Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

16.05.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

O festival Eurovisão é um daqueles programas de que ninguém admite gostar, mas que quase toda a gente vê, ou de que pelo menos se mantém a par. Apesar do carácter abertamente 'popularucho' da maioria das músicas (é de espantar que Portugal ainda não tenha concorrido com um qualquer artista 'pimba', pois não destoaria muito do teor geral das composições) o carácter competitivo da 'coisa' faz sempre saltar de dentro de cada espectador aquela costela de orgulho patriótico, que serve nem que seja para gritar contra a Espanha por não nos terem dado quaisquer pontos. Assim, e numa semana em que se vive, precisamente, o rescaldo da edição 2022 do festival, nada melhor do que recordar alguns dos mais emblemáticos representantes nacionais durante a época a que este blog diz respeito.

1.PNG

Isto porque, apesar de a maioria das crianças e jovens da época recordar, hoje, sobretudo duas das dez músicas que Portugal levou à Eurovisão durante os anos 90, há mais algumas particularidades interessantes ligadas à participação do nosso País no referido festival no decurso daquela década – como, por exemplo, a particularidade de as cinco primeiras representantes terem sido do sexo feminino (aliás, sete dos dez artistas portugueses entre 1990 e 1999 eram mulheres), e as primeiras quatro, conhecidas apenas pelo primeiro nome; Nucha em 1990, Dulce em 1991, Dina em 1992 (esta, aparentemente, a favorita de J. K. Rowling) e a lendária Anabela em 1993.

...e agora também está nas vossas cabeças. De nada.

E já que falamos em Anabela, cabe mencionar que esta é uma das duas artistas anteriormente mencionadas, de que qualquer jovem da época se recorda, já que o seu 'A Cidade (Até Ser Dia)' (mais conhecido dentro de portas como 'Quando Cai A Noite Na Cidade') tornou-se um daqueles 'memes' musicais da era pré-'memes', entoados de forma exagerada em pátios de escolas e utilizados como 'punchline' de anedotas mais ou menos politicamente correctas.

O outro nome memorável é, claro, o de Sara Tavares, cuja interpretação de Whitney Houston no concurso Chuva de Estrelas (que paulatinamente aqui abordaremos) lhe valera a entrada no Festival da Canção português, competição que também viria a vencer com o seu 'Chamar a Música', mesmo tema apresentado na Europa, e que atingiria um honroso oitavo lugar, igualando a marca de Dulce e tornando-a a segunda melhor classificada portuguesa da década – melhor, só mesmo Lúcia Moniz (filha do lendário apresentador e músico Carlos Alberto Moniz, de 'A Casa do Tio Carlos' e 'Arca de Noé') que, em 1996, aos 19 anos, faria História ao conseguir a melhor classificação de sempre para Portugal até então (o sexto lugar, ainda hoje apenas superado pela vitória de Salvador Sobral, em 2017) e colocar o País na primeira meia-final da História da Eurovisão, onde se classificaria em 18º.

Aquele talento muito especial do nosso povo para passar do sublime ao ridículo manifestar-se-ia, no entanto, logo no ano seguinte, quando Célia Lawson e o seu 'Antes do Adeus' conseguiam a 'proeza' de granjear a Portugal o segundo (e, até hoje, último) 'nulle points' da sua História – uma humilhação que o País não sofria desde a 'Oração', de António Calvário, na primeiríssima edição do festival, trinta e três anos antes!

'Portugal...nul points!' GG, Célia...

Felizmente, as coisas não mais voltariam a correr tão mal a Portugal durante aquela década, mesmo que a 'façanha' de Lawson tenha lançado a piada recorrente de que Portugal fica sempre em último na Eurovisão – estereótipo a que nada ajudaram os dois períodos de quatro anos cada em que o País não conseguia a qualificação para o Festival, graças a apresentar representantes da categoria de Nonstop ou Homens da Luta (só mesmo Portugal para enviar uma banda abertamente de comédia como seu representante num festival internacional...) Felizmente, Salvador Sobral viria a salvar a 'honra do convento' em 2017 com a excelente 'Amar Pelos Dois' (uma música séria que, choque dos choques, foi levada a sério!), tornando-se o 'Éder da Eurovisão' e, como este, vendo o seu esforço ser tornado inglório por 'coisas' como 'Telemóveis' de Conan Osíris, porque claramente o nosso País dificilmente aprende...

Seja qual fôr o futuro de Portugal na Eurovisão, no entanto (e a música deste ano, posicionada dentro da média portuguesa no Festival, em 9º, leva a crer que o mesmo seja, no mínimo, honroso) para uma determinada geração de ex-crianças e jovens, esta competição estará, para sempre, associada a duas ou três músicas que, num tempo mais simples e inocente, chegaram a ser verdadeiros sucessos de Verão, e cujos refrões permanecem, ainda hoje, indelevelmente gravados na sua memória colectiva...

01.04.22

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

As palavras 'Disney' e 'remake' causam, hoje em dia, uma reacção manifestamente negativa por parte da maioria dos fãs dos originais animados em que se baseiam; isto porque, independentemente dos actores, realizadores ou equipa técnica que contratem, e das maravilhas que consigam fazer com a tecnologia, a maioria destes filmes limita-se a reproduzir, de forma inferior, obras que, no formato animado, estavam próximas da perfeição – ou não fossem a maioria das visadas parte da chamada 'Renascença' da companhia, responsável por uma série de clássicos absolutos durante os anos 90. Mesmo as adaptações de filmes menores e menos bem-amados, como 'Dumbo', 'Tarzan' ou o eternamente injustiçado 'O Livro da Selva', deixam que a 'magia' dos originais se perca em meio a toda a 'magia' técnica, resultando em obras aborrecidas e com muito pouca razão de ser.

