente que havia criado o teste. Por outras palavras, cada prova global era criada pelo departamento de forma conjunta, e os testes de cada turma eram revistos por um professor que não o habitual daquela turma, de forma a obter uma opinião imparcial e sem 'conhecimento de causa' do contexto de cada aluno dentro da turma em questão. E a verdade é que, tirando ocasionais polémicas (numa das quais o próprio autor deste blog se viu envolvido, durante as provas globais do décimo-primeiro ano) este sistema funcionava de forma bastante eficiente, tendo sido mantido pelo menos durante as décadas de 90 e 2000.

Famosamente, no entanto, a época em causa assinalaria o 'início do fim' das provas globais, já que a eliminação dos 'chumbos' no ensino básico e secundário veio tornar as médias finais de ano praticamente irrelevantes, e o próprio objectivo destas provas obsoleto. De facto, enquanto que um aluno finalista do secundário em 2023 será sujeito sensivelmente à mesma experiência que os seus congéneres da geração anterior, os alunos mais novos (filhos da geração em causa) jamais saberão o que é (era)(foi) uma prova global no final do ano lectivo – pelo menos, não nos mesmos moldes em que os seus progenitores as experienciaram, em que a própria vida parecia depender de um bom resultado. Para estes, no entanto, a simples menção deste termo poderá ser suficiente para trazer à tona uma verdadeira 'enxurrada' de memórias, tanto positivas como negativas, sobre aqueles testes de 'toda a matéria' que tornavam a chegada do Verão algo mais deprimente do que o necessário...

02.06.23

Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.

De entre os muitos elementos de moda que marcavam a diferença entre 'tribos urbanas' e ditavam níveis de popularidade e 'fixeza' entre a juventude portuguesa dos anos 90, e que entretanto se tornaram excessivamente padronizados, as mochilas estão, muitas vezes, entre os mais esquecidos. De facto, e apesar de não serem tão marcantes e memoráveis como uma t-shirt, um par de ténis, ou mesmo um boné, as 'pastas' da escola foram, para a geração hoje na casa dos trinta a quarenta anos, um adereço de moda como qualquer outro, tão merecedor de atenção e selecção aturada como qualquer peça de vestuário ou bijuteria, e tão capaz de marcar a diferença entre a admiração e o 'gozo' por parte dos colegas como qualquer deles. E ainda que tenham sido muitas as marcas a merecer a confiança da juventude durante aquela década – da Slazenger à Jansport e Eastpak – apenas uma se afirmou, verdadeiramente, como 'A' mochila de finais do século XX.

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Instantaneamente reconhecíveis pelo seu 'design' típico e diferenciado – ainda mais que o das marcas supramencionadas – as mochilas Monte Campo destinavam-se, originalmente, a ser utilizadas no contexto do campismo e caminhadas; no entanto, algures no início dos anos 90, essa trajectória sofreu um desvio, à medida que mais e mais crianças adoptavam os produtos da marca como 'pastas' para uso escolar, a ponto de, no final da década, o propósito principal da gama se encontrar já praticamente esquecido. Quanto ao factor exacto que tornava estas pastas relativamente sóbrias num produto oficialmente considerado 'fixe', talvez o mesmo se prendesse com os invulgares esquemas de cores da maioria dos modelos da marca, que tendiam a combinar uma cor mais forte com o tradicional preto, azul ou cinzento, e que iam, assim, exactamente ao encontro dos gostos estéticos da maioria dos jovens noventistas.

Fosse qual fosse o motivo, no entanto, a verdade é que as 'pastas' Monte Campo gozaram, mesmo, de um longo período de graça, que se estendeu até pelo menos a meados da primeira década do século XXI, e durante o qual não foram, claro está, imunes a imitações, com as lojas de bairro e barracas de feiras de Norte a Sul do País a exibirem orgulhosamente os seus modelos 'Monte Carlo' e 'Monte Branco' ao lado das calças de treino Abadas, dos chinelos Pamu e das t-shirts da Reeclock. Curiosamente, talvez pelo preço algo proibitivo dos originais, estas imitações tendiam a não ser alvo de tanto escárnio como as de outros produtos 'da moda' – o importante, muitas vezes, era mesmo ter uma mochila com aquele tipo de modelo, independentemente da marca.

