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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

08.06.21

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Só a música já deve ter feito a maioria dos leitores deste blog viajar no tempo até aos primeiros anos da década a que este blog diz respeito -altura em que estreava, no principal canal televisivo português, um dos melhores programas infantis da história da televisão nacional.

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Uma adaptação localizada do (também universalmente bem recebido e recordado) original americano, a versão portuguesa da ‘Rua Sésamo’ chegava á RTP1 em 1989, mesmo a tempo de ensinar as primeiras letras, números e conceitos de cidadania a toda uma geração de crianças. Constituído por uma mistura de segmentos ‘made in Portugal’ – basicamente todos os que se passavam no espaço da Rua Sésamo propriamente dita, e ainda algumas das animações – com dobragens dos ‘sketches’ originais da Jim Henson Creature Workshop, o programa gozava de uma produção cuidada, claramente feita com amor, e de uma equipa criativa composta por grandes nomes da literatura e televisão infanto-juvenis da época. O resultado final era um programa, previsivelmente, de enorme qualidade, e que não tardou a capturar a imaginação do público-alvo.

O talento, no entanto, não se ficava pela equipa técnica; os dobradores, bonecreiros e actores da série estavam, também, entre os melhores em solo nacional, sendo que o elenco de ‘carne e osso’ contava com uma mistura de actores consagrados, como Fernanda Montemor, e nomes que se viriam a tornar clássicos da televisão portuguesa em anos subsequentes, como Alexandra Lencastre, Vítor Norte ou José Jorge Duarte. No entanto, e apesar destes grandes nomes, as verdadeiras ‘estrelas da companhia’ eram os bonecos Poupas e Ferrão, adaptações portuguesas do Big Bird e Oscar the Grouch americanos, a quem, a partir da segunda série do programa, se juntaria um terceiro elemento, a dengosa Gata Tita.

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O elenco do programa contava com estrelas tanto presentes como futuras.

Na ‘outra parte’ do programa, eram também os emblemáticos personagens de Jim Henson quem mais captava a atenção do público-alvo, com destaque para Cocas, o Sapo, o frenético e exagerado ‘drama king’ Gualter, o esfomeado Monstro das Bolachas, e a impagável dupla Egas e Becas, companheiros de casa em modo ‘inimigos inseparáveis’ cujos segmentos eram os únicos sem propósito educativo, tendo apenas como finalidade fazer rir - e conseguiam-no, com louvor!

Quem não se lembrou imediatamente desta vinheta assim que viu o nome do Egas e do Becas, não deve ter boa memória...

Um personagem, entretanto, primava pela ausência – e logo o mais famoso de todos os bonecos da versão original. Pois é, a versão nacional da ‘Rua Sésamo’ nunca teve Elmo – e haverá quem diga que os miúdos portugueses tiveram sorte nesse aspecto…

Parte do sucesso do programa devia-se precisamente ao facto de tratarem o seu público com respeito, nunca forçando a vertente educativa, e fornecendo-lhes material adequado à idade e aprendizagens, mas que simultaneamente puxava pela imaginação e incentivava à curiosidade, sem nunca se tornar lamechas - um feito apenas à altura da equipa de ‘craques’ pedagógicos a cargo da adaptação. Foi, em parte, esta abordagem frontal e honesta que permitiu ao programa manter-se no ar durante espantosos sete anos, sem nunca deixar de ter a mesma recepção calorosa e interessada por parte das crianças que a acompanhavam, e chegando mesmo a ser referenciada no titulo de uma música punk de intervenção (!) Em suma, a ‘Rua Sésamo’ é daqueles programas com estatuto de clássico tanto entre as crianças da altura como entre os seus pais – e que o justifica plenamente, em ambos os casos.

Não, não estávamos a inventar aquilo da malha punk de intervenção...

Como não podia deixar de ser, um programa com este grau de popularidade abria vastas oportunidades de mercado, e não tardaram a começar a aparecer nas prateleiras das lojas produtos com a chancela ‘Rua Sésamo’. Muitos destes, como a maioria os livros e algumas das cassettes VHS, eram simples importações directas e traduzidas de material pré-existente no mercado norte-americano, com os correspondentes personagens de ‘cores erradas’ e cenários nova-iorquinos; no entanto, havia também um grande número de produtos totalmente concebidos em Portugal, dos quais os mais memoráveis talvez sejam os discos de ‘Canções da Rua Sésamo’, cujo sucesso justificou vários volumes.

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Alguns dos muitos produtos alusivos ao programa comercializados em Portugal na época, tanto com os personagens portugueses como americanos

Um produto, no entanto, destaca-se dos demais, não só pela sua qualidade ‘à parte’ como também por ter sobrevivido como elemento independente do programa que o originara. Falamos, é claro, da revista com o mesmo nome, talvez o melhor exemplo de revista de passatempos e variedades para um público infantil alguma vez criada em Portugal.

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Alguns dos muitos números da revista 'Rua Sésamo', um complemento de enorme qualidade ao programa televisivo

Mantendo-se fiel ao conceito do programa, a revista trazia passatempos, jogos e pequenas histórias que permitiam às crianças assimilar conhecimentos e desenvolver competências de um modo divertido e cativante, bem como um 'Guia Para Pais e Educadores', que procurava explicar os valores e competências que cada segmento da revista e do programa procurava transmitir, e sugeria actividades complementares para os próprios educadores realizarem com as crianças. Não admira, portanto, que a revista tenha sido um êxito quase tão grande como o programa, e seja hoje lembrada com tanto carinho quanto este, tanto pelas crianças a quem se dirigia como pelos seus pais.

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O programa chegou a ter honras de capa na revista 'TV Guia'

Em suma, a ‘Rua Sésamo’ portuguesa foi daqueles raros programas em que tudo foi bom, do início ao fim. Enquanto a congénere americana continua a debater-se em estertores cada vez mais comerciais, desvirtuando assim o seu legado, a congénere lusa soube quando parar, e conseguiu por isso manter fiel um público que, entretanto, talvez tivesse já crescido demasiado para ainda gostar de um programa expressamente dirigido à faixa etária dos três a sete anos. De facto, essas mesmas crianças ainda hoje relembram com nostalgia o programa – que certamente já terão feito questão de mostrar aos próprios filhos. Se esse ainda não foi o caso, deixamos abaixo o primeiríssimo episódio na íntegra, como ponto de partida para o 'aprendizado' dos gaiatos; e caso não tenham filhos, aproveitem e revivam vocês próprios as memórias daqueles bons tempos a rir e a aprender com o Poupas, o Ferrão e os restantes personagens que nos eram tão queridos…

 

 

 

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