Nos anos 90, no entanto, a situação era diametralmente diferente – ainda em plena 'Renascença', a casa do Rato Mickey gozava de um estado de graça entre os fãs de filmes para toda a família, o qual, por sua vez, lhe concedia o direito a algumas experiências; e entre essas experiências contava-se, em 1996, a primeira instância de um 'remake' em acção real de um clássico animado, no caso 'Os 101 Dálmatas'.

20197410.jpg

Acrescido, em Portugal, do nada prático e perfeitamente desnecessário sub-título 'Desta Vez A Magia É Real', o '101 Dálmatas' de 'carne e osso' fazia o que os 'remakes' modernos não conseguem, apresentando uma actualização da história, sem que, com a mesma, se perdessem os ingredientes básicos da fórmula que tornava o original tão querido por várias gerações. Os animais não falavam, e não havia canções (mas, verdade seja dita, o original também poucas tinha) mas continuava a haver quase uma centena de cachorrinhos dálmata, um casal de donos sem mãos a medir para tomar conta de tantos animais (Jeff Daniels e Joely Richardson), dois ladrões trapalhões, mas competentes (Hugh Laurie e Mark Williams) e, claro, a espampanante vilã Cruela de Vil, talvez o elemento mais memorável do original animado, e que, nesta nova versão, continua a roubar todas as cenas em que aparece, por via da fabulosa interpretação de Glenn Close. Só esta já vale os cerca de 100 minutos daquilo que é, de outro modo, um filme muito típico da época e do público-alvo a que se destinava.

291a742eaff8e56786c8fb6ff87bd3aa.jpg

Jeff Bridges e Joely Richardson como Roger e Anita, com os respectivos cães

De facto, sem ser mau, '101 Dálmatas – Desta Vez A Magia É Real' (argh!) tem significativamente menos a oferecer a um público mais velho do que o original; este é, muito mais declaradamente, um filme para crianças – embora, graças aos padrões menos estritos da época, tenha ainda assim mais interesse para adultos do que os ultra-politicamente-correctos equivalentes actuais. 

No entanto, para aquilo que é, trata-se de uma obra bem conseguida – conforme mencionado, as actualizações dos anos 50-60 para o fim do século XX resultam de forma natural, e em nada alteram aquela que continua a ser uma história simples, com um dos vilões, simultaneamente, menos grandiosos e mais cruéis de todo o acervo Disney. Os números, aliás, comprovam-no, tendo o sucesso deste primeiro filme sido suficiente para dar azo a uma sequela, '102 Dálmatas', já no dealbar do novo milénio - tratando-se esta, ainda mais que o original, de uma obra estritamente dirigida aos mais pequenos, e que realça e exacerba alguns dos problemas que todos esperavam que o original tivesse (incluindo animais falantes - e irritantes), e que o mesmo conseguiu evitar.

Capture.PNG

'Poster' original da sequela, 'Os 102 Dálmatas', de 2000

Quanto ao primeiro esforço, no entanto, sem ser nada que tenha ficado para a História – ou mereça ficar – mas ainda hoje (três semanas depois de se ter celebrado o quarto de século sobre a sua estreia em Portugal, a 10 de Março de 1997) o mesmo continua a ser um bom filme para ir 'buscar' ao Disney+ numa tarde chuvosa, para uma sessão de nostalgia partilhada com os filhos ou sobrinhos...

15.03.22

NOTA: Em função da ocorrência a que este post diz respeito, vamos mais uma vez alterar a nossa sequência de posts; as Terças Tecnológicas voltarão nas próximas duas semanas.

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

A luta livre americana – vulgo 'wrestling' – foi, e continua a ser, parte integrante da infância de muitos jovens pelo mundo fora, não sendo Portugal excepção à regra nesse respeito. Mas enquanto que, hoje, o acesso a esse e outros programas é tão fácil quanto imediato, graças aos serviços de 'streaming' e canais por subscrição, nos anos 90, o panorama era um pouco diferente; nesses anos, quem gostava de ver luta livre estava limitado a um programa, de uma companhia, em um canal, a um dia da semana (pelo menos até a chegada da TV Cabo ter trazido aos lares portugueses os combates da WCW...comentados em alemão).

Falamos, claro, do programa de Luta Livre Americana transmitido pela RTP1 na primeira metade da década, e narrado pelos lendários Tarzan Taborda (o 'nosso' Campeão do Mundo) e António Macedo, que faziam as vezes de Bobby Heenan e Gorilla Monsoon, a então dupla de comentadores da World Wrestling Federation, ainda longe de 'pôr o F a andar' e se dedicar ao Entertainment. Estava-se, então, em plena era dos personagens 'maiores que a realidade' no 'wrestling' americano, e foi na companhia das vozes de Taborda e Macedo que muitas crianças portuguesas da época viram Hulk Hogan, Macho Man Randy Savage e o Ultimate Warrior (os principais 'bons da fita' da altura) derrotar rivais desonestos como Doink, Ted DiBiase (o 'Homem de Um Milhão de Dólares') Yokozuna, e o recém-falecido atleta que hoje aqui homenageamos, o 'Mauzão' em pessoa, Scott Hall – ou, como era conhecido na Federação, Razor Ramon.

