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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

01.05.22

NOTA: Por se celebrar hoje um marco importante do desporto da década de 90, alterámos a ordem dos 'posts' deste fim-de-semana. Os Domingos Divertidos regressarão para a semana.

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.

Qualquer 'puto' dos anos 90 fã de Fórmula 1 (ou de desporto em geral) se lembra daquela tarde de feriado em 1994: uma corrida como qualquer outra, com emoções fortes como qualquer outra, que acabou com emoções ainda mais fortes (embora também bastante mais negativas) após um dos pilotos encontrar problemas com o seu carro ao atacar uma curva, e acabar de encontro a um 'railing' e com o carro em chamas.

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Esse piloto era Ayrton Senna, o prodígio brasileiro que, naquele dia 1 de Maio de 1994, no lendário circuito de Imola, vinha fazendo uma prova tipicamente e previsivelmente brilhante (disputava o recorde de tempo por volta com Michael Schumacher), que o destino tratou de transformar na sua última: levado de emergência para o hospital, o piloto da Williams acabaria mesmo por perder a vida como consequência do despiste e embate, transformando-se na primeira vítima mortal da curva Tamburello, que também já trouxera 'sustos' aos não menos lendários Nelson Piquet e Gerhard Berger em anos anteriores, e numa espécie de 'Kurt Cobain' do desporto – um nome recordado tanto pelo seu génio diferenciado no seu campo de especialização, como por ter falecido jovem (Senna tinha completado 34 anos há sensivelmente um mês) no auge das suas faculdades profissionais, e com muito ainda para dar ao Mundo. Ao contrário de Cobain, no entanto, Senna nunca quis morrer, tendo o fim da sua vida surgido, puramente, como capricho do destino – o que torna ainda mais dolorosa a memória do sucedido.

Até àquele fatídico dia 1 de Maio, Ayrton Senna da Silva (nascido em São Paulo a 28 de Março de 1960) era, com justiça, visto como um dos nomes maiores da 'nova geração' do desporto automóvel, a par de Michael Schumacher. Entrado na Fórmula 1 em 1984 (após as habituais passagens pelo mundo dos karts e por competições menores, como a Fórmula 3, de onde também emergiria, cerca de uma década depois, o representante português no desporto automóvel, Pedro Lamy) o piloto brasileiro não tardaria a sagrar-se tri-campeão da categoria ao serviço da McLaren, marca à qual é ainda hoje mais fortemente associado na mente dos 'tiffosi'.

Mais do que os títulos, no entanto, era a capacidade que Senna tinha de se adaptar às condicionantes que o rodeavam – fossem as condições atmosféricas, o estilo de condução dos seus adversários, ou até problemas técnicos que experienciava – que diferenciavam Senna dos pilotos 'apenas' bons, e o tornavam extraordinário. Até mesmo a instantes de um acidente que acabaria por resultar na sua morte, o brasileiro teve presença de espírito suficiente para reduzir a velocidade ao seu carro, evitando assim um choque ainda pior; infelizmente, esta reacção de último momento já não foi suficiente para evitar o pior, fazendo com que, nos vinte e oito anos subsequentes, a memória daquele génio da Fórmula 1 surja, dolorosa, na mente dos 'tiffosi' um pouco por todo o Mundo, a cada Primeiro de Maio. Que descanse em paz.

Montagem de notícias sobre a morte de Senna na TV portuguesa.

NOTA: As imagens do acidente, conforme transmitidas pela RTP2, encontram-se bloqueadas para uso fora do Youtube, mas podem ser encontradas escrevendo 'ayrton senna acidente portugal' na barra de pesquisa do YouTube.

11.04.22

NOTA: Este post diz respeito a Domingo, 10 de Abril de 2022.

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.

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A década de 90 marcou a chegada à consciência popular portuguesa da principal liga de basquetebol profissional americana - vulgo, NBA - muito graças ao mítico programa 'NBA Action', uma espécie de 'colecção de clipes' que apresentou essa excitante e fascinante competição desportiva a toda uma geração de crianças e jovens. E embora fossem muitos e variados os protagonistas das diversas montagens de 'afundanços' e jogadas mirabolantes que compunham o programa, desde cedo tomaram a dianteira no coração dessa mesma geração duas equipas: por um lado, os LA Lakers, na altura 'movidos' a Kobe e Shaq, e os Chicago Bulls, onde pontuava um dos mais lendários 'trios de ataque' da História do basquetebol.

