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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

16.06.22

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.

Qualquer jovem interessado no coleccionismo de cartas, cromos ou autocolantes sabe o valor – efectivo ou atribuído – de um exemplar metalizado; mesmo em instâncias em que estas não são as peças mais difíceis de conseguir da colecção, há algo na aparência, brilho e 'efeito especial' de uma imagem deste tipo que a distingue, para melhor, de todas as outras, tornando-a inevitavelmente numa das mais cobiçadas de qualquer conjunto.

Em meados dos anos 90, a omnipresente editora Abril/Controljornal percebeu o valor deste fenómeno e resolveu capitalizar sobre o mesmo, através da criação de uma colecção constituída INTEIRAMENTE por autocolantes metalizados, e 'reforçados' com um efeito holográfico, para garantir que se tornavam apelativos junto do público-alvo.

Nasciam assim as Holoucuras, oferecidas como brinde com as revistas aos quadradinhos da Abril – quer da Marvel e DC, quer da Disney – durante um determinado período, por volta de 1996/97, e cujas saquetas amarelo-vivo traziam uma indicação relativa a um determinado número de pontos, que podiam ser coleccionados e trocados por prémios, ainda que a natureza dos ditos cujos se perca hoje nas brumas do tempo.


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Exemplo de uma publicação da editora com a saqueta de brinde.

A razão para esta falta de informação é, aliás, simples de explicar – fosse por que razão fosse, as Holoucuras não 'pegaram' como a Abril certamente esperava, constituindo hoje em dia apenas uma vaga lembrança remota na mente de quem, à época, lia os títulos de banda desenhada da editora; de resto, a colecção holográfica da Abril (por sinal, até bastante bem conseguida) não passa de mais uma de muitas tentativas falhadas de criar uma nova 'febre' de recreio, que se junta às suas congéneres como apenas mais uma nota de rodapé na História global da década de 90 em Portugal.

01.02.22

A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.

Numa era de constantes e infindáveis descobertas tecnológicas, como foram os anos 90, não constitui de todo motivo de espanto saber que as empresas e corporações de venda de produtos e serviços procuraram, precisamente, utilizar essa tecnologia como ferramenta para mover mais unidades dos seus produtos, através do estabelecimento de uma ligação entre os mesmos e a nova vaga tecnológica, especialmente na vertente informática.

Nos anos antes do advento da Internet, e subsequente nascimento dos sites de jogos em Flash, redes sociais e outros veículos hoje indissociáveis da experiência informática corporativa, a divulgação destes produtos, e subsequente atracção de novos clientes, fazia-se de forma um pouco diferente – nomeadamente, através da criação de jogos promocionais, destinados a serem oferecidos como brindes na compra do produto, ou contra o envio de provas de compras ou outro elemento semelhante; e apesar de em Portugal esta estratégia só se ter verdadeiramente popularizado na década seguinte - nos Estados Unidos, era já prática corrente em plataformas como a Nintendo original, cuja biblioteca inclui jogos da McDonald's e Domino's Pizza - a verdade é que a mesma ainda chegou a tempo de render um ou outro exemplo bem interessante desta tendência durante os anos 90.

O jogo dos douradinhos Croustibat, 'clonado' da série 'Gobliiins!', da Sierra

De um deles, 'Croustibat' (um clone directo de 'Gobliiiins! 2', da Sierra, com gráficos e história substancialmente alterados, e cerca de quinze minutos de conteúdo jogável) já falámos no post sobre os falhados aspirantes a concorrentes dos Douradinhos lançados pela Findus, e que o jogo ajudava a divulgar junto do público jovem; existe, no entanto, pelo menos mais um jogo lembrado com saudade e carinho por quem consumia produtos alimentares destinados ao público mais jovem durante aquela época: o jogo da Nesquik, disponibilizado em disquete (!) juntamente com os produtos da popular linha da Nestlé, em 1994-95.

Infelizmente, só existe na 'net' com textos em Alemão...

