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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

24.12.25

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Já aqui em ocasiões anteriores falámos da série brasileira 'Natal Disney de Ouro', uma das muitas a chegarem do 'país irmão' graças à ligação da editora Abril ('magnata' dos quadradinhos Disney em Portugal) à ex-colónia lusitana. O que poucos saberão - a menos que tenham a referida revista ou a tenham descoberto, como nós, no indispensável 'website' I.N.D.U.C.K.S. - é que chegou também a existir uma 'versão portuguesa' desse mesmo conceito, intitulada 'Disney Natal', mas que não foi além de um único número, lançado em Novembro de 1994. E porque, no ano transacto, deixámos passar a oportunidade de assinalar o trigésimo aniversário da sua publicação, nada melhor do que rectificar agora esse erro - ainda que com mais de doze meses de atraso - e incluir a referida revista na nossa série de 'posts' natalícios para 2025.

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Não que o 'Disney Natal' português (lançado nas bancas, estranhamente, a 16 de Novembro) difira grandemente do seu congénere 'De Ouro' de além-mar; antes pelo contrário, já que a premissa é exactamente a mesma, passando por reunir algumas das principais histórias alusivas à época natalícia produzidas ao longo dos tempos - embora, sem surpresas, com particular incidência no período então contemporâneo, ou seja, o início da 'hegemonia' italiana que brevemente 'tomaria conta' das publicações Disney, em solo nacional e não só. Apesar de haver já algumas produções dessa leva, no entanto, a proposta é, aqui, ainda algo mais variada, com as mesmas a dividirem espaço, nas duzentas e sessenta páginas do volume, com muitas histórias clássicas criadas nos estúdios norte-americanos, numa proporção praticamente idêntica, e ainda algumas (menos) de outras proveniências. No total, eram quase uma dezena e meia de aventuras, com os mais diversos personagens (embora, claro, com destaque para os 'pesos-pesados', como Mickey, Pateta ou a família Pato) que faziam por justificar o 'avolumado' preço de quase setecentos escudos - quase o triplo do preço de uma revista comum da altura, e uma autêntica 'fortuna' para a grande maioria do público-alvo, para quem este livro quase representaria um 'presente de Natal adiantado'!

Ainda assim, para quem era fã dos personagens ou das publicações Disney da Abril, havia aqui material suficiente para passar uma bela noite de Consoada no sofá, embrenhado nas peripécias natalícias dos seus heróis favoritos, o que, por sua vez, levanta a questão do porquê de nunca ter havido uma segunda edição tematizada em torno do Natal (a menos que se conte a semelhante-mas-não-igual 'Disney Natal Especial', lançada três anos depois). Seja qual for o motivo, no entanto, a verdade é que este 'número único' adquire assim, ainda que involuntariamente, o estatuto de 'edição de coleccionador', merecendo assim uma menção na exacta época do ano em torno da qual se tematiza.

27.02.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2025.

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Já aqui por diversas vezes falámos da enorme latitude que a hegemonia da Abril-Controljornal sobre o mercado da banda desenhada 'de quiosque' em Portugal lhe permitia. Com a sua principal competição a vir do estrangeiro – nomeadamente do Brasil – a editora responsável pelas revistas Disney e Marvel tinha amplas oportunidades para experimentar os mais diversos conceitos sem, com isso, arriscar perder o seu espaço dentro do referido mercado. A série de que falamos hoje é apenas mais uma dessas tentativas, desta feita tematizada e coerente, mas com uma designação tão genérica quanto confusa, e abertamente baseada em OUTRA série de publicações Disney da mesma editora.

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Os três únicos vestígios da revista restantes na Internet.

De facto, a colecção de volumes conhecida como 'Especial Pateta' é totalmente separada do icónico 'Disney Especial', surgindo, em vez disso, sob a designação 'Hiper Disney', talvez pelo número avultado de páginas. No entanto, os números desta série estão longe de ser apenas variantes do normal Hiper Disney, centrando-se em vez disso em torno de um personagem específico – o eterno coadjuvante de Mickey nas páginas da Abril – o que os aproxima mais de um...Disney Especial!

