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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

23.07.23

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.

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O jogador com a última camisola que envergaria.

Era só mais uma jornada, de só mais um Campeonato Nacional da Primeira Divisão. O Benfica viajava até Guimarães para defrontar o Vitória local, numa fria noite de Janeiro de 2004. Do banco, saltava um avançado loiro, contratado a custo zero após rescisão com o FC Porto, e que vinha, a pouco e pouco, conquistando o seu espaço na equipa. E a verdade é que, neste jogo, o mesmo jogador não tarda a deixar a sua marca, fazendo a assistência para o golo da vitória dos encarnados, o único da partida, marcado por Fernando Aguiar. Mais tarde, o mesmo jogador seria admoestado com um cartão amarelo e, em reacção, esboçaria um sorriso irónico e inclinar-se-ia para a frente, pondo as mãos nos joelhos; momentos mais tarde – mas que pareceram uma eternidade – colapsaria no terreno de jogo, suscitando acção imediata por parte das equipas médicas de ambos os clubes, bem como do INEM, que levaria o jogador de urgência para o hospital. Infelizmente, o jovem não viria a conseguir recuperar do acidente cardíaco e, nesse mesmo dia, era noticiado o seu falecimento, aos vinte e quatro anos de idade. Chamava-se Miklos Feher, teria feito há poucos dias quarenta e quatro anos, e a sua morte é ainda hoje lembrada por qualquer adepto português daquela época como talvez a maior tragédia de sempre no desporto-rei nacional.

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A primeira experiência de Feher fora da Hungria foi a sua passagem atribulada pelo Porto.

Do que muitos talvez não se recordem, no entanto, é que Feher vinha já fazendo uma carreira honrosa em Portugal antes da sua chegada à Segunda Circular lisboeta, tendo sido Cara (Des)conhecida num par de 'históricos', e tido mesmo a sua afirmação num deles. Contratado pelo FC Porto ao Gyori ETO, da sua Hungria natal, no defeso de Verão de 1998, pouco antes ou pouco depois de completar dezanove anos de idade (nasceu a 20 de Julho de 1979), o ponta-de-lança já internacional sub-21 pelo seu país ver-se-ia, no entanto, sem espaço no plantel portista da altura, tendo conseguido amealhar apenas dez presenças pela equipa principal dos Dragões (um golo) e mais sete pela equipa B (dois golos) antes de seguir o habitual percurso de empréstimos para ganhar experiência.

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O jogador no Salgueiros...

A primeira paragem foi o 'vizinho' Salgueiros, onde ingressou logo no dealbar do ano 2000, ainda a tempo de efectuar catorze jogos e contribuir com cinco golos; já a primeira época completa do Milénio vê-lo-ia afirmar-se no Braga, onde marcaria catorze golos em vinte e seis jogos, uma média de mais de um golo a cada dois jogos. Pelo meio, ficariam ainda vinte e cinco internacionalizações pela equipa A da Hungria, pela qual marcaria sete golos.

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...e no Braga, onde faria a sua melhor época.

Seriam estas boas exibições que viriam a despertar o interesse do Benfica, com o qual Feher assinaria contrato no final da época 2001-2002, após mais uma temporada 'gorada' no Porto, e por quem chegaria aos trinta jogos e sete golos, sendo opção regular a partir do banco, e ganhando aos poucos a confiança dos adeptos. Tudo viria, no entanto, a terminar naquela noite de Janeiro, em que a morte ceifaria uma carreira que, caso contrário, talvez ainda tivesse continuado durante pelo menos mais uma década, quiçá nas divisões inferiores, ou em outros 'históricos' das ligas portuguesas, até se dar a inevitável transição para o posto de treinador, que talvez ainda ocupasse nos dias de hoje.

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A estátua a Feher no Estádio da Luz.

Tal como sucedeu, no entanto, a História trataria de eternizar Miklos Feher como aquele jovem de 'farripas' loiras e sorriso malandro, vestido com a camisola encarnada com patrocínio da Vodafone, que tiraria um momento para descansar no fim de um jogo físico e intenso, e não tornaria a levantar-se, e que é hoje homenageado com uma estátua no Estádio da Luz, e tributado sempre que uma equipa húngara visita Portugal. Que descanse em paz.

11.06.23

NOTA: Por motivos de relevância temporal, este Domingo vai ser Desportivo, e não Divertido.

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.