Oficialmente intitulado 'Tricky Quicky', trata-se de um jogo de plataformas bem típico da época, com gráficos coloridos, ao estilo Sonic, e que oferece uns generosos quinze níveis (espalhados por cinco 'mundos') através dos quais o jogador deve comandar a mascote da marca, evitando inimigos e recolhendo bolinhas do cereal Nesquik (que pode depois utilizar para eliminar os referidos inimigos com o poder do chocolate) bem como caixas inteiras do produto, e ainda as letras da palavra Nesquik espalhadas em cada nível, bem ao estilo dos jogos de Donkey Kong da época. Não faltam, claro está, as batalhas com o 'chefe' do jogo, um cientista malvado que procura apoderar-se da receita do popular achocolatado.

Um jogo absolutamente genérico para a altura em que foi lançado, mas que usufruía do factor novidade (não era habitual os cereais de pequeno-almoço oferecerem jogos de computador, ainda menos completos) e da cara reconhecível da mascote que o protagonizava para garantir a criação de memórias entre as crianças e jovens de meados de 90.

O jogo da LEGO Bionicle oferecido com os cereais da Nestlé, em 2001

Talvez tenha mesmo sido o sucesso deste jogo que motivou as companhias a, na década seguinte, expandirem a indústria de jogos promocionais oferecidos como brinde na compra dos próprios produtos, já que o início do século XXI foi palco de diversas iniciativas deste estilo, de um jogo da série Bionicle (da LEGO) oferecido novamente com os cereais Nestlé, até um jogo de corridas com a chancela de Tony the Tiger disponível com os cereais Kellogg's, além de muitos jogos licenciados, com ligação aos principais filmes, desenhos animados e mascotes da época.

Com o passar do tempo, e o crescimento da Internet, estes jogos acabaram por encontrar o seu 'habitat' natural, como elementos em Flash nos websites e redes sociais das respectivas companhias: no entanto, para a primeira geração a crescer com computadores (e última a fazê-lo sem Internet) ficará, para sempre, na memória a sensação entusiasmante de voltar do supermercado com os pais, abrir a caixa de barrinhas de pescada ou cereais para pequeno-almoço acabada de adquirir, e encontrar como brinde um jogo de computador completo, prontinho a ser explorado no PC lá de casa numa tarde de fim-de-semana...

27.01.22

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

Numa altura em que a música portuguesa viva um dos seus mais notáveis 'estados de graça' desde o tempo da ditadura – com um número impressionante de novos grupos e artistas a surgir ou a estabelecerem-se em todos os estilos – não é, de todo, de espantar que uma grande parte da população jovem nacional tenha desenvolvido ambições e sonhos de grandeza musical no instrumento da sua preferência. A educação musical básica adquirida na escola passava a ser manifestamente insuficiente – afinal de contas, Ian Anderson, dos Jethro Tull, continua ainda hoje a ser o único roqueiro a ficar famoso pela prática da flauta – e as escolas de música enchiam-se de jovens aspirantes a Joe Satriani, Steve Harris ou Dave Lombardo, ansiosos por aperfeiçoar a sua técnica para emular os seus ídolos e, com sorte, fazer carreira em nome próprio.

Sendo este o paradigma vigente, não foi de todo surpreendente que, já na recta final do século XX e do segundo milénio (mais concretamente, no dealbar do ano de 1997), tenha surgido nas bancas nacionais uma revista especificamente dedicada a estes aspirantes a músicos – nem tão-pouco que a mesma tenha conseguido durar uns honrosos quatro anos, e divulgar os seus artigos tanto técnicos como generalistas também junto dos profissionais e amadores de música do novo milénio.

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Exemplos de capas da revista

E a verdade é que, à época, não existia em Portugal nenhuma revista como a Promúsica. A grande referência do jornalismo musical nacional – o jornal Blitz – tinha um carácter exclusivamente generalista, e as revistas que propunham um tipo de conteúdo mais técnico eram, invariavelmente, importadas – e, como tal, mais caras e de distribuição muito mais limitada. A criação de uma publicação deste tipo totalmente produzida dentro de portas permitia a músicos fora dos centros urbanos conseguir uma revista à sua medida, todos os meses, e sem ter que 'abrir os cordões à bolsa'. A revista, bem ciente desta exclusividade de mercado, apostava assim, quase exclusivamente, na vertente técnica e profissionalizante do universo da música, deixando em segundo plano as habituais entrevistas e perfis de bandas (embora essas também fizessem parte, bem entendido) em favor de testes e análises técnicas a instrumentos musicais, divulgação de fabricantes nacionais dos mesmos, notícias com foco nos 'bastidores' do ramo, e outros conteúdos destnados a fornecer informação directa sobre o mundo da música a quem ela mais interessava.

