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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

10.05.22

A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.

Quando se fala em jogos de tiros em primeira pessoa (os famosos 'first-person-shooters', ou FPS) do início dos anos 90, a maioria das pessoas daquela geração pensa, imediatamente, no incontornável 'Doom', o título que colocou a ID Software no mapa como criadora de jogos desse tipo; os restantes, no entanto (sobretudo aqueles que tinham um PC menos avançado) recordarão, sobretudo, o outro grande clássico dos primórdios do género, que celebra por estes dias exactos trinta anos sobre o seu lançamento – o não menos seminal 'Wolfenstein 3D'.

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O lendário ecrã inicial do jogo

Desenvolvido pela mesma ID (é, aliás, considerado por muitos como uma espécie de 'ensaio' para 'Doom') e distribuído pela rainha do 'shareware' noventista, a Apogee, Wolf3D (como é carinhosamente conhecido devido ao nome do ficheiro executável que o lançava) destaca-se do seu irmão mais novo por apresentar uma trama (ou antes, um pretexto para a violência) com bastante mais base na realidade: onde 'Doom' põe o jogador no papel de um fuzileiro espacial a eliminar extraterrestres, Wolfenstein propõe-lhe encarnar um mercenário encarregue de infiltrar o homónimo castelo nazi, o qual se encontra fortemente guardado por soldados e até cães.

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A imagética nazi está fortemente presente ao longo de todo o jogo

O que isto significa, em termos práticos, é que em vez de eliminar monstros em cenários futuristas, o jogador dá por si a eliminar seres humanos (e cães, não esquecer os cães) em corredores cujas paredes se encontram decoradas com cruzes suásticas e retratos de Hitler – uma escolha que, três décadas depois, continua a ter o seu 'quê' de controverso. A vertente futurista (e algo 'parva´) só entra mesmo em jogo com o chefe final do primeiro episódio, que não destoaria num jogo de Duke Nukem (os episódios seguintes introduzem soldados mortos-vivos e Monstros de Frankenstein, entre outras coisas igualmente intelectuais, mas a maioria dos jogadores da época apenas terá completado o primeiro dos seis, um de apenas dois lançados em 'shareware', ou seja, de graça.)

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Não, não é montagem nem modificação gráfica - o chefe final do primeiro episódio é literalmente Hitler a bordo de um fato-robot tipo 'mech'

Tirando esta vertente mais realista, Wolf3D implementa todos os elementos que, mais tarde, viriam a permitir reconhecer um jogo da ID, desde a animação do personagem na barra de saúde às designações humorísticas dadas a cada nível de dificuldade, uma arte que viria a atingir o seu apogeu em Duke Nukem 3D, quatro anos depois. A jogabilidade, embora menos polida e frenética que a de 'Doom', é excelente – sobretudo para uma época em que os jogos tendiam a ser algo 'presos de movimentos' – e apesar da pouca variedade entre níveis, a quantidade de segredos, atalhos e passagens secretas a descobrir em cada um deles garante a longevidade de cada episódio.

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O pouco conhecido segundo episódio da série troca os soldados das SS por zombies e Monstros de Frankenstein.

Em suma, apesar de, na era dos jogos fotorrealistas, este pioneiro parecer uma curiosidade pitoresca de tão primitiva, há que recordar que constituiu a primeira tentativa de fazer um jogo deste tipo, e foi responsável pela implementação de muitas das regras, sistemas e clichés que informariam o género durante a década seguinte - para além de ter dado azo a várias sequelas nas consolas de nova geração. Só por isso, o 'Sexta-Feira, 13' dos 'first-person-shooters' já mereceria esta homenagem de aniversário algo atrasada; o facto de se tratar, efectivamente, de um excelente jogo (que ainda pode ser jogado no Steam) é apenas a cereja no topo do bolo...

13.04.22

NOTA: Este post é respeitante a Terça-feira, 12 de Abril de 2022.

A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.

E numa altura em que as salas de cinema nacionais e internacionais acolhem o segundo filme em 'acção real' de Sonic, o porco-espinho azul que é mascote da Sega desde finais da década de 80, nada melhor do que recordarmos o(s) jogo(s) homónimos do filme, e que em certa medida o inspiraram.

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Capas das três versões do jogo

Lançado em 1992, dois anos depois do popularíssimo original (que, em Portugal, era normalmente oferecido na compra de uma Mega Drive, garantindo-lhe um lugar na colecção da maioria das crianças e jovens que possuiam a consola), 'Sonic the Hedgehog 2' tem a distinção de ter sido um dos últimos títulos lançados para a moribunda Master System, a primeira consola caseira da Sega, à época largamente suplantada pela sucessora de 16-bits, que também recebia uma versão do jogo. A terceira e última variante surgia na Game Gear, a portátil que então ainda se pensava poder competir com o Game Boy, da Nintendo.

Ao contrário do primeiro jogo, no entanto - em que a versão para Master System pouco mais era do que uma variação mais simplista da 'irmã mais velha' para Mega Drive - o segundo título do porco-espinho azul destacava-se pelo facto de cada uma das três versões ser marcadamente diferenciada das restantes; os elementos-base mantinham-se os mesmos (como a estrutura de tipo 'plataforma', os anéis que, em número suficiente, davam uma vida extra, os 'power-ups' ou a introdução da raposinha Tails) mas cada um dos três jogos tinha elementos distintos que lhe davam uma identidade própria, como os níveis em que Sonic pilota carrinhos de mina ou asa-deltas, os 'bosses' e as habilidades extra das versões 8-bits ou os níveis pseudo-3D e a possibilidade de uma experiência a dois jogadores do título de 16-bit, com o segundo jogador a assumir o controlo de Tails. Apesar de a essência do jogo se manter a mesma, estas subtis mas significativas diferenças tornavam os títulos de 8 e 16 bits suficientemente diferentes para quase contarem como dois jogos distintos, ambos muito bem recebidos tanto pela imprensa especializada como pelos próprios 'gamers'.

