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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

03.03.24

Ser criança é gostar de se divertir, e por isso, em Domingos alternados, o Anos 90 relembra algumas das diversões que não cabem em qualquer outra rubrica deste blog.

No último Domingo Divertido, há já várias semanas, virámos a nossa atenção para os Micro Machines da Concentra, uma de duas gamas de carros em miniatura a chegar a Portugal na década de 90; nada mais justo, pois, do que debruçarmo-nos agora sobre a segunda dessas colecções, e única sobrevivente até aos dias de hoje – os Hot Wheels, da Mattel.

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Fundamentalmente semelhantes aos Micro Machines, na medida em que se tratavam de carrinhos de brincar a escalas muito reduzidas, e com aparência entre o desportivo e o futurista, os Hot Wheels tinham um importante diferencial em relação à gama da Concentra, que lhes permitiu reter a sua popularidade até aos dias de hoje – as suas pistas. De facto, pese embora a ausência de um apresentador 'tagarela' a debitar mil palavras por minuto nos anúncios televisivos, a Hot Wheels punha especial foco nos circuitos nos quais as crianças e jovens podiam utilizar os carros - os quais incluíam, invariavelmente, pelo menos um 'looping', como convinha às melhores pistas de carros da época. Isto porque, enquanto que a abordagem dos Micro Machines era, sobretudo, centrada no tamanho reduzidíssimo das miniaturas, a Hot Wheels jogava mais com o factor 'espectáculo', enfatizando o facto de os seus carros serem especialmente desenhados para realizarem proezas e façanhas espectaculares – uma narrativa que se prolongou, inclusivamente, aos jogos interactivos da série.

Talvez por isso os Hot Wheels tenham conseguido não só fazer concorrência aos carrinhos da Galoob/Concentra – pese embora a sua chegada relativamente tardia ao mercado luso, já na ponta final da década de 90 - mas também superá-los, 'resistindo' a todas as flutuações e 'modas' no mercado dos brinquedos e mantendo-se firmes nas prateleiras das lojas de brinquedos, supermercados e hipermercados do século XXI. Assim, quem quiser mostrar aos filhos aquilo com que brincava quando tinha a mesma idade (ou, quem sabe, 'abrir-lhes o apetite' para a própria gama em si) pode facilmente fazê-lo com uma rápida visita a uma grande superfície, por oposição a ter de 'vasculhar' nas caixas de arrumação da infância – apenas mais uma vantagem daquela que, a quase três décadas de distância, se pode dizer ter sido a grande vencedora da 'guerra' de carrinhos em miniatura dos anos 90.

02.08.23

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

Cada época da História tem a sua própria iconografia cultural, que a torna imediatamente reconhecível, e que tende a estender-se a todos os sectores da sociedade. Os veículos não são excepção a esta regra, e até o cidadão menos interessado em motores e potência em cavalos conseguirá elencar uma série de marcas e modelos de automóveis e motas imediatamente associáveis a qualquer período desde a invenção destes meios de transporte. Escusado será dizer que as duas últimas décadas do século XX não foram excepção a esta regra; antes pelo contrário, os anos 80 e 90 representaram, talvez, a última grande era do 'design' experimentalista no sector automóvel, antes de a maioria dos fabricantes seguirem a via da padronização e estandardização. Foi a época do aparecimento do Renault Twingo e da derradeira glória de modelos clássicos de décadas transactas, como o Citroen 'Boca de Sapo', os Renault R4 e R5, os renascidos Volkswagen 'Carocha' e Mini, e, claro, o icónico Citroen 'dois cavalos', o 2CV.

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O último 2CV de sempre foi produzido em Portugal.