Como acontece com qualquer outro adereço de moda, também as mochilas Monte Campo e respectivas imitadoras acabaram, inevitavelmente, por sair de moda (embora continuem a existir), no caso, sensivelmente ao mesmo tempo que os modelos da Jansport (a Eastpak, além de mais tardia, soube reinventar-se, e segue firme no mercado dos materiais escolares até aos dias que correm.) No entanto, para quem foi criança e adolescente entre as décadas de 80 e 2000, aquele emblema amarelado com o desenho de uma montanha continuará, para sempre, a ser o símbolo máximo de uma mochila 'estilosa' e duradoura.

10.05.23

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

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O regresso das férias da Páscoa, e início do terceiro período lectivo, eram uma época de grande optimismo por parte dos alunos do ensino básico e secundário de finais do século XX e inícios do seguinte, não só por se ver já a 'luz' do Verão e das 'férias grandes' ao fundo do 'túnel' das aulas, mas também por, na maioria das disciplinas, se atingir por essa altura o mais desejado de todos os marcos lectivos: a mítica lição número cem, conhecida como a única aula, além da primeira do ano, em que era possível disfrutar de um ambiente mais relaxado.

De facto, ainda que a origem exacta desta tradição se perca nas 'brumas' da geração anterior, por alturas da viragem do Milénio, a abordagem à centésima lição de uma disciplina escolar como 'dia de festa' (ou, pelo menos, de descontracção) estava já bem 'entranhada' na mente tanto de alunos como de professores. Claro que havia sempre aquele docente que se regozijava em negar esse momento às suas turmas, fazendo da 'lição mágica' apenas mais uma aula normal, mas na maioria dos casos, esse marco era mesmo assinalado com um interregno ou variação da rotina das aulas – normalmente uma festa, para a qual os próprios alunos contribuíam com comes e bebes, mas, muitas vezes, também com uma aula à base de jogos, dada no exterior, ou simplesmente proporcionando aos alunos uma hora 'livre', na qual descomprimir da esgotante rotina escolar. Assim, não é de estranhar que qualquer jovem da época ansiasse quase o ano inteiro por esta aula, sendo manifesto o seu desapontamento nas disciplinas em que esse número não era atingido.

Com todas as mudanças verificadas tanto no ensino como na sociedade, é incerto que a lição número cem continue a ser um fenómeno nas escolas básicas e secundárias do Portugal de hoje em dia; espera-se, no entanto, que essa tradição não tenha sido apanágio exclusivo das gerações X e 'millennial', e que os 'Z' possam, também, experienciar aquele que foi, para os seus pais e irmãos mais velhos, talvez o momento alto de qualquer ano lectivo.

22.04.23

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.

A segunda quinzena do mês de Abril, depois das férias da Páscoa, marca não só a entrada para o terceiro e último período do ano lectivo português (pelo menos em anos não-pandémicos) como também a altura em que os alunos do décimo-segundo ano ou aqueles no último ano do curso universitário começam a planear a sempre antecipada viagem de finalistas. Os anos 90 não eram excepção – antes pelo contrário, as viagens de finalistas eram eventos de ainda maior monta do que o são hoje em dia.

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Exemplo moderno, mas bem típico, de um cartaz informativo sobre a viagem de finalistas.

Isto porque, como já aqui mencionámos anteriormente, o acto de viajar para o estrangeiro era consideravelmente mais moroso e dispendioso naquela época do que o é hoje em dia, pelo que a viagem de finalistas representava, para muitos jovens, a principal e melhor ocasião para conhecer locais diferentes e ter experiências de férias distintas das habituais; assim, não é de admirar que a maioria dos adolescentes e universitários portugueses investisse considerável interesse no referido evento, e que este se afirmasse como um marco dos dois anos lectivos em que decorria.

Tal era a ânsia de embarcar nessa 'aventura', aliás, que havia até quem antecipasse a mesma para as férias da Páscoa, normalmente com o fim de organizar uma ida 'à neve' antes da chegada declarada da Primavera; regra geral, no entanto, os destinos escolhidos eram consideravelmente mais solarengos, com o Sul de Espanha, o Brasil, e localidades então muito em voga, como Cancún, a surgirem normalmente à cabeça das listas elaboradas pela Associação de Estudantes. Isto porque, além do óbvio atractivo de passar uma ou duas semanas numa praia tropical, este tipo de viagens tendia, também, a facilitar os 'excessos' típicos da juventude, alguns dos quais acabavam mesmo mal para as turmas envolvidas, prejudicando mesmo, por vezes, a reputação da própria escola.

