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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

02.03.26

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

De todos os elementos imediatamente identificadores e enraizados na cultura popular portuguesa, o fado é um dos mais icónicos e clássicos. O estilo de música minimalista e lamentativo, concebido para realçar o virtuosismo da voz e dos instrumentos de cordas que perfazem o acompanhamento, continua a motivar todo o tipo de produtos mediáticos, além de ter dado ao País uma das maiores figuras da sua História – a eterna e imortal Amália Rodrigues – além de nomes mais recentes como Mariza e Carminho. Não é, pois, de admirar que, há quase exactos trinta e seis anos - nos primeiros meses da última década do século XX - a RTP tenha tido a ideia de utilizar o estilo de música mais português de todos como temática central para uma mini-série, que pretendia observar a cultura do fado, e o lugar da mesma na sociedade então contemporânea, de uma perspectiva crítica e satírica.

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Nascia assim 'Um Solar Alfacinha', que, ao longo de seis episódios, exibidos entre 11 de Fevereiro e 17 de Março de 1990, seguia as 'aventuras' de uma família pouco ortodoxa, constituída por um Barão (interpretado pelo co-autor e assinante da banda sonora, Pedro Pinheiro), pela mulher, uma fadista oriunda da classe operária interpretada por Deolinda Cardoso, e pelo filho, um jovencíssimo João Baião, ainda a anos de se tornar sinónimo com uma das futuras 'concorrentes' da RTP pelo tempo de antena nacional, e que, aqui, surge num registo diametralmente oposto ao do 'popularucho' programa que o notabilizou, chegando mesmo a cantar o fado, tal como faria no posterior 'Grande Noite', poucos anos depois.

É, aliás, o seu personagem – de nome Quincas Barão – o catalista da trama da série, já que é ele quem motiva a mãe a organizar um 'despique' de fados entre as duas pretendentes do jovem, uma representante do fado tradicional e outra do estilo 'fidalgo'. Paralelamente decorrem, claro, outras peripécias, mas é este o 'cerne' da trama da mini-série transmitida pela RTP2 aos fins de semana durante aquele mês e meio, mesmo no início da década de 90.

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O trio central de personagens da série.

Série que, aliás, talvez merecesse ser mais lembrada pela cultura popular portuguesa, dado centrar-se naquele que é, desde sempre, um dos seus elementos centrais; no entanto, a acentuada perda, nas últimas décadas, da cultura e 'cena' do fado (sobretudo em Lisboa) talvez tenha contribuído para o desinteresse a que a referida criação foi vetada por quem talvez até a tenha visto na altura da transmissão. Cabe, pois, a 'blogs' como o nosso documentar a existência de séries tão tipicamente portuguesas (e, neste caso, explicitamente 'alfacinhas') como esta, para que o que resta da identidade lusitana não se perca na presente 'onda' do turismo...

28.02.26

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2026.

Todas as crianças gostam de comer (desde que não seja peixe nem vegetais), e os anos 90 foram uma das melhores épocas para se crescer no que toca a comidas apelativas para crianças e jovens. Em quintas-feiras alternadas, recordamos aqui alguns dos mais memoráveis ‘snacks’ daquela época.

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Hoje em dia, os refrigerantes TriNa contam-se entre os mais populares em Portugal, a par dos 'eternos' Sumol, Frisumo, Compal, Fanta ou Coca-Cola, sendo a sua marca tão reconhecível quanto qualquer das supracitadas; quem é mais velho, no entanto, saberá que esta não era a designação oficial da bebida em causa, e recordará mesmo (ainda que vagamente) o momento em que se efectuou a transição.

Efectivamente, quem tem idade suficiente para ainda ter vivido parte dos anos 80 lembrar-se-à que, à época, o refrigerante de laranja sem gás (eterna opção ligeiramente mais saudável às gasosas e afins) levava a designação de TriNaranjus, nome com que fora 'importada' do mercado do país vizinho, de onde era oriunda, em inícios da década anterior, e sob a qual seria comercializada durante exactos vinte anos, até à aquisição da fabricante pela multi-nacional Schweppes, nos primeiros meses dos 'anos 90'.

