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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

25.01.23

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

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Capa da antologia dedicada ao autor, lançada pela Escorpião Azul.

Na era pré-Internet, em que qualquer criador se via forçado a 'fazer nome' utilizando os parcos e escassos meios ao seu dispôr, um dos melhores veículos para novos nomes se tentarem tornar conhecidos eram as fanzines – títulos criados, como o nome indica, por e para fãs do estilo, e editadas de forma totalmente independente e, muitas vezes, claramente amadora, num daqueles casos em que a vontade era suficiente para superar a falta de recursos. E a verdade é que esta táctica acabava, esporadicamente, por render dividendos, tendo alguns nomes posteriormente conhecidos do mundo da música, literatura ou banda desenhada tido o seu início de carreira em publicações deste tipo.

No caso da banda desenhada, um desses nomes é Pedro Pereira, mais comummente conhecido pela sua alcunha, Pepedelrey, e que apesar de ser hoje um nome de culto nos meios 'bedéfilos' portugueses, apenas após o Novo Milénio conseguiu publicar trabalhos em nome próprio. Até esse ponto, a carreira deste artista e argumentista (iniciada em 1985) havia-se desenrolado, exclusivamente, à base de participações em 'fanzines' e antologias de BD lançadas por editoras cada uma mais obscura do que a outra.

À luz destes factos, e tendo em conta a época da História em que os mesmos se desenrolavam, a carreira almejada pelo artista natural de Oeiras não se pode considerar menos do que invejável; o facto de Pepedelrey ser, hoje, um artista conceituado (e fundador do célebre Lisbon Studio, um dos maiores estúdios de BD do País) após ter logrado progredir a um nível de tal modo independente durante mais de quinze anos, é um testamento não só da qualidade do trabalho deste autor, mas também da sua força de vontade, que o ajudou a almejar um estatuto de culto no meio da banda desenhada portuguesa logo nos anos 90, e a mantê-lo até aos dias de hoje.

23.01.23

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

No dealbar do ano de 1998, um álbum dominava os tops nacionais de música – um álbum que se viria a tornar um dos mais bem-sucedidos de sempre, atingindo uma impressionante quádrupla platina. Tratava-se de 'Saber A Mar', sexto trabalho de originais de um dos grupos favoritos dos adolescentes portugueses das décadas de 80 e 90: os icónicos Delfins.

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De facto, apesar de o referido trabalho os ter catapultado para todo um novo nível de sucesso, os Delfins contavam já com mais de uma década 'na ribalta' aquando do seu lançamento em 1996, sendo um dos nomes mais sonantes da vaga de 'pop-rock' surgida no nosso País durante essas duas décadas ao lado de nomes como Xutos & Pontapés, GNR e Rádio Macau, com os quais partilhavam características como as letras em português e o registo distinto do seu vocalista, o 'bonitão' Miguel Ângelo, também integrante do projecto Resistência. 'Hits' como 'Nasce Selvagem' e 'Um Lugar ao Sol' garantiam ao grupo presença assídua nas principais estações de rádio da época, e ajudavam a manter o colectivo no 'radar' cultural nacional.

O sucesso da banda não se cingia, aliás, aos territórios nacionais, sendo que, por alturas do lançamento do trabalho em causa, o grupo português havia já realizado espectáculos na Expo '92, em Espanha, na sala Zénith, em Paris, e na prestigiada Brixton Academy, de Londres; já dentro de portas, o grupo esgotava concertos por onde passava, fosse a abrir para Tina Turner em Alvalade,, a inaugurar 'de surpresa' o icónico Johnny Guitar ou a 'aquecer' literalmente a plateia no tradicional espectáculo de Ano Novo no Terreiro do Paço, todos em 1990. O Pavilhão Carlos Lopes, a Festa do Avante e o Coliseu dos Recreios de Lisboa foram alguns dos outros icónicos certames a presenciar a ascensão do grupo ao panteão do 'pop-rock' nacional durante aquela que foi a sua época de afirmação definitiva – e que, como já foi referido, acabaria em apoteose, com Miguel Ângelo e companhia a bater recordes de vendas com o seu sexto álbum, a tocarem na Expo '98 e a consumarem a tentativa de internacionalização com um álbum de temas adaptados para o Espanhol ('Azul', de 1998), já depois de o seu líder ter participado, como juiz, no mega-sucesso da SIC, 'Chuva de Estrelas', e dado a voz ao cowboy Woody na excelente dobragem nacional de 'Toy Story - Os Rivais', em 1995.

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Capa do grande êxito do grupo.

Infelizmente, esta tendência não se manteria no Novo Milénjo – apesar dos lançamentos regulares e consistentes (entre álbuns de originais, ao vivo, colectâneas e DVDs, foram onze registos) e da manutenção de um público fiel que 'crescera' com eles, a banda não mais veria os níveis de sucesso atingidos por volta de 1997, inserindo-se antes na categoria de 'instituição nacional', ao lado da maioria dos grupos da mesma vaga. Ainda assim, o estatuto do grupo ainda lhes permite viajar até ao Canadá e a Macau, tocar num cruzeiro em Marrocos, participar na segunda edição do concurso 'Operação Triunfo', e actuar em locais tão icónicos da Grande Lisboa como o Casino Estoril e o Centro Cultural de Belém, bem como no Rivoli do Porto.

