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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

12.02.24

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Já aqui por várias vezes aludimos à fase áurea atravessada pelo 'pop-rock' nacional durante a década de 90. De facto, o referido movimento visivelmente 'transpirava' saúde, representada tanto por lançamentos marcantes por parte de artistas já veteranos, como Rui Veloso, GNR, Delfins, Resistência, Entre Aspas ou Xutos & Pontapés, como de novas e promissoras adições à cena, como Sitiados, Quinta do Bill, Silence 4, Ornatos Violeta, Pedro Abrunhosa, Hands on Approach ou a banda de que falaremos no 'post' de hoje, e que foi uma das muitas revelações apontadas como a 'próxima grande sensação' durante a referida década: os Pólo Norte.

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A formação clássica do grupo.

Formados em Belas, na região de Sintra, em 1992, das cinzas dos Honoris Causae, seria, no entanto, há coisa de trinta anos que a banda em causa verdadeiramente penetraria no imaginário popular, com o lançamento do seu primeiro disco, 'Expedição', e subsequente sucesso da faixa 'Lisboa', uma das músicas-estandarte do colectivo liderado pelo vocalista Miguel Gameiro. Também incluído neste registo de estreia está 'Grito', outro tema emblemático para o grupo e muito querido pelos seus fãs.

O primeiro sucesso do grupo...

Por muito auspiciosa que tivesse sido a estreia dos Pólo Norte, no entanto, nada fazia prever o que se seguiria com o seu segundo disco. 'Aprender a Ser Feliz', de 1996, dava ao mundo da música portuguesa o tema-título – que se tornaria ainda mais sinónimo com a banda do que 'Lisboa' - e ajudava a aumentar a base de fãs dos Pólo Norte de uma ponta à outra do País, muito por conta da grande rotação radiofónica da referida faixa homónima. Antes, a banda havia já conseguido destacar-se dos seus contemporâneos através de 'Amor É', uma versão musicada de um poema de Luís Vaz de Camões incluída na histórica colectânea 'Portugal ao Vivo II', veiculada com o jornal Blitz em 1995.

...e o seu verdadeiro tema-estandarte

Com a frequência e número dos concertos a aumentar, não é de estranhar que o terceiro álbum tenha demorado três anos a ser editado, por oposição aos menos de dois que mediaram entre 'Expedição' e 'Aprender a Ser Feliz'. Ainda assim, e apesar da demora, 'Longe' voltou a gozar de relativo sucesso, servindo mesmo de mote ao primeiro registo ao vivo do grupo, singelamente intitulado 'Pólo Norte ao Vivo' e lançado no dealbar do Novo Milénio. Em 2002, saía um novo registo de originais, 'Jogo da Vida', o quarto de uma carreira cada vez mais consolidada dentro do movimento 'pop-rock' nacional. Tudo parecia indicar a continuação de uma boa fase do grupo...não fora o hiato imposto por Miguel Gameiro, que procurava concentrar-se no projecto paralelo Portugal a Cantar.

Assim, passar-se-iam longos cinco anos até ser editado novo registo sob a denominação Pólo Norte – mas, como diz o ditado, 'mais vale tarde que nunca', já que 'Deixa o Mundo Girar', produzido pelo britânico Steve Lyons e de sonoridade mais 'rock' do que os seus antecessores, devolveu ao grupo o nível de fama e exposição dos tempos de 'Aprender a Ser Feliz', com diversos temas do álbum a figurarem em telenovelas e outras produções nacionais. Apesar deste sucesso, no entanto, o referido lançamento (reeditado dois anos depois com um segundo CD de bónus, composto por músicas ao vivo) saldar-se-ia, mesmo, como o último de originais do grupo, cujos registos subsequentes tomariam a forma de colectâneas, a primeira editada aquando da celebração de quinze anos de carreira do grupo, em 2008, e a segunda – intitulada 'Miguel Gameiro e Pólo Norte', lançada em 2014. De salientar que '15 Anos' trazia dois temas inéditos, até hoje os últimos alguma vez gravados pelos Pólo Norte.

Apesar de se assinalar nesse ponto o fim do grupo, no entanto, não era ainda a despedida de Miguel Gameiro, que lançaria um último CD a solo, 'A Porta Ao Lado' - que chegou a ser Top 10 de vendas em Portugal em 2010 – antes de se dedicar à sua outra paixão, a culinária. A carreira de 'chef' em estabelecimentos como o Casino Estoril e Quinta da Beloura foi, no entanto, mais uma vez posta em hiato em 2021, quando a banda se reuniu para uma celebração dos vinte e cinco anos de carreira, a qual, por sua vez, motivaria planos para uma 'turnê' completa, sob a designação Miguel Gameiro & Pólo Norte, a ter início no ano transacto. E apesar de tal desiderato ainda não se ter materializado, é bem possível que estejamos perante o início de uma 'segunda vida' para mais uma banda emblemática do 'pop-rock' nacional de finais do século XX. Resta aguardar para ver...

13.11.23

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

O fim de uma banda icónica nem sempre garante o sucesso de seja qual for o projecto a que os músicos se dediquem em seguida; antes pelo contrário, esse tipo de 'sequela' musical tende, na maioria dos casos, a ser algo ignorada pelos fãs do grupo original, que desejam apenas mais um álbum da sua banda favorita. Assim, qualquer músico que embarque neste tipo de 'aventura' tem pela frente uma série de obstáculos, a começar por essa mesma aceitação dos fãs, e que passa também pela vontade, bastante frequente, de se demarcar do som do seu grupo de origem, o que ainda ajuda a reduzir mais o interesse da 'massa adepta' pelo novo projecto.

