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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

09.09.21

NOTA: Este post é relativo a Quarta-feira, 8 de Setembro de 2021.

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

O final da década de 90 viu exacerbar-se em Portugal o gosto pela animação e banda desenhada japonesas, hoje em dia mais vulgarmente conhecidas como anime e manga. Embora esta tendência não tenha surgido ‘do nada’ – já desde a década anterior que a então chamada ‘Japanimação’ vinha ganhando terreno no país, sobretudo no mercado de vídeo – foi mesmo durante os anos finais do século XX e inícios do século XXI que este tipo de conteúdo teve o seu primeiro grande ‘boom’ no nosso país, com o lançamento e subsequente popularização de diversos clássicos do desenho animado para adultos nipónico.

Um desses clássicos, que curiosamente serve de ‘elo de ligação’ entre as duas eras de interesse por produtos áudio-visuais japoneses no nosso país, foi Akira, a lendária saga futurista criada por Katsuhiro Otomo em 1988 e cujo respectivo filme chegaria a Portugal em formato direct-to-video no início da década seguinte. Já quanto à banda desenhada que havia dado origem à referida longa-metragem (um épico de mais de 2100 páginas!) a situação foi um pouco diferente, sendo que inicialmente, o único acesso à série por parte do público português era através da edição brasileira, publicada em fascículos estilo ‘gibi’pela editora JBC; já a edição em ‘português de Portugal’ apenas seria editada mais de uma década e meia após o lançamento do original no Japão, com o primeiro tomo a surgir apenas em 1998, pela mão da Meribérica-Liber.

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Capa do primeiro volume de 'Akira' publicado em Portugal

A espera pelo aparecimento da série nas livrarias portuguesas acabou, no entanto, por valer a pena; isto porque a edição portuguesa de ‘Akira’ não era um qualquer ‘livro aos quadradinhos’ igual a tantos outros, mas sim uma verdadeira colecção literária, com direito a capa cartonada, impressão de alta qualidade, tradução cuidada e número considerável de páginas, mais próxima dos álbuns franco-belgas do que das revistas da Marvel ou DC. Publicados entre 1998 e 2004, estes volumes foram, infelizmente, descontinuados antes de a saga poder atingir a sua conclusão, ficando a versão portuguesa de ‘Akira’ incompleta, mesmo para quem possuía todos os livros!

Uma curiosidade quanto a esta colecção é o facto de não se saber exactamente quantos volumes foram publicados em Portugal. Embora, actualmente, só seja possível encontrar doze (sendo o último extremamente difícil de encontrar), o site da Bedeteca dá conta da existência de dezanove - sendo os últimos sete, se existirem, extremamente raros.

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...número 16...?! Mas...mas...

Independentemente do número de tomos lançado, no entanto, o que é, sim, consensual é o facto de a BD ter ficado, em todo o caso, incompleta, um erro que demoraria outros quinze anos a ser corrigido, desta vez pela mão da JBC, mesma editora responsável pela versão brasileira duas décadas antes.

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Primeiro volume da reedição pela JBC

Ainda assim, mesmo com o ‘pequeno defeito’ de ter ficado incompleta, a edição de ‘Akira’ pela Meribérica-Liber vale bem a pena para qualquer entusiasta de manga, pelo seu alto padrão de qualidade e evidente cuidado na apresentação e grafismo. Foram essas características – além da qualidade e popularidade do material original – que ajudaram a garantir que ‘Akira’ era merecedor de um lugar nesta secção do nosso blog…

31.05.21

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

O primeiro post 'a sério' deste blog, precisamente uma Segunda de Séries, foi dedicada à série de ‘anime’ mais vista de sempre em Portugal, 'Dragon Ball Z'. O post de hoje é dedicado à segunda colocada nessa ‘corrida’ em particular, a saga de um espadachim a soldo no Japão medieval e dos seus companheiros – uma jovem decidida, um órfão pré-adolescente e um ex-soldado do exército japonês. O seu nome? 'Rouronin Kenshin', mais frequentemente conhecida como 'Samurai X'.

