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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

15.05.23

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

A cena 'punk' lisboeta era, nos anos 80 e 90, um dos mais famosos e prolíferos movimentos musicais portugueses, com actividade e impacto ao nível daquele que viria a ser o movimento hip-hop nortenho em inícios do novo milénio. Centrada em bairros como Alvalade, localidades da Linha de Cascais e espaços como o Johnny Guitar ou o Rock Rendez-Vous, a sobredita vaga de grupos 'punk' e 'new wave' (todos, sem excepção, com letras cantadas em português) viu nascer grupos tão emblemáticos como os Xutos e Pontapés, Peste & Sida, Mata-Ratos, Capitão Fantasma, ou uma banda que, apesar da literal meia dúzia de anos de carreira, viria a adquirir estatuto de culto entre os fãs de rock rápido e agressivo 'made in' Portugal: os Censurados.

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O grupo em 'pose Ramones'.

Formada no referido bairro de Alvalade em finais da década de 80, a banda resultou da junção de quatro músicos – Orlando Cohen na guitarra, Fred Valsassina no baixo, Samuel Palitos na bateria e o icónico e malogrado João Ribas na voz – que, no melhor espírito 'punk rock', se juntaram num estúdio improvisado (situado no quarto de Ribas) para escrever músicas 'curtas e grossas' com letras contestatárias, cujo principal alvo eram os políticos e figuras de autoridade da época; esses temas, posteriormente apresentados ao vivo nos 'buracos' do costume, acabaram por ganhar tracção entre a comunidade de 'troca de cassettes', a qual ajudou a popularizar o nome do grupo através da partilha das suas canções - mais de uma década antes do dealbar da Internet e do 'boom' da partilha de ficheiros – fazendo com que as mesmas fossem já sobejamente conhecidas ainda antes do lançamento do álbum de estreia do grupo. Uma história que quase parece ter sido escrita, de tal modo encarna o 'estereótipo' normalmente associado ao 'punk', mas que apenas vem provar algo que os Ramones já haviam demonstrado uma década e meia antes – nomeadamente que, para se tocar 'punk rock', só era precisa muita vontade e alguma capacidade de improviso.

Naturalmente, com uma base de fãs já estabelecida e uma reputação em rápida ascensão, o próximo passo do grupo passou pela gravação de um álbum de estreia homónimo, saído em 1990 e considerado um dos marcos históricos do movimento 'punk' português, tendo a sua qualidade, inclusivamente, atraído interesse do estrangeiro – nomeadamente, da maior 'fanzine' sobre 'punk' da época, a Maximum Rock'n'Roll, que teceu loas ao álbum nas suas páginas.

O lendário álbum de estreia do grupo, lançado logo no início da década de 90

Com a cotação de tal modo 'em alta', não é, pois, de admirar que o grupo tenha demorado apenas cerca de um ano a lançar novo registo, tendo 'Confusão', de 1991, sido bem-sucedido em manter o nome Censurados bem presente na memória colectiva da cena 'punk' nacional durante os dois anos seguintes, tempo que demora a sair o terceiro e último álbum de estúdio, 'Sopa”. Já de créditos bem firmados na cena nacional, e com ligações a espaços como o supramencionado Johnny Guitar (tendo, inclusivamente, participado na lendária colectânea lançada pelo mesmo em 1993), o grupo consegue neste registo final uma 'cunha' de respeito, na pessoa de Jorge Palma, que surge no tema 'Estou Agarrado a Ti.'

Dada a sua preponderância na cena rock nacional, não é, igualmente, de estranhar que os Censurados tenham sido convidados a participar em dois dos mais famosos álbuns de tributo do referido movimento, comparecendo tanto em 'Filhos da Madrugada' – o tributo a Zeca Afonso lançado em 1994 e que reúne a 'nata' do movimento musical lusófono, dos inevitáveis Xutos, GNR e UHF a Madredeus, Sitiados, Delfins, Entre Aspas, Resistência, os 'colegas' Peste & Sida, os cabo-verdianos Tubarões e até o Coro Infantil de Santo Amaro de Oeiras! – e 'XX Anos, XX Bandas', o álbum celebratório dos vinte anos de carreira dos Xutos e Pontapés, editado em 1999, e que conta com nomes como Rádio Macau, Da Weasel, Paulo Gonzo, Boss AC, Quinta do Bill, Ornatos Violeta, Bizarra Locomotiva, Cool Hipnoise, Lulu Blind ou o 'alter ego' dos Peste & Sida, Despe e Siga, além de alguns 'repetentes' do tributo a Zeca. Os Censurados participam, respectivamente, com os temas 'O Que Faz Falta' e 'Enquanto a Noite Cai', aqueles que viriam a ser os últimos temas gravados em estúdio pelo colectivo – sendo o segundo, inclusivamente, já póstumo, ainda que tenha dado azo a uma 'tourné' de reunião ao lado dos próprios Xutos, da qual resulta um lendário micro-concerto de apenas quinze minutos na edição de 1999 do Festival do Sudoeste, bem como um álbum ao vivo, gravado na Queima das Fitas de Coimbra no mesmo ano e lançado em 2002 – esse, sim, o último registo oficial do grupo.

