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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

23.01.23

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

No dealbar do ano de 1998, um álbum dominava os tops nacionais de música – um álbum que se viria a tornar um dos mais bem-sucedidos de sempre, atingindo uma impressionante quádrupla platina. Tratava-se de 'Saber A Mar', sexto trabalho de originais de um dos grupos favoritos dos adolescentes portugueses das décadas de 80 e 90: os icónicos Delfins.

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De facto, apesar de o referido trabalho os ter catapultado para todo um novo nível de sucesso, os Delfins contavam já com mais de uma década 'na ribalta' aquando do seu lançamento em 1996, sendo um dos nomes mais sonantes da vaga de 'pop-rock' surgida no nosso País durante essas duas décadas ao lado de nomes como Xutos & Pontapés, GNR e Rádio Macau, com os quais partilhavam características como as letras em português e o registo distinto do seu vocalista, o 'bonitão' Miguel Ângelo, também integrante do projecto Resistência. 'Hits' como 'Nasce Selvagem' e 'Um Lugar ao Sol' garantiam ao grupo presença assídua nas principais estações de rádio da época, e ajudavam a manter o colectivo no 'radar' cultural nacional.

O sucesso da banda não se cingia, aliás, aos territórios nacionais, sendo que, por alturas do lançamento do trabalho em causa, o grupo português havia já realizado espectáculos na Expo '92, em Espanha, na sala Zénith, em Paris, e na prestigiada Brixton Academy, de Londres; já dentro de portas, o grupo esgotava concertos por onde passava, fosse a abrir para Tina Turner em Alvalade,, a inaugurar 'de surpresa' o icónico Johnny Guitar ou a 'aquecer' literalmente a plateia no tradicional espectáculo de Ano Novo no Terreiro do Paço, todos em 1990. O Pavilhão Carlos Lopes, a Festa do Avante e o Coliseu dos Recreios de Lisboa foram alguns dos outros icónicos certames a presenciar a ascensão do grupo ao panteão do 'pop-rock' nacional durante aquela que foi a sua época de afirmação definitiva – e que, como já foi referido, acabaria em apoteose, com Miguel Ângelo e companhia a bater recordes de vendas com o seu sexto álbum, a tocarem na Expo '98 e a consumarem a tentativa de internacionalização com um álbum de temas adaptados para o Espanhol ('Azul', de 1998), já depois de o seu líder ter participado, como juiz, no mega-sucesso da SIC, 'Chuva de Estrelas', e dado a voz ao cowboy Woody na excelente dobragem nacional de 'Toy Story - Os Rivais', em 1995.

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Capa do grande êxito do grupo.

Infelizmente, esta tendência não se manteria no Novo Milénjo – apesar dos lançamentos regulares e consistentes (entre álbuns de originais, ao vivo, colectâneas e DVDs, foram onze registos) e da manutenção de um público fiel que 'crescera' com eles, a banda não mais veria os níveis de sucesso atingidos por volta de 1997, inserindo-se antes na categoria de 'instituição nacional', ao lado da maioria dos grupos da mesma vaga. Ainda assim, o estatuto do grupo ainda lhes permite viajar até ao Canadá e a Macau, tocar num cruzeiro em Marrocos, participar na segunda edição do concurso 'Operação Triunfo', e actuar em locais tão icónicos da Grande Lisboa como o Casino Estoril e o Centro Cultural de Belém, bem como no Rivoli do Porto.

Mesmo com toda esta projecção – ou talvez por causa dela – o grupo surpreendia a cena musical portuguesa ao anunciar um hiato, em 2009 – o qual acabaria por durar uma década, tendo a banda cascalense voltado a reunir-se em 2019 para um concerto nas Festas do Mar de Cascais, e celebrado no ano seguinte os quarenta anos de carreira; e embora, a este ponto, o futuro dos Delfins permaneça incerto, a sua trajectória já mais que justificou o seu estatuto de 'lendas' da música portuguesa – para o qual o álbum mais vendido em Portugal no ano de 1997 contribuiu de forma definitiva...

09.01.23

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Depois de na passada edição desta rubrica termos verificado a prevalência de um disco sobre todos os outros no que toca a volumes de vendas durante o ano de 1992, nada melhor do que dedicarmos algumas linhas ao grupo que os lançou, e que constituiu talvez o primeiro 'supergrupo' cem por cento português, anos antes dos Rio Grande: o projecto Resistência.

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Centrado em torno de Pedro Ayres de Magalhães, guitarrista dos Madredeus, este projecto reuniu músicos de várias das maiores bandas do cenário musical português, com ênfase no pop-rock, mas aberto também a outros estilos. A formação inicial, por exemplo – a que participou numa sessão experimental durante a Feira do Livro de Lisboa de 1989 – contava com a colega do fundador nos Madredeus, Teresa Salgueiro, ao lado de Anabela Duarte, dos Mler Ife Dada, e Filipa Pais, então dos Lua Extravagante.

As 'senhoras' acabariam, no entanto, por não colaborar com o músico além dessa sessão (se descontarmos, claro, a carreira dos próprios Madredeus), sendo substituídas por um elenco de luxo: Tim (dos eternos Xutos), Miguel Ângelo (dos então super-populares Delfins) e um ainda desconhecido Olavo Bilac, ainda a um par de anos de explodir com os Santos & Pecadores, bem apoiados por uma banda onde se destacavam Fernando Cunha (também dos Delfins) José Salgueiro (dos Trovante) e o veterano guitarrista-acompanhante Fernando Júdice (mais tarde também dos Madredeus).