O estigma da transferência entre clubes arqui-rivais – ainda bem presente no meio futebolístico de hoje em dia – não impediu (nem impede) que, ao longo dos anos, tenha havido um sem-número de jogadores a tornarem-se voluntariamente 'vira-casacas', juntando-se a um dos 'Grandes' após terem servido qualquer dos outros dois. Os nomes são bem conhecidos, e continuam a causar alguma 'comichão' aos adeptos dos clubes 'traídos': Luís Figo (em Espanha), Simão Sabrosa, João Moutinho, João Pereira, Mário Jardel, João Vieira Pinto, Ricardo Quaresma, Silvestre Varela, Yannick Djaló, Lazar Markovic e, mais recentemente, João Mário Eduardo são apenas algumas das 'caras' mais marcantes deste fenómeno. E ainda que este percurso seja, normalmente, feito por via indirecta, geralmente após uma experiência internacional falhada, por vezes, este tipo de troca é mesmo levada a cabo 'à descarada', como no caso do jogador cuja carreira celebramos neste post, por ocasião do seu quinquagésimo-quarto aniversário: o soviético Sergey Yuran, figura maior e mítica do Benfica de inícios da década de 90 mas que, na temporada de 1994/95, foi protagonista de uma controversa transferência para o então hegemónico Futebol Clube do Porto.

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O jogador com as duas camisolas que envergou em Portugal.

Nascido na cidade ucraniana de Lugansk – então parte do bloco soviético – Yuran começou a sua carreira em clubes locais: primeiro o Zorya, pelo qual se estreia com apenas dezasseis anos e onde passa duas épocas e meia (sendo a de 1987/88 a da consagração como elemento-chave da equipa) e depois no Dínamo de Minsk, para o qual se transfere ainda a meio da época supramencionada, e onde consegue marcas impressionantes ao nível dos golos marcados em relação à média de jogos, que desde logo dava indícios das características 'matadoras' do soviético. As boas prestações, fulcrais para a conquista do último Campeonato Soviético por parte do Minsk, foram, aliás, premiadas com a distinção como jogador ucraniano do ano em 1990.

Talvez tenha, aliás, sido esse 'faro' para golo acima da média que motivou o Sport Lisboa e Benfica a ir buscar o jogador à sua terra-natal e trazê-lo para Lisboa, logo no início da época de 1991/92. Pelos encarnados, Yuran faria três épocas que, apesar de menos impressionantes ao nível dos tentos obtidos, o veriam afirmar-se como parte importante da equipa, tendo o avançado alinhado em todos ou quase todos os jogos do clube ao longo do período em causa, sido o melhor marcador da então chamada Taça dos Campeões Europeus na primeira época completa ao serviço do clube, sido presença assídua nas selecções da União Soviética e da efémera Comunidade dos Estados Independentes, e conquistado o carinho dos adeptos com as suas contribuições – além de um Campeonato Nacional, referente à época que se desenrolava há exactos trinta anos.

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Ao serviço da Selecção soviética.

O papel fundamental do avançado na forma de jogar do Benfica, o respeito que obtivera por parte dos adeptos e, especialmente, a conquista do referido campeonato fizeram com que a mudança de Yuran para o FC Porto, logo no início da época seguinte, fosse um 'soco no estômago' ainda maior para os adeptos benfiquistas, já que nada faria esperar que o soviético se decidisse desvincular de um clube onde aparentava ser feliz. Ainda assim, a perda dos adeptos do Benfica foi o ganho dos do Porto, já que a única época de Yuran ao serviço dos nortenhos o veria afirmar-se, também, como peça importante da equipa, pesem embora os apenas cinco golos obtidos.

Essas mesmas boas prestações suscitariam, aliás, o interesse do Spartak de Moscovo, que conseguiria mesmo aliciar o avançado a regressar ao Leste europeu, ainda que apenas por uma época, já que o ano de 1996 o veria rumar a Inglaterra para jogar no Millwall, naquele que seria o primeiro 'passo atrás' da sua carreira. Uma decisão, aliás, de que Yuran demoraria a recuperar, já que os anos seguintes o viram 'deambular' por clubes (então) menores do campeonato alemão – Fortuna Dusseldorf e VfL Bochum – antes de regressar ao Spartak, para uma segunda época algo mais bem sucedida que a primeira. Ainda assim, e apesar destes anos menos bem conseguidos, o avançado continuou a ser opção frequente na Selecção Nacional russa, que representaria até 1999.

O dealbar do Novo Milénio parecia trazer consigo nova esperança para Yuran, que recuperava a estabilidade longe dos holofotes mediáticos, no campeonato austríaco, ao serviço do Sturm Graz. No decurso da segunda época ao serviço do clube, no entanto, o soviético sofreria uma lesão grave na cabeça, que acabaria por ditar o afastamento prematuro dos relvados, aos trinta e dois anos.

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Yuran no papel de treinador.