Versão ao vivo da 'cover' dos Xutos incluída em 'XX Anos, XX Bandas', captada no último concerto oficial do grupo, na Queima das Fitas de Coimbra de 1999

A dissolução dos Censurados não significou, no entanto, o afastamento dos seus integrantes da música, ou sequer do movimento 'punk' – pelo contrário. João Ribas formaria, logo no ano seguinte, os não menos lendários Tara Perdida - cuja carreira soma e segue até hoje, tendo mesmo conseguido resistir ao falecimento do seu fundador e figura de proa - e os restantes integrantes também se manteriam activos na cena musical, embora de forma mais discreta. Mesmo que o fim dos Censurados tivesse equivalido ao fim das suas carreiras, no entanto, os quatro músicos poder-se-iam sempre orgulhar de terem sido banda de culto do movimento rock português de finais do século XX, e de, em apenas seis anos, terem construído um legado de fazer inveja a muitas bandas com várias décadas de carreira, validando a famosa máxima de Kurt Cobain de que 'é melhor acabar carbonizado do que desaparecer lentamente.'

A algo incongruente aparição do grupo na 'Hora do Lecas', em 1990.

 

28.03.23

NOTA: Este 'post' é correspondente a Segunda-feira, 27 de Março de 2023.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Apesar de ser a fonte de muita da iconografia mais apelativa para o público mais jovem, como flores e passarinhos, a Primavera encontra-se, ainda assim, sub-representada no campo da animação; apesar de muitos desenhos animados adoptarem a estética de campos verdejantes e paisagens idílicas, apenas um número muito reduzido se dá ao trabalho de localizar a acção especificamente nesta estação. No entanto, os anos 80 e a primeira metade da década seguinte viram, talvez, o maior influxo de produtividade neste capítulo em particular, pelo que – numa altura em que se celebra a chegada da estação das flores – nada melhor do que recordar algumas das mais marcantes.

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E nada mais certo do que começar por aquela que foi uma das séries mais acarinhadas por uma dada geração de portugueses, que a chegou a ver três vezes no espaço de uma década, tendo a mesma ido ao ar originalmente em 1985, na RTP1, e repetido depois em 1988, novamente na '1', e 1994, no bloco 'Um-Dó-Li-Tá', na RTP2. Falamos de 'Fábulas da Floresta Verde', um daqueles 'animes' da fase clássica da indústria (é, originalmente, de 1973) cujo nome não deixa grande lugar a dúvidas quanto ao seu tema; mais curioso é perceber que a série tem como base uma série de contos escritos pelo mesmo autor das populares histórias de 'Pedro Coelho' (Peter Rabbit), que chegaram a inspirar dois filmes de acção real, já no Novo Milénio.

Com temática e estilo semelhantes aos também mega-populares 'Bana e Flapi', trata-se, no entanto, de uma série distinta, que segue as aventuras de duas marmotas, Rocky e Polly, no seu dia-a-dia na Floresta do título, com tudo o que isso implica – incluindo ataques por parte de predadores bastante realistas, como raposas, doninhas e, claro, seres humanos. Com um genérico memorável e uma atitude despretensiosa, é fácil de perceber o porquê de esta série ter sido grande favorita entre as crianças da época.

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Outra série que focava especificamente a Primavera era 'As Ervilhinhas de Poddington', uma série britânica que seguia o então popular 'formato Estrumpfes' e o adaptava quase directamente a outro meio – neste caso, uma plantação de ervilhas, habitada por todos os habituais estereótipos, incluindo uma única personagem feminina (denominada Ervilha de Cheiro e que, claro, é loira, ao melhor estilo Estrumpfina.) Com apenas treze episódios, a série destacou-se, aquando da sua passagem por Portugal – em 1992, na RTP1 - sobretudo pelo contagiante genérico, sendo, de resto, apenas mais uma série infantil dentro da média da época em que foi criada.

