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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

09.11.22

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Numa edição anterior desta rubrica, falámos da colecção 'História de Portugal em Banda Desenhada', talvez a mais conhecida e importante publicação nacional contemporânea no campo da banda desenhada educativa. Ao contrário do que se possa pensar, no entanto, essa não foi a única incursão dos autores e desenhadores portugueses por esse campo, antes pelo contrário – praticamente em paralelo com a referida colecção, surgia nas livrarias uma outra série de álbuns de âmbito muito semelhante, mas que nunca conseguiu almejar o mesmo nível de popularidade.

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Os três volumes da série

Trata-se da trilogia 'Lendas de Portugal em Banda Desenhada', da autoria do argumentista Jorge Magalhães e do ilustrador Augusto Trigo, publicada pelas Edições ASA entre 1988 e 1991 e que, como o próprio nome indicava, relatava por meio de ilustrações e algum texto cinco dos mais conhecidos contos e lendas populares portugueses: 'A Lenda do Rei Rodrigo' e 'A Moura Encantada' no primeiro volume, 'A Lenda de Gaia' e 'A Dama Pé-de-Cabra' (este um dos mais famosos relatos do folclore lusitano) no segundo, e 'A Moura Cassima' no terceiro e último.

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Exemplo do estilo de argumento e desenhos da trilogia

Tal como acontecia com a 'História de Portugal', também este 'Lendas...' gozava de argumento e desenhos de altíssimo nível, com as ilustrações de Augusto Trigo, em particular, a remeterem para desenhadores clássicos como Hal Foster (de 'Príncipe Valente', outra série que fez sucesso em Portugal) ou Frank Frazetta, bem como para contemporâneos como o belga François Craenhals, autor da série 'Cavaleiro Ardente'; quanto ao argumento, e ainda que o tema abordado possa não ser de interesse consensual entre a demografia-alvo, o mesmo mostrava-se ainda assim capaz de narrar estes contos populares de forma suficientemente apelativa e atractiva, servindo como o complemento perfeito para os desenhos, e contribuindo para um todo que, no cômputo geral, merecia ter ficado mais conhecido entre os jovens portugueses da época, até por tratarem de um tema (o folclore e a tradição oral) que urge não deixar morrer...

12.10.22

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Numa semana que temos vindo a dedicar exclusivamente ao mais popular herói de BD franco-belga em Portugal, Astérix, seria quase insultuoso deixarmos de analisar as adições feitas durante a 'nossa' década ao meio que o tornou conhecido; como tal, e porque a popularidade do pequeno gaulês durante a referida década não foi apenas retroactiva, dedicaremos as próximas linhas a uma breve visão geral dos dois álbuns alusivos ao mesmo lançados durante a última década do século XX.

Da autoria exclusiva de Albert Uderzo (que havia acumulado funções desde a morte do seu parceiro de criação, René Goscinny, uma década antes) qualquer destes álbuns constitui uma adição honrosa à colecção de aventuras do guerreiro gaulês e do seu rechonchudo melhor amigo, Obélix – ainda que o segundo dos dois volumes assinale, também, os primeiros vestígios do ligeiro decréscimo de qualidade que se faria sentir nos últimos dois álbuns assinados pelo ilustrador.

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Antes, porém, havia ainda tempo para um último clássico, sob a forma de 'A Rosa e o Gládio', de 1991, que vê Astérix a braços com uma admiradora furiosamente feminista, e a ter que rever os seus conceitos sobre o lugar da mulher na sociedade, enquanto procura adaptar a sua linguagem e personalidade para não ofender ninguém. Uma premissa, ao mesmo tempo, divertida e relevante, que antecipa o movimento 'woke' com cerca de três décadas de antecedência, e cuja mensagem é transmitida de forma suficientemente caricatural para nunca parecer forçada ou piegas, tornando o álbum digno de figurar ao lado de outros clássicos da era pós-Goscinny, como o também excelente 'O Filho de Astérix', de 1983.

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O mesmo não se pode, infelizmente, dizer de 'O Pesadelo de Obélix', lançado cinco anos depois e que, longe de ser mau, é no entanto menos memorável do que os seus antecessores directos. A trama não deixa de ser interessante, permitindo descobrir quão nefastos podem ser os efeitos da poção mágica de Panoramix sobre o perpetuamente 'super-poderoso 'Obélix, mas não chega, infelizmente, para elevar o álbum além daquele contingente de títulos de Astérix que tendem a ficar esquecidos por entre os clássicos absolutos, a exemplo de 'Astérix e o Caldeirão', 'Astérix e os Godos' ou 'O Grande Fosso'. Ainda assim, uma aventura bem divertida (embora se sinta a falta do sarcástico e inocente Obélix) e que vale a pena ter na colecção, quanto mais não seja em nome do completismo.

Infelizmente, e como já acima indicámos, estes dois álbuns representam o fim da 'época áurea' de Astérix; os dois primeiros livros do novo milénio (e últimos dois da 'era Uderzo', antes de a série ser 'cedida' a dois perfeitos desconhecidos), embora ainda de qualidade acima de qualquer suspeita, já revelam alguma falta de inspiração e ideias, ficando bem abaixo do que o universo cinematográfico do herói gaulês vinha produzindo ('Astérix e Obélix: Missão Cleópatra' é tão bom ou melhor do que qualquer álbum da fase clássica, e altamente recomendado a qualquer fã dos personagens de Goscinny e Uderzo). Quem deixou de ler a série nos anos 90, no entanto (fosse por decréscimo de interesse ou simplesmente pela entrada na idade adulta) teve a sorte de ainda se conseguir 'despedir' da série com a mesma em alta, através de dois bons livros que, ainda hoje, vale bem a pena tentar adicionar à colecção.

09.10.22

Ser criança é gostar de se divertir, e por isso, em Domingos alternados, o Anos 90 relembra algumas das diversões que não cabem em qualquer outra rubrica deste blog.

Já aqui anteriormente falámos dos jogos de tabuleiro como uma das melhores maneiras de passar um Domingo sem grandes planos tirando estar em casa, com a família; e a verdade é que, nas últimas décadas do século XX e inícios do Terceiro Milénio, esse ponto de vista tinha adeptos suficientes para justificar a existência de toda uma panóplia de jogos deste tipo, muitos deles licenciados e alusivos às principais propriedades intelectuais da época. Mais - longe de apenas aplicarem umas mudanças estéticas superficiais ao Monopólio ou Trivial Pursuit, como acontece como os seus congéneres de hoje em dia, os títulos com licença oficial daquela época esforçavam-se por oferecer a quem os adquiria uma experiência de jogo única, e, se possível, que reflectisse o espírito e ambientação da propriedade licenciada.

Infelizmente, esta vontade de fazer 'mais e melhor' acabava, muitas vezes, por resultar em jogos cujas regras eram complexas ao ponto de inibir a vontade de disputar uma partida, e os tornavam ligeiramente aborrecidos mesmo quando eram retirados da prateleira. Felizmente, havia títulos deste tipo em que esse balanço era bem conseguido, ou em que os restantes atractivos eram suficientes para fazer esquecer essa lacuna – e o jogo de que falamos hoje faz parte desta última categoria.

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A apresentação e regras do jogo eram detalhadas sem deixarem de ser aliciantes

Falamos de 'Astérix e os Romanos', original da Ravensburger (a mesma que, à época, fazia furor com os seus 'puzzles' também licenciados) lançado pela Majora em 1991, numa altura em que o personagem de BD franco-belga criado por Goscinny e Uderzo vivia uma segunda vaga de popularidade, fruto do lançamento no nosso país da aventura animada inédita 'A Surpresa de César' (uns espantosos CINCO ANOS depois da sua produção e lançamento na sua França natal) bem como do primeiro álbum do irredutível guerreiro gaulês em cinco anos, 'A Rosa e o Gládio' – ambos, aliás. temas que abordaremos dentro em muito breve aqui no Anos 90.

De aparência gráfica cuidada (a caixa traz um desenho inédito, e as peças são, elas próprias, recortes cartonados dos personagens de Uderzo, cada um com uma pequena base de plástico que o mantém em pé) 'Astérix e os Romanos' começa, desde logo, por agradar do ponto de vista visual, predispondo positivamente os potenciais jogadores ainda antes de ser lançado qualquer dado – dos quais o jogo tem dois, um branco (numerado apenas de um a quatro) e um preto (numerado apenas de três a seis), cada qual com sua função. Do conjunto fazem, ainda, parte uma série de cartas ao estilo Monopólio, divididas entre Romanos e Penalidades, sendo as segundas exactamente metade das primeiras – dezasseis, contra as 32 de Romanos.

Infelizmente (e algo surpreendentemente) este jogo encontra-se, hoje em dia, algo Esquecido Pela Net, e as nossas memórias do mesmo também não se estendem às regras exactas, pelo que não nos é possível fornecer maiores informações sobre a forma como o mesmo é (era) jogado; de recordação, apenas o facto de essas mesmas regras serem apenas complicadas o quanto-baste para não tornar o jogo propício a partidas rápidas, ou até muito frequentes, sem no entanto causar aversão ao mesmo – um balanço que, conforme atrás indicámos, nem todos os títulos desta índole conseguiam atingir. Mesmo sem essa informação, no entanto, vale a pena reavivar entre os nossos leitores a memória deste jogo, o qual demonstrava mais sofisticação do que seria necessária a um jogo infantil com vendas quase 'garantidas' pela licença oficial, e que, por isso mesmo terá, à época, certamente cativado um sem-número de fãs do pequeno guerreiro gaulês por esse Portugal fora...

 

28.09.22

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Apesar do seu longo historial com heróis de banda desenhada (mais ou menos 'super') das mais diversas proveniências, Portugal passou, surpreendentemente, ao lado de um dos maiores 'comics' independentes de finais do século XX, oriundo de um país que, em décadas anteriores, já rendera aos 'bedéfilos' lusos um dos seus mais icónicos heróis, o Major Alvega. Em vista do sucesso que o seu conterrâneo fizera em terras lusas, do êxito de que este outro personagem gozava em outros países - onde as suas histórias (e a publicação onde se inseriam) tinham estatuto de culto, chegando mesmo a inspirar uma 'malha' dos metaleiros nova-iorquinos Anthrax - e da referida apetência dos leitores portugueses por histórias de super-heróis, ficção científica ou ambas, não deixa de ser estranho que um trabalho que reunia todos esses predicados tenha passado praticamente 'em branco' por terras lusitanas.

A verdade, no entanto, é que foi preciso o aparecimento de uma revista baseada em material oriundo das Ilhas Britânicas (e que tão-pouco era especializada em BD) para o maior orgulho nacional anglo-saxónico (pelo menos no campo da banda desenhada) fazer finalmente a travessia do Atlântico e chegar a climas mais quentes. Seria, pois, nas páginas traseiras da revista 'Rock Power', especializada em música 'rock' e 'heavy metal', que o hoje famoso e icónico Juiz Dredd se daria a conhecer – no caso a um segmento bastante limitado (embora receptivo à temática e estilo de desenho das histórias) da demografia a que almejava.

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Página publicada na revista 'Rock Power' (crédito da foto: Divulgando Banda Desenhada)

Escusado será dizer que a extinção da referida revista 'arrastou' consigo o justiceiro da futurista Mega City, cuja perfeita anonimidade entre o público bedéfilo generalista português o votou ao esquecimento – ou melhor, ao desconhecimento – no seio do mesmo; seria, assim, necessário esperar até 1994 para que quem não era 'metaleiro' ficasse a conhecer Dredd, o qual regressaria às bancas nacionais por tempo limitado, no âmbito de uma colaboração com um herói bastante mais famoso e apreciado por terras lusas: o Vingador Mascarado, Batman. O simples mas esclarecedoramente intitulado 'Batman e Juiz Dredd – Julgamento em Gotham' – um daqueles álbuns de 'crossover' tão populares durante as décadas de 90 e 2000, e um de quatro encontros entre os dois heróis – chegaria aos quiosques e papelarias de Norte a Sul do País em 1994, curiosamente, não pela mão da omnipresente Abril/Controljornal, responsável por todos os periódicos de super-heróis disponíveis nas bancas nacionais, mas da Meribérica/Liber, a sua 'rival' monopolista dos heróis franco-belgas. Talvez por isso o álbum seja, hoje em dia, menos conhecido e recordado do que aquelas revistas bem mais 'chungas' que a maioria dos portugueses do sexo masculino de uma certa idade (e, presumivelmente, também do feminino) leu naquela época da sua vida.

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Capa e vinheta do álbum da Meribérica, de 1994

Após os 'cinco minutos de fama' com Batman, no entanto, o polícia futurista voltaria a ser votado ao esquecimento em terras de Viriato – situação que nem mesmo o filme do ano seguinte, com Sylvester Stallone (do qual falaremos aqui muito em breve) conseguiu alterar. O regresso do Juiz Dredd aos escaparates lusos dar-se-ia, pois, já bem dentro do novo milénio, pela mão da editora Mythos, que aproveitava o embalo do sucesso do 'remake' cinematográfico das aventuras do herói (um dos poucos que efectivamente supera o original, e cuja existência se justifica) para trazer para Portugal a 'Juiz Dredd Magazine', publicação criada e concebida (onde mais?) no Brasil, onde já ia fazendo considerável sucesso. No total, foram vinte e quatro os números da revista distribuídos em Portugal, antes de o desafortunado Juiz de Mega City regressar à obscuridade – embora, agora, com uma base de seguidores consideravelmente alargada, e que (quem sabe?) talvez consiga propiciar novo regresso aos escaparates de BD lusos num futuro próximo; por agora, no entanto, Dredd perfila-se como um dos principais 'tiros ao lado' e oportunidades perdidas da edição de banda desenhada em Portugal – um erro que, pela amostra conjunta, continua a ser difícil de remediar...

22.09.22

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

Há algumas edições atrás, falámos nesta rubrica da revista Riff, tendo à data erroneamente insinuado tratar-se da primeira revista nacional dedicada ao som de peso, vulgo metal; nas próximas linhas, iremos desfazer esse equívoco, e falar da revista que merece, verdadeiramente, essa distinção, e que foi a verdadeira pioneira das publicações especializadas sobre rock pesado em solo nacional – a Rock Power.

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Capa do número 1 da revista. (Crédito da foto: Rock no Sótão)

'Braço' nacional de uma publicação de âmbito internacional, publicada em oito países (a edição lusa mantinha, aliás, o 'slogan' em inglês), a Rock Power portuguesa 'rebentava' nas bancas em Junho de 1991, tendo como editor o antigo colaborador inglês da Música e Som, Ray Bonici, e como redactores a equipa por detrás do também imensamente popular programa 'Lança-Chamas', liderada pelo inevitável António Freitas - talvez o principal dinamizador do 'som de peso' na imprensa portuguesa, e que viria também a colaborar nas duas outras revistas nacionais sobre este tópico, a Riff e a ainda mais famosa e bem-sucedida Loud! Quanto à Rock Power, a sua função e dos seus colaboradores passava, primeiramente, apenas por traduzir e adaptar os textos da edição inglesa (a qual, aliás, servia também de base à edição espanhola, em tudo idêntica à portuguesa), num molde semelhante aos de revistas 'multinacionais' como a Mega Force, Super Power ou Revista Oficial Playstation; com o passar dos números, no entanto – e à medida que a revista se estabelecia – os mesmos principiaram também a criar, de raiz, tópicos especificamente ligados à cena rock e 'heavy metal' lusa, dando à publicação uma personalidade mais vincadamente portuguesa, à semelhança do que, lá por fora, iam fazendo congéneres como a Kerrang! e Metal Hammer espanholas.

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Outro número da revista, no caso, o Nº8 (Crédito da foto: Divulgando Banda Desenhada)

Além das habituais notícias, entrevistas, biografias e críticas aos mais recentes lançamentos, a revista destacava-se, ainda, por incluir banda desenhada, nomeadamente a famosa série 'Judge Dredd', originalmente publicada na compilação de culto inglesa '2000 AD'; apenas mais uma razão para os 'metaleiros' nacionais, até então totalmente privados de conteúdos editoriais oficiais relativos à sua 'cena', desembolsarem mensalmente os 350 escudos que a revista custava - muita 'massa' em dinheiro de 1991, talvez, mas – como as linhas anteriores terão, espera-se, demonstrado – um 'sacrifício' mais do que justificado para quem, até então, tivera de recorrer a 'fanzines' amadoras para se manter a par do que se ia passando no seu panorama musical de eleição.

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Uma página de Judge Dredd, tal como apareceu no número 8 da revista. (Crédito da foto: Divulgando Banda Desenhada)

Quanto à revista em si, e apesar de não ter tido um ciclo de vida particularmente longo, nada lhe tira a distinção de ter desbravado um caminho sem o qual as posteriores 'versões melhoradas' da fórmula não poderiam ter existido – facto que, só por si, já torna merecido que se levantem um par de 'chifres' e uma imperial bem geladinha em sua homenagem.

04.08.22

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

O mercado nacional para periódicos semanais, quinzenais ou mensais era, nos anos 90, suficientemente vasto para englobar todo o tipo de publicações, desde revistas especializadas a vários tipos de bandas desenhadas, passando pelas revistas de 'fofocas', guias de televisão, jornais temáticos, revistas didácticasedições em fascículos e outras publicações de teor mais generalista; existia, no entanto, um denominador comum entre a maioria destes títulos, nomeadamente, o facto de a esmagadora maioria dos mesmos se dirigirem a um de dois públicos – o infanto-juvenil ou o feminino, quer jovem, quer mais maduro.

De facto, mais ainda do que às publicações para jovens, era às revistas 'para senhoras' que cabia a maior fatia do mercado nacional de revistas da época, sobretudo pela diversidade de títulos que acabavam por caber dentro dessa denominação, os quais iam das referidas revistas de 'fofocas' a publicações especializadas sobre moda (das quais, aliás, paulatinamente aqui falaremos), passando pelo título de que falamos nesta visita ao Quiosque, e que era algo único no panorama português da época.

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Nem revista 'cor-de-rosa', nem título especializado, e muito menos compilação de 'posters' para adolescentes, a 'Guia' deixava o seu intuito bem explícito no subtítulo: 'a revista prática'. De facto, esta publicação – lançada mesmo no dealbar da década, anos antes da sua congénere mais próxima, e que tinha como base a espanhola 'Mia' – pretendia afirmar-se como uma fonte de conhecimento sobre temas relevantes para a vida quotidiana de uma mulher portuguesa da época, os quais podiam passar tanto pelas habituais tendências de moda ou guias de presentes como por sugestões de trabalhos manuais ou conselhos sobre etiqueta e segurança em espaços públicos (nos 'Guias da Mulher', editados à parte e totalmente dedicados a esta vertente) ou até crédito à habitação (!)

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De cima para baixo: a espanhola 'Mia', base para a 'Guia' portuguesa, um exemplar do 'Guia da Mulher', publicado periodicamente pela revista, e o 'dossier' para arquivar as edições da mesma

Como era hábito nas revistas da altura, não podia também faltar uma vertente 'aspiracional', no caso representada pelo foco e destaque dado, em cada edição, a uma 'beldade' nacional ou internacional de renome, que tinha – como também é óbvio – honras de capa nessa semana.

Uma publicação, portanto, ao mesmo tempo única e bastante típica para o padrão português de inícios de 90, que sobreviveria até meados da década seguinte (contando mesmo, embora brevemente, com um espaço televisivo na RTP, nos primeiros anos da mesma) e ajudaria a abrir caminho para a chegada de revistas tão ou mais inovadoras e revolucionárias - que viriam a incluir versões portuguesas das principais publicações internacionais de moda da época – ao mesmo tempo que ocupava, sem destoar, lugar na habitual 'pilha' dos consultórios médicos ou cabeleireiros, ao lado das 'Nova Gentes' e 'TV7 Dias' desta vida. Certo é, no entanto, que nas mais de três décadas desde o seu desaparecimento, não tornou a haver título semelhante lançado no mercado português, restando saber se tal se deveu a redundância e falta de procura, ou simplesmente incapacidade de recriar uma fórmula, à época, totalmente inovadora e única...

 

10.06.22

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Os anos 80 e 90 representaram o auge absoluto da carreira do realizador Steven Spielberg, que seria responsável, durante esse período, por uma sucessão de êxitos de bilheteira, a começar em 'Salteadores da Arca Perdida', de 1981, e que se estenderia durante mais de vinte anos, até pelo menos a 'Apanha-me Se Puderes', de 2002. Os filmes dirigidos a um público infanto-juvenil, em particular – 'E.T. - O Extraterrestre', 'Poltergeist', 'Os Goonies', as sagas 'Indiana Jones' e 'Parque Jurássico' – granjearam ao nova-iorquino uma reputação suficiente para que qualquer projecto por ele encabeçado e dirigido a esta demografia se tornasse um sucesso, por mais megalómano ou exagerado que fosse.

Serve este preâmbulo para falar de 'Hook', talvez O mais megalómano e exagerado de todos os filmes infanto-juvenis de Spielberg, que – mesmo com quase duas horas e meia de duração, e apresentando muitos dos piores 'tiques' do realizador – não deixou ainda assim de ser bem acolhido pelas crianças e jovens de inícios dos 90, não constituindo Portugal excepção neste aspecto.

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De facto, aquando da sua estreia em território nacional, a sequela para a clássica história de Peter Pan – que documenta o regresso do herói à Terra do Nunca, décadas depois de finalmente ter sucumbido à maturidade – suscitou considerável interesse entre o público-alvo, a quem nem mesmo a longa duração do filme (quase uma hora mais longo do que a maioria das películas destinadas à mesma demografia) conseguiu refrear o entusiasmo; como consequência, 'Hook' acabou mesmo por se afirmar como mais um na infindável lista de sucessos de Spielberg – mesmo sendo um dos filmes mais fracos do realizador durante esse período.

De facto, conforme referimos acima, a longa-metragem apresenta várias pechas, que não se resumem apenas à longa duração e ritmo algo indulgente; não foi à toa que, por exemplo, Julia Roberts foi nomeada para a Framboesa de Ouro relativa a Pior Atriz Coadjuvante – a sua prestação como Sininho, já de si repleta de todos os mais irritantes clichés da actriz, não sai de todo beneficiada pelos efeitos especiais da época. De igual modo, Williams surge neste filme em modo 'sentimentalão', sem a 'chama' que trazia a papéis sérios como 'O Clube dos Poetas Mortos' nem a veia cómica desenfreada das suas futuras prestações em 'Aladdin', 'Flubber' ou 'Papá Para Sempre'.

Valem, pois, as prestações de Dustin Hoffman como o titular Capitão Gancho – declaradamente e propositalmente afectada e exagerada – e do jovem Dante Basco como Rufio (líder dos Meninos Perdidos e 'substituto' de Peter tanto em idade como em aspecto e atitude) para manter o interesse do espectador comum, não sendo de estranhar que ambas constituam os elementos mais memoráveis da película.

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O Rufio de Dante Basco e o Capitão Gancho de Dustin Hoffman são os elementos mais memoráveis do filme

Em suma, apesar de não constituir de todo uma má opção para uma tarde chuvosa em família – quem conhece o Spielberg deste período sempre soube que estaria em boas mãos – 'Hook' deixa algo a desejar quando comparado com a esmagadora maioria das obras que o rodeiam na filmografia do realizador americano, devendo pois ser recordado (ou apresentado às gerações mais novas) apenas depois de esgotados todos os restantes marcos da filmografia Spielbergiana. Ainda assim, o filme chegou, à época, a ser marcante para um determinado sector da juventude portuguesa, pelo que, qualidade à parte, estas breves linhas em sua homenagem acabam por não ser totalmente descabidas...

26.05.22

NOTA: Este post diz respeito a Quarta-feira, 25 de Maio de 2022.

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

As revistas-compilação, que reuniam, em cada número, trechos de diversas obras distintas, foram, até há relativamente pouco tempo, presença comum no mercado tipográfico português, sendo o seu expoente máximo as Selecções do Reader's Digest, que além de trechos de obras publicavam também artigos sobre temas de interesse, bem como textos originais mais curtos.

Curiosamente, no mercado da banda desenhada, este tipo de revista viu-se representada, não por uma, mas por duas publicações distintas: primeiro, nos anos 60 e 70, a excelente revista 'Tintim', que conseguiu fazer vingar o formato por impressionantes quinze anos, e mais tarde, já nos anos 90, a revista 'Selecções BD', de expressão bem menor, mas que conseguiu, ainda assim, almejar duas séries.

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Capa do número 1 da primeira série da revista

Com periodicidade mensal, e da responsabilidade da editora Meribérica-Liber, o conceito da 'Selecções BD' estava descrito no próprio título, e era em tudo semelhante ao da sua antecessora; tal como 'Tintim', também a nova revista se propunha reunir em cada número trechos de obras de vários autores, publicados em ordem cronológica de modo a formar, a médio prazo, uma história completa. Também à semelhança da revista dos anos 60, cada número incluía autores tanto nacionais como internacionais, com particular ênfase no excelente e sempre prolífero mercado franco-belga, em que a editora tradicionalmente se especializou, ede onde eram provenientes nomes como Blake & Mortimer, Blueberry e Michel Vaillant, que 'ancoravam' a revista e lhe davam apelo extra entre os 'bedéfilos'.

Com esta fórmula, chegaram às bancas 36 números, entre 1988 e 1991, custando cada um uns exorbitantes 550$00, cerca de cinco vezes mais do que um adepto de BD poderia esperar pagar, à época por uma revista Disney ou de super-heróis; será caso para dizer que a qualidade se paga, já que tanto o conteúdo como o grafismo destas revistas eram de alta qualidade.

Apesar do preço proibitivo, essa primeira série das Selecções terá feito sucesso suficiente para justificar um regresso às bancas, sete anos depois da extinção da revista original, agora com um grafismo bem mais tradicional para uma publicação deste tipo, em linha com o que a Abril-Controljornal vinha fazendo com títulos como 'Heróis'.

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Capa do número 1 da segunda série da revista

O conceito e o material, esses, não se haviam alterado, embora o acervo de autores se apresentasse significativamente mais reduzido, tornando os astronómicos 900$00 pedidos pela Meribérica bem mais questionáveis do que os equivalentes 550$00 do início da década. Ainda assim, a segunda série conseguiu ser quase tão longeva quanto a original, vendo 31 números publicados entre 1998 e 2001.

Hoje em dia, a possibilidade de uma publicação deste tipo granjear sucesso é quase tão reduzida quanto a sua própria validade e viabilidade: num mundo em que tudo está ao alcance dos dedos, em formato digital, não faz qualquer sentido estar um mês à espera de mais uma tranche de uma história, pela qual se tem depois de pagar um preço exorbitante. Como tal, é provável que o mercado português – bem como o internacional – jamais tornem a ver outra publicação como esta 'Selecções BD', que constitui hoje, ainda assim, um excelente documento do que foi o 'boom' da banda desenhada franco-belga em Portugal durante os anos 80 e 90.

 

05.04.22

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Há alguns meses atrás, falámos aqui do Lecas, o personagem 'criança grande' que, em finais da década de 80 e inícios de 90, apresentava a sua Hora homónima, e que se tornou tão popular que chegou a gravar e editar um disco de músicas originais; hoje, vamos falar do próximo projecto abraçado pelo homem que o criara e lhe vestira a pele durante vários anos – o apresentador José Jorge Duarte.

Em estado de graça entre o público infantil, como resultado do seu estilo hiperactivo e energético de actuar enquanto Lecas, Duarte decidiu, em 1991, despir o 'fato' de personagem, e tentar a sua sorte em nome próprio, e num formato diferente: enquanto que a 'Hora do Lecas' era um programa de variedades com foco na apresentação de desenhos animados, o novo projecto seria um concurso de moldes clássicos. Em comum, os dois programas tinham, apenas, o facto de serem gravados em auditório, e dirigidos a um público infanto-juvenil, aquele que mais facilmente reconheceria o nome do apresentador, e teria interesse numa emissão por ele apresentada.

O resultado final deste desiderato foi 'Tal Pai, Tal Filho', concurso produzido pela Duvídeo, de Teresa Guilherme, e estreado na mesma RTP d''A Hora', menos de um ano depois de a mesma ter saído do ar - um 'timing' presumivelmente destinado a evitar que o nome de Duarte se esvaísse da sempre efémera memória das crianças.

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Com muitas semelhanças com outros concursos da época, como a mítica 'Arca de Noé' – então no pico da popularidade, e que adoptaria um formato semelhante para as suas últimas temporadas, apresentadas por outro ícone da televisão infantil da época – 'Tal Pai, Tal Filho' via equipas de um adulto e uma criança (normalmente familiar ou amiga) competir entre si em provas de cariz criativo e cultural, que iam desde criar um conto a cantar uma música ou representar uma peça de teatro.

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O apresentador, junto ao quadro com as diferentes categorias de provas disponíveis

A julgar cada 'performance' estava um júri de celebridades e respectivos mini-companheiros (também eles familiares ou amigos próximos dos jurados), cujas classificações numéricas de 0 a 10 perfaziam o total de pontos de cada equipa. No final, a equipa vencedora tinha direito a escolher entre uma série de prémios bastante típicos dos concursos da época e, na altura, incrivelmente aliciantes, desde viagens a computadores e outros produtos electrónicos. Pelo meio, havia ainda lugar aos interlúdios musicais típicos deste tipo de programa à época.

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Um típico painel de jurados do programa

Nada de incrivelmente inovador, portanto, mas suficiente para satisfazer o público-alvo, para quem o conceito interessante e um Duarte tão energético como sempre (já para não falar do tema inicial, daqueles tão 'peganhentos' que por aqui, ainda é parcialmente recordado três décadas depois) eram suficientes para justificar a hora passada à frente da televisão – embora não chegassem para manter o concurso no ar mais do que um ano.

Sim, 'Tal Pai, Tal Filho' foi mais um de entre vários concursos noventistas a desaparecer das televisões portuguesas tão rapidamente quanto tinha surgido; no caso, foram 41 emissões semanais, entre Outubro de 1991 e Agosto do ano seguinte, uma marca bem aquém da referida Arca de Noé (que se manteria no ar mais três anos, estabelecendo-se como o programa de concursos infantil mais duradouro da época) e mais condicente com emissões tão Esquecidas Pela Net como o Trocado em Miúdos (do qual, em tempo, também aqui falaremos.)

Ainda assim, para quem viu e fazia parte da demografia-alvo, tratou-se de um programa bem conseguido, que tentou afirmar-se por mais do que apenas o nome do apresentador, missão que, de um certo prisma, se pode dizer ter sido cumprida – ainda que não de forma tão longeva quanto, presume-se, teria sido desejável para a direcção da RTP. O referido apresentador, esse, transitaria para novos e mais altos vôos, nem todos direccionados ao sector infanto-juvenil (embora os mais famosos definitivamente o sejam). Desses, talvez um dia falemos; para já, e para quem não viu ou quiser matar saudades, partilhamos abaixo o único episódio de 'Tal Pai, Tal Filho' disponível online, para que os nossos leitores tirem as suas próprias conclusões sobre se o mesmo merecia ou não ter permanecido mais tempo no ar...

28.03.22

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

A adaptação de bandas desenhadas para um formato animado não é, de todo, um conceito novo, ou até moderno; pelo contrário, desde há várias décadas que companhias como a Hanna-Barbera e a Warner Bros. vêm tirando dividendos da adaptação de BD's, nomeadamente de super-heróis, a um formato igualmente serializado, mas em meios audio-visuais.

A 'nossa' década não é excepção - de Batman a Charlie Brown, são vários os exemplos desta tendência que deram azo a séries animadas de grande qualidade, e extremamente bem-sucedidas. E à cabeça desta ilustre lista de nomes encontra-se um dos poucos casos em que a série animada é melhor e mais conhecida e respeitada do que o próprio material original: a fabulosa adaptação animada das tiras de Garfield, de Jim Davis.

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Com um conceito, ao mesmo tempo, demasiado simples para sustentar episódios de vários minutos de duração e demasiado sofisticado para o público consumidor de animação televisiva, 'Garfield' não parecia, à partida, ser um candidato natural a este tipo de tratamento; o feito de Mark Evanier e Sharman DiVorno não pode, portanto, ser considerado menos do que portentoso, já que os dois guionistas responsáveis pela adaptação conseguiram criar, a partir do material de Davis, uma das melhores séries animadas de finais dos anos 80 e princípios de 90.

De facto, as aventuras de Garfield, do seu dono, o neurótico solteirão Jon Arbuckle, do 'melhor inimigo' Odie (o cão de Jon) e do irritante Nermal, o autoproclamado 'gatinho mais querido do Mundo', provaram ser capazes não só de realizar a transição da página para o ecrã, mas de melhorarem como resultado da mesma; com uma tela mais vasta sobre a qual criar novas situações, e o contexto animado a permitir explorar os limites do realismo, os dois argumentistas deram asas à imaginação, criando situações progressivamente mais mirabolantes nas quais colocar o gato laranja e a sua sofredora família adoptiva. De tramas de mistério a situações de meta-humor – alguns dos episódios mais memoráveis incluem disputas com membros da equipa de guionistas e artistas da série – sem esquecer alguns episódios mais tradicionais e de estilo 'slice of life', Evanier e DiVorno não só conseguiram transformar Garfield numa série animada acima da média, como demonstraram criatividade suficiente para a manter no ar durante SETE TEMPORADAS (de 1988 a 1994), sempre com material original, e na sua maioria perfeitamente hilariante.

A verdade, no entanto, é que mesmo que as tirinhas de Garfield não tivessem rendido como fonte de inspiração, os criadores de 'Garfield e Amigos' – pois assim se chamava a versão animada – tinham um 'plano B' na manga, assente precisamente nos 'Amigos' do título. Isto porque, à semelhança de outro gato alaranjado, gordo e preguiçoso de quem aqui recentemente falámos, Garfield não era estrela única do programa com o seu nome; mas enquanto Heathcliff partilhava o seu titulo com personagens criados pela equipa de animadores, os criadores de Garfield tinham a sorte de poder contar, como protagonistas secundários, com o outro grupo de personagens criados por Jim Davis – os animais da Quinta do Orson, cenário das menos conhecidas séries de tiras U. S. Acres.

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Os habitantes de U. S. Acres - a 'Quinta do Orson' - dividiam o protagonismo com o próprio Garfield

E embora estes segmentos do programa não fossem tão unânimes entre o público-alvo como os protagonizados por Garfield, o certo é que havia também muito do que gostar nos episódios de Orson e companhia – dos medos muitas vezes infundados do paranóico Pato Wade à 'esperteza saloia' do Galo Roy, ou à comédia física e silenciosa de Sheldon, um pintainho ainda na casca, e apenas com as pernas de fora. No cômputo geral, a Quinta do Orson servia honradamente a sua função de adicionar diversidade ao programa, sem com isso retirar protagonismo ao seu personagem principal, e constituía mais um dos trunfos da série.

E já que falamos em trunfos, nenhuma análise de 'Garfield e Amigos' fica completa sem que se faça referência à sonoplastia. Simplesmente falando, quaisquer que tenham sido os motivos por detrás da decisão da RTP de, em 1991, 'importar' Garfield em versão original, a mesma foi, sem dúvida, acertada – teria sido um crime dobrar a série em português, perdendo assim o excelente trabalho vocal de Lorenzo Music (A voz de Garfield por excelência), Frank Welker, e restantes artistas de voz. Isto sem falar dos pequenos toques de génio na banda sonora (como o icónico tema de Odie, que toca sempre que o mesmo surge em cena) ou do magnífico genérico inicial, um dos melhores e mais contagiantes de toda a década, e que fãs da série certamente ainda saberão 'de cor e salteado' três décadas depois. E não, não estamo a falar do tema 'assim-assim' que muita gente ainda hoje crê ser o genérico de 'Garfield', mas que na verdade apenas foi usado nas últimas séries:

Ponto a favor: este vídeo inclui um episódio da genial série de 'gags' 'Gritando com o Binky'

Falamos DESTA obra de arte, que introduziu os episódios das duas primeiras temporadas do programa:

Mesmo sem os diálogos do início e fim, continua a ser uma 'bomba'

Em suma, com argumentos inteligentes, excelentes desempenhos e uma banda-sonora acima da média, não é de admirar que 'Garfield e Amigos' tenha sido do melhorzinho que se produziu a nível da televisão infanto-juvenil, não só da sua época, como das últimas décadas em geral; efectivamente, como Tom e Jerry e outros clássicos, esta é daquelas séries das quais não só não é preciso ter vergonha de ter gostado (ou ainda gostar, mesmo em adulto) como também se tem pena de as novas gerações não poderem conhecer em primeira mão, pois decerto lhes agradaria mais do que as fraquinhas séries actuais de Garfield (em CGI, como não podia deixar de ser) e os divertiria tanto como aos seus pais, na mesma idade...

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