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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

14.03.22

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Embora presente em Portugal desde os anos 80, com séries como 'Tom Sawyer', 'Heidi e Marco' ou 'Bana e Flapy', foi na década seguinte que a animação japonesa – vulgo 'anime' – verdadeiramente se afirmou no nosso país. Séries como 'As Navegantes da Lua', 'Capitão Hawk', 'Esquadrão Águia', 'Os Cavaleiros do Zodíaco' e, claro, o incontornável 'Dragon Ball Z' davam a conhecer a toda uma nova geração de crianças e jovens aquele estilo cheio de 'linhas de velocidade' e caretas exageradas, e com enredos cheios de acção e aventura.

O sucesso foi imediato, e à entrada para a segunda metade da década, os 'animes' eram já parte integrante da vida quotidiana de qualquer criança; não constituiu, pois, qualquer surpresa ver o número de séries deste tipo exibidas nos quatro canais nacionais aumentar exponencialmente durante esses anos, com novas propostas a surgirem regularmente, muitas delas em substituição directa de outras do mesmo tipo.

Foi neste âmbito que, há quase exactamente um quarto de século, acabaram por coincidir na TVI três 'animes' com conceitos e premissas extremamente semelhantes, hoje em dia lembrados por muitas ex-crianças portuguesas como uma espécie de 'pacote 3-em-1', apesar de nem sempre terem sido transmitidos juntos.

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Falamos de 'A Lenda de Zorro' (Kaiketsu Zorro), 'A Cinderela' (Cinderella Monogatari) e 'As Aventuras de Robin dos Bosques' (Robin Fuddo no Daibōken) as três adaptações (extremamente) livres de histórias clássicas para um formato de animação serializada que a TVI foi adquirir a Itália para integrar na sua programação infantil para os anos de 1996 e 97, nomeadamente no âmbito do programa matinal 'Mix Max'.

Apesar de, conforme referimos, tratarem o material original em que eram baseadas com a maior das liberdades, nenhuma das três séries ficava a perder, em termos de qualidade, em relação à média das séries de 'anime' da altura; pelo contrário, todas as três eram bem desenhadas (ainda que sofressem um pouco da síndrome 'orçamento gasto na sequência de abertura'), com Cinderela e Zorro a terem traços algo mais realistas, próximos dos das 'Navegantes' e 'Samurai X', respectivamente, enquanto Robin (talvez por ter protagonistas infantis) contava com um estilo mais caricatural, a lembrar as séries dos anos 70 e 80, como o já referido 'Esquadrão Águia'.

Os méritos dos três programas não se ficavam, no entanto, pelos aspectos técnicos; todas as três contavam, também, com histórias que se desenrolavam a um ritmo dinâmico e conseguiam o balanço perfeito entre a acção, o drama, a comédia, e até alguns momentos mais românticos, especialmente no caso da adaptação de 'Cinderela'. Talvez ainda mais importante, para uma geração que vivia de primeiras impressões, todos os três tinham temas de abertura absolutamente fabulosos; o de Zorro, em particular, ainda hoje se conta entre os melhores de sempre da televisão infantil em Portugal – o que, para um país que conviveu com as aberturas de 'Pokémon', 'Digimon', 'Power Rangers' ou 'Rua Sésamo', não deixa de ser notável! A música de 'Robin dos Bosques', em particular, teve ainda o mérito extra de ensinar a muitas crianças o significado da palava 'liça', utilizada na letra cantada por Helena Isabel, e que muitos jovens da altura pensavam ser a homófona 'missa'.

No fundo, tratavam-se de três séries que, sem quererem ser um fenómeno cultural ou até mesmo revolucionar o género em que se inseriam, não deixavam de ser uma excelente opção para passar uma manhã 'de folga' da escola, a 'preguiçar' em frente à televisão – o que, no fundo, era tudo o que muitas crianças da época pediam no tocante a programação. Mais, odas as três demonstravam qualidade e interesse suficientes para justificarem o regresso, no dia seguinte, para ver outro episódio, algo que era, também, apenas privilégio das melhores séries e desenhos animados da época. Assim, e apesar de algo esquecidas hoje em dia, qualquer das três séries é bem merecedora deste destaque, ficando a sensação de que fazem falta produções cuidadas deste tipo na programação infanto-juvenil de hoje em dia...