O contagiante genérico da série

Por último, mas não menos merecedora de destaque, vem a série 'A Família Silvestre', transmitida pela RTP e baseada na linha de brinquedos do mesmo nome lançada pela Tomy em finais dos anos 80, e que, em Portugal, era distribuída pela inevitável Concentra. Curiosamente, o conceito do desenho animado pouco tinha a ver com a linha original, adoptando um formato mais próximo ao dos populares 'Ursinhos Carinhosos', em que a titular Família Silvestre e restantes habitantes da floresta mágica, que o ajudam a resolver o seu problema enquanto tentam derrotar os vilões de serviço. Pela sinopse, já deu para ver que se trata, apenas e tão-sómente, de 'mais uma' série destinada a promover uma linha de brinquedos, sem nada que a distinga de congéneres mais famosas como os referidos 'Ursinhos Carinhosos' ou ainda os Pequenos Póneis.

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É pena, pois, que a estação que tantas crianças fascinou e inspirou ao longo das gerações não tenha ainda tido um representante condigno no mundo da animação; ainda assim, vale a pena recordar os poucos exemplos de séries da 'era de Ouro' que faziam uso da estação nas suas tramas, ou simplesmente no Mundo que criavam.

01.03.23

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

E numa altura em que se assinala (infelizmente) um ano sobre o início da guerra na Ucrânia, faz sentido relembrar outro conflito que marcou os anos noventa, e cujo término se deu há quase exactamente trinta e dois anos. Falamos da Guerra do Golfo, o segundo conflito a envolver o Iraque no espaço de poucos anos, depois da escaramuça com o Irão que devassara o país durante a maior parte da década anterior. Esta segunda ofensiva tinha, no entanto, um adversário diferente (o outro país vizinho do Iraque, o Kuwait) e acabou por se revelar bem mais curta, durando, no total, pouco mais de seis meses – tempo ainda assim suficiente para deixar o conflito marcado na memória colectiva das três gerações que a viveram directamente, mesmo da que era demasiado nova para ter a percepção exacta do que se passava naquela terra distante.

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Montagem de momentos da guerra.

Iniciada a 2 de Agosto de 1990 – data em que o Iraque invadiu e conquistou o Kuwait – esta ofensiva teria, de imediato, a intervenção da ONU, que impôs as habituais sanções económicas ao país governado por Saddam Hussein, ao mesmo tempo que o Reino Unido e os EUA enviavam tropas para o Médio Oriente a fim de auxiliar o exército kuwaitiano. E apesar de a esmagadora maioria dos soldados que formaram a chamada 'coalisão' terem mesmo sido norte-americanos, mais de trinta países seguiram o exemplo de George Bush pai, destacando-se de entre estes a França, a Arábia Saudita (também grande financiadora das tropas 'aliadas'), o Egipto e, sim, também Portugal. O financiamento do próprio governo kuwaitiano, bem como do Saudita, permitiu ainda a aquisição de novas tecnologias que viriam a alterar o rumo do conflito, como aviões 'camuflados', bombas inteligentes, e outras armas até então exclusivamente do domínio dos videojogos de ficção científica futurista.

Estes revolucionários recursos, bem como a estrondosa mobilização de homens para a frente de combate, permitiram à 'Coalisão' obter uma vitória rápida e avassaladora sobre as forças de Saddam Hussein, tendo o conflito em si durado apenas cinco semanas - entre 17 de Janeiro e 24 de Fevereiro de 1991 - com apenas um total de cem horas de ofensiva terrestre, tendo a restante guerra sido travada sobretudo pelo ar. Nem mesmo a tentativa de envolver Israel – jogando com as tensões entre aquele país e a maioria das nações que constituía a força aliada – conseguiu evitar a derrota do exército Iraquiano, tendo os objectivos militares da 'coalisão' sido declarados como atingidos no último dia de Fevereiro daquele ano – há quase exactamente trinta e dois anos atrás.

Apesar de curta, no entanto, esta guerra foi alvo de extensa cobertura mediática (como, aliás, sempre acontece neste tipo de situações) e grande parte dos portugueses hoje na casa dos trinta e muitos a cinquenta e poucos anos terão, certamente, memórias mais ou menos difusas de verem na televisão, durante o Telejornal, cenas e reportagens sobre o conflito, narradas pelo icónico Artur Albarran, o que torna quase obrigatório este pequeno resumo do mesmo por alturas do 'aniversário' do seu término.

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Artur Albarran, o jornalista que ficaria associado à Guerra do Golfo na mente dos portugueses.

Infelizmente, as guerras que se seguiriam não teriam, nem de longe, um desfecho tão célere nem um final tão 'feliz' – mas isso já são outras histórias; por agora, fica a recordação de um dos primeiros conflitos de que a geração de finais dos 70 e inícios dos 80 terá memória.