Seria com este alinhamento que a banda viria a lançar o álbum que dominou as vendas fonográficas em Portugal em 1992, mas que na verdade foi composto e lançado no ano anterior – a estreia 'Palavras ao Vento', cujo alinhamento é um verdadeiro desfilar de êxitos dos músicos envolvidos, de 'Nasce Selvagem' e 'Não Sou o Único' (estrondosa duologia de abertura) ao final com 'Circo de Feras'. O denominador comum em todas estas regravações era uma maior ênfase na voz por oposição à tradicional estrutura pop-rock, uma proposta que acabava por diferenciar o grupo das bandas originais dos seus integrantes, e que contribuiu para o seu considerável, ainda que breve, sucesso.

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A estrondosamente bem-sucedida estreia do grupo.

O êxito de 'Palavras' motivou o grupo à gravação, ainda em 1992, de um segundo álbum, o também excelente 'Mano A Mano', que contava com novas versões de músicas como 'Um Lugar ao Sol', 'Amanhã É Sempre Longe Demais', 'Traz Outro Amigo Também' (de Zeca Afonso) e a pré-memética 'Timor', que qualquer 'puto' da época cantava no tom mais gozão possível para divertir os amigos no recreio.

600x600bf-60.jpgO segundo álbum do grupo.

Mais uma vez, o sucesso foi considerável, e no ano seguinte (há pouco menos de trinta anos) era lançado um disco ao vivo do grupo, 'Ao Vivo no Armazém 22', que incluía algum material original em meio às versões. Ainda em 1993, o grupo é convidado a participar no primeiro espectáculo 'Portugal Ao Vivo', com lugar no Estádio José Alvalade, em Lisboa.

ed169702341bb7ca4b0e2bda4a863eed.1000x1000x1.jpgO registo ao vivo de 1993

Com tanto sucesso e procura, nada fazia prever o fim dos Resistência – e, no entanto, foi precisamente isso que sucedeu. O grupo ainda participaria em discos de tributo a Zeca Afonso e António Variações (ambos de 1994), mas o contratualizado quarto álbum para a BMG nunca se chegaria a materializar, sendo que o grupo se viria a dissolver em 1995, quando os músicos decidiram prioritizar os seus projectos de origem.

Mas como na música – tal como na banda desenhada – ninguém nunca 'desaparece' de vez, também os Resistência se viriam, eventualmente, a reunir, ainda que tal efeméride viesse a demorar nada menos do que dezassete anos. Foi em 2012 que o lançamento de uma colectânea e um par de concertos de celebração de vinte anos, em Lisboa e Guimarães, dariam azo a uma mini-turnê, com passagem por mais uma edição do Portugal ao Vivo, desta vez no Estádio do Restelo, também em Lisboa. Dois anos volvidos, aquilo por que já ninguém esperava viria mesmo a acontecer: saía o quarto álbum dos Resistência, intitulado 'Horizonte' e lançado na editora de sempre, a BMG. A premissa, essa, era exactamente a mesma que fizera o sucesso do grupo duas décadas antes: novas versões de músicas de grupos como Madredeus, Rádio Macau, Delfins e Xutos.

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O álbum de regresso do grupo.

Estava dado o mote para um ressurgimento de carreira que – até à data – inclui mais dois álbuns de estúdio (em 2018 e 2019) e dois ao vivo (em 2016 e 2020), provando que a 'primeira vaga' de pop-rock nacional, e respectivos intérpretes, continuam a ter um mercado bem definido, o qual, por comparação aos próprios músicos que compõem esse movimento, nada fica a dever em Resistência...

31.10.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Apesar de não ter tido tanta evolução ou expressão ao longo dos anos como o pop-rock, o hip-hop ou o rock alternativo, o metal não deixou, ao longo das décadas, de ter os seus próprios heróis em solo nacional, dos pioneiros Xeque-Mate a bandas como Ramp, Filii Nigrantium Infernalium, ou outras mais recentes como Painstruck ou Shadowsphere. No entanto, sempre que se fala deste estilo musical no contexto lusitano, surge inevitavelmente um nome que, a pulso, se conseguiu erguer acima de todos estes, afirmando-se hoje como a principal referência do metal português e que teve precisamente nos anos 90 a sua década de afirmação: os históricos Moonspell. E que melhor altura para recordar o legado daqueles que continuam a ser os embaixadores do metal nacional do que neste início da estação com dias mais curtos, 'cinzentos', e convidativos aos ambientes melancólicos por ele propostos?

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A primeira formação do grupo, como sexteto.

Formados em 1992 na zona da Brandoa, nos arredores de Lisboa, os Moonspell optariam, inicialmente, por um estilo mais extremo de metal, com tempos rápidos e vozes ora ríspidas, ora urradas, da responsabilidade do carismático Fernando Ribeiro. Este tipo de sonoridade ficaria oficialmente registado no EP de estreia do sexteto ('Under the Moonspell', de 1994) e nos seus dois primeiros discos, 'Wolfheart' e 'Irreligious' (de 1995 e 1996, respectivamente) mas não tardaria muito até os músicos que compunham o grupo começarem a dar largas à sua vertente mais experimental: 'Sin/Pecado' (de 1998), o disco da afirmação, trazia já alguns elementos electrónicos e passagens mais limpas (como na faixa 'Alma Mater', um 'hino' patriótico que, estivesse o grupo a lançar-se hoje, talvez fosse mal compreendido), e o sucessor 'The Butterfly Effect', do ano seguinte, era já um disco de rock-metal gótico-industrial, a 'milhas' de distância do metal extremo com toques 'folk' que caracterizara os primeiros álbuns da banda.

