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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

15.05.22

Ser criança é gostar de se divertir, e por isso, em Domingos alternados, o Anos 90 relembra algumas das diversões que não cabem em qualquer outra rubrica deste blog.

Em edições passadas desta rubrica, falámos aqui de algumas das mais emblemáticas linhas de 'bonecos' dos anos 90, dos LEGOs aos Pinypons, passando pelos Playmobil e, já um pouco 'fora' desse espectro, os bonecos de borracha para bebés e as figuras de acção articuladas; no entanto, havia à época um outro tipo de figurino que, embora ocasionalmente abordado em outros 'posts' nas nossas páginas, ainda não tinha sido devidamente explorado – situação que, hoje, aqui corrigimos.

Falamos dos bonecos em vinil, um brinquedo extremamente popular e fácil de adquirir nos anos 90, mas que – como aconteceu com tantos outros produtos já abordados nestas páginas – foi perdendo relevância com o passar das décadas; hoje em dia, embora ainda se vão encontrando (sobretudo nos chamados 'mystery bags' ou 'blind bags') este tipo de figuras já não tem a relevância que outrora teve, tendo o seu título sido transferido para os a dada altura mega-populares Funko Pops, as estátuas 'cabeçudas' e de olhos inexpressivos que, hoje em dia, se encontram também eles em declínio.

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Boneco em vinil do Luzinha, mascote de uma campanha da EDP nos anos 90, e um bom exemplo-padrão deste tipo de brinquedo

O conceito das figuras de vinil dos anos 90 era, aliás, precisamente oposto ao dos Funkos: onde estes consistem de um modelo homogéneo, de proporções exageradas, e que é customizado e adaptado consoante quem se deseje representar, os bonecos dos anos 90 procuravam ser o mais fiéis possível à personagem que procuravam representar, de modo a ser imediatamente possível discernir de quem se tratava.

De igual modo, enquanto os Funkos ficam mais próximos do tamanho de estatuetas, os bonecos dos anos 90 eram feitos para serem seguros na palma da mão e transportados no bolso, não passando normalmente de um tamanho equivalente ao de um Pinypon, por exemplo. Isto permitia que, não obstante a sua postura estática e falta de articulação, estes bonecos fossem incluídos em brincadeiras ao lado de qualquer dos tipos de figura mencionados no início deste texto, sem que parecessem fora do lugar ou descabidos no contexto da mesma, como aconteceria com um Funko na mesma situação.

Não nos equivoquemos, no entanto – a principal função destas figuras, tal como dos seus 'primos' actuais, era decorativa; pura e simplesmente, os bonecos 'ficavam bem' numa prateleira, e era mesmo nesse tipo de ambiente que passavam a maior parte do seu tempo. Ainda assim, quando tocava a integrá-los numa brincadeira, eram poucas as crianças (independentemente do sexo) que hesitavam em os ir buscar à referida prateleira, para ajudar em fosse qual fosse a guerra, missão ou aventura em que os outros brinquedos estavam prestes a embarcar; no fundo, apesar das suas limitações, estes brinquedos eram tratados como quaisquer outros, o que não se pode dizer em relação aos Funko Pops.

Pode considerar-se que talvez o conceito destes pequenos figurinos seja demasiado 'básico' para as crianças de hoje, com a possível excepção das mais pequenas; no entanto, se o sucesso dos referidos 'saquinhos mistério' fôr indicação, é de prever que este tipo de brinquedo continue, em maior ou menor grau, a existir na esfera social infantil durante ainda algumas décadas...

08.05.22

Ser criança é gostar de se divertir, e por isso, em Domingos alternados, o Anos 90 relembra algumas das diversões que não cabem em qualquer outra rubrica deste blog.

Já aqui por diversas vezes referimos que o período de vinte anos que mediou entre o início da década de 80 e o novo milénio foi, sem qualquer sombra de dúvida, um dos mais frutíferos e entusiasmante da História da humanidade; no entanto, apesar de a maioria desses avanços se terem dado nos campos da electrónica e informática, esses não foram os únicos campos em que se verificaram evoluções ao longo do referido período – pelo contrário, as mesmas eram visíveis até mesmo em algo tão aparentemente insignificante como um quadro de desenho.

