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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

22.11.21

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

O povo português vem tendo, ao longo dos tempos, uma relação estreita com a música brasileira, talvez pelo idioma partilhado entre os dois países, e que transforma Portugal num dos principais mercados para os diversos géneros e estilos saídos do país-irmão. Não só os discos e músicas de artistas brasileiros vendem bem no nosso país, como a própria música popular portuguesa (vulgo 'música pimba') se apropria livremente de estruturas, letras e até melodias de estilos como o forró e o sertanejo, demonstrando assim cabalmente a influência que o produto musical de terras de Vera Cruz tem no lusitano.

Nos anos 90 e 2000 não era, no entanto, preciso ir tão longe para demonstrar este argumento – bastava olhar para as tabelas de vendas e 'playlists' radiofónicas para perceber o impacto que os artistas populares brasileiros tinham entre o público consumidor português. De Roberto Leal aos Mamonas Assassinas, e de Iran Costa a (mais tarde) Ivete Sangalo, passando por Salsicha e Mário Jorge, eram inúmeros os nomes que conseguiam atravessar o oceano e fazer tanto (ou mais!) sucesso do lado 'de cá' do que no seu próprio país de origem. 

A esta lista há que acrescentar, ainda, um cantor que tomou de assalto as tabelas de 'hits' nacionais nos anos finais da década, com uma música gravada ao vivo, e pôs toda a gente – e particularmente as crianças e jovens – a exortar os amigos para 'tirar o pé do chão'.

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O cantor, já numa fase posterior da carreira

Falamos de Ernesto de Souza Andrade Júnior, habitualmente conhecido como Netinho, cantor popular de longa e respeitada carreira no seu país-natal – as suas músicas são presença habitual em bandas-sonoras de novelas, e chegou a participar num tributo a Caetano Veloso – mas que em Portugal é conhecido, sobretudo por duas coisas: ser o autor de 'Milla', um dos maiores 'hits' pop-brega dos anos 90, e ter posto oitenta mil pessoas (!) a saltar em pleno Parque das Nações, aquando do seu concerto durante as comemorações dos quinhentos anos do Brasil, já após o virar do milénio, vários anos depois de o momento de 'Milla' ter passado. Prova cabal de que o seu maior sucesso tinha 'pernas', embora também indicativa de que, pelo menos em Portugal, essa obra de Netinho ofusca totalmente o próprio autor.

As razões para o estrondoso sucesso de 'Milla' não são difíceis de explicar. Não só Netinho era presença assídua nos famosos expositores de CD's e cassettes tipicamente encontrados em tabacarias e estações de serviço, como a própria música em si é irresistivelmente viciante, com um daqueles refrões (aliás, uma daquelas LETRAS) que se alojam na memória para toda a eternidade, e tornada ainda mais eficaz pela energia electrizante da 'performance' e do público, que extravasa as colunas e convida, inapelavelmente, a dar um 'passinho de dança', onde quer que se esteja. É 'foleira'? Claro que sim. Mas é também divertida, enérgica, e de uma sinceridade desarmante, que impede a existência de má-vontade e a ajudour a tornar um dos principais hinos 'pop-pimba' da década de 90.

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O CD de onde a música é tirada marcava presença assidua nos expositores de 'cassettes' e CD's daquele tempo

Quanto ao seu autor, merecia mais? Claro. Ao contrário de muitos dos seus colegas de movimento, Netinho era um músico 'à séria', com raízes na MPB e bossa nova; e a verdade é que, no seu país natal, o cantor conseguiu fazer valer essas credenciais. Em Portugal, no entanto. Ernesto de Souza Andrade Júnior terá, para sempre, de se contentar com o estatuto de 'one-hit wonder' – que, convenhamos, também não é a pior coisa do Mundo para se ser, especialmente se o nosso 'one hit' for uma 'malha' tão enérgica e irresistível como 'Milla'.

15.11.21

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

No que toca à animação, Portugal é um país com pouca tradição; como acontece em quase todos os outros sectores do meio audio-visual, os lusitanos são, sobretudo, consumidores de animação importada do estrangeiro, com particular ênfase nos Estados Unidos (claro), Inglaterra e Canadá.