Este foco na vertente técnica e na divulgação de novos artistas não se ficava, tão-pouco, pelas páginas da revista em si, antes pelo contrário – um dos maiores atractivos da Promúsica eram precisamente as colectâneas em CD que oferecia com cada número, e através das quais divulgava alguns dos mais promissores artistas contemporâneos nacionais, ao mesmo tempo que oferecia exemplos 'auditivos' ou interactivos de alguns dos instrumentos, equipamentos e programas testados no interior da publicação. Um acrescento de cariz dois-em-um portanto, e que tornava a revista atractiva tanto para os músicos a quem se destinava como, simplesmente, para os entusiastas da boa música portuguesa, para quem estes CD's justificavam, só por si, o preço de venda.

Em suma, embora sem a longevidade de algumas das suas congéneres internacionais, a Promúsica marcou época entre um determinado segmento da população jovem portuguesa de finais do século XX e inícios do seguinte; e ainda que menos abrangente, em termos de público, do que outras publicações especializadas (como a Mega Score ou o próprio Blitz) terá, ainda assim, deixado saudades dentro dessa mesma demografia, a quem certamente agradará recordar a publicação que os acompanhou no seu percurso musical à época. Aqui fica, pois, essa homenagem a um tipo de publicação que, nesta era digital em que tudo é acessível, deixou totalmente de fazer sentido, mas que em tempos representou praticamente a única fonte de acesso a informação verdadeiramente interessante e relevante em relação ao mundo da música em Portugal...

26.01.22

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog...

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Quem passeou num centro comercial de bairro durante os anos 80 e 90, certamente não só as viu, como as usou – ou, pelo menos, tentou pedir a quem quer que o acompanhasse autorização para as usar. As máquinas de brindes (também chamadas de 'ovos' ou de 'bolas'; não confundir com as de 'garra', nem com as que dispensavam bolas de pastilha elástica, pistachios e amendoins ou  bolinhas saltitonas) eram presença comum, não só em qualquer espaço comercial que compreendesse uma área determinada na qual se aglomerassem várias lojas e serviços de restauração, como, por vezes, até em espaços individuais, como cafés, cervejarias ou até minimercados ou supermercados de bairro.

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Exemplos dos dois modelos mais comuns de máquinas deste tipo

Compreendendo uma vasta gama de tamanhos e formatos (das mais pequenas e arrendondadas às mais comuns, altas e rectangulares, semelhantes às de 'garra') estas máquinas seguiam, no entanto, invariavelmente o mesmo princípio: o utilizador introduzia uma moeda (nos anos 90, normalmente, de cem ou até duzentos escudos, mais raramente de cinquenta) e rodava o manípulo situado ao nível da sua cintura, libertando assim umas das inúmeras bolas de plástico colorido alojadas no interior, cada uma das quais continha um pequeno brinde ou bugiganga digno da nossa secção Quintas de Quinquilharia. Invariavelmente em plástico barato e com um valor de produção quase nulo, estes brindes podiam ir de borrachas e pequenas figuras para pôr no topo dos lápis, a joalharia de pechisbeque (em tamanhos inutilizáveis por qualquer pessoa com idade suficiente para o brinde lhe interessar), passando por alguns brindes ligeiramente mais aceitáveis, como era o caso dos insectos de plástico, mini-carrinhos, porta-chaves, e outros produtos ao estilo 'ovo Kinder', e aproximadamente ao mesmo nível em termos de qualidade.

