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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

13.11.23

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

O fim de uma banda icónica nem sempre garante o sucesso de seja qual for o projecto a que os músicos se dediquem em seguida; antes pelo contrário, esse tipo de 'sequela' musical tende, na maioria dos casos, a ser algo ignorada pelos fãs do grupo original, que desejam apenas mais um álbum da sua banda favorita. Assim, qualquer músico que embarque neste tipo de 'aventura' tem pela frente uma série de obstáculos, a começar por essa mesma aceitação dos fãs, e que passa também pela vontade, bastante frequente, de se demarcar do som do seu grupo de origem, o que ainda ajuda a reduzir mais o interesse da 'massa adepta' pelo novo projecto.

Foi, precisamente, esse o paradigma com que se depararam Rui Pragal da Cunha e Paulo Gonçalves, dos efémeros mas icónicos Heróis do Mar, banda que marcou a cena pop-rock nacional durante os anos 80, mas que não sobreviveu ao dealbar da nova década, encerrando actividades logo nos primeiros meses da mesma. Não demorou, no entanto, até que os dois músicos demarcassem novo objectivo musical, e, menos de um ano após a dissolução dos Heróis, via a luz o primeiro (e único) registo do projecto LX-90.

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As capas das duas versões (nacional e internacional) do único álbum do projecto.

Com um nome que consiste, simplesmente, das formas abreviadas do ano e localidade de formação da banda (mas que consegue, mesmo assim, soar 'cool' e misterioso q.b.), este projecto vê Rui e Paulo juntar-se a DJ Vibe e aos desconhecidos Nuno Miguel e Nini Garcia para desenvolver um som dançante e psicadélico, alicerçado em estilos como o 'trip-hop', e pautado pelas vocalizações dramáticas e por vezes quase declamadas de Rui Pragal da Cunha; no fundo, uma espécie de versão mais 'pesada' e alternativa do 'synth-pop' dos Heróis, que não tentava sequer agradar aos fãs dos mesmos, e apontava, em vez disso, a uma demografia totalmente nova que começava a dealbar entre as gerações mais novas.

Talvez tenha estado aí a razão do insucesso do projecto: sem a ligação sonora aos Heróis do Mar, Rui e Paulo alienaram uma base de fãs antes de terem conseguido conquistar outra, e acabaram por se perder nas 'malhas' das cenas pop-rock e alternativa nacionais. O grupo ainda tentou um 'ataque' internacional, através de uma versão do álbum com músicas em Inglês, mas ficou mesmo por aí a sua discografia, tendo os músicos encerrado actividades pouco tempo depois.

Em anos subsequentes, no entanto, o projecto LX-90 atingiu um certo estatuto de culto, que motivou mesmo, já neste ano de 2023 (concretamente a 13 de Julho) uma reunião, para participar no festival Super Bock Super Rock. Desta nova formação fazem parte, além dos dois ex-Heróis do Mar e de DJ Vibe, Nuno Roque, João Gomes e Samuel Palitos, este último um ex-membro dos ícones do punk nacional Censurados. Resta saber se este foi um reencontro esporádico ou se haverá planos para prosseguir com a carreira de um nome que merecia mais do que a carreira breve e discreta de que gozou, e a audiência de culto que logrou angariar durante a mesma.

11.10.23

NOTA: Este post é respeitante a Terça-feira, 10 de Outubro de 2023.

A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.

Formava parte integrante da decoração da grande maioria dos quartos de crianças e jovens dos anos 80 e 90, normalmente colocado a um canto, onde pudesse facilmente ser usado sem estorvar quem mais quisesse usufruir da divisão; por ocasião da visita de amigos, era uma das primeiras posses a ser orgulhosamente exibida, logo a seguir a qualquer consola que residisse ali por perto. Falamos, é claro, do órgão electrónico (da Casio ou qualquer outra marca), cuja entrada na consciência popular colectiva não só serviu para demonstrar que os avanços tecnológicos verificados naqueles anos podiam ser aplicados a outras áreas que não apenas a da informática e computadores, como também terá contribuído para despertar em muitos jovens o gosto pela música, e quiçá pelo próprio teclado enquanto instrumento de eleição.

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Os teclados Casio estavam entre os mais populares, a ponto de quase se tornarem sinónimos do produto em questão.

