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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

31.01.24

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Quando utilizada correctamente, e realizada com verdadeiro cuidado e talento, a banda desenhada institucional constitui uma excelente ferramenta para atrair e sensibilizar as gerações mais jovens para certos temas, ou simplesmente transmitir informações ou conhecimentos. E embora nem todas as instituições compreendam esse facto – o que ajuda a explicar a reputação algo 'duvidosa' deste tipo de publicação – tem havido, ao longo dos anos, vários exemplos bem-sucedidos de álbuns de banda desenhada ligados a empresas ou instituições, e destinadas tão-somente a veicular informações sobre a História e funcionamento das mesmas. Um dos mais notáveis foi lançado há exactos vinte e sete anos, em Janeiro de 1997, por uma instituição cultural que não precisava de o fazer, dado ser já um dos principais locais de 'romaria' para as crianças e jovens nacionais, sobretudo os residentes na Grande Lisboa; e, no entanto, a tentativa de contar a 'História do Jardim Zoológico em Banda Desenhada' constitui, ainda hoje, um exemplo de como fazer BD institucional.

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Capa e contra-capa da publicação.

Da autoria do malogrado José Garcês, veterano em contar História em formato desenhado, e financiado pelo grupo NovaRede (então parceiro do próprio Zoo) o álbum em causa apresenta precisamente aquilo que o título sugere – isto é, uma reconstituição em formato de novela gráfica dos principais acontecimentos que levaram à fundação do Zoo (na altura localizado na zona do Parque, no terreno hoje adjacente à Fundação Calouste Gulbenkian), à sua posterior expansão para o actual recinto em Sete Rios, e a todos os restantes marcos históricos que a instituição vivera à altura da publicação. Mais do que apenas um veículo de 'propaganda' para o Zoo, no entanto, o álbum em causa pretendia também oferecer uma visão geral da evolução da apresentação de animais em cativeiro ao longo da História de Portugal (culminando, como é óbvio, na abertura da instituição celebrada na publicação), transmitindo assim informações não apenas relativas ao Jardim Zoológico, mas de relevância histórica e cultural para o próprio País, de forma cativante e divertida – um dos grandes objectivos de qualquer BD institucional.

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Exemplo da arte e argumento da obra.

Não é, pois, de surpreender que este excelente álbum tenha reunido consenso suficiente entre os visitantes do Zoo para justificar a produção de uma 'sequela' aquando dos cento e vinte e cinco anos da instituição, em 2009, novamente com José Garcês como único responsável, e desta vez dando maior foco aos próprios animais do Zoológico. Tal edição não tivesse, talvez, sido possível sem a experiência bem-sucedida que foi a sua antecessora, que cativou os 'putos' apaixonados por animais da geração 'millennial' e os incentivou a conhecer melhor a História de um recinto que lhes era já bem querido, atingindo assim o objectivo último de qualquer boa BD institucional – uma classificação que esta 'História do Jardim Zoológico em Banda Desenhada' sobejamente merece.

26.07.23

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Na última edição desta rubrica, falámos do 'Disney Gigante', a tentativa feita pela Editora Abril de oferecer aos jovens portugueses material adicional de leitura para as férias; nada mais justo, portanto, do que versarmos agora sobre a publicação que ajudou, originalmente, a popularizar esse conceito, e na qual a Abril se terá inspirado para fazer o seu super-álbum. Falamos do 'Almanacão de Férias' da Turma da Mônica, de Mauricio de Sousa, uma publicação bi-anual lançada para coincidir com as férias escolares do Brasil (em Dezembro/Janeiro e em Julho), e que, apesar de chegar a Portugal com os habituais vários meses de atraso, não deixava de constituir uma excelente proposta para 'guardar' para aquelas viagens mais longas a caminho de um qualquer destino de férias.

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O número 8, um dos primeiros lançados nos anos 90.

