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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

27.02.26

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2026.

NOTA: Por motivos de relevância temporal, esta Quarta será aos Quadradinhos, e a próxima de Quase Tudo.

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Apesar de ter alguama tradição em Portugal, a banda desenhada criada em território nacional tende a focar-se, sobretudo, no aspecto mais histórico ou, alternativamente, em tiras de humor publicadas em suplementos de jornais, não sendo de todo habitual ver surgir no País uma série que não só remete às produções franco-belgas de décadas anteriores, mas logra emular a sua qualidade. E, no entanto, foi precisamente isso que Luís Louro e Tozé Simões lograram fazer com 'Jim Del Monaco', uma colecção que abrangeu três décadas e apresentou ao Mundo bedéfilo o titular 'Indiana Jones à Portuguesa'.

Inicialmente criada há cerca de quarenta anos, a colecção em causa permaneceria em publicação constante até inícios da década seguinte, sempre pelas Edições Asa, com uma primeira série entre 1985 e 1989 (composta por quatro títulos) e uma segunda, mais extensa, entre 1991 e 1993 (com dois álbuns por ano e três em 1992, num total de sete volumes). Apesar desta prolífica produção, no entanto, o nível geral das histórias e aventuras de Jim nunca chegou a decair, apresentando a mesma qualidade ao longo de ambas as séries e tornando a colecção num triunfo para o panorama bedéfilo português, que ajudava também a lançar a carreira dos seus dois autores, e sobretudo de Louro, que gozaria de enorme sucesso como criador 'a solo'.

Não é, pois, de admirar que, mais de duas décadas após o hiato subsequente a 'Baja Áfrika', de 1993, Jim tenha regressado com mais duas aventuras, publicadas em 2015 e 2017, naquele que era o verdadeiro 'último suspiro' do grande aventureiro dos 'quadradinhos' nacionais. O seu legado, no entanto, continua bem presente e vigente na mais de uma dúzia de volumes que continuam a marcar presença assídua nas prateleiras das livrarias nacionais, tornando oportuna e merecida esta pequena homenagem ao herói e aos seus autores, no ano em que se assinalam os quarenta anos da sua primeira aventura, e os trinta e cinco do início da segunda série de álbuns da colecção.

28.01.26

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

Há já muito tempo, quando esta rubrica e este 'blog' eram ainda relativamente novos, falámos de alguns dos mais marcantes livros e autores nacionais do período englobado pelo mesmo, ou seja, a infância e adolescência das gerações 'X' e 'millennial'. No entanto, apesar de as referidas listas serem relativamente compreensivas, acabaram inevitavelmente por ficar de fora alguns nomes e volumes menos 'imediatos' e emblemáticos da literatura infantil da altura, alguns deles, inclusivamente, bem conhecidos no campo das obras literárias para 'mais crescidos'. É de um desses nomes, recentemente falecido, e da respectiva colecção infantil que falamos neste 'post', sugerido pelo nosso leitor assíduo e 'quase-colaborador' Pedro Serra.

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Os quatro volumes da colecção, por ordem de edição.

Falamos da também jornalista Clara Pinto Correia, falecida há cerca de seis semanas (em inícios de Dezembro) e que, há cerca de trinta e cinco anos (algures no ano de 1991), tentava a sua sorte no campo das colecções para crianças, com os quatro volumes das aventuras dos 'Irmãos Castanheira', um rapaz e uma rapariga que 'não são irmãos, mas parecem', já que partilham o mesmo nome (José e Maria José, ou o Zé e a Zé), apelido, prédio de residência, turma da escola e até equipa de remo – isto além de dois dos seus progenitores serem sócios de um negócio local, no caso um salão de beleza baptizado em honra dos protagonistas. A outra característica que ambos partilham é, claro, a propensão para 'tropeçar' em mistérios ao bom estilo 'Uma Aventura'/'Clube das Chaves', que formam a trama de 'Quem Tem Medo Compra Um Cão', 'A Canção dos Dinossauros', 'A Minha Alma Está Parva' e 'A Mulher Gorda'.