DtgVU_oWwAA84Dj.jpg

Hall nos tempos da WWF, como Razor Ramon

Nascido em Miami, Flórida, a 20 de Outubro de 1958, Scott Oliver Hall estreou-se como lutador profissional relativamente tarde – em 1984, quando contava já 25 anos – como parte do elenco da então dominante NWA, da qual faziam parte futuros colegas como Dusty Rhodes (que também delineava as 'histórias' e combates da companhia) e Marty Jannetty. Apenas um ano depois, no entanto, muda-se para a rival AWA, onde foi moldado para ser o sucessor do todo-poderoso Hulk Hogan, entretanto contratado pela WWF. Ao lado do também futuro membro da companhia de Vince McMahon, Curt Hennig, Hall conquistaria um título de combate em equipas (tag team), mas optaria por regressar à NWA, pesem embora os planos do promotor Verne Gagne para lhe outorgar o título mundial. Ao todo, seriam quatro anos ao serviço da companhia de Gagne, de 1985 a 1989.

Datam desta época os primeiros testes de Hall na WWF, os quais, no entanto, não tiveram qualquer sucesso; assim, antes de chegar ao 'papel' que lhe daria a fama, Hall teria ainda uma passagem como 'jobber' (perdedor crónico) pela World Championship Wrestling (WCW) – então parte do conglomerado de territórios NWA – e aparições esporádicas em algumas das principais companhias nipónicas e porto-riquenhas, antes de finalmente chegar a acordo com Vince McMahon, em 1992.

Como sempre foi seu apanágio, o dono da WWF tratou de imediato de atribuir uma 'personagem' a Scott Hall, da qual a WWF pudesse reter todos os direitos. No caso, tratava-se de Razor Ramon, uma caricatura cubana inspirada por Tony Montana, o personagem de Al Pacino em 'Scarface' (que, como Hall, era nativo de Miami), e que, como este, era interpretada por um actor que nada tinha de Latino – e cujo sotaque forçado era, no mínimo, duvidoso.

O 'cubano' Razor Ramon em acção contra o 'havaiano' Crush

Ainda assim, Hall interpretava o personagem de forma suficientemente talentosa para se tornar, juntamente com Shawn Michaels, Ted DiBiase e Bret Hart, um dos poucos destaques da época de 'vacas magras' da WWF, em princípios de 90 – precisamente aquela a que tantas crianças portuguesas assistiriam nas transmissões da RTP. Durante este período, Hall estabeleceria um novo recorde de detenção do título Intercontinental, então considerado o 'título dos talentos', por oposição ao título mundial, que ficava normalmente com lutadores mais fisicamente dotados, mas também mais limitados; no total, foram quatro reinos em três anos, o que permitiu a Hall bater o seu próprio recorde, já que, até então, ninguém conseguira ganhar o título mais do que duas vezes.

razorstitlejpg.jpg

Hall/Ramon com o título Intercontinental da WWF

Também durante este período, a 10 de Outubro de 1993, Hall (como Razor Ramon) é um dos lutadores a actuar no espectáculo que a WWF dá no lendário pavilhão Dramático de Cascais, numa das suas primeiras passagens por Portugal.

Anúncio televisivo do evento da WWF em Portugal

A estadia de Hall na principal companhia de luta livre americana duraria até 1996, ano em que algumas peripécias de bastidores com o seu grupo de amigos, conhecido como 'The Kliq' por constituir uma 'panelinha' de lutadores com influência por detrás das cortinas, leva à sua saída para a principal rival da WWF, a WCW, onde surge pela primeira vez a 27 de Maio, como um 'invasor' vindo do público. Ao lado do ex-colega e melhor amigo Kevin Nash, Hall seria um dos responsáveis pelo início do melhor período da companhia, sendo um dos membros fundadores da popularíssima New World Order, um grupo que permitiu à WCW ultrapassar a WWF em volume de audiências durante mais de um ano!

mqdefault.jpg

A estreia de Hall na WCW, a 27 de Maio de 1996

Ao serviço da companhia da Geórgia, Hall – novamente a actuar sob o seu verdadeiro nome – acumularia títulos individuais e de pares, e cimentaria o seu legado no mundo da luta livre, mas contribuiria também para o rápido declínio da companhia, que implodiu sob o peso de inúmeras complicações financeiras, decisões pouco acertadas e jogadas políticas de bastidores. Assim, em 2000, Hall deixa a companhia, voltando a frequentar o circuito independente, com aparições pontuais na Extreme Championship Wrestling – então no pico da popularidade – e novamente no Japão, antes de eventualmente voltar a encontrar o caminho da WWF, que entretanto adquirira a WCW e integrara no seu elenco muitos dos seus principais talentos.

Na sua segunda passagem pela companhia, e já com bastante mais nomeada do que aquando da sua chegada de dez anos antes, Scott Hall foi autorizado não só a manter o seu verdadeiro nome, como a trazer de volta a nWo, agora sob os auspícios da companhia que quase ajudara a derrotar! Foi 'sol de pouca dura', no entanto, e ainda no mesmo ano, 2002, Hall ruma a uma nova companhia que procurava preencher o vazio deixado pela WCW, a Total Nonstop Wrestling (TNA). Os anos seguintes passar-se-iam entre esta companhia – que sofria de muitos dos mesmos males da WCW, e nunca realizaria o seu potencial – e um regresso já tardio à agora denominada WWE, juntamente com alguns dos seus também envelhecidos colegas dos tempos áureos da Federação. Em 2021, o seu nome seria oficialmente adicionado ao Hall of Fame da companhia, coroando de forma merecida uma carreira assolada por problemas pessoais, mas de inegável mérito no contexto da sua profissão de eleição,

Scott_Hall_Hall_of_Fame.jpg

Hall durante o seu discurso de indução ao WWE Hall of Fame, em 2021

Menos de um ano depois deste honroso final de carreira, Scott Oliver Hall viria a falecer ligado a máquinas de suporte de vida, num hospital em Marietta, na Geórgia, após um triplo ataque cardíaco derivado de complicações após uma operação à anca; a sua memória, no entanto, viverá para sempre na mente de quem, em pequeno, o viu derrotar adversários e ganhar títulos, sob as luzes da ribalta, e com narração de Tarzan Taborda... Que descanses em paz, Scott.