Criado aquando da passagem da Turma de Mauricio da Editora Abril para a Globo, em 1987-88, esta publicação teve como antecedente directo o 'Grande Almanaque do Mauricio', do qual saíram duas edições – uma ainda na Abril, em 1986, e outra já na Globo, cujo fim era testar a viabilidade do formato na nova editora. E o mínimo que se pode dizer é que a experiência foi bem-sucedida, já que o 'Almanacão' não mais deixaria de fazer parte do lote de publicações da Mauricio de Sousa Produções, sofrendo apenas uma mudança de nome aquando da passagem para a Panini, já nos anos 2000.

O formato, esse, também nunca se alterou, apresentando uma mistura das tradicionais histórias com os conhecidos personagens e cerca de 80 a 100 páginas de passatempos, também com a Turma como protagonista, que constituíam o grande atractivo da publicação, e que englobavam desde desenhos para colorir aos tradicionais labirintos e sopas de letras, passando pelo icónico 'Jogo dos Sete Erros' e outras actividades de premissa menos comum, mas que nem por isso deixavam de ter interesse para o público-alvo. Muito que fazer, portanto – pelo menos para quem não tendia a 'devorar' de imediato todo o conteúdo, como era o caso lá por casa.

A única grande mudança sofrida pelo Almanacão de Férias foi, pois, o número de páginas, que diminuiu quando o número de publicações anuais passou de duas para três, em 1998, e ainda mais quando passou a ser lançado um 'Almanaque Turma da Mõnica' mais genérico, já sem o tema das férias como motivo central. A capa passou, também, a ser plastificada em vez de cartonada, mudança que ajudava a preservar a integridade dos livros, sendo que os primeiros números tendiam, inevitavelmente, a adquirir vincos na capa, algo que a plastificação vinha ajudar a colmatar.

Tirando isso – e, claro, a qualidade das histórias e passatempos em si – o 'Grande Almanaque' da Panini ainda hoje disponível nas bancas é em tudo semelhante à icónica publicação noventista, podendo, por isso, constituir um excelente meio de fazer a nova geração tirar o 'nariz' do iPad e do TikTok durante uma longa viagem de carro ou transportes públicos, ou mesmo um dia de chuva 'fechado' no hotel ou casa de praia, e descobrir como os seus pais se divertiam na mesma situação.

09.11.22

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Numa edição anterior desta rubrica, falámos da colecção 'História de Portugal em Banda Desenhada', talvez a mais conhecida e importante publicação nacional contemporânea no campo da banda desenhada educativa. Ao contrário do que se possa pensar, no entanto, essa não foi a única incursão dos autores e desenhadores portugueses por esse campo, antes pelo contrário – praticamente em paralelo com a referida colecção, surgia nas livrarias uma outra série de álbuns de âmbito muito semelhante, mas que nunca conseguiu almejar o mesmo nível de popularidade.

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Os três volumes da série

Trata-se da trilogia 'Lendas de Portugal em Banda Desenhada', da autoria do argumentista Jorge Magalhães e do ilustrador Augusto Trigo, publicada pelas Edições ASA entre 1988 e 1991 e que, como o próprio nome indicava, relatava por meio de ilustrações e algum texto cinco dos mais conhecidos contos e lendas populares portugueses: 'A Lenda do Rei Rodrigo' e 'A Moura Encantada' no primeiro volume, 'A Lenda de Gaia' e 'A Dama Pé-de-Cabra' (este um dos mais famosos relatos do folclore lusitano) no segundo, e 'A Moura Cassima' no terceiro e último.

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Exemplo do estilo de argumento e desenhos da trilogia

Tal como acontecia com a 'História de Portugal', também este 'Lendas...' gozava de argumento e desenhos de altíssimo nível, com as ilustrações de Augusto Trigo, em particular, a remeterem para desenhadores clássicos como Hal Foster (de 'Príncipe Valente', outra série que fez sucesso em Portugal) ou Frank Frazetta, bem como para contemporâneos como o belga François Craenhals, autor da série 'Cavaleiro Ardente'; quanto ao argumento, e ainda que o tema abordado possa não ser de interesse consensual entre a demografia-alvo, o mesmo mostrava-se ainda assim capaz de narrar estes contos populares de forma suficientemente apelativa e atractiva, servindo como o complemento perfeito para os desenhos, e contribuindo para um todo que, no cômputo geral, merecia ter ficado mais conhecido entre os jovens portugueses da época, até por tratarem de um tema (o folclore e a tradição oral) que urge não deixar morrer...