Uma premissa que, apesar de interessante, bem escrita, e com detalhes e personagens secundários cativantes (como a banda de música cabo-verdiana com o impagável e fabuloso nome de Dinhero Ca Tem, ou 'Não Há Dinheiro') travava uma batalha forçosamente desigual contra as grandes colecções da época (elencadas acima e a que há ainda a juntar 'Viagens No Tempo' e os clássicos de Enid Blyton, entre outros exemplos) bem como contra as obras de escritores como Alice Vieira, já mais estabelecidos junto do público-alvo. Assim, não é de admirar que a série de Pinto-Correia se tenha ficado pelos quatro volumes, os quais são (ou foram) ainda assim uma opção válida para quem já tenha lido tudo o resto que a literatura infantil portuguesa da época tivesse para oferecer. Quanto a Pinto-Correia, as suas contribuições para o jornalismo, literatura e educação nacionais encontram-se bem documentadas,e a sua morte, com apenas sessenta e cinco anos, representa uma perda de vulto para a cultura portuguesa. Que descanse em paz.

08.12.25

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Em finais dos anos 80 e inícios dos 90, a televisão infantil portuguesa vivia um estado de graça, com uma série de excelentes produções dirigidas ao público mais jovem, quer na vertente mais dramática, quer a nível de concursos e programas de auditório, quer mesmo num formato mais 'híbrido', como no caso da icónica e lendária 'Rua Sésamo' – muitos deles com a participação de nomes de vulto no campo do entretenimento infantil, escrita, música, e mesmo pedagogia, dos dois 'Carlos Albertos' (Moniz e Vidal) a Alice Vieira, Ana Maria Magalhães (ambas as quais contribuíam para os 'bastidores' da referida 'Rua Sésamo') ou, como no caso a que se refere o presente 'post', José Jorge Letria. Não é, pois, de admirar que 'Os Contos do Mocho Sábio' retenha o mesmo nível de qualidade que tanto miúdos como graúdos já haviam aprendido a esperar de produções nacionais de cariz infanto-juvenil.

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O personagem titular, vivido por Francisco Cela.

Exibida ao longo de apenas uma semana há exactos trinta e três anos (entre 07 e 11 de Dezembro de 1992) 'Contos' é algo mais rudimentar do que a maioria das suas congéneres, apostando numa apresentação mais simples e minimalista (que 'esconde' parcialmente o baixo orçamento) e numa premissa mais próxima de uma peça de teatro do que de uma série com cenários ou enredos. De facto, cada episódio (cuja duração não excedia o quarto de hora) não requeria mais do que dois actores, um deles fixo (o próprio Mocho Sábio, 'vestido' por Francisco Cela) e o outro rotativo, responsável por interpretar a figura histórica ou folclórica que o personagem titular literalmente invocava, através das palavras mágicas 'Gatafunho, gafanhoto, sou direito e sou canhoto, venha de lá um herói, daqueles que eu já conheço, para ver se não me esqueço' (também parte da letra da música de abertura.)Era, assim, dado o mote para a chegada, literalmente por magia, de uma figura histórica (com letra minúscula) como Branca de Neve ou Pinóquio, ou Histórica (com maiúscula) como Marco Polo ou Cristóvão Colombo, com quem o Mocho conversava e trocava impressões, ajudando assim as crianças a conhecerem a sua história sem ter que recorrer a um reconto directo. Uma táctica engenhosa, que ajudava os pequenos espectadores a 'aprender a brincar', como os mesmos tanto gostam.

A ajudar a este desiderato estava um verdadeiro contingente de figuras de proa da televisão infantil nacional da época, como Alexandra Lencastre (então ainda conhecida como a Guiomar de 'Rua Sésamo') ou o referido Carlos Alberto Vidal, entre muitos outros, capazes de atrair quem já os conhecia de outros programas da altura, e de garantir uma alta fasquia no tocante à representação. Junte-se um tema com 'sabor' a Zeca Afonso ou Sérgio Godinho (mas cantado pelo próprio Francisco Cela, numa imitação quase perfeita deste último) e do qual muitos nem saberão que se lembravam até o ouvirem, e estavam reunidos os ingredientes para uma 'experiência' de sucesso para as férias de Natal de 1992.