06.02.23

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Quando se pensa em vozes próprias para gravar um disco, ou até mesmo uma só música, o tom propositalmente agudo e nasalado de um palhaço não é, decerto, a primeira coisa que vem à mente; e, no entanto, só em Portugal, foram pelo menos dois os casos de palhaços a conseguirem enorme sucesso com a edição de álbuns inteiramente cantados por eles. Assim, neste que é o mês do Carnaval, dedicar-nos-emos a explorar a carreira musical desses artistas, começando esta semana pelo palhaço Croquete, e dedicando a próxima rubrica ao mítico álbum do Batatoon, sucesso absoluto junto do público infantil e, curiosamente, parcialmente criado e interpretado pelo antigo parceiro de Croquete, o palhaço Batatinha.

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Essa análise ficará, no entanto, para a próxima Segunda de Sucessos; esta semana, voltaremos a nossa atenção para António Assunção, desde finais dos anos 70 conhecido pelo nome profissional de Croquete, e que se destaca dos seus restantes companheiros de profissão, precisamente, pelos seus dotes musicais, que lhe valeram a alcunha de 'Palhaço Cantor' e fomentaram uma vasta carreira discográfica ao longo das duas décadas seguintes. De facto, são nada menos do que cinco os álbuns de originais lançados sob esse nome, ao qual se junta ainda um sexto – o primeiro, 'Palhaços À Solta', de 1981 – em parceria com Batatinha. As crianças dos anos 90, no entanto, conhecerão Croquete, sobretudo, pelo seu quarto disco, 'Muita Fruta', lançado em 1991, mesmo a tempo de cativar toda uma nova geração de potenciais fãs, nascidos já depois do auge da carreira do artista.

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Composto por dez faixas, 'Muita Fruta' tem a particularidade de se inserir declaradamente num estilo 'pimba', sendo que, com ligeiros ajustes temáticos, sem os coros infantis e com a 'voz de palhaço' substituída por um verdadeiro vocalista, faixas como 'Fruto Eu Ou Frutas Tu' poderiam, perfeitamente, ser comercializadas a um público adulto, ao contrário do que acontecia, por exemplo, com o pop infantil de 'As Canções do Lecas', lançado no ano anterior, ou com as pitorescas 'cantilenas' movidas a guitarra acústica de José Barata Moura ou Carlos Alberto Moniz (as quais são, ainda assim, evocadas em 'Linda Romã', 'Ai Que Bom Que É' ou 'A Doença do Pomar Tropical'.) A maioria das faixas do álbum movem a ritmo de 'bailarico', ideal para animar festas de Carnaval ou de Verão de aldeia, e o instrumental do tema-título permite, até, perceber onde os Mamonas Assassinas foram buscar inspiração para a sua paródia da música popular portuguesa em 'Vira-Vira'. Aqui e ali, há uma tentativa de diversificar a sonoridade ou apresentar outras influências (sobretudo brasileiras, como em 'O Barco das Bananas', ou latinas) mas a base musical de Croquete, pelo menos neste álbum, fica mesmo no domínio do 'pimba', embora neste caso dirigido a um público mais jovem.

Curiosamente, apesar de a sua carreira ter continuado, com participações televisivas e milhares de espectáculos de Norte a Sul do País, Croquete só voltaria a gravar novo disco mais de uma década e meia depois de 'Muita Fruta'; sem surpresa, dada a imutabilidade e intemporalidade geracional da música 'pimba', o novo disco oferece mais do mesmo, ficando na linha de outras produções dirigidas a um público infantil, tal como já acontecia com o seu antecessor na respectiva época. Quanto ao intérprete em si, apesar da menor projecção mediática em relação ao ex-parceiro, o mesmo manter-se-ia na activa, tendo já celebrado a marca de quarenta anos a fazer rir as crianças portuguesas – um feito notável para aquele que foi não só o pioneiro da 'palhaçada' em solo nacional, como também um artista discográfico mais bem sucedido do que alguém poderia imaginar...

 

28.12.22

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Numa edição passada desta rubrica, falámos de Mafalda, uma das mais influentes personagens de banda desenhada das décadas de 70, 80 e 90. No entanto, apesar de a contestatária menina ter sido o principal contributo do seu criador, Quino, para a História desta forma de arte, a mesma esteve longe de ser a sua única criação de sucesso, tendo o mercado português sido testemunha de, pelo menos, mais uma: a colecção 'Humor Com Humor Se Paga', cujos últimos volumes completam, neste ano que ora finda, precisamente três décadas sobre a sua edição nacional.