Seria apenas a partir dessa altura que a designação passaria a ser simplesmente TriNa, um nome mais curto e memorável e que se encontra vigente até aos dias de hoje, mais de três décadas e meia após uma mudança aparentemente desnecessária, mas que acabou por se revelar mais do que acertada do ponto de vista comercial. Para quem recorda a designação anterior, no entanto, 'não há hipótese' – aquela bebida da infância será, provavelmente, para sempre conhecida como Trinaranjus...

24.02.26

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

O início dos anos 2000, e respectiva chegada da geração 'millennial' ao fim da adolescência, representou o primeiro momento em que, na História do Portugal pós-ditatorial, toda uma demografia teve acesso facilitado ao ensino superior, dependendo apenas de si mesma para, por mérito académico, assegurar um dos lugares de entrada no seu curso de eleição. De facto, apenas em inícios da década anterior, era ainda muito difícil à maioria da população atingir, ou mesmo almejar atingir, este nível de educação, resultando numa tapeçaria profissional menos qualificada e, por consequência, pior paga. Era, por isso, totalmente de louvar a iniciativa da RTP, que, inspirada por programas já existentes em outros países, inseria na grelha da 'culta e adulta' RTP2 um programa que visava, precisamente, servir como 'tele-aula' para aspirantes a um curso universitário, bem como para aqueles que não tinham meios conducentes a algo deste tipo. É a essa rubrica, estreada há quase exactos trinta e seis anos, que dedicamos as próximas linhas.

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Transmitida pela primeira vez a 17 de Fevereiro de 1990, a 'Universidade Aberta' foi transmitida em diversos horários, primeiro logo após a abertura 'oficial' da emissão (da responsabilidade de Vera Roquette e patrocinada pela Frisumo), e, mais tarde, antes do lendário 'Hugo', ao início do serão. Qualquer que fosse o horário, no entanto, o segmento era, mais do que um programa, uma verdadeira aula do ensino superior, ministrada por docentes vinculados à homónima instituição de ensino à distância, fundada no ano anterior; quem estivesse interessado podia, assim, obter conhecimentos na área em foco apenas por sintonizar o programa, num método então inovador e praticamente inaudito, mas quase pitoresco na presente era hiper-digital. Ainda assim, este protocolo ajudaria a Universidade Aberta a estabelecer-se como instituição de referência para o ensino remoto a nível mundial, título que lhe foi oficialmente outorgado pela União Europeia em 2008. Antes disso, em 1995, a 'alma mater' em causa havia já atraído atenções por ter sido o primeiro estabelecimento de ensino superior em Portugal a introduzir um curso de Estudos Femininos, num gesto incrivelmente progressista para a época em causa.

Quanto ao programa da RTP, o mesmo voltaria a ser transmitido a partir da década de 2010, agora com um formato mais voltado para o debate sobre assuntos ligados ao ensino superior, por oposição ao modelo pedagógico da emissão original, o qual transitou, de forma natual, para a Internet. Quem viveu aquele tempo à vez tão próximo e tão longínquo recordará certamente, no entanto, o formato então veiculado diariamente, e que talvez tenha até motivado algum dos seus familiares ou amigos a procurar 'cultivar-se' e a almejar completar, ainda que à distância, o tão cobiçado curso superior...

 

 

 

 

08.01.26

NOTA: Este 'post' é respeitante a Terça-feira, 06 de Janeiro de 2026.

A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.

Como cenário eternamente popular junto de uma certa demografia mais introvertida e sedentária, não é de admirar que os mundos de fantasia de atmosfera medieval, repletos de heróis de espada e armadura, princesas e magos perversos, tenham desde sempre tido uma presença exacerbada na cultura popular, servindo de base a materiais literários, filmográficos, musicais e, claro, interactivos. De facto, a 'segunda vaga' de videojogos, iniciada em meados dos anos 80 e que dominou a década seguinte, tinha neste tipo de universo um dos seus temas mais recorrentes, a ponto de os mesmos se terem tornado um dos mais imediatos e reconhecíveis estereótipos daquela era dos jogos de computador e consola.