Infelizmente, toda esta boa-vontade e preparação esbarrava num obstáculo de alguma monta: o fato do próprio Mocho Sábio, capaz de causar algum receio à maioria do público-alvo, pese embora a atitude e tom afáveis, quase paternalistas, que Cela imprimia à personagem. Talvez por isso (ou talvez por apenas ter passado na televisão durante uma única semana de um único ano) 'A Casa do Mocho Sábio' não tenha o mesmo nível de nostalgia associada do que a referida 'Rua Sésamo' ou o posterior 'O Jardim da Celeste'.

De referir que, segundo o Arquivo RTP, foram produzidos mais dois 'Contos do Mocho Sábio' posteriores a 1992: um logo no ano seguinte, em Junho, em que o Mocho Sábio conhecia o Patinho Feio, e outro na Primavera de 1995, em que o personagem interagia com uma rainha. Desconhece-se, infelizmente, a razão destes regressos não mais que 'esporádicos' à fórmula, que nunca chegou a ter uma segunda temporada; uma pena, já que (fatos 'arrepiantes' e baixos orçamentos à parte) se tratava de uma proposta válida e bem executada de entretenimento infantil, digna de ser celebrada exactos trinta e três anos após a sua estreia.

07.12.25

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.

Ainda que Carlos Lopes, Rosa Mota e Fernanda Ribeiro sejam os grandes nomes do atletismo português de finais do século XX, outros atletas houve que, sem serem tão mediáticos, não deixaram de fazer parte das mesmas comitivas Olímpicas dos três nomes acima citados, e de trazer glória ao País, senão nesses palcos, em outros apenas ligeiramente menos grandiosos. Foi o caso de uma maratonista cujo nome era bastante conhecido dos aficionados de desporto da época, mas se encontra hoje algo esquecido por comparação aos dos seus colegas mais 'famosos': Manuela Machado.

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Tal poderá ter algo a ver com o facto de a atleta natural de Viana do Castelo não se expôr tanto à cobertura mediática, preferindo participar em provas especializadas, por oposição a maratonas citadinas (embora tenha chegado a participar na Maratona de Lisboa, que viria mesmo a vencer, em 1993.) Assim, apesar da pouca expressão a nível Olímpico, a atleta reúne na sua década de carreira medalhas de ouro em dois Campeonatos Europeus de Atletismo (o de Helsínquia de 1994 e o de Budapeste em 1998, onde o colega de Selecção António Pinto viria a conseguir a mesma distinção na 'sua' categoria) e nos Campeonatos Mundiais da Suécia, em 1995, bem como medalhas de Prata em outros dois Mundiais, os da Alemanha de 1993 (sendo esta a sua primeira medalha conquistada) e os da Grécia de 1997. Só ficou mesmo a faltar a medalha Olímpica, à qual nunca esteve sequer próxima de almejar nas três provas da categoria em que participou, onde nunca passou do sétimo lugar, tendo inclusivamente assistido 'de trás' à vitória da colega de Selecção Fernanda Ribeiro nos Jogos de 1996.

Nada, no entanto, que belisque a digna carreira de uma atleta que, ainda que de forma mais discreta do que outros seus contemporâneos, não deixou ainda assim de contribuir para a forte presença portuguesa no campo do atletismo e da corrida durante as últimas décadas do século XX, merecendo ser lembrada a par dos referidos contemporâneos mais 'famosos' por qualquer entusiasta da modalidade.

03.10.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quinta-feira, 02 de Outubro de 2025.

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.

