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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

29.10.25

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

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Hoje em dia, o acto de comprar banda desenhada importada encontra-se, como tantos outros, trivializado, bastando encomendar os volumes desejados pela Internet, numa loja especializada ou até mesmo numa boa livraria – isto, claro está, para quem não queira partir 'à aventura' no quiosque de alfarrabista mais próximo. Tal facilidade e conforto pode, no entanto, fazer esquecer que, há um mero quarto de século, quem quisesse ler 'comics' americanos (ou, horror dos horrores, 'manga') estava à mercê do que conseguisse encontrar no quiosque ou tabacaria local, ou, quando muito, de uma tradução em francês, espanhol ou brasileiro de um qualquer volume japonês, tipicamente a preços exorbitantes.

De facto, apesar de álbuns de BD franco-belga serem relativamente fácil de adquirir em Portugal nas suas versões originais desde pelo menos os anos 70, para as bandas desenhadas americanas e japonesas de carácter serializado, esse processo apenas se deu já nos anos de viragem do Milénio, com a abertura das primeiras lojas especializadas e dedicadas à venda de BD em Portugal. Antes disso, era necessário possuir nas redondezas uma tabacaria com excelentes contactos entre os importadores, e mesmo essa apenas possuiria uma mão-cheia de titulos da Marvel, DC ou, com alguma sorte, da Image ou Archie Comics.

Os bedéfilos lusitanos que devoravam mensalmente a 'Wizard' brasileira (ou a 'sucedânea' nacional 'Heróis') ficavam, assim, em larga medida restritos à sua imaginação no que tocava aos potenciais conteúdos dos volumes ali abordados - até porque mesmo os poucos números que logravam transpôr o oceano o faziam a preços acima da média para a 'carteira' de um jovem português médio. Um paradigma que, partindo de algo específico e quase insignificante, serve como reflexo da enorme progressão vivida pela sociedade portuguesa no primeiro quarto do século XXI, não apenas a nível de periódicos ou lojas especializadas, mas da própria abertura ao restante Mundo ocidental e respectiva cultura – a qual, por vezes, pode ser transmitida por meio de algo tão singelo como um simples 'livro aos quadradinhos'.

19.09.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 17 e Quinta-Feira, 18 de Setembro de 2025.

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

Já aqui por diversas vezes mencionámos a natureza salutar da imprensa periódica portuguesa em finais do século XX e inícios do seguinte. Para além da enorme variedade de jornais mais ou menos eruditos em oferta, o nosso País via também surgirem com regularidade revistas especializadas referentes aos mais diversos assuntos, quer criadas e editadas em solo nacional, quer importadas do estrangeiro, sobretudo dos mercados espanhol (pela proximidade) britânico (pela difusão e reputação) e, claro, brasileiro, cujas revistas, devido à língua partilhada e facilidade de importação, tomava para si um volume considerável do mercado português, sobretudo no tocante à banda desenhada, ramo no qual alguns exemplos persistem mesmo até aos dias de hoje. Não é, pois, de surpreender que, em meados dos anos 90, os aficionados de BD portugueses tenham visto surgir nas bancas e quiosques nacionais, não mais um dos inúmeros 'gibis' que tanto sucesso faziam por estas bandas, mas uma revista especializada com foco nos 'comics' norte-americanos, e que era, ela própria, uma adaptação de um original surgido nos Estados Unidos.

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O primeiro número da edição brasileira da revista, originalmente editado em 1996.

Tratava-se da edição brasileira da lendária revista Wizard, cujo primeiro número era lançado em terras de Vera-Cruz algures em 1996, o que – observando a habitual 'décalage' na chegada das publicações brasileiras a Portugal – a terá colocado nas bancas nacionais algures no ano seguinte. Uma situação longe de ideal para um tipo de publicação dependente da relevância temporal, mas certamente melhor do que nada para os jovens 'bedéfilos' portugueses, os quais, por essa altura, já tinham visto surgir e desaparecer a tímida tentativa da Abril-Controljornal de criar uma publicação deste tipo (a hoje algo esquecida 'Heróis', que, mesmo nos seus melhores momentos, ficava a 'léguas' da apresentação e qualidade da revista que lhe servia de inspiração) e que acolhiam de braços abertos a oportunidade de se manter a par do que ia acontecendo com os seus heróis favoritos, e logo naquela linguagem 'gingada' típica das publicações brasileiras, e que tornava a leitura ainda mais prazerosa...

De facto, ainda que não se pudesse afastar muito dos moldes da publicação-mãe (ou não fosse, na prática, um 'franchise' da mesma), a 'Wizard' brasileira fazia questão, como acontecia com tantas outras revistas daquele país, de afirmar a sua 'brasilidade', o que a tornava ainda mais apelativa para o público nacional do que a original americana, mais cara, menos acessível, e repleta daquele humor típico norte-americano que nem sempre se 'traduz' bem para os contextos de outros países. Uma receita que tinha tudo para dar certo, não fosse o facto de a 'Wizard' brasileira, na sua edição original sob a alçada da bem conhecida editora Globo, não ter chegado a ficar um ano e meio nas bancas, cessando a publicação após o número 15, para apenas a retomar já no Novo Milénio, agora pela mão da editora Panini. Essa segunda série viria a tornar-se bastante mais estabelecida, durando oito anos antes de ser extinta, e a Wizard transformada em publicação apenas digital – embora não sem deixar um legado adicional, sob a forma do site Guia dos Quadrinhos, principal referencial para compra e venda de 'gibis' no Brasil até aos dias de hoje.

