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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

28.09.22

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Apesar do seu longo historial com heróis de banda desenhada (mais ou menos 'super') das mais diversas proveniências, Portugal passou, surpreendentemente, ao lado de um dos maiores 'comics' independentes de finais do século XX, oriundo de um país que, em décadas anteriores, já rendera aos 'bedéfilos' lusos um dos seus mais icónicos heróis, o Major Alvega. Em vista do sucesso que o seu conterrâneo fizera em terras lusas, do êxito de que este outro personagem gozava em outros países - onde as suas histórias (e a publicação onde se inseriam) tinham estatuto de culto, chegando mesmo a inspirar uma 'malha' dos metaleiros nova-iorquinos Anthrax - e da referida apetência dos leitores portugueses por histórias de super-heróis, ficção científica ou ambas, não deixa de ser estranho que um trabalho que reunia todos esses predicados tenha passado praticamente 'em branco' por terras lusitanas.

A verdade, no entanto, é que foi preciso o aparecimento de uma revista baseada em material oriundo das Ilhas Britânicas (e que tão-pouco era especializada em BD) para o maior orgulho nacional anglo-saxónico (pelo menos no campo da banda desenhada) fazer finalmente a travessia do Atlântico e chegar a climas mais quentes. Seria, pois, nas páginas traseiras da revista 'Rock Power', especializada em música 'rock' e 'heavy metal', que o hoje famoso e icónico Juiz Dredd se daria a conhecer – no caso a um segmento bastante limitado (embora receptivo à temática e estilo de desenho das histórias) da demografia a que almejava.

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Página publicada na revista 'Rock Power' (crédito da foto: Divulgando Banda Desenhada)

Escusado será dizer que a extinção da referida revista 'arrastou' consigo o justiceiro da futurista Mega City, cuja perfeita anonimidade entre o público bedéfilo generalista português o votou ao esquecimento – ou melhor, ao desconhecimento – no seio do mesmo; seria, assim, necessário esperar até 1994 para que quem não era 'metaleiro' ficasse a conhecer Dredd, o qual regressaria às bancas nacionais por tempo limitado, no âmbito de uma colaboração com um herói bastante mais famoso e apreciado por terras lusas: o Vingador Mascarado, Batman. O simples mas esclarecedoramente intitulado 'Batman e Juiz Dredd – Julgamento em Gotham' – um daqueles álbuns de 'crossover' tão populares durante as décadas de 90 e 2000, e um de quatro encontros entre os dois heróis – chegaria aos quiosques e papelarias de Norte a Sul do País em 1994, curiosamente, não pela mão da omnipresente Abril/Controljornal, responsável por todos os periódicos de super-heróis disponíveis nas bancas nacionais, mas da Meribérica/Liber, a sua 'rival' monopolista dos heróis franco-belgas. Talvez por isso o álbum seja, hoje em dia, menos conhecido e recordado do que aquelas revistas bem mais 'chungas' que a maioria dos portugueses do sexo masculino de uma certa idade (e, presumivelmente, também do feminino) leu naquela época da sua vida.

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Capa e vinheta do álbum da Meribérica, de 1994

Após os 'cinco minutos de fama' com Batman, no entanto, o polícia futurista voltaria a ser votado ao esquecimento em terras de Viriato – situação que nem mesmo o filme do ano seguinte, com Sylvester Stallone (do qual falaremos aqui muito em breve) conseguiu alterar. O regresso do Juiz Dredd aos escaparates lusos dar-se-ia, pois, já bem dentro do novo milénio, pela mão da editora Mythos, que aproveitava o embalo do sucesso do 'remake' cinematográfico das aventuras do herói (um dos poucos que efectivamente supera o original, e cuja existência se justifica) para trazer para Portugal a 'Juiz Dredd Magazine', publicação criada e concebida (onde mais?) no Brasil, onde já ia fazendo considerável sucesso. No total, foram vinte e quatro os números da revista distribuídos em Portugal, antes de o desafortunado Juiz de Mega City regressar à obscuridade – embora, agora, com uma base de seguidores consideravelmente alargada, e que (quem sabe?) talvez consiga propiciar novo regresso aos escaparates de BD lusos num futuro próximo; por agora, no entanto, Dredd perfila-se como um dos principais 'tiros ao lado' e oportunidades perdidas da edição de banda desenhada em Portugal – um erro que, pela amostra conjunta, continua a ser difícil de remediar...

25.07.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Quando se pensa em colectâneas disponíveis em Portugal na década de 90, os títulos que tendem, imediatamente, a vir à memória são, sobretudo, os das lendárias séries Electricidade (da Rádio Cidade) e Now! That's What I Call Music, que – entre elas – ajudaram a moldar o gosto musical de muitos jovens da época. No entanto, estas estavam longe de ser as únicas representantes desse tipo de lançamento; pelo contrário, o mercado fonográfico português viu vários outros títulos deste tipo surgir nos escaparates ao longo dos últimos dez anos do século XX, contando-se entre as mais memoráveis 'The Beautiful Game' (a colectânea do Euro '96, de que já aqui falámos) 'Fido Apresenta Número 1' (da qual, paulatinamente, aqui falaremos) e a dupla de que falamos hoje, intitulada 'Street Sounds From Sony'.