14.03.22

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Embora presente em Portugal desde os anos 80, com séries como 'Tom Sawyer', 'Heidi e Marco' ou 'Bana e Flapy', foi na década seguinte que a animação japonesa – vulgo 'anime' – verdadeiramente se afirmou no nosso país. Séries como 'As Navegantes da Lua', 'Capitão Hawk', 'Esquadrão Águia', 'Os Cavaleiros do Zodíaco' e, claro, o incontornável 'Dragon Ball Z' davam a conhecer a toda uma nova geração de crianças e jovens aquele estilo cheio de 'linhas de velocidade' e caretas exageradas, e com enredos cheios de acção e aventura.

O sucesso foi imediato, e à entrada para a segunda metade da década, os 'animes' eram já parte integrante da vida quotidiana de qualquer criança; não constituiu, pois, qualquer surpresa ver o número de séries deste tipo exibidas nos quatro canais nacionais aumentar exponencialmente durante esses anos, com novas propostas a surgirem regularmente, muitas delas em substituição directa de outras do mesmo tipo.

Foi neste âmbito que, há quase exactamente um quarto de século, acabaram por coincidir na TVI três 'animes' com conceitos e premissas extremamente semelhantes, hoje em dia lembrados por muitas ex-crianças portuguesas como uma espécie de 'pacote 3-em-1', apesar de nem sempre terem sido transmitidos juntos.

a-lenda-do-zorro_t56040_1.jpg

pyf3cAMRF1tbXsCEinL1DHJco0b.jpg

RobinHood1.jpg

Falamos de 'A Lenda de Zorro' (Kaiketsu Zorro), 'A Cinderela' (Cinderella Monogatari) e 'As Aventuras de Robin dos Bosques' (Robin Fuddo no Daibōken) as três adaptações (extremamente) livres de histórias clássicas para um formato de animação serializada que a TVI foi adquirir a Itália para integrar na sua programação infantil para os anos de 1996 e 97, nomeadamente no âmbito do programa matinal 'Mix Max'.

Apesar de, conforme referimos, tratarem o material original em que eram baseadas com a maior das liberdades, nenhuma das três séries ficava a perder, em termos de qualidade, em relação à média das séries de 'anime' da altura; pelo contrário, todas as três eram bem desenhadas (ainda que sofressem um pouco da síndrome 'orçamento gasto na sequência de abertura'), com Cinderela e Zorro a terem traços algo mais realistas, próximos dos das 'Navegantes' e 'Samurai X', respectivamente, enquanto Robin (talvez por ter protagonistas infantis) contava com um estilo mais caricatural, a lembrar as séries dos anos 70 e 80, como o já referido 'Esquadrão Águia'.

Os méritos dos três programas não se ficavam, no entanto, pelos aspectos técnicos; todas as três contavam, também, com histórias que se desenrolavam a um ritmo dinâmico e conseguiam o balanço perfeito entre a acção, o drama, a comédia, e até alguns momentos mais românticos, especialmente no caso da adaptação de 'Cinderela'. Talvez ainda mais importante, para uma geração que vivia de primeiras impressões, todos os três tinham temas de abertura absolutamente fabulosos; o de Zorro, em particular, ainda hoje se conta entre os melhores de sempre da televisão infantil em Portugal – o que, para um país que conviveu com as aberturas de 'Pokémon', 'Digimon', 'Power Rangers' ou 'Rua Sésamo', não deixa de ser notável! A música de 'Robin dos Bosques', em particular, teve ainda o mérito extra de ensinar a muitas crianças o significado da palava 'liça', utilizada na letra cantada por Helena Isabel, e que muitos jovens da altura pensavam ser a homófona 'missa'.

No fundo, tratavam-se de três séries que, sem quererem ser um fenómeno cultural ou até mesmo revolucionar o género em que se inseriam, não deixavam de ser uma excelente opção para passar uma manhã 'de folga' da escola, a 'preguiçar' em frente à televisão – o que, no fundo, era tudo o que muitas crianças da época pediam no tocante a programação. Mais, odas as três demonstravam qualidade e interesse suficientes para justificarem o regresso, no dia seguinte, para ver outro episódio, algo que era, também, apenas privilégio das melhores séries e desenhos animados da época. Assim, e apesar de algo esquecidas hoje em dia, qualquer das três séries é bem merecedora deste destaque, ficando a sensação de que fazem falta produções cuidadas deste tipo na programação infanto-juvenil de hoje em dia...

