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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

31.12.25

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

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A grafia e ortografia é, ao mesmo tempo, um dos elementos divisores e aglutinadores dos chamados Países de Língua Oficial Portuguesa, bastando pensar no manifestamente diferente Português do Brasil para perceber como um mesmo idioma pode dar origem a línguas, na prática, tão diferentes. Daí a importância de haver, entre todas as nações que têm o Português como língua franca, alguma espécie de consenso, o qual é atingido, via de regra, mediante a ratificação de um acordo ortográfico. Foi, precisamente, isso que se passou há pouco mais de trinta e cinco anos, a 16 de Dezembro de 1990, quando os PALOP assinaram o documento que estabelecia, definitivamente, a grafia da língua portuguesa para as décadas seguintes; e porque, na última Quarta de Quase Tudo, deixámos passar em branco essa data, nada melhor que ratificar agora esse erro, e terminar o ano de 2025 a relembrar a carta que ditou a forma como escrevemos desde então.

Inicialmente ratificado por Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe (embora, curiosamente, não por Macau ou Timor-Leste, que se juntaria ao grupo apenas uma década e meia depois, em 2004), o acordo tinha como fim declarado acabar com a supramencionada disparidade entre as grafias do Português europeu e do Brasil - missão, à data de publicação deste 'post', apenas parcialmente conseguida. De facto, mais do que unir as grafias, o acordo contribuiu apenas para as dividir ainda mais, não tendo as suas normas sido adoptadas em nenhum dos países assinantes e continuando a suscitar controvérsia junto de quem aprendera a escrever o Português da forma anterior, a via como 'correcta' (ou, segundo o novo acordo, 'correta') e desaprovava da aproximação ao brasileiro, com o desaparecimento da letra 'c' como apoio à letra 't', por exemplo.

O resultado é que, à década de 2020, o documento continua por assinar, e as suas regras alvo de acesa discussão, sobretudo devido aos efeitos que se têm feito sentir a nível do Português 'de Portugal'. Prova de que chegar a acordo e assinar um papel não são, de todo, sinónimo de 'missão cumprida' no que toca a trâmites legais de complexidade elevade e âmbito internacional, e que (antes pelo contrário) é bem possível que os mesmos demorem três décadas ou mais a serem implementados - se o chegarem a ser...

19.11.25

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

Em 1998, a chamada 'dinomania' já se havia esvaído um pouco, tanto em Portugal como no resto do Mundo – afinal, 'Parque Jurássico' (o grande catalista do interesse de toda uma geração por dinossauros, e responsável por um aumento significativo na venda de réplicas em borracha daqueles animais) tinha estreado há já quase meia década, o que, em 'anos de criança', o tornava praticamente num 'fóssil' igual aos que retratava. No entanto, justamente quando o interesse pelos gigantes pré-históricos começava a esmorecer, duas descobertas fascinantes, feitas em pleno solo português, vieram relançar o fascínio pelas criaturas em causa.

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Um dos fósseis encontrados na Lourinhã, no caso um ninho de ovos de crocodilo com vários milhões de anos.

Isto porque foi nesse ano que tiveram lugar dois acontecimentos paleontólogicos de relevo, ambos ligados à mesma faixa de areia na região Centro de Portugal. Isto porque não só era descoberto nesse ano, na praia de Paimogo, um ninho com centenas de ovos fossilizados de dinossauro (e, como se veio a revelar mais tarde, também de crocodilo) como também era oficialmente atributo estatuto de espécie distinta ao esqueleto encontrado naquele mesmo local mais de uma década e meia antes, ao qual era dado o nome de 'Lourinhanossaurus Antunesi', em honra do paleontólogo responsável pela sua descoberta.

De uma assentada, os fãs de dinossauros tinham, assim, dois eventos de monta para celebrar, ambos praticamente 'às portas' da capital portuguesa, fazendo com que os dinossauros parecessem mais próximos do que nunca, senão temporalmente, pelo menos geograficamente. Tal contribuiu, naturalmente, para reavivar o interesse de muitas crianças e jovens pela pré-história, e especificamente pelos animais em causa - embora nunca se tenha chegado a verificar uma segunda 'dinomania' – e, juntamente com a descoberta das gravuras rupestres de Foz Côa, entrou para a História paleontológica portuguesa como um dos maiores acontecimentos do campo na década de 90.