Qualquer 'nativo' dos anos 90 nacionais que se encontrasse, à época, em idade pré-adolescente não hesitará em apontar os brindes alimentares – das batatas fritas, cereais, Bollycaos, ovos de chocolate, bolachas ou iogurtes – como um dos grandes elementos nostálgicos da vida de então. Discretamente desaparecidos algures em inícios do Novo Milénio, aqueles objectos inseridos na própria embalagem do alimento em causa – e que se 'pescavam' de dentro do mesmo assim este era aberto, arriscando muitas vezes a higiene dos dedos – marcaram a infância de muitas crianças e jovens de finais do século XX, que ainda hoje os recordam com afecto e saudade. E se, para os 'millennials', estas recordações envolvem, sobretudo, os Tazos, Matutolas, Caveiras Luminosas e Pega-Monstros, os membros mais novos da Geração X têm também o seu próprio 'lote' de brindes saudososamente memoráveis, dos 'Tous' e 'Janelas Mágicas' do Bollycao às duas colecções de autocolantes que focamos neste 'post'.


Oferecida nas batatas fritas da Matutano logo em inícios da década de 90, a colecção de autocolantes luminosos de fantasmas constitui o epítoma do brinde mais 'simplista' da era pré-Matutazos, quando a criança média portuguesa era menos exigente neste aspecto, e apreciava apenas a oportunidade de ganhar uma pequena quinquilharia para colar ao caderno ou à mobília do quarto e ver brilhar sempre que as condições luminosas diminuíam. Porque era este o conceito dos Fantasmas Luminosos – nem mais, nem menos. Ao contrário da maioria dos seus sucessores, a colecção não trazia associado qualquer elemento competitivo, focando-se unicamente no instinto coleccionista da maioria dos jovens, na estética ao mesmo tempo 'fofinha' e apelativa dos trinta fantasmas que a compunham, e no elemento diferenciador da luminosidade.

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E a verdade é que a aposta foi ganha com distinção, figurando estes autocolantes entre os brindes favoritos de muitos portugueses hoje na casa dos quarenta a cinquenta anos, junto dos quais fez retumbante sucesso à época do lançamento. Tanto assim que a Matutano se viu motivada a lançar, dois anos depois, uma segunda série, agora com temática alusiva à vida selvagem, mas com o mesmo conceito-base. E se leões, águias, bisontes ou rinocerontes não encaixavam tão organicamente na mecânica do brilho no escuro como fantasmas, nem por isso a promoção Feras Luminosas deixou de ser apelativa ou de fazer sucesso junto do público-alvo, agora acrescido de crianças demasiado novas para recordar os fantasmas originais, e para quem esta era a primeira experiência de encontrar autocolantes luminosos nos pacotes de batatas.

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Duas colecções, em suma, que apesar de simples, retinham aquele apelo intemporal que só algo como os autocolantes consegue gerar junto do público infantil, a ponto de quase se poder dizer que, se lançados hoje, fariam exactamente o mesmo sucesso junto das gerações Z e Alfa que fizeram no tempo dos seus pais. Infelizmente, os brindes alimentares já de há muito desapareceram do quotidiano infantil português, tendo sido discretamente 'retirados de cena' algures na década de 2010, pelo que este cenário terá, forçosamente, de ficar remetido ao campo da conjectura. Certo é que, trinta e cinco anos após o seu aparecimento nos pacotes da Matutano, os Fantasmas Luminosos ocupam, ainda, lugar de destaque na memória nostálgica da parcela mais velha da geração 'millennial' portuguesa, e da metade mais nova da geração 'X', para quem continuam a ser um dos melhores brindes alimentares alguma vez veiculados no nosso País.

10.09.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Segunda-feira, 08 de Setembro de 2025.

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

De quando em vez, as tabelas de vendas musicais mundiais são 'tomadas de assalto' por uma 'daquelas' músicas – um tema concebido, não para o assalto aos 'tops', mas apenas como uma piada (ou, no limite, algo mais experimental) e 'interpretada' por um desenho animado, um fantoche, um criador de conteúdos, alguém sem o mínimo talento musical ou, como sucedeu momentaneamente na Europa de inícios dos anos 90, uma criança pequena.