Foi, precisamente, esse o paradigma com que se depararam Rui Pragal da Cunha e Paulo Gonçalves, dos efémeros mas icónicos Heróis do Mar, banda que marcou a cena pop-rock nacional durante os anos 80, mas que não sobreviveu ao dealbar da nova década, encerrando actividades logo nos primeiros meses da mesma. Não demorou, no entanto, até que os dois músicos demarcassem novo objectivo musical, e, menos de um ano após a dissolução dos Heróis, via a luz o primeiro (e único) registo do projecto LX-90.

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As capas das duas versões (nacional e internacional) do único álbum do projecto.

Com um nome que consiste, simplesmente, das formas abreviadas do ano e localidade de formação da banda (mas que consegue, mesmo assim, soar 'cool' e misterioso q.b.), este projecto vê Rui e Paulo juntar-se a DJ Vibe e aos desconhecidos Nuno Miguel e Nini Garcia para desenvolver um som dançante e psicadélico, alicerçado em estilos como o 'trip-hop', e pautado pelas vocalizações dramáticas e por vezes quase declamadas de Rui Pragal da Cunha; no fundo, uma espécie de versão mais 'pesada' e alternativa do 'synth-pop' dos Heróis, que não tentava sequer agradar aos fãs dos mesmos, e apontava, em vez disso, a uma demografia totalmente nova que começava a dealbar entre as gerações mais novas.

Talvez tenha estado aí a razão do insucesso do projecto: sem a ligação sonora aos Heróis do Mar, Rui e Paulo alienaram uma base de fãs antes de terem conseguido conquistar outra, e acabaram por se perder nas 'malhas' das cenas pop-rock e alternativa nacionais. O grupo ainda tentou um 'ataque' internacional, através de uma versão do álbum com músicas em Inglês, mas ficou mesmo por aí a sua discografia, tendo os músicos encerrado actividades pouco tempo depois.

Em anos subsequentes, no entanto, o projecto LX-90 atingiu um certo estatuto de culto, que motivou mesmo, já neste ano de 2023 (concretamente a 13 de Julho) uma reunião, para participar no festival Super Bock Super Rock. Desta nova formação fazem parte, além dos dois ex-Heróis do Mar e de DJ Vibe, Nuno Roque, João Gomes e Samuel Palitos, este último um ex-membro dos ícones do punk nacional Censurados. Resta saber se este foi um reencontro esporádico ou se haverá planos para prosseguir com a carreira de um nome que merecia mais do que a carreira breve e discreta de que gozou, e a audiência de culto que logrou angariar durante a mesma.

16.10.23

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Todas as cenas musicais as têm: aquelas bandas que ficam juntas durante pouco tempo, lançam talvez um ou dois álbuns, sem nunca almejar grande sucesso, mas adquirem um estatuto de culto que as faz permanecer relevantes entre os círculos de melómanos mais 'curiosos' durante várias décadas. O movimento pop-rock português não é excepção nesse aspecto, como bem demonstra o grupo que abordamos nesta Segunda de Sucessos, cujo único álbum continua a ser uma das grandes 'curiosidades' do estilo, tal como era praticado em Portugal na primeira metade dos anos 90.

Formados em Chaves no final da década anterior, o projecto conhecido como Adamastor começou por apostar numa sonoridade mais pesada, com letras em Inglês, que chegou a render uma 'demo' com dois originais e uma versão de Thin Lizzy; no entanto, a entrada do vocalista e compositor Artur Órfão mudou o idioma para Português e o som para um registo mais voltado para o pop-rock radiofónico, já com muito pouco a ver com o hard rock tradicional e conservador da maqueta.

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Capa e contracapa do único álbum da banda.

De facto, o que se ouve no primeiro e único longa-duração da banda, editado em 1992 pela incongruente Espacial, rainha dos discos de 'pimba' de tabacaria ou estação de serviço (ao lado dos quais este disco muita vezes figura) está mais próximo de uns GNR do que das referências 'metálicas' nortenhas da época, como Xeque-Mate ou Tarantula, com músicas conduzidas, sobretudo, pela guitarra semi-acústica dedilhada - raramente se ouve um 'riff' electrificado na dúzia de temas que compõem o disco - pela percussão simples e compassada, tipicamente pop-rock, e pela voz dramática e meio declamada de Órfão, que traz muitos ecos de Rui Reininho, bem como uma pitada de Xico Soares (dos referidos Xeque-Mate), ainda que com mais talento e técnica do que este último. Uma fórmula que até poderia resultar, não fora a péssima produção (praticamente só se ouvem os três instrumentos atrás citados) e a desinspiração das composições de Órfão, que parece só saber escrever um único tipo de música, mudando apenas a letra e os arranjos. Aliado à dificuldade em ouvir as 'nuances' de cada tema, derivada da pobre produção, este factor faz com que o disco soe como um 'bolo' uniforme de música, sem que haja um único refrão memorável ou arranjo diferenciado que ajude qualquer das composições a destacar-se, o que torna a audição do disco algo penosa e retira a apetência para dar a habitual segunda ou terceira oportunidade a estes doze temas.

Assim, e dado o relativo insucesso do álbum, não é de surpreender que os Adamastor pouco mais tenham durado após a gravação do mesmo; com material mal produzido, aborrecido e parcamente promovido por uma editora totalmente errada, a banda estava condenada ao falhanço, e o principal contributo da mesma para a cena musical nacional continua, até aos dias de hoje, a ser a revelação do baterista Rui Danin, que viria posteriormente a fundar os Web – estes sim, uma banda de metal – e a colaborar com grupos tanto estabelecidos como emergentes da cena, como os supramencionados Tarantula (ídolos do metal nortenho), os Pitch Black, os Hyubris ou os ThanatoSchizo. Quanto ao único registo da sua primeira banda, certamente será encarado, hoje em dia, como um 'desvario' de juventude, cujo estatuto de culto se deve apenas ao seu relativo desconhecimento e raridade, e à presença de Danin entre os músicos participantes – uma situação que, face ao material apresentado, acaba até por ser algo lisonjeira...