Mesmo com toda esta projecção – ou talvez por causa dela – o grupo surpreendia a cena musical portuguesa ao anunciar um hiato, em 2009 – o qual acabaria por durar uma década, tendo a banda cascalense voltado a reunir-se em 2019 para um concerto nas Festas do Mar de Cascais, e celebrado no ano seguinte os quarenta anos de carreira; e embora, a este ponto, o futuro dos Delfins permaneça incerto, a sua trajectória já mais que justificou o seu estatuto de 'lendas' da música portuguesa – para o qual o álbum mais vendido em Portugal no ano de 1997 contribuiu de forma definitiva...

09.01.23

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Depois de na passada edição desta rubrica termos verificado a prevalência de um disco sobre todos os outros no que toca a volumes de vendas durante o ano de 1992, nada melhor do que dedicarmos algumas linhas ao grupo que os lançou, e que constituiu talvez o primeiro 'supergrupo' cem por cento português, anos antes dos Rio Grande: o projecto Resistência.

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Centrado em torno de Pedro Ayres de Magalhães, guitarrista dos Madredeus, este projecto reuniu músicos de várias das maiores bandas do cenário musical português, com ênfase no pop-rock, mas aberto também a outros estilos. A formação inicial, por exemplo – a que participou numa sessão experimental durante a Feira do Livro de Lisboa de 1989 – contava com a colega do fundador nos Madredeus, Teresa Salgueiro, ao lado de Anabela Duarte, dos Mler Ife Dada, e Filipa Pais, então dos Lua Extravagante.

As 'senhoras' acabariam, no entanto, por não colaborar com o músico além dessa sessão (se descontarmos, claro, a carreira dos próprios Madredeus), sendo substituídas por um elenco de luxo: Tim (dos eternos Xutos), Miguel Ângelo (dos então super-populares Delfins) e um ainda desconhecido Olavo Bilac, ainda a um par de anos de explodir com os Santos & Pecadores, bem apoiados por uma banda onde se destacavam Fernando Cunha (também dos Delfins) José Salgueiro (dos Trovante) e o veterano guitarrista-acompanhante Fernando Júdice (mais tarde também dos Madredeus).

Seria com este alinhamento que a banda viria a lançar o álbum que dominou as vendas fonográficas em Portugal em 1992, mas que na verdade foi composto e lançado no ano anterior – a estreia 'Palavras ao Vento', cujo alinhamento é um verdadeiro desfilar de êxitos dos músicos envolvidos, de 'Nasce Selvagem' e 'Não Sou o Único' (estrondosa duologia de abertura) ao final com 'Circo de Feras'. O denominador comum em todas estas regravações era uma maior ênfase na voz por oposição à tradicional estrutura pop-rock, uma proposta que acabava por diferenciar o grupo das bandas originais dos seus integrantes, e que contribuiu para o seu considerável, ainda que breve, sucesso.

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A estrondosamente bem-sucedida estreia do grupo.

O êxito de 'Palavras' motivou o grupo à gravação, ainda em 1992, de um segundo álbum, o também excelente 'Mano A Mano', que contava com novas versões de músicas como 'Um Lugar ao Sol', 'Amanhã É Sempre Longe Demais', 'Traz Outro Amigo Também' (de Zeca Afonso) e a pré-memética 'Timor', que qualquer 'puto' da época cantava no tom mais gozão possível para divertir os amigos no recreio.

600x600bf-60.jpgO segundo álbum do grupo.

Mais uma vez, o sucesso foi considerável, e no ano seguinte (há pouco menos de trinta anos) era lançado um disco ao vivo do grupo, 'Ao Vivo no Armazém 22', que incluía algum material original em meio às versões. Ainda em 1993, o grupo é convidado a participar no primeiro espectáculo 'Portugal Ao Vivo', com lugar no Estádio José Alvalade, em Lisboa.

ed169702341bb7ca4b0e2bda4a863eed.1000x1000x1.jpgO registo ao vivo de 1993

Com tanto sucesso e procura, nada fazia prever o fim dos Resistência – e, no entanto, foi precisamente isso que sucedeu. O grupo ainda participaria em discos de tributo a Zeca Afonso e António Variações (ambos de 1994), mas o contratualizado quarto álbum para a BMG nunca se chegaria a materializar, sendo que o grupo se viria a dissolver em 1995, quando os músicos decidiram prioritizar os seus projectos de origem.

Mas como na música – tal como na banda desenhada – ninguém nunca 'desaparece' de vez, também os Resistência se viriam, eventualmente, a reunir, ainda que tal efeméride viesse a demorar nada menos do que dezassete anos. Foi em 2012 que o lançamento de uma colectânea e um par de concertos de celebração de vinte anos, em Lisboa e Guimarães, dariam azo a uma mini-turnê, com passagem por mais uma edição do Portugal ao Vivo, desta vez no Estádio do Restelo, também em Lisboa. Dois anos volvidos, aquilo por que já ninguém esperava viria mesmo a acontecer: saía o quarto álbum dos Resistência, intitulado 'Horizonte' e lançado na editora de sempre, a BMG. A premissa, essa, era exactamente a mesma que fizera o sucesso do grupo duas décadas antes: novas versões de músicas de grupos como Madredeus, Rádio Macau, Delfins e Xutos.

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O álbum de regresso do grupo.

