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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

13.12.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 10 e Quinta-Feira, 11 de Dezembro de 2025.

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

Já aqui por várias vezes no passado recordámos autores de banda desenhada nacionais cujas carreiras lhes outorgaram maior ou menor grau de sucesso quer a nível nacional, quer internacional; agora, chega a vez de juntar a essa lista um criador cujo trabalho foi feito sobretudo 'nas sombras', mas sem o qual muitos dos nomes já aqui falados talvez nunca tivessem conseguido fazer despontar a sua carreira.

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Falamos de Carlos Alberto Gonçalves, fundador e presidente do Clube Português de Banda Desenhada (cujo boletim também chefiou nos primeiros anos) que, ao mesmo tempo, exercia também funções no Correio da Manhã, tornando esta Quarta aos Quadradinhos também numa Quinta no Quiosque. E a verdade é que esta associação a um periódico de referência foi altamente benéfica para a BD portuguesa como um todo, já que, ao longo das quase duas décadas que passou naquele órgão de comunicação, Gonçalves esforçou-se por dar a conhecer nomes da cena, através de entrevistas e peças especializadas, tendo-lhes assim oferecido um 'palco' mais alargado e, potencialmente, novos leitores e seguidores, o que justifica a afirmação feita no parágrafo inicial deste texto. Este 'serviço de utilidade pública' estendia-se, aliás, também ao Diário Popular e à revista 'História', onde o jornalista e artista chegou a publicar uma série de artigos alusivos à História da banda desenhada em Portugal, e outra referente ao papel das mulheres na mesma.

Nem só de divulgação se ocupava Carlos Gonçalves, no entanto, já que o mesmo chegaria, ele próprio, a editar uma 'fanzine' nos anos de viragem do Milénio, ainda que esta não tenha passado dos oito números. Além disso, o seu nome surge frequentemente ligado a festivais e concursos de BD nacionais, normalmente na qualidade de organizador ou júri, posição em que pode fazer uso dos seus vastos conhecimentos e experiência no campo para aconselhar e criticar construtivamente jovens artistas – no fundo, uma extensão natural do trabalho que vem desenvolvendo desde os inícios de carreira, e que lhe vale o título de 'cronista' da banda desenhada nacional.

26.11.25

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Já aqui em ocasiões anteriores falámos da obra de José Ruy, talvez o mais solicitado ilustrador português das décadas de 80 e 90, sendo invariavelmente o escolhido para dar vida aos personagens de álbuns de banda desenhada ligados à História de Portugal, biografias, relatos de época ou representações visuais de contos e lendas tradicionais, nos quais a sua bibliografia é fértil. Em 1986, no entanto, Ruy embarcaria num projecto diferente do seu habitual – a passagem de várias das histórias dos dois 'Livros da Selva', de Rudyard Kipling, para um formato de banda desenhada. O resultado foi 'Como Apareceu o Medo', editado quatro anos depois (em Abril de 1990) pela Editorial Notícias, e sobre o qual nos debruçamos esta Quarta-feira.

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Com trinta e duas páginas originalmente contidas num volume de capa mole (mais tarde, seria reeditado com capa dura) 'Como Apareceu o Medo' é exactamente aquilo que a capa apregoa – uma colectânea de várias das muitas histórias de animais escritas por Kipling, com o 'famoso' conto-título à cabeça, com desenhos e ilustrações da autoria de José Ruy a acompanhar a prosa original do autor indo-britânico, que recebe um crédito como co-autor. Infelizmente, embora a capa e os detalhes da publicação sejam fáceis de encontrar com um bom motor de pesquisa, das páginas interiores não restam quaisquer vestígios digitalizados, tornando impossível mostrar o estilo gráfico do livro, para lá da visualmente impactante capa; é de crer, no entanto, que os desenhos seguissem o estilo habitual de Ruy, que fica desde logo bem patente na magnífica ilustração de Shere Khan, o famoso tigre assassino d''O Livro da Selva', que domina o referido frontispício.

Em suma, e apesar de se tratar de uma proposta arriscada (tanto pelo número de admiradores do texto original como por ser difícil interessar crianças em textos clássicos) a adaptação em BD de 'Como Apareceu o Medo' parece ter tido algum grau de sucesso, senão em termos de vendas, pelo menos de execução. Pena é, portanto, que seja impossível encontrar exemplos da arte deste livro na Internet actual – embora os interessados tenham bom remédio, já que o livro ainda hoje continua a ser reeditado, e se encontra disponível nas boas livrarias, pronto a dar azo a mais uma geração de fãs do 'imortal' José Ruy...