No entanto, de tempos a tempos, um animador ou empresa de animação nacional consegue não só levar o seu produto adiante como expô-lo a um público mais alargado – e, nos anos 90, foi exactamente isso que aconteceu com a lisboeta Animanostra, responsável por não uma, mas duas das principais produções animadas nacionais durante aquela década e a seguinte. Do momento de maior fama da companhia, falaremos noutra ocasião – hoje, cabe recordar a série que lançou a Animanostra enquanto grande nome do meio dentro de portas, e se tornou uma das mais memoráveis produções animadas nacionais de sempre.

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'A Maravilhosa Expedição Às Ilhas Encantadas' pode não ter tido um título por aí além de apelativo, mas a sua combinação do ambiente directamente ligado à História e tradições portuguesas com um cuidado trabalho técnico (dentro das limitações vigentes) permitiram-lhe ultrapassar essa pecha, e conseguir sucesso suficiente entre o público-alvo para justificar a criação e exibição de uma segunda temporada, mesmo que desfasada no tempo em relação à primeira. Até porque desfasamentos temporais não eram, de todo, um conceito estranho para a equipa da Animanostra, que havia criado a série em 1992, mas só a veria ir ao ar quatro longos anos depois, no Natal de 1996.

Uma vez chegada à RTP, no entanto, 'A Maravilhosa Expedição...' conseguiria 'segurar' o seu lugar na grelha de programação da mesma durante praticamente um ano, tempo que a emissora estatal demorou a transmitir os oitenta episódios (cada um com cerca de cinco minutos) da série original. Findo esse período, a série facilmente encontraria outra casa, desta vez num canal privado, tendo a SIC sido a responsável tanto pela repetição da primeira temporada como pela exibição de vinte episódios inéditos, relativos à segunda - e tudo isto num ano (1998) em que a realização da Expo '98 havia colocado novamente em voga o tema dos Descobrimentos, sohre o qual o desenho animado versa. As aventuras de Simão, Oliveirinha, Libório, Dom Fuas e os restantes tripulantes do 'Destemido' chegavam assim, através do popular Buereré, a todo um novo contigente de crianças – além daquelas que já haviam acompanhado a primeira temporada, dois anos antes, e que teriam assim a oportunidade de acompanhar a continuação das referidas aventuras.

E a verdade é que valia mesmo a pena assistir às viagens da fictícia caravela portuguesa e dos seus carismáticos tripulantes; além da curta duração dos episódios, que fazia com que nunca chegasse a cansar, 'A Maravilhosa Expedição...' era uma série bem escrita, bem animada e bem sonorizada (o genérico era do melhor que por cá se fez durante aquela época), com um estilo muito próprio, e que pouco ficava a dever a muitas das séries produzidas no resto da Europa durante a mesma época - só faltava, mesmo, o orçamento e a publicidade de que dispunham as criações inglesas e norte-americanas. Esta afirma-se, pois, como uma série bem merecedora de ser revisitada ou descoberta, por quem não conhece e nunca viu – especialmente por ser um produto nacional num país onde estes não primavam (nem primam) pela abundância...

 

08.11.21

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Um dos fenómenos mais commumente associados ao panorama musical dos anos 90, e que melhor o definem, foi o apogeu e declínio das 'boy-bands'. De New Kids on the Block, ainda nos anos 80, a Take That nos primeiros anos da nova década, e mais tarde Backstreet Boys, N'Sync, Boyzone, Westlife, 5ive e muitas outras bem menos conhecidas ou relevantes, houve um dado ponto dos anos 90 em que este tipo de grupos manufacturados de rapazitos imberbes e bem-parecidos a cantar canções de amor com batida electro-pop era inescapável. Mais – tudo o que se relacionasse, ainda que indirectamente, com este tipo de grupo tinha vendas quase garantidas (a parte do 'quase' diz respeito aos álbuns a solo de membros destas bandas, os quais, com duas notáveis excepções, nunca conseguiam qualquer tipo de sucesso fora do contexto da banda a que pertenciam.)