Estava dado o mote para um ressurgimento de carreira que – até à data – inclui mais dois álbuns de estúdio (em 2018 e 2019) e dois ao vivo (em 2016 e 2020), provando que a 'primeira vaga' de pop-rock nacional, e respectivos intérpretes, continuam a ter um mercado bem definido, o qual, por comparação aos próprios músicos que compõem esse movimento, nada fica a dever em Resistência...

28.12.22

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Numa edição passada desta rubrica, falámos de Mafalda, uma das mais influentes personagens de banda desenhada das décadas de 70, 80 e 90. No entanto, apesar de a contestatária menina ter sido o principal contributo do seu criador, Quino, para a História desta forma de arte, a mesma esteve longe de ser a sua única criação de sucesso, tendo o mercado português sido testemunha de, pelo menos, mais uma: a colecção 'Humor Com Humor Se Paga', cujos últimos volumes completam, neste ano que ora finda, precisamente três décadas sobre a sua edição nacional.

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Os três volumes da série editados nos anos 90

Iniciada ainda nos anos 70, e concluída vinte anos e trinta e seis volumes depois (tendo apenas os três últimos sido editados já nos anos 90), a colecção da Dom Quixote permitiu, aliás, a outros autores que não apenas Quino cimentar a sua marca na indústria portuguesa; Sempé, por exemplo (o co-criador do popular 'O Menino Nicolau' ao lado de René Goscinny, guionista de Astérix) teve direito a vários volumes, além de artistas menos conhecidos, mas dentro do mesmo estilo satírico e 'cartoonesco', como Coco e Palomo. No entanto, a esmagadora maioria dos tomos da colecção trazia, mesmo, autoria de Quino, servindo como uma introdução algo mais 'leve' que Mafalda ao seu inconfundível estilo, através de 'gags' de imagem única, bem ao estilo do que se podia encontrar em muitos jornais mundiais da altura, e declaradamente dirigidas a adultos, afastando assim parcialmente o público infantil que (talvez erroneamente) se afeiçoara e fidelizara à menina da bandolete e aos seus amigos.

Apesar de - por esse mesmo motvo - ser potencialmente menos nostálgico para a juventude portuguesa que a criação principal do desenhador argentino, ou que outros 'ilustres' como Calvin e Hobbes, a série em causa merece, ainda assim, destaque nestas nossas páginas, por alturas do trigésimo aniversário da sua conclusão, por constituir mais um dos inúmeros exemplos da 'era de ouro' dos 'cartoonistas' disponíveis no mercado português.

31.10.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Apesar de não ter tido tanta evolução ou expressão ao longo dos anos como o pop-rock, o hip-hop ou o rock alternativo, o metal não deixou, ao longo das décadas, de ter os seus próprios heróis em solo nacional, dos pioneiros Xeque-Mate a bandas como Ramp, Filii Nigrantium Infernalium, ou outras mais recentes como Painstruck ou Shadowsphere. No entanto, sempre que se fala deste estilo musical no contexto lusitano, surge inevitavelmente um nome que, a pulso, se conseguiu erguer acima de todos estes, afirmando-se hoje como a principal referência do metal português e que teve precisamente nos anos 90 a sua década de afirmação: os históricos Moonspell. E que melhor altura para recordar o legado daqueles que continuam a ser os embaixadores do metal nacional do que neste início da estação com dias mais curtos, 'cinzentos', e convidativos aos ambientes melancólicos por ele propostos?

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A primeira formação do grupo, como sexteto.

Formados em 1992 na zona da Brandoa, nos arredores de Lisboa, os Moonspell optariam, inicialmente, por um estilo mais extremo de metal, com tempos rápidos e vozes ora ríspidas, ora urradas, da responsabilidade do carismático Fernando Ribeiro. Este tipo de sonoridade ficaria oficialmente registado no EP de estreia do sexteto ('Under the Moonspell', de 1994) e nos seus dois primeiros discos, 'Wolfheart' e 'Irreligious' (de 1995 e 1996, respectivamente) mas não tardaria muito até os músicos que compunham o grupo começarem a dar largas à sua vertente mais experimental: 'Sin/Pecado' (de 1998), o disco da afirmação, trazia já alguns elementos electrónicos e passagens mais limpas (como na faixa 'Alma Mater', um 'hino' patriótico que, estivesse o grupo a lançar-se hoje, talvez fosse mal compreendido), e o sucessor 'The Butterfly Effect', do ano seguinte, era já um disco de rock-metal gótico-industrial, a 'milhas' de distância do metal extremo com toques 'folk' que caracterizara os primeiros álbuns da banda.

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O disco de afirmação do grupo, lançado em 1998.

Apesar de pouco consensual entre os fãs – que atribuíram a Ribeiro e companhia o sempre temido rótulo de 'vendidos' – esta sonoridade viria mesmo a marcar a transição do grupo para o novo milénio, que veria o grupo 'explodir' também em terras estrangeiras, e Fernando Ribeiro tornar-se um dos 'decanos' do metal português, no mesmo patamar de um António Freitas. Os dois álbuns seguintes do grupo exacerbavam as tendências góticas do seu som, com cada vez menor presença de vozes agrestes e cada vez maior proporção do tipo de passagens orquestrais, acústicas ou simplesmente melódicas que sempre haviam marcado o metal dos lisboetas. Só com 'Memorial', de 2005, é que a agressividade de outros tempos se voltaria a fazer sentir no som do grupo, que a misturaria às ainda presentes tendências góticas para fazer aquilo a que se convencionou chamar 'dark metal' – um som obscuro, pesado e melancólico, sem no entanto transpôr a linha de demarcação entre metal melódico e extremo.