14.11.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 12 de Novembro de 2025.

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

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Os três primeiros volumes publicados pela Planeta DeAgostini, no ano 2000.

À entrada para o Terceiro Milénio, a 'marca' 'Guerra das Estrelas' encontrava-se revitalizada, graças à estreia, no ano anterior, do primeiro filme original da série em mais de uma década e meia. De facto, apesar de 'Episódio I – A Ameaça Fantasma' ter dividido opiniões, a nova aventura da Ordem dos Jedi serviu, ainda assim, para apresentar 'Star Wars' a toda uma nova geração, e serviu como 'desculpa perfeita' para relançar a trilogia original de filmes em VHS e DVD, bem como para a criação de toda uma nova linha de 'merchandising', brindes e promoções alusiva à 'ópera espacial' de George Lucas, destinada não só ao comércio puro e duro, como também à expansão do 'universo alargado' da saga, um dos mais tradicionais aspectos ligados à mitologia da mesma.

Assim, foi sem surpresa que os mercados internacionais – incluindo o português – viram surgir um sem-número de novos produtos com a licença 'Guerra das Estrelas', e tão-pouco foi de espantar que, entre eles, se contasse uma grande variedade de livros e álbuns de banda desenhada. E se os romances, muito apreciados nos Estados Unidos, nunca chegariam a ser traduzidos (ao contrário do que se passara com outra grande propriedade intelectual de Lucas) as diversas histórias de banda desenhada da saga começariam a ser publicadas na Península Ibérica logo a partir desse ano de 2000, não pela então ainda ubíqua 'rainha dos quadradinhos' Abril-Controljornal (que publicara a primeira BD da franquia a surgir em Portugal, três anos antes), mas pela editora conhecida, sobretudo, pelas suas colecções em fascículos – a Planeta DeAgostini.

De facto, era a companhia espanhola quem se encarregava de colocar nas bancas ibéricas as 'novelas gráficas' do universo alargado de 'Star Wars', tendo, logo nesse ano, editado duas 'duplas' de livros, relativos às histórias 'O Fim do Infinito e 'Conselho Jedi', e uma aventura em volume único, 'Qui-Gon e Obi-Wan', todas as quais surgiam num formato que, então, apenas principiava a surgir em Portugal - em tamanho A4 e com capa plastificada e lombada, algures entre o 'livro aos quadradinhos' normal e os mais luxuosos álbuns a que tinha direito, por exemplo, a BD franco-belga. Esta dicotomia entre a edição 'popular' e algo mais sofisticado estendia-se, aliás, também ao interior, onde o papel e trabalho de impressão de grande qualidade eram algo 'prejudicados' por traduções ainda mais dúbias que as da Abril, por vezes quase como que adaptações directas do diálogo em Espanhol, com direito à pontuação característica daquela língua em certos balões!

Este aspecto menos cuidado contribuía, infelizmente, para prejudicar a qualidade global do produto, diminuindo o impacto daquelas que eram excelentes histórias de banda desenhada, sobretudo a nível do grafismo, e capazes de interessar e cativar não só os fãs existentes da saga, como também aqueles que começavam a dar os primeiros passos na descoberta da mesma. Nada, no entanto, que fizesse a Agostini mudar a sua estratégia, já que todos os álbuns subsequentemente publicados (e foram muitos!) apresentariam esse mesmo problema de tradução, ainda que o mesmo se tenha atenuado ao longo dos anos. Ainda assim, e apesar desse claro defeito, qualquer destas histórias de 'Star Wars' lançadas pela editora espanhola vale bem a descoberta, sobretudo no ano em que se completa um quarto de século desde o seu lançamento no mercado nacional. Fica a dica, tanto para os fãs de 'Star Wars' em específico, como de boa BD em geral.