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Falamos, claro, do famosíssimo Etch-a-Sketch, o instrumento com que até mesmo as crianças com pouco jeito para as artes visuais se podiam sentir artistas – até por a mecânica do dito cujo brinquedo nivelar artistas e 'toscos' mais ou menos pela mesma bitola.

Isto porque as duas alavancas utilizadas para desenhar no quadro LCD – das quais uma controlava as linhas horizontais, e a outra as verticais – não permitiam um grau de precisão por aí além; apesar das magníficas obras de arte prometidas pelo anúncio do produto, a maioria das tentativas de produzir um desenho no instrumento pouco melhores eram do que aqueles 'rabiscos' que a maioria das crianças faz antes de aprender a desenhar. Aqui e ali, podia ser que se conseguisse elaborar algo vagamente parecido com um pássaro ou uma casa, mas o processo para lá chegar era precisamente o oposto das linhas que o produto produzia – ou seja, tudo menos recto. E nem a caneta magnética ajudava...

Nada disto, no entanto, impediu o Etch-a-Sketch de ser um sucesso mundial junto de uma determinada geração - houve, até, edições de viagem, ou licenciadas, como uma em que o quadro surgia entre as mãos do Rato Mickey - talvez pelo factor 'os-outros-não-conseguiram-mas-eu-vou-conseguir' que motiva tantas das iniciativas de crianças nessa fase de desenvolvimento. Todos achávamos ir ser os próximos artistas-revelação do Etch-a-Sketch – e mesmo quando esse sonho caía por terra, continuavam-se a fazer tentativas para o tornar realidade...

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A versão Mickey do 'Quadro Mágico'

Dado o grau de sucesso atingido pelo produto original, não foi, de todo, surpreendente ver surgir um 'concorrente' melhorado durante o mesmo período. Tratava-se do Magna Doodle, um instrumento que prometia um maior grau de precisão e maiores possibilidades do que o Etch original, e que muitas ex-crianças portuguesas da época recordarão, sobretudo, pelo contagiante estribilho do anúncio nacional.

Produzido pela Fisher-Price, 'rainha' dos brinquedos pré-escolares e infantis, este concorrente do Etch-a-Sketch tinha muitos dos mesmos problemas daquele, mas cumpria, pelo menos, na questão das possibilidades, visto que permitia gradientes de até seis tonalidades – todas elas de cinzento ou preto (ou seja, mais sombras que verdadeiras tonalidades) mas ainda assim, um passo acima dos desenhos totalmente planos do Etch-A-Sketch.

O problema continuava, infelizmente, a residir na questão da precisão, sendo que a experiência de tentat desenhar num Magna Doodle era apenas marginalmente mais satisfatória do que num Etch-A-Sketch, não conseguindo por isso satisfazer as necessidades dos mini-artistas; ainda assim, pela maior gama de criações que possibilitava, este produto afirmava-se como uma alternativa válida ao seu concorrente mais estabelecido no mercado – embora, previsivelmente, tenha sido este a perdurar a longo prazo, dada a sua longevidade de, à época, mais de 30 anos no mercado (ser incluído como personagem num sucesso como 'Toy Story' também não terá deixado de ajudar...)

Fosse como fosse, ambos estes produtos tiveram o seu momento na ribalta, sensivelmente no mesmo período da História; e embora os aspirantes a artistas mais sérios cedo tenham 'emigrado' para recursos mais confiáveis e versáteis, nenhum dos dois deixa de ser uma das muitas memórias de infância para ex-jovens ao redor do Mundo, não sendo Portugal excepção neste particular.

07.05.22

Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos e acessórios de exterior disponíveis naquela década.

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A década de 90 ajudou, entre outras coisas, a cimentar definitivamente o gosto dos jovens portugueses pelo basquetebol. A ascensão de equipas como os Los Angeles Lakers e os Chicago Bulls, transmitida aos lares portugueses pelo excelente programa NBA Action, filmes como Space Jam e, dentro de portas, um Carlos Lisboa em auge de carreira, fez com que muitas crianças descobrissem esta fascinante e excitante modalidade, e desenvolvessem por ela uma paixão a merecer ser explorada.