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A formação mais recente do grupo.

Os álbuns seguintes continuariam a explorar esta vertente, mas sempre sem esquecer a veia gótica, tendo 'Alpha Noir/Omega White', de 2012, sido o primeiro a tornar efectiva a demarcação estilística, com cada um dos discos que o compunham a representar uma das duas vertentes do som do grupo. Um conceito ousado, e que abriria portas à experimentação de '1755', um álbum conceptual sobre o terramoto de Lisboa, com letras em português, lançado em 2017. E se o álbum seguinte – o mais recente do sexteto até agora – voltava a ser 'apenas' mais um álbum de metal, a verdade é que o mesmo dava, também, novo 'abanão' no som do grupo, com algumas tendências progressivas e até mais 'roqueiras' a surgirem no 'caldeirão' de elementos que é o som de Moonspell – um grupo que, pela referida amostra lançada o ano passado, se recusa a abraçar o seu estatuto como entidade veterana do movimento no nosso país, preferindo continuar a experimentar, inovar e correr o tipo de risco calculado que lhe permitiu, há já quase um quarto de século, iniciar o seu percurso rumo a uma fama e fortuna que escapava, e continua a escapar, a tantos outros colectivos do género, em Portugal e não só...

 

26.10.22

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Apesar de nunca ter lançado um artista de projecção verdadeiramente internacional, à semelhança do que fazem Estados Unidos, França, Bélgica, Brasil ou Japão, Portugal possui uma rica e já longeva ligação à BD, a qual remete às caricaturas e 'cartoons' de artistas como Bordalo Pinheiro, ainda no século XX. E a verdade é que, apesar da falta do referido nome reconhecido internacionalmente, a 'cena' portuguesa não deixou (e deixa) de ter os seus nomes de relevo, que vão de veteranos como os falecidos José Garcês ou Fernando Relvas a nomes mais contemporâneos como Luís Louro, José Carlos Fernandes, Luís Pinto-Coelho, António Jorge Gonçalves ou o nome de que falamos esta semana, Miguel Rocha.

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Nascido em Lisboa em 1968, crescido em Alhandra e formado na Escola António Arroio – principal escola técnica de artes plásticas da Grande Lisboa, e uma das principais do País – Miguel João Pinheiro Soares Rocha insere-se na nova geração de autores de BD lusitanos, tendo desenvolvido a grande maioria da sua obra do lado 'de cá' do Terceiro Milénio; não obstante, a sua carreira remonta a finais da década de 90, tendo a sua estreia oficial como artista de banda desenhada sido feita através de uma folha mensal integrada na revista Pais & Filhos – um dos muitos veículos pouco ortodoxos que os artistas da 'nova escola' portuguesa utilizaram como 'rampa de lançamento' para os seus trabalhos. Antes, Rocha havia feito o habitual 'périplo' pela área da publicidade e artes gráficas, e colaborado, na qualidade de paginador, com a revista Selecções BD, o compêndio mensal de clássicos do género editado pela Meribérica-Liber.

O talento, esse, era já óbvio, mesmo nessa fase mais embrionária, e não tardaria até Rocha ver o mesmo ser reconhecido com galardões, nomeadamente o Prémio Especial Revelação no prestigiado Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, no caso com o seu segundo álbum, 'As Pombinhas do Sr. Leitão', sucessor de 'O Enigma Diabólico', lançado no ano anterior. Pelo meio ficavam colaborações com o prestigiado jornal 'Público', e a oportunidade de ilustrar, com uma pequena história, o catálogo de uma exposição dedicada ao 25 de Abril – a primeira de muitas obras institucionais que o autor viria a criar. Ainda em 1999, saem outros dois trabalhos, o álbum 'O Polvo' e a história 'Borda D'Água', inserida na revista LX Comics, e que voltaria a ser publicada no ano seguinte – agora em versão a cores - na revista 'Pública', um dos suplementos do jornal acima referido.

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A segunda obra do autor valeu-lhe o primeiro do que viriam a ser sete galardões no prestigiado Festival Internacional de BD da Amadora.

O ano 2000 vê, aliás, a carreira de Miguel Rocha seguir de vento em popa, com o lisboeta a arrecadar mais dois prémios no Festival de BD da Amadora, incluindo o de Melhor Álbum Português para 'Eduarda', adaptação da obra literária do mesmo nome da autoria de Georges Bataille, e desenvolvida em parceria com o argumentista Francisco Oliveira; o outro prémio, o de Melhor Desenhador, vai para 'Março', o outro álbum grande formato lançado nesse ano. Além destas duas obras, Rocha volta ainda a colaborar com o 'Público', agora com uma ilustração para a série dos 'Sete Pecados', e cria um álbum de pequeno formato, 'Transcomix – Lisboa ao Quadrado', para distribuição gratuita no âmbito do Dia Europeu Sem Carros. No ano seguinte, o desenhador é alvo de uma retrospectiva no âmbito do FIBDA, prova cabal do estatuto que lograra obter em apenas quatro curtos anos de carreira.