É claro que esta não era, necessariamente, a realidade 'vendida' por estas máquinas; mesmo os mais 'traquejados' utilizadores destes aparelhos, aqueles que SABIAM que o brinde ia, mais que provavelmente, ser uma qualquer bugiganga completamente inútil, se deixavam repetidamente enganar pelas promessas feitas pelos responsáveis por encher a máquina após esgotadas as bolinhas, ou antes do primeiro uso. Porque a verdade é que estes profissionais – que eram, verdadeiramente, dignos desse nome – não davam 'ponto sem nó', e tratavam de pôr no topo da pilha, bem à vista de quem se aproximava, os poucos prémios verdadeiramente apetecíveis que haviam sido fornecidos. Não era, de todo, incomum, ver bolinhas que continham no interior relógios, ou outros artigos que pudessem, verdadeiramente, interessar a alguém com idade superior a dez anos – o que, naturalmente, criava um conflito de 'expectativa vs realidade' que induzia ao gasto da tal moeda, e resultava, invariavelmente, na posse de mais um brinde com valor total de aproximadamente cinco escudos, de que até o mais novo dos utilizadores destas máquinas provavelmente desdenharia.

Ainda assim, a possibilidade de receber algo, pelo menos, aceitável a troco daqueles cem ou duzentos escudos era suficiente para manter grande parte do público a jogar, e este tipo de máquinas em circulação até à entrada do novo milénio, altura em que foram sendo, gradualmente, substituídas por modelos de conceito semelhante, mas mais avançados - normalmente com recurso a métodos digitais e alguma habilidade, por oposição a apenas sorte. No entanto, quem procurar bem nos cafés de bairro por esse Portugal afora, talvez ainda encontre, num canto, uma qualquer maquineta que lhe permita rodar um manípulo e gastar um euro num qualquer objecto com um décimo desse valor...

19.01.22

NOTA: As imagens deste post foram retiradas do 'site' pessoal de António Jorge Gonçalves, em http://www.antoniojorgegoncalves.com/livros-books.

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Hoje em dia, há pouco quem duvide de que um meio como a banda desenhada também pode representar arte e cultura; de facto, são cada vez mais numerosos os volumes de banda desenhada dirigidos a um público jovem-adulto, à semelhança do sucedido nos anos 60 e 70 no seio do movimento franco-belga, e mais tarde no Japão, com as tradicionais 'mangas'.

Nos anos 90, no entanto, vivia-se o auge da era oposta – a era em que a banda desenhada (a par de meios audio-visuais análogos, como os jogos de vídeo) eram considerados estritamente para crianças, e tidos como a forma de leitura menos inteligente disponível no mercado – isto apesar de mesmo as BD's declaradamente para crianças terem laivos de sarcasmo e humor mais sofisticado por entre todo o 'nonsense' e animação. A tal não ajudava o facto de algumas destas publicações nada mais serem do que uma tentativa declarada de amealhar mais uns 'cobres' às 'costas' de um produto mediático da moda, com um ciclo de vida propositalmente curto e, portanto, sem grandes preocupações com a qualidade do material.

Terá, talvez, sido com o intuito de alterar esta situação, e a percepção que tanto graúdos como miudos tinham da banda desenhada, que, em 1993, o pelouro da Cultura da Câmara Municipal idealizou e distribuiu gratuitamente nas escolas do Primeiro Ciclo do concelho, uma publicação que, embora não se tratando de uma BD no sentido lato da palavra, se pode ainda assim inserir nesta categoria.

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Falamos de 'Lisboa Às Cores', um projecto que juntava desenhos do aclamado ilustrador António Jorge Gonçalves (então no auge de carreira, vindo a ser vencedor do prémio de Melhor Álbum Português no Festival de BD da Amadora desse mesmo ano, com a obra 'ANA') com textos de Nuno Júdice, num conceito que ficava ali a meio caminho entre a banda desenhada de cariz mais abstracto e artístico e os livros ilustrados tipicamente lidos pelas crianças daquela faixa etária, dando sempre maior primazia aos desenhos do que ao texto. No fundo, o livro servia quase como uma daquelas colecções de arte que normalmente se põem na mesa da sala de estar, sendo o tema, neste caso, a cidade de Lisboa, e as emoções e sentimentos que a mesma inspira – um conceito, talvez, um pouco 'adulto' demais para o público a que se destinava, mas cuja execução, de uma perspectiva adulta, não pode ser considerada menos do que excelente.

