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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

14.03.22

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Embora presente em Portugal desde os anos 80, com séries como 'Tom Sawyer', 'Heidi e Marco' ou 'Bana e Flapy', foi na década seguinte que a animação japonesa – vulgo 'anime' – verdadeiramente se afirmou no nosso país. Séries como 'As Navegantes da Lua', 'Capitão Hawk', 'Esquadrão Águia', 'Os Cavaleiros do Zodíaco' e, claro, o incontornável 'Dragon Ball Z' davam a conhecer a toda uma nova geração de crianças e jovens aquele estilo cheio de 'linhas de velocidade' e caretas exageradas, e com enredos cheios de acção e aventura.

O sucesso foi imediato, e à entrada para a segunda metade da década, os 'animes' eram já parte integrante da vida quotidiana de qualquer criança; não constituiu, pois, qualquer surpresa ver o número de séries deste tipo exibidas nos quatro canais nacionais aumentar exponencialmente durante esses anos, com novas propostas a surgirem regularmente, muitas delas em substituição directa de outras do mesmo tipo.

Foi neste âmbito que, há quase exactamente um quarto de século, acabaram por coincidir na TVI três 'animes' com conceitos e premissas extremamente semelhantes, hoje em dia lembrados por muitas ex-crianças portuguesas como uma espécie de 'pacote 3-em-1', apesar de nem sempre terem sido transmitidos juntos.

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Falamos de 'A Lenda de Zorro' (Kaiketsu Zorro), 'A Cinderela' (Cinderella Monogatari) e 'As Aventuras de Robin dos Bosques' (Robin Fuddo no Daibōken) as três adaptações (extremamente) livres de histórias clássicas para um formato de animação serializada que a TVI foi adquirir a Itália para integrar na sua programação infantil para os anos de 1996 e 97, nomeadamente no âmbito do programa matinal 'Mix Max'.

Apesar de, conforme referimos, tratarem o material original em que eram baseadas com a maior das liberdades, nenhuma das três séries ficava a perder, em termos de qualidade, em relação à média das séries de 'anime' da altura; pelo contrário, todas as três eram bem desenhadas (ainda que sofressem um pouco da síndrome 'orçamento gasto na sequência de abertura'), com Cinderela e Zorro a terem traços algo mais realistas, próximos dos das 'Navegantes' e 'Samurai X', respectivamente, enquanto Robin (talvez por ter protagonistas infantis) contava com um estilo mais caricatural, a lembrar as séries dos anos 70 e 80, como o já referido 'Esquadrão Águia'.

Os méritos dos três programas não se ficavam, no entanto, pelos aspectos técnicos; todas as três contavam, também, com histórias que se desenrolavam a um ritmo dinâmico e conseguiam o balanço perfeito entre a acção, o drama, a comédia, e até alguns momentos mais românticos, especialmente no caso da adaptação de 'Cinderela'. Talvez ainda mais importante, para uma geração que vivia de primeiras impressões, todos os três tinham temas de abertura absolutamente fabulosos; o de Zorro, em particular, ainda hoje se conta entre os melhores de sempre da televisão infantil em Portugal – o que, para um país que conviveu com as aberturas de 'Pokémon', 'Digimon', 'Power Rangers' ou 'Rua Sésamo', não deixa de ser notável! A música de 'Robin dos Bosques', em particular, teve ainda o mérito extra de ensinar a muitas crianças o significado da palava 'liça', utilizada na letra cantada por Helena Isabel, e que muitos jovens da altura pensavam ser a homófona 'missa'.

No fundo, tratavam-se de três séries que, sem quererem ser um fenómeno cultural ou até mesmo revolucionar o género em que se inseriam, não deixavam de ser uma excelente opção para passar uma manhã 'de folga' da escola, a 'preguiçar' em frente à televisão – o que, no fundo, era tudo o que muitas crianças da época pediam no tocante a programação. Mais, odas as três demonstravam qualidade e interesse suficientes para justificarem o regresso, no dia seguinte, para ver outro episódio, algo que era, também, apenas privilégio das melhores séries e desenhos animados da época. Assim, e apesar de algo esquecidas hoje em dia, qualquer das três séries é bem merecedora deste destaque, ficando a sensação de que fazem falta produções cuidadas deste tipo na programação infanto-juvenil de hoje em dia...