Os anos seguintes desenvolvem-se na mesma toada, entre álbuns de originais e participações institucionais, destacando-se, destas últimas, a adaptação de um conto de Miguel Torga para inserção num álbum alusivo ao Dia Mundial do Livro 2002, e a criação do cartaz oficial do Euro 2004, talvez o projecto de maior visibilidade de toda a sua carreira. O auge do seu reconhecimento na comunidade bedéfila chega, no entanto, apenas dois anos depois, quando o seu trabalho sobre Salazar, em parceria com João Paulo Cotrim, arrecada nada menos do que quatro prémios no Festival da Amadora, ganhando Melhor Álbum, Melhor Argumento e Melhor Desenho, além do Prémio Juventude. E apesar de o artista não lançar qualquer trabalho de originais há mais de uma década a esta parte (os últimos dois são de 2010) o contributo que deu à BD portuguesa ao longo dos doze anos anteriores foi mais que suficiente para lhe outorgar o estatuto de nome 'grande' da nova geração de artistas nacionais de banda desenhada, restando, apenas esperar para ver o que o futuro reserva para a sua carreira.

15.09.22

NOTA: Este post é respeitante a Quarta-feira, 14 de Setembro de 2022.

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Apesar de menos desenvolvida por comparação a outros países da Europa e do Mundo, a cultura 'motard' não deixa de ter representação em Portugal – tanto assim que, durante a década de 90, esta sub-cultura teve, mesmo, direito à sua própria revista especializada. Simplesmente intitulada 'Motociclismo' a revista (que virá, potencialmente, a ser tema de uma das próximas visitas ao Quiosque) estava longe de ser apenas dirigida a fãs de Harley-Davidsons e motas afins, procurando divulgar notícias e novidades de todo o espectro do desporto a motor sobre duas rodas, e contando no seu alinhamento com todas as rubricas expectáveis, entre elas a típica tirinha de banda desenhada, habitual em muitas publicações periódicas da época – no caso, criada por um verdadeiro entusiasta da modalidade e, portanto, genuína o suficiente para se tornar um sucesso, e parte integrante da referida revista durante as três décadas (!) subsequentes.

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A BD em causa, que leva como título 'As Odisseias de Um Motard – Aventuras e Desventuras de um Motociclista Português', teve a sua estreia no número 14 da referida revista, tendo sofrido, desde então, muito poucas alterações à fórmula então apresentada, que vê o 'motoqueiro' Tom Vitoín (pronunciado V-Twin), um membro de um grupo 'motard', envolver-se nas mais diversas situações como consequência do seu 'hobby' e das suas viagens, quer a solo, quer na companhia do restante grupo. Em comum, apenas o facto de cada situação se resolver ao fim de apenas algumas pranchas, fazendo de 'Odisseias...' uma série episódica e auto-conclusiva, à maneira das publicadas em décadas anteriores em revistas como 'Tintim' (onde, aliás, o estilo 'cartoonesco' de Pinto-Coelho não destoaria, antes pelo contrário.)

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Tom Vitoín, o protagonista homónimo da série

Conforme acima referido, grande parte do apelo da tira, sobretudo junto do público-alvo, advém do facto de o seu autor, Luís Pinto-Coelho, ser um verdadeiro 'motard', o que lhe permite retratar de forma crítica, cómica, mas também extremamente verdadeira as 'desventuras' do seu quase-alter-ego Vitoín; tal como sucede com outros trabalhos que procuram retratar determinadas 'cenas' ou sub-culturas (como os do brasileiro Angeli) as histórias e situações em que o personagem se vê envolvido não deixarão de evocar a qualquer 'motoqueiro', não só gargalhadas, como também alguma empatia, derivada de situações potencialmente análogas e semelhantes em que eles próprios tenham estado envolvidos. Estará, certamente, aí o segredo da longevidade da série, que – conforme também referimos – vem acompanhando a revista em si desde o seu segundo ano de vida.

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O primeiro álbum das 'Odisseias...', lançado em 1996

Para além da longevidade, no entanto, 'Odisseias...' tem, também, outro ´trunfo' sobre a maioria das tiras de BD 'de revista' – nomeadamente, o facto de ter sido publicada em álbum. São, aliás, já vários os volumes de 'Aventuras e Desventuras' de Vitoín (além da série paralela 'Os Portugas no Dakar', em que o argumento fica a cargo de Elisabete Jacinto, naquela que é a única colaboração da carreira de Pinto-Coelho) disponíveis no mercado português, tendo os mesmos vindo a ser editados a um ritmo relativamente regular desde 1996 – um legado que garante que, apesar de ser conhecido, exclusivamente, por esta série (o seu primeiro trabalho, para o 'Moto-Jornal', teve muito menos expressão), Pinto-Coelho seja, ainda assim, um dos nomes de destaque da banda desenhada portuguesa moderna, tendo mesmo tido a honra de participar, enquanto convidado especial, na Tertúlia de BD de Lisboa de 1995. Um fado, certamente, bem mais honroso que o do seu herói, que – mais de trinta anos após a sua criação – continua, mês após mês, a ver-se envolvido em desventuras várias...