Já populares nos quartos de adolescentes norte-americanos e de outros países desde a década transacta, foi, no entanto, na década de 90 que os órgãos electrónicos começaram a formar parte integrante dos catálogos de Natal de supermercados e hipermercados, e a ocupar lugar de destaque no tipo de loja de brinquedos onde, anos antes, seria praticamente impensável ver ser vendido um instrumento 'a sério'. Escusado será dizer que este tipo de exposição não tardou a despertar a cobiça de toda uma geração de mini-aspirantes a músicos, que rapidamente passaram a incluir este instrumento em listas de presentes de anos e Natal, pesasse embora o preço algo proibitivo da maioria dos exemplares.

Isto porque, embora existissem modelos mais básicos e condicentes com o poder de compra da maioria dos portugueses à época, era aplicado a este instrumento o mesmo princípio usado com as calculadoras e agendas electrónicas – ou seja, quantas mais funções, melhor. Os órgãos mais cobiçados eram aqueles que, além das funcionalidades básicas, contavam ainda com sons programáveis (alguns bastante estranhos, e bem ao gosto da juventude da época), faixas de acompanhamento electrónicas, compatibilidade com microfones, e outros extras por demais aliciantes, e considerados quase indispensáveis – mesmo que o limite da capacidade musical de muito do público alvo começasse e acabasse nos 'Martelinhos'. Quem tinha um aparelho destes mais 'apetrechados' passava, pois, a contar com um motivo de 'gabarolice' imediata, enquanto os restantes se viam obrigados a continuar a utilizar a versão mais simples de que dispunhavam, e a sonhar com o modelo desejado.

Tal como muitas outras 'febres' de que falamos nesta e noutras rubricas do nosso 'blog', também os órgãos electrónicos acabaram por perder preponderância na vida dos jovens das gerações Z e 'millennial', substituídos pela mais recente 'engenhoca', brinquedo 'da moda', consola ou telemóvel na lista de prioridades; ainda assim, quem tomou parte naquele breve mas marcante período em que toda a gente tinha um instrumento desses, ainda hoje sentirá, possivelmente, vontade de ir à garagem buscar o seu e 'dar uns toques', tal como fazia no seu quarto de juventude, há coisa de trinta anos...

25.03.23

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.

Na última Saída de Sábado, abordámos a chegada a Portugal da FNAC, uma das poucas cadeias de venda de artigos tecnológicos e multimédia ainda resistentes no País. No próprio dia em que dedicávamos algumas linhas à cadeia francesa, no entanto, faltavam menos de vinte e quatro horas para se celebrar o aniversário de uma outra loja muito semelhante, também ela ainda hoje presente nas grandes superfícies nacionais e que, de facto, é praticamente dois anos mais velha do que a FNAC Portugal; assim, seria omisso da nossa parte não dedicar algumas linhas à grande 'concorrente' da cadeia francesa em solo português, a Worten.

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Inaugurada a 12 de Março de 1996, como subsidiária do poderoso grupo Sonae (hoje Sonae Continente) a Worten pode ser considerada a cadeia-irmã do popular hipermercado, de enfoque menos generalista e mais centrado na electrónica e multimédia (daí as comparações com a FNAC). Ainda que sem a facilidade em obter livros importados da concorrente, a cadeia compensava esta 'falha' oferecendo preços ainda mais competitivos que os da companhia francesa (ou outros concorrentes da época, como as lojas Singer, de que também aqui em tempo falaremos), tornando-se assim, rapidamente, o local de aquisição de electrodomésticos por excelência do consumidor nacional.

Curiosamente, e ao contrário do que aconteceu com a concorrente (cuja primeira loja abriu num 'shopping' em plena Lisboa) a Worten expandir-se-ia, não a partir das grandes capitais portuguesas, mas da vila de Chaves, tendo só depois 'rumado' a Sul, rumo à capital. Uma vez iniciada, no entanto, essa expansão deu-se de forma por demais célere – apenas alguns anos após a sua fundação, por alturas da viragem do Milénio, a Worten era já parte do 'cenário' em centros comercials e lojas Modelo e Continente de Norte a Sul do País, paradigma que se mantém até hoje.