Como é evidente, um filão com este tipo de potencial não podia deixar de ser explorado em locais que não apenas o seu epicentro; na América Latina, por exemplo, estes grupos existiam já desde os anos 80, sendo os Menudo de Ricky Martin um bom exemplo. E embora no resto do Mundo esta evolução tenha sido algo mais tardia, a verdade é que, paulatinamente, começaram mesmo a aparecer grupos deste tipo oriundos dos países mais inesperados e insólitos – entre eles Portugal. E, tendo em conta a apetência e aptidão do nosso país para a música popular e de 'mínimo denominador comum', não é de todo de estranhar que, quando surgiram, as nossas 'boy bands' se tenham inserido no campo da música pimba.

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Backstreet Boys 'à portuguesa' - os D'Arrasar

Sim, 'boy bandS' – mais do que uma. Não querendo ficar atrás de qualquer outro país por esse Mundo fora, Portugal apresentou à cena musical não um, mas DOIS grupos deste estilo, ambos com trajectórias suficientemente paralelas para quase poderem ser consideradas gémeas; e o facto de os nomes Excesso e D'Arrasar continuarem a suscitar, na melhor das hipóteses, nostalgia, e na pior, bom humor, não deixa de ser um atestado ao impacto que ambas as bandas conseguiram ter entre a juventude do seu tempo.

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Os pioneiros Excesso

Separadas apenas por um ano nas suas respectivas fundações – os Excesso surgiram primeiro, em 1997, os D'Arrasar no ano seguinte – ambos os grupos apostavam numa sonoridade muito semelhante, alicerçada nos principais elementos da música pop portuguesa (vulgo 'pimba') mas que os revestia de uma imagem bem mais sofisticada, moderna e internacionalizada do que a da maioria dos artistas do referido estilo. Tanto o grande hit dos Excesso, 'Eu Sou Aquele', como o tema-estandarte dos D'Arrasar, 'Rainha da Noite', tinham por base batidas algures entre o 'pimba' e o Eurodance, letras que versavam sobre o desejo romântico, e refrões tão 'pegajosos' e memoráveis que apostamos que alguém já os está a cantarolar para dentro; na prática, para os mais desatentos, o som dos dois grupos era virtualmente indistinguivel se não se soubesse quem se estava a ouvir.

Os grandes sucessos de cada um dos grupos tinham sonoridades muito semelhantes

Tão-pouco se ficavam por aí as semelhanças, sendo que ambos os grupos contavam com cinco elementos, a maioria deles conhecidos por alcunhas ao invés do nome próprio – os Excesso eram compostos por Gonzo, Carlos, Duck, Portugal e pelo lendariamente memético Melão (hoje em dia conhecido sobretudo pela sua música homónima e por ter sido o 'amigo especial' do jogador Calado, do Benfica), enquanto os D'Arrasar se compunham de Joca, Kapinha, Jimmy, Ricardo e CC (ou Carlos Coincas, finalista do mítico 'Chuva de Estrelas' no auge da popularidade do mesmo.)

Escusado será dizer que, de entre estes dez rapazes, não havia um que fosse menos do que bem apessoado, pelo menos dentro do estilo 'pop-brega' que o seu público tanto apreciava. Assim, não foi de estranhar que, pouco depois do aparecimento de cada um dos grupos, as paredes dos quartos de raparigas adolescentes por esse país fora se enchessem de 'posters' dos mesmos, convenientemente oferecidos por publicações como a 'Super Pop'.

Ainda outra semelhança em carreiras recheadas delas foi a própria duração das mesmas – apenas cerca de cinco anos para cada grupo, tendo ambos lançado, nesse período, exactamente dois registos de originais (todos, aliás, presença assídua naqueles escaparates de Cds e cassettes existentes em estações de serviço e tabacarias de bairro) antes de se lhes perder o rasto (a Wikipedia dos Excesso abrange, ainda assim, toda a carreira do grupo; a dos D'Arrasar fala em 2003 no tempo presente, o que leva a crer que não terá sido actualizada desde essa altura.)

Enfim, dois grupos tão semelhantes que, como se disse no início deste texto, quase podiam ser gémeos – sendo que, curiosamente, nem todas as semelhanças entre as carreiras dos dois foram propositadas. Quem quer que se tivesse preferido à época, no entanto, uma coisa é certa – tanto um como o outro (bem como os seus sucessores de 'segunda geração', como Milénio, D'Zrt ou Anjos) são muito, muito típicos de uma era e contexto muito específicos, em que bastava a uma banda 'pimba' 'disfarçar-se' de algo mais sofisticado e 'na moda' para ser um sucesso de vendas a nível 'mainstream'...