04.01.22

NOTA: Este post é correspondente a Segunda-feira, 03 de Janeiro de 2022.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Que melhor maneira de começar o ano do que com um dos melhores e mais icónicos temas de abertura da sua época, pertencente a uma das melhores e mais icónicas séries animadas do seu tempo?

Sim, hoje vamos falar da série original de 'Pokémon', um dos pontos de partida e um dos muitos elementos responsáveis pelo sucesso continuado daquele 'franchise' da Nintendo, o qual perdura até aos dias de hoje; e para quem conhece o império 'Pokémon' de hoje em dia, torna-se quase pitoresco (para além de nostálgico) revisitá-lo e recordar como o mesmo era, aqui, nos seus primórdios remotos.

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Chegado a Portugal mesmo a tempo de conquistar a crescente legião de fãs dos primeiros dois jogos lançados para Game Boy (dos quais, aliás, falaremos aqui muito em breve), a primeira temporada do 'anime' original de 'Pokémon' (uma das três do período hoje conhecido como 'Liga Kanto' ou 'Liga Indigo') estreava na SIC em Outubro de 1999, mesmo ao cair do pano da última década do século XX, bem como do segundo milénio; e a verdade é que este 'timing' não poderia ter sido melhor para uma iniciativa deste tipo, já que o final dos anos 90 e inícios de 2000 constituem a última década em que uma série descaradamente destinada a vender um produto poderia esperar almejar algum sucesso nas ondas televisivas . E não nos iludamos: por muito bom que seja enquanto série, o 'anime' de 'Pokémon' destinava-se, só e unicamente, a aumentar os volumes de vendas dos dois jogos, os verdadeiros catalistas de todo o 'franchise'.

As características muito particulares (e exclusivas) do desenho animado, no entanto, acabariam por exercer maior influência sobre os restantes produtos ligados aos monstrinhos de bolso do que se poderia, a princípio, imaginar - logo a começar pelos personagens. Enquanto que nos jogos o protagonista de boné não tinha nome, e os membros do maléfico Team Rocket eram todos rigorosamente iguais (militares de meia-idade, de uniforme descaradamente fascista), o 'anime' tratou de dar a ambas as partes personalidades únicas e absolutamente marcantes. Assim, o rapaz de boné passou a chamar-se Ash Ketchum (sendo 'Ash' uma das opções para o nomear no jogo, e o apelido um trocadilho com 'catch 'em', o bordão do 'franchise' e objectivo principal do protagonista), enquanto que o Team Rocket passou a estar (bem) representado pelo inesquecível duo cómico de Jessie e James, um casal de colegas-que-talvez-namorem com direito a récita introdutória (que muitas ex-crianças daquele tempo ainda saberão de cor e salteado) e capanga Pokémon, na pessoa do não menos inesquecível Meowth - o único Pokémon capaz de falar como os humanos, ao invés de apenas repetir variações sobre o seu nome.

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Uma daquelas imagens que 'falam'...

De igual modo, os líderes dos dois primeiros ginásios Pokémon dos jogos (Brock, o fã de Pokémon ligados à terra, e a 'aquática' Misty) foram promovidos de adversários a aliados do herói, que acompanham até ao final da série, criando uma dinâmica digna dos melhores trios do seu tipo, ao nível da de Ron, Harry e Hermione em 'Harry Potter' ou Aang, Sokka e Katara de 'Avatar'. Juntamente com aquela que se tornaria a figura de proa de todo o 'franchise' - Pikachu, o Pokémon eléctrico rebelde de Ash - e o imprevisível aliado de Misty, um Psyduck sem controlo dos seus poderes, está constituído um núcleo de personagens perfeitamente inesquecível para toda uma geração - com a particularidade de, ao contrário do que acontece na maioria destes tipos de casos, a afinidade pelos heróis e vilões desta série ser transversal a ambos os sexos, ainda mais do que acontecia com os jogos.