28.02.22

NOTA: Para celebrar a estreia, esta sexta-feira, do novo filme de Batman, todos os 'posts' desta semana serão dedicados ao Homem-Morcego.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Numa era em que o Universo Marvel gera consensos críticos positivos e bate recordes de bilheteira duas vezes por ano, pode parecer difícil de acreditar que, em tempos, qualquer propriedade intelectual associada aos heróis da Marvel e DC que extravasasse o universo das revistas aos quadradinhos tinha tantas hipóteses de ser razoável como de não corresponder às (baixas) expectativas geradas. E, no entanto, foi precisamente esse o paradigma até à ponta final do século XX, altura em que as produções audio-visuais e multimédia alusivas a super-heróis de banda desenhada conseguiram, finalmente, aringir o nível que os fãs de 'comics' há tanto desejavam; e se, no caso do cinema, a 'viragem' se deu já no dealbar do século XXI, com o na altura considerado excelente 'X-Men', de Bryan Singer, no que toca à animação, o estigma já tinha sido eliminado alguns anos antes, por uma produção não menos icónica, influente ou importante – a série animada de Batman produzida pela Warner Brothers.

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Emitida nos seus EUA natal entre 1993 e 1995, e transmitida em Portugal pela RTP 2, alguns anos mais tarde, a simplesmente intitulada 'Batman: The Animated Series' conseguiu o impensável ao afirmar-se como o primeiro produto audio-visual relacionado com super-heróis a ser bem recebida pela sempre exigente crítica especializada. Muita desta boa-vontade advinha do seu guião cuidado e de qualidade, que não poupava esforços na tentativa de desfazer a má impressão deixada por 'coisas' como 'The Super Friends', a série animada produzida pela DC nos anos 70 e que, desde então, passou a simbolizar tudo o que de errado se passava com a abordagem televisiva ao mundo dos super-poderes.

Talvez tenha sido precisamente essa má reputação a motivar os criadores de 'Batman: The Animated Series' a seguirem na direcção exactamente oposta: às mascotes 'fofinhas', piadas 'secas', histórias politicamente correctas e positividade forçadas do seu antecessor, a nova série respondia com uma Gotham City declaradamente escura e opressiva com toques de 'noir' e 'pulp' (inspirada na criada por Tim Burton na sua interpretação cinematográfica do herói), guiões coesos e que levavam o público-alvo a sério, uma narrativa estruturada e personagens que, grosso modo, se mantinham fiéis às personalidades para eles criadas, ao longo das décadas, pelas diversas equipas criativas encarregadas de trabalhar na BD. Bruce Wayne, Dick Grayson, o mordomo Alfred, o comissário Gordon e a sua filha Barbara eram precisamente as mesmas pessoas que os leitores conheciam da BD, o mesmo se passando com a clássica galeria de vilões do Morcego, da qual todos os principais nomes marcavam presença, acrescidos de algumas novas adições – entre elas uma personagem tão bem sucedida que viria a fazer o percurso inverso, transitando do ecrã onde nascera para as páginas dos 'comics', e daí para o grande ecrã. O seu nome? Harley Quinn.