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As versões 8-bits do jogo (esquerda e centro) tinham níveis com elementos distintos, não presentes na de 16-bits (direita) - que, em contrapartida, permitia o jogo a dois.

Hoje, praticamente 30 anos após o seu lançamento, ambas as versões de 'Sonic the Hedgehog 2' continuam a constituir excelentes experiências de 'retro-gaming', com gráficos agradáveis, jogabilidade cuidada e intuitiva, e (pelo menos na versão 16-bit) uma excelente banda-sonora. E embora ambos os titulos representem, talvez, o apogeu da carreira da mascote supersónica da Sega, a mesma conseguiria, de uma forma ou de outra, manter-se relevante durante outras três décadas - proeza a que nenhuma outra mascote da Sega conseguiria almejar, e que esteve, durante esse período, apenas ao alcance de outros 'escolhidos', a maioria criada pela Nintendo. A estreia do (já segundo) filme do porco-espinho (tendo o primeiro sido surpreendentemente bem recebido) é apenas mais uma prova da longevidade da franquia Sonic, grande parte de cujo sucesso se deve à qualidade e popularidade dos primeiros dois jogos...

05.04.22

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Há alguns meses atrás, falámos aqui do Lecas, o personagem 'criança grande' que, em finais da década de 80 e inícios de 90, apresentava a sua Hora homónima, e que se tornou tão popular que chegou a gravar e editar um disco de músicas originais; hoje, vamos falar do próximo projecto abraçado pelo homem que o criara e lhe vestira a pele durante vários anos – o apresentador José Jorge Duarte.

Em estado de graça entre o público infantil, como resultado do seu estilo hiperactivo e energético de actuar enquanto Lecas, Duarte decidiu, em 1991, despir o 'fato' de personagem, e tentar a sua sorte em nome próprio, e num formato diferente: enquanto que a 'Hora do Lecas' era um programa de variedades com foco na apresentação de desenhos animados, o novo projecto seria um concurso de moldes clássicos. Em comum, os dois programas tinham, apenas, o facto de serem gravados em auditório, e dirigidos a um público infanto-juvenil, aquele que mais facilmente reconheceria o nome do apresentador, e teria interesse numa emissão por ele apresentada.

O resultado final deste desiderato foi 'Tal Pai, Tal Filho', concurso produzido pela Duvídeo, de Teresa Guilherme, e estreado na mesma RTP d''A Hora', menos de um ano depois de a mesma ter saído do ar - um 'timing' presumivelmente destinado a evitar que o nome de Duarte se esvaísse da sempre efémera memória das crianças.

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Com muitas semelhanças com outros concursos da época, como a mítica 'Arca de Noé' – então no pico da popularidade, e que adoptaria um formato semelhante para as suas últimas temporadas, apresentadas por outro ícone da televisão infantil da época – 'Tal Pai, Tal Filho' via equipas de um adulto e uma criança (normalmente familiar ou amiga) competir entre si em provas de cariz criativo e cultural, que iam desde criar um conto a cantar uma música ou representar uma peça de teatro.

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O apresentador, junto ao quadro com as diferentes categorias de provas disponíveis

A julgar cada 'performance' estava um júri de celebridades e respectivos mini-companheiros (também eles familiares ou amigos próximos dos jurados), cujas classificações numéricas de 0 a 10 perfaziam o total de pontos de cada equipa. No final, a equipa vencedora tinha direito a escolher entre uma série de prémios bastante típicos dos concursos da época e, na altura, incrivelmente aliciantes, desde viagens a computadores e outros produtos electrónicos. Pelo meio, havia ainda lugar aos interlúdios musicais típicos deste tipo de programa à época.

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Um típico painel de jurados do programa

Nada de incrivelmente inovador, portanto, mas suficiente para satisfazer o público-alvo, para quem o conceito interessante e um Duarte tão energético como sempre (já para não falar do tema inicial, daqueles tão 'peganhentos' que por aqui, ainda é parcialmente recordado três décadas depois) eram suficientes para justificar a hora passada à frente da televisão – embora não chegassem para manter o concurso no ar mais do que um ano.

Sim, 'Tal Pai, Tal Filho' foi mais um de entre vários concursos noventistas a desaparecer das televisões portuguesas tão rapidamente quanto tinha surgido; no caso, foram 41 emissões semanais, entre Outubro de 1991 e Agosto do ano seguinte, uma marca bem aquém da referida Arca de Noé (que se manteria no ar mais três anos, estabelecendo-se como o programa de concursos infantil mais duradouro da época) e mais condicente com emissões tão Esquecidas Pela Net como o Trocado em Miúdos (do qual, em tempo, também aqui falaremos.)

Ainda assim, para quem viu e fazia parte da demografia-alvo, tratou-se de um programa bem conseguido, que tentou afirmar-se por mais do que apenas o nome do apresentador, missão que, de um certo prisma, se pode dizer ter sido cumprida – ainda que não de forma tão longeva quanto, presume-se, teria sido desejável para a direcção da RTP. O referido apresentador, esse, transitaria para novos e mais altos vôos, nem todos direccionados ao sector infanto-juvenil (embora os mais famosos definitivamente o sejam). Desses, talvez um dia falemos; para já, e para quem não viu ou quiser matar saudades, partilhamos abaixo o único episódio de 'Tal Pai, Tal Filho' disponível online, para que os nossos leitores tirem as suas próprias conclusões sobre se o mesmo merecia ou não ter permanecido mais tempo no ar...

21.03.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Quando amanheces

Logo no aaaaarrr

Se agita a luz, sem querer

E MESMO O DIA!

VEM DE-VA-GAR!

PA-RA-TE-VE-EEEERRR...