De facto, este núcleo duro de protagonistas tornou-se de tal forma popular que não só conseguiu tornar quase insignificantes os pontos fracos da série - como a estrutura repetitiva da maioria dos episódios e alguma tendência para 'encher chouriços' - como forçou a Nintendo a adaptar os restantes elementos do 'franchise' de forma permanente - ainda hoje, haverá muitas ex-crianças prontas a recordar o pasmo que sentiram ao descobrir que, nos jogos originais, Pikachu era apenas 'mais um' Pokémon (e até algo fraco por comparação a outros!) e que as fileiras do Team Rocket não continham uma rapariga de cabelo até aos joelhos nem o seu algo efeminado parceiro de crimes. Mais - a influência da série foi tal que motivou a Nintendo a lançar um terceiro jogo, 'Pokémon Yellow', que mais não era do que os originais 'Blue' e 'Red' com uma única, mas crucial mudança: o Pokémon de início do jogador era agora, por defeito, um Pikachu, que seguia o seu dono como um cão, em vez de ser carregado numa Pokébola - exactamente como acontecia com o rato eléctrico da série! E apesar de esta ser uma manobra de 'marketing' algo cínica - tratava-se, afinal de contas, do mesmo jogo, mas agora com todos os 150 Pokémon num só cartucho, prejudicando quem havia investido num dos títulos originais - para as crianças de finais de 90, o surgimento de 'Yellow' representava um importante elo unificador dos universos da série e dos jogos, e o cartucho foi um sucesso de vendas.

Em suma, e apesar de inicialmente ter sido concebido como apenas um elemento de uma estratégia omnicanal, o 'anime' de 'Pokémon' acabou por se tornar numa das partes mais influentes daquele que se viria a tornar um dos maiores 'franchises' comerciais de sempre - ainda que, para alguns 'gamers' mais velhos, fosse um daqueles programas que só se podiam ver às escondidas (ao contrário dos jogos, que eram socialmente aceitáveis até mesmo entre adolescentes, e muitas vezes jogados na presença, e com a ajuda, dos amigos.) E ainda que não tivesse atingido a popularide de Dragon Ball Z, pelo menos no imediato (poucas coisas atingiram), poucos constestarão o seu lugar no pódio das séries de 'anime' estreadas em Portugal, atrás das aventuras de Son Goku mas ombro a ombro com o outro clássico 'made in Japan' da época, Samurai X; e apesar de nunca ter chegado a ser 'mais que perfeito, maior do que a imaginação', é, ainda assim, um dos desenhos animados mais saudosamente lembrados pela geração em idade escolar naqueles anos de final do milénio, e que ainda demonstra qualidade suficiente para cativar Pokéfanáticos mais novos...

27.12.21

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Quem conheceu, já deve estar a cantarolar...

Tal como acontece tantas e tantas vezes nas páginas deste blog, também este vai ser um daqueles posts que começam com o genérico de abertura da série em causa; isto porque, para grande parte do seu público-alvo à época da transmissão, este foi mesmo um dos, senão O elemento mais marcante do programa, cuja letra ainda permanecerá embutida nas suas sinapses, pronta a ser debitada 'de cor' à mínima oportunidade.

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'Navegante da Lua' (no original, 'Sailor Moon') foi mais um dos vários clássicos da programação infantil introduzidos no nosso país por Ana Malhoa, Boi-re-ré, Vaca-re-ré, Croco, Hadrianno e o restante elenco do não menos clássico 'Buereré', um dos programas infanto-juvenis por excelência durante a 'nossa' década; no caso, corria o ano de 1995 quando Serena, Rita, Bunny e as restantes Navegantes surgiam pela primeira vez nos ecrãs de lares de Norte a Sul do país, dobradas em bom português (numa daquelas adaptações livres e cheias de improvisação habituais à época, semelhante à popularizada por 'Dragon Ball Z') e de tiaras apontadas directamente ao coração das raparigas pré-adolescentes (como 'Ursinhos Carinhosos' e 'Meu Pequeno Pónei', 'Sailor Moon' era daquelas séries que não se podia ver se se pertencesse à metade da espécie com cromossomas Y).