A banda chegou a reunir-se em 2018, para tocar num evento local.

02.10.23

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

A grande maioria do movimento musical português continua, até hoje, a centrar-se em torno do pop-rock 'de guitarras' de pendor radiofónico, surgido nos anos 70 e consolidado como principal género lusitano nas duas décadas seguintes. Aqui e ali, surgem nomes proeminentes em outros estilos – nomeadamente o hip-hop, o metal e mesmo o tradicional fado – mas os mesmos continuam a ser uma minoria, e até mesmo esta breve 'janela' de oportunidade tende a não se estender a géneros mais periféricos do espectro musical. Serve esta introdução para clarificar que fundar um projecto de rock industrial em Portugal é nada menos do que um acto de coragem – e conseguir mantê-lo activo e relevante durante três décadas, uma façanha digna de ser louvada.

E, no entanto, é precisamente isso que Armando Teixeira e Rui Sidónio têm vindo a conseguir com o projecto Bizarra Locomotiva, cujo último álbum saiu há pouco mais de uma semana à data de publicação deste 'post', que teria sido escrito apenas dois dias após o seu lançamento, não fora o hiato forçado. Ainda assim, mesmo com este atraso, o lançamento de 'Volutabro' continua a ser relevante o suficiente para justificar uma retrospectiva dos seus autores, até por este ano assinalar o trigésimo aniversário do projecto.

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De facto, foi em 1993 que Teixeira e Sidónio procuraram reunir uma banda, com vista a participar no Concurso de Música Moderna de Lisboa. Desse primeiro passo à transição para banda 'a sério' mediariam apenas alguns meses, com o álbum de estreia auto-intitulado a sair logo no ano seguinte, pela independente Simbiose, uma das principais editoras de bandas 'underground' de rock pesado em Portugal.

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O álbum de estreia do grupo, lançado em 1994.

Esse mesmo selo viria, nos dois anos subsequentes, a editar mais dois registos de originais de um grupo que provava ter uma ética de trabalho 'à moda antiga', e que, no tempo que normalmente leva a uma banda a escrever um único álbum, lançava três registos, por entre uma agenda de concertos bastante preenchida – uma atitude que, aliada à qualidade do colectivo, não tardaria a torná-los conhecidos dentro dos círculos do rock, punk e metal portugueses, e que lhes valeria o respeito de nomes como Fernando Ribeiro, dos Moonspell (que viria a participar num dos discos do colectivo) e a participação na Bienal de Jovens Criadores da Europa Mediterrânica, em meados da década. Até final da mesma, tempo ainda para um quarto álbum ('Bestiário', de 1998, novamente pela Simbiose) e para a participação no lendário tributo aos Xutos e Pontapés, 'XX Anos, XX Bandas', com uma reinvenção industrializada do tema 'Se Me Amas' que não deixava de se destacar do som mais clássico e típico de outros colectivos presentes no disco, como os Entre Aspas.

O Novo Milénio via, finalmente, o ritmo de trabalho do grupo abrandar para um ritmo mais normal – nos primeiros dez anos do século XXI, saem três registos de originais, o último dos quais, 'Álbum Negro', de 2009, com intervalo de cinco anos em relação ao anterior 'Ódio' – mas sem beliscar minimamente a reputação do grupo, que perduraria até quando, na década de 2010, o grupo quase parou a produção criativa, soltando apenas um único álbum, o sétimo, intitulado 'Mortuário' e lançado por outra 'grande' independente portuguesa, a Rastilho, em 2015. Pelo meio, o afastamento do fundador e vocalista Armando Teixeira – um acontecimento que ditaria o fim de muitas bandas, mas não dos Bizarra, que, por entre compassos de espera tão forçados quanto necessários, chegariam, após tortuosos oito anos, ao disco correspondente (o oitavo) que prova que pouco ou nada mudou na sonoridade metálica industrial do grupo agora capitaneado por Rui Sidónio, um exemplo de perserverança numa cena que continua a ser ingrata para quem não aposte num estilo radiofónico e vendável. Que contem ainda muitos anos, porque o algo estagnado panorama musical português precisa de 'anomalias' como eles.

Primeiro avanço do novíssimo álbum do grupo, lançado no passado mês de Setembro

15.05.23

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

A cena 'punk' lisboeta era, nos anos 80 e 90, um dos mais famosos e prolíferos movimentos musicais portugueses, com actividade e impacto ao nível daquele que viria a ser o movimento hip-hop nortenho em inícios do novo milénio. Centrada em bairros como Alvalade, localidades da Linha de Cascais e espaços como o Johnny Guitar ou o Rock Rendez-Vous, a sobredita vaga de grupos 'punk' e 'new wave' (todos, sem excepção, com letras cantadas em português) viu nascer grupos tão emblemáticos como os Xutos e Pontapés, Peste & Sida, Mata-Ratos, Capitão Fantasma, ou uma banda que, apesar da literal meia dúzia de anos de carreira, viria a adquirir estatuto de culto entre os fãs de rock rápido e agressivo 'made in' Portugal: os Censurados.

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O grupo em 'pose Ramones'.