08.03.22

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Há pouco menos de um mês, nesta mesma data, celebrámos uma efeméride – o aniversário do Vitinho – enquanto deixávamos passar em claro outra, bem mais trágica – a morte de Artur Albarran. Agora, e porque mais vale tarde do que nunca, trataremos de rectificar esse erro, e prestar homenagem a um dos mais carismáticos jornalistas portugueses da sua geração.

artur-albarra.jpg

Nascido em Moçambique logo nas primeiras semanas do ano de 1953, Artur Manuel de Oliveira Rodrigues Albarran 'nasceu' para a comunicação aos 18 anos - altura em que se mudou para Portugal - como integrante de uma equipa do Rádio Clube Português que incluía múltiplas futuras lendas do ramo, de Cândido Mota a Júlio Isidro (ambos futuros apresentadores de programas de que, paulatinamente, aqui falaremos). No entanto, mais do que como profissional de comunicação, o jovem Albarran era conhecido como activista de extrema-esquerda, afiliação que fazia questão de arvorar em directo, e que lhe valeu vários dissabores com a lei, a culminar na sua fuga para França, a 20 de Julho de 1978, evitando assim a prisão como resultado de uma acção policial que atingiu a maioria dos dirigentes e operacionais do seu partido, o PRP (Partido Revolucionário do Proletariado.) Apesar deste facto, Albarran não deixaria de ser julgado pelo assalto a um banco em Soure, crime do qual seria posteriormente absolvido, juntamente com os restantes visados pela rusga, quatro anos depois.

Por esta altura, já o português nascido em Moçambique vivera uma realidade completamente diferente, enquanto colaborador das britânicas BBC e ITV. Como repórter desta última, visita os Estados Unidos e o Brasil, antes de a vida o trazer de volta para Portugal, desta vez para integrar a equipa da RTP.

É na qualidade de colaborador do icónico programa 'Grande Reportagem' da estação estatal que Albarran surge na consciência popular de toda uma nova geração de portugueses, que se habituam a vê-lo associado a más notícias, nomeadamente respeitantes a conflitos, sejam eles a Guerra do Golfo em 1991 ou o conflito na Somália, no ano seguinte. Para além das funções de enviado especial que desempenhou em ambas estas situações, no entanto, Albarran é também, por esta altura, chefe de redacção da RTP, bem como do jornal 'O Século Ilustrado', que integrara em 1988. Esta situação mantém-se até 1993, quando o aparecimento de uma concorrente privada à RTP alicia Albarran, que aceita o convite da TVI para se tornar seu pivô,

O verdadeiro momento definidor do apresentador na mente de toda uma geração de crianças e jovens não se dá, no entanto, até 1996, quando o jornalista volta a trocar de estação, viajando de Queluz para Carnaxide para dar a cara (e emprestar a sua inconfundível voz) a uma série de programas, com início em 'A Cadeira do Poder', de 1997, e fim já no novo milénio, com o inenarrável 'Acorrentados'.

image.jpg

O 'Acorrentados' acabaria por ser o último programa de Albarran enquanto apresentador

Pelo meio ficou aquele que terá sido, de todos os programas por si apresentados, aquele que mais cimentou Albarran na cultura popular; 'Imagens Reais', uma emissão que misturava informação e entretenimento e que fica na História da televisão portuguesa por ter dado origem ao famoso bordão 'o drama, a tragédia, o horror' – o qual, mais tarde, se tornaria peça fulcral de um dos mais famosos 'bonecos' de um Herman José a atravessar uma segunda fase imperial.

Ao mesmo tempo que deixava esta marca na televisão portuguesa, Albarran tornava-se também presidente do Conselho de Administração da EuroAmer, uma 'holding' imobiliária pertencente a um grupo de políticos e empresários norte-americanos, entre os quais se contava Frank Corlucci, ex-director da CIA e embaixador americano em Portugal. O seu envolvimento com este novo ramo, e as exigências do mesmo, obrigaram ao seu afastamento gradual da actividade televisiva, acabando 'Acorrentados' por ser, mesmo, a sua última aparição nos ecrãs nacionais. O seu legado, no entanto, é inegável e indelével, tanto pelo seu contributo para a informação jornalística e noticiosa em Portugal durante a primeira metade dos anos 90, como por aquele bordão que qualquer 'puto' repetia, naquela entoação característica, nos pátios de recreio daquela época. Que descanse em paz.

11.02.22

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Os anos 90 são, quase por unanimidade, considerados uma das melhores décadas para o cinema infantil. Num espaço de apenas dez anos, os mais novos puderam desfrutar da chamada Renascença da Disney, da continuação da era de ouro de Steven Spielberg, dos últimos bons filmes de Don Bluth, do desabrochar da Pixar, de vários filmes baseados em propriedades mega-populares como os Power Rangers, Tom e Jerry ou as Tartarugas Ninja, e de uma verdadeira miríade de outros títulos em géneros desde a acção à fantasia ou comédia.

É nesta última categoria que se insere um filme cuja passagem pelo cinema foi mais discreta que a de muitos outros ao longo da década, mas que reúne ainda hoje um grande número de entusiastas, pela sua mistura equilibrada entre gargalhadas e verdadeiro (e bem conseguido) sentimento.

21012312_20130613132958221.jpg

Falamos de 'Matilda, a Espalha-Brasas' – ou simplesmente 'Matilda' – a adaptação da obra homónima de Roald Dahl que celebrou, no final do ano passado, o 25º aniversário da sua estreia em Portugal, a 20 de Dezembro de 1996.