Uma das muitas séries a tirar partido da atmosfera muitas vezes chamada 'sword and sandal' (algo como 'espada e sandálias') era uma trilogia lançada para a Nintendo original (com um quarto capítulo 'paralelo' a surgir no Game Boy) e cujo primeiro capítulo era lançado na Europa há quase exactos trinta e seis anos, a 07 de Fevereiro de 1990. Falamos de 'Wizards & Warriors', um jogo de plataformas bem típico da época, originalmente lançado nos mercados NTSC três anos antes e que, no período subsequente, perdera o seu principal motivo de interesse – os aspectos técnicos 'à frente do seu tempo' para 1987, mas que, em 1990, constituíam já a norma vigente. O que restava era um título absolutamente característico da era em causa, sem nada que o distinguisse por aí além nem que lhe desse 'vantagem competitiva' sobre concorrentes de peso como 'Castlevania', e que parecia destinado a passar despercebido.

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No entanto, o exterior algo mediano de 'Wizards & Warriors' escondia o envolvimento de dois futuros pesos-pesados da indústria: a Acclaim, que tinha no jogo o seu primeiro título como distribuidora, e a Rare, que tantas alegrias daria aos fãs das consolas da Nintendo nas décadas subsequentes. Dois nomes que, alguns anos depois, justificariam por si só a compra de qualquer título em que se envolvessem (especialmente juntas) e que tinham aqui um início algo 'humilde'.

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O mesmo, aliás, pode ser dito da própria série 'Wizards & Warriors', que veria serem lançados mais três títulos na meia década após a saída do original. O primeiro destes seria o 'originalmente' intitulado 'Ironsword: Wizards & Warriors II', surgido menos de um ano após o original, e que se inseria no tipo de sequela 'mais do mesmo', com o herói Kuros a ter agora de reunir os quatro elementos naturais para derrotar o inimigo Malkil. Assim, e face à jogabilidade e ambientes muito semelhantes aos do antecessor, o destaque deste segundo capítulo vai mesmo para a presença, na capa, do 'galã' Fabio, bem conhecido como modelo de capa em romances 'de cordel' e que, aqui, faz a sua melhor imitação de Conan, O Bárbaro, numa capa que horrorizou os próprios criadores do jogo - cujo herói é, aliás, um cavaleiro medieval de armadura completa, e não um bárbaro musculado de tronco nu.

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O mesmo tema seria, infelizmente, mantido na capa do 'capítulo paralelo' 'Wizards & Warriors X: The Fortress of Fear' (sendo o X, neste caso, uma letra, e não um numeral romano indicador de oito capítulos 'perdidos' da saga), lançado em Novembro de 1990 em exclusivo para o Game Boy original. Como seria de esperar, este semi-'spin-off' mais não é do que uma versão simplificada e monocromática dos jogos principais, constituindo, como estes, um exemplo em tudo típico do que era a biblioteca de jogos da portátil da Nintendo à época, e sobre o qual pouco mais há a dizer.

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Ainda assim, também este titulo faria sucesso suficiente para justificar um 'capítulo final' na saga, lançado novamente para Nintendo 8-bits em Janeiro de 1993 - praticamente três anos depois do surgimento do original no mercado europeu – e que apresenta, pela primeira vez, mudanças na jogabilidade, agora mais declaradamente focada na exploração não-linear, ao estilo de 'Metroid' ou do já mencionado 'Castlevania'. Esta alteração não seria, no entanto, bem recebida, já que era implementada em detrimento dos elementos de combate, tornando o jogo algo aborrecido para quem gostava do típico molde de atacar e matar inimigos sem maiores preocupações. E apesar de o fim deixar em aberto a possibilidade de novas aventuras para Kuros, o fim da Zippo Games (também conhecida como Rare Manchester, e que fecharia portas logo após a conclusão deste jogo) vinha mesmo pôr um ponto final na sua saga de jogos – o que talvez seja para melhor, já que este tipo de aventura teria os 'dias contados' um par de anos depois, quando o advento dos 32-bits viria revolucionar e alterar para sempre o mundo dos videojogos.