Formada no referido bairro de Alvalade em finais da década de 80, a banda resultou da junção de quatro músicos – Orlando Cohen na guitarra, Fred Valsassina no baixo, Samuel Palitos na bateria e o icónico e malogrado João Ribas na voz – que, no melhor espírito 'punk rock', se juntaram num estúdio improvisado (situado no quarto de Ribas) para escrever músicas 'curtas e grossas' com letras contestatárias, cujo principal alvo eram os políticos e figuras de autoridade da época; esses temas, posteriormente apresentados ao vivo nos 'buracos' do costume, acabaram por ganhar tracção entre a comunidade de 'troca de cassettes', a qual ajudou a popularizar o nome do grupo através da partilha das suas canções - mais de uma década antes do dealbar da Internet e do 'boom' da partilha de ficheiros – fazendo com que as mesmas fossem já sobejamente conhecidas ainda antes do lançamento do álbum de estreia do grupo. Uma história que quase parece ter sido escrita, de tal modo encarna o 'estereótipo' normalmente associado ao 'punk', mas que apenas vem provar algo que os Ramones já haviam demonstrado uma década e meia antes – nomeadamente que, para se tocar 'punk rock', só era precisa muita vontade e alguma capacidade de improviso.

Naturalmente, com uma base de fãs já estabelecida e uma reputação em rápida ascensão, o próximo passo do grupo passou pela gravação de um álbum de estreia homónimo, saído em 1990 e considerado um dos marcos históricos do movimento 'punk' português, tendo a sua qualidade, inclusivamente, atraído interesse do estrangeiro – nomeadamente, da maior 'fanzine' sobre 'punk' da época, a Maximum Rock'n'Roll, que teceu loas ao álbum nas suas páginas.

O lendário álbum de estreia do grupo, lançado logo no início da década de 90

Com a cotação de tal modo 'em alta', não é, pois, de admirar que o grupo tenha demorado apenas cerca de um ano a lançar novo registo, tendo 'Confusão', de 1991, sido bem-sucedido em manter o nome Censurados bem presente na memória colectiva da cena 'punk' nacional durante os dois anos seguintes, tempo que demora a sair o terceiro e último álbum de estúdio, 'Sopa”. Já de créditos bem firmados na cena nacional, e com ligações a espaços como o supramencionado Johnny Guitar (tendo, inclusivamente, participado na lendária colectânea lançada pelo mesmo em 1993), o grupo consegue neste registo final uma 'cunha' de respeito, na pessoa de Jorge Palma, que surge no tema 'Estou Agarrado a Ti.'

Dada a sua preponderância na cena rock nacional, não é, igualmente, de estranhar que os Censurados tenham sido convidados a participar em dois dos mais famosos álbuns de tributo do referido movimento, comparecendo tanto em 'Filhos da Madrugada' – o tributo a Zeca Afonso lançado em 1994 e que reúne a 'nata' do movimento musical lusófono, dos inevitáveis Xutos, GNR e UHF a Madredeus, Sitiados, Delfins, Entre Aspas, Resistência, os 'colegas' Peste & Sida, os cabo-verdianos Tubarões e até o Coro Infantil de Santo Amaro de Oeiras! – e 'XX Anos, XX Bandas', o álbum celebratório dos vinte anos de carreira dos Xutos e Pontapés, editado em 1999, e que conta com nomes como Rádio Macau, Da Weasel, Paulo Gonzo, Boss AC, Quinta do Bill, Ornatos Violeta, Bizarra Locomotiva, Cool Hipnoise, Lulu Blind ou o 'alter ego' dos Peste & Sida, Despe e Siga, além de alguns 'repetentes' do tributo a Zeca. Os Censurados participam, respectivamente, com os temas 'O Que Faz Falta' e 'Enquanto a Noite Cai', aqueles que viriam a ser os últimos temas gravados em estúdio pelo colectivo – sendo o segundo, inclusivamente, já póstumo, ainda que tenha dado azo a uma 'tourné' de reunião ao lado dos próprios Xutos, da qual resulta um lendário micro-concerto de apenas quinze minutos na edição de 1999 do Festival do Sudoeste, bem como um álbum ao vivo, gravado na Queima das Fitas de Coimbra no mesmo ano e lançado em 2002 – esse, sim, o último registo oficial do grupo.

Versão ao vivo da 'cover' dos Xutos incluída em 'XX Anos, XX Bandas', captada no último concerto oficial do grupo, na Queima das Fitas de Coimbra de 1999

A dissolução dos Censurados não significou, no entanto, o afastamento dos seus integrantes da música, ou sequer do movimento 'punk' – pelo contrário. João Ribas formaria, logo no ano seguinte, os não menos lendários Tara Perdida - cuja carreira soma e segue até hoje, tendo mesmo conseguido resistir ao falecimento do seu fundador e figura de proa - e os restantes integrantes também se manteriam activos na cena musical, embora de forma mais discreta. Mesmo que o fim dos Censurados tivesse equivalido ao fim das suas carreiras, no entanto, os quatro músicos poder-se-iam sempre orgulhar de terem sido banda de culto do movimento rock português de finais do século XX, e de, em apenas seis anos, terem construído um legado de fazer inveja a muitas bandas com várias décadas de carreira, validando a famosa máxima de Kurt Cobain de que 'é melhor acabar carbonizado do que desaparecer lentamente.'

A algo incongruente aparição do grupo na 'Hora do Lecas', em 1990.

 

01.05.23

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Já aqui anteriormente falámos de algumas das principais bandas do 'boom' de pop-rock nacional vivido entre inícios da década de 80 e finais da seguinte, e que daria ao movimento musical 'mainstream' nacional uma panóplia de nomes que vai dos inevitáveis Xutos & Pontapés, UHF. Delfins e GNR a bandas como Resistência, Rio Grande, Rádio Macau, Clã, Santos & Pecadores, Ornatos Violeta, Blind Zero, Quinta do Bill, Sitiados, Três Tristes Tigres, Fúria do Açúcar, Silence 4 ou a banda de que falamos esta semana, e que celebra este ano o trigésimo aniversário do lançamento do seu álbum de estreia - os Entre Aspas.