29.10.25

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

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Hoje em dia, o acto de comprar banda desenhada importada encontra-se, como tantos outros, trivializado, bastando encomendar os volumes desejados pela Internet, numa loja especializada ou até mesmo numa boa livraria – isto, claro está, para quem não queira partir 'à aventura' no quiosque de alfarrabista mais próximo. Tal facilidade e conforto pode, no entanto, fazer esquecer que, há um mero quarto de século, quem quisesse ler 'comics' americanos (ou, horror dos horrores, 'manga') estava à mercê do que conseguisse encontrar no quiosque ou tabacaria local, ou, quando muito, de uma tradução em francês, espanhol ou brasileiro de um qualquer volume japonês, tipicamente a preços exorbitantes.

De facto, apesar de álbuns de BD franco-belga serem relativamente fácil de adquirir em Portugal nas suas versões originais desde pelo menos os anos 70, para as bandas desenhadas americanas e japonesas de carácter serializado, esse processo apenas se deu já nos anos de viragem do Milénio, com a abertura das primeiras lojas especializadas e dedicadas à venda de BD em Portugal. Antes disso, era necessário possuir nas redondezas uma tabacaria com excelentes contactos entre os importadores, e mesmo essa apenas possuiria uma mão-cheia de titulos da Marvel, DC ou, com alguma sorte, da Image ou Archie Comics.

Os bedéfilos lusitanos que devoravam mensalmente a 'Wizard' brasileira (ou a 'sucedânea' nacional 'Heróis') ficavam, assim, em larga medida restritos à sua imaginação no que tocava aos potenciais conteúdos dos volumes ali abordados - até porque mesmo os poucos números que logravam transpôr o oceano o faziam a preços acima da média para a 'carteira' de um jovem português médio. Um paradigma que, partindo de algo específico e quase insignificante, serve como reflexo da enorme progressão vivida pela sociedade portuguesa no primeiro quarto do século XXI, não apenas a nível de periódicos ou lojas especializadas, mas da própria abertura ao restante Mundo ocidental e respectiva cultura – a qual, por vezes, pode ser transmitida por meio de algo tão singelo como um simples 'livro aos quadradinhos'.

15.10.25

NOTA: Este 'post' é parcialmente respeitante a Terça-feira, 14 de Outubro de 2025.

A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Aquando da nossa Terça Tecnológica alusiva aos jogos licenciados de Astérix, fizemos menção do divertidíssimo 'Astérix & Obélix', de longe o melhor de todos os títulos com os irredutíveis gauleses como protagonistas, e que capturava sem mácula o espírito da BD de Goscinny e Uderzo. O que ficou, nessa ocasião, por mencionar foi o facto de os cuidados aspectos técnicos do jogo serem resultado da já considerável experiência da Infogrames na adaptação a formatos digitais de heróis da banda desenhada franco-belga, sendo o título de Astérix já um dos últimos da sequência de títulos desta índole lançados pela companhia francesa em meados da década de 90.

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Spirou foi protagonista do primeiro jogo desta série.

De facto, entre os primeiros jogos de Astérix e esta sua versão definitiva, já vários outros dos principais personagens daquela vertente da banda desenhada tinham tido direito a aventuras interactivas nos PC's e consolas da época. O primeiro destes foi o sempre popular Spirou - cujo jogo para Mega Drive completou recentemente trinta anos, tendo sido lançado a 20 de Setembro de 1995, quase exactamente um ano antes das restantes versões – e o último o jogo de Lucky Luke para a PlayStation original; pelo meio, ficavam outro jogo de Lucky Luke (este com gráficos puramente 2D), duas aventuras de Tintin - 'Prisoners of the Sun' e 'Tintin In Tibet', adaptadas dos respectivos álbuns – e o referido jogo de Astérix e Obélix, numa prolífica série de lançamentos que viu serem editados seis títulos no espaço de menos de três anos, entre 1995 e 1998.

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Os dois jogos de Tintin da série.

Em comum entre si, estes jogos tinham o grafismo - de uma fidelidade extrema ao material original e rico em detalhes, tornando cada título num 'prazer' visual para fãs das respectivas séries – o género – sendo jogos de plataformas 'puros e duros', ainda que o título para PlayStation inclua também alguns mini-jogos - e a dificuldade elevada, que os tornava ligeiramente frustrantes, embora nuns casos mais do que noutros ('Spirou' é, por exemplo, consideravelmente mais difícil do que 'Astérix & Obélix'). Ainda assim, para fãs dos álbuns em questão (e havia ainda muitos na Europa noventista) esta colecção representou um 'prato cheio', que nem sequer requeria computadores muito potentes para poder ser jogada, dando mais um atractivo aos donos de PC's ainda sem tecnologia Pentium ou placa aceleradora.