11.09.21

NOTA: Este post corresponde a Sexta-feira, 10 de Setembro de 2021.

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Embora os portugueses nascidos nos anos 70, 80 e 90 tenham experienciado um sem-número de filmes marcantes durante a sua infância e adolescência, poucos destes foram feitos dentro de portas. O cinema português tem, desde há muito, a reputação de ser ‘chato’ e algo pretensioso, características que nunca agradaram ao público mais jovem, pelo que não se afigura de todo surpreendente que o português médio que tenha vivido a infância durante aqueles anos não consiga nomear sequer um filme nacional que tenham visto durante esse período.

Mesmo entre aqueles que se lembram, a escolha será, por força, limitada – tirando aqueles filmes ‘importantes’ que éramos mais ou menos obrigados a ver, fosse na escola ou em casa, talvez o único título verdadeiramente memorável seja aquele de que se fala no post de hoje, até por ser explicitamente dirigido a um público juvenil.

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Trata-se de ‘Zona J’, um telefilme de 1998 produzido pela SIC, e que viria a arrecadar dois Globos de Ouro na cerimónia promovida pela estação de Carnaxide no ano seguinte - e, interesses à parte, pode dizer-se que esses prémios até foram bem merecidos. De facto, com o seu argumento socialmente engajado, centrado sobre um bairro problemático (no caso, a Zona homónima de Lisboa) e os adolescentes que nele procuram, bem ou mal, sobreviver, o filme afirma-se como um precursor português de ‘Cidade de Deus’, a mega-popular película de 2002 ambientada nas favelas brasileiras – ou, se preferirmos, como um sucessor do também popular ‘La Haine’, de 1995, que tratava da mesma temática, mas em relação aos bairros de banlieue franceses. Junte-se a essa temática de interesse directo para os jovens o facto de o filme ter passado na SIC – à época, talvez a mais popular das estações de televisão portuguesas – e não é de admirar que, se houver um filme de que os jovens portugueses da altura verdadeiramente se lembrem, seja este.

Mais – a longevidade do filme não se ficou por aquele período de sensivelmente um ano entre a estreia e a premiação nos Globos de Ouro; isto porque o mesmo seria incluído, já no século e milénio seguintes, na também icónica ‘Série Y’, a colecção de filmes mais ou menos ‘artsy’ lançada pelo jornal Público e que apresentou a muitos jovens filmes de culto, que de outra forma talvez não vissem. Um desses filmes foi, precisamente, ‘Zona J’, que voltou assim a ganhar exposição, salvando-se do esquecimento a que a maioria dos filmes portugueses, e particularmente os telefilmes, costumam ficar votados.

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Capa do lançamento em DVD do filme promovido pelo jornal 'Público'

Se merece ou não essa distinção, quase um quarto de século após o seu lançamento, fica ao critério de cada um – aliás, vejam o filme completo abaixo e tirem as vossas próprias conclusões. Independentemente das opiniões, no entanto, a verdade é que o filme de Leonel Vieira conseguiu conquistar o seu espaço no panteão do cinema português, e, por se tratar um produto nacional de inegável relevância e pertinência para os jovens portugueses daquele tempo, merece bem a chamada nas páginas deste blog…

 

 

09.09.21

NOTA: Este post é relativo a Quarta-feira, 8 de Setembro de 2021.

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

O final da década de 90 viu exacerbar-se em Portugal o gosto pela animação e banda desenhada japonesas, hoje em dia mais vulgarmente conhecidas como anime e manga. Embora esta tendência não tenha surgido ‘do nada’ – já desde a década anterior que a então chamada ‘Japanimação’ vinha ganhando terreno no país, sobretudo no mercado de vídeo – foi mesmo durante os anos finais do século XX e inícios do século XXI que este tipo de conteúdo teve o seu primeiro grande ‘boom’ no nosso país, com o lançamento e subsequente popularização de diversos clássicos do desenho animado para adultos nipónico.