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Formados logo no início da década como um duo constituído pela vocalista Viviane (grande 'cartão de visita' do grupo) e pelo seu marido, o guitarrista Tó Viegas, o projecto foi inicialmente concebido apenas com o intuito de preencher um convite para tocar no bar Morbidus, em Faro, tendo a própria designação da banda surgido da forma como assinalaram a data do concerto na sua agenda pessoal, com um sinal de 'aspas'. No entanto, esse primeiro espectáculo rapidamente se desdobrou numa carreira a tempo inteiro, tendo o casal preenchido o alinhamento com uma secção rítmica – constituída pelo baixista Luís Fialho e pelo baterista João Vieira – a tempo de conquistar o terceiro lugar no primeiro Concurso de Música Moderna da Câmara Municipal de Lisboa, realizado em 1991. Um início honroso para um percurso que teria o seu verdadeiro início no ano seguinte, quando a banda assina contracto com a multi-nacional BMG e inicia o processo de composição do seu primeiro álbum, já com Nuno Filhó no lugar do demissionário Luís Fialho.

O referido álbum, intitulado 'Entre SFF', veria a luz no ano seguinte (há quase exactos trinta anos) e contaria com a produção de Manuel Faria, ex-Trovante, que voltaria a colaborar com o grupo na versão de 'Traz Outro Amigo Também' incluída num álbum de tributo a Zeca Afonso, no ano seguinte. A par de temas próprios como 'Criaturas da Noite' e 'Voltas', este tema ajudou a cimentar a reputação da banda como um dos grandes nomes da nova vaga de pop-rock português.

A releitura de um dos mais famosos temas de Zeca Afonso feita pelo grupo em 1994.

Reputação essa, aliás, que seria cimentada pelo segundo álbum do grupo, 'Lollipop', lançado em 1995 e que contou com a produção daquele que era, à época, o nome de referência para trabalhos de pop-rock nacionais, Marsten Bailey, bem como com o contributo de dois novos integrantes, ambos de créditos firmados na cena – Filipe Valentim, ex-Rádio Macau, e Luís San Payo, ex-Pop Dell'Arte; antes da gravação do terceiro álbum ('Edelweiss', de 1997) verificar-se-ia ainda mais uma mudança, com a entrada do baterista Rui Freire a compôr aquele que seria o alinhamento dos Entre Aspas até ao final da carreira.

O dito final estava, no entanto, ainda a largos anos de distância, sendo que o grupo seguia de vento em popa, participando com dois temas na icónica colectânea 'Ao Vivo na Antena 3', em 1998 (mesmo ano em que Viviane é escolhida para dar voz a um dos temas do mega-projecto natalício 'Espanta Espíritos') e com uma versão de 'Doçuras' no não menos icónico tributo aos vinte anos de carreira dos lendários Xutos e Pontapés, lançado em 1999. Também nesse mesmo ano, é lançado o quarto álbum do grupo, 'Loja de Sonhos' produzido com a ajuda de Flak e com mistura de Joe Fossard.

A contribuição do grupo para a colectânea 'XX Anos, XX Bandas', dedicada aos vinte anos de carreira dos Xutos & Pontapés.

Infelizmente, o 'impulso' vivido pela carreira dos Entre Aspas durante a última década do século XX não sobreviveria aos primeiros anos do Novo Milénio, sendo o álbum ao vivo 'www.entreaspasaovivo.com' (lançado há quase exactos vinte e dois anos, em finais de Abril de 2001, e homónimo do hoje defunto 'site' do grupo) o último registo da banda antes da dissolução em 2005, e subsequente início da carreira a solo de Viviane. Os fãs do grupo teriam, no entanto, uma grata surpresa nove anos depois, quando, a pretexto daqueles que seriam os vinte anos de carreira do grupo, a BMG lança uma colectânea de êxitos – esta, sim, o último registo oficial de uma banda que, sem ter quaisquer daqueles 'hits' instantaneamente reconhecíveis tão típicos do pop-rock nacional de finais do século passado, conseguiu ainda assim estabelecer-se como um dos nomes na 'linha da frente' do movimento durante mais de uma década.

Mesmo após o término do grupo, no entanto, a carreira de Tó Viegas e Viviane seguiu tão firme como o seu casamento, tendo a dupla sido responsável, entre outros projectos, pelo tema 'Com Um Abraço', semi-finalista do Festival da Canção 2021 na voz de Ana Teresa – apenas uma das muitas provas de que o fim da banda que os notabilizou não correspondeu, de todo, à extinção da criatividade musical do casal, que continua a ter papel de destaque na cena 'pop' nacional moderna, mesmo que agora a partir dos 'bastidores'. Quanto aos Entre Aspas, o ano em que completariam trinta anos de carreira serviu mesmo de pretexto para uma reunião dos membros da formação clássica, e subsequente regravação do tema-estandarte do grupo, 'Criaturas da Noite'; resta esperar para ver se se trata de um regresso esporádico, ou se a carreira da banda virá, mesmo, a ganhar um 'segundo fôlego'...

A nova versão de 'Criaturas da Noite', gravada já este ano.

20.03.23

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Regra geral, a maioria das bandas é fácil de catalogar dentro de um estilo definido, seja ele o rock, o heavy metal, o pop, a música étnica, a música clássica, ou qualquer outra das dezenas de denominações que compõem o Mundo da música moderna. Por vezes, no entanto, surge um colectivo que verdadeiramente desafia as convenções estabelecidas, ousando mesclar estilos numa mistura ecléctica que os ajuda a destacar da 'maralha' e a atrair a atenção de toda uma base de fãs. Nos anos 90, existiu em Portugal um grupo assim, cuja proposta passou por misturar o canto tradicional do nosso País, o fado, com elementos de música pop e gótica – proposta essa que os ajudou a catapultar para os mais altos vôos a que uma banda nacional pode aspirar. Falamos, é claro, dos Madredeus, o colectivo centrado em torno do guitarrista clássico Pedro Ayres de Magalhães, e cujo elemento mais distintivo, na sua fase clássica, foi a inimitável voz de Teresa Salgueiro, a qual, durante a sua permanência no grupo, se faria ouvir ao lado de artistas tão díspares quanto José Carreras e Moonspell.