Produzido desde finais dos anos 40, o carismático carro de traços angulares – normalmente associado à condução mais 'económica', mas que era também usado como símbolo de personalidade e inconformismo – via, exactos quarenta anos após a sua criação, toda a linha de montagem ser transferida para Portugal, mais concretamente para a zona de Mangualde, onde a Citroen continua a ter a sua fábrica nacional, após o fecho da usina francesa que havia produzido o modelo desde o seu aparecimento. O nosso País teve, assim, a honra de suceder a essa histórica instalação, e, a partir de 1988, seria das nossas fronteiras que sairiam todos e quaisquer 2CV produzidos quer para o mercado interno, quer para o internacional, facto que ajudaria a colocar Portugal, e os seus recursos de produção, no 'mapa' automóvel europeu. No total, foram mais de 42.300 carros criados em apenas dois anos, até a produção do modelo ser descontinuada, há quase exactos trinta e três anos; o último 'dois cavalos', um modelo Charleston especial, ficaria completo a 27 de Julho de 1990.

Curiosamente, os 'dois cavalos' portugueses gozam de uma reputação inferior à dos franceses em países como o Reino Unido, onde a construção e desempenho dos mesmos são criticados, numa corrente de opinião que vai contra a da própria Citroen, que considera estes modelos como estando a par dos franceses em termos qualitativos. Ainda assim, e apesar das críticas, os dois anos em que o 'dois cavalos' foi produzido em solo nacional não deixam de representar um marco para a indústria automóvel portuguesa de finais do século XX, que merece ser lembrado por alturas do seu vigésimo-terceiro aniversário...

 

23.04.23

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.

Apesar de o futebol dominar, indubitavelmente, a grande maioria dos debates sobre actividades competitivas de cariz físico em Portugal, houve, ao longo dos tempos, outros desportos que conseguiram captar a imaginação dos aficionados deste tipo de competição, do basquetebol americano introduzido pelo lendário 'NBA Action' aos jogos de andebol e hóquei em patins tradicionalmente transmitidos pela RTP2. No entanto, talvez o segundo desporto mais popular no nosso país durante a última década do século XX fosse aquele cuja época tinha início por alturas das férias da Páscoa, e que passava a ocupar 'religiosamente' as tardes de fim-de-semana de muitas crianças e jovens até quase ao Natal: a Fórmula 1.

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Isto porque, à entrada para os anos 90, a 'rainha' dos desportos automóveis vivia a sua 'fase áurea', com corridas e campeonatos acirradamente disputados por três construtores – McLaren, Ferrari e Williams – soberbamente representados por um verdadeiro rol de nomes lendários para qualquer fã da competição: Alain Prost, Mikka Hakkinen, Nigel Mansell, Michael Schumacher, Nelson Piquet, Rubens Barrichello, Damon Hill, Jacques Villeneuve (filho de Gilles Villeneuve, falecido no início da década anterior) e, claro, Ayrton Senna, o grande 'conquistador' desta época da F1, pelo menos até ao trágico acidente que o vitimaria, há quase exactos vinte e nove anos, a 1 de Maio de 1994. Isto sem esquecer, claro, o motivo mais pessoal para os 'tiffosi' portugueses da época seguirem as provas – a presença do 'nosso' Pedro Lamy, condutor sem qualquer esperança de ganhar fosse o que fosse, mas cuja nacionalidade lhe garantia o carinho e simpatia dos seus compatriotas.

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O 'Rei' e o representante português.

Não eram, no entanto, apenas os pilotos que eram célebres; também as pistas da época se afirmavam como icónicas, tendo à cabeça o lendário percurso pelo centro da cidade do Mónaco, notável pela sua dificuldade, e incluindo ainda circuitos como Monza, em Itália, Silverstone, em Inglaterra, Interlagos, no Brasil, Suzuka, no Japão e, claro, o Autódromo do Estoril, em Portugal. Era nestas pistas que os referidos pilotos se digladiavam, durante várias horas todas as semanas, pela honra de conquistar os três primeiros lugares, em corridas que nunca deixavam de incluir picardias, rivalidades pessoais e, claro, aparatosos acidentes, que apenas ajudavam a conferir mais emoção e entusiasmo a cada prova, e mantinham muitos jovens (e não só) portugueses (e não só) absolutamente colados à televisão todos os fins-de-semana.

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O circuito do Estoril, parte do calendário de provas da época.