E a verdade é que o efeito sobre o público-alvo foi quase imediato - a partir desse ponto, e até ao final da década, as colegiais super-poderosas não mais perderiam a sua influência sobre a juventude portuguesa, para quem era difícil manter-se indiferente à mesma: dependendo do sexo, ou se amava, ou se odiava o programa; quem amava, citava as personagens principais, o charmoso Mascarado e a referida música de abertura como os principais atractivos, enquanto que quem não gostava listava precisamente esses mesmos elementos como factores de irritação em relação à série.

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O Mascarado era o interesse romântico da protagonista Serena

Amasse-se ou odiasse-se, a verdade é que 'Navegantes da Lua' fez tal sucesso aquando do seu aparecimento na SIC, que justificou uma nova transmissão cinco anos depois, agora na TVI, como parte da grelha do outro grande programa infantil das décadas de 90 e 2000, o 'Batatoon', e novamente em 2002, no Canal Panda. Este ressurgimento veio, no entanto, acompanhado de uma controvérsia, no caso ligado a algumas mudanças supérfluas e desnecessárias ao nível da dobragem dos episódios transmitidos no Panda, nomeadamente a troca de sexos entre os gatos das protagonistas, Luna e Artemis, passando Luna a ser um gato macho e Artemis (agora Artemisa) uma fêmea, ao contrário do que sucedia quer no original, quer na primeira tentativa de dobragem para português. Nada, no entanto, que afectasse a popularidade da série, que voltou a encontrar um público entusiástico e àvido de conteúdos de teor aventuroso dirigido a raparigas, numa época em que os programas infantis femininos tinham invariavelmente mais a ver com os supramencionados ´Ursinhos Carinhosos' ou 'Meu Pequeno Pónei'.

Sucesso esse, aliás, que se mantém até hoje, continuando as diversas séries de 'Sailor Moon' a ser transmitidas nos 'novos' canais infantis entretanto surgidos, como o Biggs, que em 2015 incorporava uma dobragem de 'Sailor Moon Crystal' à sua grelha de programação, inicialmente em formato censurado, e a partir de 2017 na sua versão integral, em tudo semelhante à original japonesa; mais uma prova, caso tal fosse necessário, da popularidade de que as meninas com poderes planetários continuam a gozar em Portugal, mesmo em meio à forte concorrência de programas como 'Miraculous Ladybug' e a nova série dos Pequenos Póneis. De facto, ao que parece, se depender do nosso público infantil feminino, Serena e as suas companheiras continuarão a castigar malfeitores em nome da Lua durante muitos e bons anos...

01.11.21

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

A maioria das séries infanto-juvenis mais populares dos anos 90 são bem conhecidas, tendo muitas delas, inclusivamente, já sido abordadas neste espaço: Dragon Ball Z (no primeiríssmo post de sempre deste blog), Power Rangers, Samurai X, Tartarugas Ninja ou Moto-Ratos de Marte, por exemplo, são ainda hoje recordados com nostalgia e carinho por quem teve hipótese de com eles conviver em criança.

No entanto, paralelamente a estas séries altamente publicitadas e, em alguns casos, geradoras de autênticas 'febres' de recreio, havia outras bem mais discretas, mas não menos apreciadas pelo público-alvo; foi o caso, por exemplo, de Dartacão, Dinossauros, ou da série de que hoje falamos, a qual é tão lembrada por quem a ela assistiu como ignorada pela restante Internet.

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Falamos de 'As Aventuras do Bocas' (no original, Ox Tales), a lendária série animada transmitida pela RTP entre 1989 e 1991, e que constituía o principal motivo para a maioria das crianças sintonizarem o programa Agora Escolha, e da apresentadora Vera Roquette ter inevitavelmente uma 'pilha' de desenhos infantis a exibir a cada edição do programa (e, sim, iremos eventualmente falar do Agora Escolha nas Terças de TV.)

Criada por dois holandeses, mas animado no Japão (o que a torna, para efeitos práticos, um 'anime'), esta hilariante série animada segue as desventuras do personagem titular, um boi agricultor habitante de um mundo idiossincrático, onde marsupiais, répteis aquáticos e animais da savana conseguem coexistir e sobreviver num ecossistema tipicamente rural, e onde o gado bovino deixa de ser apenas parte da vida de uma quinta para a passar a controlar.

