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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

10.11.21

NOTA: Este post é correspondente a Terça-feira, 09 de Novembro de 2021.

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Quem sintonizava a RTP às tardes de semana no final dos anos 80 e início dos 90 (no tempo dos logotipos C1 e TV2 e dos separadores RDP) certamente terá memórias de uma senhora loira, de cabelo comprido, que se sentav a contra um fundo acinzentado e apresentava séries e uma sucessão dedesenhos animados nada menos que históricos, desde o lendário anime de Tom Sawyer ao visado na nossa última Segunda de Séries, o inesquecível Bocas.

Pois é desse mesmo programa (e dessa mesma senhora, que dele é indissociável) que vamos hoje falar. O programa, como quem viu decerto estará lembrado, chamava-se Agora, Escolha, e a senhora era Vera Roquette, figura-chave da RTP durante aquelas décadas, e não apenas por virtude deste programa.

AgoraEscolha2015.jpg

Nascido em 1986, da mente de Carlos Pinto Coelho, o Agora, Escolha destacava-se, desde logo, pelo conceito inovador – em vez de simplesmente apresentar ao espectador aquilo que a estação havia determinado, era-lhe dada a escolha entre duas opções (daí o nome do programa). Essas mesmas opções – sempre diferentes de um programa para o seguinte, e muitas vezes díspares ao ponto da quase aleatoriedade – eram delineadas pela apresentadora no início de cada emissão, juntamente com instruções sobre como os espectadores poderiam votar no seu 'bloco' preferido, A ou B; e se, hoje em dia, este tipo de votação teria lugar numa rede social, à época, a mesma efectivava-se pelo meio de comunicação mais imediato de entre os disponíveis, o telefone (numa linha de valor acrescentado, claro está.) Enquanto os espectadores votavam no 'bloco' que mais lhes agradava, Roquette ia apresentando desenhos e cartas que lhe chegavam, a grande maioria de leitores mais novos, cuja audiência era motivada pelo desenho animado que também sempre passava neste interregno.

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A carismática apresentadora, como muitos se lembrarão dela

É claro que o carácter democrático do programa era, em parte, simulado, através da criação de parelhas desequilibradas ao ponto de o resultado final ser óbvio; a primeiríssima emissão, por exemplo, propunha a escolha entre uma popular série de ficção científica norte-americana e um bailado – e não será decerto preciso pensar muito para perceber quem ganhou... Ainda assim, o conceito era 'transparente' o suficiente para ganhar a adesão do público (à qual também não ficava alheio o carisma da apresentadora) e se manter no ar durante oito anos, de meados dos anos 80 a meados da seguinte, tendo tido, inclusivamente, direito a 'promoção' da ainda hoje periférica RTP 2 para o Canal 1, à época ainda o maior dos canais portugueses.

Escusado será também dizer que um programa com o nível de sucesso do 'Agora, Escolha' (e lembrado com saudade por tanta gente) não poderia deixar de originar tentativas de repetir a fórmula – as quais, neste caso específico, vieram da própria RTP, que tentou ressuscitar o formato não uma, mas duas vezes no espaço de apenas quatro anos: primeiro em 2011, com apresentação de Marta Leite de Castro, e mais tarde em 2015. No entanto, isoladas do contexto das transmissões originais – sem o factor novidade, a grelha de programação da época, a apresentadora simpática, os desenhos dos miúdos, o Bocas e o Tom Sawyer – e com a adição de alguns detalhes perfeitamente inúteis a uma fórmula que funcionava (como o 'focus group' da versão de 2015, cujas sugestões destinadas a influenciar a escolha destroem por completo a premissa de liberdade de escolha oferecida pelo original) não é de surpreender que ambas estas tentativas tenham falhado redondamente, e tido um impacto praticamente nulo na memória colectiva portuguesa, e embora seja possível que, daqui a vinte anos, alguém escreva um artigo nostálgico sobre a edição de 2011 ou 2015 do Agora Escolha, é também muito pouco provável...

Já o original continua a viver na memória de milhares de portugueses que o experienciaram à época – entre os quais, certamente, milhares de ex-jovens que, ao verem o título e tema deste post, já terão provavelmente corrido ao YouTube, para recordar um dos programas mais inovadores e merecidamente populares da sua infância e adolescência. Para esses, deixamos aqui uma ajudinha...

 

01.11.21

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

A maioria das séries infanto-juvenis mais populares dos anos 90 são bem conhecidas, tendo muitas delas, inclusivamente, já sido abordadas neste espaço: Dragon Ball Z (no primeiríssmo post de sempre deste blog), Power Rangers, Samurai X, Tartarugas Ninja ou Moto-Ratos de Marte, por exemplo, são ainda hoje recordados com nostalgia e carinho por quem teve hipótese de com eles conviver em criança.