Um dos principais meios de demonstrar (e extravasar) esse gosto pela modalidade passava pela aquisição de uma réplica de uma tabela de basket, uma visão extremamente comum nos quintais e garagens da época. Com um cesto de tamanho oficial, embora o painel fosse mais pequeno, estes equipamentos - facilmente adquiríveis nos então emergentes hipermercados, ou nas lojas de desporto dos também embrionários 'shoppings' - estavam, invariavelmente, entre os mais cobiçados (sobretudo) pelos rapazes da época, e quem tivesse o espaço e/ou dinheiro para adquirir uma não deixava de ser motivo de inveja dos colegas menos afortunados – sobretudo se a tabela tivesse pé, não necessitando portanto do 'ritual' de a pregar à parede, e podendo ser levada para qualquer lugar onde um jogo se pudesse desenrolar.

Quem não tinha a sorte de ter um espaço exterior onde instalar a tabela, no entanto, não ficava impedido de demonstrar o seu gosto (e jeito, ou falta dele) pelo basket; isto porque qualquer loja de bairro ou loja de brinquedos tradicional da época veiculava uma alternativa (mais ou menos) válida às tabelas em 'tamanho real' – nomeadamente, mini-tabelas em tamanho reduzido, com uma bola de plástico e muito leve, que tornava possível a sua instalação e uso em qualquer quarto de cama. Não era a mesma coisa (longe disso) e dificilmente suscitaria a cobiça e inveja dos amigos e colegas de turma, mas para quem não tinha mais do que um apartamento, era mais do que suficiente para extravasar o Michael Jordan dentro de si.

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Exemplo actual de uma mini-tabela

Fosse qual fosse o modelo, no entanto, uma coisa é certa – as tabelas de basket fizeram mesmo furor entre os jovens dos anos 90. E ainda que, actualmente, seja cada vez mais raro encontrar um destes equipamentos numa casa particular (até porque quem quer jogar tem agora muitos espaços exteriores onde o fazer) temos a certeza de que, algures por esse país fora, existem ainda vários LeBron James em potência que, em Sábados de sol como este, resolvem dar uns Saltos (literalmente) no quintal das traseiras, e tentar 'meter' uns cestos na tabela pregada por cima da porta da garagem – tal como o faziam os seus pais, três décadas antes...

03.04.22

Ser criança é gostar de se divertir, e por isso, em Domingos alternados, o Anos 90 relembra algumas das diversões que não cabem em qualquer outra rubrica deste blog.

No Sábado aos Saltos desta semana, falámos dos tubos giratórios que, ao serem abanados, cortam o ar, produzindo um som ululante que faz as delícias de qualquer criança. No entanto, esses estavam longe de ser os únicos brinquedos a fazer uso desta 'tecnologia' que tanto êxito surtia, e como tal, vamos hoje falar de outra aplicação de enorme sucesso dada a este método durante os anos 90: os microfones de brincar.

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Não, não falamos daqueles que, normalmente, acompanhavam os gravadores ou leitores de cassettes para crianças (outro produto, já agora, do qual teremos a seu tempo de aqui falar); referimo-nos, antes, à variante oca, de plástico, e que tinha na criação de ecos de qualquer som feito para dentro deles o principal motivo de interesse.

De facto, o eco é um daqueles fenómenos que desperta um fascínio inexplicável sobre os seres humanos em idade formativa, mesmo quando é aplicado a uma escala bastante reduzida, como era o caso com estes brinquedos. O simples facto de este artefacto 'responder' ao que quer que lhe fosse dito era já, por si só, suficiente para fazer as delícias da maioria das crianças; o facto de as fazer, também, sentir como verdadeiras estrelas da 'pop' era apenas um bónus, que tornava o referido brinquedo ainda mais atractivo do que já era por si só.

Em suma, apesar de não ser daqueles produtos 'de parar recreios', nem de incitar febres à escala nacional, os microfones de eco eram (ou melhor, continuam a ser) apenas mais uma prova - como se ainda fosse necessário – de que não eram precisos conceitos mirabolantes para proporcionar bons momentos e criar um potencial 'brinquedo favorito' para as crianças dos anos 90 – muitas vezes, bastava mesmo um pedaço de plástico oco equipado com a revolucionária tecnologia da reverberação de ar...

02.04.22

Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos e acessórios de exterior disponíveis naquela década.