Quanto a Portugal, por essa altura, a banda desenhada internacional era já uma realidade bem entranhada na cultura nacional, com lojas e revistas especializadas (entre elas a 'Wizard' original), pelo que a perda da revista brasileira não fez grande mossa. Numa era em que a oferta era praticamente nula, e ainda mais a nível internacional, no entanto, a 'verrrsão brasileirrraaaa' da icónica revista de 'comics' terá certamente, durante o seu curto tempo de vida, feito as delícias de muitos fãs de banda desenhada, e levado a que 'torrassem' a semanada numa publicação que, mesmo desactualizada, se afirmava como referência num mercado de outra forma praticamente inexistente.

06.09.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 3 de Setembro de 2015.

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Na última edição desta rubrica, falámos de um dos grandes eventos da banda desenhada dos anos 90, e que viria a ter repercussões em toda a linha editorial do seu respectivo título tanto no imediato como a médio prazo; nada mais justo, portanto, do que falarmos agora de outro, com ligação directa ao mesmo – e, curiosamente, criado pela mesma editora, a qual, à época, procurava a todo o custo 'limpar' e simplificar a cronologia dos seus títulos.

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Os cinco números da mini-série. (Crédito da foto: OLX)

Falamos de 'Zero Hora – Crise No Tempo', mini-série em cinco edições cujo principal intuito era 'consertar' a cronologia do universo principal da DC, tornada bastante confusa pela não menos notável saga 'Crise Nas Infinitas Terras' ('Crisis On Infinite Earths'), publicada na década de 80. A solução encontrada para resolver os problemas criados pela introdução de um multiverso foi um evento de extinção em massa, engendrado pelo vilão Parallax (que anteriormente defendia o bem como parte dos Lanternas Verdes) após a sua cidade ter sido destruída pela luta entre Super-Homem e Apocalipse horas antes do sacrifício do primeiro para travar o monstro, relatada no especial 'A Morte do Super-Homem'. Como forma de eliminar os diversos multiversos e respectivos heróis, o ser em tempos conhecido como Hal Jordan cria uma entropia, dando origem a uma compressão temporal que envia heróis de universos alternativos para outras linhas temporais, criando uma situação caótica que cabe a um grupo restrito de heróis resolver.

Publicada em ordem descendente (ou inversa), começando no número 4 e acabando no 0, a série levou, também, a uma renumeração e recomeço das séries da maioria dos heróis envolvidos – pelo menos nos seus EUA natais, já que em Portugal, esse 'reinício' tinha sido feito aquando do final da saga da morte e renascer do Super-Homem, pouco tempo antes. Infelizmente, apesar desta oportunidade, a 'Crise No Tempo' acabou por criar ainda mais problemas, os quais só viriam a ser resolvidos literais décadas após a publicação da série, tanto nos EUA como em Portugal, onde chegou em 1996, ao mesmo tempo do que ao Brasil, e pela mão da mesma editora, a inevitável Abril.

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Exemplo dos desenhos da série. (Crédito da foto: OLX)

Caso raro para os lançamentos da referida editora, no entanto, 'Zero Hora' chegava às bancas lusas em formato americano, ou seja, A5, e com menos páginas do que uma revista normal. O 'luxo' continuava no interior, em papel ensebado e brilhante, que fazia ressaltar os excelentes desenhos, em claro contraste com o habitual 'papel higiénico de jornal' característico dos títulos 'normais' (e até, por vezes, especiais) da Abril. O resultado era uma edição apelativa e 'vistosa', que não deixou de atrair a atenção dos jovens fãs de super-heróis da época, o que terá ajudado a garantir volumes de vendas diferenciados, e apelado ao instinto 'coleccionista' dos mesmos. De facto, é bem possível que a série marque, ainda hoje, presença na colecção de alguns 'bedéfilos' nacionais, o que ainda cimenta mais o seu direito à presença nestas nossas páginas, quase três décadas após a sua publicação em Portugal.

02.08.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 30 de Julho de 2025.

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

O sucesso da recém-estreada reinvenção cinematográfica do eterno Super-Homem – considerada por muitos fãs como a melhor representação do herói no grande ecrã desde os saudosos filmes de Richard Donner – parece ter revitalizado a presença mediática e cultural do homem de Krypton, constituindo uma espécie de 'ressurreição' do personagem para uma nova geração. Nada melhor, pois, do que aproveitarmos o continuado momento cultural de Clark Kent/Kal-El para recordarmos o momento, em meados dos anos 90, em que os bedéfilos portugueses presenciaram aquilo que parecia impossível e inimaginável: a morte do Super-Homem.

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Os diferentes volumes da saga.