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Os três volumes da série editados nos anos 90

Iniciada ainda nos anos 70, e concluída vinte anos e trinta e seis volumes depois (tendo apenas os três últimos sido editados já nos anos 90), a colecção da Dom Quixote permitiu, aliás, a outros autores que não apenas Quino cimentar a sua marca na indústria portuguesa; Sempé, por exemplo (o co-criador do popular 'O Menino Nicolau' ao lado de René Goscinny, guionista de Astérix) teve direito a vários volumes, além de artistas menos conhecidos, mas dentro do mesmo estilo satírico e 'cartoonesco', como Coco e Palomo. No entanto, a esmagadora maioria dos tomos da colecção trazia, mesmo, autoria de Quino, servindo como uma introdução algo mais 'leve' que Mafalda ao seu inconfundível estilo, através de 'gags' de imagem única, bem ao estilo do que se podia encontrar em muitos jornais mundiais da altura, e declaradamente dirigidas a adultos, afastando assim parcialmente o público infantil que (talvez erroneamente) se afeiçoara e fidelizara à menina da bandolete e aos seus amigos.

Apesar de - por esse mesmo motvo - ser potencialmente menos nostálgico para a juventude portuguesa que a criação principal do desenhador argentino, ou que outros 'ilustres' como Calvin e Hobbes, a série em causa merece, ainda assim, destaque nestas nossas páginas, por alturas do trigésimo aniversário da sua conclusão, por constituir mais um dos inúmeros exemplos da 'era de ouro' dos 'cartoonistas' disponíveis no mercado português.

09.11.22

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Numa edição anterior desta rubrica, falámos da colecção 'História de Portugal em Banda Desenhada', talvez a mais conhecida e importante publicação nacional contemporânea no campo da banda desenhada educativa. Ao contrário do que se possa pensar, no entanto, essa não foi a única incursão dos autores e desenhadores portugueses por esse campo, antes pelo contrário – praticamente em paralelo com a referida colecção, surgia nas livrarias uma outra série de álbuns de âmbito muito semelhante, mas que nunca conseguiu almejar o mesmo nível de popularidade.

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Os três volumes da série

Trata-se da trilogia 'Lendas de Portugal em Banda Desenhada', da autoria do argumentista Jorge Magalhães e do ilustrador Augusto Trigo, publicada pelas Edições ASA entre 1988 e 1991 e que, como o próprio nome indicava, relatava por meio de ilustrações e algum texto cinco dos mais conhecidos contos e lendas populares portugueses: 'A Lenda do Rei Rodrigo' e 'A Moura Encantada' no primeiro volume, 'A Lenda de Gaia' e 'A Dama Pé-de-Cabra' (este um dos mais famosos relatos do folclore lusitano) no segundo, e 'A Moura Cassima' no terceiro e último.

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Exemplo do estilo de argumento e desenhos da trilogia

Tal como acontecia com a 'História de Portugal', também este 'Lendas...' gozava de argumento e desenhos de altíssimo nível, com as ilustrações de Augusto Trigo, em particular, a remeterem para desenhadores clássicos como Hal Foster (de 'Príncipe Valente', outra série que fez sucesso em Portugal) ou Frank Frazetta, bem como para contemporâneos como o belga François Craenhals, autor da série 'Cavaleiro Ardente'; quanto ao argumento, e ainda que o tema abordado possa não ser de interesse consensual entre a demografia-alvo, o mesmo mostrava-se ainda assim capaz de narrar estes contos populares de forma suficientemente apelativa e atractiva, servindo como o complemento perfeito para os desenhos, e contribuindo para um todo que, no cômputo geral, merecia ter ficado mais conhecido entre os jovens portugueses da época, até por tratarem de um tema (o folclore e a tradição oral) que urge não deixar morrer...

12.10.22

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Numa semana que temos vindo a dedicar exclusivamente ao mais popular herói de BD franco-belga em Portugal, Astérix, seria quase insultuoso deixarmos de analisar as adições feitas durante a 'nossa' década ao meio que o tornou conhecido; como tal, e porque a popularidade do pequeno gaulês durante a referida década não foi apenas retroactiva, dedicaremos as próximas linhas a uma breve visão geral dos dois álbuns alusivos ao mesmo lançados durante a última década do século XX.

Da autoria exclusiva de Albert Uderzo (que havia acumulado funções desde a morte do seu parceiro de criação, René Goscinny, uma década antes) qualquer destes álbuns constitui uma adição honrosa à colecção de aventuras do guerreiro gaulês e do seu rechonchudo melhor amigo, Obélix – ainda que o segundo dos dois volumes assinale, também, os primeiros vestígios do ligeiro decréscimo de qualidade que se faria sentir nos últimos dois álbuns assinados pelo ilustrador.