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Os jogos de Lucky Luke, dos quais o de PlayStation marca a transição para o 3D.

De referir que, à semelhança do que aconteceria mais tarde com os primeiros jogos de Dragon Ball Z para as consolas da Sega, a esmagadora maioria destes títulos - com excepção do último, para PlayStation – eram lançados em exclusivo para o mercado europeu, onde os seus protagonistas mantinham ainda uma forte presença e constituíam licenças atractivas do ponto de vista comercial, ao contrário do que acontecia nos EUA, onde eram quase desconhecidos. Mais tarde, mais jogos de Lucky Luke e Spirou veriam a luz do dia também do outro lado do Atlântico, mas no tocante a esta série original, a mesma foi um 'deleite' quase exclusivo do Velho Continente, onde estes jogos divertiram toda uma geração de crianças e jovens fãs das bandas desenhadas em que se baseavam, merecendo bem ser lembrados quase trinta anos após os seus respectivos lançamentos.

 

02.10.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 1 de Outubro de 2025.

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Já aqui anteriormente falámos das adaptações em banda desenhada (ou novelas gráficas) de propriedades cinematográficas e televisivas norte-americanas, como 'Parque Jurássico', 'Jovem Indiana Jones' ou 'Batman Para Sempre'. E apesar de esta não ser uma prática corrente fora daquele continente e mercado, em meados dos anos 90, a Editorial Notícias arriscou lançar uma versão 'à portuguesa' do referido conceito, adaptando para 'quadradinhos' um filme que poucos esperariam ser alvo deste tratamento: 'Passagem Por Lisboa', a trama de espionagem 'de época' levada ao grande ecrã por Eduardo Geada, em 1994, e cujo público-alvo não se interceptava, exactamente, com o que lia revistas ou álbuns de banda desenhada. E porque, ao falarmos do filme, descurámos focar esta adaptação, nada melhor do que dedicar-lhe agora algumas linhas.

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A capa do álbum utilizava o cartaz do filme.

Infelizmente, há muito pouco a dizer sobre a BD de 'Passagem Por Lisboa', que as gerações 'X' e 'Millennial' votaram, praticamente, ao esquecimento (um pouco como o próprio filme). De facto, para lá da capa (copiada do cartaz do filme), do mês e ano de lançamento (Abril de 1994) e do nome dos autores (curiosamente, ambos chamados Paulo, no caso Paulo Pereira, responsável pelo argumento, e Paulo Silva, o ilustrador) é impossível encontrar qualquer informação ou fotografia respeitante a este álbum, tornando impossível elaborar sobre o estilo de desenhos que apresenta, ou sobre as técnicas empregues para adaptar à BD as técnicas narrativas cinematográficas do filme. Pedimos, pois, a qualquer leitor que possua informações sobre este livro (alô, Pedro Serra!) que nos ajude a 'completar' um pouco este 'post', o qual, para já, terá de ficar por aqui.

20.09.25

NOTA: Este post é respeitante a Sexta-feira, 18 de Setembro de 2025.

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Qualquer membro da geração 'millennial' tem bem presente que os filmes baseados em bandas desenhadas apenas começaram a ser sucessos garantidos a partir do dealbar do Novo Milénio, quando os 'X-Men' de Bryan Singer revolucionaram o paradigma em termos de qualidade, e 'abriram a porta' àquele que, hoje em dia, talvez seja o género cinematográfico mais lucrativo e bem-sucedido. Para que se chegasse a esse ponto, no entanto, foi necessário passar por consideráveis 'dores de crescimento', sendo que, durante décadas, os fãs de 'comics' americanos nunca podiam saber o que esperar de cada nova adaptação cinematográfica, já que para cada mega-sucesso como o 'Batman' de Tim Burton havia outros quatro filmes que passavam despercebidamente para o mercado do vídeo, incapazes de concorrer com as mega-produções Hollywoodescas. O filme sobre o qual nos debruçamos nesta Sessão de Sexta (poucos dias após se terem completado trinta e cinco anos sobre a sua estreia em Portugal, a 14 de Setembro de 1990) fica a meio-caminho entre estas duas vertentes, tendo logrado ser um sucesso à época do seu lançamento, mas tendo caído no esquecimento quase generalizado nas três décadas e meia subsequentes.