Quem, nos anos de 1992 ou 1997, não cantou estas mesmas palavras (ou outras aproximadas), com estes mesmos arroubos e ênfases, e numa voz pseudo-rouca a tentar imitar – e, ao mesmo tempo, gozar com - a do cantor original, está neste momento no blog errado, pois será quase de certeza demasiado velho ou demasiado novo para ter vivido o momento específico a que o mesmo se refere.

Os outros, aqueles que se lembram do quão enorme foi a música a que esta letra se refere, certamente já pararam de ler durante uns momentos para completar a sua rendição da mesma, com o 'exagerómetro' ainda mais declaradamente no máximo – a única maneira aceitável de se cantar esse clássico da radiofonia 'brega' noventista chamado 'Jardins Proibidos'.

Sim, esses mesmos – os que deram título a uma das primeiras grandes telenovelas 'made in Portugal', e que mesmo antes disso já haviam ganho um segundo fôlego derivado de uma re-gravação em formato de dueto, com o cantor original Paulo Gonzo a fazer parelha com Olavo Bilac, dos na altura não menos enormes Santos & Pecadores. É essa, aliás, a versão que a maioria das crianças em idade escolar na metade final dos 90's recordará, e terá parodiado vezes sem conta no pátio da escola – até por a mesma ter sido um dos temas mais tocados nas rádios portuguesas durante esse ano, tendo como único rival 'Dei-te Quase Tudo', tema interpretado por....Paulo Gonzo!

E já ren-di-do

Vê-te-che-gaaaaar

Nesse ou-tro mun-do

Só teu

Onde-eu-que-RIA!

En-trar-um-DIA!

P'RA ME PER-DE-EEEERRRRR...!

Sim, é justo dizer que, três anos antes do fim do Segundo Milénio, Alberto Ferreira Paulo (mais vulgarmente conhecido por uma alcunha inspirada nos Marretas, que acabou por virar nome artístico) era o nome maior da música popular portuguesa, pelo menos na vertente não-pimba - embora, em abono da verdade, o seu som fosse adjacente à vertente mais romântica desse género. Embora a sua carreira fosse já longa, e extremamente bem sucedida – o seu primeiro disco em português, onde se incluía a versão original de 'Jardins', havia já apresentado volumes de vendas impressionantes – foi com a segunda versão do seu grande 'hit', e o álbum a que servia de avanço, o quintuplatinado (!) 'Quase Tudo', que Paulo Gonzo adquiriu, verdadeiramente, o estatuto de celebridade da música portuguesa, atingindo aquele grau de popularidade que quase torna um artista num 'meme' de carne e osso. De facto, em 1997, ainda a mais de uma década da invenção do termo ou mesmo do advento da Internet 2.0, já Paulo Gonzo era um 'meme' – conhecido por todos, gozado por muitos, e icónico em diversos sectores da sociedade, embora por motivos distintos.

Mais surpreendente é perceber que a carreira do homem que muitos consideram uma das principais figuras da música romântica portuguesa de finais dos anos 90 já conhecera um primeiro pico de sucesso, ainda na década de 70, como integrante da Go Graal Blues Band, um seminal colectivo de...blues -rock!

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A Go Graal Blues Band. Paulo Gonzo é o primeiro à esquerda.

No total, foram quatro discos com a banda, antes de uma audição lhe render uma nova alcunha, e um novo rumo para a carreira – primeiro com letras em inglês e algumas re-interpretações de clássicos do 'soul' e R'n'B, e mais tarde com declarada propensão romântica e letras em português. Seria esta última fase que o posicionaria como figura de proa de um certo movimento musical português, granjeando-lhe desde prémios na cerimónia anual do conceituado jornal 'Blitz' até colaborações com Pedro Abrunhosa (outro 'gigante' de vendas da época) e, já no novo milénio, a honra de compôr o tema oficial de apoio à Selecção Portuguesa de futebol, em pleno pico do período hegemónico da Geração de Ouro. E embora muitos destes feitos tenham sido conseguidos antes, e independentemente, do sucesso de 'Jardins Proibidos', não há dúvida de que o referido tema ajudou a catapultar uma já honrosa carreira para um patamar totalmente diferente.

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Paulo Gonzo, na época do auge do sucesso

No novo milénio, e apesar de se manter tão activo como sempre, Paulo Gonzo perdeu muita da relevância que havia tido nos anos finais do século XX. À medida que 'Jardins Proibidos' se desvanecia da consciência popular, com o fim da novela, o artista lisboeta passou a ser apenas 'mais uma' das 'caras conhecidas' da música portuguesa, sem jamais ter recuperado o estatuto de verdadeira super-estrela de que gozou naquele período de alguns anos em que a sua música-estandarte era o tema mais ouvido nos lares médios portugueses. Para a geração que presenciou esse momento cultural, no entanto, haverá sempre uma determinada melodia e conjunto de palavras que desencadearão, infalivelmente, uma torrente de memórias, e um reflexo condicionado – o de entoar a plenos pulmões, com voz rouca e pseudo-torturada e muitos esgares faciais, o resto da malfadada letra.

P'RA ME PER-DERRRR

NE-SSES RE-CAN-TOOOOS

ON-DE TU AN-DAS, SO-ZI-NHA. SEM MIM!

ARDO EM CIÚ-ME

NESSE JARDIIIIIIM...

04.03.22

NOTA: Para celebrar a estreia, esta sexta-feira, do novo filme de Batman, todos os 'posts' desta semana serão dedicados ao Homem-Morcego.

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Hoje, 4 de Março de 2022, assinala-se a chegada às salas de cinema de todo o Mundo de um novo filme de Batman, o Homem-Morcego – no caso, o quinto, primeiro desde há mais de uma década, e primeiro com Robert Pattinson no papel do justiceiro e milionário Bruce Wayne, em substituição de Ben Affleck; para comemorar esta efeméride, e terminar da melhor maneira uma semana em que temos vindo a recordar a época de auge de popularidade para o Cavaleiro das Trevas, iremos dedicar a Sessão desta Sexta a recordar os filmes que lançaram a carreira do herói de Gotham no grande ecrã, precisamente durante a década de 90.