 

31.08.22

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Ao longo do tempo de vida desta rubrica, temos vindo a traçar breves biografias das carreiras dos principais artistas e criadores de BD portugueses, de Carlos Roque e José Garcês a Fernando Relvas, António Jorge Gonçalves ou Luís Louro; agora, chega a vez de acrescentar mais um nome a essa curta mas honrosa lista – o de José Carlos Fernandes, por vezes conhecido apenas como JCF, e que se destaca por ser um dos mais prolíficos autores do panorama da banda desenhada em Portugal.

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O autor na actualidade

Tal como Luís Louro, Fernandes faz parte da 'nova geração' de quadrinistas, cuja carreira se inicia já depois do fim dos principais veículos nacionais do meio – as revistas 'Tintin' e 'Mundo de Aventuras', onde a maioria da geração anterior se estreou nas lides da BD; assim, coube a estes jovens encontrar outros meios para se expressar e se dar a conhecer, tendo José Carlos Fernandes tomado o caminho das 'fanzines'. Os primeiros anos da carreira do artista foram, pois, passados a criar histórias para uma audiência muito reduzida, e à espera do grande 'momento' – o qual viria a surgir em 1989, quando uma paródia de duas páginas do herói franco-belga Alix é publicada na fanzine Shock, distribuída na região de Lisboa.

Ficava, assim, dado o mote para uma carreira inacreditavelmente prolífica, qualquer resumo da qual ocuparia muitas linhas e levaria muito tempo, para além de resultar num texto extremamente aborrecido; isto porque o autor viu publicados, nas duas décadas seguintes, uma média de dois a três títulos por ano, tendo um presumível surto de inspiração no ano de 1997 resultado no lançamento de NOVE (!!) obras de JCF num período de doze meses. Destaque, ainda assim, para as duas primeiras obras 'a sério' do artista, 'Controlo Remoto', de 1993, e 'A Lâmina Fria da Lua', a sua verdadeira obra-revelação, publicada em 1994 (ambas pela Associação Neuromanso, em parceria com a Comicarte e a ASIBDP, respectivamente), bem como para o galardoado 'A Pior Banda do Mundo', produzido quase uma década depois.

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Uma de quase uma dezena de obras de JCF editadas em 1997

O ritmo tresloucado de produção não afectava, no entanto, a diversidade ou criatividade da obra de Fernandes, a qual se estendia da ficção pura e dura à BD institucional em parceria com entidades estatais, e rendia ao autor distinções de fontes tão diversas quanto a Câmara Municipal de Lisboa (que lhe atribuiu por três vezes o Prémio Rafael Bordalo Pinheiro) e a organização do reputado, e entretanto malogrado, Festival de BD da Amadora, que considerou 'A Pior Banda...' a melhor obra nacional do evento em dois anos consecutivos. A fama de Fernandes estendia-se, aliás, a Espanha, onde chegou a ganhar o primeiro prémio do Festival de BD de Ourense, em 1995 – ano em que ganharia, também, essa distinção no Festival de BD de Matosinhos.

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O mais premiado álbum da carreira do artista, publicado em 2002

Em suma, e apesar de não dar 'novidades' desde 2011, José Carlos Fernandes é, já, figura maior da banda desenhada humorística em Portugal, possuindo um estilo muito próprio e inconfundível, inspirado pela ficção científica e pelo 'rock' alternativo, que sem dúvida contribui para que granjeie pontos junto das gerações mais jovens – tanto nos dias que correm como, decerto, quando vivia o seu 'estado de graça' em meados dos anos 90.

 

23.08.22

NOTA: Este post é respeitante a Segunda-feira, 23 de Agosto de 2022.

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Quase todos os Verões têm uma música - um tema que, de tão omnipresente nas ondas de rádio e na cultura popular, acaba por servir de banda sonora a quase tudo o que se passa durante aqueles quatro meses. As épocas estivais de meados dos anos 90 não foram excepção neste particular, tendo as crianças e jovens da altura tido como 'pano de fundo' sonoro para as suas férias grandes uma sucessão de clássicos 'azeiteiros' ainda hoje apreciados, quase todos inseridos no movimento conhecido como 'europop' ou 'eurodance', de 'Saturday Night' de Whigfield a 'Boom Boom Boom Boom' dos Vengaboys, passando pelo a dada altura inescapável 'Freestyler', dos Bomfunk MCs e, claro, por 'Barbie Girl', o sucesso que apresentou ao Mundo uma banda de estética 'neon' e com uma vocalista de timbre estilo 'balão de hélio', chamada Aqua.

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O que poucos dos jovens que saltaram e deliraram ao som desta música durante aquele Verão sabiam era que essa mesma banda já contava, à época do seu aparecimento na consciência popular, com nada menos do que oito anos de carreira, tendo-se formado em 1989, sob o nome de Joyspeed, então ainda sem a vocalista Lene Nystrom; foi só depois do seu primeiro projecto enquanto grupo - a criação da banda sonora para um filme produzido na sua Dinamarca natal - que o vocalista René Dif (o icónico 'careca' com a ainda mais icónica voz quase caricaturalmente profunda) reparou na sua futura coadjuvante, quando a mesma actuava no 'ferry' de ligação entre a Noruega e a Dinamarca. A vocalista foi, então, prontamente convidada a integrar o projecto, que estabeleceria assim a sua formação definitiva.