Confusões à parte, no entanto, o que a (pelo menos) dúzia de títulos publicados há cerca de trinta anos oferece é, precisamente, aquilo que promete: uma selecção de alguns dos melhores momentos de Pateta enquanto personagem principal ou de relevo, divididas entre as habituais histórias mais clássicas e a vertente mais moderna, representada por tramas criadas no Brasil ou em Itália. Para além do generoso tamanho do volume – perfeito para ser lido numa viagem mais longa ou numa tranquila tarde de fim-de-semana – pouco mais há a dizer sobre aquela que é, para todos os efeitos, apenas 'mais uma' das muitas colecções lançadas pela Abril nesta época, mas que decerto não terá deixado de agradar aos fãs da personagem em foco (entre os quais se contava, na altura, o autor deste 'blog', que teria decerto apreciado esta colecção). Nada de essencial ou revolucionário, mas ainda assim uma colecção de revistas de BD bem conseguida, que, três décadas após o seu último volume, merecia ser mais lembrada pelos fãs dos 'quadradinhos' Disney em Portugal.

01.01.25

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Fosse pela novidade de ver os números iniciais mudarem de 19 para 20, pela efeméride histórica de, ao mesmo tempo, passar um ano, um século e um Milénio, ou pelos abundantes rumores sobre vírus de computador e o fim do Mundo, a verdade é que a entrada para o ano 2000 se perfila, ainda hoje, como talvez a mais mediática de sempre. Assim, não é de surpreender que a hegemónica e omnipresente editora Abril/Controljornal - sempre atenta a eventos sobre os quais pudesse capitalizar, de campeonatos de futebol a filmes de grande orçamento - tivesse tirado proveito da icónica data para lançar no mercado nacional mais uma das suas inúmeras revistas 'individuais' alusivas aos personagens Disney.

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De facto, ao contrário do que o título dá a entender, 'Disney Especial Ano 2000' não faz parte da decana série de 'almanaques' temáticos periodicamente lançados pela editora, sendo uma publicação de cariz único, na linha da supramencionada adaptação de Titanic ou de 'experiências' como 'Os Meus Heróis Favoritos' ou 'Arquivos Secretos do Detective Mickey'. Fosse qual fosse o motivo por detrás de tal decisão, a verdade é que a estratégia posicionava a referida edição como um número 'hiper-especial', daqueles que apenas raramente surgem no mercado, o que, aliado à topicidade do tema escolhido, terá sem dúvida ajudado a aumentar as suas vendas. Pena, pois, que o comprometimento por parte da Abril tenha sido apenas parcial, já que a segunda metade das duzentas e sessenta páginas do volume abandona a temática proposta - a de apresentar 'sucedâneos' e antepassados dos personagens em aventuras através dos séculos - transformando-se em 'apenas mais um' amontoado de histórias sem qualquer conexão aparente.

Ainda assim, a primeira metade do volume, aliada à atractiva capa (ainda que algo 'falha' de verdadeiros personagens de 'nome', sendo os sobrinhos de Donald as únicas caras imediatamente reconhecíveis) à percepcionada exclusividade da edição e à topicidade da temática escolhida, terá sido suficiente para cativar muitos jovens leitores da época, a maioria dos quais era, em maior ou menor grau, 'fiel' às revistas Disney da Abril e terá dado por bem-empregue o seu dinheiro. Estes factores são, também, mais que suficientes para justificar algumas linhas alusivas a esta edição, numa altura em que se acaba de celebrar o vigésimo-quinto aniversário da efeméride que lhe serve de tema.

05.12.24

NOTA: Este post é respeitante a Quarta-feira, 04 de Dezembro de 2024.

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

Já aqui em diversas ocasiões falámos do quase total monopólio que a Abril Jovem (ou Abril-Controljornal) tinha sobre o mercado de banda desenhada em português dos anos 80 e 90. Fosse através de títulos próprios, fosse por meio de importações brasileiras, a editora era responsável por grande parte dos lançamentos vistos nas tabacarias ou quiosques do nosso País, sendo a grande e honrosa excepção a Turma da Mônica, que, a partir de 1987 e até aos primeiros anos do século XXI passaria a pertencer à Globo. Tendo em conta todo este domínio e hegemonia, não é de surpreender que a casa editorial em causa tenha querido, em meados da última década do século XX, 'puxar a brasa à sua sardinha' através do lançamento de uma revista própria quase inteiramente dedicada aos títulos do seu catálogo.