Já aqui por diversas vezes referimos que, nos anos da infância, são, por vezes, os brinquedos mais simples aqueles que mais sucesso fazem entre o público-alvo, sobretudo no que toca a acessórios de exterior. De bolas de borracha ou vidro a pedaços de corda ou elástico ou bexigas de látex, não é preciso muito para entreter uma criança numa tarde de sol, e o assunto do 'post' de hoje é (mais uma) prova disso mesmo; afinal, o que pode ser mais simples do que um tubo de plástico oco?

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E, no entanto, esse continua a ser ainda hoje um produto viável para comercialização junto de uma determinada demografia, tendo ainda este fim-de-semana sido encontrado numa loja do Reino Unido; ao que parece, o apelo dos chamados 'tubos de ar' ou 'tubos giratórios' atravessa décadas, séculos e gerações, sendo tão atraente para a geração que já nasceu agarrada a um iPad como o foi para a que passou o primeiro terço ou metade da vida sem sequer saber o que era um computador. E porque não? Afinal de contas, o conceito deste produto continua a ser sólido, simples e atraente o suficiente para aliciar qualquer criança às compras com os pais em tarde de sol...

Semelhantes a tubos de construção, mas feitos de plástico de cores berrantes ao invés de metal pesado, estes tubos destinam-se, especificamente, a serem vigorosamente agitados no ar, de preferência em movimentos giratórios, de modo a que a sua trajectória corte o ar, produzindo um característico som ululante; sim, precisamente o mesmo conceito que, décadas depois da criação deste brinquedo, traria popularidade ao pior inimigo de qualquer futebolista internacional moderno, a vuvuzela.

A junção da mecânica quinética com o atractivo efeito produzido – sem descurar o facto de estes tubos também constituirem excelentes armas de contusão, fosse propositalmente ou apenas por acidente, a quem passasse demasiado perto – ajuda a explicar a continuada popularidade destes brinquedos, que ainda hoje propiciarão, certamente, largos momentos de simples diversão para qualquer pré-adolescente durante um Sábado aos Saltos.

Em suma, sem ser o tipo de produto que suscite brincadeiras prolongadas – sendo provável que seja posto de lado ao fim de meia dúzia de tentativas – este acessório constitui, ainda assim, um excelente complemento a uma tarde de fim-de-semana solarenga, como a época primaveril costuma propiciar; melhor, o factor nostálgico deste brinquedo faz do mesmo um excelente elo de ligação entre pais e filhos – embora se recomende precaução, não vá o pequenote, no seu entusiasmo, acertar na cara do pai ou da mãe...

 

20.03.22

Ser criança é gostar de se divertir, e por isso, em Domingos alternados, o Anos 90 relembra algumas das diversões que não cabem em qualquer outra rubrica deste blog.

Na última edição desta rubrica, falámos dos peluches, um dos principais tipos de brinquedo para bebé dos anos 90 (e, diga-se de passagem, ainda dos dias que correm); hoje, chega a vez de falarmos de outra categoria de produto para recém-nascidos e crianças muito jovens, não menos popular naquele tempo, embora essa popularidade tenha entretanto diminuído – os brinquedos de borracha 'de piar'.

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Sim, apesar de hoje em dia este tipo de boneco em borracha com um mecanismo de expulsão de ar que provoca um som ao apertar seja mais comummente associado aos animais de estimação, tempos houve em que não havia bebé humano que não tivesse pilhas e pilhas de brinquedos deste tipo, sendo os mesmos quase tão omnipresentes nos quartos de recém-nascido como os próprios peluches. Tematizados ou genéricos, nas mais variadas formas (embora grande parte das vezes representassem animais ou personagens licenciados), estes bonecos faziam as delícias de quem tinha idade para pouco mais do que processar a relação causa-efeito entre o toque no boneco e a emissão do característico 'suspiro' em tons agudos resultante da expulsão de ar – até porque constituíam, além de uma experiência sensorial divertida, também excelentes armas de arremesso...