Originalmente lançada ao longo de quase um ano, entre 1992 e 1993, a saga que relatava a mais pesada derrota do 'pai' dos super-heróis surgia nas bancas portuguesas mediante uma série de edições especiais, há cerca de trinta anos. A primeira parte da narrativa era contada num único album, em formato convencional mas de grossura dupla em relação ás revistas 'normais' da Abrile com brilho na capa, no qual era mostrada a chegada do monstro Apocalipse à Terra, a feroz batalha com ele travada pelo Homem de Aço, e o eventual sacrifício do mesmo como única forma de parar a perigosa criatura – um desfecho verdadeiramente inesperado (mesmo tendo em conta o título do volume) e muito comentado pelos leitores e fãs do herói.

A saga em causa estava, no entanto, longe de acabar e, enquanto os restantes heróis prestavam sentida homenagem ao seu colega caído com um 'Funeral Para Um Amigo' (em mais dois álbuns especiais, estes apenas de lombada grossa, semelhante à de um almanaque, e sem a capa 'especial' do primeiro volume), o homem de Krypton encontrava-se 'Além da Morte', num estado comatoso e alucinogéneo. Entretanto, na Terra, quatro novos heróis continuavam o seu legado, e procuravam consumar 'O Regresso do Super-Homem', num regresso aos álbuns em formato grosso e com capas trabalhadas (no caso três). Uma sequência absolutamente imperdível para qualquer fã de Kent/El, e que mudava a própria configuração de edições da Abril, a qual, após concluída a saga, reiniciaria a numeração das revistas do Homem de Aço a partir do número 1 e introduziria a nova publicação 'Superboy', dedicada ao mais popular dos quatro pseudo-Super Homens, um clone juvenil do próprio com o tipo de atitude 'radical' bem típica dos anos 90.

Mesmo sem esse acrescento ao já extenso acervo da magnata dos quadradinhos portugueses da época, no entanto, 'A Morte do Super-Homem' e volumes subsequentes representam um evento absolutamente histórico da BD, o qual teve, em Portugal, uma edição condigna à importância que acarretava – algo que nem sempre se podia dizer dos volumes supostamente 'especiais' lançados pela Abril. Assim, mesmo três décadas após o seu surgimento nos quiosques e tabacarias nacionais, esta série de volumes continua a justificar a leitura ou releitura, afirmando-se como um dos poucos lançamentos da Marvel ou DC da época a granjear esse estatuto, e justificando esta breve nota sobre a sua existência, numa altura em que Clark Kent e companhia estão mais longe da morte do que estiveram a qualquer ponto dos últimos trinta a quarenta anos...

05.12.24

NOTA: Este post é respeitante a Quarta-feira, 04 de Dezembro de 2024.

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

Já aqui em diversas ocasiões falámos do quase total monopólio que a Abril Jovem (ou Abril-Controljornal) tinha sobre o mercado de banda desenhada em português dos anos 80 e 90. Fosse através de títulos próprios, fosse por meio de importações brasileiras, a editora era responsável por grande parte dos lançamentos vistos nas tabacarias ou quiosques do nosso País, sendo a grande e honrosa excepção a Turma da Mônica, que, a partir de 1987 e até aos primeiros anos do século XXI passaria a pertencer à Globo. Tendo em conta todo este domínio e hegemonia, não é de surpreender que a casa editorial em causa tenha querido, em meados da última década do século XX, 'puxar a brasa à sua sardinha' através do lançamento de uma revista própria quase inteiramente dedicada aos títulos do seu catálogo.

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Mais do que um veículo de propaganda, no entanto (que era), 'Heróis' procurava ser uma espécie de versão portuguesa e muito simplificada da lendária 'Wizard', a referência internacional por excelência para quem se interessava por banda desenhada, jogos de vídeo ou figuras de acção naquela época. Face aos preços proibitivos das edições desta última importadas quer da América do Norte, quer da do Sul, não deixava no entanto de constituir um objectivo nobre querer oferecer aos jovens nacionais uma alternativa com talvez menos qualidade, mas também a uma fracção do preço.

E a verdade é que grande parte do público-alvo, já de si habituados a padrões de qualidade pautados pelo mediano, não pareceu importar-se grandemente com os artigos curtos ou a impressão em papel de jornal, aderindo em massa à 'Heróis' durante o curto tempo da mesma nas bancas. E com alguma razão, já que, ultrapassados estes aspectos menos cuidados ou conseguidos, a revista se afirmava como uma fonte bastante razoável de informação sobre assuntos que interessavam à sua faixa demográfica alvo, sobretudo centrados nos super-heróis da Marvel e DC (que a Abril editava à época) mas passando também pelos mundos dos desenhos animados e dos videojogos, incluindo mesmo uma grelha televisiva com destaques para programas potencialmente do interesse dos mais jovens. Um recurso mais valioso do que poderia à primeira vista parecer, portanto, e que justificava bem o investimento de cem escudos – especialmente se trouxesse acoplada uma carta holográfica (ou Holoucura), como aconteceu com os primeiros números.

Tal como referido anteriormente, foi curto o tempo da vida da 'Heróis'. No entanto, mesmo com esse reduzido intervalo, a revista conseguiu deixar a sua marca junto dos jovens fãs das BD's da Abril – mesmo que hoje se encontre algo Esquecida Pela Net (ainda que seja possível encontrar pelo menos uma digitalização de um dos números publicados, no caso o número 4, que ilustra também esta publicação.) Nada mais merecido, portanto, do que dedicar este 'post' duplo a preservar a memória daquela que foi mais uma publicação de (relativa) qualidade dirigida ao público jovem português da geração 'Millennial'.