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E se, nestes últimos, a componente visual era dominada pela sucessão de penteados cada vez mais 'berrantes' do 'maluco' Dennis Rodman, na quadra, a atenção ia todinha para o homem que esse mesmo Rodman - ao lado do mais discreto mas não menos influente Scottie Pippen - tinha por missão servir.

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Sim, Michael Jordan, ainda hoje um sério competidor ao titulo de 'GOAT' - Greatest of All Time - que discute com nomes como o mítico Wilt Chamberlain, o seu 'rival' da altura Kobe Bryant, ou o seu sucessor natural LeBron James. De todos os nomes sonantes (e hoje lendários) daquela época áurea da NBA - Pippen, Rodman, Kobe, Shaq, Magic Johnson ou Charles Barkley, para citar apenas alguns - Jordan era, sem qualquer sombra de dúvida, o maior, e (ao lado de Rodman) o único que transcendia verdadeiramente as barreiras do desporto em que se especializava, tornando-se parte da cultura 'pop' da altura; em suma, num mundo ainda quase a uma década de ser apresentado a Cristiano Ronaldo, Michael Jordan era tão célebre quanto um desportista da sua época podia almejar a ser - e a verdade é que CR7 ainda não viu o conceito de um filme inteiro ser baseado, tão-somente, no seu 'star appeal'...

Escusado será dizer que este nível de popularidade influenciou, em larga medida, a escolha de equipa favorita da NBA para muitos jovens portugueses; embora alguns dos outros emblemas apresentados pelo 'NBA Action' tivessem os seus atractivos próprios - fossem as mascotes 'cartoonescas' dos Boston Celtic e Charlotte Hornets ou a presença de nomes sonantes nas respectivas equipas -foi mesmo a efígie daquele touro estilizado vermelho que, a partir de meados da década, mais se passou a ver (mais ou menos bem desenhada) em artigos de 'merchandising' (quer oficial quer pirata) que iam de peças de vestuário - como as tradicionais t-shirts e os icónicos bonés - a cadernos escolares e até carteiras; a dada altura, parecia praticamente impossível ir a uma loja ou até passear na rua sem dar de caras com a mascote da instituição basquetebolística de Chicago - e tudo graças àqueles 'poste' careca com a camisola 23, baixo para a posição, mas que compensava largamente esse facto com um talento astronómico, e um carisma de verdadeira 'superstar'...

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Lá em casa havia um igualzinho a este, ali por volta de 1996...

Hoje em dia, no contexto da NBA moderna, os Bulls são uma sombra do que eram naquela época do 'dream team', ainda que continuem a contar com talentos acima da média; quem viveu aquela época, no entanto, associará sempre a equipa do Noroeste Pacífico americano aos nomes de Rodman, Pippen e, sobretudo, Jordan - lendas daquele calibre que o tempo nunca conseguirá apagar, e responsáveis por, em meados da última década do século XX, tantos jovens portugueses se terem 'convertido' aos Chicago Bulls...

13.03.22

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.

Embora Portugal tenha um longo e ilustre historial em certas modalidades desportivas (com destaque para o futebol e o atletismo), outras há em que o país pouco ou nada se destaca. Talvez por isso seja tão moralizante ver aparecer atletas lusos em desportos com pouco historial em solo nacional, como a Fórmula 1 (por muito azarada que a carreira do representante nacional, Pedro Lamy, tenha sido) ou o basquetebol, que ainda recentemente viu um jovem luso atingir o patamar máximo do desporto, ao ser recrutado para alinhar nos Sacramento Kings, da toda-poderosa NBA.

No entanto, apesar de pertencer a Neemias Queta o maior feito da história da modalidade em Portugal, o mesmo não foi o primeiro nome de destaque mundial a emergir do basquetebol lusitano; pelo contrário, quase um quarto de século antes do nascimento do jovem, despontava na sua Lisboa natal um outro nome, que se tornaria o mais reconhecível do basket português durante os mais de 45 anos seguintes.