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Falamos de 'Dick Tracy', adaptação da banda desenhada do mesmo nome, presença assídua nas páginas de BD dos jornais americanos, e que narra as desventuras do detective homónimo, reconhecível pela icónica gabardine amarela, na sua luta contra os mafiosos que regem a típica cidade dos anos 30 ou 40 onde vive. Um conceito mais na linha dos velhos livros de ficção barata do que propriamente dos super-heróis da Marvel e DC, mas que, ainda assim, apresenta semelhanças com séries como 'Batman', 'Sin City' ou 'Spirit', cujos filmes empregariam elementos estéticos a fazer lembrar os do filme em causa - o qual, no entanto, ficaria bastante aquém de qualquer deles em termos de impacto duradouro no Mundo cinematográfico.

Para os jovens cinéfilos daquele ano de 1990, no entanto, o filme trazia bastantes atractivos, da gama de cores da roupa dos personagens (a remeter intencionalmente aos tons vivos do Technicolor) até à presença de Madonna, então em alta, como interesse romântico do Tracy vivido pelo também realizador Warren Beatty, a participação de nomes como Al Pacino, Dustin Hoffman, James Caan ou Dick Van Dyke, ou mesmo apenas o apelo estético do icónico logotipo do personagem, que gerou alguma procura a nível de 'merchandise' alusivo ao filme imediatamente após a sua estreia.

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O elenco recheado de estrelas do filme.

Infelizmente, ao contrário de outros exemplos de que já aqui falámos, e apesar da 'parada de estrelas' que constituía o seu elenco a adaptação em 'carne e osso' de 'Dick Tracy' não logrou suster esse nível de interesse a longo-prazo, tendo-se rapidamente tornado 'apenas' mais um filme, mesmo enquanto a BD original continuasse de 'pedra e cal' nas páginas dos jornais. Ainda assim, numa altura em que se assinala um 'aniversário' marcante para o filme de Beatty, é justo homenageá-lo com estas singelas linhas, as quais (quem sabe?) talvez motivem quem ainda não conhece o filme – ou mesmo quem já o tenha visto – a procurar forma de o (re)ver nos tempos modernos...

19.09.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 17 e Quinta-Feira, 18 de Setembro de 2025.

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

Já aqui por diversas vezes mencionámos a natureza salutar da imprensa periódica portuguesa em finais do século XX e inícios do seguinte. Para além da enorme variedade de jornais mais ou menos eruditos em oferta, o nosso País via também surgirem com regularidade revistas especializadas referentes aos mais diversos assuntos, quer criadas e editadas em solo nacional, quer importadas do estrangeiro, sobretudo dos mercados espanhol (pela proximidade) britânico (pela difusão e reputação) e, claro, brasileiro, cujas revistas, devido à língua partilhada e facilidade de importação, tomava para si um volume considerável do mercado português, sobretudo no tocante à banda desenhada, ramo no qual alguns exemplos persistem mesmo até aos dias de hoje. Não é, pois, de surpreender que, em meados dos anos 90, os aficionados de BD portugueses tenham visto surgir nas bancas e quiosques nacionais, não mais um dos inúmeros 'gibis' que tanto sucesso faziam por estas bandas, mas uma revista especializada com foco nos 'comics' norte-americanos, e que era, ela própria, uma adaptação de um original surgido nos Estados Unidos.

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O primeiro número da edição brasileira da revista, originalmente editado em 1996.

Tratava-se da edição brasileira da lendária revista Wizard, cujo primeiro número era lançado em terras de Vera-Cruz algures em 1996, o que – observando a habitual 'décalage' na chegada das publicações brasileiras a Portugal – a terá colocado nas bancas nacionais algures no ano seguinte. Uma situação longe de ideal para um tipo de publicação dependente da relevância temporal, mas certamente melhor do que nada para os jovens 'bedéfilos' portugueses, os quais, por essa altura, já tinham visto surgir e desaparecer a tímida tentativa da Abril-Controljornal de criar uma publicação deste tipo (a hoje algo esquecida 'Heróis', que, mesmo nos seus melhores momentos, ficava a 'léguas' da apresentação e qualidade da revista que lhe servia de inspiração) e que acolhiam de braços abertos a oportunidade de se manter a par do que ia acontecendo com os seus heróis favoritos, e logo naquela linguagem 'gingada' típica das publicações brasileiras, e que tornava a leitura ainda mais prazerosa...