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Compostos por uma ecléctica mistura de europop, pop rock, hip-hop e electrónica, os dois volumes da série foram lançados em anos consecutivos de meados da década pela fabricante japonesa - quando a mesma ainda era associada, sobretudo, a produtos áudio, e não tanto a consolas -  e incluídos, a título de oferta, na compra de um dos sistemas de som portáteis da marca, os carinhosamente apelidados 'tijolos', presumivelmente como método para comprovar as capacidades reprodutivas dos mesmos - por aqui, por exemplo, recebeu-se o segundo volume, de 1995, ano em que surgiu lá por casa o primeiro destes aparelhos. Assim, quem adquirisse uma 'boombox' da marca não só passava a ser dono de uma excelente 'fábrica de produção de mixtapes' como de uma espécie de 'mixtape oficial', seleccionada e curada pela própria Sony Europa (a compilação é de origem holandesa), o que não deixava de ser um atractivo de peso no momento da decisão sobre que fabricante escolher, independentemente de se ser ou não fã dos artistas incluídos.

E por falar nestes, os mesmos serviam de exemplo quanto à diversidade do catálogo do braço editorial da companhia à época, incluindo nomes tão díspares como Cypress Hill, Alice in Chains, Meatloaf ou uma Celine Dion pré-fama interplanetária (no primeiro volume) e Bad English, The Jacksons, Toto, Cyndi Lauper ou Apollo 440 (no segundo); curiosamente, ambos os discos incluíam ainda músicas de Culture Club e Gloria Estefan, os únicos dois 'repetentes' entre volumes. No total, eram vinte e nove faixas (catorze no primeiro volume e quinze no segundo) que só deixavam mesmo de fora os estilos mais pesados, sendo que até mesmo as lendas do 'grunge', Alice in Chains, surgiam com um dos seus temas em registo mais acústico e acessível, no caso 'No Excuses'; de resto, havia mesmo algo para todos os gostos, sendo provável que a maioria dos jovens que adquirisse um destes CD's encontrasse, pelo menos, um par de faixas que fosse do seu agrado.

Em suma, apesar de algo limitados pelo conceito e editora, estas duas colectâneas não deixavam de cumprir com louvor a sua função de apresentar a uma nova audiência alguns dos principais artistas dos respectivos anos, bem como de anos transactos – o que, associado ao seu cariz promocional e de oferta, os terá certamente tornado parte muito apreciada das colecções de CD de muitos jovens lusitanos da época. Por aqui, pelo menos numa primeira fase, era certamente esse o caso...

14.07.22

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

As 'fanzines' – publicações criadas por e para fãs de determinado artista ou propriedade intelectual – eram, ainda, relativamente comuns nos anos 90, o mesmo podendo ser dito das revistas afiliadas a clubes de fãs oficiais, ou a clubes comerciais para jovens, bastando aqui lembrar a popular Revista Rik e Rok ou os fantásticos Almanaques Clube Caminho Fantástico. O que era significativamente menos comum era ver revistas deste tipo fazer a transição para o circuito de distribuição alargada e venda comercial – e, no entanto, foi isso mesmo que se passou com, não apenas uma, mas duas publicações deste tipo, em meados da década.

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Falamos das publicações oficiais dos Clubes Sega e Nintendo, que - como todos os outros aspectos relativos a estas duas instituições - partilhavam mais semelhanças do que diferenças, a começar no nome, que, em ambos os casos, seguia precisamente a mesma nomenclatura, juntando metade do nome da consola mais popular de cada companhia à época a um adjectivo indicativo de pujança e atitude dominadora - Mega Force no caso da Sega, Super Power no da Nintendo.

Também os conteúdos de ambas as revistas eram, previsivelmente, muito semelhantes, com cada uma a apresentar notícias, críticas e outros artigos relativos às últimas novidades lançadas por cada companhia, sendo que a Nintendo se limitou a manter a fórmula que já apresentava na sua publicação exclusiva para assinantes, embora agora com textos originais, por oposição a traduções do Francês. Até mesmo a editora era a mesma para ambas as publicações – no caso, a todo-poderosa Abril Jovem (mais tarde Abril Controljornal), à época a magnata das publicações temáticas em Portugal, quer se tratasse de banda desenhada ou de revistas especializadas, como as que abordamos neste post; com este facto em mente, não é de espantar que o formato de ambas as revistas fosse suficientemente aproximado para quase poder ser considerado idêntico.