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O disco de afirmação do grupo, lançado em 1998.

Apesar de pouco consensual entre os fãs – que atribuíram a Ribeiro e companhia o sempre temido rótulo de 'vendidos' – esta sonoridade viria mesmo a marcar a transição do grupo para o novo milénio, que veria o grupo 'explodir' também em terras estrangeiras, e Fernando Ribeiro tornar-se um dos 'decanos' do metal português, no mesmo patamar de um António Freitas. Os dois álbuns seguintes do grupo exacerbavam as tendências góticas do seu som, com cada vez menor presença de vozes agrestes e cada vez maior proporção do tipo de passagens orquestrais, acústicas ou simplesmente melódicas que sempre haviam marcado o metal dos lisboetas. Só com 'Memorial', de 2005, é que a agressividade de outros tempos se voltaria a fazer sentir no som do grupo, que a misturaria às ainda presentes tendências góticas para fazer aquilo a que se convencionou chamar 'dark metal' – um som obscuro, pesado e melancólico, sem no entanto transpôr a linha de demarcação entre metal melódico e extremo.

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A formação mais recente do grupo.

Os álbuns seguintes continuariam a explorar esta vertente, mas sempre sem esquecer a veia gótica, tendo 'Alpha Noir/Omega White', de 2012, sido o primeiro a tornar efectiva a demarcação estilística, com cada um dos discos que o compunham a representar uma das duas vertentes do som do grupo. Um conceito ousado, e que abriria portas à experimentação de '1755', um álbum conceptual sobre o terramoto de Lisboa, com letras em português, lançado em 2017. E se o álbum seguinte – o mais recente do sexteto até agora – voltava a ser 'apenas' mais um álbum de metal, a verdade é que o mesmo dava, também, novo 'abanão' no som do grupo, com algumas tendências progressivas e até mais 'roqueiras' a surgirem no 'caldeirão' de elementos que é o som de Moonspell – um grupo que, pela referida amostra lançada o ano passado, se recusa a abraçar o seu estatuto como entidade veterana do movimento no nosso país, preferindo continuar a experimentar, inovar e correr o tipo de risco calculado que lhe permitiu, há já quase um quarto de século, iniciar o seu percurso rumo a uma fama e fortuna que escapava, e continua a escapar, a tantos outros colectivos do género, em Portugal e não só...

 

17.10.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

A 'explosão' dos movimentos alternativo e pop-rock nacionais durante a década de 90 contribuiu para o aparecimento e desenvolvimento de um sem-número de novas bandas, a maioria das quais pouco ou nada ficava a dever às suas congéneres estrangeiras, conseguindo, com a sua qualidade, contornar as limitações técnicas e de recursos inerentes a gravar um disco em Portugal. Tal como acontece em qualquer movimento, no entanto, nem todos estes nomes chegaram a experienciar as 'luzes da ribalta', tendo alguns, inevitavelmente, ficado 'pelo caminho' na corrida à fama e aos contratos discográficos.

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Uma destas bandas foram os SG's, quarteto cascalense que, durante um breve período em meados dos anos 90, chegou a ser o mais próximo que Portugal tinha a uns Nirvana, compondo, ao lado dos 'Pearl Jam' Blind Zero e dos 'Alice in Chains' Lulu Blind, o grande triumvirato do 'grunge' nacional na altura em que o referido estilo atravessava a sua fase de maior popularidade. No entanto, dos três nomes, o colectivo liderado por Hugo Van Zeller seria o que maior dificuldade teria em encontrar sucesso radiofónico, acabando a sua contribuição para o panorama do rock pesado nacional por se saldar em um par de aparições na icónica colecção de CD's single da revista Super Jovem (ambos, curiosamente, partilhados com os 'death metallers' Disaffected, os únicos outros 'repetentes' da colecção), um single, e um único álbum, 'Psycho Holidays', lançado pouco mais de um ano após a formação do grupo, em 1995.

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A totalidade da discografia do quarteto 

A verdade, no entanto, é que é difícil de perceber exactamente porque é que a carreira de Van Zeller, Rodas, Johnny Barros e Gonzo ficou tão aquém das expectativas. Isto porque, sem ser uma obra-prima da música moderna, 'Psycho Holidays' não deixa, ainda assim, de ser um excelente álbum de rock 'barulhento' moderno, talvez com umas quantas músicas a mais (dezasseis temas de estúdio mais um ao vivo, espalhados ao longo de quase uma hora de música, é, manifestamente, muito para um álbum deste tipo) mas repleto de 'malhas' inegáveis como a inaugural 'Save Me' ou os temas com que o quarteto se deu a conhecer na Super Jovem, 'I Am' e 'Misunderstanding', esta última mas compassada, melódica, e com forte 'travo' a Pearl Jam. De facto, exceptuando-se o inglês algo 'macarrónico' de algumas das letras e a produção expectavelmente limitada, este é daqueles discos que poderia perfeitamente ter sido comercializado a nível internacional, e encontrado o seu lugar no 'pelotão' de bandas de 'grunge' secundárias que perseguiam, de longe, os 'quatro grandes' do estilo.