Este tipo de incidente era, no entanto, definitivamente a excepção à regra; a maioria das viagens de finalistas tendiam a decorrer sem incidentes de maior, e a cumprir o seu objectivo de deixar memórias indeléveis aos jovens que nelas tomavam parte. E apesar de os trinta anos seguintes terem tornado as viagens ao estrangeiro tão fáceis que quase se podem considerar triviais, é de crer que este continue a ser um evento causador de tanto entusiasmo e antecipação junto da chamada 'Geração Z' como o foi para a dos seus pais...

15.03.23

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

Quem foi aluno da instrução primária ou preparatória durante a última década do século XX certamente associará os seus tempos de escola a uma série de experiências e elementos que deixariam perplexa a geração dos cartões electrónicos e pautas digitais: a importância atribuída a pequenos pedaços de cartão ou plástico retirados de pacotes de batatas fritas, o 'ritual de passagem' que era ter o carimbo no cartão da escola a certificar que se podia sair sozinho, a experiência de ter de se deslocar até à própria escola para ver as notas do período (e a 'aventura' que era encontrar a pauta da nossa turma, geralmente consultada 'ombro a ombro' com pelo menos mais um colega), a responsabilidade de levar na carteira o dinheiro para o 'bolo' da tarde, ou o assunto desta Quarta de Quase Tudo, o transporte do almoço a partir de casa dentro de um cesto de vime.

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Nos anos 90, ainda mais do que hoje em dia, os alunos de qualquer escola portuguesa dividiam-se em três tipos: os que almoçavam em casa, os que comiam o almoço da cantina, e os que levavam a comida de casa dentro do icónico 'cesto', devidamente identificado com o nome e turma escritos na etiqueta plastificada providenciada para esse fim. E a verdade é que, embora estivessem disponíveis no mercado lancheiras ao estilo norte-americano, havia pouco quem as tivesse ou utilizasse, optando a esmagadora maioria das crianças (e respectivos pais) por aqueles cestos de piquenique em vime ou verga, com fecho para garantir que a comida não se espalhava pela rua ou pelo chão da escola em caso de 'sacolejo' - e a verdade é que era muito difícil resistir a balançar o cesto enquanto se carregava com o mesmo até à escola ou à cantina, pelo que esta medida terá salvo muitas refeições... E embora não seja claro como nem porque é que estes cestos ficaram de tal forma associados com as refeições escolares, os mesmos não deixam, ainda assim, de ser parte icónica da experiência de frequentar um estabelecimento do ensino básico em finais do século XX.

Tal como os demais elementos que acima elencámos, os cestos de vime para o almoço encontram-se, hoje, praticamente extintos dos recintos escolares portugueses, substituídos pela versão actual da lancheira, feita em tecido, e não em plástico como as dos anos 90; desaparecimento esse que teve, aliás, início logo nos primeiros anos do Novo Milénio, relegando o cesto de almoço para a categoria de produto que subsiste, hoje em dia, apenas na memória colectiva. Ainda assim, quem levou diariamente o 'farnel' feito pela mãe dentro de um destes icónicos objectos certamente se terá recordado 'do seu', e dos muitos e deliciosos almoços e lanches retirados de dentro do mesmo, ao lado de inúmeros colegas com outros muitos parecidos, no tempo em que os mesmos constituíam A maneira, por excelência, de acomodar uma refeição infantil para transporte...

05.10.22

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

Um dos principais aspectos do regresso às aulas, em qualquer época da História, é a compra do material necessário para o novo ano lectivo, quer o mesmo consista de uma mochila ou dos livros requisitados pela escola; e, nos anos 90, existia uma pequena mas indispensável publicação que assumia tanta ou mais importância do que qualquer destes na lista de qualquer aluno da instrução primária.

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A clássica publicação original, utilizada pelos alunos de finais do século XX

Falamos da Tabuada Escolar Ratinho, o seminal tomo da autoria de Alfredo Cabral e editado pela Papelaria Fernandes (que, aliás, foi durante muito tempo o único local onde o mesmo podia ser adquirido). Tal como o nome indica, esta publicação tem um único objectivo: ensinar a tabuada às crianças, oferecendo-lhes um suporte visual para os ensinamentos adquiridos na sala de aula, e servindo como 'auxiliar de memória' no momento da aplicação desse mesmo conhecimento. Não é, portanto, de estranhar que a mascote homónima na capa (uma espécie de irmão mais novo e mais 'atinado' do rato da Sacoor) fosse mesmo a única concessão feita pela edição original do tomo no que toca a 'floreados' gráficos, sendo o interior constituído, sobretudo, por texto preto sobre fundo branco; para Alfredo Cabral, e para a Papelaria Fernandes, o importante era o conteúdo do livro, e não a forma como o mesmo era apresentado. Esta é, aliás, a principal diferença entre a Tabuada Ratinho 'clássica', com que os leitores deste blog terão crescido, e a versão actual, que dá bastante mais importância ao aspecto gráfico, a começar pela capa.