Apesar de a Nintendo ter o benefício da experiência prévia, no entanto, no que toca a longevidade, foi a revista da Sega quem levou a melhor, tendo conseguido manter-se nas bancas dois anos, entre 1993 e 1995 – uma 'vida' curta, mas, ainda assim, duas vezes mais longa que a da sua congénere, que apareceu e se extinguiu no mesmo ano, 1994 (talvez por a Abril oferecer uma modalidade de assinatura anual, em exclusivo, a membros do Club Sega, os quais receberam ainda o primeiro número da revista de forma gratuita). Ainda assim, apesar da pouca longevidade (nenhuma das duas revistas viu dealbar a geração 32-bit) qualquer destas duas publicações terá, decerto, feito as delícias dos fãs dos videojogos de ambas as companhias, os quais talvez ainda guardem um ou outro exemplar algures na arrecadação dos pais...e que, não sendo esse o caso, sempre poderão recordar a infância clicando aqui ou aqui!

31.05.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Na última edição desta rubrica, abordámos o Festival da Eurovisão, no qual Portugal teve diversas e honrosas participações; ora, neste ano de 2022, esse Festival tinha como país anfitrião a Itália, e como apresentadora uma cara que muitos ex-jovens portugueses dos anos 90 certamente terão, de imediato, reconhecido: Laura Pausini.

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A cantora, como muitos se recordam dela

De facto, no nosso país, a cantora e (hoje) apresentadora foi uma das duas 'caras' de uma mini-invasão italiana às nossas ondas radiofónicas no início da referida década, tendo como 'cúmplice' nessa 'missão' outro nome instantaneamente reconhecível, Eros Ramazotti (de quem chegou, aliás, a fazer versões em início de carreira). Juntos, os dois cantores – que quase poderiam passar por versões um do outro no sexo oposto, dadas as semelhanças estilísticas na música que praticavam – conseguiram, pelo menos durante um par de anos, interessar a juventude portuguesa na 'pop' romântica oriunda do país da 'bota'.

No caso de Pausini, o grande 'hit' que 'pegou' nas rádios portuguesas foi 'La Solitudine', música com a qual conquistou, ainda adolescente, a vitória na edição de 1993 do prestigiado Festival de San Remo. Daí ao primeiro lançamento profissional (nada mais nada menos do que pela multi-nacional Warner Music) foi questão de poucos meses, tendo o álbum homónimo da cantora – o seu segundo, após um primeiro lançamento informal com apenas treze anos – saído ainda nesse mesmo ano.

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Capa do primeiro álbum da cantora

O sucesso foi imediato, com três milhões de cópias do disco a circularem entre Itália e França, e a sequela, 'Laura', a surgir menos de um ano depois, em Fevereiro de 1994 – agora também com músicas em castelhano, para agradar ao respectivo mercado, onde a cantora fazia sucesso. Nesse mesmo ano, Laura perderia a nomeação de Revelação do Ano da prestigiada revista Bilboard para Mariah Carey, conquistando um ainda assim impressionante segundo lugar.

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O segundo álbum, 'Laura', saído em 1994

Por estranho que possa parecer, no entanto, todo este sucesso representava apenas o início para Laura Pausini, que passaria o resto da década a compôr, pela primeira vez, as suas próprias músicas (a maioria adaptada tanto para italiano como para castelhano), a traduzir para inglês o 'hit' 'La Solitudine', com a ajuda de Tim Rice, e a cantar em palco com Pavarotti, no espectáculo organizado pelo tenor em 1999. Em 2001, surge a primeira colectânea e, no ano seguinte, o primeiro álbum totalmente em inglês, produzido exclusivamente para os mercados anglófonos.

Seguir-se-iam mais álbuns (tanto de originais como ao vivo e de versões), dois Grammys (um Latino e um internacional) convites pessoais de Madonna para regravar músicas suas, o primeiro concerto dado por uma mulher no Estádio de San Siro, perante 75.000 pessoas, temas para telenovelas e, finalmente, a extensão dos seus talentos também ao mundo da televisão. Hoje em dia, Laura Pausini é recordista de vendas em Itália, onde continua a ser uma das principais personalidades musicais, numa carreira profissional prestes a completar trinta anos; para quem foi jovem e se interessou por música na década de 90, no entanto, continuará para sempre a ser a miúda gira e de sorriso maroto cujo vídeo passava no Top + e que fazia a capa de revistas como a Super Jovem...

16.05.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

O festival Eurovisão é um daqueles programas de que ninguém admite gostar, mas que quase toda a gente vê, ou de que pelo menos se mantém a par. Apesar do carácter abertamente 'popularucho' da maioria das músicas (é de espantar que Portugal ainda não tenha concorrido com um qualquer artista 'pimba', pois não destoaria muito do teor geral das composições) o carácter competitivo da 'coisa' faz sempre saltar de dentro de cada espectador aquela costela de orgulho patriótico, que serve nem que seja para gritar contra a Espanha por não nos terem dado quaisquer pontos. Assim, e numa semana em que se vive, precisamente, o rescaldo da edição 2022 do festival, nada melhor do que recordar alguns dos mais emblemáticos representantes nacionais durante a época a que este blog diz respeito.