De facto, apesar de ter havido, nos anos 60, uma tentativa de transformar em filme de longa-metragem a impagável série televisiva do Homem-Morcego (tendo o filme subsequente sido responsável por apresentar ao Mundo a engenhoca mais mirabolante do cinto de utilidades do herói, o Bat-Repelente para Tubarões) a maioria dos cinéfilos e fãs de super-heróis de banda desenhada considera como ponto de partida da carreira de Batman no cinema o filme homónimo, realizado e lançado em 1989, mas chegado à maioria dos países europeus apenas no ano seguinte, mesmo no dealbar de uma nova década. Com realização a cargo de Tim Burton, música da autoria de Prince, e uma campanha publicitária adequadamente milionária a gerar interesse garantido, 'Batman' (o filme) ajudou a provar que havia interesse num filme sobre um super-herói, e imbuiu o estilo de uma muito necessária dignidade, que dificilmente se encontrava em obras concorrentes mas de orçamentos comparativamente microscópicos, como o fraquinho 'Capitão América', do mesmo ano.

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Detentor de uma estética em tudo fiel à dos 'comics' do herói, inspirada no período da Lei Seca norte-americana, e imbuída das sensibilidades góticas de Burton - então ainda longe dos excessos 'Technicolor' que marcariam a fase posterior da sua carreira – o 'Batman' de 1989-90 é um filme surpreendentemente sombrio (pelo menos tendo em conta o público a que supostamente se destinava) e que consegue balancear na perfeição aspectos de policial 'noir' com aquilo que se poderia esperar de uma adaptação para o cinema das aventuras de um herói de banda desenhada, Apesar da escolha de Michael Keaton como Batman requerer alguma suspensão do cepticismo (é melhor não perguntar de onde surgem aqueles centímetros extra quando o 'baixote' Wayne põe o fato), o filme justifica a sua boa reputação, contando com uma realização previsivelmente personalizada e actuações de alto calibre, com destaque para Jack Nicholson, que 'rouba a cena' como Jack Napier, mais tarde conhecido como Joker. Àparte alguns aspectos mais simplistas, típicos da época (como a relação quase instantânea entre o Wayne de Keaton e uma Kim Basinger no auge da beleza) o filme continua a afirmar-se como uma excelente forma de passar duas horas numa noite de fim-de-semana, tendo resistido bastante bem ao passar das décadas.

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O mesmo, aliás, pode ser dito da sua sequela directa. Lançado em 1992, e de novo com Burton ao comando e Keaton como Bruce Wayne (tornando-o o único actor a envergar o fato do herói por dois filmes consecutivos até à chegada de Christian Bale, quinze anos depois) 'Batman Regressa' é, se possível, ainda mais escuro e sombrio que o seu antecessor a nível visual, com uma Gotham invernal, sempre coberta de neve, semi-escondida nas sombras, e tudo menos acolhedora, como que a dar valência ao argumento de que, lá porque um filme se passa na altura do Natal, não significa que seja, necessariamente, natalício (referimo-nos, claro, ao eterno debate sobre 'Assalto ao Arranha-Céus', sobre o qual demarcamos aqui a nossa posição.)

É neste mundo de sombras que se movem tanto o Cavaleiro das Trevas como dois vilões que nada ficam a dever a Joker, e que voltam a constituir o melhor aspecto do filme: uma sensualíssima Michelle Pfeiffer como Selina Kyle, a Mulher-Gato, e Danny DeVito como Oswald Cobblepot, o Pinguim, numa daquelas acções de 'casting' tão óbvias e perfeitas que chega a custar a acreditar serem reais. Mais uma vez, todos os três personagens são interpretados de forma magistral, justificando a colocação deste filme ao mesmo nível do seu antecessor por parte da maioria dos fãs do Homem-Morcego, e garantindo ao mesmo uma carreira cinematográfica ao mais alto nível na primeira metade da década.

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Infelizmente, desse ponto para a frente, o percurso de Batman no cinema far-se-ia em sentido descendente, pelo menos no que toca aos anos 90. Apesar de o sucesso de 'Regressa' ter aberto a porta a um terceiro filme, o mesmo – intitulado 'Batman Para Sempre' e lançado em 1995 - já não contaria com o contributo de Burton, que seria substituído por um realizador de características substancialmente diferentes, e algo menos talentoso, Joel Schumacher. De igual modo, Keaton cedia o fato do Homem-Morcego a Val Kilmer, até hoje o único Bruce Wayne loiro, e sem dúvida o que menos se assemelhava fisicamente ao personagem das BD's. Pior, a escolha de Kilmer representou um decréscimo considerável ao nível da representação, ainda para mais tendo em conta o calibre dos seus coadjuvantes, que eram compostos, mais uma vez, por uma loira sensual (desta vez, Nicole Kidman) e dois vilões cheios de personalidade e que 'roubam' o filme ao protagonisa – o que, tendo em conta que o mesmo se trata de Val Kilmer e que os vilões são interpretados por Tommy Lee Jones e um Jim Carrey no auge da fama e totalmente em modo 'caretas e negaças', é uma tarefa ainda mais fácil do que em capítulos anteriores.

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Os dois impagáveis vilões, talvez o principal ponto alto de 'Batman Para Sempre'

A principal pecha de 'Batman Para Sempre' não é, no entanto, a mudança de protagonista, mas antes o guião e abordagem algo mais 'infantilizados' do que antes – como o demonstra a presença de Carrey, então super-popular entre as crianças pelas suas interpretações de Ace Ventura e Stanley Ipkiss, A Máscara, e cujo Riddler constitui um 'boneco' bastante semelhante. A introdução de Robin, vivido por Chris O'Donnell, é mais uma aparente concessão ao público infanto-juvenil, tendo em conta a atitude de adolescente rebelde de que o personagem é imbuído, e os muitos momentos de (mau) diálogo 'espertalhão' que partilha com Batman.