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Falamos de Carlos Humberto Lehmann de Almeida Benholiel Lisboa Santos – mais comummente conhecido apenas como Carlos Lisboa – um natural da Cidade da Praia, Cabo Verde, criado em Lourenço Marques (hoje Maputo), mas que viria a fazer nome e carreira em outra capital, com a qual partilhava o apelido e à qual chegaria em 1974, com apenas 16 anos, para representar os juniores do Benfica.

Apesar de não ter sido particularmente auspiciosa – Lisboa foi pouco utilizado, e ponderou mesmo abandonar o basquetebol - essa primeira experiência no clube da Luz permitiu, ainda assim, a Lisboa demonstrar qualidade suficiente para atrair a atenção do rival do outro lado da Segunda Circular, que não tardou em abordar o atleta, por intermédio do seu ídolo Mário Albuquerque. Lisboa não hesitaria em aceitar a proposta, e, na época seguinte (ainda com idade de júnior) surgiria na equipa principal do clube listrado de verde e branco, cores que defenderia durante os sete anos seguintes, ajudando a agremiação de Alvalade a conquistar, durante esse período, três campeonatos nacionais e duas Taças de Portugal da modalidade, além de ter sido homenageado com o Prémio Stromp (atribuído aos atletas do clube que mais se destacam em cada ano) em 1981.

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Lisboa ao serviço do Sporting

Tudo parecia correr bem para Lisboa quando, no final dessa mesma época de 1981/82, o Sporting decide extinguir a secção de basquetebol, uma decisão que vigoraria por quase quarenta anos; o base via-se assim, de rompante, 'desalojado' no auge da sua carreira, e obrigado a procurar nova 'casa'. Propostas não faltaram, entre elas uma do FC Porto, mas Lisboa optaria mesmo por se manter na zona de Lisboa, assinando pelo Clube Atlético de Queluz; e o mínimo que se pode dizer é que a decisão do atleta foi extremamente benéfica para o até então modesto clube dos arredores de Lisboa, que, em duas épocas de Lisboa, ganharia a primeira Taça de Portugal (contra o primeiro clube do basquetebolista, o Benfica) e o primeiro campeonato nacional da sua história, elevando consideravelmente o seu estatuto no panorama basquetebolístico nacional.

Não foi apenas o estatuto do clube que se elevou durante este período, no entanto – antes pelo contrário. Com fama de 'decisor' e vencedor de títulos, e presença cativa na Selecção Nacional da modalidade, o basquetebolista não podia deixar de despertar o interesse e a cobiça de vários emblemas, e foi sem surpresas que o Queluz viu o base abandonar os seus quadros em favor do clube que o dispensara quase exactamente dez anos antes (sim, este fenómeno não é, de todo, do domínio exclusivo do futebol...)

Seria aí – no Benfica – que Lisboa viria a passar os restantes doze anos da sua carreira, sempre num registo diferenciado; e apesar de um início, novamente, pouco auspicioso (o Benfica perdeu tudo na primeira época de regresso do atleta, uma situação anómala na carreira de Lisboa) a resposta do base e do respectivo emblema seria retumbante, vindo o Benfica a estabelecer uma hegemonia que duraria quase uma década, e resultaria em sete campeonatos nacionais consecutivos, ainda que apenas em uma Taça de Portugal (em 1991-92.) E apesar de os anos 90 terem representado o ocaso da carreira de um Lisboa já envelhecido, o mesmo ainda iria a tempo de fazer muitos estragos ao serviço dos encarnados – inclusivamente na Euroliga, a principal competição europeia em basquetebol, em que o Benfica teria prestação honrosa na época de 1995-96, e onde, no feriado do 5 de Outubro, Lisboa (na sua última época enquanto profissional da modalidade) estabeleceria um novo recorde de pontos num só jogo, ao conseguir 45 contra o Partizan de Belgrado.