12.10.22

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Numa semana que temos vindo a dedicar exclusivamente ao mais popular herói de BD franco-belga em Portugal, Astérix, seria quase insultuoso deixarmos de analisar as adições feitas durante a 'nossa' década ao meio que o tornou conhecido; como tal, e porque a popularidade do pequeno gaulês durante a referida década não foi apenas retroactiva, dedicaremos as próximas linhas a uma breve visão geral dos dois álbuns alusivos ao mesmo lançados durante a última década do século XX.

Da autoria exclusiva de Albert Uderzo (que havia acumulado funções desde a morte do seu parceiro de criação, René Goscinny, uma década antes) qualquer destes álbuns constitui uma adição honrosa à colecção de aventuras do guerreiro gaulês e do seu rechonchudo melhor amigo, Obélix – ainda que o segundo dos dois volumes assinale, também, os primeiros vestígios do ligeiro decréscimo de qualidade que se faria sentir nos últimos dois álbuns assinados pelo ilustrador.

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Antes, porém, havia ainda tempo para um último clássico, sob a forma de 'A Rosa e o Gládio', de 1991, que vê Astérix a braços com uma admiradora furiosamente feminista, e a ter que rever os seus conceitos sobre o lugar da mulher na sociedade, enquanto procura adaptar a sua linguagem e personalidade para não ofender ninguém. Uma premissa, ao mesmo tempo, divertida e relevante, que antecipa o movimento 'woke' com cerca de três décadas de antecedência, e cuja mensagem é transmitida de forma suficientemente caricatural para nunca parecer forçada ou piegas, tornando o álbum digno de figurar ao lado de outros clássicos da era pós-Goscinny, como o também excelente 'O Filho de Astérix', de 1983.

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O mesmo não se pode, infelizmente, dizer de 'O Pesadelo de Obélix', lançado cinco anos depois e que, longe de ser mau, é no entanto menos memorável do que os seus antecessores directos. A trama não deixa de ser interessante, permitindo descobrir quão nefastos podem ser os efeitos da poção mágica de Panoramix sobre o perpetuamente 'super-poderoso 'Obélix, mas não chega, infelizmente, para elevar o álbum além daquele contingente de títulos de Astérix que tendem a ficar esquecidos por entre os clássicos absolutos, a exemplo de 'Astérix e o Caldeirão', 'Astérix e os Godos' ou 'O Grande Fosso'. Ainda assim, uma aventura bem divertida (embora se sinta a falta do sarcástico e inocente Obélix) e que vale a pena ter na colecção, quanto mais não seja em nome do completismo.

Infelizmente, e como já acima indicámos, estes dois álbuns representam o fim da 'época áurea' de Astérix; os dois primeiros livros do novo milénio (e últimos dois da 'era Uderzo', antes de a série ser 'cedida' a dois perfeitos desconhecidos), embora ainda de qualidade acima de qualquer suspeita, já revelam alguma falta de inspiração e ideias, ficando bem abaixo do que o universo cinematográfico do herói gaulês vinha produzindo ('Astérix e Obélix: Missão Cleópatra' é tão bom ou melhor do que qualquer álbum da fase clássica, e altamente recomendado a qualquer fã dos personagens de Goscinny e Uderzo). Quem deixou de ler a série nos anos 90, no entanto (fosse por decréscimo de interesse ou simplesmente pela entrada na idade adulta) teve a sorte de ainda se conseguir 'despedir' da série com a mesma em alta, através de dois bons livros que, ainda hoje, vale bem a pena tentar adicionar à colecção.

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