É neste universo que se desenrolam as histórias tipicamente 'slice of life' da série, as quais se centram normalmente numa ideia (por vezes mirabolante, por vezes apenas bem-intencionada) do personagem principal para melhorar a sua vida e a daqueles que o rodeiam; evidentemente, por se tratar de um desenho animado de índole cómica, a maioria destas situações acabam por correr mal, levando inevitavelmente Bocas a proferir a sua frase característica: 'fiz outra vez asneira!'

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Uma cena bem ilustrativa da série

Um conceito simples, mas extremamente bem executado e repleto de momentos e personagens memoráveis, a começar pela música de abertura (cantada em holandês, e sobretudo lembrada pelo seu inesquecível refrão de 'Boes, Boes', que cá por casa, à época, se acreditava ser 'cuscus, cuscus') e estendendo-se a personagens como o próprio Bocas, a tartaruga Ted - que a voz da dobragem portuguesa tornava num personagem andrógino - as irritantes toupeiras, determinadas a enlouquecer o nosso herói, o leão careca ou o elefante com atitude 'body positive' (muito antes de tal conceito se popularizar) traduzida na sua frase-bordão de 'sou levezinho, sou levezinho...'

'BOES BOES! BOES BOES!'

Os próprios guiões se prestavam a situações perfeitamente hilariantes, abrangendo desde os efeitos inesperados de uma ventoinha demasiado forte até aos perigos de colocar demasiado fermento num bolo, ou tentar decorar um elefante com uma 'capa' de flores, sempre alicerçadas em 'gags' visuais muito bem veiculados pela animação dinâmica e bem conseguida, capaz de reter a atenção do público-alvo ao longo dos dez minutos que tipicamente durava cada história (cada episódio consistia de duas histórias, perfazendo os habituais vinte e poucos minutos de duração das séries animadas da época.)

Não é, pois, de admirar que 'Bocas' tenha permanecido na memória colectiva de toda uma geração de crianças portuguesas, as quais mantiveram o interesse na série durante tempo suficiente para a inevitável Prisvídeo achar que valia a pena editar alguns (poucos) episódios naqueles seus típicos VHS (e mais tarde DVD) de capas 'quase' bem desenhadas e conteúdos algo esparsos.

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Alguns dos vídeos da série lançados em Portugal

Ainda assim, numa época em que a Internet ainda não permitia o acesso rápido, fácil e livre a conteúdos nostálgicos de qualquer altura da História, estas 'cassettes' e discos afirmavam-se como a única forma de as crianças portuguesas poderem recordar aquele desenho animado que tanto os havia feito rir alguns anos antes (hoje em dia, como não podia deixar de ser, uma rápida pesquisa no YouTube permite encontrar todos os episódios, dobrados em português e organizados por ordem cronológica numa 'playlist', para máxima comodidade).

Quanto à série em si, continuou (e continua) a perfilar-se ao lado de 'Dartacão' como exemplo perfeito de como uma série sem grande publicidade e sem qualquer 'merchandise' oficial (além dos referidos vídeos) pode, ainda assim, fazer sucesso entre as crianças, apenas com base na sua qualidade; nesse aspecto, pelo menos, pode considerar-se que 'Bocas' não fez, de todo, asneira...

Primeira história do primeiro episódio da série

 

09.09.21

NOTA: Este post é relativo a Quarta-feira, 8 de Setembro de 2021.

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

O final da década de 90 viu exacerbar-se em Portugal o gosto pela animação e banda desenhada japonesas, hoje em dia mais vulgarmente conhecidas como anime e manga. Embora esta tendência não tenha surgido ‘do nada’ – já desde a década anterior que a então chamada ‘Japanimação’ vinha ganhando terreno no país, sobretudo no mercado de vídeo – foi mesmo durante os anos finais do século XX e inícios do século XXI que este tipo de conteúdo teve o seu primeiro grande ‘boom’ no nosso país, com o lançamento e subsequente popularização de diversos clássicos do desenho animado para adultos nipónico.