O mais histórico jogo da carreira de Carlos Lisboa, disputado mesmo ao 'cair do pano' da mesma

Uma carreira de mais de duas décadas, e repleta de títulos nacionais (só pelo Benfica, foram dez campeonatos em doze possíveis), via-se, assim, coroada com um feito histórico, bem merecido pela então figura maior do basquetebol nacional, mas também com uma desilusão, já que o último jogo de sempre de Carlos Lisboa seria uma derrota na final do campeonato nacional desse ano, frente ao FC Porto, e já depois de o Benfica ter arrebanhado todos os restantes títulos nacionais da modalidade.

Não terminaria aí, no entanto, a ligação de Lisboa ao desporto que o cativara aos nove anos de idade, ainda em Moçambique; pelo contrário, após a despedida dos 'courts' na qualidade de jogador, o ex-base transpôs toda a sua experiência para o outro lado das linhas, assumindo o posto de técnico em emblemas como o Estoril, o Aveiro Basket e, por duas vezes, o seu clube do coração, o qual levou a mais uma 'enxurrada' de títulos, renovando o seu estatuto como lenda viva do clube da Luz, não só dentro, como também fora dos 'courts'.

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Lisboa ao comando do seu clube do coração

Hoje com 63 anos, o 'Eusébio do basket' – cuja camisola com o número 7 'mora' ainda sobre o Pavilhão da Luz – pode ter sido destronado como detentor do maior feito de sempre da História do basket nacional, mas a verdade é que aquele que parece ser o seu sucessor natural, Neemias Queta, terá de ter uma carreira extraordinária para conseguir igualar o notável percurso de Lisboa, ainda hoje o mais condecorado e consagrado atleta português da modalidade.

 

30.01.22

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.

Ao folhear a caderneta de cromos oficial do Sporting Clube de Portugal, lançada  a tempo do início da época 1994-95, lá estava ele; um jovem lateral-esquerdo de 19 anos, de sorriso tímido e cabelo até por baixo das orelhas, no então típico penteado 'à jogador da bola'. No topo da página, o nome - Nuno Valente.

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A página de cromos que deu a conhecer Nuno Valente (crédito da imagem: Armazém Leonino)

Foi desta forma inusitada – através de uma não menos inusitada, e nunca mais repetida, caderneta de cromos – que os pequenos 'leões' dos anos 90 tiveram o primeiro contacto com aquele que se viria a tornar um dos maiores laterais-esquerdos portugueses de sempre...ao serviço de um dos clubes rivais daquele que o viu 'nascer' para a bola.

Natural de Lisboa, seria no Norte que Nuno Jorge Pereira da Silva Valente viria a conhecer o sabor do sucesso, já no novo milénio, depois de nos anos 90 ter feito o habitual 'périplo' dos empréstimos comum a tantos jovens futebolistas, ao fim do qual foi dispensado pelo clube onde fizera (quase) toda a sua formação. Em seis anos, foram dois empréstimos – a Portimonense e Marítimo, tendo conseguido estabelecer-se em ambos – e menos de quarenta participações com a camisola do Sporting, nunca tendo, claramente, representado uma opção para qualquer dos diferentes treinadores dos 'leões', apesar da sua valorosa participação na campanha que culminou com a conquista da Taça de Portugal 1994-95.

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Valente passou quase despercebido nas suas seis épocas no Sporting

Assim, foi com naturalidade que, em 1999, os adeptos 'verdes e brancos' o viram sair, em final de contrato, para o União de Leiria - outra presença constante no meio da tabela do campeonato português dos anos 90, à época orientado por um jovem treinador de enorme valor chamado...José Mourinho – e continuar uma carreira que se previa do tipo 'honroso, mas sem brilho'.

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Cromo que mostra Nuno Valente enquanto jogador do Leiria

As coisas não viriam, no entanto, a revelar-se tão previsíveis quanto isso para Nuno Valente; as boas exibições ao serviço do Leiria, onde mais uma vez 'pegou de estaca', permitiram-lhe seguir Mourinho e o colega de equipa Derlei do clube do Lis para o Futebol Clube do Porto, ao qual chegava em 2003 com a chancela de um dos melhores laterais do campeonato.