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Curiosamente, no entanto 'Wizards & Warriors III: Kuros' Visions of Power' não representaria o último uso da denominação num contexto interactivo, já que em finais de 2000 (mais de uma década após o lançamento da primeira aventura do cavaleiro Kuros) um RPG em primeira pessoa 'repescaria' o título, ainda que esse fosse o único elo de ligação entre o novo título e a saga original da Acclaim e Rare. Ainda assim, é a esta que o nome fica indelevelmente ligado, apesar da pouca repercussão da mesma na cultura popular actual, exactos trinta anos após o seu início – um paradigma que, espera-se, este 'post' terá ajudado, pelo menos em parte, a rectificar...

31.12.25

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

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A grafia e ortografia é, ao mesmo tempo, um dos elementos divisores e aglutinadores dos chamados Países de Língua Oficial Portuguesa, bastando pensar no manifestamente diferente Português do Brasil para perceber como um mesmo idioma pode dar origem a línguas, na prática, tão diferentes. Daí a importância de haver, entre todas as nações que têm o Português como língua franca, alguma espécie de consenso, o qual é atingido, via de regra, mediante a ratificação de um acordo ortográfico. Foi, precisamente, isso que se passou há pouco mais de trinta e cinco anos, a 16 de Dezembro de 1990, quando os PALOP assinaram o documento que estabelecia, definitivamente, a grafia da língua portuguesa para as décadas seguintes; e porque, na última Quarta de Quase Tudo, deixámos passar em branco essa data, nada melhor que ratificar agora esse erro, e terminar o ano de 2025 a relembrar a carta que ditou a forma como escrevemos desde então.

Inicialmente ratificado por Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe (embora, curiosamente, não por Macau ou Timor-Leste, que se juntaria ao grupo apenas uma década e meia depois, em 2004), o acordo tinha como fim declarado acabar com a supramencionada disparidade entre as grafias do Português europeu e do Brasil - missão, à data de publicação deste 'post', apenas parcialmente conseguida. De facto, mais do que unir as grafias, o acordo contribuiu apenas para as dividir ainda mais, não tendo as suas normas sido adoptadas em nenhum dos países assinantes e continuando a suscitar controvérsia junto de quem aprendera a escrever o Português da forma anterior, a via como 'correcta' (ou, segundo o novo acordo, 'correta') e desaprovava da aproximação ao brasileiro, com o desaparecimento da letra 'c' como apoio à letra 't', por exemplo.

O resultado é que, à década de 2020, o documento continua por assinar, e as suas regras alvo de acesa discussão, sobretudo devido aos efeitos que se têm feito sentir a nível do Português 'de Portugal'. Prova de que chegar a acordo e assinar um papel não são, de todo, sinónimo de 'missão cumprida' no que toca a trâmites legais de complexidade elevade e âmbito internacional, e que (antes pelo contrário) é bem possível que os mesmos demorem três décadas ou mais a serem implementados - se o chegarem a ser...

24.12.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Terça-feira, 23 de Dezembro de 2025.

NOTA: Por motivos de relevância temporal, esta Terça será de TV.

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

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Uma das coisas com que os portugueses aprenderam a contar ao longo dos Natais dos últimos trinta a quarenta anos é com o aparecimento, nos quatro canais, de produções especialmente criadas para servir de complemento aos tradicionais filmes de família, Sequim D'Ouro, Natal dos Hospitais e circo de Monte Carlo; e, apesar de ainda hoje se verificar, é inegável que esta tendência teve o seu auge no 'período de ouro' da televisão portuguesa, entre os anos 80 e 2000, período em que nasceram muitos dos melhores 'especiais de Natal' (e também de Ano Novo) da História do audiovisual nacional. Um desses programas - sobre o qual se completam exactos trinta e cinco anos à data original de criação deste 'post' - foi imaginado e apresentado por um ícone da televisão portuguesa, o incomparável Júlio Isidro, como forma de prestar homenagem à quadra através de um dos seus mais emblemáticos elementos - a música.