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Antes, porém, havia ainda tempo para um último clássico, sob a forma de 'A Rosa e o Gládio', de 1991, que vê Astérix a braços com uma admiradora furiosamente feminista, e a ter que rever os seus conceitos sobre o lugar da mulher na sociedade, enquanto procura adaptar a sua linguagem e personalidade para não ofender ninguém. Uma premissa, ao mesmo tempo, divertida e relevante, que antecipa o movimento 'woke' com cerca de três décadas de antecedência, e cuja mensagem é transmitida de forma suficientemente caricatural para nunca parecer forçada ou piegas, tornando o álbum digno de figurar ao lado de outros clássicos da era pós-Goscinny, como o também excelente 'O Filho de Astérix', de 1983.

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O mesmo não se pode, infelizmente, dizer de 'O Pesadelo de Obélix', lançado cinco anos depois e que, longe de ser mau, é no entanto menos memorável do que os seus antecessores directos. A trama não deixa de ser interessante, permitindo descobrir quão nefastos podem ser os efeitos da poção mágica de Panoramix sobre o perpetuamente 'super-poderoso 'Obélix, mas não chega, infelizmente, para elevar o álbum além daquele contingente de títulos de Astérix que tendem a ficar esquecidos por entre os clássicos absolutos, a exemplo de 'Astérix e o Caldeirão', 'Astérix e os Godos' ou 'O Grande Fosso'. Ainda assim, uma aventura bem divertida (embora se sinta a falta do sarcástico e inocente Obélix) e que vale a pena ter na colecção, quanto mais não seja em nome do completismo.

Infelizmente, e como já acima indicámos, estes dois álbuns representam o fim da 'época áurea' de Astérix; os dois primeiros livros do novo milénio (e últimos dois da 'era Uderzo', antes de a série ser 'cedida' a dois perfeitos desconhecidos), embora ainda de qualidade acima de qualquer suspeita, já revelam alguma falta de inspiração e ideias, ficando bem abaixo do que o universo cinematográfico do herói gaulês vinha produzindo ('Astérix e Obélix: Missão Cleópatra' é tão bom ou melhor do que qualquer álbum da fase clássica, e altamente recomendado a qualquer fã dos personagens de Goscinny e Uderzo). Quem deixou de ler a série nos anos 90, no entanto (fosse por decréscimo de interesse ou simplesmente pela entrada na idade adulta) teve a sorte de ainda se conseguir 'despedir' da série com a mesma em alta, através de dois bons livros que, ainda hoje, vale bem a pena tentar adicionar à colecção.

09.10.22

Ser criança é gostar de se divertir, e por isso, em Domingos alternados, o Anos 90 relembra algumas das diversões que não cabem em qualquer outra rubrica deste blog.

Já aqui anteriormente falámos dos jogos de tabuleiro como uma das melhores maneiras de passar um Domingo sem grandes planos tirando estar em casa, com a família; e a verdade é que, nas últimas décadas do século XX e inícios do Terceiro Milénio, esse ponto de vista tinha adeptos suficientes para justificar a existência de toda uma panóplia de jogos deste tipo, muitos deles licenciados e alusivos às principais propriedades intelectuais da época. Mais - longe de apenas aplicarem umas mudanças estéticas superficiais ao Monopólio ou Trivial Pursuit, como acontece como os seus congéneres de hoje em dia, os títulos com licença oficial daquela época esforçavam-se por oferecer a quem os adquiria uma experiência de jogo única, e, se possível, que reflectisse o espírito e ambientação da propriedade licenciada.

Infelizmente, esta vontade de fazer 'mais e melhor' acabava, muitas vezes, por resultar em jogos cujas regras eram complexas ao ponto de inibir a vontade de disputar uma partida, e os tornavam ligeiramente aborrecidos mesmo quando eram retirados da prateleira. Felizmente, havia títulos deste tipo em que esse balanço era bem conseguido, ou em que os restantes atractivos eram suficientes para fazer esquecer essa lacuna – e o jogo de que falamos hoje faz parte desta última categoria.

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A apresentação e regras do jogo eram detalhadas sem deixarem de ser aliciantes

Falamos de 'Astérix e os Romanos', original da Ravensburger (a mesma que, à época, fazia furor com os seus 'puzzles' também licenciados) lançado pela Majora em 1991, numa altura em que o personagem de BD franco-belga criado por Goscinny e Uderzo vivia uma segunda vaga de popularidade, fruto do lançamento no nosso país da aventura animada inédita 'A Surpresa de César' (uns espantosos CINCO ANOS depois da sua produção e lançamento na sua França natal) bem como do primeiro álbum do irredutível guerreiro gaulês em cinco anos, 'A Rosa e o Gládio' – ambos, aliás. temas que abordaremos dentro em muito breve aqui no Anos 90.