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De facto, um dos mais notórios 'one-hit wonders' de toda a última década do século XX foi, não um qualquer artista estabelecido que lograva sair brevemente da mediania, nem tão-pouco um grupo de anónimos artistas de estúdio escondidos atrás de um avatar, mas um menino francês de apenas quatro anos e meio, que 'cantava' conforme sabia uma letra sobre como era difícil ter essa idade, por cima de uma batida de dança a cargo do próprio pai, naquilo que havia começado como um exercício de memorização de falas para um anúncio de fraldas. Quase parece um enredo para um filme ou livro (ou um qualquer delírio do ChatGPT), mas trata-se de uma história bem real: a do pequeno Jordy Lemoine, à época conhecido apenas pelo seu primeiro nome, e protagonista de um dos mais bizarros momentos da música comercial moderna.

Isto porque, conforme acima relatado, o futuro recordista (consta do Livro de Recordes do Guiness, enquanto artista mais jovem de sempre a conseguir ser número um de um 'top' de 'singles', e foi também o mais jovem a entrar no famoso 'Hot 100' da Billboard americana, além de deter o recorde de permanência no topo das tabelas francesas, com umas impressionantes quinze semanas como número 1) pôs toda a gente a cantar (em Francês!) sobre como era duro ser bebé, sem sequer conseguir enunciar correctamente a maioria das palavras. Claramente, a ideia era tirar partido do 'factor fofura' daquele menino classicamente bonito, loiro e de olhos verdes – um plano que se pode dizer ter resultado em pleno, dado o sucesso da sua música de estreia.

Infelizmente, o interesse no menino cantor gaulês não se estenderia para lá desse primeiro 'single', e daqueles poucos meses no Outono de 1992 – pelo menos na Europa, já que na sua França natal ainda viria a gozar de fama suficiente para lançar mais dois discos após 'Pochette Surprise', o álbum que continha a referida 'Dur, Dur, D'Être Bebé'. Ainda assim, são poucos (ou nenhuns) os artistas que podem dizer que a sua carreira na 'ribalta' terminou aos sete anos de idade, e que, ainda em idade escolar, já faziam parte do inevitável círculo de (ex-)celebridades a aparecer em 'Quintas' e outros programas que tais. E a verdade é que, mesmo sob estas circunstâncias, Jordy não desistiu por completo do 'sonho' musical, tendo mesmo lançado um 'single' já depois de adulto, em 2006, embora o mesmo não tenha tido qualquer sequência. Na memória colectiva europeia, no entanto, o hoje trintão será para sempre aquele miúdo loiro e 'bolachudo' que, durante um par de meses em fins de 1992, foi (literalmente 'sem saber ler nem escrever') protagonista de uma das mais insólitas histórias de sucesso 'instantâneo' do mundo da música popular contemporânea.

09.06.25

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Numa altura em que Portugal ainda 'ecoa' com o impacto da passagem dos Guns'n'Roses pela normalmente pacata cidade de Coimbra, nada melhor do que recordamos a primeira (e não menos memorável, embora por razões diferentes) visita do grupo de Axl Rose a Portugal, há pouco mais de trinta e três anos, a 2 de Julho de 1992.

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Embora a sua formação e ascensão se tenha dado em finais dos anos 80, em inícios da década seguinte, a 'trupe' californiana tinha ainda reputação e renome suficientes para encher o antigo Estádio José Alvalade (que ainda nem sonhava em ser XXI, e que era então um dos locais mais frequentes para grandes concertos na capital, onde também tocariam GNR e Bon Jovi, entre muitos outros) com cerca de cinquenta mil pessoas, e gerar entre os jovens portugueses da época - que só conheciam a banda dos discos, videoclips no 'Top +', reportagens no lendário 'Blitz', e eventualmente um ou outro álbum pirata - aquele tipo de burburinho que apenas os artistas mais famosos e conceituados são capazes de suscitar. Todos antecipavam uma grandiosa noite de 'rock'n'roll' pleno do tipo de excessos característicos de Axl e companhia, e a aproximação da data apenas fazia crescer o entusiasmo e excitação por ver de perto aqueles que eram, a par dos Bon Jovi e dos recém-consagrados Nirvana, as maiores estrelas de 'rock' da época.