Ao contrário de muitos dos temas que aqui abordamos, a Fórmula 1 nunca chegou a 'sair de moda' entre os adeptos do desporto automóvel; é, no entanto, inegável que a sua popularidade decresceu consideravelmente, muito por conta dos avanços tecnológicos, que tornaram as corridas do Novo Milénio demasiado 'mecanizadas' e tácticas, sem a emoção dos erros e despiques individuais e pessoais de finais do século passado - uma situação, aliás, análoga à que se fez – e faz – sentir também em desportos como o basquetebol ou o próprio futebol. Quem teve a sorte de viver a época de ouro das provas de F1, no entanto, não esquecerá as emoções daquelas tardes de fim-de-semana passadas em frente à transmissão da RTP, a 'puxar' pelo seu condutor ou marca favoritos – uma daquelas experiências contextualmente irrepetíveis que quase faz pena não poder partilhar com a nova geração.

16.04.23

Ser criança é gostar de se divertir, e por isso, em Domingos alternados, o Anos 90 relembra algumas das diversões que não cabem em qualquer outra rubrica deste blog.

Num par de publicações anteriores deste nosso blog, falámos de como a maior facilidade em conseguir peças e 'chips' electrónicos, aliada à significativa redução do custo das mesmas, tinha resultado no aparecimento, durante as últimas décadas do século XX, de uma enorme variedade de brinquedos que tinham nas funcionalidades electrónicas e interactivas a sua principal característica inovadora, sem que com isso se assumissem declaradamente como produtos tecnológicos. Das bonecas falantes às flores dançarinas, papagaios repetidores e animais de peluche a pilhas, foram muitos os exemplos deste tipo de produto existentes no mercado infanto-juvenil português de fins de segundo milénio, mas para os 'rapazes' daquele tempo, existe um que, muito provavelmente, se sobreporá à maioria dos outros no panorama das memórias nostálgicas: os carros auto-comandados com luz e som, informalmente conhecidos como 'Bump'n'Go', devido à sua principal característica distintiva.

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Um exemplo bem típico, e de época, deste tipo de brinquedo.

De facto, um dos principais atractivos deste tipo de veículo, que 'tomou de assalto' o mercado português algures entre finais da década de 80 e inícios da seguinte, era precisamente a funcionalidade que lhes permitia mudar automaticamente de direcção ao encontrar um obstáculo sólido no seu caminho, à semelhança do que hoje fazem os robots de limpeza. Para uma geração menos habituada a automatismos de índole tecnológica, era nada menos do que estarrecedor ver o brinquedo em causa 'chocar' com a perna de uma mesa ou a banca da cozinha, recuar ligeiramente em marcha-atrás, virar-se noutra direcção, e continuar a sua marcha – tudo isto sem qualquer intervenção humana! Acções que, outrora, teriam requerido resolução manual eram agora automatizadas, tornando estes brinquedos, senão desejados, pelo menos muito bem aceites quando apareciam debaixo da árvore de Natal ou como prenda de anos 'secundária' oferecida por um parente mais distante.

Como se já não bastasse essa funcionalidade quase 'mágica', no entanto, este tipo de veículos vinha, também, invariavelmente equipado com um jogo de luzes LED e uma placa de efeitos sonoros sempre prontos a ecoar pela casa em volume máximo (o único, naturalmente, conhecido por estes brinquedos.) Estes efeitos eram, normalmente, adaptados ao tipo de brinquedo em causa, mas – como seria talvez de esperar – ocorriam por vezes instâncias bizarras em que um brinquedo mais pacífico e 'fofinho' emitia sons de tiros e emitia luzes azuis e vermelhas ao estilo sirene da Polícia.

Mesmo estas idiossincrasias típicas de produtos oriundos da China ou de Taiwan, no entanto, apenas adicionavam ao 'charme' destes brinquedos, que nem mesmo a criança mais inocente tomaria por produtos topo de gama, mas que eram ainda assim mais que suficientes para 'entreter' qualquer 'puto' noventista durante uma tarde de fim-de-semana em casa.