Estabelecidos os elementos básicos, o grupo não perdeu tempo a entrar em estúdio para a gravação do seu primeiro 'single'; 'The Itsy Bitzy Spider' seria lançado em exclusivo para o mercado sueco em 1994, mas não conseguiria atingir qualquer tipo de sucesso, perdendo-se na ponta final dos 'tops' locais, e desanimando de tal forma o grupo que o mesmo prontamente cancelaria o contrato vigente que tinham com uma pequena independente daquele país. Felizmente, este primeiro revés não foi, ainda assim, significativo o suficiente para fazer os quatro músicos desistir totalmente do 'sonho' - apenas repensá-lo. Assim, o nome do grupo foi mudado para Aqua, a estética passou a girar em torno das cores vivas e tons 'neon', e a sonoridade tornou-se mais declaradamente 'pop', em vertente puramente 'bubblegum', com músicas assentes em batidas dançáveis e na propositalmente exagerada dicotomia vocal entre o ultra-roufenho Dif (que quase poderia ser o vocalista de uma das muitas bandas de thrash metal da sua região de origem) e o timbre hiper-agudo e infantilizado, ao estilo 'Betty Boop', de Nystrom.

Everdade é que o primeiro fruto comercial desta nova abordagem, a contagiante 'Roses Are Red', granjeou ao grupo o sucesso que lhes escapara sob o seu anterior nome, atingindo vendas de platina na Dinamarca natal do grupo, e permanecendo nos tops locais durante mais de dois meses - registo que o segundo 'single', a quase idêntica (mas ainda melhor) 'My Oh My', viria a eclipsar, atingindo a marca de ouro em apenas seis dias e levando o grupo ao primeiro lugar dos tops dinamarqueses.

Por muito bem-sucedidos que ambos esses lançamentos tivessem sido, no entanto, as suas prestações comerciais viriam a ser largamente eclipsadas pelo êxito meteórico do terceiro 'single' do grupo, 'Barbie Girl'. Viabilizada já depois do lançamento do álbum de estreia do grupo, 'Aquarium', no seu país natal, e também do lançamento internacional de 'Roses Are Red', a faixa serviu de 'cartão de visita' dos Aqua no mercado fonográfico mundial, e a recepção não podia ter sido melhor, tendo a música chegado ao primeiro lugar dos tops musicais do Reino Unido e Austrália, e até conseguido a proeza de entrar no 'top 10' do famoso 'Billboard 100', um feito raro para bandas europeias. Estava dado o mote para um Verão em que não haveria jovem abaixo de uma certa idade que não soubesse acompanhar, de cor, a letra da música, do diálogo inicial do Ken de Dif com a Barbie de Nystrom até ao epílogo, também em registo falado, em que Ken atira um profético 'estamos só a começar'.

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O vídeo de 'Barbie Girl' é tão icónico quanto a própria música

E era, de facto, esse o caso - 'Barbie Girl' representava apenas o início do sucesso dos Aqua, tendo, naturalmente, ajudado a impulsionar as vendas mundiais de 'Aquarium', do qual viriam a ser extraídos nada menos do que mais quatro singles: 'Lollypop (Candyman)' e a fabulosa 'Dr. Jones' (ambas em registo semelhante ao das primeiras canções lançadas pelo grupo) e 'Turn Back Time' e 'Good Morning Sunshine', o tipo de baladas totalmente plásticas que ficavam a um registo vocal de distância de ser uma faixa de Britney Spears - isto além da recuperação de 'My Oh My' para o mercado internacional. O sucesso, esse, era continuado na Europa, e em particular no Reino Unido, onde o grupo igualava as marcas de Westlife e Spice Girls (de quem, paulatinamente, aqui falaremos, tal como de Spears) nas listas de êxitos locais; só os Estados Unidos se mostravam algo 'frios' aos novos esforços do grupo, que foi, naquele país, um verdadeiro 'one-hit wonder', tendo-se eclipsado após 'Barbie Girl'.

Apesar de o sucesso atingido pelo álbum de estreia e respectivos 'singles' indicarem uma carreira longeva e produtiva, no entanto, a mesma situação se viria a comprovar no resto do Mundo aquando do lançamento do segundo álbum do grupo, o confusamente intitulado 'Aquarius', de 2000, que provou o quanto podia mudar em três anos; apesar de ainda ter contribuido um êxito para a lista pessoal do grupo (a auto-consciente 'Cartoon Heroes', que teria cabido perfeitamente no registo anterior) o momento do grupo - e do movimento 'europop' como um todo - havia passado, e os restantes 'singles' retirados do álbum teriam um desempenho relativamente anónimo nos 'tops' mundiais, ditando o final definitivo da onda de sucesso gozada pelo grupo desde o seu 'aparecimento' na cena mundial, em finais de 1996; pouco depois, a braços com um processo judicial da Mattel por uso indevido da sua personagem, a banda viria a separar-se, mas não sem antes registarem uma exibição memorável no Festival Eurovisão 2001, marcado por uma interpretação algo controversa e, digamos, 'adulta', do mega-êxito 'Barbie Girl'.

Não terminaria aí, no entanto, a carreira do grupo, já que os Aqua viriam a reunir-se para uma digressão de Verão, em 2008, aproveitando ainda para disponibilizar a sua segunda compilação de êxitos; mais surpreendente seria o aparecimento, em Setembro de 2011, de um novo álbum, 'Megalomania' - mais de uma década depois do último sinal de vida do grupo!