A noite haveria, no entanto, de se saldar em desilusão para os cinquenta milhares de 'almas' que 'maltrataram' o antigo relvado do Sporting Clube de Portugal, já de si 'estafado' após uma longa época de futebol. Entre a prestação frouxa dos Soundgarden (a antítese completa do que eram os Guns, tanto a nível musical como de atitude perante a vida) e o acidente que viria a ditar o rumo do restante evento, o resultado final acabou por não encher as medidas ao público, 'salvando-se' a movimentada actuação dos Faith No More, também eles uma escolha algo peculiar para banda de abertura. E seria mesmo Mike Patton o 'culpado' pelo que se seguiria, ao incentivar a audiência a atirar-lhe a ele as garrafas de plástico que arremessavam entre si. O público não se fez rogado, 'inundando' o palco de 'projécteis' com 'recheio' e dando muito que fazer aos funcionários do evento. Tanto assim que, sem mãos a medir, um dos ditos-cujos acabaria por se 'esquecer' de uma garrafa em palco, na qual Axl Rose viria a tropeçar logo no início do concerto principal, 'estatelando-se' ao comprido.

Para seu crédito, o vocalista não se deixou logo dominar pelo seu famoso 'génio', cantando ainda dois temas deitado no chão. No entanto, acabaria mesmo por 'desaparecer' para as traseiras do palco durante cerca de dez minutos, obrigando os colegas da formação clássica dos Guns a improvisar. Mesmo após a volta, Axl vinha mal-disposto, e chegaria mesmo a parar mais uma vez o concerto ao ver alguém atirar um 'very light'. Ao contrário do que acontecera em outras ocasiões, no entanto, os Guns terminariam mesmo o seu 'set', tocando cerca de duas horas; no entanto, os percalços vividos afectariam mesmo a 'performance' dos músicos, a qual ficaria aquém das expectativas de quem pagara bom dinheiro (cinco mil escudos, uma 'fortuna' para a época) para ver as super-estrelas de 'rock' norte-americanas.

Ainda assim, e apesar do ligeiro desapontamento, quem esteve no 'velhinho' Alvalade naquela noite de Verão de 1992 teve a oportunidade de ver uma das maiores bandas de sempre, no seu auge e com a formação clássica – algo que, meros anos depois, se afiguraria impossível, e que acaba por fazer valer bem o preço do bilhete, mesmo para um concerto 'arrasado' 'a posteriori' pela crítica especializada, e que esteve longe de ser um clássico à altura da fama do nome que o encabeçava. Para quem quiser recordar, fica abaixo o vídeo do concerto completo, que permite 'mergulhar' em toda uma outra era...

06.06.25

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Na última edição desta rubrica, celebrámos os trinta anos da estreia nacional de 'Lendas de Paixão', um dos filmes que ajudaram a consagrar Brad Pitt enquanto actor principal. Nessa ocasião, mencionámos também um projecto anterior do galã, tão ambicioso e bem-recebido quanto aquele, e em que havia sido dirigido por Robert Redford; nada melhor, portanto, do que nos debruçarmos agora sobre esse filme.

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Produzido em 1992 e adaptado da obra semi-autobiográfica de Norman McLean, 'Duas Vidas e o Rio' (no original, 'A River Runs Through It') traz Pitt no papel do mais novo dos dois filhos de um pregador presbiteriano do Montana rural, no caso o mais rebelde, por oposição ao irmão mais sensato (e autor da obra que serve de base ao filme), interpretado por Craig Shaeffer. O principal fio condutor da relação dos dois, tanto entre si como com o pai – que o filme explora ao longo de um período de cerca de trinta anos – é o gosto pela pesca, que levam a cabo no titular rio que passa perto da sua propriedade.