De referir que, ao contrário de tantos outros produtos que recordamos nestas nossas páginas, os brinquedos deste tipo continuam a ser fáceis de encontrar e obter no mercado actual; a questão, no entanto, prende-se com até que ponto as crianças da nova geração conseguirão tirar algum prazer de algo que, para os seus pais, foi quase revolucionário, mas que para eles não será mais do que um brinquedo 'foleiro' de tão simplista...

27.11.22

Ser criança é gostar de se divertir, e por isso, em Domingos alternados, o Anos 90 relembra algumas das diversões que não cabem em qualquer outra rubrica deste blog.

O modelismo e a construção são áreas do agrado de muitas crianças ou jovens, embora a sua complexidade obrigue, muitas vezes, a que os mesmos tenham ajuda de um adulto, ou sejam forçados a esperar até terem mais idade, antes de poderem almejar a construir os aviões e carros admirados na montra das lojas especializadas. Tal não significa, no entanto, que não seja possível encontrar soluções adaptadas a faixas etárias mais baixas, das quais, em Portugal, sempre se destacaram duas: LEGO Technic e Meccano. E se a primeira propunha, pura e simplesmente, a construção de veículos totalmente funcionais com recurso a peças de LEGO e alguns conectores especiais, a segunda era suficientemente distinta de tudo o que de mais existia no mercado infanto-juvenil da época para merecer destaque próprio.

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Dois dos modelos disponíveis no mercado português em finais do século XX (crédito das fotos: OLX)

Concebido e lançado em França, e à época já quase centenária (o seu aparecimento data da viragem do século XIX para o XX) o Meccano era, e continua a ser, uma aproximação extremamente fiel a um verdadeiro sistema de engenharia em ponto reduzido – tanto assim que os seus fundamentos permitem a sua aplicação em verdadeiros projectos de construção e protótipos. E ainda que essa complexidade reduzisse o seu público-alvo a crianças que não se importavam de passar um período considerável a apertar porcas e parafusos (fossem de plástico ou metal) com recurso aos instrumentos fornecidos, para essas, não havia maneira melhor de gastar um Domingo Divertido de Inverno em casa. Melhor – os resultados eram tão realistas quanto qualquer modelo de avião, carro ou locomotiva 'para gente grande', e bastante mais do que os mais estilizados veículos da gama LEGO Technic, tornando-os ainda mais atractivos para os adeptos desse tipo de brinquedo.

Tal como a própria LEGO e a sua gama Technic, a Meccano faz parte do lote de produtos de finais do século XX que continuam disponíveis em larga escala nos dias de hoje, tendo entretanto passado por várias mãos, incluindo as da Nikko, fabricante dos famosos carros telecomandados da mesma época. E ainda que a sua presença já não tenha o mesmo volume de que gozava naqueles últimos anos do Segundo Milénio, quem tenha filhos em idade apropriada, com gosto pelo modelismo, engenharia e construção, e lhes queira mostrar o que 'dava a volta à cabeça' dos seus pais na mesma idade, só tem de dirigir-se à loja de brinquedos, supermercado ou grande superfície mais próxima...

05.11.22

Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos, acessórios e jogos de exterior disponíveis naquela década.

Numa edição anterior desta rubrica, falámos dos carros telecomandados, um dos 'sonhos molhados' de qualquer rapaz dos anos 90 ao aproximar-se o Natal ou o seu aniversário. No entanto, por muito que este fosse um tipo de brinquedo para exibir o mais possível nos dias e semanas imediatamente após ser recebido, o mesmo não era, nem de longe, o mais frequentemente visto ou levado à rua nos passeios diários ou de fim-de-semana com os pais; essa distinção cabia a outro tipo de 'veículo' de exterior – aqueles aos quais bastava atar um fio de cordel para se poder puxar para todo o lado.