Ao contrário do que sucederia com Foz Côa, no entanto, só já numa fase bastante adiantada do Terceiro Milénio é que a Lourinhã conseguiria 'capitalizar' sobre a sua reputação como 'capital portuguesa dos dinossauros', com a abertura do Dinoparque, em 2018 – mais de duas décadas após os seus 'cinco minutos de fama' nos círculos paleontológicos, e na sociedade portuguesa em geral. Como diz o ditado, no entanto, 'mais vale tarde que nunca', e a localidade continua até hoje a ser associada aos fascinantes gigantes do princípio dos tempos, e a tirar dividendos das descobertas ali feitas nas décadas de 80 e 90, e que puseram pela primeira vez (e de forma bastante literal) os dinossauros no 'mapa' português...

07.11.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 05 de Novembro de 2025.

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

O espectro político no Portugal pós-25 de Abril de 1974 é famosamente bipartido, com o Partido Socialista e o Partido Social Democrata a 'revezarem-se' mais ou menos assiduamente no comando do País. Ainda assim, este padrão deixa espaço para algumas anomalias, com certos Primeiros-Ministros a lograrem revalidar o seu termo e mesmo a atingirem maiorias absolutas. O caso mais recente, e fresco na memória dos Portugueses, será o do 'destronado' António Costa, mas as gerações mais velhas recordam outro período, ainda mais longo e não menos célebre, em que o País viveu sob a égide dos mesmos Chefes de Estado durante mais de uma década – o famoso 'Cavaquismo', que viu a dupla de Mário Soares e Cavaco Silva fomentar o crescimento económico do território e conseguir duas maiorias absolutas.

Infelizmente, tal como sucederia com Costa um quarto de século depois, este paradigma ultra-vitorioso levaria a algum excesso de confiança por parte da dupla, o qual se traduziria em alguns 'exageros' no terceiro e último mandato de Cavaco, cuja contestação, aliada a uma crise económica 'importada' da Europa, resultou, inevitavelmente, no fim do seu 'reinado', e numa pronunciada 'guinada à esquerda' por parte dos votantes, que, nas eleições de Outubro de 1995, elegeriam como Primeiro-Ministro o Socialista António Guterres, 'quebrando' a hegemonia cavaquista e retomando o ciclo de 'alternâncias' parlamentares, o qual só voltaria a ser quebrado por António Costa.

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Tal como sucedera nos primeiros mandatos do anterior executivo, o XIII Governo Constitucional da República Portuguesa (sobre cuja tomada de posse se celebraram na semana passada exactos trinta anos) pôs grande parte do seu foco no crescimento e estabilidade económica do País, procurando mitigar os efeitos da recente crise económica e colocar a nação, uma vez mais, dentro dos critérios de convergência cambial da União Europeia. No entanto, os seus legados mais duradouros talvez sejam a introdução do Rendimento Mínimo Garantido, o aumento dos apoios sociais, o investimento na educação e a inserção de mais mulheres na força laboral e profissional, reduzindo as disparidades de género que ainda se faziam sentir à época, tendo o executivo tirado proveito de um período relativamente calmo (tanto a nível interno como externo) para corrigir alguns dos problemas que ameaçavam o futuro económico do País, tendo o seu termo ficado, ainda, marcado pela realização, com distinção, da EXPO '98 - ainda hoje um dos maiores e mais reconhecidos marcos culturais da História do Portugal contemporâneo - e pela cedência de Macau à China, nas últimas horas do Segundo Milénio.

Apesar deste saudável clima económico, no entanto, Guterres não passaria totalmente incólume a controvérsias (sobretudo ligados a alguns comentários menos 'palatáveis' sobre a homossexualidade, ou ao famoso desastre de Entre-os-Rios, em 2001) e, embora o seu executivo tão-pouco havia sido marcado por factores excessivamente negativos, como sucederia mais tarde com os de, Pedro Santana Lopes, ou do infame José Sócrates, o Partido Socialista viria a sofrer, em Dezembro de 2001, uma derrota de tal forma retumbante que Guterres colocaria o lugar à disposição, levando à dissolução do Parlamento pelo sucessor de Mário Soares, o também socialista Jorge Sampaio. Nas eleições, o novo líder socialista, Ferro Rodrigues, viria a ser derrotado pelo rival social-democrata, Durão Barroso, perpetuando a tendência 'bipolar' e bipartidária da Democracia portuguesa. Ainda assim, como grande responsável pelo fim do Cavaquismo (e um de apenas dois executivos portugueses a iniciar e terminar mandatos completos na década de 90), o XIII Governo Constitucional não deixa de merecer esta nota por alturas do trigésimo aniversário da sua subida ao poder, um dos maiores marcos da política portuguesa na década em causa,