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Isto porque, apesar de a maioria das crianças e jovens da época recordar, hoje, sobretudo duas das dez músicas que Portugal levou à Eurovisão durante os anos 90, há mais algumas particularidades interessantes ligadas à participação do nosso País no referido festival no decurso daquela década – como, por exemplo, a particularidade de as cinco primeiras representantes terem sido do sexo feminino (aliás, sete dos dez artistas portugueses entre 1990 e 1999 eram mulheres), e as primeiras quatro, conhecidas apenas pelo primeiro nome; Nucha em 1990, Dulce em 1991, Dina em 1992 (esta, aparentemente, a favorita de J. K. Rowling) e a lendária Anabela em 1993.

...e agora também está nas vossas cabeças. De nada.

E já que falamos em Anabela, cabe mencionar que esta é uma das duas artistas anteriormente mencionadas, de que qualquer jovem da época se recorda, já que o seu 'A Cidade (Até Ser Dia)' (mais conhecido dentro de portas como 'Quando Cai A Noite Na Cidade') tornou-se um daqueles 'memes' musicais da era pré-'memes', entoados de forma exagerada em pátios de escolas e utilizados como 'punchline' de anedotas mais ou menos politicamente correctas.

O outro nome memorável é, claro, o de Sara Tavares, cuja interpretação de Whitney Houston no concurso Chuva de Estrelas (que paulatinamente aqui abordaremos) lhe valera a entrada no Festival da Canção português, competição que também viria a vencer com o seu 'Chamar a Música', mesmo tema apresentado na Europa, e que atingiria um honroso oitavo lugar, igualando a marca de Dulce e tornando-a a segunda melhor classificada portuguesa da década – melhor, só mesmo Lúcia Moniz (filha do lendário apresentador e músico Carlos Alberto Moniz, de 'A Casa do Tio Carlos' e 'Arca de Noé') que, em 1996, aos 19 anos, faria História ao conseguir a melhor classificação de sempre para Portugal até então (o sexto lugar, ainda hoje apenas superado pela vitória de Salvador Sobral, em 2017) e colocar o País na primeira meia-final da História da Eurovisão, onde se classificaria em 18º.

Aquele talento muito especial do nosso povo para passar do sublime ao ridículo manifestar-se-ia, no entanto, logo no ano seguinte, quando Célia Lawson e o seu 'Antes do Adeus' conseguiam a 'proeza' de granjear a Portugal o segundo (e, até hoje, último) 'nulle points' da sua História – uma humilhação que o País não sofria desde a 'Oração', de António Calvário, na primeiríssima edição do festival, trinta e três anos antes!

'Portugal...nul points!' GG, Célia...

Felizmente, as coisas não mais voltariam a correr tão mal a Portugal durante aquela década, mesmo que a 'façanha' de Lawson tenha lançado a piada recorrente de que Portugal fica sempre em último na Eurovisão – estereótipo a que nada ajudaram os dois períodos de quatro anos cada em que o País não conseguia a qualificação para o Festival, graças a apresentar representantes da categoria de Nonstop ou Homens da Luta (só mesmo Portugal para enviar uma banda abertamente de comédia como seu representante num festival internacional...) Felizmente, Salvador Sobral viria a salvar a 'honra do convento' em 2017 com a excelente 'Amar Pelos Dois' (uma música séria que, choque dos choques, foi levada a sério!), tornando-se o 'Éder da Eurovisão' e, como este, vendo o seu esforço ser tornado inglório por 'coisas' como 'Telemóveis' de Conan Osíris, porque claramente o nosso País dificilmente aprende...

Seja qual fôr o futuro de Portugal na Eurovisão, no entanto (e a música deste ano, posicionada dentro da média portuguesa no Festival, em 9º, leva a crer que o mesmo seja, no mínimo, honroso) para uma determinada geração de ex-crianças e jovens, esta competição estará, para sempre, associada a duas ou três músicas que, num tempo mais simples e inocente, chegaram a ser verdadeiros sucessos de Verão, e cujos refrões permanecem, ainda hoje, indelevelmente gravados na sua memória colectiva...

03.05.22

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Se houve um género de programa televisivo em que a televisão portuguesa foi pródiga nos anos 90, esse género foram os concursos. São inúmeros os exemplos de sucesso neste campo durante essa década, quer adaptados de formatos estrangeiros, quer criados de raiz a partir de uma ideia original. Da Roda da Sorte ao Preço Certo original (ainda antes de ser em euros), da Arca de Noé à Amiga Olga, os concursos pareciam (e eram) uma fonte inesgotável de audiências, com a enorme vantagem de terem custos de produção relativamente baixos.

Não é, pois, de surpreender que, ainda durante o seu primeiro ano de vida e em plena fase de financiamento pela Igreja Católica, a TVI tenha decidido apostar neste formato; o que surpreende mesmo mais é que o tenha feito em duas frentes, aliando uma produção portuguesa (a referida Amiga Olga) a um programa importado directamente do estrangeiro, com apenas a locução e comentários a serem dobrados num estúdio português.