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Exemplo moderno do tipo de brinquedo de que falamos neste 'post'

Maioritariamente destinados a ser usados por crianças mais novas, de ambos os sexos, estes brinquedos competiam com as também tradicionais rodas (sendo a única diferença o facto de as ditas serem empurradas à frente do corpo, enquanto os brinquedos com rodas eram maioritariamente puxados) bem como com os próprios carros telecomandados, dos quais havia versões simplificadas, que substituíam o complexo comando por um simples volante ou 'joystick' com um ou dois botões, e conectavam o mesmo ao carro por meio de um fio, que assegurava que o veículo se mantinha sempre a uma distância fixa da criança que o comandava. Escusado será dizer que esta alternativa 'júnior' aos populares Nikko era bastante menos apreciada entre os jovens da época (embora tivesse o seu público entre as crianças mais pequenas, para quem os carros R/C tradicionais se afiguravam excessivamente complexos) ficando a sua comercialização, normalmente, restrita a lojas de brinquedos ou drogarias de bairro, daquelas em que nunca se sabia muito bem exactamente DE ONDE vinham os artigos expostos, que não pareciam existir em mais parte nenhuma...

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Exemplo bastante típico de um veículo (quase) telecomandado...

Os restantes brinquedos deste tipo, no entanto (que tanto podiam ser veículos como animais estilizados sobre rodas) faziam bastante sucesso entre o seu público-alvo, até por serem bem mais acessíveis – o jovem médio dos anos 90 apenas teria, com sorte, um ou dois carros telecomandados no armário, mas decerto não faltariam no mesmo camiões ou barcos com um cordel atado, que se pudessem levar 'de passeio' até ao parque infantil...

Hoje em dia, como tantas das outras coisas de que vimos falando nestas páginas, este tipo de brinquedo caiu em desuso – embora outros, como as bonecas, os peluches, as bolas ou os carrinhos de plástico ou metal, retenham o seu lugar no coração das crianças e jovens, tanto como há trinta anos atrás. Assim, já só a última geração a nascer e crescer no século XX lembrará o simples prazer de arrastar atrás de si, pela rua, um veículo ou animal de plástico, e ouvir o barulho das suas rodas à medida que o mesmo galgava quilómetros na calçada...

24.03.22

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.

Os anos 90 foram, como já por várias vezes documentámos nestas páginas, pródigos em fenómenos infantis baseados num qualquer tipo de jogo; e, durante um período de alguns anos na segunda metade da década, muitos destes fenómenos surgiam sob a forma de jogos de cartas. Destes, o mais lembrado é, evidentemente, o Magic: The Gathering (que teve, já no novo milénio, uma semi-ressurgência na forma dos jogos de Pokémon e Yu-gi-oh, que dele tiravam óbvia inspiração) mas houve outro tipo de baralho que, embora menos imediatamente nostálgico, proporcionou também muitos e bons momentos competitivos às crianças portuguesas da época: aqueles da Majora com fotografias de carros, aviões ou motas, e respectivos valores técnicos impressos por baixo.

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Curiosamente, apesar de já de há muito terem 'passado de moda' por terras lusas, este tipo de baralho continua a existir no estrangeiro, onde surge em edições licenciadas e tematizadas e tem, mesmo, uma marca definida – Top Trumps. Escusado será dizer que, em Portugal, a situação não era, nem de perto, semelhante, sendo os baralhos da Majora (oficialmente identificados pela expressão 'Super Cartas') invariavelmente conhecidos pela designação genérica do tema a que diziam respeito – por exemplo, 'Carros', 'Aviões', 'Motas' ou o que mais estivesse representado na carta-frontispício que todos eles tinham.

Fosse qual fosse o tema, no entanto, a mecânica destes jogos era sempre a mesma – cada carta tinha uma série de estatísticas relativas ao veículo, animal, personagem ou até planeta que representava, e que os jogadores (após dividirem o baralho irmamente entre si, e determinarem qual o dado a ser tomado em conta) comparavam directamente, caso a caso, para determinar quem ganhava aquele turno. Por exemplo, no início de um turno de um jogo relativo a carros, e tendo os jogadores decidido comparar cilindradas, cada um dos mesmos apresentava a carta que encabeçava a sua pilha, e quem tivesse o carro com maior cilindrada ganhava esse turno.

