A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.
No que toca à cultura, Portugal é, tradicionalmente, um país mais importador do que produtor. Apesar de o talento português nas artes escritas e visuais nada deixar a desejar ao de outros países, a falta de recursos e meios condena, muitas vezes, os criadores lusitanos a uma carreira discreta, 'à sombra' de criações estrangeiras. A banda desenhada não é, de todo, excepção a essa regra, não querendo isso dizer, no entanto, que o nosso País não importe produtos culturais de qualidade, bastando lembrar o influxo de revistas aos quadradinhos brasileiras e norte-americanas ou de álbuns franco-belgas que se continua, em maior ou menor grau, a fazer sentir até hoje. E ainda que a Dinamarca esteja neste campo, como noutros, a um nível muito semelhante ao Português, a verdade é que essa nação escandinava logrou 'enviar' para Portugal, em finais do século XX, pelo menos um exemplo do melhor que tinha para oferecer em termos de 'quadradinhos', o qual chegou a 'marcar época' e a ter algum impacto e expressão entre as gerações 'X' e 'millennial' portuguesas, ainda que longe dos níveis atingidos pelos 'gibis' da Disney ou Turma da Mônica ou por clássicos como Tintim ou Astérix.
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Capa do primeiro volume da segunda colecção.
Falamos de 'Petzi', série criada pelo casal Hansen (Carla, responsável pelos argumentos e Vilhelm, que se encarregava dos desenhos) e cujo sucesso em Portugal fomentou a edição das aventuras do ursinho marinheiro (originalmente chamado Rasmus Klump) não apenas uma, mas duas vezes, a primeira ao longo de quase uma década (de 1978 a 1987), com os livros a saírem paulatinamente, um de cada vez, e a segunda de forma mais 'condensada', ao longo do ano de 1992. É a esta última que dedicaremos as próximas linhas.
Composta por vinte das trinta e seis aventuras de Petzi e seus amigos – outras criaturas marinhas semi-antropomórficas, além de um papagaio que lhes serve de mascote – esta segunda re-edição da Difusão Verbo tinha como diferencial, desde logo, o formato. Isto porque as histórias de Carla e Vilhelm Hansen surgiam, agora, em álbuns A4, por oposição ao A5 da série original dos anos 80, e com capas de fundo predominantemente branco, em substituição dos tons de azul das primeiras edições. Os conteúdos, esses, mantinham-se inalterados, ou não fosse a mesma editora responsável pelas duas colecções.
E já que falamos dos conteúdos, há que abordar, desde logo, o 'elefante na sala' – nomeadamente, o facto de 'Petzi' recorrer exclusivamente a legendas como complemento aos seus painéis desenhados, não existindo nos álbuns do casal Hansen qualquer balão de fala, o que faz com que as aventuras dos animais marinheiros acabem por ocupar um espaço tecnicamente híbrido, embora sejam ainda claramente reconhecíveis como obras de banda desenhada. Qualquer que seja o formato em que se pretenda inseri-las, no entanto, é inegável a qualidade e atractividade das criações dos dois artistas dinamarqueses, perfeitas para a faixa etária a que apontam (crianças já com alguma literacia, mas ainda em idade de instrução primária) e que provam ser possível criar personagens e enredos apelativos sem recorrer às habituais 'muletas' da violência ou dos super-poderes. A tripulação do barco 'Mary' (construído pela mesma no primeiro volume da série) é constituída, de uma ponta a outra, por personalidades vincadas e memoráveis, e o cenário marítimo presta-se a aventuras excitantes, sem que seja necessário enveredar por caminhos de acção pura e dura.
Não admira, pois, que 'Petzi' tenha feito, na sua época, sucesso entre as crianças um pouco por todo o Mundo, com Portugal e a vizinha Espanha a não serem, de todo, excepção. E ainda que, nas décadas subsequentes, a presença do urso de gorro azul e calças às bolinhas se tenha esbatido fora da sua Dinamarca natal, a marca cultural que deixou nas gerações de crianças portuguesas dos anos 80 e 90 foi, ainda assim, suficiente para mais do que justificar esta pequena homenagem, sob pretexto de recordar a re-edição noventista das suas aventuras.