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O vocalista e líder da banda, Hugo Van Zeller, é hoje consultor de desenvolvimento pessoal

Não seria, no entanto, isso que se viria a passar, e o destino fadaria os SG's a uma carreira curta, que teria fim (pelo menos em termos de registos discográficos) pouco depois do lançamento do álbum, constituindo apenas mais uma daquelas sempre deprimentes) histórias sobre 'o que podia ter sido', tão comuns no mundo da música. Ainda assim, e a julgar pela sua actual presença como consultor e 'coach' de desenvolvimento pessoal, Hugo Van Zeller foi capaz de 'dar a volta por cima' deste desapontamento e atingir sucesso noutra área; e mesmo que o disco que lançou com os amigos no tempo da juventude seja, para ele, apenas um artefacto levemente embaraçoso de um tempo passado, para muitos fãs de música alternativa lusitanos (tanto da época como dos dias que correm), o mesmo continua, certamente, a constituir um dos melhores exemplos de rock 'barulhento' 'made in Portugal'....

03.10.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Em edições anteriores desta mesma rubrica, temos vindo a falar de alguns dos nomes mais incontornáveis da explosão pop-rock portuguesa dos anos 90; esta semana, chega a vez de juntar mais um nome a essa lista, nomeadamente um que pecava por omissão nas páginas deste blog, pela influência que teve sobre as ondas de rádio de finais do século XX e inícios do XXI.

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Falamos dos conimbricenses Clã, o seminal conjunto fusionista que tem na voz de Manuela Azevedo o seu principal factor distintivo, e na experimentação inter-estilística o seu principal trunfo. Formados em 1992 (quando Manuela Azevedo ainda sonhava trabalhar em Direito, área em que estudava), a banda viria a alcançar o estatuto de que ainda hoje gozam cerca de meia década depois, através dos seus três primeiros álbuns, 'LusoQUALQUERcoisa' (estilizado assim mesmo, e lançado em 1996), 'Kazoo' (do ano seguinte) e 'Lustro' (de 2000); e se seria de 'Kazoo' que sairia aquela que se tornaria a música-estandarte do grupo, e um dos maiores sucessos portugueses de finais da década de 90 - 'Problema de Expressão' – seria com 'Lustro' que os Clã cimentariam o seu lugar no topo da hierarquia do pop/rock de fusão português, saindo vencedores em três das categorias dos Prémios Blitz desse ano, incluindo as de Melhor Banda Nacional e Melhor Álbum Nacional – um feito que, à época, era suficiente para lhes conferir o estatuto de 'semi-deuses' da música portuguesa.

Longe de descansar à sombra desses louros, no entanto, a banda continuou a desbravar caminho nos primeiros anos do novo milénio, colaborando com Sérgio Godinho num álbum ao vivo, 'Afinidades', e aceitando mesmo compôr uma banda sonora para um filme mudo – no caso o seminal 'Nosferatu', de F. W. Murnau, pioneiro dos 'filmes de vampiros' lançado em 1922 – como parte da iniciativa 'Porto 2001 – Capital Portuguesa da Cultura'. Três anos depois, saía 'Rosa Carne', quarto álbum do grupo, cuja recepção foi tão entusiástica quanto a dos três anteriores, sendo mesmo considerado um dos discos mais importantes da 'cena' portuguesa de 2004. No ano seguinte, saía o primeiro vídeo do grupo, 'Gordo Segredo', e um segundo disco ao vivo, desta feita uma edição dupla.

Daí em diante, os lançamentos continuaram a surgir a bom ritmo, tendo o grupo lançado mais seis álbuns de originais nos últimos quinzo anos, e conseguido manter a sua posição de destaque no panorama pop português, agora alicerçado na experiência e veterania de que o colectivo já goza. Para ouvintes mais 'casuais', no entanto, os Clã continuam, essencialmente, a ser 'aquela' banda que tocava 'Pois É!' e 'Problema de Expressão' na rádio, há vinte e muitos anos – o que, mesmo assim, é um legado mais honroso do que o de muitas bandas tão ou mais duradouras do que os conimbricenses...

19.09.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Qualquer melómano que tente fazer uma lista dos melhores e mais importantes álbuns de música portuguesa dos anos 90 certamente se deparará com alguns nomes incontornáveis. De provas de vida por parte de artistas veteranos ('Rock In Rio Douro', dos GNR, ou 'Pedras da Calçada', de Paulo Gonzo) ou supergrupos (o álbum homónimo dos Rio Grande) até declarações de intenções por 'novatos' decorrentes do 'boom' do pop-rock nacional daquela década (os primeiros discos de Da Weasel ou Santos e Pecadores, 'LusoQUALQUERcoisa' dos Clã, 'Vinyl' de The Gift, ou 'Silence Becomes It', do fenómeno Silence 4), é longa a lista de clássicos produzidos por artistas e grupos portugueses durante a referida década, e que continuam a reter a sua influência e relevância três décadas depois.

Da referida lista, especificamente do lado do 'sangue novo', faz ainda parte um álbum que celebrou há poucos dias (a 15 de Setembro de 2022) o vigésimo-quinto aniversário do seu lançamento, e que ajudou a apresentar ao mundo fonográfico português um novo nome, pronto a conquistar as ondas de rádio mais 'alternativas': 'Cão!', dos Ornatos Violeta.

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Capa do álbum de estreia do quarteto portuense.