Ainda assim, e apesar dos seus defeitos, 'Para Sempre' marcou época com uma determinada geração, demasiado nova para ter visto os Batmans de Burton, e para quem este filme era, portanto, o primeiro contacto com o Homem-Morcego; para esses (entre os quais nos contamos) o filme foi um 'acontecimento', e terá constado na lista de favoritos durante pelo menos alguns meses, até ao lançamento do próximo filme da Disney. Hoje em dia, o terceiro filme de Batman é tido como apenas mediano, longe do brilho dos dois primeiros, mas ainda assim muito melhor do que aquilo que se lhe seguiria.

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E aquilo que se lhe seguiria, em 1997, era provavelmente o mais incompreendido e erroneamente interpretado de todos os filmes do Cavaleiro das Trevas. Novamente realizado por Joel Schumacher (os realizadores dos filmes do Morcego eram bem mais constantes do que os actores escolhidos para o protagonizar) 'Batman & Robin' leva a série ainda mais declaradamente para a arena dos filmes para crianças, com diálogos repletos de frases-feitas e ápartes cómicos, e uma estrela (de)cadente (mas ainda reconhecível pelo público-alvo) no papel de vilão – desta feita o Exterminador Implacável em pessoa, Arnold Schwarzenegger, numa acção de 'casting' cómica de tão incompreensível. A seu lado está uma irreconhecível Uma Thurman, que o ajuda a fazer frente a O'Donnell, Alicia Silverstone (outra nova adição ao elenco, no papel de Batgirl) e George Clooney, mais um Bruce Wayne 'baixote' e munido de apetrechos algo insólitos, como mamilos de borracha no fato (…?) e um Bat-Cartão de Crédito, um dos alvos mais famosos de Doug Walker na sua série Nostalgia Critic (mas que, ainda assim, faz mais sentido do que Bat-Repelente para Tubarões, especialmente tendo em conta que Batman é, efectivamente, milionário.) E o mínimo que se pode dizer é que os dois vilões fazem jus aos seus antecessores, divertindo-se visivelmente com papéis que foram escritos para jogar com os seus pontos fortes (o diálogo de Schwarzenegger é quase totalmente constituído por frases de efeito.)

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Alicia Silverstone/Batgirl, a principal adição ao elenco de 'Batman & Robin'

Quanto ao filme em si, o mesmo procura prestar homenagem aos recursos limitados e ambiente 'fatela' da série dos anos 60, conforme ilustrado pelos cenários propositadamente pouco convincentes e diálogos em modo 'tão mau que é bom'. Se 'Para Sempre' representara já um distanciamento da seriedade sombria dos filmes de Burton. 'Batman & Robin' afasta-se ainda mais na direcção oposta, servindo como a representação mais próxima de uma banda desenhada desde o filme dos anos 60. Talvez por isso seja visto como não só, de longe, o pior dos filmes do herói da DC (que é, confortavelmente) mas também um dos piores filmes de todos os tempos – título algo hiperbólico e que, convenhamos, não chega a merecer.

Ainda assim, a recepção a este quarto capítulo das aventuras do Vingador Mascarado foi negativa o suficiente para colocar a sua carreira cinematográfica no limbo durante quase exactamente uma década; a próxima aparição do Morcego no grande ecrã dar-se-ia já no novo milénio, com toda uma geração que não tinha vivido os filmes originais pronta a acolher de braços abertos o herói de Gotham City. Essa história (que acaba de ter continuidade) já fica, no entanto, fora do âmbito deste blog, pelo que esta Bat-retrospectiva (e a Bat-semana em geral) se fica, por agora, por aqui.

22.02.22

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Depois de há duas semanas termos falado dos dois LP's de músicas alusivas ao programa Arca de Noé (e, devido a uma mudança de planos de última hora, termos tido de adiar o presente post outro tanto) chega finalmente a altura de falarmos de um dos mais populares concursos, e programas infantis em geral, da primeira metade dos anos 90. E porque só há uma maneira de introduzir um artigo sobre este programa, comecemos, desde já, da maneira correcta – com o absolutamente lendário tema de abertura, um dos melhores de sempre da televisão portuguesa, e que qualquer criança ou jovem da época ainda será capaz de cantar quase de cor (e cuja letra, saliente-se, também servia na perfeição como insulto de recreio...)

Quem resistir a cantar isto, é mais forte do que nós...

Ultrapassada esta inevitável formalidade, falemos agora do concurso propriamente dito. Estreado logo no dealbar da década, e transmitido primeiro na RTP2 e, mais tarde, no então Canal 1, 'Arca de Noé´ adaptava um formato japonês, criado duas décadas antes, e que rapidamente atingiu sucesso mundial. Gravado no antigo Cinema Europa, em Lisboa, o programa tinha por base um formato muito simples e com uma estrutura clássica: quatro concorrentes – dos quais um era sempre uma figura pública - eram sujeitos a várias rondas de perguntas sobre animais, a maioria das quais baseadas num apoio visual, normalmente um vídeo pausado na altura certa, tendo os concorrentes que adivinhar qual o comportamento que o animal em causa adoptaria a seguir. O concorrente que mais perguntas acertasse ganharia o grande prémio de 250.000 escudos (cerca de 1250 euros), sendo que se o vencedor fosse a figura pública convidada, este valor reverteria na totalidade para uma instituição de apoio aos animais ou à vida selvagem (na verdade, a maioria dos participantes doava parte da sua bolsa a uma entidade deste âmbito, quase sempre o Jardim Zoológico de Lisboa.) Para além do conflito central, o programa ficava também marcado por segmentos de entrevista a tratadores e especialistas em animais (normalmente acompanhados dos mesmos, para gáudio das crianças em estúdio e a assistir em casa) e números musicais, interpretados ao vivo pelo responsável pela música do programa (e também favorito das crianças), Carlos Alberto Moniz, ou por um convidado especial.