Um desses clássicos, que curiosamente serve de ‘elo de ligação’ entre as duas eras de interesse por produtos áudio-visuais japoneses no nosso país, foi Akira, a lendária saga futurista criada por Katsuhiro Otomo em 1988 e cujo respectivo filme chegaria a Portugal em formato direct-to-video no início da década seguinte. Já quanto à banda desenhada que havia dado origem à referida longa-metragem (um épico de mais de 2100 páginas!) a situação foi um pouco diferente, sendo que inicialmente, o único acesso à série por parte do público português era através da edição brasileira, publicada em fascículos estilo ‘gibi’pela editora JBC; já a edição em ‘português de Portugal’ apenas seria editada mais de uma década e meia após o lançamento do original no Japão, com o primeiro tomo a surgir apenas em 1998, pela mão da Meribérica-Liber.

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Capa do primeiro volume de 'Akira' publicado em Portugal

A espera pelo aparecimento da série nas livrarias portuguesas acabou, no entanto, por valer a pena; isto porque a edição portuguesa de ‘Akira’ não era um qualquer ‘livro aos quadradinhos’ igual a tantos outros, mas sim uma verdadeira colecção literária, com direito a capa cartonada, impressão de alta qualidade, tradução cuidada e número considerável de páginas, mais próxima dos álbuns franco-belgas do que das revistas da Marvel ou DC. Publicados entre 1998 e 2004, estes volumes foram, infelizmente, descontinuados antes de a saga poder atingir a sua conclusão, ficando a versão portuguesa de ‘Akira’ incompleta, mesmo para quem possuía todos os livros!

Uma curiosidade quanto a esta colecção é o facto de não se saber exactamente quantos volumes foram publicados em Portugal. Embora, actualmente, só seja possível encontrar doze (sendo o último extremamente difícil de encontrar), o site da Bedeteca dá conta da existência de dezanove - sendo os últimos sete, se existirem, extremamente raros.

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...número 16...?! Mas...mas...

Independentemente do número de tomos lançado, no entanto, o que é, sim, consensual é o facto de a BD ter ficado, em todo o caso, incompleta, um erro que demoraria outros quinze anos a ser corrigido, desta vez pela mão da JBC, mesma editora responsável pela versão brasileira duas décadas antes.

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Primeiro volume da reedição pela JBC

Ainda assim, mesmo com o ‘pequeno defeito’ de ter ficado incompleta, a edição de ‘Akira’ pela Meribérica-Liber vale bem a pena para qualquer entusiasta de manga, pelo seu alto padrão de qualidade e evidente cuidado na apresentação e grafismo. Foram essas características – além da qualidade e popularidade do material original – que ajudaram a garantir que ‘Akira’ era merecedor de um lugar nesta secção do nosso blog…

19.07.21

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

O conceito de ‘one-hit wonder’ – artistas que conseguem enorme sucesso com um determinado tema, sem nunca o conseguirem replicar durante o resto da sua carreira – é bem conhecido de qualquer fã de música contemporânea, tendo inclusivamente alguns representantes na própria cena musical portuguesa. Menos comum é observar esse fenómeno aplicado a um álbum inteiro, em vez de apenas uma ou duas faixas – e, no entanto, foi precisamente isso que aconteceu com os Silence 4, um quarteto de Leiria que passou de ser a maior banda de pop-rock portuguesa em 1998 a ver o seu segundo álbum ser completamente ignorado apenas dois anos depois, sem que houvesse qualquer explicação para esse fenómeno.

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Esta evolução descendente acentuada da carreira da banda torna-se ainda mais surpreendente quando nos recordamos de quão grandes eram os Silence 4 aquando do lançamento de Silence Becomes It. O álbum de estreia dos leirienses foi um sucesso de vendas quase inaudito em Portugal, especialmente para uma banda nacional, com as ‘músicas conhecidas’ a irem muito além dos singles – fenómeno que também não é habitual fora do contexto dos maiores artistas da História. Sim, havia ‘Borrow’ e ‘My Friends’, mas havia também ‘Dying Young’, ‘Old Letters’ e a ‘cover’ de ‘A Little Respect’,  dos Erasure, entre muitas outras músicas que certamente os leitores deste blog já estarão a trautear só de as relembrarem. Naquele Verão, os Silence 4 foram gigantes, como poucas bandas portuguesas não chamadas GNR ou Xutos & Pontapés conseguiram chegar a ser. O Silêncio virou mesmo 'It' - a nova moda, o novo som 'in'.

