02.03.26
Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.
De todos os elementos imediatamente identificadores e enraizados na cultura popular portuguesa, o fado é um dos mais icónicos e clássicos. O estilo de música minimalista e lamentativo, concebido para realçar o virtuosismo da voz e dos instrumentos de cordas que perfazem o acompanhamento, continua a motivar todo o tipo de produtos mediáticos, além de ter dado ao País uma das maiores figuras da sua História – a eterna e imortal Amália Rodrigues – além de nomes mais recentes como Mariza e Carminho. Não é, pois, de admirar que, há quase exactos trinta e seis anos - nos primeiros meses da última década do século XX - a RTP tenha tido a ideia de utilizar o estilo de música mais português de todos como temática central para uma mini-série, que pretendia observar a cultura do fado, e o lugar da mesma na sociedade então contemporânea, de uma perspectiva crítica e satírica.

Nascia assim 'Um Solar Alfacinha', que, ao longo de seis episódios, exibidos entre 11 de Fevereiro e 17 de Março de 1990, seguia as 'aventuras' de uma família pouco ortodoxa, constituída por um Barão (interpretado pelo co-autor e assinante da banda sonora, Pedro Pinheiro), pela mulher, uma fadista oriunda da classe operária interpretada por Deolinda Cardoso, e pelo filho, um jovencíssimo João Baião, ainda a anos de se tornar sinónimo com uma das futuras 'concorrentes' da RTP pelo tempo de antena nacional, e que, aqui, surge num registo diametralmente oposto ao do 'popularucho' programa que o notabilizou, chegando mesmo a cantar o fado, tal como faria no posterior 'Grande Noite', poucos anos depois.
É, aliás, o seu personagem – de nome Quincas Barão – o catalista da trama da série, já que é ele quem motiva a mãe a organizar um 'despique' de fados entre as duas pretendentes do jovem, uma representante do fado tradicional e outra do estilo 'fidalgo'. Paralelamente decorrem, claro, outras peripécias, mas é este o 'cerne' da trama da mini-série transmitida pela RTP2 aos fins de semana durante aquele mês e meio, mesmo no início da década de 90.

O trio central de personagens da série.
Série que, aliás, talvez merecesse ser mais lembrada pela cultura popular portuguesa, dado centrar-se naquele que é, desde sempre, um dos seus elementos centrais; no entanto, a acentuada perda, nas últimas décadas, da cultura e 'cena' do fado (sobretudo em Lisboa) talvez tenha contribuído para o desinteresse a que a referida criação foi vetada por quem talvez até a tenha visto na altura da transmissão. Cabe, pois, a 'blogs' como o nosso documentar a existência de séries tão tipicamente portuguesas (e, neste caso, explicitamente 'alfacinhas') como esta, para que o que resta da identidade lusitana não se perca na presente 'onda' do turismo...
