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Sim, foi aqui que nasceu a hoje idolatrada parceira profissional e (por vezes) amorosa do Joker, uma criação do argumentista Paul Dini com trabalho vocal a cargo da mulher deste, Arleen Sorkin, cuja interpretação teve um papel fulcral no sucesso obtido pela personagem, e ajudou a moldar e definir de forma permanente a sua personalidade. Ainda longe da loucura sensual de Margot Robbie, a Harley Quinn de Sorkin pauta-se pela sua personalidade exageradamente extrovertida, animada, 'desbocada' e hiperactiva, bem como pelos toques masoquistas e psicóticos e paixão assolapada pelo seu chefe (aqui, ao contrário do que acontece na versão cinematográfica, não correspondida) que partilha com a revisão posterior de Robbie; é, precisamente, esta complexidade dicotómica que transforma aquilo que poderia ser apenas a habitual personagem cómica vagamente irritante, dirigida às crianças, numa das mais populares criações de sempre da DC, e presença, hoje, quase que excessivamente constante no seu universo mediático.

Foi exactamente esta mentalidade – extensível também aos outros personagens da série – que ajudou a fazer de 'Batman: The Animated Series' um dos programas mais importantes de sempre, não só para a causa dos super-heróis nos 'mass media', como também para o próprio panorama da animação nos anos 90; isto porque o sucesso da série não só ajudou a lançar todo um universo animado da DC, sempre encabeçado pelos criadores Paul Dini e Bruce Timm, como também inspirou muitas criações posteriores a seguirem o seu exemplo, contribuindo assim para alterar positivamente o paradigma das séries de aventuras para crianças; por outras palavras, se a geração seguinte teve muitos e bons programas deste género por onde escolher, ao 'Batman' dos anos 90 o deve.

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Um desses programas foi, precisamente, uma espécie de 'sequela' para a série original, intitulada 'Batman do Futuro' (no original, 'Batman Beyond') e que seguia as aventuras do sucessor de Bruce Wayne no fato do Homem-Mercego. Apesar de estreada originalmente em 1999, no entanto, essa série apenas chegaria a Portugal já no século XXI, ficando assim fora do âmbito deste blog; ficamo-nos, por isso, pela original – que, convenhamos, está longe de ser a pior maneira de abrir uma semana de homenagem ao Homem-Morcego...

08.02.22

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Nota: Este post estava originalmente planeado para ser sobre a Arca de Noé, programa do qual análisamos os LP's de banda sonora no nosso último post. No entanto, a Maria Ana fez-nos chegar a informação de que se celebrou, na semana transacta, um aniversário marcante, suscitando-se assim uma mudança de tema; a Arca de Noé fica a próxima, e hoje celebraremos os 36 anos da criação do Vitinho. Obrigado, Maria Ana, pela informação!

A presença de mascotes variadas para tentar vender um produto, serviço, ou até ideia ou conceito ao público mais jovem não é nada de novo – dos vários bicharocos das caixas de cereais a criações mais inusitadas como o Luzinha, mascote da EDP durante parte dos anos 90, esta prática tem um longo e ilustre historial, tanto em Portugal como no estrangeiro.

Poucas são, no entanto, as mascotes que transcendem o produto a que são normalmente associadas e se tornam parte de uma vertente completamente diferente da cultura popular. O exemplo que vem imediatamente à memória será, talvez, o de Fido Dido, cuja popularidade eclipsou, nos anos 80 e 90, o seu estatuto de simples mascote da 7-Up; logo atrás do boneco monocromático, no entanto, virá concerteza (para quem foi criança naquela época, pelo menos) um outro, bastante mais jovem e de feições bem mais humanas, enfiado numas jardineiras três tamanhos acima,com chapéu de palha a condizer, e que foi presença constante não só nas caixas de papas para bebé que foi originalmente concebido para vender, mas também em fontes tão díspares quanto animações televisivas e sinais autocolantes de 'Bebé a Bordo' para colar nos retrovisor do carro.

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Falamos, é claro, do Vitinho, a carismática mascote infantil da Milupa que celebrou, no passado dia 2 de Fevereiro, os seus trinta e seis anos de criação – como se ainda fossem precisas mais provas de que estamos todos a ficar velhos...