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Mais do que um veículo de propaganda, no entanto (que era), 'Heróis' procurava ser uma espécie de versão portuguesa e muito simplificada da lendária 'Wizard', a referência internacional por excelência para quem se interessava por banda desenhada, jogos de vídeo ou figuras de acção naquela época. Face aos preços proibitivos das edições desta última importadas quer da América do Norte, quer da do Sul, não deixava no entanto de constituir um objectivo nobre querer oferecer aos jovens nacionais uma alternativa com talvez menos qualidade, mas também a uma fracção do preço.

E a verdade é que grande parte do público-alvo, já de si habituados a padrões de qualidade pautados pelo mediano, não pareceu importar-se grandemente com os artigos curtos ou a impressão em papel de jornal, aderindo em massa à 'Heróis' durante o curto tempo da mesma nas bancas. E com alguma razão, já que, ultrapassados estes aspectos menos cuidados ou conseguidos, a revista se afirmava como uma fonte bastante razoável de informação sobre assuntos que interessavam à sua faixa demográfica alvo, sobretudo centrados nos super-heróis da Marvel e DC (que a Abril editava à época) mas passando também pelos mundos dos desenhos animados e dos videojogos, incluindo mesmo uma grelha televisiva com destaques para programas potencialmente do interesse dos mais jovens. Um recurso mais valioso do que poderia à primeira vista parecer, portanto, e que justificava bem o investimento de cem escudos – especialmente se trouxesse acoplada uma carta holográfica (ou Holoucura), como aconteceu com os primeiros números.

Tal como referido anteriormente, foi curto o tempo da vida da 'Heróis'. No entanto, mesmo com esse reduzido intervalo, a revista conseguiu deixar a sua marca junto dos jovens fãs das BD's da Abril – mesmo que hoje se encontre algo Esquecida Pela Net (ainda que seja possível encontrar pelo menos uma digitalização de um dos números publicados, no caso o número 4, que ilustra também esta publicação.) Nada mais merecido, portanto, do que dedicar este 'post' duplo a preservar a memória daquela que foi mais uma publicação de (relativa) qualidade dirigida ao público jovem português da geração 'Millennial'.

24.07.24

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

É uma verdade inegável que, de entre todos os personagens da Walt Disney, o Rato Mickey goza do estatuto de 'estrela', tendo desde sempre sido a 'cara' da companhia, e contando-se hoje em dia entre os ícones 'pop' mais reconhecíveis a nível mundial; no entanto, não é menos acertado dizer que o Pato Donald ocupa um segundo lugar muito próximo nessa lista, surgindo à frente de Pateta (o terceiro personagem do 'trio maravilha' da BD Disney) e da própria namorada de Mickey, Minnie. Assim, não é de todo de espantar que, aquando dos dois aniversários marcantes que o pato mais famoso do Mundo celebrou durante os anos 90, a sua editora nacional da altura realizasse uma comemoração 'à altura', tal como fizera por ocasião dos aniversários de sessenta e cinco e setenta anos de Mickey. O resultado foram duas edições comemorativas que – ao contrário do que sucedia com pelo menos uma das do Rato Mickey – valia bem a pena ter na colecção para quem fosse fã da irascível ave aquática de fato de marinheiro.

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A primeira destas, que comemora dentro de um par de dias (a 26 de Julho) o trigésimo aniversário da sua chegada às bancas, era alusiva aos sessenta anos de Donald, e trazia quase duzentas e quarenta páginas com quase duas dezenas e meia de histórias protagonizadas pelo pato aniversariante e seu restante núcleo, com especial ênfase para os seus sobrinhos, catalistas da dinâmica familiar presente em muitas histórias do personagem. Infelizmente, das vinte e quatro aventuras que compunham o volume, a esmagadora maioria era de produção (à época) moderna, tendo sido originalmente publicada em meados da década de 80, o que fazia da edição pouco mais do que um Hiper Disney tematizado em torno do aniversário de Donald. Ainda assim, uma edição de valor para quem privilegiasse o coleccionismo, pese embora o proibitivo preço (quase setecentos escudos, uma 'pequena fortuna' em 1994, sobretudo no tocante a banda desenhada).