De aparência gráfica cuidada (a caixa traz um desenho inédito, e as peças são, elas próprias, recortes cartonados dos personagens de Uderzo, cada um com uma pequena base de plástico que o mantém em pé) 'Astérix e os Romanos' começa, desde logo, por agradar do ponto de vista visual, predispondo positivamente os potenciais jogadores ainda antes de ser lançado qualquer dado – dos quais o jogo tem dois, um branco (numerado apenas de um a quatro) e um preto (numerado apenas de três a seis), cada qual com sua função. Do conjunto fazem, ainda, parte uma série de cartas ao estilo Monopólio, divididas entre Romanos e Penalidades, sendo as segundas exactamente metade das primeiras – dezasseis, contra as 32 de Romanos.

Infelizmente (e algo surpreendentemente) este jogo encontra-se, hoje em dia, algo Esquecido Pela Net, e as nossas memórias do mesmo também não se estendem às regras exactas, pelo que não nos é possível fornecer maiores informações sobre a forma como o mesmo é (era) jogado; de recordação, apenas o facto de essas mesmas regras serem apenas complicadas o quanto-baste para não tornar o jogo propício a partidas rápidas, ou até muito frequentes, sem no entanto causar aversão ao mesmo – um balanço que, conforme atrás indicámos, nem todos os títulos desta índole conseguiam atingir. Mesmo sem essa informação, no entanto, vale a pena reavivar entre os nossos leitores a memória deste jogo, o qual demonstrava mais sofisticação do que seria necessária a um jogo infantil com vendas quase 'garantidas' pela licença oficial, e que, por isso mesmo terá, à época, certamente cativado um sem-número de fãs do pequeno guerreiro gaulês por esse Portugal fora...

 

28.09.22

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Apesar do seu longo historial com heróis de banda desenhada (mais ou menos 'super') das mais diversas proveniências, Portugal passou, surpreendentemente, ao lado de um dos maiores 'comics' independentes de finais do século XX, oriundo de um país que, em décadas anteriores, já rendera aos 'bedéfilos' lusos um dos seus mais icónicos heróis, o Major Alvega. Em vista do sucesso que o seu conterrâneo fizera em terras lusas, do êxito de que este outro personagem gozava em outros países - onde as suas histórias (e a publicação onde se inseriam) tinham estatuto de culto, chegando mesmo a inspirar uma 'malha' dos metaleiros nova-iorquinos Anthrax - e da referida apetência dos leitores portugueses por histórias de super-heróis, ficção científica ou ambas, não deixa de ser estranho que um trabalho que reunia todos esses predicados tenha passado praticamente 'em branco' por terras lusitanas.

A verdade, no entanto, é que foi preciso o aparecimento de uma revista baseada em material oriundo das Ilhas Britânicas (e que tão-pouco era especializada em BD) para o maior orgulho nacional anglo-saxónico (pelo menos no campo da banda desenhada) fazer finalmente a travessia do Atlântico e chegar a climas mais quentes. Seria, pois, nas páginas traseiras da revista 'Rock Power', especializada em música 'rock' e 'heavy metal', que o hoje famoso e icónico Juiz Dredd se daria a conhecer – no caso a um segmento bastante limitado (embora receptivo à temática e estilo de desenho das histórias) da demografia a que almejava.

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Página publicada na revista 'Rock Power' (crédito da foto: Divulgando Banda Desenhada)

Escusado será dizer que a extinção da referida revista 'arrastou' consigo o justiceiro da futurista Mega City, cuja perfeita anonimidade entre o público bedéfilo generalista português o votou ao esquecimento – ou melhor, ao desconhecimento – no seio do mesmo; seria, assim, necessário esperar até 1994 para que quem não era 'metaleiro' ficasse a conhecer Dredd, o qual regressaria às bancas nacionais por tempo limitado, no âmbito de uma colaboração com um herói bastante mais famoso e apreciado por terras lusas: o Vingador Mascarado, Batman. O simples mas esclarecedoramente intitulado 'Batman e Juiz Dredd – Julgamento em Gotham' – um daqueles álbuns de 'crossover' tão populares durante as décadas de 90 e 2000, e um de quatro encontros entre os dois heróis – chegaria aos quiosques e papelarias de Norte a Sul do País em 1994, curiosamente, não pela mão da omnipresente Abril/Controljornal, responsável por todos os periódicos de super-heróis disponíveis nas bancas nacionais, mas da Meribérica/Liber, a sua 'rival' monopolista dos heróis franco-belgas. Talvez por isso o álbum seja, hoje em dia, menos conhecido e recordado do que aquelas revistas bem mais 'chungas' que a maioria dos portugueses do sexo masculino de uma certa idade (e, presumivelmente, também do feminino) leu naquela época da sua vida.