23.10.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 22 de Outubro de 2025.

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

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Hoje em dia, o direito das crianças e jovens a serem tratados com justiça e equanimidade, e protegidos de abusos morais, físicos ou psicológicos, é um dado tão adquirido no seio da sociedade portuguesa (e do Mundo ocidental em geral) que é genuinamente surpreendente constatar que este paradigma é consideravelmente mais recente do que inicialmente se poderia pensar. De facto, foi apenas há exactos trinta e cinco anos que Portugal revogou o documento criado pela Organização das Nações Unidas no ano anterior, e que pretendia, precisamente, salvaguardar os cidadãos menores de idade contra um sem-número de situações a que estes se podiam, potencialmente, ver expostos, proporcionando-lhes um enquadramento legal no qual se resguardarem.

O calendário marcava, efectivamente, a data de 21 de Outubro de 1990 - dez meses depois de o País ter assinado o documento, e exactos trinta dias após o ter ratificado - quando as cerca de cinco dezenas e meia de estatutos e medidas delineadas na carta legal designada por Convenção Sobre os Direitos das Crianças entravam oficialmente e legalmente em vigor em Portugal, salvaguardando os menores de idade residentes no território nacional de situações de violência doméstica, tráfico, abusos psicológicos, repressão ou negligência, que passavam, a partir desse momento, a ser puníveis por lei. E apesar de esse tipo de acção não ter, infelizmente, desaparecido como consequência da carta em questão – nem em Portugal nem, infelizmente, em qualquer outro país do Mundo – a mesma ajudou, ainda assim, a garantir aos menores de idade o estatuto de sujeitos de direito (e jurídicos) aos olhos do Estado, atribuindo-lhes, senão paridade com os adultos, pelo menos um grau subtancial de protecção, de que até então não dispunham, e que viria a informar as )(até agora) três décadas e meia desde a sua assinatura. Razão mais que suficiente, pois, para celebrarmos nas nossas páginas (tantas vezes dedicadas a produtos ou programas dirigidos a crianças e jovens) o aniversário dessa marcante efeméride, que permitiu às gerações 'X' e 'millennial' viverem uma infância e adolescência seguras, alegres e despreocupadas.

26.09.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 24 de Setembro de 2025.

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

Até bem recentemente, com o casamento de Kate Middleton com o Príncipe William de Inglaterra, o termo 'casamento real' era quase sinónimo com o anterior matrimónio no seio da Família Real inglesa – o casamento de Carlos e Diana, levado a cabo com pompa e circunstância na histórica Abadia de Westminster, em Londres, em 1984. E porque Portugal não leva a bem ficar atrás de qualquer outro país da União Europeia, a década seguinte veria o nosso País tentar realizar a sua própria versão ´à portuguesa' do evento, com o habitual atraso de vários anos, uma fracção do orçamento e da atenção, nenhumas implicações políticas e de governação (à entrada para o evento, poucos eram os que sabiam que Portugal sequer tinha um rei), e os Jerónimos a 'fazer' de Westminster. O resultado, previsivelmente, foi bem menos memorável que a versão original, pese embora persista ainda na memória dos portugueses nascidos até finais da década de 80.