A forte presença em território nacional incentivou, aliás, Belmiro de Azevedo a expandir a área abrangente do seu negócio até ao país vizinho, tendo a Worten adquirido não uma, mas duas cadeias comerciais espanholas, num total de cerca de meia centena de lojas. Ao contrário do sucedido em Portugal, no entanto, esta 'aventura' não se saldou pelo sucesso, tendo a estadia da Worten como grande cadeia em Espanha durado pouco mais de uma década, e saldando-se a presença actual da loja de Belmiro de Azevedo no outro país ibérico em pouco mais de uma dezena e meia de lojas, a esmagadora maioria das quais situada nas Ilhas Canárias, último grande 'reduto' da rede Sonae em Espanha; curiosamente, grande parte das restantes lojas da franquia foram vendidas a outro grupo comercial bem conhecido dos portugueses, no caso o MediaMarkt.

Em Portugal, no entanto, a Worten continua a somar e seguir, até por o seu nicho de especialização ser um dos poucos em que a procura é constante, e a avaliação física do produto particularmente importante; enquanto este paradigma se mantiver (e enquanto o grupo MC Sonae Continente mativer a sua pujança no panorama comercial português) é de esperar que muitas crianças e jovens portugueses continuem a desfrutar de Saídas de Sábado periódicas à 'loja de electrodomésticos do Continente'.

14.09.22

NOTA: Este post é correspondente a Terça-feira, 13 de Setembro de 2022.

A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.

Os anos 90 e 2000 foram as décadas da inovação tecnológica por excelência, com enormes avanços a terem lugar a toda a largura do espectro no espaço de, muitas vezes, apenas alguns anos – progressos esses, regra geral, muito mais 'visíveis' do que os de hoje em dia, em que tudo parece já estar inventado ou inovado. Como consequência, apesar de a verdadeira transição digital se ter dado apenas na segunda década do Terceiro Milénio, os vinte anos precedentes representavam já uma 'área cinzenta', em que certos trâmites da vida quotidiana se viam 'presos' a meio caminho entre a clássica metodologia analógica e o novo paradigma digital.

Uma dessas áreas era a da organização pessoal, nomeadamente no tocante às clássicas agendas e áquilo a que, à época, se chamava 'organizers'; isto porque, apesar de a maioria dos cidadãos ocidentais (e, em particular, os mais jovens) da época recorrerem ainda aos meios físicos para este efeito, começavam também a aparecer no mercado alternativas electrónicas, as quais (sem que ninguém, à época, ainda o soubesse) acabariam por levar a algo muito mais impactante em anos futuros.

f5271ff35671571e01f7cf0e1c035add1893afdf_hq.jpgO modelo mais comum e conhecido deste tipo de dispositivo.

Nos anos 90, no entanto, as agendas e 'organizers' electrónicos eram apenas mais um daqueles 'brinquedos para gente grande', cujo custo algo proibitivo os mantinha longe do acesso daquela que poderia, potencialmente, ser uma fatia considerável do seu público-alvo, os jovens; a conjunção proibitiva entre preço elevado e relativa falta de interesse (a maioria dos 'organizers' tinham mais em comum com uma calculadora científica do que com uma consola portátil) restringia o mercado destes aparelhos, sobretudo, aos profissionais de sucesso – factor que não impediu que alguns fabricantes se 'aventurassem' pela criação de versões infantis, normalmente marcadas pelos exteriores em cores garridas, e por vezes adornados com personagens licenciados de banda desenhada, nomeadamente a ratinha Minnie, da Disney, ou inseridos em promoções e concursos fomentados por produtos populares entre os jovens, como a Coca-Cola. Enquanto que alguns destes modelos apresentavam interfaces e modos de funcionamento simplificados e adaptados à demografia-alvo, no entanto, muitos deles consistiam precisamente do mesmo produto, apenas com uma 'lavagem de cara' que os tornava mais apelativos para as crianças e jovens – uma táctica cujo sucesso ficou, previsivelmente, aquém do esperado pelos fabricantes e distribuidores.

Apesar de terem sido um interveniente 'menor' na revolução tecnológica de finais do século XX, no entanto, as agendas electrónicas não deixam de ficar nos anais da História por aquilo que tornaram possível, cerca de uma década depois: dispositivos que melhoravam e expandiam as funcionalidades por elas apresentadas, para dar origem, primeiro os chamados 'personal digital assistant' (uma evolução directa, mas bastante mais avançada, das agendas electrónicas) e, mais tarde, aparelhos que combinavam as potencialidades destes com as de outro tipo de 'gadget' em rápida ascensão na altura (o telemóvel), e que ficariam conhecidos como 'smartphones'. É verdade – sem aqueles dispositivos primitivos, que permitiam, com muito esforço, agendar algo no calendário, provavelmente nunca teria havido a corrente gama de telefones 'tudo-em-um'; uma 'pequena' e 'modesta' contribuição para a sociedade actual que, por si só, justifica que dediquemos algumas linhas a um produto que muito poucas crianças portuguesas terão visto 'ao vivo' à época do seu lançamento...