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Previsivelmente, muitas das falhas dessa primeira edição eram corrigidas na segunda, saída quase exactamente cinco anos depois, no mesmo mês de Julho (embora a data exacta de publicação não se encontre, neste caso, disponível) e que comemorava os sessenta e cinco anos do pato marinheiro. De facto, apesar de contar com apenas dois terços das páginas da 'irmã mais velha' (menos de duzentas), esta edição tirava o máximo proveito do espaço de que dispunha, apresentando não só uma mistura mais equilibrada de histórias antigas e modernas (com mais de metade – cinco em nove – assinadas por Carl Barks) como também uma estrutura seccionada por temas, cada um deles introduzido por uma página de texto informativo, e ainda uma capa e contra-capa dedicadas e devidamente assinaladas. Medidas que, em edições menos especiais, poderiam parecer 'para encher chouriços', mas que, neste contexto, dão ao volume o carácter diferenciado que se espera de uma edição de aniversário – e tudo por menos de quinhentos escudos, o que, em 1999, era consideravelmente menos do que os setecentos de 1994! Estes pequenos mas nada insignificantes ajustes ajudavam a fazer da edição '65 Anos' a melhor das duas, e mais do que colmatavam a redução em conteúdo e número de páginas, tornando-a quase essencial para fãs do temperamental pato.

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De realçar ainda duas edições, ambas de 1994 e ambas publicadas à margem das 'oficiais' da Abril: 'Feliz Aniversário, Donald – O Livro de Ouro das Suas Melhores Histórias', publicada pela RBA Editora como parte da colecção 'Disney em Banda Desenhada', e o livro do mesmo título da colecção 'Clássicos da BD'. Ambas são bem sucedidas em transmitir a sensação de 'edição de luxo', com as suas capas encadernadas e de cuidado desenho, mas (apesar dos títulos quase idênticos) os conteúdos de ambas são vastamente diferentes: o volume da RBA Editora segue, em larga medida, a mesma linha das edições da Abril, abrindo com três páginas dedicadas à génese do personagem e uma quarta com instruções sobre como desenhar Donald, e partindo daí para uma colectânea de histórias de todas as eras do personagem, enquanto o segundo livro foca-se, sobretudo, nas informações sobre a génese e percurso do aniversariante, descurando o aspecto de BD em si (embora contenha ainda duas histórias, nas últimas páginas.) Duas abordagens completamente diferentes, mas que resultam ambas bastante bem, podendo mesmo ser consideradas melhores do que qualquer das propostas da Abril/Controljornal, as quais não tinham quaisquer pretensões a ser algo mais do que revistas aos quadradinhos ligeiramente mais luxuosas do que a média.

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Independentemente do volume em que recaísse a escolha do jovem leitor, no entanto, uma coisa é certa: o sexagésimo e sexagésimo-quinto aniversários de Donald foram celebrados com tanta ou mais pompa e circunstância que o do 'melhor inimigo', e providenciou aos fãs do pato mais famoso do Mundo muito e bom material de leitura durante aqueles Verões de 1994 e 1999. Feliz aniversário, Donald, e que contes ainda muitos.

19.06.24

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Na última semana, temos vindo a focar os nossos 'posts' em produtos alusivos, ou derivados, das séries exibidas, em inícios dos anos 90, pelo espaço Clube Disney; e, depois de termos falado dos diversos videojogos protagonizados por personagens das mesmas, nada melhor do que dedicarmos a nossa atenção ao 'outro' grande meio artístico em que a companhia se movia, além dos desenhos animados – a BD. Isto porque, apesar de a maioria das séries em causa apenas ter direito a tradução em Português 'de Portugal' já vários anos após a sua saída do 'ar' (nomeadamente através de diversas séries de álbuns aparentemente desconexas e algo aleatórias), foram ainda assim feitos alguns esforços para apresentar histórias alusivas a alguns dos personagens ainda durante o apogeu da sua popularidade, nomeadamente por parte da editora por excelência de materiais Disney em Portugal, a então ainda chamada Abril Jovem. De entre estes, destaca-se a edição de um luxuoso álbum encadernado, com centenas de páginas, exclusivamente dedicado à reprodução de histórias com a 'marca' DuckTales, das quais existia já uma vasta selecção do outro lado do oceano, por terras de Vera Cruz.

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Certamente editado em simultâneo com a transmissão da série na RTP, por forma a capitalizar sobre a sua popularidade (embora a data exacta de publicação seja desconhecida), 'DuckTales – Os Caçadores de Aventuras' era uma importação directa do Brasil (o que explica a utilização do título empregue naquele país, por sinal MUITO melhor e mais adequado que o português) e reunía, num só volume, nada menos do que quatro números da revista brasileira do mesmo nome, a qual, mau-grado a profusão de edições transatlânticas no mercado português, nunca chegou a ser distribuída por terras lusas. No total, eram doze histórias, distribuídas ao longo de quase trezentas páginas (!) nas quais cabiam, também, frontispícios informativos e contextualizantes, e até uma página de passatempos. Um verdadeiro 'maná' de material a explorar para fãs da série, e que apenas torna mais deprimente o facto de nenhuma destas histórias alguma vez ter tido uma edição 'a sério' em Portugal.