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Isto porque, brincadeiras à parte, o casamento de D. Duarte Pio, Duque de Bragança, com Isabel de Herédia foi suficientemente grandioso para justificar o acompanhamento televisivo, e o significativo 'share' de audiência que o mesmo conseguiu – afinal de contas, é muto difícil à maioria dos seres humanos (e decididamente aos portugueses) conseguirem resistir a uma boa cerimónia. Assim, terão sido inúmeros os jovens lusitanos que acompanharam em directo o acontecimento, através da RTP, certamente sintonizada por um qualquer familiar mais velho. E embora quase nenhum deles soubesse, até àquele momento, quem era ou que título tinha D. Duarte Pio (um rei nunca oficialmente empossado, e cujo nome não figura, subsequentemente, nos livros de História) o ar bonacheirão e radiante do mesmo ao lado da nova esposa (fazendo lembrar um tio-avô simpático e brincalhão) ajudou a que muitos simpatizassem de imediato com o monarca, e passassem a acompanhar o seu 'trajecto' rumo a um final feliz ao lado da nova Duquesa.

E a verdade é que tal se veio mesmo a verificar, com o casal a permanecer junto até aos dias de hoje, trinta anos depois, e a dar à luz três filhos, cujos nomes intermináveis, com quatro nomes próprios e outros tantos apelidos, chegou a ser 'meme' corrente no Portugal da época: os infantes Afonso e Dinis e a infanta Maria Francisca, ela própria recentemente casada. Apesar de ser muito pouco provável, senão impossível, que Portugal volte a ser uma monarquia, caso isso aconteça, a sucessão está, assim, bem assegurada, como resultado de um processo que se começou a delinear numa tarde de fim-de-semana de Primavera, há já mais de trinta anos, e cujo primeiro passo colou grande parte do País ao ecrã de televisão, para presenciar uma efeméride então inédita no seu tempo de vida, e cujos efeitos perduram até aos dias de hoje.

12.09.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 11 de Setembro de 2025.

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

A existência (ou não) de vida inteligente em outros corpos galácticos que não apenas a Terra tem, pelo menos desde há dois séculos, exercido um fascínio considerável sobre grande parte da população Mundial, não sendo Portugal excepção à regra. A dificuldade em explicar certos eventos a nível cognitivo, aliada à tendência muito humana para extravasar e extrapolar acontecimentos, leva a que muitos indivíduos um pouco por todo o Mundo acreditem na existência de raças extraterrestres, capazes de se deslocar pelo espaço em veículos mecanicamente muito mais avançados do que os tradicionais carros e, assim, visitarem outros planetas, entre eles a Terra. E ainda que continuem a existir poucas ou nenhumas provas de que seja este o caso (e nenhuma delas conclusiva) a verdade é que, uma vez por outra, ocorre algo que se afigura verdadeiramente difícil de explicar racionalmente. Um desses eventos, sobre o qual se celebraram há poucos dias exactos trinta e cinco anos, teve lugar numa improvável aldeia do interior de Portugal, onde várias pessoas afirmaram ter avistado um Objecto Voador Não Identificado (OVNI), naquele que permanece, até hoje, o mais significativo evento ligado à vida extraterrestre a ter ocorrido no nosso País.

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Uma das quatro fotos existentes do OVNI de Alfena, conhecido como a 'Medusa' devido à sua forma.

Foi às oito e meia da manhã do dia 10 de Setembro de 1990 que diversos habitantes da aldeia de São Vicente de Alfena, no concelho de Valongo, na Área Metropolitana do Porto, afirmaram ter avistado um objecto estranho no céu, o qual permaneceria sobre a aldeia durante cerca de cinquenta minutos, ora estático, ora em movimento. Fotografias tiradas por uma das testemunhas, e autenticadas tanto pela NASA como pela Kodak, mostrariam tratar-se de um objecto esférico e com apêndices a fazer lembrar patas ou tentáculos, configurando uma aparência algures entre a de um disco voador estereotipado e a do organismo marinho conhecido como medusa, nome pelo qual ficou informalmente conhecido.