Iniciava-se, efectivamente, o ano de 1986 quando o ilustrador José Maria Pimentel cria o menino agricultor de cabelo castanho, bochechas rosadas e roupa da cor daquilo que, presumivelmente, semeava – nomeadamente, o trigo de que eram feitas as papas infantis Miluvit, a que o boneco dava a cara. No entanto, e pese embora o sucesso de vendas do referido produto ao longo dos dez anos seguintes, não seria na qualidade de embaixador de papas de trigo que Vitinho ficaria imortalizado entre a juventude portuguesa das décadas de 80 e 90; pelo contrário, a verdadeira fama da criação de Pimentel seria adquirida no desempenho das suas outras funções – as de personagem principal de uma série de animações musicais transmitidas diariamente pela RTP como forma de marcar o início do seu horário nobre, e que foram, em parte, responsáveis por mandar toda uma geração de crianças para a cama.

A primeira, e mais famosa, animação do Vitinho, exibida ainda nos anos 80

No total, foram quatro as animações exibidas pela emissora estatal entre 1986 e 1997 – tempo suficiente para o personagem, e as respectivas cantigas, conquistarem um lugar no coração não só de quem nasceu nos anos 80, mas também dos seus irmãos e irmãs mais novos, já da década de 90. Para ambas estas sub-gerações, o Vitinho foi presença constante e infalível, noite após noite, servindo como uma espécie de 'sinal de alarme' para o facto de que o dia havia acabado, e era hora de iniciair os preparativos para a cama – para que, no dia seguinte, pudessem acordar frescos e bem-dispostos, prontos a comer um prato de Miluvit...

O personagem no seu 'ambiente natural' - um anúncio às papas Miluvit - em que também é revelado o seu 'sotaque' saloio

Sim, as animações genericamente conhecidas como 'Boa Noite, Vitinho' foram um dos primeiros – e melhores – exemplos de 'marketing sinergístico' em território nacional, sendo que o Miluvit não era mencionado uma única vez em nenhum dos quatro clips; a estratégia de marketing da Milupa consistia, pura e simplesmente, em tornar o seu personagem conhecido do público-alvo do seu produto.

E, nesse aspecto, a campanha foi estrondosamente bem-sucedida, tendo-se o Vitinho tornado a cara não só da banda sonora dos seus próprios anúncios (tanto á época como por ocasião do 30º aniversário dos mesmos), como de outras (de que é exemplo o primeiro LP da Arca de Noé), e ainda dos referidos autocolantes para o retrovisor e de um livro sobre os cereais, com textos de Maria Alberta Menéres, na altura uma das mais conceituadas autoras de literatura infanto-juvenil em Portugal. Claro que as vendas do Miluvit acabaram por também beneficiar de toda esta popularidade, embora, paradoxalmente, a maioria das crianças talvez pensasse que era a marca que tinha posto o boneco da televisão na sua caixa, e não o contrário.

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Capa do primeiro LP com músicas do Vitinho, lançado em 1988

Quando, ao fim de onze anos, o percurso do mini-agricultor na consciência popular chegou finalmente ao fim (sensivelmente em simultâneo com a produção das papas que promovia), a presença de Vitinho na cultura portuguesa era tão enraizada que o mesmo deixou um 'buraco' que demorou mais de um ano a preencher – e, quando tal aconteceu, o produto proposto pela RTP foi substancialmente diferente.

A verdade é que, nos vinte anos subsequentes, não voltou a haver outra mascote nacional tão carismática como o Vitinho, nem tão-pouco outro produto mediático como as suas canções de 'embalar' animadas. Por esses motivos, e pela marca que deixou nas infâncias de todos nós, a mascote da Milupa merece bem os votos de parabéns que aqui lhe deixamos, por intermédio deste 'post'. Que contes muitos, Vitinho – e, como não podia deixar de ser, boa noite...

 

27.12.21

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Quem conheceu, já deve estar a cantarolar...

Tal como acontece tantas e tantas vezes nas páginas deste blog, também este vai ser um daqueles posts que começam com o genérico de abertura da série em causa; isto porque, para grande parte do seu público-alvo à época da transmissão, este foi mesmo um dos, senão O elemento mais marcante do programa, cuja letra ainda permanecerá embutida nas suas sinapses, pronta a ser debitada 'de cor' à mínima oportunidade.