Como a sinopse dá a entender, trata-se de um filme minimalista, centrado nos relacionamentos dos três protagonistas, e contado num ritmo deliberado – uma descrição algo antagónica aos 'blockbusters' tanto da época como da actualidade, que privilegiam a acção, mas que permite a Pitt mostrar todas as qualidades que já nessa época possuía, ob a tutela de um antigo actor (e realizador mais que competente) como o é Redford. De facto, trata-se de um de uma série de papéis que o jovem actor aceitava na esperança de mostrar ser mais do que uma 'cara bonita' – o que, infelizmente, não impediria totalmente a sua estigmatização como sendo isso mesmo, a par do contemporâneo Leonardo DiCaprio, com quem rivalizava nos corações das adolescentes de então, e que aceitara já, ele próprio, projectos mais personalizados, como sejam 'Gilbert Grape' e 'A Vida Deste Rapaz'. Quanto a Pitt, partiria deste filme para 'Lendas de Paixão' e, daí, para uma carreira, em larga medida, bem menos 'comercial' do que poderia parecer à primeira vista, com filmes como 'Clube de Combate' e 'Seven – Sete Pecados Mortais' a sobreporem-se às inevitáveis comédias românticas n sua filmografia. Foi com 'Duas Vidas e Um Rio', no entanto, que Pitt principiou a delinear o 'caminho' que o tornaria numa das maiores estrelas de Hollywood, o que constitui razão suficiente para dedicarmos umas breves linhas a este excelente filme.

04.06.25

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

No que toca à cultura, Portugal é, tradicionalmente, um país mais importador do que produtor. Apesar de o talento português nas artes escritas e visuais nada deixar a desejar ao de outros países, a falta de recursos e meios condena, muitas vezes, os criadores lusitanos a uma carreira discreta, 'à sombra' de criações estrangeiras. A banda desenhada não é, de todo, excepção a essa regra, não querendo isso dizer, no entanto, que o nosso País não importe produtos culturais de qualidade, bastando lembrar o influxo de revistas aos quadradinhos brasileiras e norte-americanas ou de álbuns franco-belgas que se continua, em maior ou menor grau, a fazer sentir até hoje. E ainda que a Dinamarca esteja neste campo, como noutros, a um nível muito semelhante ao Português, a verdade é que essa nação escandinava logrou 'enviar' para Portugal, em finais do século XX, pelo menos um exemplo do melhor que tinha para oferecer em termos de 'quadradinhos', o qual chegou a 'marcar época' e a ter algum impacto e expressão entre as gerações 'X' e 'millennial' portuguesas, ainda que longe dos níveis atingidos pelos 'gibis' da Disney ou Turma da Mônica ou por clássicos como Tintim ou Astérix.

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Capa do primeiro volume da segunda colecção.

Falamos de 'Petzi', série criada pelo casal Hansen (Carla, responsável pelos argumentos e Vilhelm, que se encarregava dos desenhos) e cujo sucesso em Portugal fomentou a edição das aventuras do ursinho marinheiro (originalmente chamado Rasmus Klump) não apenas uma, mas duas vezes, a primeira ao longo de quase uma década (de 1978 a 1987), com os livros a saírem paulatinamente, um de cada vez, e a segunda de forma mais 'condensada', ao longo do ano de 1992. É a esta última que dedicaremos as próximas linhas.

Composta por vinte das trinta e seis aventuras de Petzi e seus amigos – outras criaturas marinhas semi-antropomórficas, além de um papagaio que lhes serve de mascote – esta segunda re-edição da Difusão Verbo tinha como diferencial, desde logo, o formato. Isto porque as histórias de Carla e Vilhelm Hansen surgiam, agora, em álbuns A4, por oposição ao A5 da série original dos anos 80, e com capas de fundo predominantemente branco, em substituição dos tons de azul das primeiras edições. Os conteúdos, esses, mantinham-se inalterados, ou não fosse a mesma editora responsável pelas duas colecções.