Daí, o próximo passo era comum e previsível: Yuran tornou-se treinador, iniciando a sua carreira em 2003, ao serviço da equipa de reservas do Spartak, e sendo mais tarde promovido a adjunto dentro do mesmo clube. A primeira experiência como treinador principal, essa, deu-se ao serviço do modesto Dinamo Stavropol, tendo a restante carreira sido feita exclusivamente em clubes de Leste, com destaque para o campeonato russo. Hoje, o outrora prolífico avançado é treinador do Pari NN, clube recém-fundado mas que actua já na Primeira Liga russa – uma posição estranhamente modesta, para quem, em tempos, se contou entre os melhores jogadores não de um, mas de dois dos principais clubes de um campeonato como o português. Ainda assim, aqui ficam os votos de parabéns, e de continuação de uma carreira honrosa como técnico.

12.03.23

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.

Todas as equipas e Selecções Nacionais têm os chamados 'jogadores utilitários' – nomes que, sem estarem na 'linha da frente' dos seleccionáveis, são suficientemente confiáveis para constituirem uma opção 'de banco' ou segunda linha perfeitamente viável, e como tal, recorrentemente usada. Muitos destes jogadores partilham, também, a particularidade de serem, ou terem sido, membros influentes de equipas também elas de 'segunda linha', onde acabam por se destacar o quanto baste para justificarem a contratação por emblemas maiores, ou a chamada à Selecção Nacional. O Portugal de finais do século XX não constituiu excepção a esta regra, e tanto os três 'grandes' como a Selecção das Quinas da época contavam com jogadores com este tipo de perfil, dos quais poderíamos destacar nomes como Areias, Frechaut, ou o jogador de que falamos neste Domingo Desportivo, Marco Ferreira.

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O extremo com a camisola que o notabilizou.

Um daqueles 'cromos' clássicos das antigas cadernetas da Panini, Marco Júlio Castanheira Afonso Alves Ferreira nasceu em Vimioso, no Norte de Portugal, há precisamente quarenta e cinco anos, e despontou para o futebol ainda antes da adolescência, em clubes locais como o GD Parada, o Bragança ou o local Águia do Vimioso. A carreira sénior, essa, viria a ter início no histórico Tirsense, onde Ferreira ingressaria para a época 1996-97, conseguindo amealhar dezassete exibições e dois golos na posição de extremo. A razoável época valeria ao jovem uma totalmente inesperada e surpreendente transferência para o Atlético de Madrid B, num daqueles 'passos maiores que a perna' que prejudicam a carreira de tantos jovens jogadores; apesar de este não ter sido o caso com Marco Ferreira, a verdade é que a experiência em Espanha não correu bem, tendo o extremo feito apenas quatro partidas pelos 'colchoneros' antes de rumar ao Yokohama Flugels, do campeonato japonês, no mercado de Janeiro. Também aí a vida não lhe correria de feição, tendo o jogador regressado a Portugal no final dessa época 1997-98, sem ter realizado qualquer jogo pela equipa nipónica.

Felizmente, o regresso ao nosso País permitiu a Marco Ferreira rectificar o seu percurso, tendo-se o extremo afirmado como parte importante da equipa do Paços de Ferreira na única época em que representou os 'castores': no total, foram dezanove as partidas realizadas por Ferreira com a camisola verde-amarela, apresentando-se o jogador a um nível suficientemente alto para despertar a atenção do histórico Vitória de Setúbal, adversário directo do Paços na então II Divisão de Honra; os sadinos acabariam mesmo, aliás, por fazer uma proposta pelo jogador e, no início da última época futebolística do século XX, Marco Ferreira rumaria a Setúbal para aquela que seria a melhor fase da sua carreira. No total, foram três épocas e meia com a 'listrada' sadina, sempre com influência determinante, como o comprovam as quase noventa partidas e quase dezena e meia de golos obtidos pelo extremo durante este período, e que lhe valeram as suas únicas chamadas à Selecção Nacional, todas no ano de 2002.

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Ferreira numa das suas três chamadas à Selecção.

A preponderância de Ferreira no plantel sadino levaria, naturalmente, ao interesse de um 'grande', e, no mercado de Inverno da época 2002-2003, o jogador diria adeus à 'casa' onde fora feliz e regressaria ao seu Norte natal, para integrar 'aquela' equipa do FC Porto de José Mourinho, que contava com outras caras previamente desconhecidas, como Pedro Mendes, Pedro Emanuel e Deco; e apesar de nunca ter conseguido ser mais do que um dos tais 'jogadores utilitários' no plantel dos 'Super' Dragões, o extremo conseguiria, ainda assim, comparecer por vinte e três vezes ao serviço da equipa durante a sua primeira época – uma delas na final da Liga dos Campeões, quando rendeu Capucho ao minuto 98, conseguindo assim ter o seu 'momento' europeu para mais tarde recordar.