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E depois…

…depois, houve o esquecimento. Gravado em Londres, em condições bem mais profissionais do que o seu antecessor, Only Pain is Real, lançado apenas dois anos depois da hiper-bem-sucedida estreia, caiu num retumbante vácuo de indiferença – se é que vendas de Platina podem ser consideradas indiferença... Face á falta de sequer um ‘single’ de impacto, no entanto, a impressão que ficava era mesmo a de que já ninguém queria saber dos Silence 4 - o que não deixa de ser estranho, visto a sonoridade do grupo não se ter alterado minimamente desde aquele Verão louco de 1998. Antes pelo contrário – David Fonseca e os seus comparsas continuavam a praticar aquele mesmo pop-rock (com mais da primeira do que do último) movido a dualidade vocal masculina-feminina de Fonseca e Sofia Lisboa, e de espírito melancólico, sorumbático e fatalista, que tanto sucesso havia feito à época do lançamento da estreia.

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O que talvez tivesse, sim, mudado era o cenário musical nacional, com novos artistas a captar o interesse do público, e a relegarem os antigos heróis para uma posição de ‘velhas glórias’, apesar dos seus apenas quatro anos de vida. Assim, não é de todo surpreendente que um grupo que parecia ter tudo para dar luta a uns The Gift acabasse por se render à evidência e entrar num hiato voluntário.

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Este não seria, no entanto, o fim dos Silence 4. Apesar de David Fonseca ter aproveitado a oportunidade para se lançar numa carreira a solo (aliás, mais bem sucedida que a do próprio grupo) haveria ainda ensejo para o lançamento de um disco ao vivo (em 2004, quando a indiferença ainda reinava) e, em 2013, para uma reunião, ainda que fugaz, do quarteto original, a qual rendeu um segundo disco ao vivo - até à data, o último sinal de vida de um grupo cuja trajectória não pode deixar de suscitar perplexidade em quem a acompanhou. Mas pelo menos, enquanto ‘fritamos a moleirinha’ a pensar, afinal, o que terá acontecido aos leirienses, podemos fazer-nos acompanhar de uma banda sonora de luxo, e de indiscutível apelo nostálgico; e se não conseguirmos descortinar a resposta hoje, podemos sempre dizer, como David Fonseca, ‘I guess I’ll try again tomorrow…’

06.07.21

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

(NOTA: Este post é dedicado ao José Miguel, primeiro a sugerir este programa como futuro tema aqui do blog.)

‘Huuuugoooo…p’rá esquerda e p’rá direita, sem fazer asneiras…’ Qualquer jovem que visse televisão pública da parte da tarde entre os anos de 1997 e 2000 sabia estas palavras de cor, e estará provavelmente a vivenciar um enorme momento de nostalgia ao assistir ao vídeo acima. Isto porque ‘Hugo’ – o programa cujo genérico incluía as referidas palavras – foi um dos maiores sucessos de programação infanto-juvenil durante aqueles anos, cativando espectadores desde a idade pré-primária até ao final da adolescência com o seu formato original, apresentadores carismáticos e, claro, a possibilidade de ganhar prémios, ainda e sempre um dos maiores catalisadores de acção entre os jovens.

O que a maioria dos espectadores do programa talvez não soubesse na altura era que Portugal era apenas a paragem mais recente na ‘volta ao Mundo’ do personagem central. Criado na Dinamarca mesmo no início da década, e baseado em criaturas do folclore local, os ‘trolls’, Hugo não tardou a expandir as suas aventuras a outros países; curiosamente, a primeira paragem internacional foi a vizinha Espanha, que recebeu o programa cinco anos antes da outra metade da Península Ibérica. Ao completar uma década de vida, o simpático duende surgira já em 26 dos 40 países que eventualmente atingiria, e a sua presença mediática extravasara a televisão, estendendo-se a vários jogos de vídeo e computador (a maioria recriações fiéis do programa televisivo, mas jogados com o comando ou teclas, em vez de por telefone), bem como a artigos periféricos, como peças de roupa. A influência do personagem continua, aliás, a fazer-se sentir até hoje, existindo vários jogos recentes com o duende como personagem principal, muitos deles já longe do formato e história que o tornaram conhecido, e com Hugo no papel de condutor de corridas ou até agente secreto.