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Formados ainda nos anos 80, datando o primeiro disco de 1987, seria, no entanto, na década seguinte que o colectivo baptizado com o nome de um bairro lisboeta atingiria a proeminência que se lhe conhece hoje em dia. O lançamento do segundo álbum, logo em 1990, e 'aventuras' internacionais como o concerto na exposição Europália '91 (dedicada à cultura portuguesa) ou a participação em bandas sonoras de filmes estrangeiros ajudaram a consolidar o nome do grupo não só dentro de portas como também 'lá fora', dando início à trajectória de sucesso que caracterizaria a carreira do grupo. O terceiro álbum, de 1994, já tem honras de digressão internacional e, no ano seguinte, a banda é convidada a colaborar com o cineasta Wim Wenders, que inclui temas dos Madredeus no seu 'Viagem a Lisboa', ajudando a elevar ainda mais o perfil internacional do colectivo. Já 'cá dentro', o mérito da banda era bem reconhecido, tornando-os figura de proa da cena musical nacional e motivando convites de índole tanto musical como cultural, como aquele que os levou a participar no espectáculo de abertura da Expo '98, ao lado de José Carreras, já depois de algumas alterações de formação e do lançamento de um quarto álbum, em 1997.

A ascensão do grupo não abrandaria, aliás, no Novo Milénio, que abriria com o lançamento de uma 'Antologia' e uma participação no filme 'Capitães de Abril', cada uma das quais com dois temas inéditos, e veria serem lançados, no espaço de apenas três anos, mais dois álbuns de originais, uma colectânea para o mercado brasileiro, um disco ao vivo e um de 'remixes' electrónicas – mais uma prova, caso as mesmas ainda fossem necessárias, de que o grupo havia atingido o patamar da fama e relevância. Seria, portanto, com alguma surpresa que os fãs do grupo receberiam a notícia de um 'ano sabático', em 2007, e, mais tarde, o êxodo da maioria dos membros, deixando o fundador Ayres de Magalhães e o teclista Carlos Maria Trindade como únicos representantes do nome.

Não querendo desvirtuar o mesmo com novos músicos, os dois decidem fundar um novo projecto, a Banda Cósmica, com o qual lançam três álbuns antes de decidirem mesmo 'ressuscitar' o seu grupo anterior, agora com novos músicos e a vocalista Beatriz Nunes no lugar que ficará para sempre associado a Teresa Salgueiro. Com esta nova formação, são lançados mais dois álbuns, o segundo dos quais, 'Capricho Sentimental', de 2015, é até hoje o último lançamento dos Madredeus. Qualquer que seja o futuro do grupo, no entanto, o colectivo de Pedro Ayres de Magalhães já inscreveu indelevelmente o seu nome na História da música portuguesa, e pode orgulhar-se de ser, até hoje, um dos principais nomes da mesma, tanto a nível nacional como internacional.

06.03.23

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Apesar de não ter, de longe, tanta expressão como a vizinha Espanha e os outros 'enclaves' mediterrânicos, como a Itália e a Grécia, Portugal não deixa, ainda assim, de ter uma cena hard rock e heavy metal bastante saudável, com várias bandas a conseguirem ganhar reconhecimento a nível nacional ao longo dos anos, e mais do que uma publicação especializada a gozar de alguma longevidade. Ainda assim, a triste verdade é que, destas, são mesmo muito poucas as que chegam a gozar de algum sucesso ao nível do 'mainstream', sendo pouco provável que o fã médio de música radiofónica (mesmo que com inclinações mais 'rock') seja capaz de nomear mais do que dois ou três nomes nesta categoria. Destes, o primeiro será inevitavelmente o dos Moonspell, expoente máximo do metal português, e talvez a única banda pesada verdadeiramente bem-sucedida a alguma vez sair do nosso país; logo atrás dos 'mestres' liderados por Fernando Ribeiro virão talvez, no entanto, nomes como os dos Tarantula – veterana banda de metal clássico do Porto, no activo há quase quatro décadas – e o da banda visada nesta Segunda de Sucessos, os lisboetas R.A.M.P.

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Caso paradoxal da música nacional, o grupo da Margem Sul do Tejo (cujo nome é um acrónimo das iniciais dos membros fundadores) conseguiu a proeza – considerável mesmo nos dias de hoje, e ainda mais nos anos 90 - de atingir a aceitação do grande público melómano sem nunca comprometer ou 'amaciar' a sua sonoridade power/thrash/groove, muito influenciada por bandas como Pantera. Ao contrário do que acontece em tantos outros casos, as guitarras pesadas e vocalizações fortes do fundador Rui Duarte não impediam a banda de bater recordes de vendas para uma banda pesada (o segundo disco, 'Intersection', entrou nos tops nacionais em 1995) e ser convidada a marcar presença em eventos e programas de índole generalista, como o 'Buereré', no qual se afirmaram como, talvez, o convidado musical mais insólito, incongruente e inesperado da década, senão mesmo da História da televisão portuguesa. A imagem daqueles 'cabeludos' a berrar e a fazer o tradicional 'headbanging' no cenário multi-colorido do programa de Ana Malhoa, rodeados de 'bonecos' e crianças em idade de instrução primária ficou, desde esse momento, gravada na memória de toda uma geração – o que, no fundo, faz com que a presença da banda no programa possa ser considerada um sucesso...

