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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

25.10.21

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Nasúltimas semanas, temos falado nesta rubrica de bandas com atitudes e posturas intencionalmente cómicas ou humorísticas, seja nas letras, seja na parte musical, presença em palco, ou até simplesmente no grafismo do disco. Para estes grupos, a música e a comédia são formas de arte complementares, e usadas em conjunto, de forma consciente, para criar uma amálgama bem balanceada de ambas as vertentes.

O que aconteceria, no entanto, se um artista criasse algo que se pudesse classificar como comédia, mas o fizesse de forma involuntária? Se, durante todo o processo de criação, o mesmo estivesse seguro de estar a criar uma obra capaz de ser levada a sério, mas que de facto apenas viria a despertar a chacota tanto dos seus pares, como do público em geral?

Quem se interessa por cinema de culto já sabe a resposta a esta pergunta, bastando para tal olhar para as obras de cineastas como Tommy Wiseau e Neil Breen; no entanto, quem cresceu em Portugal durante os anos 90 já conhecia o conceito de 'so bad it's good' muito antes de 'The Room' ser sequer um projecto na mente do seu criador.

Isto porque, em finais da década a que este blog diz respeito, surgiu na cena musical popular portuguesa (a chamada música 'pimba') um sujeito de risco ao lado com brilhantina e 'ondinha' à Super-Homem, casaco 'blazer' de lantejoulas, lacinho a preceito, e falha nos dentes da frente; um sujeito cuja habilidade vocal rivalizava com a de um qualquer universitário bêbedo num karaoke do Bairro Alto às três da manhã, com a diferença de que o referido universitário não chegará, com sorte, a ver a sua 'performance' gravada e lançada em disco para o grande público.

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Falamos, claro, de Zé Cabra, o lendário intérprete de hinos como 'Deixei Tudo Por Ela' e 'São Lágrimas', cujo conceito de afinação e tom tinha mais em comum com os de Natália Andrade do que de qualquer dos artistas até excessivamente artificiais da cena em que se inseria. Só quem lá esteve poderá descrever o que era ouvir Zé Cabra cantar, mas se imaginarem um cruzamento entre a referida Natália Andrade e Florence Foster Jenkins, mas no masculino e com composições ao estilo 'festa da aldeia', estarão muito próximos de perceber tal experiência (e se for esse o caso, as nossas condolências.)

Cliquem por vossa conta e risco; ficam avisados...

O desastre era tal que havia quem postulasse que Zé Cabra fazia de propósito, utilizando uma espécie de manobra 'troll' – muito antes desse conceito ter sido popularizado – para ganhar notoriedade e fama, e se destacar dos artistas em molde 'linha de montagem' que compunham a cena 'pimba' portuguesa da altura; no fundo, uma manobra semelhante à que, anos antes, tornara Saul Ricardo parte da consciência popular do país. Se esta teoria for verdade, então, tiramos-lhe o chapéu, Sr. Casimiro António Serra Afonso; o mais provável, no entanto, é que o referido senhor tenha sido explorado pela indústria, sem nunca lhe ter sido revelado o grande segredo da sua carreira – nomeadamente, o facto de que o seu público não se estava a rir COM ele, mas sim DELE. No entanto, se tiver verdadeiramente sido este o caso, parece que o próprio acabou mesmo por perceber o que se passava, dado ter admitido abertamente, em entrevista, que não sabia cantar...

Com ou sem talento, no entanto, a verdade é que Zé Cabra fez o suficiente para ganhar os seus cinco minutos na ribalta – e parece não ter querido mais do que isso. Prova desse mesmo facto é que, enquanto muitos dos seus pares continuam a percorrer activamente o circuito das feiras e romarias, Zé Cabra mudou-se, sem grande alarde, para França, onde se dedica ao seu outro 'hobby', a pintura (!) Como seu legado na consciência popular, o artista deixa dois 'singles' inenarravelmente maus, mas que fizeram dessa falta de qualidade o principal argumento para – à sua maneira – se tornarem parte da História da música popular portuguesa...

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