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O primeiro jogo de Hugo para PlayStation é basicamente uma compilação das suas aventuras televisivas em formato caseiro

No início, no entanto, a vida do carismático ‘troll’ era bem mais simples, embora não menos aventurosa; nessa época, a única preocupação de Hugo era – como a música original portuguesa prestavelmente informa – ‘salvar a familia da Bruxa Maldiva’. Para tal, era necessário conquistar uma série de diferentes cenários, normalmente centrados em torno de ambientes naturais, como uma floresta ou uma montanha. Fosse qual fosse o local da aventura, no entanto, a formula de jogo era a mesma – Hugo era controlado pelos jovens jogadores através do telefone, normalmente por meio das teclas correspondentes às setas direccionais, ou seja, 2, 4 e 6. O resto era uma questão de ‘timing’, a fim de evitar os obstáculos (tanto naturais como criados por Maldiva) e recolher os sacos de dinheiro estrategicamente colocados pelo caminho. Quanto mais sacos recolhidos e obstáculos evitados, melhor era a pontuação final; de igual modo, cada vida perdida equivalia a um decréscimo na pontuação (três ‘mortes’ equivaliam automaticamente a ‘Game Over’.)

Caso o jogador fosse bem-sucedido e conseguisse chegar ao fim desta prova, o jogo passava a uma segunda fase (sempre semelhante, independentemente do cenário jogado) em que Hugo defrontava directamente Maldiva, ficando o destino da sua família, neste caso, dependente não tanto da habilidade, mas da sorte e escolha da tecla correcta por parte do jogador. Uma escolha acertada atirava Maldiva para a sua morte no sopé da montanha, permitindo a Hugo e Hugolina ter um final feliz num idílico prado; qualquer outra tecla via a família de Hugo ser novamente aprisionada pela Bruxa, num final inglório para os esforços do jogador.

Uma boa demonstração da mecânica dos jogos, aqui aplicada a uma missão já da segunda série de aventuras.

No fim de cada jogo, a pontuação do participante era somada e adicionada à tabela geral da semana, sendo que (pelo menos na versão portuguesa) o ‘Craque’ de cada dia recebia um dos muito cobiçados prémios, que iam desde ‘merchandising’ alusivo ao duende até produtos bem desejáveis para os jovens da época, como Discmans e patins em linha; já o ‘Craque’ da semana recebia uma bicicleta. No final da mês, os ‘Craques’ de cada semana defrontavam-se pelo direito a ganhar o prémio máximo – um magnífico computador modelo ‘anos 90’. Em ocasiões especiais, havia também eventos como a ‘Grande Final Semestral’ anunciada abaixo, e que teve lugar no Dia da Criança de 1998, pondo frente a frente os seis ‘Craques’ mensais do ano até então.

Um conceito aliciante e altamente competitivo, portanto, o qual era envolvido num programa não menos cativante, com apresentadores jovens e dinâmicos, que sabiam criar e transmitir o entusiasmo necessário, bem como estabelecer uma ligação com os diferentes participantes, fazendo perguntas, admirando os desenhos e trabalhos manuais que enviavam, ou até oferecendo dicas para os ajudar a ultrapassar os diferentes obstáculos e momentos de cada jogo. Tendo em conta a vasta faixa etária que constituía o público-alvo do programa, estes jovens mostravam-se bem versados em tornar o mesmo atraente para todas as idades, sabendo manter o interesse do público sem nunca simplificar ou complicar demais a sua abordagem. A auxiliar os diferentes apresentadores nessa tarefa estava o próprio Hugo, que interagia com o estúdio a partir da sua casa na Hugolândia.