Imaginem ligar a televisão num fim-de-semana de manhã e 'ouver' isto entre o Dragon Ball Z e os Power Rangers...

Não era só a televisão infanto-juvenil que dava um nível inusitado de atenção à banda do Seixal; também a rádio parecia gostar do colectivo liderado por Rui Duarte e Ricardo Mendonça, tendo a Rádio Comercial considerado 'For A While', uma das faixas de 'Evolution, Devolution, Revolution', o terceiro trabalho do grupo, como uma das dez melhores músicas do ano de 1998 – uma distinção meritória e difícil de atingir para muitos artistas pop, que dizer de uma banda de metal! Também radialistas como António Sérgio consideravam o grupo uma 'pedrada no charco' do rock português, tendo-se este apoio (declarado ainda por alturas do primeiro álbum do grupo, 'Thoughts', de 1992) provado determinante na ascensão da banda dentro da cena musical nacional.

'For a While', o tema considerado como um dos dez melhores de 1998 pela Rádio Comercial.

Ascensão essa que, aliás, continuaria Novo Milénio adentro, com o grupo a continuar a ser 'a' banda de abertura por excelência para grandes nomes do metal mais pesado em território nacional, e a lançar mais dois álbuns álbuns de originais, um ao vivo, e uma colectânea celebratória do quarto de século de actividade, todos bastante bem sucedidos, pesem embora algumas mudanças de formação.

Comemorada a referida marca de vinte e cinco anos de actividade, no entanto, o grupo perde proeminência, remetendo-se ao relativo silêncio (pelo menos a nível discográfico) durante quase uma década, antes de ensaiar um regresso tão inesperado quanto explosivo em 2022 – a reacção ao qual foi suficientemente entusiasta para provar que os R.A.M.P. continuavam a ser capazes de atrair os 'metaleiros' portugueses em massa, e que a reputação da banda dentro da cena se mantinha intacta, mesmo que longe do sucesso comercial de outros tempos. Quanto ao que o futuro reserva para o grupo de Rui Duarte e companhia, há que esperar para ver, mas uma coisa é certa: os R.A.M.P. merecem já o seu lugar na lista de grandes nomes da música alternativa portuguesa, não só dos anos 90 como a nível geral – uma façanha invejável para um grupo de um estilo tão pouco 'acessível' como o thrash metal...

23.01.23

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

No dealbar do ano de 1998, um álbum dominava os tops nacionais de música – um álbum que se viria a tornar um dos mais bem-sucedidos de sempre, atingindo uma impressionante quádrupla platina. Tratava-se de 'Saber A Mar', sexto trabalho de originais de um dos grupos favoritos dos adolescentes portugueses das décadas de 80 e 90: os icónicos Delfins.

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De facto, apesar de o referido trabalho os ter catapultado para todo um novo nível de sucesso, os Delfins contavam já com mais de uma década 'na ribalta' aquando do seu lançamento em 1996, sendo um dos nomes mais sonantes da vaga de 'pop-rock' surgida no nosso País durante essas duas décadas ao lado de nomes como Xutos & Pontapés, GNR e Rádio Macau, com os quais partilhavam características como as letras em português e o registo distinto do seu vocalista, o 'bonitão' Miguel Ângelo, também integrante do projecto Resistência. 'Hits' como 'Nasce Selvagem' e 'Um Lugar ao Sol' garantiam ao grupo presença assídua nas principais estações de rádio da época, e ajudavam a manter o colectivo no 'radar' cultural nacional.

O sucesso da banda não se cingia, aliás, aos territórios nacionais, sendo que, por alturas do lançamento do trabalho em causa, o grupo português havia já realizado espectáculos na Expo '92, em Espanha, na sala Zénith, em Paris, e na prestigiada Brixton Academy, de Londres; já dentro de portas, o grupo esgotava concertos por onde passava, fosse a abrir para Tina Turner em Alvalade,, a inaugurar 'de surpresa' o icónico Johnny Guitar ou a 'aquecer' literalmente a plateia no tradicional espectáculo de Ano Novo no Terreiro do Paço, todos em 1990. O Pavilhão Carlos Lopes, a Festa do Avante e o Coliseu dos Recreios de Lisboa foram alguns dos outros icónicos certames a presenciar a ascensão do grupo ao panteão do 'pop-rock' nacional durante aquela que foi a sua época de afirmação definitiva – e que, como já foi referido, acabaria em apoteose, com Miguel Ângelo e companhia a bater recordes de vendas com o seu sexto álbum, a tocarem na Expo '98 e a consumarem a tentativa de internacionalização com um álbum de temas adaptados para o Espanhol ('Azul', de 1998), já depois de o seu líder ter participado, como juiz, no mega-sucesso da SIC, 'Chuva de Estrelas', e dado a voz ao cowboy Woody na excelente dobragem nacional de 'Toy Story - Os Rivais', em 1995.

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Capa do grande êxito do grupo.

Infelizmente, esta tendência não se manteria no Novo Milénjo – apesar dos lançamentos regulares e consistentes (entre álbuns de originais, ao vivo, colectâneas e DVDs, foram onze registos) e da manutenção de um público fiel que 'crescera' com eles, a banda não mais veria os níveis de sucesso atingidos por volta de 1997, inserindo-se antes na categoria de 'instituição nacional', ao lado da maioria dos grupos da mesma vaga. Ainda assim, o estatuto do grupo ainda lhes permite viajar até ao Canadá e a Macau, tocar num cruzeiro em Marrocos, participar na segunda edição do concurso 'Operação Triunfo', e actuar em locais tão icónicos da Grande Lisboa como o Casino Estoril e o Centro Cultural de Belém, bem como no Rivoli do Porto.