04.03.22

NOTA: Para celebrar a estreia, esta sexta-feira, do novo filme de Batman, todos os 'posts' desta semana serão dedicados ao Homem-Morcego.

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Hoje, 4 de Março de 2022, assinala-se a chegada às salas de cinema de todo o Mundo de um novo filme de Batman, o Homem-Morcego – no caso, o quinto, primeiro desde há mais de uma década, e primeiro com Robert Pattinson no papel do justiceiro e milionário Bruce Wayne, em substituição de Ben Affleck; para comemorar esta efeméride, e terminar da melhor maneira uma semana em que temos vindo a recordar a época de auge de popularidade para o Cavaleiro das Trevas, iremos dedicar a Sessão desta Sexta a recordar os filmes que lançaram a carreira do herói de Gotham no grande ecrã, precisamente durante a década de 90.

De facto, apesar de ter havido, nos anos 60, uma tentativa de transformar em filme de longa-metragem a impagável série televisiva do Homem-Morcego (tendo o filme subsequente sido responsável por apresentar ao Mundo a engenhoca mais mirabolante do cinto de utilidades do herói, o Bat-Repelente para Tubarões) a maioria dos cinéfilos e fãs de super-heróis de banda desenhada considera como ponto de partida da carreira de Batman no cinema o filme homónimo, realizado e lançado em 1989, mas chegado à maioria dos países europeus apenas no ano seguinte, mesmo no dealbar de uma nova década. Com realização a cargo de Tim Burton, música da autoria de Prince, e uma campanha publicitária adequadamente milionária a gerar interesse garantido, 'Batman' (o filme) ajudou a provar que havia interesse num filme sobre um super-herói, e imbuiu o estilo de uma muito necessária dignidade, que dificilmente se encontrava em obras concorrentes mas de orçamentos comparativamente microscópicos, como o fraquinho 'Capitão América', do mesmo ano.

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Detentor de uma estética em tudo fiel à dos 'comics' do herói, inspirada no período da Lei Seca norte-americana, e imbuída das sensibilidades góticas de Burton - então ainda longe dos excessos 'Technicolor' que marcariam a fase posterior da sua carreira – o 'Batman' de 1989-90 é um filme surpreendentemente sombrio (pelo menos tendo em conta o público a que supostamente se destinava) e que consegue balancear na perfeição aspectos de policial 'noir' com aquilo que se poderia esperar de uma adaptação para o cinema das aventuras de um herói de banda desenhada, Apesar da escolha de Michael Keaton como Batman requerer alguma suspensão do cepticismo (é melhor não perguntar de onde surgem aqueles centímetros extra quando o 'baixote' Wayne põe o fato), o filme justifica a sua boa reputação, contando com uma realização previsivelmente personalizada e actuações de alto calibre, com destaque para Jack Nicholson, que 'rouba a cena' como Jack Napier, mais tarde conhecido como Joker. Àparte alguns aspectos mais simplistas, típicos da época (como a relação quase instantânea entre o Wayne de Keaton e uma Kim Basinger no auge da beleza) o filme continua a afirmar-se como uma excelente forma de passar duas horas numa noite de fim-de-semana, tendo resistido bastante bem ao passar das décadas.

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O mesmo, aliás, pode ser dito da sua sequela directa. Lançado em 1992, e de novo com Burton ao comando e Keaton como Bruce Wayne (tornando-o o único actor a envergar o fato do herói por dois filmes consecutivos até à chegada de Christian Bale, quinze anos depois) 'Batman Regressa' é, se possível, ainda mais escuro e sombrio que o seu antecessor a nível visual, com uma Gotham invernal, sempre coberta de neve, semi-escondida nas sombras, e tudo menos acolhedora, como que a dar valência ao argumento de que, lá porque um filme se passa na altura do Natal, não significa que seja, necessariamente, natalício (referimo-nos, claro, ao eterno debate sobre 'Assalto ao Arranha-Céus', sobre o qual demarcamos aqui a nossa posição.)

É neste mundo de sombras que se movem tanto o Cavaleiro das Trevas como dois vilões que nada ficam a dever a Joker, e que voltam a constituir o melhor aspecto do filme: uma sensualíssima Michelle Pfeiffer como Selina Kyle, a Mulher-Gato, e Danny DeVito como Oswald Cobblepot, o Pinguim, numa daquelas acções de 'casting' tão óbvias e perfeitas que chega a custar a acreditar serem reais. Mais uma vez, todos os três personagens são interpretados de forma magistral, justificando a colocação deste filme ao mesmo nível do seu antecessor por parte da maioria dos fãs do Homem-Morcego, e garantindo ao mesmo uma carreira cinematográfica ao mais alto nível na primeira metade da década.