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O jogador com a camisola do Porto.

Apesar da regularidade e utilidade como 'opção de banco' (apesar de suplente, chegou a marcar três golos pelo Porto) Marco Ferreira ver-se-ia, na época seguinte, dispensado por empréstimo para o Vitória de Guimarães, onde faria mais de vinte partidas, marcando três golos, antes de regressar ao Grande Porto para representar o Penafiel, naquela que se saldaria como a primeira experiência verdadeiramente 'falhada' desde os seus tempos de juventude: sete partidas e um golo são o saldo de meia época que não deixou grandes lembranças. Foi, pois, com alguma surpresa que os adeptos nacionais viram o extremo assinar por outro 'grande', no caso o Benfica, no início da época seguinte.

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Marco durante a infrutífera passagem pelo Benfica.

Como seria de esperar, no entanto, Ferreira nunca encontrou espaço no plantel 'encarnado', tendo-se a sua passagem pelos lisboetas traduzido em apenas cinco partidas e dois empréstimos, um dos quais o veria embarcar na primeira aventura internacional desde as suas primeiras épocas de sénior; nem a cedência ao Leicester City, de Inglaterra, nem o subsequente ingresso no Belenenses correram de feição, no entanto, com o extremo a conseguir apenas seis partidas em duas épocas, todas com a Cruz de Cristo ao peito. A dispensa do Benfica era, pois, inevitável, e os últimos dezoito meses da carreira de Marco Ferreira seriam passados na Grécia, ao serviço do Ethnikos Piraeus – experiência que tem o mérito de ser a primeira 'aventura' internacional bem sucedida para o jogador, e de lhe ter permitido retirar-se do futebol como figura proeminente do plantel de uma equipa, com trinta e dois jogos realizados ao serviço dos gregos, durante os quais contribuiu com cinco golos, uma das suas melhores marcas pessoais numa só época.

No momento da reforma, Marco Ferreira podia, pois, gabar-se de uma carreira repleta de 'aventuras' e que, apesar dos altos e baixos, o cimentou como uma das melhores e mais reconhecíveis 'segundas linhas' do futebol português da sua época – uma posição perfeitamente respeitável, e que o torna merecedor desta singela homenagem no dia do seu aniversário. Parabéns, Marco Ferreira!

26.02.23

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.

Apesar de não constar entre os principais campeonatos mundiais, sendo as suas competições tidas como decididamente de 'segunda linha', o futebol português sempre foi exímio em formar e exportar jogadores, fossem eles jovens com potencial ou (como sucede com o futebolista de hoje) nomes já com créditos firmados 'dentro de portas'. De igual modo, apesar de a esmagadora maioria desta formação se centrar nos chamados 'três grandes' (Benfica, Sporting e Porto) por vezes, surgem em clubes algo mais periféricos jogadores cujo talento não passa despercebido – inclusivamente ao triumvirato atrás mencionado.

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O jogador ao serviço do Porto.

Pedro Miguel da Silva Mendes, médio defensivo internacional pelas Quinas que completa hoje quarenta e quatro anos de idade, foi, na década de 90, um destes raros casos, tendo o seu despontar e afirmação sido feitos ao serviço de um dos 'históricos' do futebol português, e candidatos crónicos a 'quarto grande', no caso o Vitória de Guimarães. Foi ali que, nos primeiros anos da década de 90, um jovem de apenas onze anos vindo do 'vizinho' CD Aves começou a dar nas vistas, paradigma que se manteria durante os sete anos seguintes, com Mendes a ser, inevitavelmente, um dos jogadores de destaque em todas as equipas desde o nível de Infantis até à categoria de juniores.

Ainda assim, e apesar do talento inegável e inato, a entrada do médio na equipa principal do Guimarães não foi imediata, tendo o jogador de então dezanove anos sido enviado para 'rodar' no Felgueiras no início da época 1998/99. Previsivelmente, Mendes afirmou-se como um dos destaques da agremiação felgueirense naquela temporada, um daqueles jogadores 'de outro campeonato' claramente destinados a mais altos vôos. E esses viriam mesmo a chegar, logo na época seguinte, quando o médio defensivo é finalmente integrado no plantel vimaranense, ainda que apenas como apoio ao plantel prinipal; ainda assim, o jovem chegaria a efectuar quinze jogos pelo clube nessa primeira época, contribuindo com um golo.

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Mendes no Guimarães.