Deste formato, adoptado durante as primeiras três temporadas do programa, é quase sinónima a carismática apresentação de Fialho Gouveia, um daqueles anfitriões da velha escola que sabia falar a um público jovem sem nunca ser condescendente – uma qualidade que partilhava com outras 'lendas' infanto-juvenis da época, como Júlio Isidro, ou o próprio Moniz, o qual viria, mais tarde, a tomar o seu lugar para a última temporada do programa. A seu lado, a também icónica e carismática Maria Arlene, a tradicional assistente comum a tantos concursos da mesma época, e que neste caso era responsável por marcar a pontuação dos concorrentes com bonecos das mascotes do programa – primeiro o Vitinho, da Milupa, e mais tarde os Orelhudos, então 'caras' dos iogurtes Mimosa.

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Os carismáticos anfitriões (e mascote) do programa

Foi assim até 1994, ano em que teria lugar uma mudança de formato, assinalada também por uma mudança na apresentação, que passava a caber a uma mulher, Ana do Carmo; nesta nova fase, os concorrentes eram três pares de um adulto e uma criança, já sem a presença de quaisquer figuras públicas, mantendo-se as regras e o restante ambiente basicamente inalterados. Já a quinta e última temporada era palco de nova mudança, com o programa a render-se finalmente e totalmente ao seu público-alvo: o cenário 'infantilizava-se', com cores mais vibrantes e adereços a imitar um barco (ou Arca), as equipas passavam a ser constituídas exclusivamente por crianças entre os 8 e os 12 anos, e a apresentação ficava a cargo de Carlos Alberto Moniz, que acumulava assim funções e se tornava a figura central do programa, apenas alguns meses antes de 'emigrar' para uma 'Casa' nos arredores de Lisboa, onde continuaria a conquistar o coração das crianças durante mais alguns anos.

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Uma emissão com Ana do Carmo como apresentadora

Quando saiu finalmente do ar, em Setembro de 1995, a 'Arca de Noé' havia marcado toda uma geração de crianças portuguesas, sendo parcial ou totalmente responsável pelo interesse generalizado que a miudagem da época desenvolveu por animais. E com bom motivo – o programa soube pegar num tema que, já de si, interessava ao seu público-alvo, e introduzi-lo num contexto igualmente apelativo para essa demografia (o da competição televisiva) criando uma receita praticamente perfeita para um programa de televisão infanto-juvenil, que, até hoje (mais de trinta anos após a estreia do concurso) poucas outras propostas souberam igualar, e ainda menos superar. E, convenhamos, AQUELE tema de abertura também ajudava.... 'VAMOS FAZER AMIIIIGOS, ENTRE OS A-NI-MAAAIS...!'

07.02.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Nos anos 90, como em décadas anteriores, ver ser lançado um disco relativo a um qualquer programa de grande popularidade entre os jovens não era nada de novo. Tal como acontecia com o cinema, e as respectivas bandas sonoras com músicas 'constantes ou inspiradas' no filme em causa, a produção musical era vista como apenas mais um de muitos meios possíveis para facturar com um determinado produto mediático, comparável a aspectos como o vestuário (oficial ou pirata), os brinquedos ou os jogos de computador; e a verdade é que - de programas 'de auditório' com apresentadores carismáticos, como o Buereré, o Batatoon, a Hora do Lecas ou o Muita Lôco, até programas educativos como a Rua Sésamo, ou mesmo alternativas menos óbvias, como as animações d'Os Patinhos ou (reza a lenda) o Dragon Ball Z - foram muitos e bem variados os programas que beneficiaram desta estratégia em Portugal durante aquela época.

Menos comum, no entanto, era ver lançamentos discográficos associados a concursos televisivos, o que não deixa, bem vistas as coisas, de fazer sentido; afinal, é difícil imaginar um álbum de canções baseado na Amiga Olga ou na Roda da Sorte, por exemplo. No entanto, na década a que este blog diz respeito, houve pelo menos um exemplo dessa estratégia a ser aplicada a um programa deste tipo, nomeadamente, os dois LP's com músicas retiradas do programa 'Arca de Noé'.

Verdade seja dita, a 'Arca de Noé', da qual aqui falaremos muito em breve, prestava-se melhor a este tipo de empreitada do que a maioria dos outros concursos, não só por ser declaradamente dirigida ao público infanto-juvenil, como por ser apresentado por Carlos Alberto Moniz, mais tarde também conhecido como Tio Carlos, dono de uma Casa num canal rival, e já na altura um conceituado compositor de músicas para crianças. A junção destes factores – a demografia-alvo do programa e o talento do apresentador – resultou, naturalmente, na produção de vários temas musicais centrados em torno do tema do programa, a saber, os animais e a vida selvagem.

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Foram estes temas, num total de catorze – já contando com duas repeitições do memorável e contagiante genérico do programa, a abrir e a fechar, tal como na televisão – que perfizeram o alinhamento do primeiro LP da 'Arca de Noé', lançado mesmo no dealbar da nova década pela editora Ariola, e que contava com a presença, na capa, do Vitinho, mascote da Milupa, marca associada ao programa na qualidade de patrocinador. Não que o disco precisasse desta 'recomendação' extra para ser, previsivelmente, um sucesso de vendas entre a criançada, vinculado como estava a um dos mais populares programas infantis portugueses da altura.