Ainda assim, este álbum não terá deixado de constituir um verdadeiro 'evento' para quem tinha interesse na série em causa, fazendo por justificar o sem dúvida exorbitante preço de revenda, e destacando-se decididamente da miríade de edições 'normais' deitadas para as bancas pela hegemónica Abril a cada novo mês durante a época em causa.

22.05.24

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

A hegemonia da Abril Jovem (depois Abril-Controljornal) no seio do mercado de banda desenhada português de inícios dos anos 90, e os riscos que essa posição permitia tomar sem grandes repercussões, são já temas recorrente desta rubrica do nosso 'blog'; menos falado, no entanto, é o facto de a ubiquidade das BD's Disney nas tabacarias e bancas de jornais portuguesas ter motivado outras editoras a tentar conseguir um pedaço de tão lucrativo 'bolo', fosse através da edição de álbuns individuais, fosse, como no caso do tema deste 'post', através de uma colecção completa.

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Um dos álbuns da série, no caso tematizado na então recém-inaugurada Eurodisney.

Genericamente intitulada 'Disney em Banda Desenhada', a série editada pela RBA Editora há cerca de trinta anos revelava, infelizmente, tão pouco cuidado na selecção de histórias como na denominação da série. Isto porque, em oposição directa à tematização explícita das edições especiais da Abril, a colecção da RBA parece não ter um fio condutor, ou sequer propósito declarado, cabendo na mesma desde histórias da Disney Adventures traduzidas (com personagens como o Comando Salvador ou o Pato da Capa Preta) até adaptações directas de filmes da companhia como Aladdin, Basílio o Grande Mestre dos Detectives ou o segundo filme de Bernardo e Bianca, passando por histórias mais compridas e épicas, livros compostos inteiramente por 'tirinhas' de uma página e até uma edição comemorativa do aniversário da criação do Pato Donald, que por essa altura celebrava sessenta anos de existência. Um verdadeiro 'balaio de gatos', que tinha a vantagem de oferecer conteúdos um pouco para todos os gostos (e em luxuosa edição em formato livro, por oposição às habituais revistas formato A5) mas pecava pela falta da coesão a que a Abril Jovem havia habituado (mal) os seus leitores.

Não é, pois, de admirar que a referida colecção não tenha sido mais do que um mero 'ponto' no 'radar' da banda desenhada Disney dos anos 90, ofuscada tanto por alguns dos álbuns editados pela própria Abril como por colecções como a que propunha adaptações bilingues de todos os filmes da companhia. Ainda assim, a série da RBA ofereceu algo, à época, ainda pouco visto, nomeadamente histórias declaradamente afastadas do 'núcleo duro' de personagens da companhia, o que poderá ter servido de 'chamariz' para os fãs das BD's Disney já fartos do constante foco em Mickey e Pateta. Para esses, a colecção ora em análise poderá ter tido algum factor nostálgico; para o fã comum das revistas da Abril, no entanto, o mais provável é que esta série tenha passado quase despercebida

08.05.24

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Já aqui anteriormente falámos do uso de personagens estabelecidos e reconhecidos no contexto da banda desenhada institucional; de facto, enquanto algumas companhias arriscavam criar personagens próprios para veicular as suas mensagens (com o acréscimo de poderem servir função dupla como mascotes do clube de fãs ou imagem da marca junto do público jovem) outras instituições preferiam 'jogar pelo seguro' e co-optar 'porta-vozes' licenciados, capazes de cativar activamente e comprovadamente a demografia menor de idade. Foi assim com o Instituto Português da Qualidade, em 1997 e 1999, e foi também assim com o Banco Espírito Santo, que, há quase exactos trinta anos, entre Fevereiro e Março de 1994, lançava em parceria com o jornal 'Expresso' a série de fascículos 'A Economia do Tio Patinhas'.

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Capa do primeiro fascículo da série, lançado a 12 de Fevereiro de 1994.