De facto, ainda que não se pudesse afastar muito dos moldes da publicação-mãe (ou não fosse, na prática, um 'franchise' da mesma), a 'Wizard' brasileira fazia questão, como acontecia com tantas outras revistas daquele país, de afirmar a sua 'brasilidade', o que a tornava ainda mais apelativa para o público nacional do que a original americana, mais cara, menos acessível, e repleta daquele humor típico norte-americano que nem sempre se 'traduz' bem para os contextos de outros países. Uma receita que tinha tudo para dar certo, não fosse o facto de a 'Wizard' brasileira, na sua edição original sob a alçada da bem conhecida editora Globo, não ter chegado a ficar um ano e meio nas bancas, cessando a publicação após o número 15, para apenas a retomar já no Novo Milénio, agora pela mão da editora Panini. Essa segunda série viria a tornar-se bastante mais estabelecida, durando oito anos antes de ser extinta, e a Wizard transformada em publicação apenas digital – embora não sem deixar um legado adicional, sob a forma do site Guia dos Quadrinhos, principal referencial para compra e venda de 'gibis' no Brasil até aos dias de hoje.

Quanto a Portugal, por essa altura, a banda desenhada internacional era já uma realidade bem entranhada na cultura nacional, com lojas e revistas especializadas (entre elas a 'Wizard' original), pelo que a perda da revista brasileira não fez grande mossa. Numa era em que a oferta era praticamente nula, e ainda mais a nível internacional, no entanto, a 'verrrsão brasileirrraaaa' da icónica revista de 'comics' terá certamente, durante o seu curto tempo de vida, feito as delícias de muitos fãs de banda desenhada, e levado a que 'torrassem' a semanada numa publicação que, mesmo desactualizada, se afirmava como referência num mercado de outra forma praticamente inexistente.

06.09.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 3 de Setembro de 2015.

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Na última edição desta rubrica, falámos de um dos grandes eventos da banda desenhada dos anos 90, e que viria a ter repercussões em toda a linha editorial do seu respectivo título tanto no imediato como a médio prazo; nada mais justo, portanto, do que falarmos agora de outro, com ligação directa ao mesmo – e, curiosamente, criado pela mesma editora, a qual, à época, procurava a todo o custo 'limpar' e simplificar a cronologia dos seus títulos.

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Os cinco números da mini-série. (Crédito da foto: OLX)

Falamos de 'Zero Hora – Crise No Tempo', mini-série em cinco edições cujo principal intuito era 'consertar' a cronologia do universo principal da DC, tornada bastante confusa pela não menos notável saga 'Crise Nas Infinitas Terras' ('Crisis On Infinite Earths'), publicada na década de 80. A solução encontrada para resolver os problemas criados pela introdução de um multiverso foi um evento de extinção em massa, engendrado pelo vilão Parallax (que anteriormente defendia o bem como parte dos Lanternas Verdes) após a sua cidade ter sido destruída pela luta entre Super-Homem e Apocalipse horas antes do sacrifício do primeiro para travar o monstro, relatada no especial 'A Morte do Super-Homem'. Como forma de eliminar os diversos multiversos e respectivos heróis, o ser em tempos conhecido como Hal Jordan cria uma entropia, dando origem a uma compressão temporal que envia heróis de universos alternativos para outras linhas temporais, criando uma situação caótica que cabe a um grupo restrito de heróis resolver.

Publicada em ordem descendente (ou inversa), começando no número 4 e acabando no 0, a série levou, também, a uma renumeração e recomeço das séries da maioria dos heróis envolvidos – pelo menos nos seus EUA natais, já que em Portugal, esse 'reinício' tinha sido feito aquando do final da saga da morte e renascer do Super-Homem, pouco tempo antes. Infelizmente, apesar desta oportunidade, a 'Crise No Tempo' acabou por criar ainda mais problemas, os quais só viriam a ser resolvidos literais décadas após a publicação da série, tanto nos EUA como em Portugal, onde chegou em 1996, ao mesmo tempo do que ao Brasil, e pela mão da mesma editora, a inevitável Abril.