O primeiro de apenas dois álbuns de originais lançados pela banda portuense (o terceiro é uma colectânea de inéditos e raridades), o disco foi, ainda assim, suficiente para fazer da banda portuense uma referência da música portuguesa até aos dias de hoje, o que atesta bem quanto à sua qualidade.

Formados no Porto nos primeiros anos da década, os Ornatos Violeta (ou simplesmente Ornatos) fariam jus à máxima de que 'se tem a vida toda para criar o trabalho de estreia', optando por lançar o trabalho de estreia apenas após ter a certeza de que a 'máquina' se encontrava bem 'oleada' no circuito de concertos e 'demos'; e o mínimo que se pode dizer é que esse esforço foi mais do que recompensado, com 'Cão!' a cair, quase de imediato, no 'gosto' da crítica especializada, que lhe teceu rasgados elogios não só à época, mas ao longo das décadas seguintes (ainda em 2009, a referência especializada Blitz o colocava no Top 5 de álbuns alguma vez criados por artistas portugueses, bem como na lista de melhores trabalhos oriundos da zona do Porto). Apresentando uma mistura de funk, jazz e ska, o álbum rendeu singles tão conhecidos e bem-sucedidos como 'Punk Moda Funk' (talvez o mais emblemático título dos portuenses, e música de abertura do álbum), 'A Dama do Sinal' e 'Mata-me Outra Vez', todos os quais tiveram considerável 'rodagem' nas rádios nacionais da altura.

Escusado será, também, dizer que o grupo não hesitou em aproveitar o 'embalo' dado por tão auspiciosa estreia, tendo o sucessor de 'Cão!' surgido pouco mais de dois anos após o lançamento deste, em Novembro de 1999; e a verdade é que, embora menos emblemático que o trabalho de estreia 'O Monstro Precisa de Amigos' é, também ele, um trabalho muito bem cotado tanto entre fãs da cena alternativa portuguesa como junto da imprensa especializada.

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Capa do segundo (e último) álbum do grupo, lançado em 1999

Apesar do processo de criação atribulado, o álbum representa uma bem-sucedida evolução do som estabelecido no trabalho de estreia, o qual se apresenta agora mais ponderado e sofisticado, que voltou a valer aos Ornatos reconhecimento generalizado, com a banda a conquistar diversas categorias na última edição do milénio dos prémios Blitz (incluindo a de Álbum do Ano) e o disco em si a ser considerado, ainda hoje, como um dos mais importantes álbuns portugueses dos últimos trinta anos.

Em meio a tal sucesso e adulação, seria normal que a carreira dos Ornatos seguisse de vento em popa; foi, no entanto, precisamente o contrário que se verificou, com a banda a anunciar abruptamente a sua separação quando ainda se encontrava no auge da carreira, em 2002; e a verdade é que, à parte o referido álbum póstumo de 'lados B' de raridades e algumas reuniões esporádicas na última década, esse foi mesmo o 'Fim da Canção' para Manel Cruz, Elísio Donas, Nuno Prata, Peixe e Kinorm, cujo legado acabou, assim, por se ficar apenas por aqueles dois álbuns revolucionários que 'abanaram' a cena portuguesa de finais de milénio. Um típico caso, portanto, de banda que se extingue após ter dado ao Mundo apenas um 'cheirinho' da sua arte, estatuto que o colectivo portuense partilha, na mesma década, com os supramencionados Silence 4; ainda assim, a obra dos Ornatos afirmou-se como (ainda) mais duradoura e influente que a de David Fonseca e seus capangas, fazendo com que, um quarto de século volvido, os dois álbuns do quinteto se afirmem ainda como de audição obrigatória para qualquer fã de música alternativa contemporânea 'made in Portugal'.

 

11.07.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Face ao sucesso que faziam, em finais dos anos 90, os grupos vocais e de dança constituídos por jovens bem-parecidos de ambos os sexos, não foi de admirar que Portugal quisesse 'entrar na onda' e produzir as suas próprias versões deste fenómeno para 'consumo interno'. Já aqui recordámos, numa edição anterior desta rubrica, as tentativas de fabricar uma 'boy-band' 'made in Portugal'; agora, chega a altura de lembrar aqueles que foram os principais representantes lusitanos do também mega-popular movimento Europop, os Santamaria.

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Oriundos de Santa Maria de Lamas (de onde, presume-se, terá vindo a inspiração para o nome) os integrantes do grupo juntaram-se pela primeira vez em 1997, quando os irmãos Marlene e António (Tony) Lemos se juntaram a Américo Marante e a duas bailarinas para formar um grupo cuja sonoridade ficava a meio caminho entre o referido som 'Europop'/'Eurodance', muito em voga na altura, e o não menos popular 'pimba' (ou não se tratasse de um grupo português) com o qual partilhavam espaço naqueles eternos escaparates de 'cassettes' e CD's omnipresentes em todas as tabacarias e bombas de gasolina do País à época.

O primeiro fruto desta união sai menos de um ano depois, em Março de 1998, e consegue desde logo vendas impressionantes, atingindo a marca de tripla platina, sobretudo à conta do single e tema-título 'Eu Sei, Tu És...', uma daquelas músicas que se infiltra na mente pelo mero acto de ler o título, e que continua a ser, ainda hoje, o principal 'cartão de visita' do grupo junto dos ouvintes mais 'casuais' e desatentos.