Centrado na personagem que lhe dá título, uma menina em idade de instrução primária com um gosto particular pela leitura e poderes muito especiais, o filme deu continuidade à trajectória ascendente da pequena Mara Wilson, que já tinha dado nas vistas em 'Papá Para Sempre', de 1993 (então ao lado de Robin Williams, Sally Field e Pierce Brosnan) e 'Milagre em Manhattan', de 1994 (e cuja carreira no grande ecrã viria, estranhamente, a findar alguns anos depois, ainda antes de a acritz atingir idade adolescente.)

fto_ft1_240152.gallery.jpg

A jovem protagonista

Aqui, a menina de nove anos contracena com Danny DeVito e Rhea Pearlman, que quase 'roubam' todo o filme como os pais de Matilda, e ainda com Embeth Davidtz, no papel da sua doce e compreensiva professora, Miss Honey, numa daquelas adaptações quase literais da obra escrita em que se baseia – o que, como costuma suceder na maioria de tais casos, acaba por ser um ponto a favor do filme, já que a escrita de Dahl é conhecida pela sua inteligência, imaginação e criatividade, que permanecem quase intactas nesta adaptação para o grande ecrã. Nem as interpretações exageradas dos referidos DeVito e Pearlman (daquele calibre que é, normalmente, suficiente para fazer descarrilar um filme) destoam da atmosfera geral do filme, que já de si projecta uma certa aura de 'desenho animado de carne e osso', semelhante à de filmes como 'As Bruxas' (também uma adaptação de Dahl) ou 'Hook', de Spielberg, lançado alguns anos antes.

No cômputo geral, a impressão que fica no fim destes 98 minutos é a de um filme que, sem ser um clássico intemporal como 'Sozinho em Casa', por exemplo, constitui no entanto uma excelente sessão de cinema para toda a família, daquelas em que até os pais deverão conseguir ficar acordados, a rir dos estereotipados pais da protagonista, ou interessados no que a mesma conseguirá fazer com os seus poderes telecinéticos. Um daqueles filmes 'como já não se faz' hoje em dia, e que – até por estar disponível no Netflix europeu – merece bem uma re-visita, acompanhada (ou não...) pela nova geração de jovens cinéfilos.

17.01.22

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Grande parte do humor é intemporal. Apesar de a definição do que tem ou não piada tender a divergir de geração para geração e de cultura para cultura, há coisas que nunca deixam de ter graça – um jovem dos dias de hoje pode, por exemplo, derivar tanto prazer de um episódio de Mr. Bean ou Tom e Jerry como os seus pais ou avós quando eram da mesma idade. Assim, não é de estranhar que, de quando em vez, alguém decida recuperar um destes conceitos perpetuamente divertidos e apresentá-lo a todo um novo público, na esperança de que o legado desse material se perpetue ainda por mais uma geração.

Foi precisamente isso que a RTP fez quando, há pouco mais de um quarto de século, no Verão de 1996, decidiu recuperar a obra humorística de José de Oliveira Cosme, criada e transmitida na rádio sessenta anos antes, e adaptá-la para a televisão estatal de meados da década de 90. O resultado foi uma série que ainda hoje faz sorrir quem era da idade certa para lhe achar piada na altura, e que merece certamente ombrear com a obra de Herman José no panteão de séries humorísticas nacionais de finais do século XX.

As-Lições-do-Tonecas-logo.jpg

De facto, e apesar de expandir consideravelmente sobre o conceito original, a versão 'anos 90' de 'As Lições do Tonecas' não perde a sua essência, continuando a centrar-se na relação entre um aluno da instrução primária cábula, gozão e de 'inteligência saloia', embora de bom coração – o titular Tonecas – e o seu agastado professor, a quem a simples missão de leccionar uma aula com Tonecas na sala deixa sempre à beira de um ataque de nervos. Uma premissa simples, mas que já rendeu dividendos em obras como 'O Menino Nicolau', de Sempé e Goscinny, e que o torna a fazer aqui – mesmo que, na adaptação para televisão, o aluno tenha uma idade algo avançada (em várias décadas...) para ainda andar na instrução primária (se bem que, tratando-se de Tonecas, é perfeitamente possível que tenha simplesmente reprovado uma quantidade infinita de vezes...)

E por falar no aluno, é na interpretação de Luís Aleluia – e, diga-se de passagem, do seu coadjuvante, o 'professor' Morais e Castro – que está um dos grandes trunfos do 'Tonecas' televisivo. O comediante está em grande forma, soltando com gosto as suas piadas de humor brejeiro e, por vees, físico (muitas delas tiradas dos textos originais de Cosme, embora obviamente não todas), e exibindo grande química com o seu parceiro 'straight-man', que leva a muitos momentos divertidos; e, quanto mais não seja, Aleluia tem mérito por conseguir que o seu Tonecas obviamente adulto (mas sempre vestido como um típico 'puto' da escola) não seja, em nenhum momento, estranho ou perturbante – como o Chaves sul-americano, este era um 'miúdo graúdo' que a própria faixa etária alvo aceitava sem reservas, facto que ajuda, em parte, a explicar o enorme sucesso do programa.

marcos-borga-671x377_c.jpg

As interacções entre o Tonecas de Luís Aleluia e o professor de Morais e Castro estavam na base do sucesso da série

É claro que, sendo uma produção da RTP na década áurea da publicidade e 'marketing', o 'Tonecas' moderno não se mostra averso à expansão para lá do material original, nomeadamente no que toca a conceitos como os convidados especiais. De facto, embora a maioria dos episódios se desenrolassem apenas com os personagens principais e alguns alunos coadjuvantes (estes, verdadeiramente com idade para ainda andarem no ensino básico) surgiam de vez em quando algumas presenças externas para perturbar ainda mais as aulas; alguns destes eram apenas novos personagens representados por actores convidados (como a 'tia' Pureza Bucelas, de Ana Bola), mas outros apareciam a interpretar-se a si mesmos, como naquele episódio em que, sem razão aparente e sem qualquer pré-aviso ou antecipação, os Excesso entram pela sala de Tonecas adentro e se preparam para assistir à aula!