Um desses clássicos, que curiosamente serve de ‘elo de ligação’ entre as duas eras de interesse por produtos áudio-visuais japoneses no nosso país, foi Akira, a lendária saga futurista criada por Katsuhiro Otomo em 1988 e cujo respectivo filme chegaria a Portugal em formato direct-to-video no início da década seguinte. Já quanto à banda desenhada que havia dado origem à referida longa-metragem (um épico de mais de 2100 páginas!) a situação foi um pouco diferente, sendo que inicialmente, o único acesso à série por parte do público português era através da edição brasileira, publicada em fascículos estilo ‘gibi’pela editora JBC; já a edição em ‘português de Portugal’ apenas seria editada mais de uma década e meia após o lançamento do original no Japão, com o primeiro tomo a surgir apenas em 1998, pela mão da Meribérica-Liber.

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Capa do primeiro volume de 'Akira' publicado em Portugal

A espera pelo aparecimento da série nas livrarias portuguesas acabou, no entanto, por valer a pena; isto porque a edição portuguesa de ‘Akira’ não era um qualquer ‘livro aos quadradinhos’ igual a tantos outros, mas sim uma verdadeira colecção literária, com direito a capa cartonada, impressão de alta qualidade, tradução cuidada e número considerável de páginas, mais próxima dos álbuns franco-belgas do que das revistas da Marvel ou DC. Publicados entre 1998 e 2004, estes volumes foram, infelizmente, descontinuados antes de a saga poder atingir a sua conclusão, ficando a versão portuguesa de ‘Akira’ incompleta, mesmo para quem possuía todos os livros!

Uma curiosidade quanto a esta colecção é o facto de não se saber exactamente quantos volumes foram publicados em Portugal. Embora, actualmente, só seja possível encontrar doze (sendo o último extremamente difícil de encontrar), o site da Bedeteca dá conta da existência de dezanove - sendo os últimos sete, se existirem, extremamente raros.

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...número 16...?! Mas...mas...

Independentemente do número de tomos lançado, no entanto, o que é, sim, consensual é o facto de a BD ter ficado, em todo o caso, incompleta, um erro que demoraria outros quinze anos a ser corrigido, desta vez pela mão da JBC, mesma editora responsável pela versão brasileira duas décadas antes.

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Primeiro volume da reedição pela JBC

Ainda assim, mesmo com o ‘pequeno defeito’ de ter ficado incompleta, a edição de ‘Akira’ pela Meribérica-Liber vale bem a pena para qualquer entusiasta de manga, pelo seu alto padrão de qualidade e evidente cuidado na apresentação e grafismo. Foram essas características – além da qualidade e popularidade do material original – que ajudaram a garantir que ‘Akira’ era merecedor de um lugar nesta secção do nosso blog…

31.05.21

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

O primeiro post 'a sério' deste blog, precisamente uma Segunda de Séries, foi dedicada à série de ‘anime’ mais vista de sempre em Portugal, 'Dragon Ball Z'. O post de hoje é dedicado à segunda colocada nessa ‘corrida’ em particular, a saga de um espadachim a soldo no Japão medieval e dos seus companheiros – uma jovem decidida, um órfão pré-adolescente e um ex-soldado do exército japonês. O seu nome? 'Rouronin Kenshin', mais frequentemente conhecida como 'Samurai X'.

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Originalmente produzido entre 1995 e 96, o relato animado das aventuras de Kenshin Himura ‘Battousai’ – o Samurai do título –  chegaria a Portugal já ao ‘cair do pano’ do século XX (e do segundo milénio), ainda a tempo de cativar toda uma geração de jovens, e de aumentar exponencialmente a média de idades dos espectadores do progama onde estreou, o Batatoon. De facto, o ‘anime’ foi das poucas séries de índole mais séria veiculadas pelo popular segmento infanto-juvenil da TVI, e a sua colocação na grelha do mesmo - onde era o primeiro desenho animado a ser exibido - fazia com que muitos dos espectadores mais velhos, pouco ou nada interessados no programa em si, dessem um ‘saltinho’ ao quarto canal durante a meia-hora que durava a série, e mudassem para outra emissão logo a seguir. Quanto aos mais novos – o público-alvo do Batatoon propriamente dito – a série era, para eles, não menos cativante, especialmente pelo seu carácter mais violento (embora em moderação) relativamente aos restantes ‘animes’ transmitidos em Portugal à época, como Sailor Moon.