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'Navegante da Lua' (no original, 'Sailor Moon') foi mais um dos vários clássicos da programação infantil introduzidos no nosso país por Ana Malhoa, Boi-re-ré, Vaca-re-ré, Croco, Hadrianno e o restante elenco do não menos clássico 'Buereré', um dos programas infanto-juvenis por excelência durante a 'nossa' década; no caso, corria o ano de 1995 quando Serena, Rita, Bunny e as restantes Navegantes surgiam pela primeira vez nos ecrãs de lares de Norte a Sul do país, dobradas em bom português (numa daquelas adaptações livres e cheias de improvisação habituais à época, semelhante à popularizada por 'Dragon Ball Z') e de tiaras apontadas directamente ao coração das raparigas pré-adolescentes (como 'Ursinhos Carinhosos' e 'Meu Pequeno Pónei', 'Sailor Moon' era daquelas séries que não se podia ver se se pertencesse à metade da espécie com cromossomas Y).

E a verdade é que o efeito sobre o público-alvo foi quase imediato - a partir desse ponto, e até ao final da década, as colegiais super-poderosas não mais perderiam a sua influência sobre a juventude portuguesa, para quem era difícil manter-se indiferente à mesma: dependendo do sexo, ou se amava, ou se odiava o programa; quem amava, citava as personagens principais, o charmoso Mascarado e a referida música de abertura como os principais atractivos, enquanto que quem não gostava listava precisamente esses mesmos elementos como factores de irritação em relação à série.

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O Mascarado era o interesse romântico da protagonista Serena

Amasse-se ou odiasse-se, a verdade é que 'Navegantes da Lua' fez tal sucesso aquando do seu aparecimento na SIC, que justificou uma nova transmissão cinco anos depois, agora na TVI, como parte da grelha do outro grande programa infantil das décadas de 90 e 2000, o 'Batatoon', e novamente em 2002, no Canal Panda. Este ressurgimento veio, no entanto, acompanhado de uma controvérsia, no caso ligado a algumas mudanças supérfluas e desnecessárias ao nível da dobragem dos episódios transmitidos no Panda, nomeadamente a troca de sexos entre os gatos das protagonistas, Luna e Artemis, passando Luna a ser um gato macho e Artemis (agora Artemisa) uma fêmea, ao contrário do que sucedia quer no original, quer na primeira tentativa de dobragem para português. Nada, no entanto, que afectasse a popularidade da série, que voltou a encontrar um público entusiástico e àvido de conteúdos de teor aventuroso dirigido a raparigas, numa época em que os programas infantis femininos tinham invariavelmente mais a ver com os supramencionados ´Ursinhos Carinhosos' ou 'Meu Pequeno Pónei'.

Sucesso esse, aliás, que se mantém até hoje, continuando as diversas séries de 'Sailor Moon' a ser transmitidas nos 'novos' canais infantis entretanto surgidos, como o Biggs, que em 2015 incorporava uma dobragem de 'Sailor Moon Crystal' à sua grelha de programação, inicialmente em formato censurado, e a partir de 2017 na sua versão integral, em tudo semelhante à original japonesa; mais uma prova, caso tal fosse necessário, da popularidade de que as meninas com poderes planetários continuam a gozar em Portugal, mesmo em meio à forte concorrência de programas como 'Miraculous Ladybug' e a nova série dos Pequenos Póneis. De facto, ao que parece, se depender do nosso público infantil feminino, Serena e as suas companheiras continuarão a castigar malfeitores em nome da Lua durante muitos e bons anos...

23.11.21

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

A tradição oral é, normalmente, imortal e praticamente imutável. Gerações de crianças conhecem as mesmas histórias, canções, tradições e até jogos do que os seus pais e avós, aprendendo-as muitas vezes destes, e mais tarde passando-as aos seus filhos, sensivelmente na mesma forma em que lhes foram passadas.