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'Megalomania', o surpreendente álbum de regresso dos Aqua, lançado em 2011.

Desde então, a carreira do grupo tem-se pautado por uma série de digressões periódicas, que continuam até aos dias de hoje, mesmo depois da saída do guitarrista e membro fundador Claus Noreen. Fãs de 'Barbie Girl' que queiram reviver a nostalgia daqueles anos mais simples podem, pois, assistir a uma prestação do grupo ainda este ano, ou até no próximo, transformando as 'bonecas' do 'europop' num daqueles nomes que parecem perfeitamente satisfeitos em fazer parte do circuito nostálgico do mundo musical; um final honroso para uma banda que, por um ou dois Verões em finais dos anos 90, foi uma das maiores do Mundo para toda uma geração de crianças e jovens...

18.08.22

NOTA: Este post é respeitante a Quarta-feira, 17 de Agosto de 2022.

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Há algumas semanas, debruçámo-nos sobre a colecção 'História de Portugal em Banda Desenhada', uma colaboração entre o escritor A. do Carmo Reis e o artista José Garcês que obteve considerável sucesso na fase final dos anos 80 e durante toda a década seguinte; hoje, dedicaremos algumas linhas a explorar a restante obra noventista do ilustrador dos referidos volumes, o qual ombreia com nomes como José Ruy e Carlos Roque (ambos, aliás, seus colegas na Escola António Arroio, em Lisboa) no panteão dos criadores de BD nacionais.

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José Garcês, em foto recente

Nascido em Julho de 1928, José Garcês começou por trabalhar no Serviço Metereológico Nacional (actual Instituto de Metereologia) onde chegou a chefe do departamento de desenho; no entanto, a verdadeira paixão era pela ilustração e banda desenhada, vocação que começou por explorar na 'fanzine' de publicação própria 'O Melro' (publicada ainda nos tempos da António Arroio, entre 1944 e 1945), antes de se explanar a outras revistas portuguesas. No auge da sua carreira, o ilustrador chegou a ser presidente e embaixador do Clube Português de Banda Desenhada e convidado de honra do Festival de Lucca de 1990, além de fornecer ilustrações e histórias de Garcês tanto para instituições estatais, como os CTT, o Museu Bocage ou a Liga para a Protecção da Natureza, como para publicações tão lendárias do panorama da BD portuguesa como 'O Século', 'O Mosquito', 'Cavaleiro Andante', 'Zorro', 'Fungagá da Bicharada', 'Mundo de Aventuras' e 'Tintim', além de periódicos algo mais inusitados, como a revista 'Modas & Bordados'; a sua influência dentro da cena foi, aliás, suficientemente longeva e transversal para algumas das suas histórias ainda figurarem na segunda série da revista 'Selecções BD', da Meribérica-Liber, publicada já no virar do novo milénio!

Pelo meio, além da supramencionada 'História de Portugal', ficam outros títulos de inspiração histórica, como a adaptação da obra literária 'O Tambor/A Embaixada', de Júlio Dantas (criada em parceria com o argumentista Jorge Magalhães, em 1990), a biografia de D. João V em banda desenhada e os dois volumes de 'Cristóvão Colombo - Agente Secreto de D. João II' (aqui com argumentos do historiador Mascarenhas Barreto, numa iniciativa semelhante à levada a cabo com do Carmo Reis, na década anterior) ou ainda o álbum de ficção 'Através do Deserto/O Santuário de Dudwa', todos lançados pelas Edições Asa, entre 1992 e 1994; de ressalvar ainda, durante este período, a participação do autor no álbum colectivo 'Contos das Ilhas', editado em 1993.

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Uma das obras de Garcês durante os anos 90 foi a adaptação de 'O Tambor/A Embaixada', de Júlio Dantas

Em 1997, Garcês volta a adentrar a consciência colectiva da então nova geração, através da 'História do Jardim Zoológico de Lisboa', álbum editado e distribuído em conjunto com o jornal 'Diário de Notícias', parceria que permitiu ao ilustrador atingir uma audiência tão ou mais vasta do que aquela de que gozava durante o seu período áureo de colaboração com as principais revistas de BD portuguesa; paradoxalmente, no entanto, o seu projecto seguinte representaria um 'passo atrás', do nível nacional para outro mais regional, para ilustrar a história de algumas das mais históricas povoações portuguesas, numa série de álbuns editados na viragem do milénio, entre 1999 e 2001. Esta acabaria por ser a sua última grande obra de banda desenhada - as duas décadas seguintes, até à sua morte, em 2020, foram sobretudo dedicadas à ilustração, para elementos tão díspares quanto postais e manuais escolares - mas a sua marca nesta forma de arte já havia sido indelevelmente cunhada.

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Um dos volumes dedicados à história de diversas povoações portuguesas, editadas no início do novo milénio

Muito longe de ser 'apenas' um criador de banda desenhada, José Garcês foi um verdadeiro 'homem renascentista', apresentado um talento multi-facetado que abrangia não só a ilustração e desenho como também o argumentismo e até a criação de construções e modelos em papel; um percurso que mais do que justifica a sua presença na mesma rubrica que já honrou alguns dos seus colegas de curso na Escola António Arroio em meados dos anos 40 - alguns, aliás, bem menos versáteis do que ele.

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