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O memorável grupo de personagens principais da série.

Este apelo transversal, e quase universal, devia-se a um simples factor: ‘Samurai X’ estava muito, mas mesmo muito bem feito. O material original já era, em si mesmo de grande qualidade – bem escrito, com animação fluida e excelentes temas de abertura e, principalmente, fecho – e a dobragem portuguesa ainda adicionava mais charme ao todo, sendo universalmente considerada uma das melhores e mais cuidadas alguma vez feitas no nosso país (neste aspecto em particular, ‘X’ era o exacto oposto de ‘Dragon Ball Z’, que ficou bem conhecido pela sua ‘gag dub’ maioritamente improvisada.) Os enredos eram empolgantes (e apropriados a todas as idades, o que também não deixava de ser raro) e o esforço de todos os envolvidos com a tradução e localização da série era evidente a cada episódio. Os jovens – que, ao contrário do que normalmente se pensa, são tudo menos parvos – reconheceram essa dedicação, e transformaram ‘Samurai X’ num ‘hit’ de culto, longe da popularidade estratosférica de ‘Dragon Ball Z’, mas ainda saudosamente recordado pela maioria dos ‘putos’ daquela época.

Embora não caísse nos extremismos de 'Dragon Ball Z', 'Samurai X' deixava lugar aos momentos de humor semi-improvisados.

Com a dose certa de mistério, aventura, acção e um toque de humor bem característico, ‘Samurai X’ merece o lugar que ainda ocupa entre os ‘otakus’ portugueses crescidos nos anos 90 – e que, mesmo desde então, apenas ‘Naruto’ conseguiu ameaçar…

Os temas de abertura e fecho do 'anime' ,tão cuidados e memoráveis como os restantes aspectos técnicos

18.03.21

 

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Que melhor maneira de dar início a um blog sobre os anos 90 em Portugal do que com A febre – provavelmente a maior febre que os recreios portugueses da era pré-TikTok e YouTube alguma vez conheceram? Um fenómeno tão popular que fazia parar aulas e jogos de bola, e chegou ao ponto de gerar ‘mercados negros’ de imagens fotocopiadas, geridos com grande sentido comercial por mini-empreendedores do 6º ano?

Falamos, claro, de Dragon Ball Z, talvez a série animada mais popular de sempre em Portugal. Transmitida no nosso país pela SIC a partir de Novembro de 1996, o ‘anime’ criado sete anos antes por Akira Toriyama tornou-se um daqueles fenómenos que suscitavam a pergunta: ‘onde é que estavas no dia da estreia do Dragon Ball Z?’

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Nem o Son Goku percebe a razão da 'febre'...

Se não tiverem estado lá em pessoa, tentem imaginar um típico dia de semana em Novembro de 1996, ali por volta das 17h30, hora de muitas crianças regressarem da escola e se sentarem com o seu ‘lanchinho’ a ver qualquer dos programas infantis da tarde. Nesta tarde em particular, no entanto, os outros canais são quase totalmente negligenciados, sobretudo pelos rapazes, que sintonizam quase unanimemente a televisão para a SIC. A razão? Após algumas semanas de anúncios e ‘spots’ televisivos para criar ‘hype’, está finalmente prestes a estrear uma nova série cheia de acção e aventura, mesmo à medida de quem ainda não é adolescente, ou mesmo de quem já é mais velho, mas não tem vergonha de ver desenhos animados.

Alguns minutos depois de televisores de Norte a Sul do país terem sintonizado o canal de Carnaxide, o genérico da nova série irrompe pelas casas de milhões de crianças e jovens, no que seria a primeira de muitas vezes – mais do que alguém ousaria imaginar. Alguns momentos depois, a cabeça de um veado emerge de fora do ecrã, ouve-se a voz de uma personagem feminina a chamar ‘Son Gohaaaaaannn!’…e estava lançado o fenómeno.