Esta prova foi, desde logo, considerada suficiente para dar início a uma investigação internacional sobre o incidente, e a pacata aldeia nortenha via-se assim, de um dia para outro, no epicentro de uma pesquisa digna dos 'Ficheiros Secretos', que envolvia agências francesas e americanas, além de vários laboratórios nacionais, na tentativa de discernir a natureza e origem do objecto, tendo a ocorrência chegado mesmo a ser tema de um episódio de uma série sobre eventos ligados ao contacto extraterreste produzida pela National Geographic. E ainda que a maioria das pesquisas tenha sido inconclusiva, os cientistas conseguiram, ainda assim, concluir que o objecto não se assemelhava a qualquer dispositivo aéreo conhecido e que pudesse ajudar a explicar o mistério, como uma sonda ou um balão metereológico. Tendo o evento tido lugar décadas antes da comercialização em massa de 'drones' teleguiados, o objecto no céu de Alfena permaneceu, assim, impossível de identificar, acabando por ser 'arquivado' na memória popular como mais uma prova de que existe algo mais na vastidão do espaço, que talvez procure estabelecer contacto com os habitantes de outros planetas ou, no mínimo, visitá-los – algo que qualquer habitante de São Vicente de Alfena presente naquela manhã de Setembro há trinta e cinco anos decerto não terá qualquer problema em corroborar...

30.05.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-Feira, 28 de Maio de 2025.

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

Apesar de não serem, de todo, desejáveis, e de serem feitos consideráveis esforços para as evitar, as tragédias acabam, inevitavelmente, por se tornar o tipo de efeméride mais recordado e que mais facilmente penetra a cultura popular. O povo português não é excepção a esta regra, contando-se ainda hoje alguns exemplos que, volvidas múltiplas décadas, são ainda lembradas e comentadas em detalhe por uma parte considerável dos lusitanos mais velhos, e sobretudo por aqueles que vivenciaram a cobertura noticiosa das mesmas. É, precisamente, sobre um desses desastres – sobre o qual se assinalariam exactas três décadas e meia no dia originalmente planeado para a publicação deste post – que versam as próximas linhas.

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Os resultados do embate

No dia 25 de Maio de 1990, entre as oito e as oito e meia da manhã, dois comboios partiam de duas estações diferentes, Sintra e Cacém, ambos rumo à capital. Pode parecer a premissa para um problema de física respeitante a velocidades relativas, mas trata-se, de facto, do preâmbulo de algo muito mais grave. Isto porque, no período acima mencionado, um grupo de passageiros havia ocupado a linha férrea na estação de Campolide, perturbando a circulação normal de comboios na Linha de Sintra, e obrigando o comboio que partira daquela estação a efectuar uma paragem no Apeadeiro da Cruz de Pedra. Em simultâneo, o comboio oriundo do Cacém foi incapaz de respeitar o semáforo amarelo encontrado após a estação de Benfica, não travando a composição a tempo de respeitar o sinal seguinte, vermelho, e de evitar a colisão com o comboio parado no apeadeiro, a qual teve lugar cerca de um quarto de hora antes das nove da manhã, instaurando o pânico entre os passageiros das duas locomotivas.

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Localização aproximada do acidente.

Felizmente, apesar da força do embate (suficiente para destruir quase totalmente a primeira carruagem do comboio em movimento) o saldo final da colisão acabou por ser mais positivo do que o aparato da mesma poderia levar a crer, já que, apesar de terem ficado feridas mais de duas centenas e meia de pessoas, se lamentou apenas uma única fatalidade no local, à qual acresceu, depois, a de Francisco José Pereira, já no hospital. De registar, também, a rapidez e eficácia da estrutura de salvamento dos feridos montada pelo serviço de ambulâncias da PSP e pelos hospitais de Santa Maria e São José, que acolheram a breve trecho os pacientes. No total, a disrupção da circulação na linha de Sintra durou pouco mais de duas horas, o que não impediu que fosse lançada uma investigação relativa à falta de condições de segurança dos comboios e restantes infra-estruturas da CP, à época responsáveis por uma série de desastres ferroviários. O maquinista, inicialmente apontado como culpado, seria, assim, ilibado de quaisquer responsabilidades, as quais seriam atribuídas ao Governo e à própria CP.

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Socorro e remoção dos feridos.

Felizmente, as décadas subsequentes vieram trazer uma maior modernização às infra-estruturas rodoviárias, embora se esteja, ainda, muito longe do patamar ideal, ou da equiparação com outros países da Europa. Ainda assim, é reconfortante (sobretudo para quem anda de comboio) saber que uma repetição desta ainda recordada tragédia é, hoje em dia, bastante menos provável do que o era há exactos trinta e cinco anos...

15.05.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-Feira, 15 de Maio de 2025.