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Exemplo da arte do livro

De facto, basta olhar de relance para os desenhos de Gonçalves para perceber a razão de o mesmo ser um praticante aclamado da arte da ilustração, enquanto a prosa vagamente poética de Júdice encaixa bem no que o seu 'parceiro de crime' vai criando, resultando numa leitura agradável para entusiastas de BD de todas as idades. O facto de um livro com este grau de detalhe e cuidado ter sido distribuído gratuitamente é motivo para elogios ao pelouro da Cultura da CML em 1993, pois haveria muito boa gente (embora não necessariamente entre os 5 e os 10 anos de idade...) que pagaria de bom grado para poder ler este livro.

Hoje em dia, como tantos outros tópicos de que aqui falamos, 'Lisboa Às Cores' encontra-se um pouco Esquecido Pela Net – excepção feita, claro está, ao seu próprio criador. No entanto, para uma criança em 1993 (especialmente uma que já gostasse de livros, e de ler) este álbum terá constituído uma oferta plena de acerto – ainda que talvez tenha demorado alguns anos até as mesmas se aperceberem disso...

 

30.12.21

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.

E porque na última Quinta-feira falámos aqui da importância dos brindes no contexto do bolo-rei, porque não dedicar o post de hoje a debruçarmo-nos um pouco mais a fundo sobre os mesmos?

Como quem comeu um bolo-rei na era pré-legislação europeia certamente saberá, os referidos brindes consistiam, única e invariavelmente, de um pequeno objecto em metal (sendo esta um dos principais pontos contenciosos da inclusão dos mesmos num produto alimentar, visto que os metais podem criar diversas substâncias nocivas, as quais poderiam depois ser transmitidas para o próprio bolo) com a forma de um qualquer elemento tradicional, quer da gastronomia ou cultura portuguesa (por aqui, reside bem viva a memória de uma posta de bacalhau em miniatura, obtida num qualquer bolo-rei em meados dos anos 90) quer apenas da vida quotidiana. Por vezes (embora nem sempre) o brinde incluía uma pequena argola, que permitia a sua acoplagem a um porta-chaves ou ao fecho de uma típica mochila escolar, acentuando o potencial destes objectos como 'quinquilharias' infantis.

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Exemplos de brindes do bolo-rei

E a verdade é que, embora não fossem residentes permanentes de bolsos, estojos e bolsas de mochila, estes objectos tinham o seu pequeno lugar ao sol, logo a seguir ao Ano Novo, quando o seu interesse ainda não se havia esmorecido ao ponto de os relegar para o fundo de uma qualquer gaveta de casa; e embora esse período não se prolongasse, normalmente, além da primeira semana de aulas, não deixava de ser com um sorriso que, meses mais tarde e com a época das Festas já muito distante, se tornava a encontrar o brinde do ano anterior no fundo da referida gaveta, voltando o mesmo a ser motivo de interesse, ainda que por poucos minutos. Razão mais que suficiente para que, nesta quadra que caminha a passos largos para o fim, dediquemos estas poucas linhas a este elemento clássico e tradicional das Festas portuguesas dos anos 90, entretanto extinto para sempre, mas que perdura nas nossas memórias daquele tempo.

18.11.21

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.

Na primeiríssima edição desta rubrica, falámos um pouco sobre os 'Tazos', talvez o brinde alimentício mais recordado e nostálgico dos anos 90; hoje, falamos finalmente da 'febre' que lhes sucedeu, e que atingiu níveis de sucesso quase (QUASE) semelhantes, embora se tenha afirmado como menos icónica a longo prazo.

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Falamos das Matutolas, pequenas figuras de plástico sólido ou translúcido em forma de cabeça (ou se quiserem, 'tola') que, tal como os seus antecessores, fomentavam não só a vertente coleccionista inerente a qualquer criança, mas também a veia competitiva existente dentro dela. Isto porque, como os 'Tazos', as Tolas eram, ao mesmo tempo, objectos de colecção e peças de jogo, destinadas a serem apostadas, ganhas e perdidas nos recreios e pátios por esse Portugal afora – objectivo esse que, previsivelmente, foi mais do que confortavelmente atingido.

Tão-pouco era este o único ponto em comum entre as Tolas e a colecção que lhes antecedera; as próprias regras de como jogas Matutolas eram muito semelhantes às do jogo dos 'Tazos', ainda que esta variante se desenrolasse numa perspectiva vertical, ao invés de horizontal. Como nos 'Tazos', cada jogador apostava as suas Tolas, no caso colocando-as em pé, lado a lado, sobre uma superfície plana; cada participante utilizava, então, outra Tola para tentar derrubar o maior número possível de peças em jogo, passando (ou voltando) cada peça derrubada a ser pertença desse jogador.