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Falamos, é claro, do mítico 'Jogo do Ganso', um digno sucessor de 'Nunca Digas Banzai!' (com quem, aliás, concorria na grelha de Sábado à noite daquele ano) no panteão de concursos estrangeiros que viriam a ser êxitos absolutos em Portugal. Tal como o programa japonês, o concurso apresentado por Emilio Aragón (já de si uma adaptação de um formato italiano, por sua vez baseado no popular jogo de tabuleiro infantil de décadas anteriores) cativou os telespectadores nacionais, tendo milhares de portugueses de todas as idades passado a sintonizar religiosamente a TVI todos os fins-de-semana para ver mais um grupo de desafortunados participantes (sempre em número de quatro, divididos irmamente entre homens e mulheres) ser sujeito a uma série de desventuras enquanto tentavam percorrer aquele 'tabuleiro' gigante e 'sobreviver' às suas mirabolantes provas.

Eram, precisamente, essas provas que tornavam o programa num tal sucesso de audiências; isto porque, apesar de a maioria das mesmas variar de semana para semana (criando um elemento de diversidade e imprevisibilidade que incitava às visualizações repetidas), havia um certo número de provas fixas que, se 'activadas' por um dos jogadores, eram garantia de muitas gargalhadas à conta do embaraço do mesmo. Quem não se lembra, por exemplo, das lutas de gladiadores sobre a lama ou numa jaula, do atirador de facas, da Casa da Morte, que obrigava os jogadores a voltar ao início do jogo e a enfrentar novamente todos os 'perigos' de que já pensavam haver-se esquivado, ou do lendário barbeiro (cuja casa era, de longe, a mais temida por qualquer concorrente) que administrava 'carecadas' a quem tivesse a má-sorte de parar no seu domínio?

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O barbeiro Flequi, em pleno exercício de funções

Todos estes elementos ajudavam a que o programa se desenrolasse, inevitavelmente, a 'mil à hora', dando-lhe um ambiente algo caótico (no bom sentido) que – quando aliado ao memorável genérico, à decoração colorida do estúdio e ao estilo energético e saltitante de Emilio Aragón, uma espécie de versão 'nerd' de João Baião – o tornava particularmente atractivo para o público mais jovem. Quem era de uma certa idade em 1993 não perdia sequer um episódio deste concurso, frente ao qual terá passado muitas tardes a pensar o que faria se fosse concorrente (como o chegaram a ser dois portugueses, para gáudio e orgulho dos seus compatriotas), caísse na casa do barbeiro, e tivesse de regressar a casa careca...

Em Espanha, o 'Gran Juego de La Oca' continuou as emissões durante mais duas temporadas, a última das quais já em 1998. No país vizinho, no entanto, o concurso ficava-se pela primeira temporada, a qual se saldou, ainda assim, como suficientemente memorável para poder ser considerada uma 'prueba superaaaaaadaaaaaa!'

18.04.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Quando se pensa no estereótipo de uma estrela 'pop' ou de rádio, especialmente de sucesso entre o público jovem, tem-se sempre, quer se queira quer não, uma certa imagem em mente; e o mais provável é que a mesma não seja a de um trintão, com sentido de estllo duvidoso e visual algures entre Joe Satriani e Rob Halford, de voz rouca, e cuja música se enquadraria melhor no átrio de um clube de 'jazz' do que na aparelhagem ou 'walkman' de um adolescente.

E, no entanto, foi um músico com precisamente essas características o responsável por um dos maiores 'hits' radiofónicos em Portugal no início dos anos 90, tanto entre o público mais maduro como - mais significativamente - entre os jovens. Tratava-se de Pedro Machado Abrunhosa, um cantor e compositor portuense que - em conjunto com a sua banda de apoio, apelidada Bandemónio - conheceria inusitado sucesso durante um par de anos da referida década.

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Este homem parece-vos uma 'superstar' do pop-rock radiofónico? Pois...

Fruto da cena 'académica' da música portuguesa, com estudos e posterior leccionamento em vários institutos especializados da sua área de residência, Pedro Abrunhosa era já 'entradote' (na escala dos artistas 'pop', muito semelhante à dos jogadores de futebol) quando vê ser editado o disco de estreia dos Bandemónio, em 1994. No entanto, nem a idade avançada e aspecto de 'gajo normal' do vocalista, nem o estilo 'jazz' em modelo Tom Waits das composições da banda (elementos que, em condições normais, os remeteriam para uma categoria de nicho dentro do Mundo da música) foram impedimento ao sucesso imediato do grupo portuense, que viu não uma, não duas, não três, mas CINCO das músicas do disco ganharem tracção quase imediata nas rádios nacionais - ao tema de abertura, 'Não Posso Mais', seguiram-se a faixa diametralmente oposta no alinhamento, 'Tudo O Que Eu Te Dou', 'Socorro', 'Lua', e ainda 'É Preciso Ter Calma', sendo que esta última nem sequer havia sido lançada como 'single'! Nenhum destes temas soava remotamente como mais nada que tocasse nas rádios na altura, mas a verdade é que o seu sucesso catapultou o álbum para vendas de tripla platina e transformou, da noite para o dia, Pedro Abrunhosa de anónimo professor de música do Porto em nova sensação do pop-rock nacional.