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Infelizmente, desse ponto para a frente, o percurso de Batman no cinema far-se-ia em sentido descendente, pelo menos no que toca aos anos 90. Apesar de o sucesso de 'Regressa' ter aberto a porta a um terceiro filme, o mesmo – intitulado 'Batman Para Sempre' e lançado em 1995 - já não contaria com o contributo de Burton, que seria substituído por um realizador de características substancialmente diferentes, e algo menos talentoso, Joel Schumacher. De igual modo, Keaton cedia o fato do Homem-Morcego a Val Kilmer, até hoje o único Bruce Wayne loiro, e sem dúvida o que menos se assemelhava fisicamente ao personagem das BD's. Pior, a escolha de Kilmer representou um decréscimo considerável ao nível da representação, ainda para mais tendo em conta o calibre dos seus coadjuvantes, que eram compostos, mais uma vez, por uma loira sensual (desta vez, Nicole Kidman) e dois vilões cheios de personalidade e que 'roubam' o filme ao protagonisa – o que, tendo em conta que o mesmo se trata de Val Kilmer e que os vilões são interpretados por Tommy Lee Jones e um Jim Carrey no auge da fama e totalmente em modo 'caretas e negaças', é uma tarefa ainda mais fácil do que em capítulos anteriores.

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Os dois impagáveis vilões, talvez o principal ponto alto de 'Batman Para Sempre'

A principal pecha de 'Batman Para Sempre' não é, no entanto, a mudança de protagonista, mas antes o guião e abordagem algo mais 'infantilizados' do que antes – como o demonstra a presença de Carrey, então super-popular entre as crianças pelas suas interpretações de Ace Ventura e Stanley Ipkiss, A Máscara, e cujo Riddler constitui um 'boneco' bastante semelhante. A introdução de Robin, vivido por Chris O'Donnell, é mais uma aparente concessão ao público infanto-juvenil, tendo em conta a atitude de adolescente rebelde de que o personagem é imbuído, e os muitos momentos de (mau) diálogo 'espertalhão' que partilha com Batman.

Ainda assim, e apesar dos seus defeitos, 'Para Sempre' marcou época com uma determinada geração, demasiado nova para ter visto os Batmans de Burton, e para quem este filme era, portanto, o primeiro contacto com o Homem-Morcego; para esses (entre os quais nos contamos) o filme foi um 'acontecimento', e terá constado na lista de favoritos durante pelo menos alguns meses, até ao lançamento do próximo filme da Disney. Hoje em dia, o terceiro filme de Batman é tido como apenas mediano, longe do brilho dos dois primeiros, mas ainda assim muito melhor do que aquilo que se lhe seguiria.

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E aquilo que se lhe seguiria, em 1997, era provavelmente o mais incompreendido e erroneamente interpretado de todos os filmes do Cavaleiro das Trevas. Novamente realizado por Joel Schumacher (os realizadores dos filmes do Morcego eram bem mais constantes do que os actores escolhidos para o protagonizar) 'Batman & Robin' leva a série ainda mais declaradamente para a arena dos filmes para crianças, com diálogos repletos de frases-feitas e ápartes cómicos, e uma estrela (de)cadente (mas ainda reconhecível pelo público-alvo) no papel de vilão – desta feita o Exterminador Implacável em pessoa, Arnold Schwarzenegger, numa acção de 'casting' cómica de tão incompreensível. A seu lado está uma irreconhecível Uma Thurman, que o ajuda a fazer frente a O'Donnell, Alicia Silverstone (outra nova adição ao elenco, no papel de Batgirl) e George Clooney, mais um Bruce Wayne 'baixote' e munido de apetrechos algo insólitos, como mamilos de borracha no fato (…?) e um Bat-Cartão de Crédito, um dos alvos mais famosos de Doug Walker na sua série Nostalgia Critic (mas que, ainda assim, faz mais sentido do que Bat-Repelente para Tubarões, especialmente tendo em conta que Batman é, efectivamente, milionário.) E o mínimo que se pode dizer é que os dois vilões fazem jus aos seus antecessores, divertindo-se visivelmente com papéis que foram escritos para jogar com os seus pontos fortes (o diálogo de Schwarzenegger é quase totalmente constituído por frases de efeito.)

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Alicia Silverstone/Batgirl, a principal adição ao elenco de 'Batman & Robin'

Quanto ao filme em si, o mesmo procura prestar homenagem aos recursos limitados e ambiente 'fatela' da série dos anos 60, conforme ilustrado pelos cenários propositadamente pouco convincentes e diálogos em modo 'tão mau que é bom'. Se 'Para Sempre' representara já um distanciamento da seriedade sombria dos filmes de Burton. 'Batman & Robin' afasta-se ainda mais na direcção oposta, servindo como a representação mais próxima de uma banda desenhada desde o filme dos anos 60. Talvez por isso seja visto como não só, de longe, o pior dos filmes do herói da DC (que é, confortavelmente) mas também um dos piores filmes de todos os tempos – título algo hiperbólico e que, convenhamos, não chega a merecer.

Ainda assim, a recepção a este quarto capítulo das aventuras do Vingador Mascarado foi negativa o suficiente para colocar a sua carreira cinematográfica no limbo durante quase exactamente uma década; a próxima aparição do Morcego no grande ecrã dar-se-ia já no novo milénio, com toda uma geração que não tinha vivido os filmes originais pronta a acolher de braços abertos o herói de Gotham City. Essa história (que acaba de ter continuidade) já fica, no entanto, fora do âmbito deste blog, pelo que esta Bat-retrospectiva (e a Bat-semana em geral) se fica, por agora, por aqui.