Infelizmente, tal como também acontecia com os peluches, nem todos os bonecos 'de piar' obedeciam aos mesmos padrões de qualidade, sendo que alguns representavam um perigo activo de ingestão e asfixia, tanto graças a 'pipos' mal afixados ao respectivo brinquedo (e que pareciam ameaçar saltar sempre que o mesmo era apertado) quanto a tintas passíveis de serem sugadas e, subsequentemente, ingeridas – o que, para uma demografia que tem por hábito levar qualquer tipo de objecto à boca, não é, de todo, ideal...

Talvez resida aí a principal razão para o declinio de popularidade deste tipo de brinquedos – ou talvez os tempos tenham, simplesmente, mudado. Seja qual for o caso, a verdade é que, ao contrário dos congéneres de peluche – e à parte os tradicionais 'patinhos' para usar na banheira, que tiraram proveito do estranho fenómeno da nostalgia 'nerd' e 'hipster' para se tornarem novamente relevantes – já é muito raro ver brinquedos deste tipo nos dias de hoje, quer nas lojas (que apostam, sobretudo, no plástico e madeira) quer nas mãos de bebés propriamente ditos. Quem quiser recriar a sua experiência de infância terá, pois, de 'roubar' temporariamente o brinquedo a um cão ou gato, o que não deixa de ser um estranho mas apto reflexo de como as mudanças na sociedade ocidental nos últimos 30 anos afectaram até as mais ínfimas partes da mesma...

06.03.22

Ser criança é gostar de se divertir, e por isso, em Domingos alternados, o Anos 90 relembra algumas das diversões que não cabem em qualquer outra rubrica deste blog.

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Um dos primeiros tipos de brinquedo que qualquer criança recebe (e com o qual contacta), normalmente ainda antes de saber falar ou andar, são os animais de peluche. Uma prenda tradicional para bebés até uma certa idade (e, em menor escala, também para crianças um pouco mais velhas e do sexo feminino), trata-se de um brinquedo perene, que atravessa gerações com muito poucas mudanças cosméticas, e raramente sofrendo qualquer decréscimo em popularidade – afinal, qual é a criança que não fica maravilhada perante a visão de um gigantesco animal de peluche maior do que ela? Mesmo os peluches mais pequenos e 'em conta' têm um apelo intemporal, com os seus corpos feitos de material fofo e especialmente concebidos para serem abraçados e acarinhados.

Nos anos 90, este paradigma não era diferente – antes pelo contrário, esta foi a década por excelência dos quartos de menina (e, muitas vezes, também de rapariga mais velha) decorados praticamente à base de bonecas Barbie e peluches dos mais variados tipos, desde os tradicionais ursos ou coelhinhos até às inevitáveis figuras associadas a propriedades intelectuais conhecidas (ou vice versa, ou não fora esta a época dos desenhos animados feitos expressamente para vender brinquedos.) Já os rapazes sonegavam veementemente aqueles bonecos de expressão amigável da sua infância, os quais consideravam não terem lugar em meio aos seus Action Man e Power Rangers; no entanto, a figura certa – normalmente alusiva a um super-herói ou algo semelhante, e de dimensões suficientes para impressionar quaisquer potenciais visitantes – podia, ainda, encontrar um cantinho onde passar o resto dos seus dias, até ser posto na arca alguns anos depois.

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Sad Sam e Honey estiveram entre os peluches mais populares dos anos 90

Tal como acontece com tantos outros produtos que aqui abordamos (como os balões do nosso último post) também os peluches podiam ter as mais diversas proveniências, embora duas se sobrepusessem, em volume e frequência, às restantes: as lojas de brinquedos (ou secções de brinquedos de supermercados e hipermercados), de onde provinham os modelos mais caros e atractivos, e as máquinas de garra, território por excelência dos personagens 'quase-oficiais' e semi-deformados e dos ursinhos de cores estrambólicas. Outras fontes para a obtenção de peluches incluíam promoções de marcas, concursos (nos quais os mesmos serviam como prémio de consolação atractivo o suficiente para justificar a participação) e até certos produtos que os ofereciam como brinde, como foi o caso do detergente Presto com os seus famosos 'glutões'.