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Como também seria de esperar, a boa prestação deste primeiro álbum no mercado levou à produção de uma mais que natural sequela. Lançado dois anos depois do original – e com o sucesso do programa-pai ainda no auge, o que diz muito sobre a aceitação do mesmo entre o público-alvo – 'Arca de Noé 2' seguia exactamente os princípios de uma boa sequela, do título óbvio e pouco original à filosofia 'mais e maior', que via duplicar o número de discos deste segundo capítulo, e expandir-se o número de músicas de catorze para vinte e quatro (seis por lado de cada um dos LP's), mais uma vez precedidas e antecedidas por duas repetições do tema-genérico do programa. Ao contrário da maioria das sequelas, no entanto, neste caso o segundo capítulo tinha tanta qualidade como o primeiro, e os volumes de vendas voltaram a reflecti-lo, com o público-alvo novamente a aderir à proposta de Moniz e companhia.

Como disse em tempos George Harrison, no entanto, 'tudo deve passar', e o ciclo da 'Arca de Noé' como ponto alto das tardes de semana das crianças dos anos 90 acabou mesmo por chegar ao fim, antes que o apresentador e respectiva equipa de produção pudessem conceber um terceiro volume de músicas alusivas ao programa. Ainda assim, os dois LP's lançados constituem um excelente exemplo de música infantil de qualidade produzida em Portugal durante aqueles anos, exibindo uma vertente menos simplista e comercial que um título como 'As Canções do Lecas', sem por isso serem menos memoráveis ou atractivas para o seu público-alvo; no fundo, os mesmos princípios que haviam tornado o programa-pai num dos maiores êxitos da televisão infantil de inícios daquela década, ainda hoje lembrado com carinho por quem a ele assistiu. Desse aspecto, no entanto, falaremos num próximo post; até lá, aqui fica um dos melhores temas de qualquer dos álbuns, para vos animar a noite...

28.12.21

NOTA: Devido à relevância temporal específica do tema abordado no post de hoje, iremos excepcionalmente trocar a ordem das Terças Tecnológicas e Terças de TV. Os posts sobre tecnologia regressam no novo ano - para já, desfrutem deste post sobre um dos programas de passagem de ano mais marcantes dos anos 90.

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Quem passou 'reveillons' e noites de passagem de ano em casa durante os anos 90 e 2000 (fosse por escolha ou por motivos de idade ou falta de pecúlio monetário), certamente se habituou a passá-las na companhia de Herman José. O humorista, que à época gozava de estatuto de figura maior no campo do entretenimento televisivo 'made in Portugal', conseguiu que a sua imagem ficasse, também, associada à produção televisiva específica para esta noite especial.

Esta associação,cimentada em anos subsequentes por espectáculos especiais das mais diversas índoles, teve a sua génese logo no início da década, altura em que Herman e a sua 'entourage' habitual (que ainda hoje mantém) lançaram aquele que é talvez a mais memorável de todas as produções de Ano Novo elaboradas pelo grupo: o inesquecível Especial de Ano Novo conhecido como Hermanias.

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Com génese no programa semanal do mesmo nome, exibido em meados dos anos 80 mas já de há muito extinto à época desta transmissão em particular, o Hermanias Especial de Ano Novo (que completa nesta noite de fim de ano exactos 30 anos) reviveu o nome por apenas uma noite, associando-o a um programa de humor ao estilo 'sketch' bem característico do que Herman e companhia vinham apresentado à época, e apresentariam ao longo da década seguinte.

Utilizando um espectáculo de Tony Silva (o famoso personagem de 'entertainer' latino do humorista) como elo de ligação entre os diferentes 'sketches', que não partilham de outro modo qualquer contexto, Hermanias Especial de Ano Novo apresenta todos os personagens mais famosos criados por Herman até à data, como José Severino ou José Estebes, e continha muitos momentos memoráveis, como a rábula da poetisa (com Rosa Lobato de Faria a troçar de si própria de forma magnífica) ou um falso anúncio tão convincente que pôs este que vos escreve, do alto dos seus seis anos, a pedir para ir ver o suposto espectáculo anunciado, aparentemente dirigido a crianças mas na verdade...de strip-tease! Entre todos estes momentos, do calibre a que Herman e companhia haviam habituado os seus espectadores da época, as horas até à passagem de ano 'voaram', e foi quase com pesar que os referidos espectadores viram terminar aquele que foi um dos mais memoráveis espectáculos de fim de ano da década - e, para dizer a verdade, também desde então.

Infelizmente, e apesar de Herman José (conforme referido acima) ter apresentado vários outros espectáculos de 'reveillon' ao longo da época, o momento criado por 'Hermanias' não mais se viria a repetir - pelo contrário, Herman permaneceria afastado da escrita humorística durante grande parte da década, antes de efectuar um dos regressos mais memoráveis e marcantes da televisão portuguesa. Desse, no entanto, falaremos noutra ocasião; para já, fiquem com algumas amostras daquilo de que os espectadores puderam disfrutar na passagem de ano de 1991 para 1992...

13.10.21

NOTA: Este post corresponde a Terça-feira, 12 de Outubro de 2021.

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

O aparecimento da SIC, em 1992, representava uma revolução no mercado televisivo português. Enquanto primeira estação privada do país, a emissora de Carnaxide quis, desde logo, deixar evidentes as vantagens de não se encontrar limitada aos ‘guidelines’ e registos a que os canais nacionais se encontravam restritos, apresentando uma grelha programática mais vasta, abrangente e virada ao entretenimento do que aquela por que as RTPs se pautavam.

Um dos esteios iniciais deste manifesto foi, também ele, um programa pioneiro em Portugal, e cuja fórmula não mais viria a ser repetida nos vinte anos após a sua última emissão. Quer tal se devesse a uma mudança nos interesses dos jovens, à cada vez maior expressão da nova ferramenta chamada Internet, ou simplesmente ao facto de qualquer repetição do formato correr o risco de ser inferior, a verdade é que este programa continua – à semelhança de outros, como o Top +, por exemplo – a ser caso único na História da televisão portuguesa, e ainda hoje recordado com carinho por aqueles que o acompanharam.