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Exemplo dos desenhos da série. (Crédito da foto: OLX)

Caso raro para os lançamentos da referida editora, no entanto, 'Zero Hora' chegava às bancas lusas em formato americano, ou seja, A5, e com menos páginas do que uma revista normal. O 'luxo' continuava no interior, em papel ensebado e brilhante, que fazia ressaltar os excelentes desenhos, em claro contraste com o habitual 'papel higiénico de jornal' característico dos títulos 'normais' (e até, por vezes, especiais) da Abril. O resultado era uma edição apelativa e 'vistosa', que não deixou de atrair a atenção dos jovens fãs de super-heróis da época, o que terá ajudado a garantir volumes de vendas diferenciados, e apelado ao instinto 'coleccionista' dos mesmos. De facto, é bem possível que a série marque, ainda hoje, presença na colecção de alguns 'bedéfilos' nacionais, o que ainda cimenta mais o seu direito à presença nestas nossas páginas, quase três décadas após a sua publicação em Portugal.

02.08.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 30 de Julho de 2025.

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

O sucesso da recém-estreada reinvenção cinematográfica do eterno Super-Homem – considerada por muitos fãs como a melhor representação do herói no grande ecrã desde os saudosos filmes de Richard Donner – parece ter revitalizado a presença mediática e cultural do homem de Krypton, constituindo uma espécie de 'ressurreição' do personagem para uma nova geração. Nada melhor, pois, do que aproveitarmos o continuado momento cultural de Clark Kent/Kal-El para recordarmos o momento, em meados dos anos 90, em que os bedéfilos portugueses presenciaram aquilo que parecia impossível e inimaginável: a morte do Super-Homem.

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Os diferentes volumes da saga.

Originalmente lançada ao longo de quase um ano, entre 1992 e 1993, a saga que relatava a mais pesada derrota do 'pai' dos super-heróis surgia nas bancas portuguesas mediante uma série de edições especiais, há cerca de trinta anos. A primeira parte da narrativa era contada num único album, em formato convencional mas de grossura dupla em relação ás revistas 'normais' da Abrile com brilho na capa, no qual era mostrada a chegada do monstro Apocalipse à Terra, a feroz batalha com ele travada pelo Homem de Aço, e o eventual sacrifício do mesmo como única forma de parar a perigosa criatura – um desfecho verdadeiramente inesperado (mesmo tendo em conta o título do volume) e muito comentado pelos leitores e fãs do herói.

A saga em causa estava, no entanto, longe de acabar e, enquanto os restantes heróis prestavam sentida homenagem ao seu colega caído com um 'Funeral Para Um Amigo' (em mais dois álbuns especiais, estes apenas de lombada grossa, semelhante à de um almanaque, e sem a capa 'especial' do primeiro volume), o homem de Krypton encontrava-se 'Além da Morte', num estado comatoso e alucinogéneo. Entretanto, na Terra, quatro novos heróis continuavam o seu legado, e procuravam consumar 'O Regresso do Super-Homem', num regresso aos álbuns em formato grosso e com capas trabalhadas (no caso três). Uma sequência absolutamente imperdível para qualquer fã de Kent/El, e que mudava a própria configuração de edições da Abril, a qual, após concluída a saga, reiniciaria a numeração das revistas do Homem de Aço a partir do número 1 e introduziria a nova publicação 'Superboy', dedicada ao mais popular dos quatro pseudo-Super Homens, um clone juvenil do próprio com o tipo de atitude 'radical' bem típica dos anos 90.

Mesmo sem esse acrescento ao já extenso acervo da magnata dos quadradinhos portugueses da época, no entanto, 'A Morte do Super-Homem' e volumes subsequentes representam um evento absolutamente histórico da BD, o qual teve, em Portugal, uma edição condigna à importância que acarretava – algo que nem sempre se podia dizer dos volumes supostamente 'especiais' lançados pela Abril. Assim, mesmo três décadas após o seu surgimento nos quiosques e tabacarias nacionais, esta série de volumes continua a justificar a leitura ou releitura, afirmando-se como um dos poucos lançamentos da Marvel ou DC da época a granjear esse estatuto, e justificando esta breve nota sobre a sua existência, numa altura em que Clark Kent e companhia estão mais longe da morte do que estiveram a qualquer ponto dos últimos trinta a quarenta anos...

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