Transmitido pela RTP 1 a 23 de Dezembro de 1990, 'Cantar o Natal' oferece precisamente aquilo a que o título alude - uma série de números musicais com temática natalícia, interpretados por alguns convidados musicais de 'monta' como Vitorino e Dulce Pontes, unidos por segmentos de entrevista a estes e outros convidados, numa tentativa de recriar e reviver a noite de consoada de 1960 (então distante no tempo exactas três décadas), que servia de linha narrativa ao especial. O resultado era um programa 'ameno' e confortável, bem ao estilo não só de Isidro como da produção nacional da época em geral, perfeita para servir de 'ruído de fundo' a uma noite de Terça-feira em plenas férias do Natal.

No entanto, talvez este cariz declaradamente virado para o conforto do espectador tenha contribuído para que este especial fosse, em décadas posteriores, algo Esquecido Pela Net, já que o mesmo não rendia quaisquer momentos memoráveis, daqueles em que Herman José (por exemplo) era 'perito' nos seus especiais de Ano Novo. Ainda assim, na data em que se assinalam exactas três décadas e meia sobre a sua ida ao ar, vale bem a pena recordar um especial de cariz único no panorama televisivo nacional, e que terá decerto entretido um sem-número de pequenos 'X' e 'millennials' nacionais - ainda que os mesmos pouco ou nada o recordem; para quem desejar rectificar esse erro, o programa encontra-se disponível, em duas partes, nos arquivos da RTP, pronto a ser recordado por ocasião desta data marcante.

26.11.25

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Já aqui em ocasiões anteriores falámos da obra de José Ruy, talvez o mais solicitado ilustrador português das décadas de 80 e 90, sendo invariavelmente o escolhido para dar vida aos personagens de álbuns de banda desenhada ligados à História de Portugal, biografias, relatos de época ou representações visuais de contos e lendas tradicionais, nos quais a sua bibliografia é fértil. Em 1986, no entanto, Ruy embarcaria num projecto diferente do seu habitual – a passagem de várias das histórias dos dois 'Livros da Selva', de Rudyard Kipling, para um formato de banda desenhada. O resultado foi 'Como Apareceu o Medo', editado quatro anos depois (em Abril de 1990) pela Editorial Notícias, e sobre o qual nos debruçamos esta Quarta-feira.

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Com trinta e duas páginas originalmente contidas num volume de capa mole (mais tarde, seria reeditado com capa dura) 'Como Apareceu o Medo' é exactamente aquilo que a capa apregoa – uma colectânea de várias das muitas histórias de animais escritas por Kipling, com o 'famoso' conto-título à cabeça, com desenhos e ilustrações da autoria de José Ruy a acompanhar a prosa original do autor indo-britânico, que recebe um crédito como co-autor. Infelizmente, embora a capa e os detalhes da publicação sejam fáceis de encontrar com um bom motor de pesquisa, das páginas interiores não restam quaisquer vestígios digitalizados, tornando impossível mostrar o estilo gráfico do livro, para lá da visualmente impactante capa; é de crer, no entanto, que os desenhos seguissem o estilo habitual de Ruy, que fica desde logo bem patente na magnífica ilustração de Shere Khan, o famoso tigre assassino d''O Livro da Selva', que domina o referido frontispício.

Em suma, e apesar de se tratar de uma proposta arriscada (tanto pelo número de admiradores do texto original como por ser difícil interessar crianças em textos clássicos) a adaptação em BD de 'Como Apareceu o Medo' parece ter tido algum grau de sucesso, senão em termos de vendas, pelo menos de execução. Pena é, portanto, que seja impossível encontrar exemplos da arte deste livro na Internet actual – embora os interessados tenham bom remédio, já que o livro ainda hoje continua a ser reeditado, e se encontra disponível nas boas livrarias, pronto a dar azo a mais uma geração de fãs do 'imortal' José Ruy...