Por vezes, no entanto, a 'máquina' criativo-mediática revela-se tão influente que é mesmo capaz de se intrometer e moldar uma tradição; os filmes da Disney são disto perfeito exemplo, sendo as suas interpretações das histórias e fábulas tradicionais consideradas, hoje em dia, quase como que as versões 'oficiais' desses mesmos contos.

O Portugal dos anos 90 viu ocorrer, já no final da década, um fenómeno muito semelhante - ainda que a uma escala bastante mais reduzida – quando o segundo grande trabalho da companhia de animação lisboeta Animanostra (do primeiro, já aqui falámos recentemente) conseguiu a proeza de fazer com que a sua versão de uma canção tradicional se tornasse a versão definitiva da mesma para toda uma geração de crianças.

Qualquer desafio de 'tentar não cantar' com esta música estaria condenado ao fiasco...

Falamos, é claro, d''Os Patinhos'; a lendária animação que veio, em 1999, substituir o ainda mais lendário Vitinho, a quem os pais haviam desejado boa noite em formato musical durante quase vinte anos ininterruptos. Para seu máximo crédito, no entanto, a animação da Animanostra não só conseguiu ser uma digna sucessora da mítica série de vídeos musicais patrocinados pela Milupa, como acabou por se tornar tão icónica quanto estes.

As razões para este triunfo são variadas, e diferem consoante a idade da pessoa a quem se pergunte. Alguns dirão que a música, e respectivo 'videoclip' animado, estavam simplesmente muito bem feitos, transmitindo a sua mensagem com um bem-vindo toque de humor e sem condescender para com o público alvo, o que não deixa de ser verdade; outros, mais velhos, vociferarão contra a interpretação irritantemente memorável do tradicional tema infantil pelo patinho de roupa de marinheiro e voz esganiçada, o que também é um argumento perfeitamente válido; outros ainda indicarão a omnipresença de 'merchandising' (oficial e pirata) com a figura do Patinho nos anos que se seguiram à introdução do 'clip' na grelha de programação da RTP, causando uma rápida saturação.

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Exemplo de 'merchandising' oficial da animação

Seja qual for a razão, no entanto, a conclusão é a mesma: muito pouca gente que tenha estado exposta à música de abertura do horário nobre da RTP no final dos anos 90 se consegue esquecer da mesma, o que apenas valida a eficácia da campanha desenvolvida pela emissora. Mais – existe toda uma faixa etária que ainda hoje, mais de duas décadas após a estreia da animação, decerto defenderá veementemente que a música SEMPRE FOI sobre os rituais pré-sono das crias de aves aquáticas, ignorando por completo o anterior foco da música na eficácia das lições de natação das mesmas.

De facto, o sucesso do Patinho aquando do seu aparecimento foi tal que suscitou o lançamento de toda uma série de versões de outras músicas infantis, cada qual acompanhada de um videoclip animado, e que mais tarde foram reunidas num CD oficial alusivo à animação (e que trazia como bónus o vídeo da mesma, em formato CD-ROM) também ele um sucesso de vendas.

A série completa de animações protagonizadas pelo Patinho e seus amigos

E apesar de todas estas animações terem, entretanto, caído no esquecimento, a primeira – a original – continua, e provavelmente sempre continuará, a afirmar-se como um dos momentos-chave da programação televisiva infantil da segunda metade da década de 90, a par de um Samurai X ou Dragon Ball Z (embora numa perspectiva diferente de ambos). E se pensam que estamos a exagerar, considerem o seguinte: o Patinho precisou de apenas um minuto e meio para fazer aquilo que levou a Son Goku e Kenshin dezenas de episódios a conseguir: conseguir um lugar, para si e para a sua canção, na memória colectiva de toda uma geração de crianças portuguesas. Só esse facto já torna criação de Rui Cardoso e Teresa Sobral merecedora de respeito, bem como de um destaque aqui no anos 90...

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