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Originalmente produzido entre 1995 e 96, o relato animado das aventuras de Kenshin Himura ‘Battousai’ – o Samurai do título –  chegaria a Portugal já ao ‘cair do pano’ do século XX (e do segundo milénio), ainda a tempo de cativar toda uma geração de jovens, e de aumentar exponencialmente a média de idades dos espectadores do progama onde estreou, o Batatoon. De facto, o ‘anime’ foi das poucas séries de índole mais séria veiculadas pelo popular segmento infanto-juvenil da TVI, e a sua colocação na grelha do mesmo - onde era o primeiro desenho animado a ser exibido - fazia com que muitos dos espectadores mais velhos, pouco ou nada interessados no programa em si, dessem um ‘saltinho’ ao quarto canal durante a meia-hora que durava a série, e mudassem para outra emissão logo a seguir. Quanto aos mais novos – o público-alvo do Batatoon propriamente dito – a série era, para eles, não menos cativante, especialmente pelo seu carácter mais violento (embora em moderação) relativamente aos restantes ‘animes’ transmitidos em Portugal à época, como Sailor Moon.

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O memorável grupo de personagens principais da série.

Este apelo transversal, e quase universal, devia-se a um simples factor: ‘Samurai X’ estava muito, mas mesmo muito bem feito. O material original já era, em si mesmo de grande qualidade – bem escrito, com animação fluida e excelentes temas de abertura e, principalmente, fecho – e a dobragem portuguesa ainda adicionava mais charme ao todo, sendo universalmente considerada uma das melhores e mais cuidadas alguma vez feitas no nosso país (neste aspecto em particular, ‘X’ era o exacto oposto de ‘Dragon Ball Z’, que ficou bem conhecido pela sua ‘gag dub’ maioritamente improvisada.) Os enredos eram empolgantes (e apropriados a todas as idades, o que também não deixava de ser raro) e o esforço de todos os envolvidos com a tradução e localização da série era evidente a cada episódio. Os jovens – que, ao contrário do que normalmente se pensa, são tudo menos parvos – reconheceram essa dedicação, e transformaram ‘Samurai X’ num ‘hit’ de culto, longe da popularidade estratosférica de ‘Dragon Ball Z’, mas ainda saudosamente recordado pela maioria dos ‘putos’ daquela época.

Embora não caísse nos extremismos de 'Dragon Ball Z', 'Samurai X' deixava lugar aos momentos de humor semi-improvisados.

Com a dose certa de mistério, aventura, acção e um toque de humor bem característico, ‘Samurai X’ merece o lugar que ainda ocupa entre os ‘otakus’ portugueses crescidos nos anos 90 – e que, mesmo desde então, apenas ‘Naruto’ conseguiu ameaçar…

Os temas de abertura e fecho do 'anime' ,tão cuidados e memoráveis como os restantes aspectos técnicos

18.03.21

 

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Que melhor maneira de dar início a um blog sobre os anos 90 em Portugal do que com A febre – provavelmente a maior febre que os recreios portugueses da era pré-TikTok e YouTube alguma vez conheceram? Um fenómeno tão popular que fazia parar aulas e jogos de bola, e chegou ao ponto de gerar ‘mercados negros’ de imagens fotocopiadas, geridos com grande sentido comercial por mini-empreendedores do 6º ano?

Falamos, claro, de Dragon Ball Z, talvez a série animada mais popular de sempre em Portugal. Transmitida no nosso país pela SIC a partir de Novembro de 1996, o ‘anime’ criado sete anos antes por Akira Toriyama tornou-se um daqueles fenómenos que suscitavam a pergunta: ‘onde é que estavas no dia da estreia do Dragon Ball Z?’

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Nem o Son Goku percebe a razão da 'febre'...

Se não tiverem estado lá em pessoa, tentem imaginar um típico dia de semana em Novembro de 1996, ali por volta das 17h30, hora de muitas crianças regressarem da escola e se sentarem com o seu ‘lanchinho’ a ver qualquer dos programas infantis da tarde. Nesta tarde em particular, no entanto, os outros canais são quase totalmente negligenciados, sobretudo pelos rapazes, que sintonizam quase unanimemente a televisão para a SIC. A razão? Após algumas semanas de anúncios e ‘spots’ televisivos para criar ‘hype’, está finalmente prestes a estrear uma nova série cheia de acção e aventura, mesmo à medida de quem ainda não é adolescente, ou mesmo de quem já é mais velho, mas não tem vergonha de ver desenhos animados.

Alguns minutos depois de televisores de Norte a Sul do país terem sintonizado o canal de Carnaxide, o genérico da nova série irrompe pelas casas de milhões de crianças e jovens, no que seria a primeira de muitas vezes – mais do que alguém ousaria imaginar. Alguns momentos depois, a cabeça de um veado emerge de fora do ecrã, ouve-se a voz de uma personagem feminina a chamar ‘Son Gohaaaaaannn!’…e estava lançado o fenómeno.