Uma mecânica simples, mas que dava azo a largos momentos de diversão (bem) competitiva, com a vantagem adicional de um jogo demorar bem menos do que uma partida de Magic ou até de Uno – a duração estava mais próxima da de uma partida de 'Peixinho' ou outro jogo de cartas infantil convencional. Não era, como tal, incomum ver crianças a aproveitarem o intervalo da escola, ou aquele período entre o segundo toque e a chegada da professora, para encetarem um jogo rápido, sem compromisso, dado ser este, também, daqueles tipos de jogo que se podem interromper ou até parar a qualquer altura, sem que fique aquela sensação de ter deixado algo a meio.

Essa característica, aliada ao potencial competitivo e preço convidativo para os bolsos infantis, terá contribuído em grande parte para o sucesso destas cartas, que – numa era em que a Internet era ainda mais do que incipiente, e jogos como o 'Cards Against Humanity' nem sonhavam ser concebidos – fez as delícias de muitas crianças e jovens nacionais, chegando mesmo o Bollycao a aproveitar a sua mecânica para a sua popular colecção de cartas 'Kaos', lançadas sensivelmente na mesma época. Enfim – outros tempos, em que algo tão simples quanto um baralho de cartas com fotografias de carros ou aviões conseguia divertir até mesmo quem já tinha mais idade...

23.02.22

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog...

...como é o caso dos carros.

Apesar de a maioria dos leitores deste blog não ter ainda, nos anos 90, idade para conduzir, os carros não deixavam, ainda assim, de exercer um certo fascínio sobre muitos dos membro daquela geração, sobretudo os do sexo masculino. E ainda que muita da atenção fosse, obviamente, para os supercarros desportivos ou de Fórmula 1, houve, em 1993, um pequeno e humilde veículo que se conseguiu intrometer por entre os 'monstros' de alta cilindrada, e cativar muitos jovens pela razão precisamente inversa: por parecer, praticamente, uma versão real dos carros eléctricos ou carrinhos de brincar com que muitos deles haviam crescido.

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Como muitos miúdos imaginavam que seria conduzir, ou ser passageiro, num destes veículos

Falamos do Renault Twingo – nome derivado da junção dos nomes de três danças, Twist, Swing e Tango - que, apesar de hoje ser 'apenas' mais um carro igual a tantos outros, marcou verdadeiramente época aquando do seu lançamento, e terá potencialmente servido de inspiração para o surgimento, uma ou duas décadas mais tarde, do popular Smart, seu 'sucessor espiritual' na categoria dos carros que parecem 'de brincar'.

As semelhanças entre os dois não se ficam, aliás, pelo aspecto: tal como o Smart, o Twingo pretendia ser um carro para quem não gostava de carros, na sua acepção convencional, e preferia ser visto ao volante de algo que ficava a meio caminho entre uma criação de desenho animado e os referidos veículos eléctricos para crianças pequenas. Tendo na forma arredondada a sua principal característica visual, e disponível numa série de cores vivas (sendo a mais comum à época o roxo, retratado na imagem acima) o Twingo parecia quase ter sido feito com as crianças e jovens em mente, não sendo, de todo, de estranhar, que muitos desejassem tê-lo como carro familiar; afinal, se algum veículo alguma vez se pôde apelidar de 'fofo', foi definitivamente o Twingo.

Não era, no entanto, apenas o aspecto deste carro que apelava a um público mais jovem e aos iniciantes da condução; a própria potência do carro, cujas pequenas dimensões requeriam um motor de baixa cilindrada, impedia grandes 'aventuras', tornando este veículo ideal para principiantes, como primeiro carro, apenas para 'dar umas voltas' – algo que se tornaria ainda mais evidente com o lançamento da variante semiautomática Easy, que permitia a condução sem o pedal de embraiagem, um dos principais pontos fracos de quem ainda tem pouca experiência.