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

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Pouco mais de duas semanas antes da data de edição deste 'post', Portugal viveu momentos atípicos, ao sofrer as consequências de um corte de energia que afectou toda a Península Ibérica, e até partes de França, durante um período que mediou entre as cerca de dez horas e as quase vinte e quatro. E no tempo que o referido 'apagão' disponibilizou para pensar, longe da constante sobrecarga de informação que permeia o dia-a-dia ocidental, muitos residentes da metade meridional do País terão, sem dúvida, relembrado um outro incidente deste género, ocorrido quase exactamente um quarto de século antes, e que embora com duração e consequências bastante menores, não deixou de colocar em sobressalto a população da capital. E porque, à data exacta do aniversário, o Anos 90 se encontrava ainda 'de férias', nada melhor do que assinalarmos agora a referida data, ainda que com cerca de uma semana de atraso.

Foi já ao fim da noite de 9 de Maio do ano 2000 (pouco depois das vinte e duas horas) que todo o Sul de Portugal, incluindo Lisboa, se viu, subitamente, imersa em escuridão, como consequência de uma falha de energia que, no total, deixaria os 'sulistas' sem luz, telefone, rede móvel, televisão, TV Cabo ou Internet durante cerca de duas horas – uma fracção do tempo de 'apagão' de finais de Abril de 2025, mas ainda assim suficiente para despoletar o 'estado de alerta' no seio de muitas autarquias, tendo imediatamente sido enviadas forças policias para locais estratégicos, a fim de suprimir quaisquer tumultos. Para seu crédito, no entanto, a população portuguesa esperou pacientemente que voltasse a electricidade, não se tendo verificado quaisquer incidentes de violência como consequência do 'apagão', nem qualquer aumento da actividade criminal.

E se, em 2025, se temeu que um ciber-ataque estivesse na origem do 'apagão' sul-europeu, nos primeiros meses do Novo Milénio, a explicação para a falha energética era bem mais simples, e também insólita: o corte de electricidade havia sido causado por uma cegonha que, ao colidir com um fio de alta tensão na zona de Lavos, Figueira da Foz, havia não só morrido eletrocutada como também deixado grande parte do Sul do País 'no escuro' na pior altura possível – após o anoitecer. Um incidente tão caricato que chegou a ser relatado em jornais estrangeiros, um pouco por toda a Europa, e que, apesar do hábito das cegonhas de nidificar em postes elétricos, não se voltou a repetir ou verificar em qualquer outra altura nos vinte e cinco anos subsequentes, tendo-se eventualmente tornado uma daquelas histórias que, apesar do final trágico para a ave despoletadora da 'crise', se recordam com um sorriso nostálgico; mesmo à medida, portanto, para ser relembrada neste nosso blog...

22.01.25

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

Na última edição desta rubrica, fizemos menção de eventos que, apesar de fora do espectro normal de interesses de uma criança ou adolescente, têm impacto suficiente a nível social para lhe ficarem, ainda assim, na memória. Nessa ocasião, mencionámos efemérides como a Guerra do Golfo, a transferência de poderes sobre Macau, a guerra EUA-Iraque ou o 11 de Setembro de 2001; agora, há que juntar à lista um outro evento, que os 'millennials' mais velhos (e 'X' mais novos) certamente recordarão, e que atingia o seu clímax há pouco mais de vinte e cinco anos, obrigando à intervenção dos famosos 'boinas azuis' das Nações Unidas.

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Falamos da invasão de Timor-Leste pela Indonésia, a qual, nos anos a que este 'blog' diz respeito, se arrastava já há mais de duas décadas, sem sinais de abrandar, causando a devastação do ecossistema e infra-estruturas da área leste daquela ilha do sudeste asiático, e levando à morte de um número estimado de entre cem a cento e oitenta mil pessoas, parte mais do que significativa da população da ex-colónia portuguesa. Iniciada como confronto directo entre tropas governamentais indonésias e grupos rebeldes timorenses (uma vez deposto o governo popular deste último país), a situação rapidamente escalou para uma guerra fria, pontuada aqui e ali por violentos confrontos entre as duas facções.

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Forças guerrilheiras timorenses.