Tirando o máximo partido do facto de o referido jornal deter já a licença para publicar BD Disney no seu suplemento jovem, a série em causa combina a diversão da banda desenhada pura e dura com um aspecto mais informativo e educativo, estando o primeiro e terceiro fascículos (cada um com quarenta páginas) dividida quase exactamente ao meio entre a história de BD e um artigo referente a um aspecto da economia considerado relevante para o público-alvo, no caso o funcionamento da banca e a arte de investir. Infelizmente, este conceito acabou por não ser mais explorado, e nove dos restantes dez fascículos ficar-se-iam apenas pela BD em si; o formato dividido seria, no entanto, recuperado no décimo-segundo e último fascículo, lançado em finais de Março e que continha uma longa homenagem escrita a Carl Barks, o lendário criador de aventuras de Donald e companhia no período clássico das BD's Disney.

Apesar do potencial algo desperdiçado para verdadeiramente instruir os jovens 'X' e 'millennials' sobre o dinheiro e as possibilidades oferecidas pelo mesmo – tópico ainda hoje relevante para a demografia em causa – 'A Economia do Tio Patinhas' não deixa de ser um conceito temático interessante, e capaz de aumentar ainda mais os níveis de interesse no suplemento infanto-juvenil do 'Expresso'. É de lamentar, pois, que o mesmo, e o parceiro BES, não tivessem querido explorar verdadeiramente a fundo o fruto da sua união; caso contrário, esta série poderia ter constituído um marco nos anais da BD portuguesa, tanto institucional como comercial.

24.04.24

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Em tempos considerado a personalidade mais conhecida em todo o Mundo (fosse fictícia ou de 'carne e osso') o Rato Mickey continua, até hoje, a ser um ícone verdadeiramente intemporal da cultura popular, presente no imaginário infanto-juvenil de todas as gerações surgidas desde a sua criação em finais dos anos 20, e sempre com o mesmo (alto) nível de popularidade. Assim, não é de surpreender que cada novo aniversário do roedor mais famoso do Mundo seja motivo para celebração, com um sem-número de eventos alusivos à data e transversais a todas as áreas culturais em que o rato de Walt Disney se inseriu; e, sendo a banda desenhada uma das principais de entre elas, tão-pouco é de espantar que se tenham verificado, ao longo dos anos, uma série de edições comemorativas, lançadas um pouco por todo o Mundo.

Enquanto mercado da 'linha da frente' no consumo de banda desenhada em finais do século XX, Portugal não podia, claro, ser excepção a esta regra, tendo visto serem lançadas uma série de especiais alusivos ao aniversário de Mickey, pela mão da Abril, então detentora dos direitos de edição das BD's Disney em Portugal. O primeiro destes, de 1988, era uma verdadeira edição histórica, com vários volumes que traçavam o percurso de Mickey através das décadas; já o segundo pouco passava de uma revista vulgar, com as únicas alusões à efeméride a terem lugar no desenho de capa – e, para cúmulo, lançada com atraso de quase um ano! Um deslize que, crédito lhe seja feito, a editora tentou corrigir com o lançamento seguinte, editado há vinte e cinco anos, por ocasião dos setenta anos de Mickey, que surgia em formato encadernado e dividida em dois volumes, num total de quase duzentas páginas de banda desenhada.

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Capas dos dois volumes do especial, cada um com cem páginas.

Felizmente, tal como acontecera com o especial de 1988, também aqui a qualidade do conteúdo se coadunava com a apresentação, surgindo cada um dos volumes dividido em secções temáticas, cada uma com um respectivo texto introdutório e explicativo. O primeiro volume trazia, assim, uma parte dedicada às tiras diárias de Floyd Gottfredson, outra ao detective Sir Lock e outra à 'Patrulha Estelar' que trazia Mickey e Pateta como astronautas e heróis futuristas; já o segundo tomo trazia secções alusivas aos principais coadjuvantes e personagens secundários do universo de Mickey, como o Capitão Plim, o extraterrestre Esquálidus e o inevitável Pateta – embora, estranhamente, deixando de fora nomes tão icónicos como João Bafo-de-Onça, Mancha Negra e, claro, a namorada do herói, Minnie. Deste volume faziam, ainda, parte um texto genérico sobre outros personagens, um 'cantinho do artista', onde eram publicados alguns desenhos enviados para a editora por fãs do rato e respectivos amigos, e uma história interactiva, em prosa, que convidava os leitores a resolverem o mistério de onde estaria o bolo de aniversário de Mickey.