Um jogo, no mínimo, tão viciante como o dos 'Tazos', e que veio preencher o 'vazio' que o fim dessa colecção havia deixado no instinto coleccionador das crianças portuguesas – pelo que não é de admirar que a recepção e expansão do mesmo tenham sido tão rápidas, e praticamente tão abrangentes, como as dos seus antecessores. No ano após o fim dos 'Tazos', não havia criança portuguesa que não coleccionasse, trocasse e apostasse as pequenas cabeças grotescas da Matutano com os amigos, e que não tivesse em casa um qualquer recipiente (fosse um Portatolas oficial ou simplesmente um qualquer tubo ou 'tupperware') recheado com as suas várias aquisições, muitas delas com falhas à laia de 'cicatrizes de batalha' (as Tolas de plástico translúcido, em particular) rachavam-se com surpreendente facilidade, e haverá decerto muito poucas que tenham sobrevivido inteiras até aos dias de hoje.)

Menos popular seria a inexplicável caderneta de autocolantes (?!) que servia função dupla como livro de regras - como se um jogo de recreio necessitasse de regras oficiais escritas num livro de instruções...

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Os tubos de transporte 'Portatolas' e a inexplicável caderneta

Um último ponto em comum entre as Tolas e os 'Tazos' prendia-se com o facto de, também aqui, existirem modelos não ligados à Matutano, facilmente adquiríveis se se soubesse onde procurar, e muitas vezes mais esteticamente cuidadas que as próprias originais; no entanto, ao contrário do que acontecia com os 'Tazos', as Tolas 'falsas' eram tão bem acabadas que acabavam por ser poucos os jogadores que não as aceitassem como 'moeda de aposta' em meio às oficiais – o que, simultaneamente, facilitava sobremaneira a vida a quem não tinha por hábito (ou não era autorizado a) comer batatas fritas.

gogos-crazy-bones-nostalgia-anos-90-matutolas.jpgUm pacote de Matutolas 'não-oficiais' - ou antes, de Go Go Crazy Bones, o conceito que havia sido adaptado e renomeado como Matutolas...

Em suma, uma moda que, embora algo derivativa da que a precedera, foi ainda assim uma das três maiores da Matutano durante aquela década - juntamente com os Tazos e os Pega-Monstros, vindo as Caveiras Luminosas ainda um pouco atrás em termos de nostalgia nos tempos que correm - que marcou época tanto quanto qualquer uma delas, e que, como elas, acabou por conseguir lugar cativo no coração de muitas ex-crianças daquele tempo – embora as mesmas apenas tendam a lembrar-se dela após (e geralmente como consequência de) terem recordado os 'Tazos'...

29.10.21

Nota: Este post é relativo a Quinta-feira, 29 de Outubro de 2021.

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.

Hoje em dia, a Matutano dos anos 90 é, sobretudo, recordada pela febre extrema e até hoje inigualada que foram os Tazos; no entanto, a verdade é que a marca de batatas fritas teve várias outras promoções de sucesso ao longo da década. De uma delas, os Pega-Monstros, já aqui falámos, e das Matutolas, falaremos noutra ocasião; desta vez, e porque é Halloween, vamos falar do brinde que a marca lançou em 1993 – as Caveiras Luminosas.

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Ao contrário dos Tazos e das Tolas, não há muito que saber sobre os pequenos moldes plásticos em forma de esqueleto que passaram a sair nas batatas por volta de 1996 ou 97. De facto, este é daqueles produtos em que a informação está (quase) toda contida no próprio nome; tratam-se de Caveiras que brilham no escuro – portanto, Luminosas. A parte do 'quase' diz respeito ao facto de estes brindes terem, cada um, um capuz ou carapuço distinto – o qual 'servia' a todas as outras figuras da colecção, permitindo assim trocar as caras e criar, essencialmente, Caveiras novas e diferentes, num sistema de constante mutação que tornava a linha essencialmente infinita – bem como um buraco na parte inferior, onde uma cabeça real ligaria ao pescoço. O objectivo deste orifício, e um dos principais pontos distintivos da colecção das Caveiras Luminosas, era permitir às crianças usar as suas caveiras na ponta dos dedos, de um lápis, ou de qualquer outra superfície onde as mesmas coubessem – um toque inteligente, que ajudava a dar alguma versatilidade às Caveiras, e que ajudou a torná-las populares entre a juventude da época.