06.09.22

NOTA: Este post é respeitante a Segunda-feira, 05 de Setembro de 2022.

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Para a juventude portuguesa de finais dos anos 90 (como, presumivelmente, para as de outras décadas) há músicas que ficam, indelevelmente, ligadas a certos anos, e sobretudo à época de Verão, em que a disponibilidade e oportunidades para ouvir e apreciar música aumentam; e se o Verão de 1997 foi, sem dúvida, dominado pelo êxito dos escandinavos Aqua, 'Barbie Girl', houve outra música que – sobretudo para fãs de videojogos ou de música mais alternativa – também não deixou de marcar a segunda metade daquele ano, e a primeira do seguinte.

Falamos de 'Firestarter', primeiro single retirado do terceiro álbum de um colectivo britânico que, apesar de vir já 'fazendo algumas ondas' no seu país natal, era ainda maioritariamente desconhecido por terras lusas, situação que se alterou quando o referido tema surgiu como parte da banda sonora de 'Wipeout 2097', o jogo de corridas futurista que constituiu um dos maiores sucessos do ano - e de toda a biblioteca das consolas em que foi lançado, a Playstation e a Sega Saturn – muito graças à sua banda sonora, que incluía nomes tão sonantes no meio da electrónica como Chemical Brothers, Underworld, e o colectivo em causa, The Prodigy.

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Formados no condado de Essex, a sul de Londres, logo no início da década, o projecto liderado por Liam Howlett e que tinha como 'cara' o dançarino e vocalista Keith Flint tinha, desde então, vindo a construir 'a pulso' a sua reputação entre os 'ravers' britânicos, tendo os seus dois primeiros álbuns – os excelentes 'The Prodigy Experience', de 1992, e 'Music For The Jilted Generation', de 1994 – granjeado desde logo considerável sucesso não só junto dessa mesma demografia, mas também de uma população generalista - os dois singles retirados de 'Experience', por exemplo, chegam ao Top 5 de música nas Ilhas Britãnicas, e 'Music...' ocupa o primeiro posto do 'top' de álbuns do país logo desde o seu lançamento.

No estrangeiro, no entanto, o nome 'The Prodigy' só se popularizaria mesmo após o lançamento de 'Firestarter', que – com a irreverente prestação vocal de Flint e os característicos coros de 'hey-hey-hey' – ajuda também a propulsionar as vendas do terceiro álbum do colectivo, 'The Fat of the Land'. Longe de se 'apoiar' no single e mega-sucesso, no entanto, o álbum com o icónico caranguejo na capa oferece a quem o adquire um punhado de músicas tão boas como 'Firestarter' (ou mesmo melhores, como o segundo single, 'Breathe', um dos clássicos do grupo) o que só ajuda a cimentar a reputação de Howlett, Flint e companhia junto da sua demografia-alvo – que, curiosamente, inclui uma parcela considerável de fãs de 'rock', um sector da população que, regra geral, não tende a gravitar para grupos de electrónica pura e dura como é o caso dos ingleses; o controverso tema de abertura do álbum, 'Smack My Bitch Up', era mesmo alvo de atenção por parte de rádios de pendor mais 'rock', o que talvez tenha contribuído para este sucesso inter-demográfico.

Escusado será dizer que, obtido o reconhecimento, o nome e a música dos Prodigy não tardou em começar a aparecer associado a outros meios, ficando particularmente na memória o assombroso 'trailer' da 'Manga Vídeo' editado ao som de 'Voodoo People', outro clássico do grupo, este retirado do seu segundo álbum. Naquele Verão de 1997 e inícios de 1998, o colectivo britânico parecia inescapável, tendo mesmo conseguido a 'proeza' de render a então todo-poderosa MTV aos seus encantos – 'Smack My Bitch Up' arrecadava não um, mas dois prémios na edição de 1998 dos igualmente influentes Video Music Awards realizados anualmente pelo canal.