No entanto, paralelamente a estas séries altamente publicitadas e, em alguns casos, geradoras de autênticas 'febres' de recreio, havia outras bem mais discretas, mas não menos apreciadas pelo público-alvo; foi o caso, por exemplo, de Dartacão, Dinossauros, ou da série de que hoje falamos, a qual é tão lembrada por quem a ela assistiu como ignorada pela restante Internet.

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Falamos de 'As Aventuras do Bocas' (no original, Ox Tales), a lendária série animada transmitida pela RTP entre 1989 e 1991, e que constituía o principal motivo para a maioria das crianças sintonizarem o programa Agora Escolha, e da apresentadora Vera Roquette ter inevitavelmente uma 'pilha' de desenhos infantis a exibir a cada edição do programa (e, sim, iremos eventualmente falar do Agora Escolha nas Terças de TV.)

Criada por dois holandeses, mas animado no Japão (o que a torna, para efeitos práticos, um 'anime'), esta hilariante série animada segue as desventuras do personagem titular, um boi agricultor habitante de um mundo idiossincrático, onde marsupiais, répteis aquáticos e animais da savana conseguem coexistir e sobreviver num ecossistema tipicamente rural, e onde o gado bovino deixa de ser apenas parte da vida de uma quinta para a passar a controlar.

É neste universo que se desenrolam as histórias tipicamente 'slice of life' da série, as quais se centram normalmente numa ideia (por vezes mirabolante, por vezes apenas bem-intencionada) do personagem principal para melhorar a sua vida e a daqueles que o rodeiam; evidentemente, por se tratar de um desenho animado de índole cómica, a maioria destas situações acabam por correr mal, levando inevitavelmente Bocas a proferir a sua frase característica: 'fiz outra vez asneira!'

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Uma cena bem ilustrativa da série

Um conceito simples, mas extremamente bem executado e repleto de momentos e personagens memoráveis, a começar pela música de abertura (cantada em holandês, e sobretudo lembrada pelo seu inesquecível refrão de 'Boes, Boes', que cá por casa, à época, se acreditava ser 'cuscus, cuscus') e estendendo-se a personagens como o próprio Bocas, a tartaruga Ted - que a voz da dobragem portuguesa tornava num personagem andrógino - as irritantes toupeiras, determinadas a enlouquecer o nosso herói, o leão careca ou o elefante com atitude 'body positive' (muito antes de tal conceito se popularizar) traduzida na sua frase-bordão de 'sou levezinho, sou levezinho...'

'BOES BOES! BOES BOES!'

Os próprios guiões se prestavam a situações perfeitamente hilariantes, abrangendo desde os efeitos inesperados de uma ventoinha demasiado forte até aos perigos de colocar demasiado fermento num bolo, ou tentar decorar um elefante com uma 'capa' de flores, sempre alicerçadas em 'gags' visuais muito bem veiculados pela animação dinâmica e bem conseguida, capaz de reter a atenção do público-alvo ao longo dos dez minutos que tipicamente durava cada história (cada episódio consistia de duas histórias, perfazendo os habituais vinte e poucos minutos de duração das séries animadas da época.)

Não é, pois, de admirar que 'Bocas' tenha permanecido na memória colectiva de toda uma geração de crianças portuguesas, as quais mantiveram o interesse na série durante tempo suficiente para a inevitável Prisvídeo achar que valia a pena editar alguns (poucos) episódios naqueles seus típicos VHS (e mais tarde DVD) de capas 'quase' bem desenhadas e conteúdos algo esparsos.

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Alguns dos vídeos da série lançados em Portugal

Ainda assim, numa época em que a Internet ainda não permitia o acesso rápido, fácil e livre a conteúdos nostálgicos de qualquer altura da História, estas 'cassettes' e discos afirmavam-se como a única forma de as crianças portuguesas poderem recordar aquele desenho animado que tanto os havia feito rir alguns anos antes (hoje em dia, como não podia deixar de ser, uma rápida pesquisa no YouTube permite encontrar todos os episódios, dobrados em português e organizados por ordem cronológica numa 'playlist', para máxima comodidade).

Quanto à série em si, continuou (e continua) a perfilar-se ao lado de 'Dartacão' como exemplo perfeito de como uma série sem grande publicidade e sem qualquer 'merchandise' oficial (além dos referidos vídeos) pode, ainda assim, fazer sucesso entre as crianças, apenas com base na sua qualidade; nesse aspecto, pelo menos, pode considerar-se que 'Bocas' não fez, de todo, asneira...

Primeira história do primeiro episódio da série

 

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