No cômputo geral, portanto, uma edição que fazia por justificar o (sem dúvida exorbitante) preço de capa, e por 'emendar a mão' após a 'derrapagem' por altura dos sessenta e cinco anos do personagem – objectivos que atingiu com louvor, perfilando-se como uma homenagem tão adequada como justa e sentida a um dos maiores personagens de banda desenhada de sempre, que (aos quase cem anos de 'vida') continua tão relevante como sempre foi.

06.12.23

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Qualquer período hegemónico que se estenda por vários anos, ou até décadas, é praticamente impossível de manter inalterado; por muito poucas mudanças que se procurem fazer num contexto deste tipo, algo acabará, inevitavelmente, por se alterar ou evoluir. É, pois, importante estabelecer, em situações deste tipo, elos de ligação que permitam manter o produto ou criador em causa reconhecível para lá de quaisquer diferenças superfíciais no conteúdo; e uma boa maneira de conseguir este objectivo é estabelecer uma ou mais 'tradições', levadas a cabo em intervalos periódicos ou na época do ano apropriada. Para a Abril-Controljornal, praticamente monopolista do mercado nacional de 'livros aos quadradinhos' de finais do século XX e inícios do XXI – uma dessas tradições prendia-se com o lançamento, todos os meses de Dezembro, de um ou mais títulos de BD Disney dedicados ao Natal. E apesar de ter tido particular expressão até inícios da década de 90, a verdade é que esta tradição se mantinha ainda vigente nos últimos anos do Segundo Milénio, como o prova o título que abordamos nesta primeira de duas Quartas aos Quadradinhos de Natal.

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Lançado há exactos vinte e seis anos, em Dezembro de 1997, 'Disney Natal Especial' insere-se na vasta categoria de títulos de 'número único' lançados pela Abril durante esse período da sua existência, juntando-se a revistas como 'Os Meus Heróis Favoritos', 'Arquivos Secretos do Detective Mickey' ou a edição tematizada em torno do filme 'Titanic', todas lançadas num espaço de dois anos entre 1996 e 1998. Ao contrário destas, no entanto, o propósito desta edição é bem claro, pretendendo a mesma preencher a 'vaga' de 'revista Disney de Natal' daquele ano. Para esse efeito, 'Disney Natal Especial' apresenta onze histórias (mais uma tirinha de página única) espalhadas ao longo das suas cem páginas, fazendo por justificar o preço de 310$00, à época alinhado com o de outras edições 'grossas', como o 'Disney Especial'.

Previsivelmente, todas e cada uma das BD's incluídas no volume tem um tema em comum – no caso, a quadra natalícia, e todas as celebrações em torno da mesma. Esta é, no entanto, mesmo a única linha condutora entre as histórias da revista, já que, apesar de a maioria das mesmas ter sido produzida poucos anos antes do lançamento do título, chega a haver em 'Disney Natal Especial' histórias de finais dos anos 70 e inícios da década seguinte, cujo estilo e atmosfera são marcadamente diferentes dos das mais 'actuais' produções italianas. De igual modo, outro aspecto que poderia ter ajudado a unificar a selecção, mas que acaba por não ser 'levado a termo' é o foco no núcleo dos patos, que monopoliza oito das doze histórias incluídas, sendo as restantes três protagonizadas por Mickey e Pateta (em dois casos) e pelo elenco da série animada 'TaleSpin' (ou 'Aventuras do Balu'), que tinha, à época, título próprio, mas que não viria a passar em Portugal ainda durante alguns anos, sendo os seus personagens conhecidos das crianças portuguesas apenas através da inclusão de algumas das suas aventuras em títulos deste tipo.

Ainda assim, e apesar destas idiossincrasias, 'Disney Natal Especial' terá acabado por cumprir a sua função de 'dar que ler' aos fãs de quadradinhos Disney na quadra natalícia de 1997. E por não termos tido conhecimento da sua existência aquando do seu vigésimo-quinto aniversário – altura em que lhe teríamos dedicado um 'post' celebratório dessa efeméride – procuramos agora, um ano depois, corrigir esse deslize, e falar daquela que viria a dar o mote para muitas mais edições 'isoladas' de Natal no século e Milénio seguintes, mas que à época de publicação se afirmava, passe a expressão, como artigo único no panorama da BD Disney em Portugal.

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