Seria apenas após o virar do Milénio, no entanto, que a carreira de Pedro Mendes começaria, verdadeiramente, a despontar, com o jogador a assumir cada vez maior preponderância no seio dos 'Conquistadores', afirmando-se mesmo, eventualmente, como titular indiscutível; no total, foram quatro as épocas e mais de noventa os jogos do médio pelo seu clube do coração, tendo a sua última temporada ficado marcada por um recorde de golos – seis, o dobro dos que havia marcado nas três épocas anteriores combinadas!

Como já seria de prever, o talento e consistência exibicional de Mendes não passaram despercebidos, tendo o médio sido alvo do interesse do FC Porto de Mourinho no início da época 2003/2004 – precisamente aquela em que o emblema portuense almejou o feito mais notável da sua História. Assim, em dez meses e pouco mais de quarenta jogos, a reputação do jogador projectava-se do nível local para um patamar internacional, e aquele que, um ano antes, havia sido 'apenas' um dos médios do Guimarães possuía, agora, honras de Campeão Europeu, bem como de internacional por uma das melhores equipas portuguesas de sempre.

Também previsivelmente, esta nova reputação suscitou interesse internacional pelos serviços do jogador, o qual, apenas um par de meses após vencer a Liga dos Campeões pelo Porto, embarcava em novos desafios em Inglaterra, no caso ao serviço do Tottenham, onde chegaria a fazer uma boa época – com trinta jogos e um golo – mas onde rapidamente perderia preponderância, sendo dispensado para o Portsmouth ainda no mercado de Janeiro da sua segunda época com os 'Spurs'.

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O médio no Portsmouth.

Ali, a vida correr-lhe-ia significativamente melhor, tendo o médio rapidamente assumido um papel preponderante na luta do clube por assegurar a manutenção, e contribuído com dois golos cruciais para esse objectivo, ambos conseguidos numa inesperada vitória por 2-1 frente ao Manchester City. As duas épocas seguintes seguiriam na mesma toada, tendo a estadia de Pedro Mendes sido coroada com a conquista da FA Cup, na época 2007/2008 – um objectivo bem menos sonante do que a Liga dos Campeões conquistada apenas quatro anos antes, mas nem por isso menos meritório.

Apesar da ligação ao Portsmouth – que, inclusivamente, o veria comprar acções do clube e juntar-se a um grupo organizado de adeptos que procuravam adquirir o mesmo de forma conjunta – a carreira de Mendes sofreria nova 'reviravolta' logo na época seguinte, que veria o médio rumar à Escócia para representar um dos seus históricos, o Rangers. Ali, o português teria novo início mais que auspicioso, tendo sido seleccionado como figura do jogo logo na sua partida de estreia, e como Jogador do Mês de Agosto, após apenas algumas semanas ao serviço do clube. Estava dado o mote para mais uma excelente época, com o jogador a afirmar-se como titular dos escoceses, a contribuir com quatro golos e a carimbar o seu regresso às convocatórias da Selecção Nacional, pela qual viria a disputar tanto a fase de qualificação quanto a fase final do Mundial de 2010.

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O jogador no Rangers.

Assim, foi de forma algo surpreendente que o mercado de Janeiro da época seguinte viu o médio regressar a Portugal, agora para representar um Sporting em fase complicada; e ainda que o jogador tenha desempenhado papel importante na segunda metade da campanha dos 'Leões', alinhando em dezasseis partidas e marcando um golo, a época seguinte vê-lo-ia perder preponderância, realizano em uma época inteira o mesmo número de partidas que fizera em seis meses do ano anterior.

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Mendes no Sporting.

Por consequência, o vínculo do médio com o clube lisboeta rescindido no final da época, a fim de possibilitar um regresso do jogador a 'casa'. A última época de Mendes como futebolista profissional seria, pois, passada no mesmo local onde a sua carreira havia começado quase uma década e meia antes: em Guimarães, onde o médio voltou a ser figura de proa, realizando vinte e dois jogos pelo seu clube formador antes de pendurar definitivamente as chuteiras – um ponto final condigno numa carreira repleta de honras e pontos altos, que inscrevia o jogador na lista de expoentes máximos da História do futebol português, e sobre a qual o mesmo quererá, certamente, reflectir no dia em que completa quarenta e quatro anos. Parabéns, Pedro Mendes – que conte muitos mais!

18.12.22

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.

Um dos principais axiomas do futebol jovem é que poucos são aqueles que, destacando-se ao nível da formação, chegarão também a brilhar ao mais alto nível; de facto, na maioria dos casos, ocorre precisamente o contrário, e um jovem que integra as selecções jovens do seu país de origem acaba por não almejar mais do que uma carreira honrosa, mas longe das 'luzes da ribalta' atingidas por outros seus colegas - ou seja, torna-se um 'grande dos pequenos'.