Não que a colecção precisasse de qualquer ajuda, atenção – com as suas caras ao estilo Skeletor do He-Man, os carapuços estilo Ceifeira da Morte e o esquema de cores estilo álbum de heavy metal clássico da década anterior, as Caveiras eram feitas à medida para o público-alvo (essencialmente rapazes em idade pré-adolescente, embora possam também ter sido do agrado de jovens mais velhos de inclinação gótica) e conseguiram uma recepção previsivelmente positiva por parte do mesmo. Sem chegar ao nível dos Tazos (mas nada, nunca mais, chegou) estes brindes eram também avidamente trocados e coleccionados nos recreios do Portugal de então, e conseguiram afirmar-se como a última de três promoções verdadeiramente bem-sucedidas por parte da Matutano (quatro, se quisermos incluir os Pega-Monstros) durante a década de 90 – além do assunto perfeito para uma viagem nostálgica por brindes e quinquilharias por alturas do Halloween...

 

18.08.21

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog...

…como é o caso dos clubes de jovens.

Os anos 80 e 90 foram palco de um estranho fenómeno, criado por certas entidades comerciais e culturais como forma de aliciar o público infanto-juvenil: os chamados ‘Clubes de Jovens’.E se em décadas anteriores, esta denominação tinha já sido usada para designar literais espaços onde os jovens se podiam reunir e passar os tempos livres, nestas duas décadas, a expressão passou a ser usada para designar um conceito mais abstracto, mas não menos bem-sucedido junto do público-alvo.

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Quem nunca viu esta publicidade na sua revista favorita?

Existentes para entidades tão diversas quanto editoras e supermercados, estes Clubes tendiam, ‘grosso modo’, a ter o mesmo modelo: as crianças inscreviam-se, mandavam certos dados pessoais, e passavam a fazer parte de uma lista que recebia em casa, em exclusivo e de forma periódica, brindes e outras ofertas alusivas à temática do Clube. Estes brindes consistiam, normalmente, de uma revista (de conteúdo mais ou menos interessante, mas normalmente mais cuidada do que a natureza promocional poderia fazer adivinhar) e pequenas ‘quinquilharias’ que pouco custavam a produzir e que, simultaneamente, faziam a alegria das crianças médias da época, como autocolantes.

Exemplos destes clubes eram inúmeros, começando logo nos anos 80 com o Clube Amigos Disney (este de molde um pouco diferente, suportado por um programa de televisão e mais focado em ajudar as crianças a completar as suas colecções de revistas aos quadradinhos) e expandindo-se, na década seguinte, para entidades como o Clube Rik e Rok (associado à cadeia de hipermercados Jumbo, hoje Auchan) e o Clube Caminho Fantástico, que fazia verdadeiramente jus ao seu nome, e que adquiriu estatuto de inesquecível junto de  uma ‘fatia’ específica da população jovem, muito graças aos seus fabulosos Almanaques anuais, recheados de jogos, passatempos, receitas e curiosidades, a maioria submetida pelos próprios leitores. E como estes três – os exemplos mais imediatos, sobretudo por os dois últimos serem usufruídos lá por casa – haveria muitos mais, todos sensivelmente com o mesmo ‘modus operandi’, e todos com o seu público cativo – afinal, qual é a criança que não gosta de receber coisas pelo correio, sobretudo quando lhe são relevantes e totalmente gratuitas?