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Falamos do Portugal Radical, programa que estreou ao mesmo tempo que a emissora onde era transmitido, e que se afirmou como pioneiro na divulgação dos chamados ‘desportos radicais’ junto da população jovem portuguesa. E a verdade é que o ‘timing’ de tal empreitada não podia ter sido melhor, já que o início dos anos 90 marca, precisamente, o primeiro grande ‘boom’ de interesse em modalidades como o skate, os patins em linha, o surf ou a BMX, que viriam a dominar o resto da época. Transmitido entre 1992 e 2002, o ‘Portugal Radical’ conseguiu acompanhar toda a evolução das ditas modalidades, desde os seus primeiros passos como fenómeno ‘mainstream’ até ao momento em que o fascínio com as mesmas começava a arrefecer um pouco, garantindo assim uma audiência constante durante a sua década de existência.

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A apresentadora Raquel Prates

Apresentado, durante a esmagadora maioria desse período, por Raquel Prates, com trabalho jornalístico de Rita Seguro, também do já referido ‘Top +’ (Rita Mendes, do ‘Templo dos Jogos’, tomaria as rédeas da apresentação já no último ano de vida do programa) o ‘PR’, como também era muitas vezes conhecido, era um conceito criado por Henrique Balsemão, a partir da rubrica com o mesmo nome na revista ‘Surf Portugal’, tendo sido exibido pela primeira vez no ‘Caderno Diário’ da RTP, ainda antes do nascimento da SIC. Foi, no entanto, a passagem para o canal de Carnaxide que ajudou a transformar um modesto conceito baseado numa coluna jornalística num verdadeiro fenómeno, com direito a ‘merchandising’ próprio, incluindo a inevitável caderneta de cromos, e ainda um CD com ‘malhas’ de grupos bem ‘anos 90’, como Oasis, Radiohead, The Cult, Smashing Pumpkins, Spin Doctors ou Manic Street Preachers.

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Capa do CD de 'banda sonora' do programa

Mais significativamente, no entanto, o programa terá tido uma influência mais ou menos directa no interesse que a maioria dos jovens portugueses desenvolveu por desportos radicais ao longo da década seguinte, o que, só por si, já lhe justifica um lugar no panteão de programas memoráveis da televisão portuguesa – bem como nesta nossa rubrica dedicada a recordar os mesmos. Uma aposta arrojada por parte da SIC, talvez, mas mais um dos muitos casos em que a atitude ‘nada a perder’ da estação de Francisco Pinto Balsemão viria, inequivocamente, a render dividendos...

 

06.09.21

Nota: Este post é respeitante a Domingo, 5 de Setembro de 2021.

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.

E depois de na primeira edição desta rubrica termos recordado ‘Aquela’ Equipa do Benfica de Souness, chega hoje a vez de nos debruçarmos sobre outro onze (ou antes, onzes) clássico(s) da década de 90: ‘Aquela(s)’ Equipa(s) de ‘sarrafeiros’ por que o Futebol Clube do Porto ficou conhecido no início da década.

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A primeira equipa do Porto da década, uma verdadeira 'colecção' de partidores de pernas alheias

Sim, antes de ser a ‘potência’ europeia do novo milénio, e mesmo antes de ter ido descobrir ao Brasil um homem-golo que viria a bater recordes de tentos na Liga Portuguesa, a principal equipa do Norte do país primava por um futebol…digamos, ‘físico’ e ‘de combate’, perpetrado por nomes como Jorge Costa, Fernando Couto, Aloísio, João Pinto ou o ‘rei’ da ‘traulitada’, o eterno Paulinho Santos. Entre si, estes homens deixaram um impressionante ‘trilho’ de membros lesionados e ossos ‘amassados’ em campos ‘da bola’ de Norte a Sul do País, sendo esta a única característica pela qual o futebol do Porto da altura é lembrado hoje em dia.

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Paulinho Santos a fazer o que fazia melhor. Reparem onde está a bola...

Tal situação é, no entanto, algo injusta, ainda que não excessivamente; porque a verdade é que aquele Porto dos inícios de 90 contava, para além da sua ‘hit squad’ de ‘carniceiros’, com alguns excelentes jogadores, capazes de adicionar uma nota artística ao futebol ‘de guerrilha’ do emblema nortenho; nomes como Kostadinov, Madjer, Rui Jorge (a excepção à regra dos defesas portistas dos 90s, com os seus pés esclarecidos e elegantes) ou o goleador Domingos Paciência (sem esquecer o eterno guardião e lenda viva dos ‘Dragões’ chamado Vítor Baía) eram genuinamente ‘de outro campeonato’, e responsáveis os (poucos) motivos de interesse em jogos do Porto naquela época.

No entanto, não há como contornar os factos – o Porto das épocas entre finais dos 80s e o dealbar da ‘era Mário Jardel’ era conhecido, principalmente e acima de tudo, por distribuir ‘porrada’ a partir da sua defesa – tanto assim, aliás, que existem compilações de YouTube apenas dedicadas a esse tema!

Não só não foi feita por nós, como é um dos primeiros resultados da pesquisa por 'Porto Anos 90' no Google...

Assim, e por muita valia que o seu meio-campo e ataque possam ter tido, era mesmo pela defesa que os ‘Dragões’ da altura se destacavam; aliás, o Porto desta altura poderia ser visto como um bom exemplo da máxima de que ‘boas defesas ganham campeonatos’ – não fosse o facto de, como hoje bem se sabe, a hegemonia dos azuis e brancos durante este período se ter devido, em grande medida, a outros factores… Ainda assim, os diferentes onzes apresentados pelo clube na primeira metade dos anos 90 são, todos e cada um deles, candidatos mais que meritórios ao título de ‘Aquela’ Equipa – e como tal, plenamente justificados para inclusão nesta secção…

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