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Tal é, sem qualquer dúvida, o caso de Rui Óscar Neves de Sousa Viana, internacional e campeão europeu sub-18 por Portugal, mas cuja carreira nunca chegou verdadeiramente a 'descolar' da forma que tal início poderia fazer prever; ainda assim, o percurso do ex-defesa pelo futebol profissional foi suficientemente destacado para que, no fim-de-semana em que completa 47 anos de idade, valha a pena dedicar-lhe algumas linhas nesta nossa rubrica sobre os 'actores secundários' dos campeonatos nacionais de futebol dos anos 90.

Natural de Gondomar e formado no FC Porto - ao serviço do qual se sagraria internacional sub-18 e conquistaria o Europeu de 1994 do escalão - Rui Óscar começou por dar nas vistas no histórico União de Lamas, emblema pelo qual realizou a sua primeira época como sénior, contribuindo com um golo ao longo de dezassete partidas. Um início bastante comum para um jovem futebolista da época, mas que não deixou de valer a Rui Óscar a atenção de uma agremiação de maiores dimensões - no caso o Leça, que, naquela época 1995-96, competia ao nível da Primeira Divisão nacional. O defesa nortenho tornou-se assim, durante uma temporada, colega de outro jogador que abordámos nesta rubrica, Serifo, tendo sido presença assídua na equipa leceira, com um total de vinte e sete presenças, e feito por merecer a chamada às Selecções tanto de sub-20 como de sub-21, que representaria, respectivamente, no prestigiado Torneio de Toulon e na qualificação para o Europeu de Sub-21 de 1998.

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O cromo do jogador nos tempos do Leça

Deu-se, então, um 'salto' para Rui Óscar que quase o desqualificaria desta rubrica, tivesse o jogador ido além das duas partidas ao nível sénior pelo FC Porto; ficou-se, no entanto, por aí a contribuição do defesa para o campeonato dos Dragões da época 1996-97, não tendo sequer tido direito a sagrar-se campeão pelo clube que o formara. A temporada  após esta 'aventura' falhada veria, assim, o defesa integrar o plantel do primeiro de dois clubes pelos quais pode reclamar o estatuto de 'grande dos pequenos' - o Marítimo, onde permaneceria durante três épocas e se afirmaria como 'esteio', amealhando um total de oitenta e sete jogos e apontando dois golos.

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Rui Óscar no Marítimo

Apesar do sucesso desta 'aventura' insular, no entanto, o dealbar do novo milénio veria, ainda assim, o defesa regressar à sua zona de origem, ainda a tempo de celebrar a inusitada e inédita conquista do Campeonato Nacional da I Divisão por parte do outro grande clube da cidade do Porto, o Boavista, que negava assim ao Sporting aquilo que, se tivesse acontecido, viria a ser um bi-campeonato, e mais tarde um 'tri'.

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O defesa ao serviço do Boavista

A essa época histórica, seguir-se-iam mais três, durante as quais Rui Óscar marcaria assiduamente presença na equipa boavisteira, ao lado de nomes como Martelinho ou Fary - no total, foram setenta e uma as presenças do defesa ao serviço dos axadrezados entre 2000 (ano em que conseguiu, também, a sua única internacionalização sénior, pela equipa B de Portugal) e 2004, quando se mudou um pouco mais 'para baixo' para representar o futuro clube do ex-colega boavisteiro Fary, o Beira-Mar de Aveiro.

download.jpgÓscar no Beira-Mar

Correu, no entanto, menos bem esta última aventura do ex-internacional português, que somaria apenas três partidas pelos aurinegros, e acabaria mesmo por 'pendurar as botas' no final da temporada, com apenas trinta anos de idade, e com capacidade para, pelo menos, mais um punhado de épocas ao nível a que jogava. Ainda assim, há que respeitar a decisão de um jogador que, nas dez épocas que passou como profissional de futebol, conseguiu deixar a sua marca nos campeonatos profissionais de futebol portugueses de finais do século XX e inícios do XXI, e conquistar o seu lugar entre os verdadeiros 'grandes dos pequenos' existentes no seio dos mesmos. Parabéns, Rui Óscar - e que conte muitos!

22.08.22

NOTA: Este post é respeitante a Domingo, 21 de Agosto de 2022.

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidades do desporto da década.

