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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

27.06.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Hoje em dia, o conceito de uma estação de rádio é, para todos os efeitos, obsoleto; com todos os elementos que a mesma oferece – da música à informação - à distância de alguns cliques ou toques no ecrã, a única função que este tipo de órgão continua a servir é a de acompanhar motoristas solitários nas suas viagens diárias – e mesmo esse fim já vem sendo, cada vez mais, realizado por 'podcasts', 'audiobooks' e playlists do Spotify, anunciando o fim próximo da rádio como a conhecemos.

Nos anos 90, no entanto, o paradigma era significativamente diferente; a Internet era um conceito embrionário, a música era ainda obtida maioritariamente em formato físico (e, como tal, difícil de ouvir 'a pedido') e as estações de rádio mais famosas em Portugal tinham estatuto suficiente para lançar discos inteiros de músicas da sua rotação, e ter relativa certeza de que os mesmos encontravam o seu público. Foi assim com as perenes RFM e Rádio Comercial, com a meteórica e saudosa Mega FM, e – mais memoravelmente – com a Rádio Cidade, a estação luso-brasileira conhecida (e, hoje, recordada) tanto pelo seu foco no 'dance-pop' como pela lendária colecção de colectâneas de música de dança que editou na metade final da década de 90 e inícios da seguinte.

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Intitulada 'Electricidade', mesmo nome do mais famoso programa da emissora, esta memorável série de álbuns foi lançada pela Vidisco a partir de 1994, a um ritmo anual, e durante quase uma década (o último registo disponível na Internet é referente à edição de 2003), tendo-se, por isso, naturalmente tornado presença assídua tanto nas prateleiras das lojas de discos como na estante de muitos jovens fãs do género. O facto de cada nova colectânea trazer, invariavelmente, as últimas novidades da música de dança do respectivo ano, com particular foco na cena 'Eurodance' (que, à época, englobava desde novos e entusiasmantes estilos oriundos do Reino Unido até 'remixes' 'foleiras' de temas clássicos feitas 'a martelo' na Alemanha) também ajudava a assegurar a compra de cada nova edição, tanto por parte da base de fãs já existente, como de outros 'curiosos' relativamente ao estilo em causa, para quem a série acabava por representar uma espécie de alternativa às não menos lendárias colectâneas 'Now!', cujo foco era mais generalista.

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O alinhamento da edição de 95 desta colectânea

Assim, não é de estranhar que cada novo capítulo desta saga musical (sempre devidamente identificada pelo inconfundível logotipo, perceptível à distância, e pela mascote muito, muito '90s') fosse acolhido com entusiasmo pelo seu público-alvo - o qual, aliás, nem precisava de se deslocar à discoteca mais próxima para o adquirir, visto estas colectâneas serem presença frequente, também, naqueles escaparates de 'cassettes' e CD's existentes em tabacarias e bombas de gasolina pelo País fora. 

Com tão perfeita junção de oferta e procura, não é, pois, de admirar que todos os discos da série – mas particularmente as edições de 1996 e 1998 – tenham gozado de considerável sucesso, devendo-se a sua extinção, não a algum decréscimo de vendas, mas apenas à mudança de foco levada a cabo pela Rádio Cidade a partir de meados dos anos 2000; caso contrário, é de imaginar que estas colectâneas tivessem perdurado durante mais algum tempo, pelo menos até o próprio formato CD se tornar obsoleto. No entanto, talvez tenha sido melhor assim – ao 'desaparecer de cena' antes de o seu formato se esgotar ou tornar cansativo, as colectâneas Electricidade asseguraram um lugar nas memórias nostálgicas de toda uma geração que as comprou anualmente, e a quem ajudaram a definir o gosto musical...

 

 

07.12.21

NOTA: Este post diz respeito a Segunda-feira, 06 de Dezembro de 2021.

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

O Natal não é, exactamente, um tema comum no que toca a colectâneas de música alternativa; normalmente, as compilações deste tipo centram-se sobretudo nos clássicos intemporais (e de domínio público) que a maioria dos comuns mortais transforma em banda-sonora para esta época do ano,

Em 1995, no entanto, a editora independente portuguesa Dínamo Discos resolveu explorar precisamente esse conceito, juntando num mesmo disco alguns dos maiores e mais conhecidos artistas da música portuguesa e fomentando uma série de colaborações, as quais viriam mais tarde a fazer parte do disco. E o mínimo que se pode dizer é que, apesar do sucesso comercial não ter sido por aí além significativo, em termos qualitativos, a empreitada valeu bem a pena.

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Intitulado 'Espanta-Espìritos' e lançado em Novembro (com uma capa que remete mais ao Halloween do que propriamente ao Natal), o disco apresenta doze músicas bem eclécticas e diversificadas, com as sonoridades alternativas e a temática natalícia como únicos denominadores comuns – uma característica proposital, e que assegura que a colectânea oferece algo para os fãs de todos os géneros da música alternativa, com a notória excepção do hard rock e metal, talvez por serem géneros demasiado 'de nicho' ou pouco agradáveis ao ouvido do melómano médio português.

De resto, há para todos os gostos, do pop-rock de 'Final do Ano (Zero a Zero)' (interpretado por Xana dos Rádio Macau ao lado de Jorge Palma) ao fado de 'Minha Alma de Amor Sedenta', de Alcindo Carvalho, passando pelo funk Jamiroquai-esco de '+ 1 Comboio' (novamente com Jorge Palma em dueto com um elemento dos Rádio Macau, no caso o guitarrista Flak), o rock sarcástico-cómico de 'Família Virtual' (uma inesperada colaboração entre o fadista Carvalho e os anarco-ska-punks Despe & Siga) e 'Natal dos Pequeninos' - dueto de João Aguardela, dos Sitiados, com duas crianças - ou mesmo o hip-hop de 'Apenas Um Irmão', faixa que consegue a proeza dupla de inserir, à sorrelfa, uma palavra menos própria na letra (por sinal, bem rebelde e contestatária, como era apanágio do hip-hop português da época) e de pôr Sérgio Godinho a fazer rap ao lado dos mestres Pacman (hoje Carlão) e Boss AC – e quem nunca ouviu Sérgio Godinho numa música de rap, não sabe o que anda a perder...

Ouçam por vocês mesmos...

As restantes músicas são mais tradicionais deste tipo de empreitada, e desenvolvem-se num ritmo mais calmo e baladesco – o que não significa que tenham menos qualidade. 'A Rocha Negra', em particular, é um tema assombroso, em todos os sentidos, alicerçado numa grande prestação vocal, quase 'a capella' de Tim (ainda em fase de estado de graça com os seus Xutos) e Andreia (dos desconhecidos Valium Electric), enquanto 'São Nicolau' é um bonito tema em toada pop-rock, cantado por Viviane, dos Entre Aspas. Em suma, são poucos os temas mais fracos deste registo, e mesmo esses nunca passam o limiar do aceitável-para-bom.

Não deixa, pois, de ser surpreendente que o principal contributo de 'Espanta Espíritos' para a mùsica portuguesa tenha sido a inclusão de alguns dos seus temas em álbuns 'verdadeiros' de alguns dos participantes; como colectânea, e apesar de ter sido considerado um dos vinte melhores discos de Natal lançados em Portugal pela Time Out (uma daquelas distinções tão de nicho, que acaba por fazer pouco ou nenhum sentido) o álbum esteve longe de ser um sucesso, e encontra-se largamente esquecido nos dias que correm. Uma pena, visto que – como qualquer pessoa que tenha o álbum certamente afirmará – este se trata de um projecto que merecia bastante melhor do que apenas um estatuto de culto...

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