Durante os dois a três anos seguintes, Dragon Ball Z seria presença assídua na vida das crianças e adolescentes portugueses, quer através da transmissão diária de episódios, quer da compra de ‘merchandise’  - t-shirts, a caderneta de cromos da Panini, vídeos dos filmes longa-metragem da série ou do Dragon Ball original, os famosos bonecos articulados, ou até um CD de músicas Europop de origem tão duvidosa como a sua qualidade sonora - ou mesmo de meios menos esperados ou ortodoxos, como a referida ‘pirataria’ de imagens fotocopiadas, tiradas da Internet e vendidas no recreio a 5 ou 10 escudos cada, dependendo da qualidade e interesse (um ou outro mais afoito até tentava cobrar 20 escudos por uma suposta imagem de ‘hentai’ da série, saindo-lhe o plano furado apenas por conta da fraca qualidade das impressoras da época, que transformaram a suposta cena para maiores de 18 entre Bulma e Son Goku num borrão indecifrável.) Enfim, uma febre como poucas tinhas havido até então para aquela geração nascida em finais dos anos 80, e como poucas voltaria a haver nos anos subsequentes.

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Capa de um dos vídeos lançados à época, com direito a 'gralha' no título e ilustração estilo 'carrossel da Feira Popular'

O mais engraçado é que o antecessor de DBZ, o Dragon Ball original, não tinha conhecido nem metade do sucesso da sua continuação. Havia quem visse, claro – eram até muitos – e a canção do genérico era icónica q.b., mas a série original nunca levou ninguém a tentar desenhar a sua própria cena de Son Goku para vender no recreio, a interromper um jogo de futebol com os amigos ou até uma aula da Universidade (!!) para ver o episódio desse dia, ou a aceder aos incipientes recursos cibernéticos da época para encontrar ‘spoilers’ sobre o que se iria passar a seguir. Era simplesmente mais um desenho animado ‘fixe’ – um estatuto que DBZ largamente transcendeu, e que a continuação, o muito esperado ‘Dragon Ball GT’, nunca sequer esteve perto de atingir.

Mas como diria George Harrison, ‘all things must pass’ – e o fenómeno Dragon Ball Z, embora mais duradouro que muitos outros surgidos naqueles anos 90, acabou mesmo por esmorecer. Muita da responsabilidade pode ser atribuída à própria SIC, que comprou um número limitado de episódios da série e, quando milhões de crianças salivavam pela continuação da saga Cell, e pela introdução do novo vilão Bubu (Buu)…re-iniciou a exibição a partir do primeiro episódio! Sem paciência para verem novamente os quarenta mil episódios para ‘encher chouriços’ da saga Freezer (aqueles que começavam e acabavam com um herói e um vilão frente a frente, a trocar ameaças, ficando o confronto sempre para o famoso ‘próximo episódio’), a criançada tratou de arranjar outros focos de interesse, fazendo esfriar consideravelmente a ‘febre’ que se verificara até então. A SIC ainda tentou corrigir o seu erro, transmitindo os novos episódios ao Sábado de manhã para um público ainda bastante interessado, mas a loucura, tal como ela havia sido poucos meses antes, não se voltaria a verificar.

Mesmo assim, a transmissão portuguesa de Dragon Ball Z constitui, ainda hoje, uma memória indelével para toda uma geração, que acompanhou sofregamente cada novo episódio (incluindo os referidos ‘fillers’), comprou o merchandise (oficial ou, mais frequentemente, pirata) e fez daquele ‘anime’ descomprometido um verdadeiro culto da sua infância e adolescência. Fosse pelo inesquecível tema-título (que alguém de certeza já está por aí a cantar), pela dobragem cheia de referências específicas da época, e em grande parte improvisada por apenas uma mão-cheia de atores (aquilo a hoje se chamaria uma ‘gag dub’) ou simplesmente pelo fator ‘cool’ que emanava, as aventuras de Son Goku e amigos são, ainda hoje, uma das primeiras coisas que qualquer ‘90s kid’, sobretudo do sexo masculino, recordará quando chamado a relembrar a sua infância.

                   

Vá, cantem lá. Vocês sabem que querem.

E vocês? Qual a vossa melhor memória desta mítica série ‘anime’? Deixem as vossas recordações nos comentários!

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