11.11.25

NOTA: Este 'post' é respeitante a Segunda-feira, 10 de Novembro de 2025.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

No que toca a realizadores de cinema e televisão, David Lynch é, sem dúvida, um dos mais polarizantes, a par de nomes como Quentin Tarantino, James Cameron ou, mais recentemente, Christopher Nolan: a tendência do cineasta para 'abusar' dos elementos surreais e do subtexto, muitas vezes em detrimento de uma história coerente, faz com que a sua obra não seja, decididamente, para todos os gostos. No entanto, um trabalho de Lynch em particular tende a reunir maior consenso do que a sua restante produção, talvez por ser mais linear, ou talvez pelas 'ondas' de espanto que causou aquando da sua estreia: 'Twin Peaks'.

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De facto, a história da investigação em torno do assassinato de Laura Palmer (cujo assassino suscitou tanta especulação e teorização quanto o famoso JR de 'Dallas') constitui um daqueles casos em que, apesar de estar muito 'à frente' do seu tempo, uma série consegue reunir o consenso da crítica e do público, cimentando o seu lugar na História da televisão moderna e sendo lembrada e discutida até aos dias de hoje. Em Portugal – onde a série estreou há precisamente trinta e cinco anos, em Novembro de 1990, às quintas-feiras à noite – o caso não terá sido diferente, embora (ao contrário do que acontece com séries posteriores, como 'Sopranos' ou 'Os Homens do Presidente') sobrevivam hoje muito poucos registos da recepção do público português à 'bizarrice' de Lynch e Mark Frost.

Ainda assim, o número de emissões celebratórias de que a série foi alvo por ocasião dos seus trinta anos dá a entender que 'Twin Peaks' terá tido os seus fãs à época – entre os quais, quiçá, se contem alguns dos leitores mais velhos deste 'blog', membros da chamada 'Geração X', e que teriam siido adolescentes à época da transmissão original. É a eles que dedicamos estas poucas linhas celebratórias de uma das mais intrigantes e originais séries televisivas dos últimos quarenta anos, por ocasião do aniversário da sua estreia em Portugal.

05.11.25

NOTA: Este 'post' é correspondente a Terça-feira, 4 de Novembro de 2025.

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década

Já aqui anteriormente falámos d''A Hora do Lecas', o programa que catapultou José Jorge Duarte para o sucesso e o tornou ídolo entre os mais pequenos, no papel da titular 'criança grande'. Assim, e face ao sucesso de que a referida 'Hora' desfrutava entre o público-alvo semana após semana, não é de admirar que a RTP oferecesse a Duarte a possibilidade de continuar o formato (ainda que com novo titulo), mas agora em horário 'nobre' no tocante à programação infantil – nomeadamente, as manhãs de Sábado. Surgia assim, há pouco mais de trinta e cinco anos (em Outubro de 1990) a 'continuação' d''A Hora do Lecas', com o bem menos intuitivo título de 'Lecas, Mais Certo Que Sem Dúvida'.

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Apesar deste equivocado título, no entanto, o programa continuava a oferecer tudo o que a sua demografia-alvo podia pedir de um programa deste tipo – jogos interactivos (como 'penalties' ou um jogo de pesca), convidados musicais (a começar logo, em 'grande', pelos Xutos & Pontapés), entrevistas, reportagens e, claro, muito do humor típico do 'Lecas', traduzido tanto em 'sketches' curtos como em paródias de filmes de heróis de banda desenhada ou nas 'dobragens' das 'vozes' dos animais de companhia das celebridades entrevistadas, na rubrica 'Meu Dono de Estimação'. Numa vertente algo mais 'séria', a rubrica 'Quando For Grande Quero Ser...' oferecia aos jovens espectadores, uma vez por mês, a possibilidade de viverem o seu emprego de sonho durante um dia, ao lado de um profissional do sector, enfatizando assim a ligeira vertente educativa de que o programa também gozava. No global, um formato equilibrado, e que não podia deixar de agradar ao público-alvo, pese embora a ausência de desenhos animados, normalmente a 'atracção principal' deste tipo de programa. Lecas era, no entanto, uma presença mais do que magnética o suficiente para manter as crianças portuguesas cativadas durante todo um programa, eliminando a necessidade de exibir séries entre os diferentes segmentos, e dando ao programa alguma originalidade face a outros 'concorrentes'.