Apesar de o mundo do futebol ser dos que mais exalta os seus 'craques', nem todos os jogadores mais memoráveis da História do desporto-rei foram, necessariamente, sobredotados ou prodígios de talento; muitos deles destacaram-se por outras qualidades, como a raça, a entrega, a dedicação a um determinado clube, a aparência bizarra ou original, ou simplesmente a longevidade no seio de uma determinada liga. O homem de quem vamos, nas próximas linhas, traçar um esboço de carreira faz, precisamente, parte deste segundo lote - apesar de ter chegado a ser internacional portuguêm em plena era da Geração de Ouro e a jogar no Real Madrid, dificilmente será recordado como um portento técnico; quaisquer memórias positivas a ele associadas terão, precisamente, a ver com os factores acima elencados, em particular a sua dedicação a um clube específico do campeonato português.

Falamos de Carlos Secretário, eterno defesa-direito do FC Porto da fase hegemónica, e que dedicou ao emblema nortenho nove das suas quinze épocas como profissional de futebol - mais de metade do total da sua carreira - apenas entrecortadas por uma passagem algo 'desastrada' pelo referido Real Madrid, por quem não conseguiu almejar mais do que treze jogos antes de voltar à 'casa de partida', para mais seis épocas. Conforme é apanágio desta secção, no entanto, não é nessas épocas ao mais alto nível que nos focaremos; pelo contrário, neste post, contaremos a história futebolística de Secretário enquanto foi uma Cara (Des)conhecida do panorama desportivo português.

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O defesa ao serviço da Selecção das Quinas, em 1999

Nascido em S. João da Madeira a 12 de Maio de 1970, foi, com naturalidade, no clube local que o jovem Secretário iniciou a sua formação futebolística, já relativamente tarde, aos 14 anos; os quatro anos que mediariam até à sua estreia como sénior veriam, ainda, o lateral passar pelas academias de Sporting e Porto, iniciando-se aí, aos dezassete anos, a relação do atleta com a agremiação azul e branca. A estreia como profissional, no entanto, dar-se-ia não no seio do clube das Antas, mas (ainda) mais a Norte, em Barcelos, onde um Secretário de apenas dezoito anos amealharia vinte e nove jogos e dois golos ao serviço do clube local, o Gil Vicente.

De Barcelos, o atleta rumaria, na época seguinte, a Penafiel, onde permaneceria por duas épocas, afirmando-se como presença quase indiscutível na equipa; no total, foram sessenta e quatro jogos com a camisola dos penafidelenses, com mais dois golos a juntar à conta pessoal do defesa. Nas duas épocas seguintes, ao serviço do Famalicão e Braga, respectivamente, o defesa conseguiria a proeza de totalizar números exactamente iguais, terminando cada uma das épocas com exactamente trinta e uma exibições e...dois golos!

Seria aqui, no final da época 1992-93 (e já como internacional sub-21 por Portugal) que Secretário chegaria, finalmente, à sua casa (quase) definitiva, onde viria a 'morar' por duas vezes: primeiro entre 1993 e 1996, contabilizando 86 jogos e mantendo a sua média de dois golos por época (num total de seis) e depois entre 1998 e 2004, período durante o qual alinharia praticamente cento e trinta vezes pelo clube das Antas, ainda que sem qualquer golo. Pelo meio, ficavam a referida (e azarada) passagem pelo campeonato espanhol, e umas nada despiciendas trinta e cinco internacionalizações AA, com duas competições internacionais disputadas ao serviço das Quinas (os Campeonatos Europeus de 1996 e 2000) e um golo marcado.

Apesar do seu longo e honroso vínculo ao FC Porto, no entanto, não seria nas Antas que Secretário viria a terminar carreira; ao invés, a última época do futebolista seria disputada ao serviço do Maia, tendo o lateral alinhado por vinte e quatro vezes com a camisola do clube dos arredores do Porto. Seria, aliás, também no Maia que Secretário iniciaria a sua nova carreira, a de treinador, que o veria passar por diversos clubes amadores e semi-profissionais dos campeonatos português (Lousada, Arouca, Salgueiros 08 e Cesarense) e francês (Lusitanos Saint-Maur e Créteil Lusitanos, clube que actualmente orienta); e apesar de não ter tanto 'brilho' como a sua carreira de jogador, esta nova etapa do ex-internacional português não deixa de ser honrada e honrosa, merecendo tanto respeito quanto foi atribuído à sua profissão passada. Numa altura em que o ex-defesa enfrenta problemas de saúde - tendo, por esse motivo, sido homenageado no último 'derby' entre Sporting e Porto - não queríamos, pois, deixar de homenagear o ex-atleta, a quem enviamos também votos de rápidas melhoras, e de que a carreira de treinador venha a ser tão notável como a de jogador profissional.