Durante os anos 80, no entanto, a situação voltou a agravar-se, tendo a frente popular timorense encontrado tanto um líder como um símbolo, na pessoa de Xanana Gusmão, que lideraria o esforço de resistência até à sua captura, em 1992. Os líderes que lhe sucederam pouco melhor sorte teriam, e as forças guerrilheiras foram, progressivamente, perdendo força, à medida que confrontos cada vez mais violentos as dizimavam. Em finais dos anos 90, as tensões eram já tais que as Nações Unidas se viram obrigadas a intervir, enviando forças de paz para a ilha.

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Xanana Gusmão, o rosto da resistência timorense.

Justamente quando tudo parecia perdido, no entanto, o novo presidente indonésio (sucessor de Suharto, 'rosto' da invasão e do invasor) decidiu, sem que nada o fizesse prever, permitir a realização de um referendo para definir se Timor-Leste seria independente, ou apenas 'região autónoma' anexada à Indonésia, como sucede com os arquipélagos ao largo da costa portuguesa. Realizada no Verão de 1999, esta votação teve, previsivelmente, um resultado esmagadoramente a favor da independência do território, o qual viria a ser ratificado em Outubro, com a independência a entrar em efeito a partir de 2002, e a pôr, efectivamente, fim a mais de um quarto de século de luta, que deixara em escombros mais de quatro-quintos da infraestrutura do território e morta grande parte dos seus habitantes. E ainda que, outro tanto tempo volvido, o conflito não passe já de uma triste memória, a mesma encontra-se, ainda assim, indelevelmente gravada na mente de qualquer português que, à época, tivesse idade suficiente para perceber o que se passava, tornando inevitável uma menção neste nosso blog nostálgico, poucos meses após a celebração dos vinte e cinco anos da sua conclusão.

09.01.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 09 de Janeiro de 2025.

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

Apesar de, normalmente, as efemérides político-sociais não figurarem em grande escala na vida das crianças e jovens, existem momentos que, de tão importantes ou marcantes, não podem senão ficar indelevelmente gravados na mente até mesmo dos mais jovens – toda a gente se recorda, por exemplo, de onde estava no 11 de Setembro, ou de ver na televisão a Guerra do Golfo ou a do Iraque. A juntar a esta lista há, ainda, o momento vivido há pouco mais de vinte e cinco anos, mesmo ao cair do pano do século XX e do Segundo Milénio, e que via Portugal deixar, pela primeira vez em mais de cinco séculos, de ter definitivamente quaisquer territórios coloniais na região vulgarmente conhecida como Ultramar. E porque deixámos, acidentalmente, passar em branco esta efeméride na data do aniversário em si, nada melhor do que corrigir agora essa situação e, apesar de com um par de semanas de atraso, assinalar o quarto de século da 'cedência' de Macau à República Popular da China, e do encerramento da 'era colonial' em Portugal.

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Vista geral da cerimónia.

Batiam as doze badaladas do dia 19 de Dezembro de 1999 (no horário português) quando o então Presidente da República, Jorge Sampaio, se juntava ao seu congénere chinês no pódio para efectivar oficialmente a transferência de poderes relativos ao território de Macau, que punha termo a um período de quase quatro séculos e meio de domínio português no enclave asiático e deixava Portugal sem quaisquer colónias internacionais, poucos anos depois de findo o atribulado e polémico processo de independência de Timor-Leste, hoje Timor-Lorosae. O Governador macaense, General Rocha Vieira era, pois, forçado a cessar funções, o mesmo sucedendo com os restantes funcionários públicos nacionais no território, que davam assim lugar aos seus congéneres chineses, numa cerimónia que teve honras de transmissão na RTP, então o canal oficial dos assuntos de Estado.

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O General Rocha Vieira, governador português em Macau, entrega a bandeira de Portugal a um oficial chinês, num gesto simbólico de transferência de poderes.

Apesar de amigável, esta transferência de poderes não deixou, ainda assim, de ficar marcada pela controvérsia, nomeadamente em relação a algumas peças de arte presentes nos edifícios governamentais portugueses, que nunca foram devolvidos ao Estado. Ainda assim, no cômputo geral, tratou-se de um processo com fricção mínima – algo bastante necessário após a tensa situação timorense – e que marcou um momento histórico no Portugal contemporâneo, merecendo (e devendo) assim ser recordado numa altura em que se acaba de completar um quarto de século sobre a sua mediática conclusão.

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