De referir, ainda, que foi deste programa – e dos seus segmentos musicais, protagonizados uma vez por episódio pelo próprio Lecas – que saiu o icónico disco 'As Canções do Lecas', do qual também já aqui falámos, pouco depois do 'post' dedicado à 'Hora'. Esta nova publicação vem, pois, completar a 'trilogia' dedicada a uma das grandes figuras da televisão infantil portuguesa de finais dos anos 80 e inícios de 90, e que a porção mais velha dos leitores deste 'blog' provavelmente recordará como um dos seus ídolos de infância.

03.11.25

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Em 1989, o desconhecido grupo franco-brasileiro Kaoma inscrevia permanentemente o seu nome na lista de 'one-hit wonders' contemporâneos após o mega-sucesso da sua versão de uma música brasileira que, por sua vez, nada mais era que uma tradução ou localização (não autorizada!) de uma versão 'cover' da música 'Llorando Se Fue', do grupo boliviano Los Kjarkas. Ou seja, 'Lambada (Chorando Se Foi)' era, na sua base, uma versão de uma versão de uma versão do original de 1981! E porque poucas coisas com o nível de sucesso da referida música conseguem evitar o aparecimento de imitadores e 'cópias' fraudulentas, não tardou até que Portugal tivesse a sua própria versão do tema, a qual conseguia a proeza de ser uma 'cover' em quarto grau (!) da inspiração original dos Kaoma!

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Capa do primeiro álbum de 'Camuta'.

Tal facto está, no entanto, longe de ser a parte mais mirabolante da história de Camuta, que conseguiu a proeza de lançar três álbuns em inícios dos anos 90...sem nunca ter chegado a existir. Isto porque, por detrás do nome em causa escondia-se apenas um homem: Toy, figura mítica da música popular e 'pimba' portuguesa, recrutado pela Discossete para gravar 'às pressas' várias lambadas, com a voz disfarçada e cantando em 'brazuquês', como forma de capitalizar sobre o sucesso do original. E embora Toy surgisse ainda creditado, no interior do álbum, como autor de vários dos temas, a interpretação dos mesmos era atribuída ao fictício 'Camuta', uma designação sob a qual o cantor viria a lançar não só esse primeiro álbum, de 1989, mas um segundo (criativamente intitulado 'Lambada 2') no ano seguinte, e, em 1992, também um álbum de versões de músicas de telenovelas (como 'Tieta' ou 'Rainha da Sucata', que dava título ao disco) desta vez emulando a voz da lendária Fafá de Belém!

Um 'embuste' que, obviamente, apenas seria possível numa época da História bastante mais crédula e inocente, mas que, de algum modo, conseguiu permanecer intocado mesmo após o início da 'era da Internet', tendo sido o próprio Toy a assumir a farsa, primeiro em entrevista à revista VIP e, mais tarde, no fascinante documentário sobre o movimento 'pimba' produzido e exibido pela RTP. Só então quem, à época, tinha adquirido este álbum (provavelmente em 'cassette', num daqueles icónicos expositores existentes nas tabacarias, bombas de gasolina ou estações de serviço do Portugal dos anos 80 a 2000) ficou a saber ter em sua posse o equivalente a um disco 'pirata', (uma espécie de versão portuguesa dos grupos de Frank Farian ou Jonathan King) naquele que ainda hoje se afirma como um dos mais fascinantes 'truques' de 'marketing' da História da música portuguesa.

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