02.03.22

NOTA: Para celebrar a estreia, esta sexta-feira, do novo filme de Batman, todos os 'posts' desta semana serão dedicados ao Homem-Morcego.

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

As adaptações em texto de propriedades audio-visuais de sucesso – as chamadas novelizações ou serializações – não são, de todo, um fenómeno recente; pelo contrário, pode dizer-se que o verdadeiro auge deste tipo de obra ocorreu nos anos 80 e 90, altura em que praticamente todos os 'franchises' cinematográficos ou televisivos minimamente bem sucedidos eram alvo de adaptações literárias. De Indiana Jones a Street Fighter e até E.T – O Extraterrestre, eram inúmeros os exemplos de conversões de filme ou série televisiva para livro, normalmente com uma qualidade de escrita não mais do que aceitável, e sem grandes pretensões a serem mais do que uma fonte adicional de receitas para a propriedade que representavam.

Menos comuns, embora longe de inexistentes, eram as adaptações em banda desenhada. De facto, tirando as 'quadrinizações' dos filmes da Disney feitas pela americana 'Disney Adventures' e publicadas em Portugal pela revista Super Jovem, e mais tarde numa colecção de álbuns bilingues que já aqui abordámos, eram poucos ou quase nenhuns os filmes ou séries que tinham direito a adaptações em BD, e ainda menos as obras desse tipo que atravessavam o oceano até à Península Ibérica.

Talvez tenha sido precisamente por isso que a adaptação oficial em banda desenhada do terceiro longa-metragem de Batman, 'Batman Para Sempre' (a única das quatro realizadas para cada um dos filmes do herói a chegar às bancas portuguesas) se destacou de tal forma nas bancas de jornais à altura do seu lançamento; apesar de Portugal ser, tradicionalmente, um país com tradição de venda e compra de revistas aos quadradinhos (entre as quais várias do próprio Batman, bem como de outros super-heróis) este tipo de publicação era tudo menos familiar para o público-alvo das BD's da Marvel e DC em meados da década de 90 – um facto a que também ajudava a própria aparência e apresentação da revista, diametralmente oposta às publicações de super-heróis 'vulgares' que a Abril enviava para as bancas a cada quinze ou trinta dias.

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De facto, com o seu formato A4 – tipico dos 'comics' norte-americanos, mas reservado, na Europa, a publicações do tipo almanaque ou álbum – e papel brilhante e oleoso, a adaptação em BD de 'Batman Para Sempre' posicionava-se, desde logo, como uma edição 'de luxo', em contraste directo com os 'livros aos quadradinhos' de formato A5 e papel rugoso a que as crianças e jovens da época estavam habituados; os traços distintivos não se ficavam, no entanto, por aí, sendo que os próprios conteúdos da revista tinham uma toada algo mais adulta do que o habitual para os 'comics' da época, com um estilo gráfico sombrio e razoavelmente realista, fiel à atmosfera do filme de Schumacher (da responsabilidade dos experientes Michael Dutkiewicz e Scott Hanna, na altura dois dos principais artistas na folha salarial da DC), e que a posicionava mais perto das chamadas 'graphic novels' do que das revistas quinzenais ou mensais, justificando assim o preço ligeiramente mais 'puxado' de 380$00, o equivalente a EUR 1.90 actuais.

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Exemplo da arte gráfica do livro

A história, essa, era exactamente a mesma do próprio 'Batman Para Sempre', ou não se tratasse de uma adaptação oficial em BD. Apesar de algumas liberdades criativas – como mostrar um excerto do próprio guião na primeira página – o argumento de Dennis O'Neil segue fielmente o roteiro da obra de Schumacher, sem nunca tentar expandir sobre aquilo que o realizador mostrara, o que, dependendo da interpretação, tanto pode ser louvável como uma oportunidade falhada de mostrar os personagens e história de 'Para Sempre' de outros ângulos, enriquecendo assim a história do filme – uma táctica sobejamente utilizada pelas novelizações em prosa, mas de que a equipa responsável por esta transcrição para BD optou por não fazer uso.

Qualquer que seja a perspectiva sobre esta abordagem, no entanto, a verdade é que a adaptação em BD de 'Batman Para Sempre' justificava bem a compra – embora sobretudo como artigo de colecção, já que era extremamente improvável que alguém que não tivesse visto o filme se interessasse por algo deste tipo, e quem já conhecesse a história dificilmente estaria interessado em a reviver num formato gráfico. Ainda assim, foi louvável o esforço da DC em assegurar que esta adaptação correspondia aos padrões de qualidade das suas antecessoras, e que o seu público-alvo não dava o seu dinheiro por mal gasto; e nesse aspecto, pelo menos, pode considerar-se que a editora (e, por associação, a Abril-Controljornal) foi bastante bem sucedida, já que a adaptação em banda desenhada de 'Batman Para Sempre' é uma adição mais do que válida à colecção de qualquer entusiasta de Batman, ou de BD de super-heróis dos anos 90 em geral.