Mesmo com toda esta projecção – ou talvez por causa dela – o grupo surpreendia a cena musical portuguesa ao anunciar um hiato, em 2009 – o qual acabaria por durar uma década, tendo a banda cascalense voltado a reunir-se em 2019 para um concerto nas Festas do Mar de Cascais, e celebrado no ano seguinte os quarenta anos de carreira; e embora, a este ponto, o futuro dos Delfins permaneça incerto, a sua trajectória já mais que justificou o seu estatuto de 'lendas' da música portuguesa – para o qual o álbum mais vendido em Portugal no ano de 1997 contribuiu de forma definitiva...

09.01.23

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Depois de na passada edição desta rubrica termos verificado a prevalência de um disco sobre todos os outros no que toca a volumes de vendas durante o ano de 1992, nada melhor do que dedicarmos algumas linhas ao grupo que os lançou, e que constituiu talvez o primeiro 'supergrupo' cem por cento português, anos antes dos Rio Grande: o projecto Resistência.

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Centrado em torno de Pedro Ayres de Magalhães, guitarrista dos Madredeus, este projecto reuniu músicos de várias das maiores bandas do cenário musical português, com ênfase no pop-rock, mas aberto também a outros estilos. A formação inicial, por exemplo – a que participou numa sessão experimental durante a Feira do Livro de Lisboa de 1989 – contava com a colega do fundador nos Madredeus, Teresa Salgueiro, ao lado de Anabela Duarte, dos Mler Ife Dada, e Filipa Pais, então dos Lua Extravagante.

As 'senhoras' acabariam, no entanto, por não colaborar com o músico além dessa sessão (se descontarmos, claro, a carreira dos próprios Madredeus), sendo substituídas por um elenco de luxo: Tim (dos eternos Xutos), Miguel Ângelo (dos então super-populares Delfins) e um ainda desconhecido Olavo Bilac, ainda a um par de anos de explodir com os Santos & Pecadores, bem apoiados por uma banda onde se destacavam Fernando Cunha (também dos Delfins) José Salgueiro (dos Trovante) e o veterano guitarrista-acompanhante Fernando Júdice (mais tarde também dos Madredeus).

Seria com este alinhamento que a banda viria a lançar o álbum que dominou as vendas fonográficas em Portugal em 1992, mas que na verdade foi composto e lançado no ano anterior – a estreia 'Palavras ao Vento', cujo alinhamento é um verdadeiro desfilar de êxitos dos músicos envolvidos, de 'Nasce Selvagem' e 'Não Sou o Único' (estrondosa duologia de abertura) ao final com 'Circo de Feras'. O denominador comum em todas estas regravações era uma maior ênfase na voz por oposição à tradicional estrutura pop-rock, uma proposta que acabava por diferenciar o grupo das bandas originais dos seus integrantes, e que contribuiu para o seu considerável, ainda que breve, sucesso.

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A estrondosamente bem-sucedida estreia do grupo.

O êxito de 'Palavras' motivou o grupo à gravação, ainda em 1992, de um segundo álbum, o também excelente 'Mano A Mano', que contava com novas versões de músicas como 'Um Lugar ao Sol', 'Amanhã É Sempre Longe Demais', 'Traz Outro Amigo Também' (de Zeca Afonso) e a pré-memética 'Timor', que qualquer 'puto' da época cantava no tom mais gozão possível para divertir os amigos no recreio.

600x600bf-60.jpgO segundo álbum do grupo.

Mais uma vez, o sucesso foi considerável, e no ano seguinte (há pouco menos de trinta anos) era lançado um disco ao vivo do grupo, 'Ao Vivo no Armazém 22', que incluía algum material original em meio às versões. Ainda em 1993, o grupo é convidado a participar no primeiro espectáculo 'Portugal Ao Vivo', com lugar no Estádio José Alvalade, em Lisboa.

ed169702341bb7ca4b0e2bda4a863eed.1000x1000x1.jpgO registo ao vivo de 1993

Com tanto sucesso e procura, nada fazia prever o fim dos Resistência – e, no entanto, foi precisamente isso que sucedeu. O grupo ainda participaria em discos de tributo a Zeca Afonso e António Variações (ambos de 1994), mas o contratualizado quarto álbum para a BMG nunca se chegaria a materializar, sendo que o grupo se viria a dissolver em 1995, quando os músicos decidiram prioritizar os seus projectos de origem.

Mas como na música – tal como na banda desenhada – ninguém nunca 'desaparece' de vez, também os Resistência se viriam, eventualmente, a reunir, ainda que tal efeméride viesse a demorar nada menos do que dezassete anos. Foi em 2012 que o lançamento de uma colectânea e um par de concertos de celebração de vinte anos, em Lisboa e Guimarães, dariam azo a uma mini-turnê, com passagem por mais uma edição do Portugal ao Vivo, desta vez no Estádio do Restelo, também em Lisboa. Dois anos volvidos, aquilo por que já ninguém esperava viria mesmo a acontecer: saía o quarto álbum dos Resistência, intitulado 'Horizonte' e lançado na editora de sempre, a BMG. A premissa, essa, era exactamente a mesma que fizera o sucesso do grupo duas décadas antes: novas versões de músicas de grupos como Madredeus, Rádio Macau, Delfins e Xutos.

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O álbum de regresso do grupo.

Estava dado o mote para um ressurgimento de carreira que – até à data – inclui mais dois álbuns de estúdio (em 2018 e 2019) e dois ao vivo (em 2016 e 2020), provando que a 'primeira vaga' de pop-rock nacional, e respectivos intérpretes, continuam a ter um mercado bem definido, o qual, por comparação aos próprios músicos que compõem esse movimento, nada fica a dever em Resistência...

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