Um dos melhores anúncios alguma vez exibidos em Portugal teve música do colectivo

O que ninguém podia prever, no entanto, era que os Prodigy entrassem em hiato menos de dois anos após o lançamento do seu maior êxito discográfico; foi, no entanto, precisamente isto que se passou, com a saída de Leeroy Thornhill, parceiro de Flint na 'linha da frente', a precipitar uma 'pausa' de três anos na carreira do colectivo. O regresso dava-se com 'Always Outnumbered, Never Outgunned', de 2001, álbum de sonoridade pouco característica e, como tal, considerado inferior e algo 'esquecido' na discografia do grupo; o verdadeiro 'som Prodigy' só retornaria, pois, em 'Invaders Must Die', de 2008, que se posiciona como o sucessor natural de 'Fat', não só pela sonoridade mas também por assinalar a reunião dos três membros originais do grupo, com Thornhill a regressar finalmente ao seio da banda. 'Omen' e a devastadora faixa-título são excelentes cartões de visita, mostrando o grupo no seu melhor e juntando-se merecidamente à lista de clássicos dos Prodigy,

Após este lançamento, no entanto, o grupo volta a não conseguir atrair atenções com os próximos dois álbuns, ficando tanto 'The Day Is My Enemy', de 2015, como 'No Tourists', de 2018, restritos apenas a uma audiência de 'fiéis convertidos' – fiéis esses que recebem com choque e horror a notícia da morte de Keith Flint, encontrado sem vida na sua casa em Essex a 4 de Março de 2019. Longe de acabar com a carreira do projecto, no entanto, a morte do vocalista, dançarino e fundador apenas inspira os dois membros restantes do projecto a lançar nova música e a partir em digressão – um objectivo que realizam em 2022, com uma série de dez datas no seu país natal a assinalar um quarto de século sobre o lançamento de 'The Fat of The Land'. E a verdade é que, ainda que esse álbum tenha, sem dúvida, apresentado o grupo a muitos futuros fãs, para outros tantos jovens portugueses, o mesmo continua a ser sinónimo com a música do grupo, e o único elemento da mesma que alguma vez conheceram. Mesmo esses, no entanto, não hesitarão em reconhecer o 'poder de fogo' de 'Firestarter', um dos maiores sucessos musicais entre a 'malta jovem' não só do seu ano, mas de toda a ponta final do século XX.

25.07.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Quando se pensa em colectâneas disponíveis em Portugal na década de 90, os títulos que tendem, imediatamente, a vir à memória são, sobretudo, os das lendárias séries Electricidade (da Rádio Cidade) e Now! That's What I Call Music, que – entre elas – ajudaram a moldar o gosto musical de muitos jovens da época. No entanto, estas estavam longe de ser as únicas representantes desse tipo de lançamento; pelo contrário, o mercado fonográfico português viu vários outros títulos deste tipo surgir nos escaparates ao longo dos últimos dez anos do século XX, contando-se entre as mais memoráveis 'The Beautiful Game' (a colectânea do Euro '96, de que já aqui falámos) 'Fido Apresenta Número 1' (da qual, paulatinamente, aqui falaremos) e a dupla de que falamos hoje, intitulada 'Street Sounds From Sony'.

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Compostos por uma ecléctica mistura de europop, pop rock, hip-hop e electrónica, os dois volumes da série foram lançados em anos consecutivos de meados da década pela fabricante japonesa - quando a mesma ainda era associada, sobretudo, a produtos áudio, e não tanto a consolas -  e incluídos, a título de oferta, na compra de um dos sistemas de som portáteis da marca, os carinhosamente apelidados 'tijolos', presumivelmente como método para comprovar as capacidades reprodutivas dos mesmos - por aqui, por exemplo, recebeu-se o segundo volume, de 1995, ano em que surgiu lá por casa o primeiro destes aparelhos. Assim, quem adquirisse uma 'boombox' da marca não só passava a ser dono de uma excelente 'fábrica de produção de mixtapes' como de uma espécie de 'mixtape oficial', seleccionada e curada pela própria Sony Europa (a compilação é de origem holandesa), o que não deixava de ser um atractivo de peso no momento da decisão sobre que fabricante escolher, independentemente de se ser ou não fã dos artistas incluídos.

