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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

03.06.21

NOTA: Este post é relativo a Quarta-feira, 2 de Junho de 2021.

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

E se, desde o início desta rubrica, temos vindo a recordar alguns dos mais marcantes títulos da banda desenhada nacional (das revistas Disney aos super-heróis) e ainda as principais importações brasileiras, como a Turma da Mônica, no post de hoje, iremos relembrar alguns dos ‘outros’ títulos que chegavam às bancas portuguesas vindos do nosso país irmão do outro lado do mar, e conseguiam alguma tracção entre o publico juvenil da época.

Em número e volume, estas edições eram mais que muitas – mais do que seria possível abranger em apenas um post. No entanto, muitas destas ‘arrivistas’ não conseguiam em Portugal o mesmo sucesso de que gozavam no seu país-natal, e acabavam por desaparecer das bancas lusas tão rápida e discretamente quanto haviam chegado. Assim, e para efeitos de simplificação deste post, optámos por deixar essas de fora, e focar a nossa atenção apenas naquelas que se conseguiam manter nos escaparates durante pelo menos um par de anos.

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Dessas, uma das mais notáveis – e melhores – era a revista do Menino Maluquinho. Criado pelo cartoonista Ziraldo, principal concorrente ao trono de Mauricio de Sousa, o miúdo de camisola amarela e panela de alumínio na cabeça ocupava um honroso segundo lugar no ranking das preferências das crianças brasileiras, perdendo obviamente para Mônica, Cebolinha e os seus amigos, mas conquistando um público constante e leal, e mantendo um grau de sucesso que motivou mesmo a criação de dois filmes de acção real, os quais foram igualmente bem recebidos pelo público-alvo.

Apesar de este grau de popularidade não ter sido reproduzido em Portugal, basta uma rápida leitura de alguns números da revista para perceber que o sucesso de Maluquinho era bem merecido. Destacando-se da Turma da Mônica por colocar os seus personagens a viver num prédio de apartamentos, por oposição às tradicionais vivendas do Bairro do Limoeiro – uma decisão que abre novas possibilidades cómicas que as histórias não têm qualquer pejo em explorar - Ziraldo apresenta, também, um sentido de humor bem mais multi-facetado e adulto do que o de Mauricio, sendo a maioria das piadas suficientemente directa para divertir o público-alvo, e simultaneamente suficientemente subtis para fazerem também sorrir os adultos. Com um estilo irreverente, solto e por vezes politicamente incorrecto – à semelhança do encontrado, à época, nas histórias do próprio Mauricio – o ‘gibi’ do Menino Maluquinho constituía uma excelente alternativa às revistas da Turma da Mônica, e merecia ter tido maior sucesso em Portugal.

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Logo atrás de Maluquinho no capítulo da qualidade e popularidade entre o público infantil encontrava-se a revista dos Trapalhões. A segunda de duas tentativas de ‘quadrinizar’ o histórico quarteto humorístico, esta edição da Globo apresentava os quatro membros da trupe como crianças residentes num pacato bairro de vivendas, num formato (talvez propositadamente) muito semelhante ao da Turma da Mônica. As próprias histórias iam, também, numa direcção semelhante, apresentando problemas típicos da infância, vistos sob o prisma único do humor do quarteto.

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Os resultados nunca eram menos do que satisfatórios, e, tal como a do Menino Maluquinho, a revista dos Trapalhões justificava plenamente o seu sucesso – bem como os diversos títulos ‘spin-off’ que gerou, com destaque para As Aventuras dos Trapalhões, revista publicada em papel brilhante e dedicada a apresentar versões ‘trapalhonizadas’ de grandes êxitos cinematográficos da época, com muito humor e ‘nonsense’ à mistura. Ambas estas revistas eram excelentes adições ao catálogo de qualquer fã de quadradinhos da época, e ambas justificaram em pleno a sua estadia prolongada – ainda que modesta – nas bancas portuguesas.

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Outra revista que durou alguns anos e fez considerável sucesso no Brasil – e mais modesto em Portugal – foi a da Turma do Arrepio. Recuperando o modelo ‘crianças num edifício de apartamentos’ de ‘O Menino Maluquinho’, esta criação de César Sandoval  (histórico das ‘histórias em quadrinhos’ brasileiras, que também chefiava a equipa técnica do ‘gibi’ dos Trapalhões) apresentava este conceito a partir de um novo ângulo, já que todos os personagens eram representações juvenis – ou antes, canonicamente os filhos - dos monstros clássicos de Hollywood, como Drácula, Frankenstein, a Múmia ou o Lobisomem. Isto permitia guiões algo mais originais e aventurosos do que o costume, quanto mais não fosse pelas oportunidades oferecidas pelos poderes sobrenaturais dos personagens. No entanto, também não faltavam os habituais enredos ‘slice-of-life’, relacionados com os problemas pessoais dos personagens, e das crianças em geral. No cômputo geral, uma publicação que, sem ser nada de extraordinário, era um acrescento mais que válido ao ‘ramalhete’ de quadradinhos brasileiros importados para Portugal.