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As publicações actuais da gama 'Ratinho' englobam uma grande variedade de disciplinas para lá da Matermática.

A versão actual não se encontra, aliás, sozinha nas prateleiras das papelarias e lojas de material portuguesas; pelo contrário, o sucesso da Tabuada original – uma daquelas publicações que marcam toda uma geração – incentivou a Papelaria Fernandes a expandir a 'gama' Ratinho, a qual, hoje em dia, inclui também auxiliares de gramática, vocabulário, língua inglesa e até música, além de uma versão actualizada do manual de tabuada; para a geração que originalmente conviveu com a publicação, no entanto, a única e genuína versão será sempre aquela mais 'gorda', de capa totalmente branca, nas páginas da qual aprenderam a tabuada, ali por volta do terceiro ou quarto ano de escolaridade...

21.09.22

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

Antes da entrada no mercado laboral, o calendário de uma criança ou jovem (de qualquer época da História) tende-se a reger-se por certos acontecimentos-chave, normalmente 'balizados' por períodos de férias; e, desses, um dos principais é, sem dúvida, o regresso às aulas – aquele processo social que se inicia ou com o regresso de férias, ou na semana das matrículas, e termina cerca de um mês depois, aquando do fim da segunda semana de aulas.

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Neste período de pouco menos de trinta dias, o aluno médio (português ou de outro país, dos anos 90 ou da actualidade) abastecer-se-à do material necessário no hipermercado, supermercado ou loja de bairro mais próxima, reencontrar-se-à com amigos do ano anterior (ou fará novos), voltará a entrar na 'rotina' das aulas (ou ganhá-la-à, caso seja aluno da pré-escolar ou do primeiro ano do ensino básico), familiarizar-se-à com os livros de estudo e com o horário lectivo, conhecerá os novos professores e colegas de turma (e parece sempre haver novos colegas, mesmo em turmas que transitam do ano transacto) e, no caso dos praticantes de actividades extra-curriculares, perceberá como as mesmas se encaixam no seu quotidiano; a nível social, há ainda que impressionar os amigos com as histórias de férias (ou ter inveja, caso as deles tenham sido melhores do que as nossas), e aproveitar para perceber quais as 'modas' vigentes entre o corpo discente naquele ano, por forma a não ser apanhado desprevenido nesse campo.

Uma experiência relativamente imutável ao longo dos anos (e décadas, e séculos) cuja única diferença hoje em dia, em relação ao que se verificava há trinta anos atrás, se prende com o imediatismo da comunicação; isto porque, num período em que as redes sociais ainda não existiam e os telemóveis eram coisas básicas com ecrãs a preto-e-branco, era muito mais difícil saber dos amigos que não moravam perto de nós ou frequentavam os mesmos espaços – e, mesmo nestes casos, era preciso que os mesmos não tivessem ido de férias para fora, passar o Verão com a família remota, ou para uma colónia balnear. Assim, na prática, a maioria dos jovens em idade escolar acabava por só saber dos amigos e colegas aquando do recomeço das aulas, servindo aquelas semanas, também, para 'pôr a conversa em dia' e comparar 'notas' sobre o que os infindáveis três meses do Verão haviam rendido – informações que, hoje em dia, são praticamente inescapáveis por quaisquer duas pessoas que estejam conectadas numa rede social, reduzindo a necessidade de 'fofocar' com os colegas nos primeiros dias de aulas.

No cômputo geral, no entanto, pode considerar-se que a experiência do regresso às aulas se mantém, para os alunos portugueses, relativamente inalterada desde o tempo dos seus pais; as lousas podem ter sido substituídas por quadros inteligentes, e as fichas e circulares por emails ou 'apps' para telemóvel, mas o processo propriamente dito continua a ser essencialmente o mesmo das décadas de 80, 90 ou 2000, o que permite à geração que se 'estreia' agora na paternidade aconselhar, com conhecimento de causa, as novas gerações – um luxo a que eles próprios não chegaram a ter direito...

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