E já que falamos dos conteúdos, há que abordar, desde logo, o 'elefante na sala' – nomeadamente, o facto de 'Petzi' recorrer exclusivamente a legendas como complemento aos seus painéis desenhados, não existindo nos álbuns do casal Hansen qualquer balão de fala, o que faz com que as aventuras dos animais marinheiros acabem por ocupar um espaço tecnicamente híbrido, embora sejam ainda claramente reconhecíveis como obras de banda desenhada. Qualquer que seja o formato em que se pretenda inseri-las, no entanto, é inegável a qualidade e atractividade das criações dos dois artistas dinamarqueses, perfeitas para a faixa etária a que apontam (crianças já com alguma literacia, mas ainda em idade de instrução primária) e que provam ser possível criar personagens e enredos apelativos sem recorrer às habituais 'muletas' da violência ou dos super-poderes. A tripulação do barco 'Mary' (construído pela mesma no primeiro volume da série) é constituída, de uma ponta a outra, por personalidades vincadas e memoráveis, e o cenário marítimo presta-se a aventuras excitantes, sem que seja necessário enveredar por caminhos de acção pura e dura.

Não admira, pois, que 'Petzi' tenha feito, na sua época, sucesso entre as crianças um pouco por todo o Mundo, com Portugal e a vizinha Espanha a não serem, de todo, excepção. E ainda que, nas décadas subsequentes, a presença do urso de gorro azul e calças às bolinhas se tenha esbatido fora da sua Dinamarca natal, a marca cultural que deixou nas gerações de crianças portuguesas dos anos 80 e 90 foi, ainda assim, suficiente para mais do que justificar esta pequena homenagem, sob pretexto de recordar a re-edição noventista das suas aventuras.

26.03.25

NOTA: Este 'post' é correspondente a Terça-feira, 25 de Março de 2025.

A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.

Já aqui por diversas vezes nos referimos aos videojogos licenciados como forma de cimentar a popularidade de uma propriedade intelectual junto de um público infanto-juvenil. De facto, qualquer desenho animado ou banda desenhada que se prezasse teria, mais cedo ou mais tarde, direito a um qualquer tipo de lançamento electrónico, sendo a única diferença o facto de ser melhor ou pior sucedido na sua tentativa de 'angariar' novos fãs ou reter os existentes. Os jogos de que falamos neste 'post' – alusivos à série explorada na última Segunda de Séries – inserem-se, infelizmente, na metade mais negativa da escala, tendo activamente contribuído, não para estabelecer a reputação do protagonista como herói a acarinhar, mas para a prejudicar, graças a aspecto técnicos pouco cuidados e falta de inspiração em geral.

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De facto, nem 'Widget' (lançado em 1992 para a Nintendo original) nem 'Super Widget' (que chegava no ano seguinte à sucessora Super Nintendo) tentam, a algum ponto, fazer algo que os distinga das literais dezenas de jogos de plataformas (licenciados ou não) disponíveis para os dois sistemas – a menos que sejam contabilizados os diversos 'bugs' do primeiro jogo, que tanto permitiam atravessar paredes ou saltar partes de níveis como, pura e simplesmente, 'congelavam' o jogo, obrigando à reinicialização da consola, algo que sem dúvida terá 'agradado' aos fãs do alienígena roxo...

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Já 'Super Widget' nem isso tinha para o distinguir, sendo apenas e só 'mais um' jogo de plataformas baseado num desenho animado, com cenários 'fofinhos' e coloridos, coisas para coleccionar e 'trocar' por vidas ao fim de serem apanhadas cem – no caso, a inicial do herói – e, claro, poderes que permitem a Widget ser atingido mais do que uma vez antes de morrer. Curiosamente, a vertente metamorfa do herói, explorada no primeiro jogo, ficava aqui de fora, tornando 'Super Widget' recomendável apenas a quem já gostasse do personagem.

No cômputo geral, portanto, é fácil de perceber que a vertente interactiva e electrónica das aventuras de Widget se pautava pela mesma mediania (para não dizer mediocridade) do seu material de base, e de centenas de outros jogos da mesma índole, não sendo portanto de espantar que se tenha rapidamente perdido nas 'brumas do tempo'. Ainda assim, por termos já falado da série que os inspirou, apenas fica bem falar destes dois títulos, mesmo que, neste caso, muito pouco haja para dizer...

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