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Mais discreta do que estas, mas ainda assim surpreendentemente longeva – especialmente dada a temática – foi a revista Senninha, que aplicava o conceito que tão bem funcionara na revista dos ‘Trapalhões’ a outra figura – no caso, Ayrton Senna. O piloto brasileiro, ainda vivo à data da criação da revista e publicação dos primeiros números, surgia como um jovem pré-adolescente, viciado em corridas de fórmula 1, e coadjuvado por amigos e mascotes tão ou mais fanáticos do que ele. As histórias, mais uma vez, centravam-se em torno da vivência de criança num bairro residencial brasileiro, embora desta vez com o diferencial de Senninha resolver muitos dos seus problemas diários com recurso a algum tipo de carro ou corrida, numa fórmula extremadamente segura, mas que parecia nunca deixar de funcionar.

Infelizmente, a morte de Ayrton Senna transformou a revista numa homenagem póstuma ao lendário protagonista, tendo a mesma continuado a ser publicada largos anos depois do trágico acidente que vitimou um dos maiores pilotos da história da fórmula 1; e se, nesse aspecto, a Abril podia ter feito bem pior, a verdade é que Senninha era uma revista algo derivativa, e com mais estilo que substância, pouco apta a competir com a perene Turma da Mônica, ou até com os seus rivais directos acima mencionados.

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Em situação semelhante encontravam-se os 'gibis' da Xuxa - uma das poucas revistas de contexto exclusivamente brasileiro a transpôr o oceano - e da Barbie. Ao contrário de Senninha, nem a popular e esbelta apresentadora infantil nem a igualmente popular e esbelta boneca-modelo-e-cantora eram, nos seus títulos próprios, transformadas em criança - embora, como quase todos os personagens infantis brasileiros, vivessem ambas num pacato bairro de vivendas, com relvados, jardins e quase nenhuma degradação ou violência. As histórias seguiam, também, os mesmos moldes de outras publicações análogas aqui descritas, com qualquer das duas loiras a usar o seu charme natural para debelar e resolver situações tanto do género 'slice of life' como mais aventurosas.

A qualidade, essa, era média-alta em ambos os casos, sem nada de particularmente errado ou extraordinário, exactamente como a de todos os outros 'gibis' aqui descritos - o que poderá explicar porque razão o 'gibi' da Xuxa, em particular, não se destacava da 'maralha' sem o nome e a fama da apresentadora para o sustentar, este título . Talvez se alguma editora portuguesa tivesse pegado no título e o tivesse reinventado com Ana Malhoa como protagonista, a história fosse diferente...

As restantes revistas que chegavam a Portugal vindas do outro lado do oceano eram, na sua grande maioria, adaptações de publicações americanas, apenas traduzidas para Português do Brasil (tal como, aliás, acontecia com o 'gibi' da Barbie analisado no parágrafo anterior). Ainda assim, apesar de significativamente menos criativas do que as suas congéneres acima citadas, estas revistas faziam um excelente trabalho de adaptação, transformando muitas vezes o material original em algo completamente diferente.

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Os melhores e mais longevos exemplo deste fenómeno eram a revista Luluzinha e a sua congénere dedicada ao eterno ‘melhor inimigo’ da mesma, Bolinha. Baseados nos igualmente populares ‘comics’ de ‘Little Lulu’, estas duas publicações mostravam cabalmente como transformar material originalmente baseado em vivências infantis americanas dos anos 50 e 60 em material relevante e contemporâneo para crianças brasileiras (e portuguesas) dos anos 80 e 90, sem sacrificar o estilo e espírito pretendido pela autora original, Marge. Este trabalho era tão bem feito, e as duas revistas tinham tanta qualidade, que ambos os títulos se mantiveram nas bancas durante décadas, e até haverá quem as confunda com um original brasileiro!

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Um feito muito semelhante era conseguido pela revista do Recruta Zero, que conseguia transformar o Beetle Bailey original – soldado raso numa caserna tipicamente americana – num ‘malandro’ bem brasileiro, ao mais puro estilo Zé Carioca. Esta revista, a par de outras do escalão ‘superior’ da banda desenhada brasileira, representava, mais do que uma tradução, um louvável esforço de localização, que, como no caso de Luluzinha e Bolinha, resultava magnificamente.

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O mesmo não pode ser dito de revistas apostadas em criar novas aventuras para personagens clássicos dos ‘cartoons’ antigos, como O Melhor de Pica-Pau e O Melhor de Tom e Jerry, embora também se note aqui e ali algum esforço em ‘abrasileirar’ o diálogo. No entanto, tal como as revistas da Hanna-Barbera em Portugal, estes não passavam de produtos algo menores , tanto no seu país-natal como cá pelas nossas bandas.

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Maiores ou menores, no entanto, a verdade é que, à época, um título tinha de ser mesmo muito específico à realidade brasileira para não chegar a Portugal - como era o caso, por exemplo, de revistas de celebridades daquele país, como Faustão e Sergio Mallandro (representados na montagem acima) que não tiveram a mesma sorte da congénere Xuxa. A Globo e a Abril, em particular, conseguiam colocar a grande maioria do seu material no nosso país, mesmo com vendas medianas para a maioria dos títulos secundários. Era um 'boom' de criatividade e vendas que a banda desenhada 'de quiosque' não voltaria a viver, quer no Brasil, quer em Portugal, mas que presenteou a 'nossa' geração com muito e bom material de leitura durante a infância...

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