E por falar nestes, os mesmos serviam de exemplo quanto à diversidade do catálogo do braço editorial da companhia à época, incluindo nomes tão díspares como Cypress Hill, Alice in Chains, Meatloaf ou uma Celine Dion pré-fama interplanetária (no primeiro volume) e Bad English, The Jacksons, Toto, Cyndi Lauper ou Apollo 440 (no segundo); curiosamente, ambos os discos incluíam ainda músicas de Culture Club e Gloria Estefan, os únicos dois 'repetentes' entre volumes. No total, eram vinte e nove faixas (catorze no primeiro volume e quinze no segundo) que só deixavam mesmo de fora os estilos mais pesados, sendo que até mesmo as lendas do 'grunge', Alice in Chains, surgiam com um dos seus temas em registo mais acústico e acessível, no caso 'No Excuses'; de resto, havia mesmo algo para todos os gostos, sendo provável que a maioria dos jovens que adquirisse um destes CD's encontrasse, pelo menos, um par de faixas que fosse do seu agrado.

Em suma, apesar de algo limitados pelo conceito e editora, estas duas colectâneas não deixavam de cumprir com louvor a sua função de apresentar a uma nova audiência alguns dos principais artistas dos respectivos anos, bem como de anos transactos – o que, associado ao seu cariz promocional e de oferta, os terá certamente tornado parte muito apreciada das colecções de CD de muitos jovens lusitanos da época. Por aqui, pelo menos numa primeira fase, era certamente esse o caso...

27.06.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Hoje em dia, o conceito de uma estação de rádio é, para todos os efeitos, obsoleto; com todos os elementos que a mesma oferece – da música à informação - à distância de alguns cliques ou toques no ecrã, a única função que este tipo de órgão continua a servir é a de acompanhar motoristas solitários nas suas viagens diárias – e mesmo esse fim já vem sendo, cada vez mais, realizado por 'podcasts', 'audiobooks' e playlists do Spotify, anunciando o fim próximo da rádio como a conhecemos.

Nos anos 90, no entanto, o paradigma era significativamente diferente; a Internet era um conceito embrionário, a música era ainda obtida maioritariamente em formato físico (e, como tal, difícil de ouvir 'a pedido') e as estações de rádio mais famosas em Portugal tinham estatuto suficiente para lançar discos inteiros de músicas da sua rotação, e ter relativa certeza de que os mesmos encontravam o seu público. Foi assim com as perenes RFM e Rádio Comercial, com a meteórica e saudosa Mega FM, e – mais memoravelmente – com a Rádio Cidade, a estação luso-brasileira conhecida (e, hoje, recordada) tanto pelo seu foco no 'dance-pop' como pela lendária colecção de colectâneas de música de dança que editou na metade final da década de 90 e inícios da seguinte.

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Intitulada 'Electricidade', mesmo nome do mais famoso programa da emissora, esta memorável série de álbuns foi lançada pela Vidisco a partir de 1994, a um ritmo anual, e durante quase uma década (o último registo disponível na Internet é referente à edição de 2003), tendo-se, por isso, naturalmente tornado presença assídua tanto nas prateleiras das lojas de discos como na estante de muitos jovens fãs do género. O facto de cada nova colectânea trazer, invariavelmente, as últimas novidades da música de dança do respectivo ano, com particular foco na cena 'Eurodance' (que, à época, englobava desde novos e entusiasmantes estilos oriundos do Reino Unido até 'remixes' 'foleiras' de temas clássicos feitas 'a martelo' na Alemanha) também ajudava a assegurar a compra de cada nova edição, tanto por parte da base de fãs já existente, como de outros 'curiosos' relativamente ao estilo em causa, para quem a série acabava por representar uma espécie de alternativa às não menos lendárias colectâneas 'Now!', cujo foco era mais generalista.

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O alinhamento da edição de 95 desta colectânea

Assim, não é de estranhar que cada novo capítulo desta saga musical (sempre devidamente identificada pelo inconfundível logotipo, perceptível à distância, e pela mascote muito, muito '90s') fosse acolhido com entusiasmo pelo seu público-alvo - o qual, aliás, nem precisava de se deslocar à discoteca mais próxima para o adquirir, visto estas colectâneas serem presença frequente, também, naqueles escaparates de 'cassettes' e CD's existentes em tabacarias e bombas de gasolina pelo País fora. 