É claro que, com um álbum de estreia de tamanho sucesso, seria fácil imaginar que Pedro Abrunhosa e os Bandemónio se ficariam pelo estatuto de 'one-hit wonder'; nada mais longe da verdade, no entanto. Pelo contrário, a lista de sucessos de Abrunhosa e companhia viu-se acrescida primeiro de um livro (!) e depois de 'Se Eu Fosse Um Dia O Teu Olhar', tema do filme 'Adão e Eva' (também ele um sucesso) que soava exactamente como todos os outros 'singles' lançados pelo músico até então, e que talvez por isso tenha sido bem acolhido por quem já adorara 'Viagens'.

O sucesso desta música permitiu manter o perfil do artista elevado o suficiente para granjear a 'Tempo', o segundo álbum do músico, um sucesso ainda maior que o de 'Viagens' - mais de quatro anos após o seu período de relevância (e sem nada que sequer se aproximasse do sucesso dos 'singles' do primeiro disco) Abrunhosa e os renovados Bandemónio conseguiam ainda vendas de quádrupla platina, um verdadeiro testamento ao poder que o nome de um artista pode ter sobre os volumes de vendas de uma obra. Participações de Rui Veloso, Carlos do Carmo e da banda de Prince, a New Power Generation, garantem ao álbum aquela aura de 'obra séria', fazendo de 'Tempo' um digno sucessor da estrondosa estreia.

Como dizia George Harrison, no entanto, 'tudo o que é bom deve findar', e o virar do milénio representou o fim do 'lugar ao sol' de Abrunhosa em meio ao pop-rock radiofónico português; os trabalhos seguintes do músico já não granjearam a mesma atenção dos dois primeiros discos dos Bandemónio, relegando o 'jazzman' portuense não só para a categoria 'de nicho' a que normalmente teria sempre pertencido, mas também para a vasta lista de artistas (na qual se incluem também uns Silence 4 ou Santos e Pecadores) que, apesar de terem continuado a gravar regularmente novos materiais, desapareceram totalmente da consciência colectiva nacional. Ou antes - totalmente, não; existe, ainda, uma geração para quem uma simples 'mirada' ao título de um dos seus grandes êxitos evoca imediatamente uma memória, com mais de um quarto de século, de um refrão, cantado naquela voz roufenha e com o característico sotaque portuense. Apenas mais uma prova de que a influência de certos artistas na respectiva cena vai muito além da visibilidade e sucesso de vendas...

22.02.22

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Depois de há duas semanas termos falado dos dois LP's de músicas alusivas ao programa Arca de Noé (e, devido a uma mudança de planos de última hora, termos tido de adiar o presente post outro tanto) chega finalmente a altura de falarmos de um dos mais populares concursos, e programas infantis em geral, da primeira metade dos anos 90. E porque só há uma maneira de introduzir um artigo sobre este programa, comecemos, desde já, da maneira correcta – com o absolutamente lendário tema de abertura, um dos melhores de sempre da televisão portuguesa, e que qualquer criança ou jovem da época ainda será capaz de cantar quase de cor (e cuja letra, saliente-se, também servia na perfeição como insulto de recreio...)

Quem resistir a cantar isto, é mais forte do que nós...

Ultrapassada esta inevitável formalidade, falemos agora do concurso propriamente dito. Estreado logo no dealbar da década, e transmitido primeiro na RTP2 e, mais tarde, no então Canal 1, 'Arca de Noé´ adaptava um formato japonês, criado duas décadas antes, e que rapidamente atingiu sucesso mundial. Gravado no antigo Cinema Europa, em Lisboa, o programa tinha por base um formato muito simples e com uma estrutura clássica: quatro concorrentes – dos quais um era sempre uma figura pública - eram sujeitos a várias rondas de perguntas sobre animais, a maioria das quais baseadas num apoio visual, normalmente um vídeo pausado na altura certa, tendo os concorrentes que adivinhar qual o comportamento que o animal em causa adoptaria a seguir. O concorrente que mais perguntas acertasse ganharia o grande prémio de 250.000 escudos (cerca de 1250 euros), sendo que se o vencedor fosse a figura pública convidada, este valor reverteria na totalidade para uma instituição de apoio aos animais ou à vida selvagem (na verdade, a maioria dos participantes doava parte da sua bolsa a uma entidade deste âmbito, quase sempre o Jardim Zoológico de Lisboa.) Para além do conflito central, o programa ficava também marcado por segmentos de entrevista a tratadores e especialistas em animais (normalmente acompanhados dos mesmos, para gáudio das crianças em estúdio e a assistir em casa) e números musicais, interpretados ao vivo pelo responsável pela música do programa (e também favorito das crianças), Carlos Alberto Moniz, ou por um convidado especial.