O resto da história é bem conhecido: participação activa no período hegemónico e imperial do FC Porto na Europa, pedra basilar da Selecção Nacional do período pós-Geração de Ouro, transferência para o Everton, onde continuou a brilhar, e, finalmente, a retirada em alta do futebol profissional, aos 35 anos e com um palmarés invejável, para se tornar olheiro do Everton em Portugal e, mais tarde, treinador. E ainda que essa experiência não tenha corrido tão bem como seria desejável – foram apenas seis meses ao comando do Trofense antes de ser substituído – terá, certamente, sido mais do que aquele jovem de penteado questionável que lutava para se afirmar na equipa do Sporting alguma vez terá sonhado...

16.01.22

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.

Um dos maiores paradoxos do futebol, quer actualmente quer em décadas transactas, prende-se com o facto de, por vezes, jogadores que se revelam como talentos invulgares terem de passar incontáveis temporadas em situação de empréstimo durante os seus anos formativos. É claro que, por vezes, existem nomes que contrariam esta tendência, principalmente desde o dealbar do futebol moderno – basta lembrarmo-nos de Luís Figo, João Moutinho, Renato Sanches, Francisco Conceição ou, claro, Cristiano Ronaldo – mas, para cada um destes exemplos, continua a haver um sem-fim de nomes que deixam os adeptos a pensar em como é possível que os clubes não tenham visto, de imediato, o potencial dos jogadores – nomes como Deco, Miguel Veloso, João Palhinha, ou o homem de que falamos hoje, Rui Costa.

Produto das escolinhas do Benfica, e considerado pela lenda Eusébio como grande promessa para o futuro, Rui Manuel César Costa parecia, à entrada para a sua primeira época como sénior, no dealbar da década de 90, uma escolha natural para a promoção ao plantel principal do clube onde crescera para o futebol – especialmente tendo em conta que o médio tinha feito parte da Selecção portuguesa que havia conquistado o título de campeão mundial de sub-20, em Riade, no ano transacto. Terá, portanto, sido com alguma surpresa que os adeptos benfiquistas viram a jovem promessa de 18 anos rumar ao Grupo Desportivo de Fafe, num dos tais empréstimos por uma época que indicam que, apesar de o clube principal ainda contar com o jogador para o futuro, existem primeiro algumas arestas a lapidar.

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Foto de arquivo que mostra Rui Costa integrado no plantel do Fafe, aqui em treino (Crédito da foto: MaisFutebol)

E o mínimo que se pode dizer é que Rui Costa alisou definitivamente quaisquer 'cantos' pontiagudos que ainda pudessem existir durante a sua temporada na equipa nortenha em 1990-91, tendo-se afirmado como parte indiscutível da equipa (entre aulas de código e visitar ao clube de vídeo, foram 38 jogos, tendo o médio ainda contribuído com seis golos) e crescido o suficiente como futebolista para, aquando do seu regresso à casa-mãe (já com o título de Campeão Mundial de Sub-21, obtido novamente em Riade e no qual Rui Costa teve papel decisivo, ao marcar o 'penalty' que decidiu a final) ser integrado nos trabalhos da equipa principal, da qual apenas sairia para protagonizar uma das primeiras grandes transferências do futebol português moderno, ao rumar à Fiorentina, de Itália, em contra de 1 milhão e 200 mil escudos, o equivalente actual a seis milhões de euros. Pelo caminho ficavam uma Taça de Portugal, ganha ao Boavista por 5-2 em 1992/93, o título máximo de campeão nacional, obtido na época seguinte, sob o comando do não menos lendário Toni, e uma dupla de meio-campo ainda hoje tida pelos adeptos benfiquistas como uma das melhores de sempre, ao lado de João Vieira Pinto.

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De Fafe, Rui Costa 'voaria' para a ribalta do futebol mundial (Crédito da foto: FotoArte/MaisFutebol)

No futuro estava, claro, mais de uma década em Itália, ao serviço da Fiorentina e AC Milão, que lhe valeria a alcunha de 'Il Maestro', outros tantos anos como 'motor' de uma Selecção Portuguesa 'movida' a Geração de Ouro, e, finalmente, um regresso ao Benfica, que acolheu de braços abertos o seu filho pródigo e, após o término natural da carreira deste, o integrou nos quadros do clube que o formara para o futebol, onde ainda hoje milita. Prova concreta de que a previsão de Eusébio, quase quatro décadas antes, estava correcta, e de que Rui Costa era mesmo um dos 'especiais' do futebol moderno – mesmo que esse talento tenha, por uma época pelo menos, andado perdido nos 'batatais' da Segunda Divisão nacional de inícios dos anos 90...