Com tão perfeita junção de oferta e procura, não é, pois, de admirar que todos os discos da série – mas particularmente as edições de 1996 e 1998 – tenham gozado de considerável sucesso, devendo-se a sua extinção, não a algum decréscimo de vendas, mas apenas à mudança de foco levada a cabo pela Rádio Cidade a partir de meados dos anos 2000; caso contrário, é de imaginar que estas colectâneas tivessem perdurado durante mais algum tempo, pelo menos até o próprio formato CD se tornar obsoleto. No entanto, talvez tenha sido melhor assim – ao 'desaparecer de cena' antes de o seu formato se esgotar ou tornar cansativo, as colectâneas Electricidade asseguraram um lugar nas memórias nostálgicas de toda uma geração que as comprou anualmente, e a quem ajudaram a definir o gosto musical...

 

 

21.06.21

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

No início desta semana desportiva, quando falámos sobre o Euro ’96, aludimos ao facto de o mesmo não ser, exactamente, um Euro normal. A febre inglesa pelo ‘seu’ Campeonato Europeu transformou aquilo que era só mais uma competição desportiva internacional – emocionante, sim, mas igual a tantas outras – naquilo a que os próprios britânicos chamariam ‘a big deal’.

Isto foi particularmente not]orio no campo do merchandising’, sendo que a competição de 96 viu serem lançados alguns produtos comemorativos oficiais, no mínimo, invulgares. Para além dos habituais cromos, copos e outros brindes do género, o Euro inglês foi o primeiro a ter um videojogo oficial (hoje prática comum, mas à época, um acontecimento inaudito) e continua, até aos dias de hoje, a ser o único a ter um CD de banda sonora oficial! É precisamente deste último – denominado ‘The Beautiful Game: The Official Soundtrack of Euro ’96 - que falamos neste post.

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Vendo bem, a ideia de um CD de banda sonora de um Euro jogado em Inglaterra – especialmente durante os anos 90 – não é, de todo, descabida. Afinal de contas, as Ilhas Britânicas viram surgir, através dos tempos, alguns dos mais excitantes artistas e grupos musicais de sempre - basta lembrarmo-nos da British Invasion ou do movimento ‘punk’, entre tantos outros. Ora, este disco foi lançado precisamente no auge de um desses movimentos, no caso a ‘Britpop’, que começara a popularizar-se um par de anos antes; assim, não é de estranhar que grande parte das mais de duas dezenas de artistas aqui incluídos façam parte desse movimento, caso dos Blur (cuja ‘Parklife’, sátira à falta de aspirações do britânico médio que, num golpe de ironia, virou um hino dos mesmos ao seu estilo de vida, é talvez a mais conhecida de entre as músicas aqui incluídas), Pulp, Teenage Fanclub ou The Boo Radleys.

'AAAAAALLLL THE PEEEOOOPLEEEE...SOOO MAAANYYY PEEEOPLEEEE...'

Não, o que verdadeiramente surpreende na selecção de músicas de ‘The Beautiful Game’ é o seu ecletismo, e o facto de haver por aqui bandas de movimentos tão díspares quanto a ‘new wave’ (New Order) ou a electrónica (Stereo MCs, Jamiroquai), o rock electrónico (Primal Scream ou Black Grape, que aqui surgem com um convidado de luxo na pessoa de Joe Strummer, líder dos Clash) ou o ‘trip-hop’ (Massive Attack, Olive.) Em comum, estas bandas só tinham mesmo o facto de virem das Ilhas Britânicas – e, no caso dos suecos Wannadies, nem isso! (A propósito, a sua ‘Might Be Stars’ é das coisas mais divertidas deste disco.)

A divertida 'Might Be Stars', dos Wannadies, únicos representantes estrangeiros neste disco

Em suma, uma selecção bem variada, com algo para todos os gostos (excepto, talvez, para os fãs de metal) e bem mais cuidada e curada do que se poderia esperar de um álbum deste tipo, com patronício de marca de bebidas e tudo.

Visto de 25 anos no futuro, ‘The Beautiful Game’ é uma verdadeira ‘cápsula do tempo’ que nos transporta até à Grã-Bretanha de meados dos anos 90, ao som de algumas das bandas mais populares da altura, e sem sequer precisar do contexto específico do campeonato – ainda que algumas músicas mencionem o futebol (em particular ‘Parklife’ e a final ‘Three Lions’, adoptada como cântico oficial pelos fãs ingleses devido ao seu refrão de ‘football’s coming home, it’s coming home, it’s coming!’) a maioria pode ser ouvida e apreciada por si só.

Agora já sabem de onde vem o cântico...

Por isso, se gostam de Britpop, rock alternativo ou electrónica, fica a dica – há coisas bem piores do que este peculiar produto de ‘merchandising’ futebolístico...

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