Quanto aos participantes, este ganhavam o direito a jogar o jogo daquela semana ou da semana seguinte, quer através do envio de uma frase subordinada a um tema previamente estabelecido, comunicada por telefone na primeira meia-hora após o programa, quer de trabalhos alusivos ao personagem principal; claro està que ambos estes métodos dependiam tanto da sorte como da criatividade, e apenas uns poucos sortudos chegavam a participar, variando o seu número consoante a habilidade dos seus predecessores – quanto mais rápidos fossem os ‘Game Overs’, mais pessoas cabiam na meia-hora de transmissão, o que terá, decerto, feito muitas crianças desejarem ‘mortes’ rápidas àqueles que jogavam antes deles…

Enfim, um programa que marcou absolutamente a época em que foi transmitido, apesar da sua estadia relativamente curta no ar. Tanto assim foi que Hugo regressaria, não uma, mas duas vezes às televisões nacionais, já no novo milénio, com novos jogos, amigos e apresentadores.

Excerto de 'Hora H', o primeiro dos dois programas de 'regresso' de Hugo à televisão nacional

No entanto, nenhuma destas novas séries teve o impacto da original, que continua, ainda hoje, a perdurar na memória daqueles que, tarde após tarde, desejavam ter conseguido um lugar na emissão daquele dia, e poder ajudar Hugo com qualquer que fosse a sua missão naquela semana - o mesmo se passando, aliás, com o tema-título. 'Huuugo, p'ra cima e para baixo, até à Caverna das Caveeeeiraaaaas...'

29.06.21

NOTA: Este post é relativo a Domingo, 27 de Junho de 2021.

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.

E visto termos acabado de terminar uma quinzena de ‘posts’ totalmente dedicados ao futebol, nada melhor do que falarmos, hoje, do canal que trouxe o futebol internacional – nomeadamente o de outras ligas que não a portuguesa, e de outras Selecções que não apenas a Geração de Ouro – aos lares nacionais de forma permanente: a Sport TV.

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Fundada em 1998 e financiada pelas principais operadoras nacionais e pela Olivedesportos, a Sport TV destacou-se, à época, por ser o primeiro canal ‘premium’ totalmente produzido em Portugal – além, claro, de ser exclusivamente dedicado a um tema apetecível e ‘vendável’, como é o desporto.

Assim, não foi de todo de estranhar que o canal se tornasse um quase imediato sucesso de vendas, mesmo implicando um acréscimo no valor da conta mensal da TVCabo; afinal, a Sport TV representava uma mudança quase completa do paradigma vigente de ‘um jogo por semana, se tivermos sorte’. Pelo contrário – este canal permitia acompanhar TODOS os jogos, inclusivamente os das divisões secundárias, bem como os das principais ligas estrangeiras! Uma proposta irresistível para fãs de futebol, especialmente os de clubes mais pequenos, habituados a só verem o seu clube na televisão quando jogava com um dos grandes – e  apenas se fosse esse o jogo escolhido para transmissão nessa semana - ou nos resumos do Domingo Desportivo. Enfim, um verdadeiro festim, que justificava plenamente o preço de admissão.

Apesar de ser indubitavelmente o principal atractivo, no entanto, o futebol não era o único trunfo na manga da Sport TV. Pelo contrário – o canal oferecia de tudo um pouco e, ainda que a variedade nunca chegasse a ser tão eclética quanto a do principal concorrente, o Eurosport, oferecia motivos mais do que suficientes para fãs de outras modalidades investirem na assinatura. E foi precisamente o que estes fizeram, tornando a Sport TV num dos bastiões daquela primeira – e maravilhosa – vaga de canais Premium da TV Cabo portuguesa.

O resto da história é bem conhecido: o sucesso do canal original faz com que a Sport TV se expanda para cada vez mais canais, cada vez mais especializados, chegando ao cúmulo de, em meados da década transacta, haver TREZE (!!!) canais subsidiários do conceito original, dos quais seis eram dedicados a modalidades ou mercados específicos. Desses, resta hoje cerca de metade (sem contar com as versões HD), sendo que um deles – a Sport TV + - é oferecida em canal aberto; uma oferta mais controlada, mas nem por isso menos ecléctica, e que continua a fazer as delícias dos fãs de desporto em Portugal. E quem se lembra do nascimento do canal original, ali ainda antes do virar do século, não pode evitar um sorriso de orgulho por ver o seu ‘bebé’ tão ‘crescido’…

Programa noticioso dos primeiros meses de vida da Sport TV, ou uma viagem no tempo à borla? Na verdade, é ambos...

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