Daí em diante, seriam inúmeras as 'edições especiais', alterações, adições e revisões ao modelo inicial, que seria acrescido de aspectos tão indispensáveis como air-bags, novos faróis e pára-choques e motores mais potentes, além de extras mais supérfluos, como interiores em pele e rádio com CD (ambos exclusivos à edição especial Initiale Paris, de 1998.) Aquele carro que empatara com o Citroen Xania como Carro do Ano em Espanha, em 1994, e que conquistara os corações de tantos jovens no país vizinho, tornava-se cada vez melhor e mais seguro – mas, infelizmente, também cada vez mais um carro normal.

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Um Twingo moderno

De facto, as sucessivas revisões fizeram tanto para melhorar o Twingo como para lhe retirar alguma da 'magia' e novidade que o seu modelo inicial conseguira implementar – a qual, mais tarde, o Smart viria a utilizar para se estabelecer no mercado. Hoje em dia, o Twingo já nem sequer se pode gabar de ser, precisamente, um carro 'pequeno', especialmente comparado com modelos como o Lancia Y (na altura, um dos seus principais competidores), Fiat Cinquecento e Seicento, Mini, ou os próprios Smart; ainda assim, quem assistiu ao aparecimento daquele carro 'da Carochinha', e desejou ardentemente ter um, certamente concordará que, no que toca a carros 'normais' de todos os dias, o Twingo talvez tenha mesmo sido dos mais originais e marcantes a surgir em toda a década de 90...

09.02.22

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog...

...como é o caso dos autocolantes para pôr no carro.

Aproveitando a deixa de termos, no nosso último post, falado do Vitinho – o qual, entre outras coisas, fez 'carreira' como protagonista de autocolantes 'Bebé a Bordo' – nada melhor do que dedicar todo um post à enorme variedade de autocolantes que pululavam nos vidros e partes traseiras dos carros portugueses durante as décadas de 80, 90 e 2000.

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Todos os vimos, todos nos lembramos deles, e até haverá decerto quem os tenha tido no seu próprio carro– fosse qual fosse o propósito (informativo ou meramente decorativo), estes autocolantes eram visão comum em qualquer passeio por uma rua portuguesa durante o referido período, indo os seus motivos e temas desde a publicidade a estações de rádio ou discotecas (esta última responsável pelos dois mais famosos exemplos do género, a famosa silhueta da Penélope e o autocolante da algarvia Kadoc) aos referidos autocolantes destinados a informar os outros condutores da presença de crianças no veículo, passando pelo igualmente emblemático 'P' de Portugal (obrigatório para quem viajava para o estrangeiro) ou por símbolos instantanemente reconhecíveis, como o coelhinho da Playboy ou a língua dos Rolling Stones.

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Talvez o mais famoso autocolante para automóvel daquela época

Em comum, todos estes autocolantes tinham o facto de terem de ser colados no vidro do automóvel 'ao contrário' – ou seja, pelo lado de dentro e com o desenho 'de costas' para quem colava – o que, só por si, já os tornava motivo de interesse para quem estava habituado aos mais vulgares cromos ou 'stickers', colados de fora para dentro. Já para quem passava, estes dísticos atraíam inevitavelmente o olhar, tanto pela sua localização inusitada como pelos esquemas de cores vivos, quase berrantes, que normalmente empregavam.

Hoje em dia, já é muito pouco comum ver autocolantes destes em carros. O 'Bebé a Bordo' continua a existir, claro (visto não terem deixado de haver os referidos bebés a bordo), mas mesmo esse tipo de sinais é, hoje, bem mais discreto do que o era naquela época; já os restantes tipos de autocolante praticamente desapareceram de circulação, embora ainda se veja, aqui e ali, um símbolo da FPF ou coisa parecida. Uma rápida pesquisa pela net, no entanto, revela que estes autocolantes deixaram mesmo saudades, pelo que uma onda revivalista relativa aos mesmos talvez já não esteja assim tão longe...

10.01.22

NOTA: Este post é respeitante a Domingo, 09 de Janeiro de 2021.

Ser criança é gostar de se divertir, e por isso, em Domingos alternados, o Anos 90 relembra algumas das diversões que não cabem em qualquer outra rubrica deste blog.