Deste formato, adoptado durante as primeiras três temporadas do programa, é quase sinónima a carismática apresentação de Fialho Gouveia, um daqueles anfitriões da velha escola que sabia falar a um público jovem sem nunca ser condescendente – uma qualidade que partilhava com outras 'lendas' infanto-juvenis da época, como Júlio Isidro, ou o próprio Moniz, o qual viria, mais tarde, a tomar o seu lugar para a última temporada do programa. A seu lado, a também icónica e carismática Maria Arlene, a tradicional assistente comum a tantos concursos da mesma época, e que neste caso era responsável por marcar a pontuação dos concorrentes com bonecos das mascotes do programa – primeiro o Vitinho, da Milupa, e mais tarde os Orelhudos, então 'caras' dos iogurtes Mimosa.

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Os carismáticos anfitriões (e mascote) do programa

Foi assim até 1994, ano em que teria lugar uma mudança de formato, assinalada também por uma mudança na apresentação, que passava a caber a uma mulher, Ana do Carmo; nesta nova fase, os concorrentes eram três pares de um adulto e uma criança, já sem a presença de quaisquer figuras públicas, mantendo-se as regras e o restante ambiente basicamente inalterados. Já a quinta e última temporada era palco de nova mudança, com o programa a render-se finalmente e totalmente ao seu público-alvo: o cenário 'infantilizava-se', com cores mais vibrantes e adereços a imitar um barco (ou Arca), as equipas passavam a ser constituídas exclusivamente por crianças entre os 8 e os 12 anos, e a apresentação ficava a cargo de Carlos Alberto Moniz, que acumulava assim funções e se tornava a figura central do programa, apenas alguns meses antes de 'emigrar' para uma 'Casa' nos arredores de Lisboa, onde continuaria a conquistar o coração das crianças durante mais alguns anos.

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Uma emissão com Ana do Carmo como apresentadora

Quando saiu finalmente do ar, em Setembro de 1995, a 'Arca de Noé' havia marcado toda uma geração de crianças portuguesas, sendo parcial ou totalmente responsável pelo interesse generalizado que a miudagem da época desenvolveu por animais. E com bom motivo – o programa soube pegar num tema que, já de si, interessava ao seu público-alvo, e introduzi-lo num contexto igualmente apelativo para essa demografia (o da competição televisiva) criando uma receita praticamente perfeita para um programa de televisão infanto-juvenil, que, até hoje (mais de trinta anos após a estreia do concurso) poucas outras propostas souberam igualar, e ainda menos superar. E, convenhamos, AQUELE tema de abertura também ajudava.... 'VAMOS FAZER AMIIIIGOS, ENTRE OS A-NI-MAAAIS...!'

02.02.22

NOTA: As imagens deste post foram retiradas do 'site' pessoal de António Jorge Gonçalves, em http://www.antoniojorgegoncalves.com/livros-books.

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Na última edição desta rubrica, falámos de 'Lisboa Às Cores', um esforço conjunto entre o ilustrador António Jorge Gonçalves, o escritor Nuno Júdice e o Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa distribuído pelas escolas primárias da região metropolitana de Lisboa em 1993 e destinado a sensibilizar as crianças da capital, não só para a arte, como para a beleza da sua cidade.

Mas se para os mais novos este foi o primeiro contacto com os desenhos de Gonçalves, para o público um pouco mais velho, o ilustrador já era bem conhecido, nomeadamente por ter ganho, nesse mesmo ano de 1993, o prémio de Melhor Álbum Português no maior festival de banda desenhada em Portugal (o da Amadora) com o seu volume de estreia, 'Ana' - a primeira de três obras criadas em parceira com Nuno Artur Silva (já presente nestas páginas através do seu trabalho com Hemran José, e mais tarde fundador das Produções Fictícias, responsáveis por alguns dos melhores programas de humor da História da televisão e rádio portuguesas) e que tinham como protagonista o detective privado Filipe Seems.

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'Ana', o álbum de estreia do ilustrador, premiado na esição de 1993 do Festival de BD da Amadora 

Naturalmente, este prémio acabou mesmo por impulsionar uma carreira que, durante a restante década, viu serem produzidos, além do referido livro institucional para a CML, um segundo volume das aventuras de Filipe Seems, logo no ano seguinte, e dois livros mais experimentais: 'A Arte Suprema' (1997) considerado o primeiro romance gráfico português e criado em parceria com Rui Zink, e 'O Senhor Abílio' (1999) uma obra a solo, sem texto, e mais catártica, destinada como era a ajudar Gonçalves a processar as emoções inerentes a uma mudança para Londres, e que surgiu primeiramente sob a forma de tiras, num lugar algo inusitado para a criação artística – a revista 'Linhas Cruzadas', publicação interna da companhia telefónica portuguesa Portugal Telecom.