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Capa e vinheta do álbum da Meribérica, de 1994

Após os 'cinco minutos de fama' com Batman, no entanto, o polícia futurista voltaria a ser votado ao esquecimento em terras de Viriato – situação que nem mesmo o filme do ano seguinte, com Sylvester Stallone (do qual falaremos aqui muito em breve) conseguiu alterar. O regresso do Juiz Dredd aos escaparates lusos dar-se-ia, pois, já bem dentro do novo milénio, pela mão da editora Mythos, que aproveitava o embalo do sucesso do 'remake' cinematográfico das aventuras do herói (um dos poucos que efectivamente supera o original, e cuja existência se justifica) para trazer para Portugal a 'Juiz Dredd Magazine', publicação criada e concebida (onde mais?) no Brasil, onde já ia fazendo considerável sucesso. No total, foram vinte e quatro os números da revista distribuídos em Portugal, antes de o desafortunado Juiz de Mega City regressar à obscuridade – embora, agora, com uma base de seguidores consideravelmente alargada, e que (quem sabe?) talvez consiga propiciar novo regresso aos escaparates de BD lusos num futuro próximo; por agora, no entanto, Dredd perfila-se como um dos principais 'tiros ao lado' e oportunidades perdidas da edição de banda desenhada em Portugal – um erro que, pela amostra conjunta, continua a ser difícil de remediar...

22.09.22

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

Há algumas edições atrás, falámos nesta rubrica da revista Riff, tendo à data erroneamente insinuado tratar-se da primeira revista nacional dedicada ao som de peso, vulgo metal; nas próximas linhas, iremos desfazer esse equívoco, e falar da revista que merece, verdadeiramente, essa distinção, e que foi a verdadeira pioneira das publicações especializadas sobre rock pesado em solo nacional – a Rock Power.

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Capa do número 1 da revista. (Crédito da foto: Rock no Sótão)

'Braço' nacional de uma publicação de âmbito internacional, publicada em oito países (a edição lusa mantinha, aliás, o 'slogan' em inglês), a Rock Power portuguesa 'rebentava' nas bancas em Junho de 1991, tendo como editor o antigo colaborador inglês da Música e Som, Ray Bonici, e como redactores a equipa por detrás do também imensamente popular programa 'Lança-Chamas', liderada pelo inevitável António Freitas - talvez o principal dinamizador do 'som de peso' na imprensa portuguesa, e que viria também a colaborar nas duas outras revistas nacionais sobre este tópico, a Riff e a ainda mais famosa e bem-sucedida Loud! Quanto à Rock Power, a sua função e dos seus colaboradores passava, primeiramente, apenas por traduzir e adaptar os textos da edição inglesa (a qual, aliás, servia também de base à edição espanhola, em tudo idêntica à portuguesa), num molde semelhante aos de revistas 'multinacionais' como a Mega Force, Super Power ou Revista Oficial Playstation; com o passar dos números, no entanto – e à medida que a revista se estabelecia – os mesmos principiaram também a criar, de raiz, tópicos especificamente ligados à cena rock e 'heavy metal' lusa, dando à publicação uma personalidade mais vincadamente portuguesa, à semelhança do que, lá por fora, iam fazendo congéneres como a Kerrang! e Metal Hammer espanholas.

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Outro número da revista, no caso, o Nº8 (Crédito da foto: Divulgando Banda Desenhada)

Além das habituais notícias, entrevistas, biografias e críticas aos mais recentes lançamentos, a revista destacava-se, ainda, por incluir banda desenhada, nomeadamente a famosa série 'Judge Dredd', originalmente publicada na compilação de culto inglesa '2000 AD'; apenas mais uma razão para os 'metaleiros' nacionais, até então totalmente privados de conteúdos editoriais oficiais relativos à sua 'cena', desembolsarem mensalmente os 350 escudos que a revista custava - muita 'massa' em dinheiro de 1991, talvez, mas – como as linhas anteriores terão, espera-se, demonstrado – um 'sacrifício' mais do que justificado para quem, até então, tivera de recorrer a 'fanzines' amadoras para se manter a par do que se ia passando no seu panorama musical de eleição.

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Uma página de Judge Dredd, tal como apareceu no número 8 da revista. (Crédito da foto: Divulgando Banda Desenhada)

Quanto à revista em si, e apesar de não ter tido um ciclo de vida particularmente longo, nada lhe tira a distinção de ter desbravado um caminho sem o qual as posteriores 'versões melhoradas' da fórmula não poderiam ter existido – facto que, só por si, já torna merecido que se levantem um par de 'chifres' e uma imperial bem geladinha em sua homenagem.

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