28.02.22

NOTA: Para celebrar a estreia, esta sexta-feira, do novo filme de Batman, todos os 'posts' desta semana serão dedicados ao Homem-Morcego.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Numa era em que o Universo Marvel gera consensos críticos positivos e bate recordes de bilheteira duas vezes por ano, pode parecer difícil de acreditar que, em tempos, qualquer propriedade intelectual associada aos heróis da Marvel e DC que extravasasse o universo das revistas aos quadradinhos tinha tantas hipóteses de ser razoável como de não corresponder às (baixas) expectativas geradas. E, no entanto, foi precisamente esse o paradigma até à ponta final do século XX, altura em que as produções audio-visuais e multimédia alusivas a super-heróis de banda desenhada conseguiram, finalmente, aringir o nível que os fãs de 'comics' há tanto desejavam; e se, no caso do cinema, a 'viragem' se deu já no dealbar do século XXI, com o na altura considerado excelente 'X-Men', de Bryan Singer, no que toca à animação, o estigma já tinha sido eliminado alguns anos antes, por uma produção não menos icónica, influente ou importante – a série animada de Batman produzida pela Warner Brothers.

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Emitida nos seus EUA natal entre 1993 e 1995, e transmitida em Portugal pela RTP 2, alguns anos mais tarde, a simplesmente intitulada 'Batman: The Animated Series' conseguiu o impensável ao afirmar-se como o primeiro produto audio-visual relacionado com super-heróis a ser bem recebida pela sempre exigente crítica especializada. Muita desta boa-vontade advinha do seu guião cuidado e de qualidade, que não poupava esforços na tentativa de desfazer a má impressão deixada por 'coisas' como 'The Super Friends', a série animada produzida pela DC nos anos 70 e que, desde então, passou a simbolizar tudo o que de errado se passava com a abordagem televisiva ao mundo dos super-poderes.

Talvez tenha sido precisamente essa má reputação a motivar os criadores de 'Batman: The Animated Series' a seguirem na direcção exactamente oposta: às mascotes 'fofinhas', piadas 'secas', histórias politicamente correctas e positividade forçadas do seu antecessor, a nova série respondia com uma Gotham City declaradamente escura e opressiva com toques de 'noir' e 'pulp' (inspirada na criada por Tim Burton na sua interpretação cinematográfica do herói), guiões coesos e que levavam o público-alvo a sério, uma narrativa estruturada e personagens que, grosso modo, se mantinham fiéis às personalidades para eles criadas, ao longo das décadas, pelas diversas equipas criativas encarregadas de trabalhar na BD. Bruce Wayne, Dick Grayson, o mordomo Alfred, o comissário Gordon e a sua filha Barbara eram precisamente as mesmas pessoas que os leitores conheciam da BD, o mesmo se passando com a clássica galeria de vilões do Morcego, da qual todos os principais nomes marcavam presença, acrescidos de algumas novas adições – entre elas uma personagem tão bem sucedida que viria a fazer o percurso inverso, transitando do ecrã onde nascera para as páginas dos 'comics', e daí para o grande ecrã. O seu nome? Harley Quinn.

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Sim, foi aqui que nasceu a hoje idolatrada parceira profissional e (por vezes) amorosa do Joker, uma criação do argumentista Paul Dini com trabalho vocal a cargo da mulher deste, Arleen Sorkin, cuja interpretação teve um papel fulcral no sucesso obtido pela personagem, e ajudou a moldar e definir de forma permanente a sua personalidade. Ainda longe da loucura sensual de Margot Robbie, a Harley Quinn de Sorkin pauta-se pela sua personalidade exageradamente extrovertida, animada, 'desbocada' e hiperactiva, bem como pelos toques masoquistas e psicóticos e paixão assolapada pelo seu chefe (aqui, ao contrário do que acontece na versão cinematográfica, não correspondida) que partilha com a revisão posterior de Robbie; é, precisamente, esta complexidade dicotómica que transforma aquilo que poderia ser apenas a habitual personagem cómica vagamente irritante, dirigida às crianças, numa das mais populares criações de sempre da DC, e presença, hoje, quase que excessivamente constante no seu universo mediático.

Foi exactamente esta mentalidade – extensível também aos outros personagens da série – que ajudou a fazer de 'Batman: The Animated Series' um dos programas mais importantes de sempre, não só para a causa dos super-heróis nos 'mass media', como também para o próprio panorama da animação nos anos 90; isto porque o sucesso da série não só ajudou a lançar todo um universo animado da DC, sempre encabeçado pelos criadores Paul Dini e Bruce Timm, como também inspirou muitas criações posteriores a seguirem o seu exemplo, contribuindo assim para alterar positivamente o paradigma das séries de aventuras para crianças; por outras palavras, se a geração seguinte teve muitos e bons programas deste género por onde escolher, ao 'Batman' dos anos 90 o deve.

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Um desses programas foi, precisamente, uma espécie de 'sequela' para a série original, intitulada 'Batman do Futuro' (no original, 'Batman Beyond') e que seguia as aventuras do sucessor de Bruce Wayne no fato do Homem-Mercego. Apesar de estreada originalmente em 1999, no entanto, essa série apenas chegaria a Portugal já no século XXI, ficando assim fora do âmbito deste blog; ficamo-nos, por isso, pela original – que, convenhamos, está longe de ser a pior maneira de abrir uma semana de homenagem ao Homem-Morcego...