21.11.21

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.

Para a maioria das pessoas – incluindo os desportistas – a rota para o sucesso é longa e árdua. Embora haja quem pareça já ter nascido ali, no topo da cadeia alimentar da sua respectiva área, a verdade é que, a maior parte das vezes, até as mais distintas carreiras têm início nos locais mais insólitos e inesperados. Nesta nova rubrica aqui no Anos 90, vamos relembrar onde andavam algumas das caras mais icónicas do desporto português, antes de serem famosos.

E começamos, desde logo, com um exemplo perfeito do tipo de percurso acima descrito: a história de Anderson Luís de Sousa, um médio brasileiro que, no decorrer dos anos 2000, se viria a tornar um dos jogadores mais instantaneamente reconhecíveis do mundo do futebol, passeando a sua classe primeiro ao serviço de um FC Porto em transição da fase 'sarrafeira' para a fase de conquista da Europa, e mais tarde do Barcelona, do Chelsea e da Selecção Nacional portuguesa. O que poucos saberão, no entanto, é que antes de viver estes anos de glória, Deco – como era mais comummente conhecido – militou em dois outros 'históricos' do futebol português, ambos entretanto tombados: nada mais, nada menos do que o Alverca (aqui por empréstimo do 'clube-pai' Benfica, juntamente com o colega de equipa e histórico dos ribatejanos, Caju) e Sport Comércio e Salgueiros.

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Deco alinhou pelo Alverca e Salgueiros, nas épocas de 1997-98 e 1998-99, respectivamente

Sim, um dos jogadores mais claramente predestinados da sua geração começou a sua ascensão para o sucesso do mesmo modo que tantos outros: descoberto no seu Brasil natal por um 'grande', mas cedo 'despachado' para um clube satélite, onde acaba por se afirmar. No caso de Deco, no entanto, a excelente época realizada no clube ribatejano - onde foi, ao lado do conterrâneo e colega de equipa Caju, uma das figuras de proa, com 32 jogos e 12 golos - não foi suficiente para conseguir uma segunda oportunidade no Benfica de Souness, demasiado ocupado a arranjar lugares de plantel para os seus 'boys' para reparar na pérola que tina debaixo do seu nariz. No início da época de 98-99, naquele que foi considerado posteriormente como um 'erro histórico', Deco viria a desvincular-se definitivamente do Benfica, clube pelo qual nunca chegara a calçar, e rumaria a Norte, para se juntar ao Salgueiros, seguindo Nandinho (outra aposta falhada do clube da Luz) na direcção inversa. Uma época assolada por lesões levaria a que o hoje luso-brasileiro alinhasse apenas doze vezes pelo histórico clube nortenho, mas mesmo com poucas aparições e muito azar, Deco conseguiu mostrar o seu talento a ponto de despertar o interesse do Porto, que o viria a contratar ainda antes do fim da temporada. O médio estreava-se, assim, na elite do futebol mundial da melhor maneira – com um título de campeão nacional, que quase fazia esquecer a época desafortunada que acabara de viver.

O resto da história é bem conhecido – títulos europeus com o Porto, transferências para o Barcelona e depois Chelsea, participação em algumas das melhores campanhas da selecção nacional portuguesa, e eventual regresso a 'casa' para alinhar pelo Fluminense. Uma carreira verdadeiramente de 'top' mundial, que é difícil de acreditar que começou com a dispensa de uma equipa que ficou na história pelo seu elevado volume de 'mancos', mas que não teve lugar para um dos últimos grandes 'números dez' puros do futebol moderno. No entanto, como se disse no início deste texto, por vezes a vida tem destas coisas – e Deco não será, certamente, o último exemplo que aqui vemos disso mesmo...

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