Um daqueles segmentos que definem a expressão 'ver para crer'

É claro que estes 'crossovers' se destinavam, pura e simplesmente, a publicitar os artistas e convidados em causa – não fossem os Excesso a sensação do momento da música portuguesa em 1997-98 – mas o facto é que a ousadia em arriscar este tipo de manobras, numa série que se pretendia fiel à obra de humor clássico que lhe estava na base, pode também ter tido um papel importante na longevidade de 'Tonecas', que se manteria no ar até praticamente ao fim do milénio, tornando-se presença assídua e constante nos televisores das crianças e jovens portuguesas da época.

Todos os truques publicitários do Mundo são em vão, no entanto, se o produto que tentam promover não tiver qualidade; felizmente, mesmo sem estas 'artimanhas', 'Tonecas' revelava-se uma série bem escrita – dentro dos seus parâmetros de humor simples e directo – magnificamente interpretada, e que, no cômputo geral, ainda se aguenta bem nos dias de hoje, mesmo depois das significativas mudanças sociais e culturais que um período de um quarto de século inevitavelmente acarreta. Um bom exemplo, pois, do tal humor intemporal de que se falava no início deste texto, e que tende a ser tão difícil de executar...

05.01.22

NOTA: Este post teve como referência de pesquisa os blogs Divulgando Banda Desenhada e Blog da Banda Desenhada. As imagens utilizadas são retiradas destes blogs, e devidamente creditadas.

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

As revistas semanais com conteúdos divididos entre informações sobre a grelha de programação televisiva, 'fofocas' sobre celebridades e rubricas de carácter geral foram, a par da própria televisão, um dos meios de comunicação mais omnipresentes do último quarto do século 20, sendo presença assídua quer em casas particulares, quer nas mesas da sala de espera de consultórios, cabeleireiros, ginásios e outros serviços afins. Por sua vez, esta dispersão permitiu às publicações em causa abrangerem os mais diversos tipos de público, das donas de casa a que principalmente se destinavam até uma demografia mais jovem, que muitas vezes as lia em casa de familiares, ou enquanto acompanhava os ditos familiares aos locais acima descritos.

Assim, não é de espantar que pelo menos uma das referidas revistas se tenha procurado aventurar no mundo dos suplementos juvenis; tratava-se da TV Guia, uma das mais populares publicações do género, que a partir de Julho de 1996 veiculou entre as suas páginas um suplemento descartável com banda desenhada e passatempos, singelamente apelidado TV Guia Júnior.

2.6.jpg

Página frontal do primeiro número do suplemento (Crédito: http://divulgandobd.blogspot.com/)

Composta por quatro páginas, das quais uma de passatempos, esta algo esquecida iniciativa serviu, acima de tudo, como mostruário para o trabalho de um dos poucos criadores de BD declaradamente infantil em Portugal: o entretanto malogrado Carlos Roque, cujo trabalho mais notável se desenvolveu no estrangeiro, nomeadamente na Bélgica, como parte das equipas das históricas revistas de BD 'Tintin' - que chegou a ter edição portuguesa entre meados dos anos 60 e inícios da década de 80 - e Spirou.

Carlos Roque.jpg

Carlos Roque, autor dos conteúdos do suplemento, chegou a trabalhar com alguns dos maiores nomes da BD franco-belga, como membro das revistas 'Tintin' e 'Spirou' (Crédito da imagem: http://bloguedebd.blogspot.com/)

Em território nacional, Roque teve de se contentar com trabalhos em bem menor escala, pelo menos em termos de visibilidade, mas não deixou créditos por mãos alheias: para o suplemento TV Guia Júnior, foram criadas (pelo 'cartoonista' e a sua mulher, a belga Monique) uma série episódica, com continuação de uma semana para a outra, e duas de 'gags' avulsas, 'Tropelias de Malaquias' (cujo protagonista não escondia a inspiração em Dennis the Menace, da histórica publicação inglesa 'Beano') e outra centrada em torno de uma paródia de Mandrake, baptizada. bem ao estilo das BDs da época, com o pouco subtil nome de Patrake. Em todas elas, era evidente o cuidado e dedicação que Roque trazia para o seu trabalho, fazendo com que valesse bem a pena investir uns minutos todas as semanas a inteirar-se das novas aventuras de cada um destes grupos de personagens.

20110104144910087_0012.jpg

Uma tira de 'Patrake, o Mágico' (Crédito da imagem: http://bloguedebd.blogspot.com/)

Roque não se ficou, no entanto, pela criação de todas as BDs do suplemento; o 'cartoonista' português seria também responsável pela página de passatempos, assegurando assim o monopólio criativo de todos os conteúdos inseridos naquelas quatro páginas. E a verdade é que o 'TV Guia Júnior' não ficou a perder por isso, antes pelo contrário - tivesse Roque a publicidade e fama de que gozavam alguns dos nomes com quem trabalhara na Bélgica, os fascículos deste suplemento constituiriam, hoje em dia, artigos de coleccionador altamente procurados; sem esse mesmo renome, no entanto, Carlos Roque acaba, para toda uma geração, por ficar somente associado a um suplemento pouco lembrado, oferecido durante um Verão por uma revista popularucha - uma pena, pois como os conteúdos deste suplemento bem demonstram, tratava-se de um talento ao nível de qualquer daqueles.