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O disco de estreia do grupo foi desde logo um sucesso de vendas

Por muito sucesso que a estreia tenha feito, no entanto, o segundo disco, 'Sem Limite' - lançado logo no ano seguinte - supera-a largamente em volume de vendas, logrando atingir a quádrupla platina, e estabelecendo os Santamaria como nome de respeito dentro do movimento 'Europop', conforme comprova o dueto com a dinamarquesa Whigfield (de 'Saturday Night') no tema 'Happy Maravilha'. O quinteto nortenho terminava, assim, em alta a década, século e milénio, dando o mote para o que se verificaria nos vintes anos seguintes.

E o que se verificou foi um sucesso continuado e extraordinário, com todos os discos do grupo na primeira década do novo milénio a atingirem, pelo menos, vendas de platina, com a maioria a dividir-se entre a dupla e tripla platina (o disco menos bem sucedido deste período foi '4 Dance', de 2002, que conseguiu ainda assim mover 40.000 unidades) e a banda a ver ser-lhe atribuído um Globo de Ouro (!) para 'Melhor Grupo', em 2001, bem como um prémio relativo à mesma distinção, atribuído pela Romântica FM, em 2009

E embora os anos 2010 não tenham sido tão favoráveis ao grupo como os dez anteriores, a carreira dos lamenses segue de vento em popa, mesmo após a morte do fundador Tony Lemos, em 2020. Logo a abrir a década, o grupo foi galardoado por vendas médias superiores a 50.000 unidades para cada um dos seus discos, e desde então, foram quatro os discos de originais lançados, datando o mais recente, 'Eterno', do ano transacto. Junte-se a este número uma mão-cheia de colectâneas e um conjunto de CD e DVD ao vivo comemorativo dos quinze anos da banda, e a única conclusão a que se pode chegar é que os Santamaria ainda estão para ficar na cena musical popular portuguesa; para muito boa gente, no entanto, o grupo será sempre, apenas, aquela banda que perpetuou um dos muitos hinos 'foleiros' das 'playlists' de rádio portuguesas de final dos anos 90...

 

02.05.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Como já aqui referimos numa edição passada desta rubrica, os anos 90 viram nascer e florescer o movimento rap e hip-hop português, que viria verdadeiramente a atingir o auge na década seguinte. Nessa segunda fase, os principais desenvolvimentos dar-se-iam a Norte do País, sobretudo no eixo Porto-Braga; no entanto, a primeira leva de artistas do estilo a verdadeiramente atingir fama nacional era oriunda,quase exclusivamente, da zona de Lisboa, de cujos subúrbios emergiam, à época, artistas como Boss AC, os pioneiros Black Company, e o nome de maior sucesso no género em Portugal, os incontornáveis Da Weasel.

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A formação clássica da banda

Formados na zona de Almada em 1993, e centrados em torno do MCs Pacman (hoje conhecido como Carlão), as 'doninhas' rapidamente se notabilizaram e destacaram dentro do movimento hip-hop nacional por, ao contrário da maioria dos seus pares, recorrerem a instrumentos reais, ao invés das habituais batidas programadas e 'samples'; de facto, apesar de contarem no seu alinhamento com um DJ de serviço, o grupo almadense incluía também um guitarrista, baixista e baterista, que ajudavam a criar um som bem distinto, mais próximo de bandas híbridas de rap e rock, como Cypress Hill, Public Enemy ou Body Count, do que do hip-hop tradicional. Aliado às letras realistas e socialmente engajadas de Pacman, este estilo único e diferenciado permitiu ao colectivo atingir um sucesso comercial quase imediato, com o primeiro álbum, 'Dou-lhe Com a Alma', de 1995, a conseguir uma boa recepção junto de um público particularmente receptivo ao rap e hip-hop, na sequência do êxito da pioneira compilação 'Rapública'. E não era caso para menos, visto tratar-se de um excelente registo, apoiado em temas tão fortes como a faixa-título ou a muito 'Public Enemy à portuguesa' 'Adivinha Quem Voltou'.

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O bem-sucedido álbum de estreia do grupo

Por muito auspiciosa que essa estreia tenha sido, no entanto, nada fazia prever o volume de vendas atingido pelo seu sucessor, '3º Capítulo', lançado dois anos depois (tendo o 'primeiro capítulo', nesta instância, sido o EP 'More Than 30 Motherf***ers', primeiro registo do grupo, lançado em 1994, e o único a contar com letras em inglês.)

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O segundo e mais conhecido álbum do grupo, lançado em 1997

O disco de 1997 via sair do grupo a vocalista de apoio Yen Sung, cujo lugar era preenchido por um segundo MC, Virgul – uma mudança que se viria a provar extremamente frutífera, vindo esse alinhamento a cimentar-se como a formação clássica da banda. O som, esse, aprimorava, refinava e aperfeiçoava a mistura entre as letras realistas e críticas de Pac e o som funk-jazz-rock criado pelos instrumentistas. Os singles 'Duia' – uma balada funk-jazz feita 'à medida' para a rádio – e 'Todagente' (uma faixa mais tipicamente Da Weasel) serviam de desculpa para a primeira digressão de sempre por parte do grupo, e ajudavam a impulsionar as vendas do álbum, que estabelecia definitivamente os Da Weasel como nome maior do hip-hop 'mainstream' português – estatuto, aliás, que o grupo manteria mesmo depois da chegada dos 'concorrentes' nortenhos, já em finais da década. Um álbum acústico gravado para a emissora Antena 3 e a participação de Pacman na compilação de Natal Espanta-Espíritos (cuja colaboração com Sérgio Godinho resultaria num dos temas mais 'fortes' do álbum, em todos os sentidos) apenas contribuiria para transformar as 'doninhas', ainda mais, na banda 'hip-hop' para as 'massas', num processo que alguns poderiam apelidar de 'sell-out'

Com o seu 'stock' ainda em alta tanto junto dos fãs de 'hip-hop' como do público 'radiofónico' (uma raridade em qualquer estilo musical) os Da Weasel lançavam, ainda antes do fim do milénio, o seu terceiro longa-duração, 'Iniciação a Uma Vida Banal – O Manual', um registo menos bem-sucedido comercialmente que o seu antecessor, mas ainda assim constituído por uma forte colecção de 'malhas', no estilo típico do grupo.