Durante os dois a três anos seguintes, Dragon Ball Z seria presença assídua na vida das crianças e adolescentes portugueses, quer através da transmissão diária de episódios, quer da compra de ‘merchandise’  - t-shirts, a caderneta de cromos da Panini, vídeos dos filmes longa-metragem da série ou do Dragon Ball original, os famosos bonecos articulados, ou até um CD de músicas Europop de origem tão duvidosa como a sua qualidade sonora - ou mesmo de meios menos esperados ou ortodoxos, como a referida ‘pirataria’ de imagens fotocopiadas, tiradas da Internet e vendidas no recreio a 5 ou 10 escudos cada, dependendo da qualidade e interesse (um ou outro mais afoito até tentava cobrar 20 escudos por uma suposta imagem de ‘hentai’ da série, saindo-lhe o plano furado apenas por conta da fraca qualidade das impressoras da época, que transformaram a suposta cena para maiores de 18 entre Bulma e Son Goku num borrão indecifrável.) Enfim, uma febre como poucas tinhas havido até então para aquela geração nascida em finais dos anos 80, e como poucas voltaria a haver nos anos subsequentes.

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Capa de um dos vídeos lançados à época, com direito a 'gralha' no título e ilustração estilo 'carrossel da Feira Popular'

O mais engraçado é que o antecessor de DBZ, o Dragon Ball original, não tinha conhecido nem metade do sucesso da sua continuação. Havia quem visse, claro – eram até muitos – e a canção do genérico era icónica q.b., mas a série original nunca levou ninguém a tentar desenhar a sua própria cena de Son Goku para vender no recreio, a interromper um jogo de futebol com os amigos ou até uma aula da Universidade (!!) para ver o episódio desse dia, ou a aceder aos incipientes recursos cibernéticos da época para encontrar ‘spoilers’ sobre o que se iria passar a seguir. Era simplesmente mais um desenho animado ‘fixe’ – um estatuto que DBZ largamente transcendeu, e que a continuação, o muito esperado ‘Dragon Ball GT’, nunca sequer esteve perto de atingir.

Mas como diria George Harrison, ‘all things must pass’ – e o fenómeno Dragon Ball Z, embora mais duradouro que muitos outros surgidos naqueles anos 90, acabou mesmo por esmorecer. Muita da responsabilidade pode ser atribuída à própria SIC, que comprou um número limitado de episódios da série e, quando milhões de crianças salivavam pela continuação da saga Cell, e pela introdução do novo vilão Bubu (Buu)…re-iniciou a exibição a partir do primeiro episódio! Sem paciência para verem novamente os quarenta mil episódios para ‘encher chouriços’ da saga Freezer (aqueles que começavam e acabavam com um herói e um vilão frente a frente, a trocar ameaças, ficando o confronto sempre para o famoso ‘próximo episódio’), a criançada tratou de arranjar outros focos de interesse, fazendo esfriar consideravelmente a ‘febre’ que se verificara até então. A SIC ainda tentou corrigir o seu erro, transmitindo os novos episódios ao Sábado de manhã para um público ainda bastante interessado, mas a loucura, tal como ela havia sido poucos meses antes, não se voltaria a verificar.

Mesmo assim, a transmissão portuguesa de Dragon Ball Z constitui, ainda hoje, uma memória indelével para toda uma geração, que acompanhou sofregamente cada novo episódio (incluindo os referidos ‘fillers’), comprou o merchandise (oficial ou, mais frequentemente, pirata) e fez daquele ‘anime’ descomprometido um verdadeiro culto da sua infância e adolescência. Fosse pelo inesquecível tema-título (que alguém de certeza já está por aí a cantar), pela dobragem cheia de referências específicas da época, e em grande parte improvisada por apenas uma mão-cheia de atores (aquilo a hoje se chamaria uma ‘gag dub’) ou simplesmente pelo fator ‘cool’ que emanava, as aventuras de Son Goku e amigos são, ainda hoje, uma das primeiras coisas que qualquer ‘90s kid’, sobretudo do sexo masculino, recordará quando chamado a relembrar a sua infância.

                   

Vá, cantem lá. Vocês sabem que querem.

E vocês? Qual a vossa melhor memória desta mítica série ‘anime’? Deixem as vossas recordações nos comentários!

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