18.03.21

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A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Neste post inaugural, traçaremos o percurso da mais bem-sucedida tentativa de publicar comics americanos em terras lusas – as icónicas séries da Marvel e DC publicadas pela Editora Abril Controljornal em meados da década de 90.

Embora atravessassem, à época, mais um dos seus frequentes períodos áureos, as BDs de super-heróis não eram algo com tradição em Portugal. A maioria dos títulos disponíveis chegava às bancas diretamente do Brasil – mesma origem de outras ‘revistinhas’ icónicas, como as da Turma da Mônica – e apesar das tentativas regulares, por parte de diferentes editoras, de criar publicações deste tipo 100% nacionais, nunca nenhuma conseguiu o nível de sucesso de que gozavam as suas congéneres importadas.

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Uma das muitas revistas de super-heróis importadas do Brasil à época

Esta situação viria a alterar-se por volta do ano de 1995, quando a Abril Controljornal (antes Abril Morumbi) decide mais uma vez arriscar na criação de revistas de BD de super-heróis 100% nacionais. Seguindo a máxima que diz que ‘em equipa que ganha não se mexe’, a editora optou, sensatamente, por não arriscar demasiado no formato ou conteúdo destes novos comics, mantendo o mesmo formato pequeno das edições sul-americanas (o chamado ‘formatinho’) e limitando-se a ‘aportuguesar’ os textos para eliminar os ‘brasileirismos’. Esta táctica, que permitia reduzir o custo das revistas de modo a que fossem acessíveis a bolsos mais jovens, rapidamente começou a surtir efeito, com as BDs portuguesas a ‘expulsarem’ as brasileiras das bancas quase por completo, iniciando um período de aproximadamente três anos de hegemonia da Abril no mercado dos super-heróis.

Durante estes anos (sensivelmente de 1995 até 1998) a editora investiu numa selecção dos mais populares títulos americanos, publicando indiscriminadamente as principais propriedades da Marvel (Homem-Aranha, X-Men e Wolverine) e da DC (Super-Homem, Batman e Liga da Justiça.)  A receção extremamente positiva que estes títulos receberam permitiu, até, que a Abril expandisse o seu raio de ação a publicações de cariz temático ou especial - como ‘Origens dos Super-Heróis Marvel’, que republicava histórias da chamada silver age - ou a séries menos conhecidas ou populares, como o universo 2099 da Marvel ou o impagável Superboy, da DC. Foi, até, criada uma revista totalmente dedicada a este tipo de lançamentos, a criativamente intitulada 'Heróis' - uma espécie de parente (muito) pobre da referência norte-americana (e brasileira) Wizard, de conteúdo muito mais básico e virado a um público muito mais jovem. Ainda assim, o título conseguiu algum sucesso enquanto durou, sobretudo devido ao preço 'simpático' para os bolsos do público-alvo.

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Número inaugural da revista 'Heróis'

As razões para este sucesso são fáceis de explicar – apesar de algumas falhas (como a permanência de formas gramaticais ‘abrasileiradas’ em quase todos os números de quase todas as revistas), a Abril teve a sorte de conseguir material da última grande fase dos comics americanos à época. Da Marvel foram publicadas, por exemplo, as sagas Venom e Carnage do Homem-Aranha e a fase original da X-Force; da DC, surgiram, entre outras, a ‘storyline’ em que Bruce Wayne é paralisado por Bane e substituído por um Batman mais jovem e futurista, e a mítica e icónica saga da morte (e retorno) do Super-Homem. Mesmo com as supramencionadas falhas – na tradução e não só – este material era suficientemente forte para atrair o público-alvo, gerando vendas consistentemente altas para a editora durante os primeiros dois anos de publicação das revistas.

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Dois dos especiais da saga 'A Morte e o Regresso do Super-Homem'

O ano de 1998 não foi, no entanto, tão prolífico para a editora, que viu o interesse nos seus comics diminuir consideravelmente – e, com ele, as vendas. Assim, ainda nesse mesmo ano, aquele que havia sido o argonauta dos ‘quadradinhos’ de super-heróis portugueses suspendia a publicação de todas as suas revistas, voltando a deixar os fanboys lusitanos à mercê de importações americanas proibitivamente caras e difíceis de encontrar, ou na melhor das hipóteses, números antigos comprados a alfarrabistas. Voltavam os ‘anos negros’…

Demoraria apenas um ano, no entanto, até esta situação se voltar a alterar, e os heróis americanos (embora apenas os da Marvel) voltarem às bancas portuguesas - desta vez pela mão de uma editora com muito melhor reputação entre os geeks, e cujo trabalho foi, objetivamente, muito melhor e mais cuidado que o da Abril - e gerarem uma nova vaga de interesse nos comics americanos em Portugal. Mas dessa falaremos noutra ocasião – até porque a verdade é que, mesmo com todos os seus defeitos, as revistas aos quadradinhos da Marvel e DC publicadas pela Abril marcaram uma época, e constituíram o primeiro contacto de muitos futuros fanboys com os icónicos heróis e vilões da BD norte-americana. E vocês? Contavam-se entre este número? Se sim, qual o vosso herói favorito? (Daqui, sempre foi e sempre será o inimitável Homem-Aranha.) Digam de vossa justiça nos comentários!

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