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O último álbum da fase 'imperial' do grupo saiu em 1999

A década seguinte trouxe ainda mais sucesso, mesmo depois da saída do membro-chave Armando Teixeira, em 2001; de facto, o álbum 'Re-Definições', de 2004 (primeiro sem o instrumentista e produtor) via a Doninha atingir o seu maior grau de sucesso e reconhecimento desde os tempos áureos de '3º Capítulo'. O anúncio de um hiato (em 2010, já depois do lançamento de um último álbum, em 2007) foi, por isso, surpreendente, podendo ter por base os conhecidos problemas de Pacman/Carlão com o abuso de substâncias.

Apesar de findo, no entanto, o grupo não foi, de todo, esquecido, como o comprovou a entusiástica reacção causada pelo anúncio de um concerto de reunião exclusivo, para o festival NOS Alive de 2020. O concerto, planeado para 11 de Julho daquele ano, acabou por ter que ser adiado devido à pandemia de COVID, mas a forte adesão ao mesmo por parte do público luso ajudou, pelo menos, a provar uma coisa – que quando, mais uma vez, a doninha decidir arrancar, pronta a estourar em 2025, com muita pinta e muito afinco, os seus velhos fãs de há duas décadas atrás lá estarão para os acolher de volta...

07.03.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

A ideia de apropriar uma obra musical a uma determinada demografia não é, de todo, nova, sendo incontáveis os 'hits' pop que, através dos tempos, foram alvo de versões em outros estilos ou até outras línguas, de forma a penetrarem num mercado até então inacessível.

No Portugal dos anos 90, esta tendência adquiriu, ainda, outra variante, nomeadamente, a adaptação desses mesmos 'hits' pop a um contexto infanto-juvenil, transmitido por artistas pertencentes à mesma faixa etária e demográfica do seu público-alvo. Sim, uma década antes de os americanos terem a ideia para a série 'Kidz Bop', já o nosso cantinho à beira-mar plantado via surgirem e entrarem em competição directa nos escaparates infanto-juvenis, não um, mas DOIS conjuntos de cantores em idade escolar, ambos com o mesmo conceito-base de adaptar músicas populares entre os adultos para permitir às crianças perceber e identificarem-se com o que estavam a ouvir (caso ainda não se tenham apercebido, os anos 90 foram uma MUITO boa época para se ser criança.)

Escusado será dizer que, mal conseguiram estabelecer-se no mercado fonográfico português (o que não deixa, só por si, de ser uma façanha) estes dois grupos iniciaram, de imediato, carreiras em tudo paralelas, estabelecendo uma rivalidade que, durante um período de cerca de dez anos, os veria avançar sempre 'taco-a-taco', tanto em termos de produção como de popularidade. O resultado, quase inevitável, saldou-se numa tal proximidade entre estes dois grupos na mente do seu público-alvo que, quando hoje se recorda o movimento de infantilização de 'hits' pop dos anos 90, é impossível mencionar o nome de um destes dois grupos sem, imediatamente a seguir, nomear o segundo - quem se lembra dos Onda Choc também se lembra dos Ministars, e vice-versa (já dos Starkids, Arte 9, Babyrock, Popeline ou Ultimatum, já não se pode dizer o mesmo...)

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Destes dois grupos, o primeiro a ser concebido foram mesmo os Onda Choc, uma criação de Ana Faria e Heduíno Gomes, um casal de produtores e compositores que já haviam conseguido um sucesso considerável ao gravar músicas na companhia dos seus filhos, sob a denominação Queijinhos Frescos. Nestes, Ana Faria ainda tomava conta das vozes: já nos Onda Choc, essa tarefa era deixada totalmente à responsabilidade dos jovens vocalistas, entre os quais se contavam os três ex-Queijinhos Frescos, filhos do casal. A experiência durou mesmo quase até ao final do milénio, e rendeu vários discos de enorme sucesso, e ainda hoje saudosamente recordados por toda uma geração.

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Já os rivais Ministars nasciam no seio do Coro Infantil de Santo Amaro de Oeiras (conhecidos por 'A Todos Um Bom Natal', A canção de Natal portuguesa por excelência) pela mão do maestro César Batalha, autor de outra música inescapável no contexto infantil da época, o 'Eu Vi Um Sapo' de Maria Armanda. Formados em 1986, o grupo passaria, tal como os rivais, por diversas permutações de alinhamento à medida que diferentes membros iam envelhecendo. Em 1994, após terem visto vários dos seus discos ser sucessos de vendas - tendo o de estreia atingido a marca da platina – mudaram de nome para Starkids e, sem as facilidades de divulgação existentes na sociedade actual, os jovens fãs perderam-lhes rapidamente o rasto, tendo o grupo desaparecido de cena pouco depois.