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Um dos fantásticos almanaques anuais do clube da Caminho

Infelizmente, este foi mais um daqueles conceitos que a era da Internet veio tornar obsoletos – hoje em dia, os passatempos, promoções e até artigos que anteriormente sairiam na simbólica revista tendem a estar disponíveis online, tornando redundante todo o processo de inscrição e espera pelo próximo envelope recheado de coisas interessantes. Uma pena, pois – como os leitores deste blog certamente concordarão – tratava-se de um conceito apelativo, e que seria hoje visto como uma excelente manobra de ‘marketing’, por permitir a fidelização de uma demografia de grande interesse para a maioria das marcas, a um custo muitas vezes negligenciável. Mas quem sabe? Talvez nesta era das redes sociais, alguém resolva reviver o conceito, adaptando-o ao século XXI e às novas tecnologias digitais; afinal, nem seriam precisas assim tantas mudanças, e o custo seria ainda mais baixo, dado já não ser necessário produzir conteúdos físicos para justificar a inscrição. Empresários – fica a dica…

03.06.21

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.

O que vos vem à mente ao ver ou ouvir a palavra 'iô-iô'? Provavelmente, memórias felizes de conseguir que aquela 'rodinha' de plástico duro presa por um fio ficasse lá em baixo mais do que um ou dois segundos, ou de conseguirem fazer a 'volta ao Mundo', ou simplesmente de 'matar' alguns minutos de ócio com uma actividade tão repetitiva quanto divertida e intemporal. E há grandes probabilidades de a maioria dessas memórias incluir um iô-iô da Coca-Cola.

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O modelo clássico e 'básico' dos iô-iôs de bebidas da Russell

Embora não tenham sido, nem de longe, os pioneiros do género em Portugal - na época a que este blog concerne, os iô-iôs já apareciam como prémio de feira popular ou máquina de 'bolinhas' de brinde - os iô-iôs alusivos a bebidas gaseificadas foram, sem dúvida, os mais populares entre a miudagem do nosso país, pelo menos até ao aparecimento dos iô-iôs luminosos.

Já muito comuns no seu país de origem (os EUA) desde há várias décadas, esta variante de iô-iô, da marca Russell, chegou a Portugal nos anos 80, na altura apenas como brinde da própria Coca-Cola. Já nos anos 90, estes produtos constaram também da lista de prémios de uma popular promoção da mesma marca - aquela dos beepers - antes de, a partir de meados da década, se afirmarem definitivamente como um produto adquirível separadamente, em papelarias e outros estabelecimentos do género. Foi nessa altura que a 'moda' verdadeiramente pegou entre a criançada, e havia muito poucas pessoas de uma determinada idade e geração que, ali por volta de 1996-97, não tivessem pelo menos um destes items na sua colecção (deste lado havia dois, o clássico da Coca-Cola e um lindo da Pepsi.)

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Exemplo de um dos modelos mais 'avançados', comuns em meados dos anos 90.

O atrativo destes iô-iôs em particular não residia, no entanto, na simples ligação a uma marca popular e apreciada pelo público-alvo; os mesmos teriam tido, senão o mesmo sucesso, pelo menos um sucesso considerável mesmo sem qualquer inscrição nas faces laterais. Não, o segredo destes produtos residia no facto de serem extremamente bem construídos, sólidos, e de alta performance - características extremamente desejáveis no contexto de um brinquedo que, muitas vezes, 'voava' da mão para o chão alguns metros mais adiante e que, tantas outras vezes, era feito de plástico do mais barato e tinha quase de ser 'coagido' a funcionar correctamente, à força de golpes de punho. Os iô-iôs da Russell anteviam e preveniam ambos estes problemas, sendo dos melhores de sempre no que toca a manuseamento, performance . fazer 'truques' era fácil e agradável, sem os habituais 'embaraços' do cordel ou trajectórias tortas de iô-iôs mais baratos - e resistência ao choque, tudo isto a um preço que, embora mais alto do que a média, era perfeitamente justo (e justificado) para a qualidade apresentada.

Não admira, portanto, que estes singelos produtos tenham sido um êxito entre a juventude da época, que ainda hoje os recorda com afeição como os melhores - ou pelo menos DOS melhores - iô-iôs que alguma vez tiveram. Um daqueles produtos, em suma, cujo abandono e desinteresse por parte da geração mais nova é algo frustrante - porque a verdade é que, se os 'putos' de hoje em dia conhecessem os iô-iôs Russell da Coca-Cola, talvez não demorasse mais do que algumas semanas até a 'febre' ser revivida, e o TikTok passar a ser a 'central dos truques marados'...

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