Qualquer que fosse a proveniência do boneco, no entanto, era quase certo que um novo peluche seria bem recebido pela maioria das crianças de uma certa idade, independentemente do sexo, bem como por um grande número de raparigas um pouco mais velhas, mas que gostavam de os ter no quarto, na prateleira ou ocupando o 'lugar de honra' junto à almofada da cama. E a verdade é que, apesar dos trinta anos entretanto volvidos (em que muitas dessas crianças tiveram, elas próprias, crianças) a situação não parece ter-se alterado grandemente – um peluche continua a ter potencial para ser o 'melhor amigo' de uma criança pequena, e estamos em crer que há, por esse país afora, muito quem continue a arrastar o seu animal preferido para junto de si para ver episódios da sua série de desenhos animados favorita...

10.02.22

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.

Uma das maiores falácias de qualquer narrativa nostálgica – e mesmo de algumas narrativas sociológicas – é a ideia de que, assim que os computadores e jogos de vídeo se popularizaram como consumíveis electrónicos para a casa, todas as brincadeiras que vinham, até aí, sendo norma entre a população jovem se extinguiram de imediato, tendo os miúdos passado a não se interessar por nada que não tivesse um ecrã. Esta assumpção é prevalente ao ponto de constituir um lugar-comum – e, no entanto, a mesma adapta-se melhor, e é mais verdadeira, na actualidade do que em qualquer das décadas a que pretende dizer respeito.

Não, nós não abandonámos as bicicletas e os patins em linha assim que a Sega e a Nintendo nos apareceram debaixo da árvore de Natal; nem tão-pouco deitámos imediatamente fora os jogos de tabuleiro, bonecas e figuras de acção que as mesmas supostamente viram substituir. Na verdade, quem cresceu durante os anos 80 e 90 continuou a divertir-se com muito pouco (e raramente de teor electrónico) durante quase a infância inteira – sendo a quinquilharia de hoje um exemplo perfeito disso mesmo.

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Embora também existam em versão maior, os 'jogos de água', como eram à época conhecidos, ganharam fama em Portugal como diversões portáteis – o tipo de coisa que se levava no bolso para uma viagem de carro, autocarro ou comboio quando não se podia levar o Game Boy ou um jogo electrónico, ou que se usava para matar tempo durante as férias na praia. Relativamente baratos e desafiantes o suficiente para manterem a maioria dos miúdos entretidos mais do que os cinco minutos da praxe, estes brinquedos eram presença comum entre a demografia em causa, pela qual são, aliás, ainda hoje saudosamente recordados.

Regra geral (e embora existissem múltiplas variações) o princípio destes jogos tendia a ser sempre o mesmo: o botão ou botões no painel frontal controlavam jactos de água emitidos de cima para baixo em cada um dos extremos do brinquedo, os quais faziam saltar e flutuar as argolas ou bolinhas contidas no interior do mesmo; o objectivo passava, então, por fazer com que essas mesmas argolas ou bolinhas assentassem nos 'pinos' estrategicamente colocados no campo de jogo, numa mecânica semelhante à do popular jogo das argolas. Um objectivo simples, mas tudo menos fácil, dada a natureza volátil da água, que tendia invariavelmente a enviar as peças para muito mais longe do que seria necessário ou desejável, obrigando a mais largos segundos de 'maningâncias' por parte do jogador, para as conseguir trazer para mais perto de onde as queria...

Enfim, um brinquedo extremadamente simples, e de que a Geração iPad certamente faria troça se alguma vez tivesse sabido da sua existência, mas que ajudou a colmatar muitos tempos mortos das nossas infâncias, sem precisar de estar com o nariz colado a um écrã. Só por isso, estes brinquedos já valem a homenagem nesta nossa Quinta de Quinquilharia...

06.02.22

Ser criança é gostar de se divertir, e por isso, em Domingos alternados, o Anos 90 relembra algumas das diversões que não cabem em qualquer outra rubrica deste blog.

Os anos 80 e 90 foram, no que toca a brinquedos, estranhamente pródigos em linhas de figuras assexuadas e que procuravam retratar tanto a vida quotidiana como cenários algo mais fantasiosos; e depois de já aqui termos falado, em edições passadas desta rubrica, da LEGO (cujas linhas de mini-figuras e acessórios cobriam desde profissões a cenas de lazer da vida quotidiana, passando por versões romanceadas de períodos históricos) e da Pinypon (que procurava reproduzir tanto o quotidiano de uma criança em idade pré-escolar como as fantasias da sua imaginação) chega hoje a vez de falarmos do terceiro membro daquilo que se podia considerar uma espécie de 'Santíssima Trindade' dos brinquedos infantis da época – a Playmobil.

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Criada pelo alemão Hans Beck em 1974 – e chegada à Península Ibérica dois anos depois, então com a designação Famobil - foi, no entanto, nas duas décadas seguintes que a Playmobil viveu o seu período de maior popularidade internacional, tornando-se um êxito de vendas - e presença obrigatória nos anúncios televisivos, catálogos de brinquedos e prateleiras de hipermercados por alturas do Natal - em muitos países, entre os quais Portugal.

Tal facto não é, de todo, surpreendente quando se considera que a linha alemã tem exactamente o mesmo conceito da LEGO, e que mais tarde viria a ser adoptado também pela Pinypon – nomeadamente, figuras estandartizadas, a maioria iguais entre si (os únicos elementos díspares entre os personagens Playmobil eram, normalmente, a cor da camisola, a cor do cabelo, quaisquer potenciais acessórios, e quiçá um qualquer detalhe da pintura, como uma barba, embora também existissem figuras infantis) e que viviam tanto situações perfeitamente quotidianas como mais aventurosas ou romanceadas, sendo muitas destas últimas baseadas em cenários comuns de obras de aventuras, como o Velho Oeste ou a época dos piratas (para a História fica o fabuloso barco pirata comercializado pela marca, um dos presentes de Natal mais cobiçados da década, sobretudo pelo sexo masculino.)

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Uma imagem que dispensa maiores legendas. Admirem, e babem-se.

O facto de a maioria destas figuras mal terem articulação (ao contrário das mini-figuras da LEGO, nos bonecos Playmobil, apenas era possível mexer os braços, e apenas em linha recta) não era impedimento à diversão, já que a maioria dos acessórios e cenários eram especificamente adaptados a esta característica – os cavalos dos 'cowboys' e índios, por exemplo, tinham costas suficientemente largas para encaixarem no ângulo de pernas dos bonecos, permitindo-lhes assim montá-los. Isto tornava as brincadeiras simples e intuitivas, e, como tal, convidativas à exploração alargada e demorada das possibilidades de cada conjunto. A maioria das crianças não se fazia rogada, sendo a linha Playmobil opção recorrente para sessões de 'imaginação' em tardes preguiçosas de fim-de-semana, ou até mesmo depois da escola.

Também à semelhança das suas contemporâneas da LEGO e Pinypon, a linha Pluymobil persiste até aos dias de hoje, tendo, inclusivamente, tido direito a uma adaptação cinematográfica em 2019, a qual passou, no entanto, bem mais despercebida do que a sua congénere da LEGO, anos antes. Também como os LEGOs, e ao contrário do que aconteceu com os Pinypon, os brinquedos da Playmobil mantêm, em grande medida, a sua identidade intacta, embora – novamente como aconteceu com a LEGO – a marca se tenha visto obrigada a diversificar a sua proposta, e a aumentar os seus preços, embora a um nível menor do que o da rival dinamarquesa.

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Como a LEGO, também a Playmobil tem, hoje, linhas licenciadas

Ao contrário do que acontece com a marca das mini-figuras amarelas, no entanto, a Playmobil perdeu, nas três décadas desde o seu apogeu, muita da sua preponderância, sendo hoje pouco mais do que uma recordação nostálgica para a geração que com ela cresceu. Ainda assim, os membros dessa mesma geração podem, hoje em dia, trocar impressões e memórias no portal online Playmogal, que (apesar de pouco participado) prova que, ainda que muito menos preponderante do que em tempos já foi, a marca alemã está longe de estar totalmente desaparecida, e pode ainda – quem sabe – voltar a fazer as delícias das demografias mais novas em anos vindouros...

23.01.22

Ser criança é gostar de se divertir, e por isso, em Domingos alternados, o Anos 90 relembra algumas das diversões que não cabem em qualquer outra rubrica deste blog.

Os anos 90 (tal como a década anterior) são, hoje em dia, justamente lembrados como uma era em que a indústria de fabrico e comercialização de brinquedos obedecia a certos padrões em termos do que era ou não popular. Os rapazes da época, por exemplo, privilegiavam brinquedos ligados à banda desenhada ou aos desenhos animados, ou simplesmente que tivessem um aspecto atractivo, como no caso dos carros telecomandados; já as raparigas procuravam linhas de brinquedos que reflectissem aspectos do quotidiano, fossem eles o dia-a-dia das mães de bebés recém-nascidos, das donas de casa, ou até de uma super-modelo com mansão, carro descapotável e namorado igualmente atraente. Havia, claro, brinquedos que desafiavam esta 'regra', mas até mesmo esses sucumbiam, aqui e ali, aos estereótipos sobre aquilo que as crianças verdadeiramente procuravam – basta atentar nas linhas marcadamente 'sexuadas' oferecidas pela LEGO na época, por exemplo.

Foi com panorama vigente que, ainda nos anos 80, a espanhola Famosa – também responsável pelo Nenuco, pelas Barriguitas e por vários outros dos brinquedos favoritos das meninas da época – decidiu lançar internacionalmente os bonecos e cenários que criara ainda na década anterior, e a que chamara Pin Y Pon (conhecido em Portugal, devido à sua grafia estilizada, como Pinypon.) E como seria de esperar, um dos primeiros mercados abrangidos por esta expansão foi, precisamente, o do país vizinho, onde estes bonecos aterraram algures nos anos 80, prontos para mais de duas décadas de sucesso entre a criançada.

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Com um design estilizado e 'fofinho' (muito semelhante ao que hoje inspira os popularíssimos Funko Pops) e dimensões reduzidas – maiores que uma figura da Lego, mas menores que uma da Playmobil – Pin (o rapaz) e Pon (a rapariga) eram dirigidos a um público mais jovem do que qualquer das suas concorrentes (sensivelmente o mesmo a que se destinava a linha Duplo da LEGO) e traziam como principal atractivo o facto de os seus cabelos serem totalmente removíveis, podendo assim qualquer figura usar o 'penteado' de qualquer outra - uma característica que era acentuada pelo facto de, na maioria das vezes, os bonecos usarem apenas pijamas estilo 'onesie' de cor uniforme, impedindo assim, propositadamente, a distinção entre sexos. Também à semelhança do que sucedia com as mini-figuras da LEGO, certos conjuntos de Pinypon traziam, além do cabelo, alguns acessórios extra, como chapéus, que eram também intercambiáveis, oferecendo assim ainda mais possibilidades a cada brincadeira.

É claro que, para além dos bonecos em si, esta linha oferecia também alguns cenários onde os colocar, a maioria baseada em locais corriqueiros, onde crianças da idade dos dois bonecos se poderiam realisticamente encontrar; no entanto, como seria de esperar numa linha deste tipo, certos destes cenários pendiam mais para a vertente da realização de algumas das mais frequentes fantasias infantis, apresentando locais como circos ou marchas, em que o casalinho de bonecos era protagonista principal.

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Exemplo de um cenário da linha

No cômputo geral, esta era uma linha bastante sólida do ponto de vista conceptual, mas que – como tantas vezes sucede – não tardou a sofrer alterações, em parte impostas pelas alterações no mercado de brinquedos, e pela necessidade de se manter relevante e continuar a vender. Primeiro, os bonecos passaram a ter caras detalhadas, em substituição dos olhos negros e sem pupilas de anteriormente; depois, ganharam articulações; e por fim (já no século XX, e após um hiato de três anos na produção da linha) reinventaram-se com um 'design' estilo 'anime', que os torna praticamente irreconhecíveis para quem com eles brincou nos simples e honestos primórdios dos anos 80 e 90.

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As três gerações de Pinypon

Ainda assim, há que dar mérito a esta linha da Famosa por se ter conseguido 'aguentar' nas prateleiras de brinquedos durante cinco décadas, mesmo depois de a maioria dos brinquedos deste tipo terem perdido totalmente a atenção do público alvo; nesse capítulo, os Pinypons rivalizam apenas com linhas e marcas do calibre da LEGO (que também se viu obrigada a mudar com os tempos), a Barbie, a Polly Pocket ou os referidos Nenucos. Pena que, ao contrário da maioria destas, o tenham feito à custa de uma identidade própria que, no início da sua trajectória, era precisamente o que os distinguia da concorrência...

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