No início do nosso último post, mencionámos a enorme variedade de escolhas ao dispôr de um indivíduo interessado em veículos – quer terrestres, quer aéreos – e que desejasse incorporá-los nas suas brincadeiras de exterior; no entanto, não era apenas ao ar livre que os carros telecomandados tinham concorrência à altura – e se em termos de exterior tinham de se bater com os veículos eléctricos e até o tema do referido post, os aviões de propulsão com fios, no que toca a brincadeiras dentro de casa, havia outro rival à espreita: as pistas de carros eléctricas.

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Uma estrutura que faria salivar muitas crianças dos anos 90

Estas estruturas mirabolantes, que ocupavam uma área de chão considerável, e tinham invariavelmente de ser desmontadas sempre que alguém precisava de passar, foram uma das mais clássicas obsessões masculinas da geração que cresceu entre os anos 80 e o início do novo milénio, para a qual representam, ainda hoje, um dos mais flagrantes casos de conflito entre expectativas e realidade. Isto porque, qualquer que fosse a sua configuração – quer a mais tradicional e declarada pista de corridas, em oval ou no clássico 'oito', quer um 'design' mais arrojado, a convidar às acrobacias estilo duplo de cinema – estes brinquedos prometiam uma experiência de corridas fantasticamente estimulante, cheia de duelos a alta velocidade (que faziam literalmente saltar chispas da pista), curvas apertadas, 'loopings', lombas e outras características capazes de entusiasmar até a criança menos interessada em corridas de carros.

A realidade, no entanto, era invariavelmente muito diferente, envolvendo normalmente alguns segundos em que, após a pressão do botão de lançamento, o carro disparava ´sem rei nem roque' pelos carris paralelos que formavam a pista, até – na melhor das hipóteses – sair dos carris e capotar, ou – na pior, e mais frequente - ser literalmente projectado para fora da pista na primeira curva, e ir parar ao outro lado do quarto. Qualquer dos dois desfechos era suficiente para pôr termo à corrida, pelo menos durante o tempo que levava a repôr o pequeno veículo de plástico na pista para mais alguns segundos de diversão...

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Até os modelos mais clássicos e simples ofereciam múltiplas oportunidades para 'desastres'...

Este fenómeno, que era universal a todas as pistas deste tipo - da mais genérica oval da loja da esquina à mais elaborada estrutura com o logotipo de uma marca conhecida, comprada no hipermercado por vários 'contos de reis' - não era, no entanto, suficiente para diminuir o entusiasmo do público-alvo quanto a este tipo de brinquedo, não tendo, decerto, havido rapaz da geração em causa que não marcasse este tipo de brinquedo no catálogo de Natal à mínima oportunidade, na crença firme de que a próxima pista seria aquela que, finalmente, lhe permitiria completar uma corrida sem ter que ir buscar o carro ao chão ou virá-lo de cabeça para cima a cada poucos segundos – esperança essa que, claro, se revelava quase sempre ser vã.

Foi, no entanto, com apoio nesta crença por parte da demografia a que se destinavam que estes brinquedos conseguiram manter-se no topo da pirâmide da popularidade infantil durante pelo menos duas décadas, antes de (como quase todos os brinquedos de que falamos nestas páginas) terem sido tornados obsoletos pela revolução digital.

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A existência, nos dias de hoje, de uma pista eléctrica licenciada, num 'crossover' com o mundo das corridas digitais, é no mínimo surpreendente

Com corridas fictícias ilimitadas (e sem necessidade de repôr o carro na pista a cada curva) à sua disposição, as crianças do novo milénio foram progressivamente deixando de lado o brinquedo que tão cobiçado fora pelos seus irmãos mais velhos, fazendo com que as pistas de carros eléctricas fossem, aos poucos e poucos, desaparecendo do mercado, até serem, hoje em dia, só mais uma 'relíquia' destinada a ser lembrada com nostalgia e carinho por quem foi criança nessa época, e com um encolher de ombros por quem nunca teve de ir ao outro lado da sala buscar um carrinho lançado em vôo picado para fora da sua pista eléctrica ao tentar abordar uma curva...

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