 

20.12.21

NOTA: Dada a relevância temporal deste 'post', a Sessão de Sexta e as Segundas de Sucessos foram, temporariamente, trocadas. Se ainda não leram o post sobre música desta semana, podem fazê-lo aqui.

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas (e, ocasionalmente, às segundas), recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

O cinema português não é, nem nunca foi, conhecido pelas suas produções 'mainstream'; pelo contrário, a maioria das obras de realizadores nacionais são de índole muito, muito 'indie', e normalmente até algo pretensiosos, sendo portanto muito pouco apelativos para o público jovem.

Ainda assim, de quando em quando, a filmografia nacional lá vai produzindo uma ou outra película mais 'palatável' para as demografias de menor idade - e, nos anos 90, estrearam nas salas nacionais não um, mas dois exemplos disto mesmo. De um deles, 'Zona Jota', já falámos num post anterior neste blog; o outro celebra hoje, dia 20 de Dezembro, exactos vinte e cinco anos, tornando-o no tópico ideal para a rubrica desta semana.

transferir.jpg

Trata-se de 'Adeus, Pai', filme realizado por Luís Filipe Rocha e que proporcionou o papel de estreia a José Afonso Pimentel, então com a mesma idade do personagem que protagoniza - Filipe, um jovem de 13 anos cujo relacionamento com o pai, Manuel, vivido pelo veterano João Lagarto, constitui o centro dramático do filme.

adeus-13.jpg

Os dois protagonistas do filme

Apoiado num enredo simples mas eficaz, e tirando o máximo partido das pitorescas paisagens dos Açores, onde a acção se desenrola, 'Adeus, Pai' é, como já referimos, um filme de digestão algo mais fácil do que a média das películas nacionais (particularmente as da época) ainda que de estética marcadamente europeia, e concretamente latina - do ponto de vista técnico, o filme tanto poderia ser italiano ou espanhol como português. Não será, talvez, o tipico filme de Natal para ver em família, mas como obra cinematográfica, envelheceu marcadamente bem, e não deixa portanto de constituir uma escolha de bastante valor para quem procure algo diferente (e um pouco mais 'arty') com que passar o tempo nesta quadra.

29.11.21

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Numa edição recente desta mesma rubrica, abordámos a série animada dos Pequenos Póneis, transmitida pela RTP em meados da década de 90; hoje, é a vez de focarmos a outra grande representante dos desenhos animados 'fofinhos' e inofensivos a passar naquela época em Portugal, e que partilha muitos aspectos com a nossa primeira visada: os Ursinhos Carinhosos.

As semelhanças entre as duas séries – que são daquelas que costumam ser mencionadas juntas na mesma frase, à semelhança de outros binómios famosos como 'Survivor e Europe' ou 'FIFA e PES' – começam logo no seu intuito puramente comercial; como tantas e tantas outras séries daquela época, 'Os Ursinhos Carinhosos' (no original, 'Care Bears') destinava-se sobretudo a criar a vontade, entre o público-alvo, de adquirir os adoráveis bichinhos de peluche homónimos. No entanto, pelo menos em Portugal, esse objectivo saiu algo 'furado', já que a série (e respectivos filmes) era bem mais conhecida entre a miudagem do que os brinquedos em si, cujo principal mercado eram os seus Estados Unidos natais.

Também como 'Pequenos Póneis', esta era daquelas séries que, sendo do sexo masculino e tendo mais do que uma certa (pouca) idade, não se podia sob circunstância nenhuma admitir que se via; como os póneis de cor pastel, os ursinhos risonhos e amigos de ajudar com casa nas terra das nuvens e arco-íris eram do domínio exclusivo das raparigas, reunindo num só programa absolutamente TODOS os ingredientes para se tornarem objecto de escárnio de qualquer 'macho' que se prezasse – fosse o dito escárnio mais ou menos sincero.

hqdefault.jpg

Menos másculo do que isto, era difícil...

Não que a referida reacção não fosse, em parte, justificada – como 'Pequenos Póneis', 'Ursinhos Carinhosos' contentava-se em oferecer o mínimo possível para agradar ao seu público-alvo. Embora a animação fosse bastante razoável (e bem melhor que a dos póneis) o teor simplista e moralista das histórias de cada mini-episódio reduzia o interesse da série estritamente ao sector menos exigente do público infantil, preferindo a maioria dos restantes dedicar o seu tempo a concorrentes como 'Tartarugas Ninja', 'Moto-Ratos de Marte' ou até 'Garfield'.

Ainda assim, os ursinhos multi-cores com tatuagens na barriga conseguiram ter impacto suficiente no nosso país para justificarem TRÊS transmissões da série original de 1985, no espaço de apenas 16 anos, das quais duas na década que nos concerne: primeiro na RTP (1990) e mais tarde na TVI (1996). Em 2006, o Canal Panda viria a completar esta tríade, apresentando os Ursinhos a toda uma nova geração de crianças e assegurando que os mesmos se mantinham relevantes duas décadas depois da sua criação e transmissão nos seus EUA natais. E se é verdade que existirão decerto séries menos merecedoras deste ciclo de vida artificialmente prolongado, também é inegável que mesmo o mais distraído seguidor da produção animada internacional das décadas de 80 e 90 conseguirá nomear, em questão de segundos, cinco ou seis séries que fazem muito mais por justificar o mesmo tratamento...

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub