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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

07.03.24

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

Qualquer 'millennial' português cuja atracção romântica penda para o sexo feminino se lembrará, sem dúvida, das históricas versões nacionais da 'FHM' e 'Maxim', duas 'revistas para homens' publicadas durante a década de 2000 e que constituíam, à época, a forma de admirar mulheres atraentes e famosas em 'trajes menores' sem para isso ter de recorrer à sempre condenável pornografia. Para a geração anterior, no entanto – e, talvez, até para alguns dos leitores mais velhos deste 'blog', nascidos ainda durante os anos 80 – a grande revista erótica nacional foi outra, que ainda viu 'entrar' a nova década, mas que se viria a extinguir menos de um ano após o início da mesma: a 'Élan'.

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Como o próprio nome indica, a revista, idealizada e produzida na então cooperativa do Partido Socialista em Lisboa por elementos associados ao Correio da Manhã, tinha pretensões de classe e sofisticação, as quais contrastavam directamente não só com as fotos sensuais que a caracterizavam, mas com a própria temática envolvente às mesmas, que se aproximava mais a uma 'Caras' ou 'VIP' do que a qualquer publicação intelectual. Isto porque os textos – sempre de somenos importância numa revista deste tipo, mas ainda assim necessários – versavam sobre a vida do 'jet set' nacional, com tudo o que isso implicava (como festas, mexericos ou namoros), em meio a temas sobre viagens, moda e artes, e até pequenos contos. Esta inusitada mistura acabava por tornar a 'Élan' numa espécie de fusão entre a 'Playboy' e as referidas revistas 'cor-de-rosa' tão conhecidas do público noventista.

Outro aspecto inusitado da revista em causa foi a sua lista de colaboradores, impressionante para uma publicação algures entre o 'cor-de-rosa' e o 'maiores de dezoito': entre os nomes associados à 'Élan' durante o seu curto tempo de vida contavam-se a antiga Miss Portugal e aspirante a Miss Universo, e futura apresentadora televisiva, Ana Maria Lucas, Manuel Falcão (fundador do 'Blitz' e d''O Independente' e director do 'Se7e' e da RTP2!!) ou Teresa Pais, futura directora da 'Telenovelas' e 'TV Mais', à época ainda uma jovem de pouco mais de vinte anos. Nomes que ajudavam, sem dúvida, a dar alguma credibilidade à revista, garantindo um lugar mais próximo da 'TV Guia' que da 'Playboy' na prateleira da tabacaria.

Como a mistura de factores acima descrita deixa adivinhar, a 'Élan' era uma revista única e ímpar no cenário português – talvez até demais, o que poderá porventura explicar a razão para o seu desaparecimento. Ainda assim, no período de cerca de três anos em que vigorou nas bancas portuguesas, a publicação em causa não terá deixado de fazer as delícias dos então adolescentes (e não só) interessados em ver famosas bonitas e fotogénicas em poses menos 'próprias'...

17.01.24

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

A última Quarta aos Quadradinhos foi dedicada à adaptação oficial em BD de 'Indiana Jones – Crónicas da Juventude', a série de TV que serviu, em 1992-93, de prequela às aventuras cinematográficas do arqueólogo e aventureiro Henry Jones Jr.; nada melhor, portanto, do que dedicarmos a edição seguinte desta rubrica à outra adaptação em banda desenhada do personagem de Steven Spielberg e George Lucas, esta directamente relacionada com a trilogia inicial de filmes lançada nos anos 80 e inícios de 90.

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Capa do primeiro dos quatro números da série.

Trata-se de 'Indiana Jones e a Última Cruzada', mini-série originalmente lançada pela Marvel ainda nos anos 80, e que surgia em Portugal nos primeiros meses da década de 90, nos mesmos quatro volumes da edição original e, curiosamente, pela mão da Meribérica-Liber (conhecida, sobretudo, pelos seus álbuns de BD franco-belga) e não da Abril Jovem, que detinha, à época, os direitos de edição nacionais da maioria dos títulos da Marvel e DC. O conteúdo, esse, não deixava margem para quaisquer surpresas, tratando-se de uma recriação do enredo e cinematografia do filme em formato gráfico, que se inseria declaradamente na então bastante popular categoria das adaptações de filmes em banda desenhada, que veria também serem editados em Portugal, na primeira metade dos anos 90, álbuns e colecções alusivas a 'Batman Para Sempre' e 'Parque Jurássico'.

Ao contrário do que acontecia com aquelas obras, no entanto, esta adaptação em BD apresenta uma série de pequenas diferenças, justificadas pelo facto de a adaptação gráfica se basear na novelização oficial do filme, onde se verificavam os mesmos desvios. Nada que prejudique a experiência ou até o desfecho da trama, no entanto, sendo que qualquer fã dos filmes se sentirá em 'território familiar' ao explorar a obra do argumentista David Michelinie (à época um nome sonante no seio da Marvel) e dos artistas Brett Blevins e Gregory Wright. Uma proposta interessante, pois, para quem queira 'mergulhar' no 'Universo circundante' da franquia 'Indiana Jones', e descobrir um pouco do 'merchandising' e produtos complementares que a mesma gerava no auge da sua popularidade – dos quais esta adaptação em 'quadradinhos' está longe de ser a mais inusitada.

04.01.24

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

Embora tradicionalmente dominada pelos três aparentemente perenes jornais diários, a imprensa desportiva em Portugal tem visto, ao longo dos anos, serem feitas várias outras tentativas de penetração de mercado, nomeadamente através do lançamento de revistas especializadas. Infelizmente, são poucos os exemplos deste tipo de publicação que atingem, verdadeiramente, algum grau de sucesso, preferindo o público, invariavelmente, adquirir os 'magazines' ligados aos três diários, em vez de uma publicação nova. De facto, as únicas publicações dignas de nota nas últimas três a quatro décadas foram a 'Futebolista' (publicada já no Novo Milénio) e a revista de que falamos hoje, que conseguiu obter uma longevidade honrosa entre o seu aparecimento em meados da década de 80 e a sua extinção em inícios da seguinte.

104638175.jpg(Crédito da foto: TodoColección)

Falamos da simplesmente intitulada 'Foot', uma daquelas publicações de que hoje restam apenas as capas, no contexto de leilões em 'sites' como o OLX e o TodoColección (de onde sai a capa que ilustra este 'post'); assim, e à semelhança do que aconteceu anteriormente com revistas como a 'Basquetebol', quaisquer ilações sobre o conteúdo proposto por esta publicação têm, necessariamente, de ser retiradas apenas das 'parangonas', cabeçalhos e imagens das referidas capas. Com base neste elementos, é possível deduzir que a 'Foot' se centrava, sobretudo, no futebol nacional, com natural ênfase nos três 'grandes', mas sem esquecer o que se passava no panorama internacional, quer a nível de clubes, quer de selecções - e, ao contrário de outras publicações do género, sem deixar espaço a outras modalidades; esta era, exclusivamente, uma revista de futebol, à semelhança do que, uma década mais tarde, sucederia com a 'Mundial'.

Sendo o mesmo, de longe, o desporto mais popular em Portugal, foi com naturalidade que a 'Foot' encontrou o seu público, logrando manter-se nas bancas do seu lançamento em 1984 até pelo menos a Dezembro de 1990, mês em que saiu a revista que ilustra esta publicação. Assim, e apesar de a grande maioria da sua trajectória ter tido lugar na década de 80, a revista em causa qualifica-se para inserção nas páginas desta nossa rubrica, que, como sucedeu em casos anteriores, passa por definição a ser a principal fonte de informação sobre esta publicação algo 'Esquecida Pela Net', mas decerto lembrada pelos adeptos da geração 'X' , pelos 'millennials' mais velhos, e por qualquer outro adepto que já seguisse as competições profissionais portuguesas nos anos 80.

02.01.24

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

De todas as personalidades televisivas portuguesas, Herman José talvez tenha sido a que mais 'peles' encarnou ao longo das suas já cinco décadas de carreira. De humorista de 'vanguarda', o luso-alemão passou, em inícios da década de 90, a ícone dos concursos e entretenimento, ao mesmo tempo que, à margem destas duas facetas, continuava a cultivar uma terceira, que se lhes sobrepunha: a de 'cara' oficial das passagens de ano portuguesas.

De facto mesmo após as 'novatas' SIC e TVI terem tentado introduzir alternativas próprias para ter no ecrã aquando das doze badaladas, continuava a ser com Herman que os portugueses preferiam passar a meia-noite, fosse num formato mais típico - como as edições de fim-de-ano dos seus programas regulares - fosse através da vertente favorita do artista, ou seja, o humor puro e duro. Foi, aliás, neste último registo que o luso-alemão criou dois dos mais memoráveis especiais de fim-de-ano de sempre da TV portuguesa: 'Hermanias', em 1991/92, e, no ano anterior, o não menos memorável (bem como pioneiro) 'Crime Na Pensão Estrelinha'.

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Concebido como paródia directa dos programas de detectives que continuam, até hoje, a fazer sucesso (ainda que seguindo os moldes vigentes na altura, estabelecidos por séries como 'Poirot'), o especial de duas horas e meia proposto pela RTP como acompanhamento do 'reveillon' de 1990/91 excedeu todas as expectativas, mantendo 'colada' ao ecrã uma parcela significativa da audiência televisiva portuguesa, e fazendo História no contexto dos especiais de fim-de-ano. Com o próprio Herman no papel de um óbvio 'boneco' de Hercule Poirot, o programa alternava a trama de mistério com 'sketches' humorísticos, bem ao estilo do que o seu criador fizera em 'O Tal Canal', na década transacta, e voltaria a fazer em 'Hermanias' e, mais tarde, 'Herman Enciclopédia'. O resultado foi uma emissão que, apesar do carácter híbrido e algo invulgar, resultou em cheio, tornando Herman na 'estrela' das passagens de ano' noventistas e criando, involuntariamente, o molde para o não menos mítico programa de 'reveillon' do ano seguinte.

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Herman como Hércules Pirô, detective e personagem principal do especial.

Infelizmente, as passagens de ano subsequentes investiriam em formatos bem mais clássicos e menos inovadores - não obstante o sucesso de que haviam gozado esta 'Pensão Estrelinha' e as 'Hermanias' de 91 - facto que, aliado à ligeira alteração de carreira de Herman, significaria que o humorista raramente voltaria a ter ensejo de explorar a sua veia puramente cómica no contexto dos programas de 'reveillon' da década de 90. Ainda assim, o humorista luso-alemão tirou o máximo proveito das oportunidades que teve, criando dois absolutos clássicos das passagens de ano das gerações 'X' e 'millennial', ainda hoje eminentemente 'visíveis' e lembrados por todos os que, naqueles idos de 90, se deixaram embrenhar, juntamente com o detective Hércules Pirô, no mistério de quem havia assassinado o dono da Pensão Estrelinha...

11.12.23

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Apesar de fazer parte integrante da cultura e costumes da ideologia católica e cristã portuguesa, o Natal não tem tradicionalmente, em termos musicais, a mesma expressão no nosso País de que goza, por exemplo, nos Estados Unidos ou Reino Unido. De facto, antes de David Fonseca se dedicar a criar 'hinos' nacionais para a quadra, eram poucos os artistas portugueses que se aventuravam na gravação de uma música de Natal, sendo a maioria dos álbuns e lançamentos do género em solo nacional constituídos por aquelas velhas músicas do domínio público que todos nos habituámos a ter como 'banda sonora' das compras de última hora. Com isto em mente, não deixa de ser surpreendente – e admirável – a tentativa da Vidisco de lançar um verdadeiro disco de Natal 'made in Portugal', com a edição de 'Natal – Música e Canções', logo na primeira quadra festiva da década de 90.

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De facto, das dezasseis músicas que compõem o álbum, nem uma se insere em qualquer das categorias supramencionadas: não há aqui 'standards' dos anos 40 a 60, canções cantadas porta-a-porta por crianças norte-americanas, e nem mesmo 'A Todos Um Bom Natal' – 'A' cantiga de Natal portuguesa – aqui marca presença. O alinhamento do disco é, assim, composto por uma mistura de canções tradicionais, como 'Noite Feliz', uma ou outra peça clássica ('Avé Maria', interpretado aqui por C. Morgan) e muitos temas menos conhecidos e mais obscuros, metade dos quais a cargo do misterioso conjunto Bola de Neve, e a outra da responsabilidade dos não menos anónimos Linucha, Ana Maria, Rui Pilar e Arlindo de Carvalho, além do referido C. Morgan. Uma equipa de perfeitos desconhecidos (quase todos especializados na produção de música 'por encomenda', embora Ana Maria tenha tido uma série de 'singles' na década de 60) que 'casa' bem com o título e capa perfeitamente genéricos do álbum.

De facto, reside aí a maior pecha de 'Natal – Música e Canções': apesar do conceito e temática interessantes e até algo inovadores, toda a execução do álbum tem aquela aura 'às três pancadas' típica de muitos lançamentos do género, e que, inevitavelmente, os relega para aqueles clássicos expositores de cassettes e CDs das tabacarias e bombas de gasolina, ou para a secção de 'super-desconto' do supermercado – e, a julgar pela ínfima expressão deste lançamento, tanto à época como três décadas e meia depois, é mesmo de crer que terá sido também esse o destino de 'Natal – Músicas e Canções'. Uma pena, pois conceptualmente, este disco poderia ter-se afirmado como alternativa às mesmas colectâneas importadas com a mesma dúzia de músicas de que, mesmo na altura, já todos estávamos cansados, bastando para isso ter tido uma execução um pouco mais cuidada...

11.09.23

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

As décadas de 80 e 90 representaram a chegada ao Ocidente, e respectiva expansão na popularidade, de um género televisivo e filmográfico já com cerca de década e meia de vida no seu país natal do outro lado do Mundo, à época designado 'Japanimação' e mais tarde conhecido pelo seu nome original: 'anime'. E se, em anos vindouros, este género viria a contribuir com uma mão cheia de clássicos absolutos para a juventude da geração 'millennial' – do inigualável fenómeno que foi Dragon Ball Z a séries tão nostálgicas como Samurai X, Navegantes da Lua ou Doraemon – os seus primeiros passos, embora mais modestos, também não foram, de todo, falhos em séries marcantes, bastando para esse efeito referir Esquadrão Águia, Capitão Falcão (mais tarde 'Oliver e Benji) ou Cavaleiros do Zodíaco.

A juntar a estas séries há, ainda – sobretudo para os 'millennials' mais velhos – uma outra, que iniciava há quase exactos trinta anos a sua terceira e última transmissão em Portugal e que, apesar de ficar ligada, sobretudo, à década anterior, ainda chegou a tempo de influenciar a grande maioria dos 'putos' lusitanos de inícios de 90; e, tal como sucede com alguns dos outros programas de que aqui falamos, este é daqueles casos em o primeiro passo tem, forçosamente, de passar pela partilha do tema de abertura.

Por esta altura, muitos dos nossos leitores já estarão, decerto, a cantar a plenos pulmões a letra...

Isto porque – apesar de notoriamente incompleta – a música introdutória (adaptada, como em tantos outros casos, da versão espanhola, e cantada por Francisco Ceia) é, sem qualquer dúvida, o elemento identificativo mais icónico de As Aventuras de Tom Sawyer (ou apenas Tom Sawyer), a adaptação livre, em formato animado, do famoso livro infantil do século XIX, da autoria de Mark Twain. Composta de cerca de cinquenta episódios, originalmente produzidos em 1979 e lançados no inícios do ano seguinte (tendo passado a quase totalidade de 1980 em exibição na televisão japonesa), a série chegaria a Portugal logo de seguida, sem a 'décalage' cultural habitual à época, indo pela primeira vez ao ar na RTP1 entre 1981 e 1982, já em versão dobrada, num exemplo de celeridade pouco habitual naqueles anos pré-digitais.

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Imagem promocional da série.

Escusado será dizer (pelo menos a quem faz parte da faixa de leitores deste 'blog') que a série se revelou um sucesso imediato, tendo marcado os jovens portugueses da 'Geração X' – sobretudo, como já referimos, através do seu icónico tema de abertura – e justificando a repetição, já no fim da década, com o intuito de a apresentar a quem não tinha tido oportunidade de a ver da primeira vez. Seria, assim, entre Março de 1989 e Fevereiro de 1990 que os 'millennials' tomariam, pela primeira vez, contacto com o 'anime' que fizera as delícias dos seus irmãos mais velhos anos antes, e que tornaria a 'repetir a dose' com a nova geração – tanto assim que viria ainda a ser exibida uma terceira vez, há cerca de trinta anos, novamente no então Canal 1, e com a mesmíssima dobragem realizada mais de uma década antes pela Nacional Filmes.

Esta última transmissão seria, no entanto, o 'canto do cisne' para Tom Sawyer, um desenho animado que, embora icónico, já pertencia, nessa época, a uma outra 'era' televisiva, algo distante dos produtos que vinham 'enlouquecendo' os jovens daqueles inícios dos anos 90. Para as crianças da década transacta, no entanto – tanto as que haviam seguido a transmissão original como as que tinham 'saltado a bordo' aquando da segunda exibição – a série é, ainda hoje, um dos principais pontos de referência nostálgicos ao falar da infância em Portugal em finais do século XX, ao nível dos referidos Dragon Ball Z e Navegantes da Lua, ou ainda de séries como Dartacão ou Power Rangers. E nunca é demais repetir que grande parte dessa fama se deve à lendária canção de abertura, sem a qual esta adaptação animada de um clássico da literatura talvez tivesse passado tão despercebida quanto as suas congéneres posteriores alusivas a Mogli, Zorro, Cinderela ou Robin dos Bosques – mais um testamento, caso ainda fosse necessário, do poder de um bom tema de abertura; e, no que toca à televisão infantil portuguesa, este talvez seja 'O' tema de abertura, mais icónico ainda do que 'Dragon Ball, de puro cristal', 'Vive a vida, como uma festa', 'Dartacão, Dartacão!' ou mesmo 'Eu quero ser, mais que perfeito, maior do que a imaginação'. Razão mais que suficiente para o recordarmos, e à série que introduzia e ajudou a tornar memorável. 'Tu andas sempre descalço, Tom Sawyer...'

Sim, existe uma letra completa...

 

29.08.23

NOTA: Este post é respeitante a Segunda-feira, 28 de Agosto de 2023.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Estava-se nos primeiros anos da década de 60 quando um produtor musical norte-americano tinha a genial ideia de gravar cantores a interpretar canções de forma deliberadamente lenta e, utilizando técnicas de aceleração, alterar as suas vozes para que ficassem com um timbre exageradamente alto, quase 'cartoonesco'. Para combinar com esta voz 'de hélio', o mesmo produtor criaria, então, três personagens animados: esquilos antropomórficos e falantes, adoptados por um músico, e subsequentemente transformados em grupo vocal. Nascia, nesse instante, um fenómeno que poucos preveriam vir a perdurar durante as seis décadas seguintes, mas que continua até hoje a fazer as delícias da criançada, bastando para isso atentar no desenho animado CGI actualmente disponível no Netflix e Nickelodeon, já a terceira a contar com os personagens em causa.

Falamos, é claro, dos Esquilos (actualmente designados como Alvin e os Esquilos) o grupo virtual criado por Ross Bagdasarian (também conhecido como Dave Seville, o 'pai' adoptivo dos três rapazes) e que foi muito além do seu estatuto como 'one-hit wonder' vagamente piadético, tendo chegado a ganhar dois Grammys (!) e tido direito, desde a sua criação, a uma série de banda desenhada, quatro (!!) filmes de acção real, um sem-fim de 'merchandising' e, claro, as referidas séries animadas, das quais a mais famosa (em Portugal e não só) é a segunda, produzida em 1983 e exibida no nosso País em duas ocasiões na década seguinte.

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Responsável pela criação e apresentação das Esquiletes (as namoradas dos personagens, que, como não podia deixar de ser, são versões femininas exactas dos mesmos) a série não deixa, no entanto, que as novas personagens ofusquem os três protagonistas principais; de facto, o foco continua declaradamente sobre Alvin (o travesso e teimoso Esquilo de boné e t-shirt vermelha), Simon (o Esquilo 'marrão' e atinado, oposto do irmão, e que veste de azul) e Theodore (o 'gordinho' sensível, tímido e comilão, cuja cor é o verde) e na sua relação por vezes difícil, mas sempre bem-intencionada, com o pai adoptivo humano. As histórias, essas, giram em torno dos habituais assuntos da vida quotidiana, pertinentes para o público-alvo, como as relações interpessoais ou as emoções próprias, intercalados com o aspecto mais 'show-business' da vida das três 'crianças', e uma ou outra aventura mais mirabolante. O resultado é um programa bem animado, bem conseguido a nível global, e que possui a característica mais importante para se destacar no mercado televisivo infanto-juvenil dos anos 90: um genérico de abertura daqueles instantaneamente reconhecíveis e entusiasmantes, que é já 'meio caminho andado' para o sucesso.

A segunda versão da abertura, quase uma transcrição literal do original.

E sucesso foi coisa que não faltou a esta série, que foi transmitida um pouco por todo o Mundo, incluindo (conforme acima referido) por duas vezes em Portugal, em ambos os 'extremos' da década de 90: primeiro logo a abrir a mesma, na RTP (então Canal 1) e com os nomes dos personagens 'aportuguesados', e mais tarde no Batatoon da TVI, em 1999, com nova dobragem a cargo da Nacional Filmes, e mais fiel ao original. Tal como 'Dennis o Pimentinha', esta foi, portanto, daquelas séries que tiveram a oportunidade de captar duas gerações de público-alvo totalmente distintas, e de as cativar a seguir as aventuras daquela pequena e invulgar família.

Tal como também já vimos acima, este desenho animado esteve longe de ditar o fim da popularidade dos Esquilos, que renovariam ainda a audiência por mais duas vezes ao longo das três décadas seguintes, primeiro através dos filmes e, mais tarde, do actual desenho animado. Nada mal para uma 'ideia parva' tida por um descendente de Arménios de Fresno, Califórnia em meados do século passado...

 

02.08.23

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

Cada época da História tem a sua própria iconografia cultural, que a torna imediatamente reconhecível, e que tende a estender-se a todos os sectores da sociedade. Os veículos não são excepção a esta regra, e até o cidadão menos interessado em motores e potência em cavalos conseguirá elencar uma série de marcas e modelos de automóveis e motas imediatamente associáveis a qualquer período desde a invenção destes meios de transporte. Escusado será dizer que as duas últimas décadas do século XX não foram excepção a esta regra; antes pelo contrário, os anos 80 e 90 representaram, talvez, a última grande era do 'design' experimentalista no sector automóvel, antes de a maioria dos fabricantes seguirem a via da padronização e estandardização. Foi a época do aparecimento do Renault Twingo e da derradeira glória de modelos clássicos de décadas transactas, como o Citroen 'Boca de Sapo', os Renault R4 e R5, os renascidos Volkswagen 'Carocha' e Mini, e, claro, o icónico Citroen 'dois cavalos', o 2CV.

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O último 2CV de sempre foi produzido em Portugal.

Produzido desde finais dos anos 40, o carismático carro de traços angulares – normalmente associado à condução mais 'económica', mas que era também usado como símbolo de personalidade e inconformismo – via, exactos quarenta anos após a sua criação, toda a linha de montagem ser transferida para Portugal, mais concretamente para a zona de Mangualde, onde a Citroen continua a ter a sua fábrica nacional, após o fecho da usina francesa que havia produzido o modelo desde o seu aparecimento. O nosso País teve, assim, a honra de suceder a essa histórica instalação, e, a partir de 1988, seria das nossas fronteiras que sairiam todos e quaisquer 2CV produzidos quer para o mercado interno, quer para o internacional, facto que ajudaria a colocar Portugal, e os seus recursos de produção, no 'mapa' automóvel europeu. No total, foram mais de 42.300 carros criados em apenas dois anos, até a produção do modelo ser descontinuada, há quase exactos trinta e três anos; o último 'dois cavalos', um modelo Charleston especial, ficaria completo a 27 de Julho de 1990.

Curiosamente, os 'dois cavalos' portugueses gozam de uma reputação inferior à dos franceses em países como o Reino Unido, onde a construção e desempenho dos mesmos são criticados, numa corrente de opinião que vai contra a da própria Citroen, que considera estes modelos como estando a par dos franceses em termos qualitativos. Ainda assim, e apesar das críticas, os dois anos em que o 'dois cavalos' foi produzido em solo nacional não deixam de representar um marco para a indústria automóvel portuguesa de finais do século XX, que merece ser lembrado por alturas do seu vigésimo-terceiro aniversário...

 

25.06.23

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.

Por muitas mudanças que o futebol português sofra ao longo das décadas e séculos – com remodelações no formato dos campeonatos ou a adição de novas competições – uma constante se mantém imutável: a Taça de Portugal, último troféu do ano para os clubes portugueses, que tanto pode constituir 'mais um' galardão para a vitrine como a última oportunidade de conseguir 'salvar' uma época, para clubes a quem a temporada tenha corrido menos bem. Isto, claro está, além daquelas ocasiões em que 'há Taça', e em que um clube mais pequeno consegue eliminar um claro favorito (o chamado fenómeno 'tomba-gigantes') ou até atingir as fases finais da competição. E apesar de este ser um fenómeno relativamente raro, uma final entre dois emblemas de menor expressão no futebol português, ou que não insiram nos três ou quatro 'grandes', não é, de todo, inédita, antes pelo contrário; de facto, só na década de 90, aconteceu duas vezes, uma no final da temporada 1998/99 com Beira-Mar e Campomaiorense como protagonistas e da qual já aqui falámos anteriormente, e outra, logo no início da década, com outros dois históricos do futebol luso em confronto directo.

Falamos da primeira final da Taça dos anos 90 (ou última dos anos 80, conforme o ponto de vista), cuja finalíssima seria disputada há pouco mais de vinte e três anos, no habitual palco do certame – o Estádio Nacional do Jamor, nos arredores de Lisboa - e veria o Estrela da Amadora levar de vencida o Farense de Paco Fortes por 2-0, após empate a uma bola na primeira mão. E porque, por ocasião do aniversário dessa partida, preferimos focar a carreira de Ricardo Sá Pinto, emendamos agora essa omissão, dedicando algumas linhas a mais esse momento histórico do futebol português.

Para quem tinha idade suficiente para ter sido adepto, nenhum destes dois clubes será, de todo, desconhecido; pelo contrário, tanto o Estrela de João Alves como o Farense treinado por Paco Fortes trarão, de imediato, memórias relacionadas com alguns dos mais reconhecíveis e históricos jogadores do futebol nacional daquela época – alguns dos quais acabaram, mesmo, por atingir mais altos vôos, como o referido Paulo Bento ou ainda o guardião Lemajic, do Farense, ambos os quais se tornariam reforços do Sporting Clube de Portugal em épocas vindouras, com o guardião a representar ainda, antes disso, outro histórico, o Boavista, e Bento o 'rival' lisboeta dos leões, o SL Benfica. O médio (então com apenas vinte anos) seria, aliás, um dos destaques deste jogo, a par do influente e irrequieto Baroti, ao conseguir um golo de antologia, num remate de primeira de fora da área que seria o momento do jogo, não fosse o outro golo, uma 'chapelada' primorosa obtida por outro então jovem, o avançado Ricardo. Outros dos nomes instantaneamente reconhecíveis e presentes em campo naquela tarde de Verão de 1990 incluíam Pedro Barny e Bobó (que acabaria expulso) do lado do Estrela, e Formosinho e Nelo pelo Farense.

E porque o vencedor da Taça de Portugal tem acesso directo à principal competição europeia (então conhecida como Taça dos Vencedores das Taças), o Estrela teve ocasião de adicionar também essa honra ao seu historial logo na época seguinte; tal como sucederia com o Beira-Mar meia década mais tarde, no entanto, também o conjunto de João Alves não almejaria grandes 'surpresas' na competição, sendo excluído logo na segunda eliminatória pelos belgas do RFC Liège. Ainda assim, um momento histórico para os amadorenses, e que apenas cimentaria a sua reputação junto dos adeptos lusos.

Ambos os clubes continuariam, aliás, a ser figuras frequentes no mais alto escalão do futebol português ao longo da década seguinte, antes de o Novo Milénio trazer um revés nas fortunas de ambos, que os 'atiraria' para as divisões inferiores; numa altura em que, pela primeira vez desde aquele tempo, os dois clubes competirão juntos no principal campeonato lusitano, nada melhor do que recordar o mais histórico de todos os encontros entre os dois, disputado quando ambos se encontravam no seu auge, e que entra, merecidamente, para o panteão de jogos lendários do futebol português moderno.

Resumos televisivos de ambos os jogos transmitidos à época.

 

22.06.23

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.

Para quem já nasceu (ou cresceu) num Mundo quase totalmente digital, os simples prazeres que deleitavam as crianças e jovens das gerações anteriores podem parecer estranhos e até caricatos; tal como a geração 'Millennial' teve dificuldade em compreender o apelo de alguns dos jogos, brinquedos e brincadeiras que encantaram os seus pais, também a actual Geração Z ficará, certamente, a ponderar qual o interesse de um pequeno bocado de cartolina com uma imagem desenhada, sobre o qual se coloca uma peça de plástico para fazer a dita imagem ganhar cor.

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As duas 'fases' do efeito (crédito da foto: Ainda Sou Do Tempo)

E, no entanto, foi essa a premissa de uma das mais memoráveis promoções do Bollycao, lançada na ponta final da década de 80 e que subsistiria até aos primeiros anos da seguinte – as 'Janelas Mágicas'. Apesar de simples ao ponto de a sua premissa ter sido explanada em uma frase do parágrafo anterior, estes brindes fizeram as delícias de toda uma geração de crianças, ainda a alguns anos de terem a sua vida mudada para sempre pelos Pega-Monstros, Tazos, Matutolas e restante panteão de brindes inesquecíveis da Matutano, Panrico, e restantes marcas explicitamente dirigidas à sua demografia.

De facto, esta foi uma das primeiras ofertas tentadas por qualquer das duas marcas, sucedendo à pioneira colecção dos 'Tous', que também aqui terá, em tempo, o seu espaço; e a verdade é que, apesar de não ter feito o mesmo sucesso (até por o seu apelo ser menos generalizado, e mais especificamente dirigido a um público infantil, ainda passível de se deixar fascinar com tais efeitos) a colecção não deixou, ainda assim, de ser icónica para um certo segmento da demografia em causa, para quem o acto de deslizar aquele bocadinho de plástico por cima da imagem monocromática e a fazer ganhar cor nunca perdia o encanto ou o fascínio.

Escusado será dizer que uma promoção nestes moldes estaria, hoje em dia, destinada ao fracasso. Se algo como os Pega-Monstros ou até os Tazos ainda poderia suscitar o interesse dos jovens de hoje, com a sua vertente competitiva e algo intemporal, este é um conceito bem mais restrito a um tempo pré-digital, em que a tecnologia ainda era algo caro, raro e definitivamente 'para adultos'; para uma geração que vê efeitos mais fascinantes do que este de cada vez que liga o telemóvel, esta oferta teria um interesse praticamente nulo. Para a geração que os antecedeu, no entanto, passava-se precisamente o oposto, sendo que ainda haverá, certamente, algumas destas 'Janelas' 'esquecidas' em gavetas de quartos de infância de Norte a Sul do País...

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