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Capa da colectânea de tiras 'O Senhor Abílio', de 1999

O novo milénio veria a carreira de Gonçalves continuar de vento em popa, com a publicação do terceiro e último volume das aventuras do detective Seems, em 2003, a abrir caminho para mais uma série de obras (a última das quais em 2018) que ajudaram a cimentar ainda mais o nome do autor entre os fãs de banda desenhada nacional. Foram, no entanto, aqueles primeiros trabalhos lançados na 'nossa' década que verdadeiramente revelaram António Jorge Gonçalves ao Mundo, pelo que se afigura mais do que justa a singela homenagem prestada nesta página àquele que é, ainda hoje, um dos maiores nomes da banda desenhada independente e contemporânea em Portugal...

01.02.22

A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.

Numa era de constantes e infindáveis descobertas tecnológicas, como foram os anos 90, não constitui de todo motivo de espanto saber que as empresas e corporações de venda de produtos e serviços procuraram, precisamente, utilizar essa tecnologia como ferramenta para mover mais unidades dos seus produtos, através do estabelecimento de uma ligação entre os mesmos e a nova vaga tecnológica, especialmente na vertente informática.

Nos anos antes do advento da Internet, e subsequente nascimento dos sites de jogos em Flash, redes sociais e outros veículos hoje indissociáveis da experiência informática corporativa, a divulgação destes produtos, e subsequente atracção de novos clientes, fazia-se de forma um pouco diferente – nomeadamente, através da criação de jogos promocionais, destinados a serem oferecidos como brindes na compra do produto, ou contra o envio de provas de compras ou outro elemento semelhante; e apesar de em Portugal esta estratégia só se ter verdadeiramente popularizado na década seguinte - nos Estados Unidos, era já prática corrente em plataformas como a Nintendo original, cuja biblioteca inclui jogos da McDonald's e Domino's Pizza - a verdade é que a mesma ainda chegou a tempo de render um ou outro exemplo bem interessante desta tendência durante os anos 90.

O jogo dos douradinhos Croustibat, 'clonado' da série 'Gobliiins!', da Sierra

De um deles, 'Croustibat' (um clone directo de 'Gobliiiins! 2', da Sierra, com gráficos e história substancialmente alterados, e cerca de quinze minutos de conteúdo jogável) já falámos no post sobre os falhados aspirantes a concorrentes dos Douradinhos lançados pela Findus, e que o jogo ajudava a divulgar junto do público jovem; existe, no entanto, pelo menos mais um jogo lembrado com saudade e carinho por quem consumia produtos alimentares destinados ao público mais jovem durante aquela época: o jogo da Nesquik, disponibilizado em disquete (!) juntamente com os produtos da popular linha da Nestlé, em 1994-95.

Infelizmente, só existe na 'net' com textos em Alemão...

Oficialmente intitulado 'Tricky Quicky', trata-se de um jogo de plataformas bem típico da época, com gráficos coloridos, ao estilo Sonic, e que oferece uns generosos quinze níveis (espalhados por cinco 'mundos') através dos quais o jogador deve comandar a mascote da marca, evitando inimigos e recolhendo bolinhas do cereal Nesquik (que pode depois utilizar para eliminar os referidos inimigos com o poder do chocolate) bem como caixas inteiras do produto, e ainda as letras da palavra Nesquik espalhadas em cada nível, bem ao estilo dos jogos de Donkey Kong da época. Não faltam, claro está, as batalhas com o 'chefe' do jogo, um cientista malvado que procura apoderar-se da receita do popular achocolatado.

Um jogo absolutamente genérico para a altura em que foi lançado, mas que usufruía do factor novidade (não era habitual os cereais de pequeno-almoço oferecerem jogos de computador, ainda menos completos) e da cara reconhecível da mascote que o protagonizava para garantir a criação de memórias entre as crianças e jovens de meados de 90.

O jogo da LEGO Bionicle oferecido com os cereais da Nestlé, em 2001

Talvez tenha mesmo sido o sucesso deste jogo que motivou as companhias a, na década seguinte, expandirem a indústria de jogos promocionais oferecidos como brinde na compra dos próprios produtos, já que o início do século XXI foi palco de diversas iniciativas deste estilo, de um jogo da série Bionicle (da LEGO) oferecido novamente com os cereais Nestlé, até um jogo de corridas com a chancela de Tony the Tiger disponível com os cereais Kellogg's, além de muitos jogos licenciados, com ligação aos principais filmes, desenhos animados e mascotes da época.

Com o passar do tempo, e o crescimento da Internet, estes jogos acabaram por encontrar o seu 'habitat' natural, como elementos em Flash nos websites e redes sociais das respectivas companhias: no entanto, para a primeira geração a crescer com computadores (e última a fazê-lo sem Internet) ficará, para sempre, na memória a sensação entusiasmante de voltar do supermercado com os pais, abrir a caixa de barrinhas de pescada ou cereais para pequeno-almoço acabada de adquirir, e encontrar como brinde um jogo de computador completo, prontinho a ser explorado no PC lá de casa numa tarde de fim-de-semana...

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