Os 'hits', esses, foram mais que muitos para ambos os grupos, alguns ainda hoje recordados por quem os ouviu à época – caso de 'Ele É O Rei', (versão da então mega-popular 'What's Up?', das 4 Non Blondes, outro grupo que paulatinamente surgirá nestas páginas) 'Ela Só Quer, Só Pensa em Namorar' ou o mítico 'Biquini Pequenino às Bolinhas Amarelas', que muitos dos que cresceram naquela geração potencialmente não saberão tratar-se de uma música real, lançada nos anos 60! O conceito dos dois grupos provou ser extremamente apelativo entre o público mais jovem, e o sucesso de que ambos gozaram permitiu a alguns dos seus mais talentosos elementos evoluir para carreiras na música 'adulta', em estilos tão díspares quanto o pop-rock (uma das integrantes dos Onda Choc liderou mais tarde os Amor Electro, enquanto que outra, Suzy, representou Portugal no Festival Eurovisão de 2014) ou a música 'pimba' (outra das meninas vocalistas do grupo de Faria e Gomes era uma tal de Micaela...)

Tal foi o sucesso destes grupos que, inevitavelmente, vários outros tentaram surgir na sua senda, por vezes provenientes, precisamente, dos mesmos criadores, como os Popeline - uma espécie de 'equipa de reservas' dos Onda Choc - ou os Ultimatum, que adaptavam músicas mais 'roqueiras' e com instrumentos reais. Algumas destas bandas propunham uma variação sobre o conceito-base de adaptação de músicas (os Arte 9, por exemplo, faziam 'covers' directas, sem quaisquer alterações, apenas cantadas por crianças) e houve mesmo quem chegasse a ver o seu disco produzido por um nome sonante da música popular portuguesa, como foi o caso dos Babyrock com Emanuel; no entanto, apesar do potencial que exibiam, todas estas ideias acabaram por 'cair em saco roto', parecendo o público infantil contentar-se com apenas dois grupos dedicados a este conceito.

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Os Starkids, uma continuação falhada dos Ministars

O próximo caso de sucesso para um grupo composto exclusivamente por jovens em idade escolar pertenceria, portanto, aos Milénio, já no fim do dito-cujo, e numa vertente e cena musical significativamente diferentes; quanto aos Onda Choc e Ministars, o seu legado viveria para sempre nas memórias de toda uma geração, para quem as capas dos discos dos dois grupos são indissociáveis de uma certa janela temporal na sua infância, em que a vida em geral parecia muito mais feliz e fácil, e em que muitas vezes apetecia cantar versões em português, e com letras adaptadas, das músicas famosas que passavam na rádio...

 

13.09.21

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

‘Sou camionista, sou o maioooor…’ Se esta linha, retirada de uma das músicas mais populares de 1996, vos fez avivar a memória, vão com certeza gostar do post de hoje, em que abordamos a banda responsável pela sua criação e gravação – os Mercurioucromos.

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Formados em 1995 a partir da junção de duas outras bandas, o quinteto assumiu, desde logo, a sua vontade de fazer pop-rock com fortes laivos de comédia – não terá, decerto, sido à toa que o líder desta ‘pandilha’ musical, Carlos Carneiro, se viria mais tarde a afirmar como actor; os seus maneirismos, tanto vocais como de palco, faziam, aliás, lembrar um outro nome de referência do rock-comédia em Portugal: Manuel João Vieira, dos Ena Pá 2000.

A música dos ‘Cromos era, no entanto, algo mais voltada ao pop do que o rock ‘apunkalhado’ dos EP2000, como bem demonstra o seu grande hit, acima citado. No entanto, faixas como ‘Lobo Mau’ mostram que a banda também sabe ser mais agressiva e atmosférica quando necessário, demonstrando que os Mercurioucromos talvez fossem mais do que aparentavam. Fosse ou não esse o caso, a verdade é que a banda conseguiu mesmo ‘explodir’ logo com o primeiro álbum e respectivo ‘single’, que o ajudou a catapultar para vendas de 60 mil unidades, muito graças à rotação constante de que gozava nas rádios nacionais.

Infelizmente, tal como acontece com tantas outras bandas, tanto em Portugal como no estrangeiro, também o quinteto saído de ‘uma garagem lá para os lados de Benfica’ nunca conseguiu replicar o sucesso meteórico dessa estreia, figurando hoje como um dos grandes ‘one hit wonders’ da história da música moderna portuguesa. Chegaria ainda a haver um segundo álbum, lançado apenas um ano depois do ‘pico’ do sucesso, mas já demasiado tarde para evitar cair em ‘orelhas moucas’; sem nada tão forte como ‘Camionista Cantor’ para manter os ‘Cromos relevantes entre o seu público-alvo, o álbum teve vendas modestas, deixando para o CD-single exclusivo produzido para a revista Super Jovem a honra de ser o segundo lançamento mais conhecido da banda.

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A segunda coisa mais famosa que os Mercurioucromos lançaram...

Ainda assim, os Mercurioucromos tiveram o seu momento na História do pop-rock português, por muito fugaz que o mesmo tenha sido, e conquistaram o seu lugar na lista de bandas nostálgicas para uma determinada geração, que acompanhou e viveu o mesmo. Por isso, e por terem tido uma música que qualquer jovem em idade escolar sabia cantarolar naquele ano de 1996, o quinteto de Lisboa merece bem esta referência aqui nas páginas do Anos 90…

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