07.08.22

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidades do desporto da década.

Há duas semanas, falámos aqui de Aloísio, lenda do Futebol Clube do Porto; pois bem, o brasileiro teve participação activa num evento que, por lapso, acabámos por não abordar no final da época futebolística passada, mas que, pelo seu carácter histórico, merece que esse erro seja rectificado – o inédito (e ainda hoje recordista) pentacampeonato conquistado pelo Futebol Clube do Porto há pouco mais de vinte e três anos, no final da última época completa do século XX.

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Corolário da fase hegemónica que o clube do Norte vivera durante a década de 90 (embora anos vindouros viessem a revelar que tal domínio se devia a mais que apenas qualidade dentro das quatro linhas) o 'penta' do Porto veio, conforme acima referimos, estabelecer um novo recorde de conquistas de campeonatos, destronando o tetracampeonato conquistado pelo Sporting durante os anos 50, e que se mantivera intacto durante quase cinco décadas; curiosamente, seria também o Sporting a impedir o Porto de expandir ainda mais este recorde, com a conquista do seu primeiro campeonato em dezoito anos, logo na década seguinte. Nada que minimize ou trivialize o recorde do Porto, o qual se mantém vigente até aos dias de hoje.

Orientada pelo hoje Seleccionador Nacional e ainda 'engenheiro do penta', Fernando Santos, a equipa pentacampeã pelo Futebol Clube do Porto centrava-se (como, aliás, as quatro anteriores) numa das figuras maiores do desporto-rei em Portugal – Mário Jardel, avançado famosamente prolífico e que, nesta época, estabeleceria o primeiro de três recordes pessoais de golos por época, o último dos quais (42 golos, pelo Sporting, na época 2001/2002) ainda hoje vigente; no caso da época do 'penta', seriam 36 os golos na conta pessoal do avançado, cujo prodigioso e mortífero jogo aéreo chegou, à época, a inspirar estribilhos de Rui Veloso e Carlos Tê.

Como qualquer adepto certamente saberá, no entanto, mesmo o melhor jogador, sozinho, dificilmente faz milagres, pelo que não chegava ao Porto ter um Jardel na frente – era necessário construir uma equipa forte de uma ponta à outra; felizmente para os nortenhos, Fernando Santos tinha matéria-prima de primeira qualidade à disposição, contando 'aquela' equipa do Porto com o com nomes instantaneamente reconhecíveis para qualquer adepto da altura, muitos já com largos anos de 'casa' e parte integrante da chamada Geração de Ouro do futebol português - casos de Vítor Baía (ainda a alguns anos de dar hipóteses a qualquer concorrente), Jorge Costa, Paulinho Santos, Secretário, Peixe ou Capucho - que dividiam espaço no balneário com os não menos marcantes Chippo, João Manuel Pinto, Doriva, Deco, Panduru, Rui Barros, Folha, Fehér (ainda longe da tragédia que acabaria com a sua promissora carreira) e Mielcarski, além da eterna dupla Zahovic/Drulovic, do referido Aloísio e de um jovem central de 21 anos, com enorme margem de progressão, chamado Ricardo Carvalho.

É claro que até as melhores equipas não podem deixar de ter aqueles jogadores que se podem considerar – no mínimo – estar no sítio certo no momento certo, e este Porto não era excepção, com elementos como Quinzinho, Chaínho (uma daquelas contratações aos 'pequenos' que acabam por não se afirmar) Butorovic ou o lendário Esquerdinha a serem bafejados pela sorte; no entanto, estas acabavam por ser excepções à norma numa equipa com um nível médio impressionante, cuja vantagem de seis pontos sobre o segundo classificado, o então 'quarto grande' Boavista, indica que, mesmo sem os hoje famosos 'jogos de bastidores', os nortenhos teriam sido perfeitamente capazes de revalidar o título por mais um ano.

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A parte mais negativa da época? Este 'magnífico' equipamento alternativo...

Mesmo com os factos que viriam à luz em épocas subsequentes, no entanto, o pentacampeonato do Futebol Clube do Porto não deixa de ser uma marca bonita e honrosa, que ajudou o clube a fechar em grande não só a década de 90, como o século XX e o Segundo Milénio, e serviu de trampolim para futuras aventuras hegemónicas na Europa, sob o comando de José Mourinho – motivos mais que suficientes para que façamos dela o tema de mais um Domingo Desportivo.

24.07.22

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidades do desporto da década.

Quando se fala dos campeonatos portugueses da década de 90, há alguns nomes que vêem imediatamente à baila, seja pelo talento invulgar, pela falta do mesmo, ou simplesmente por parecerem já fazer parte da 'mobília' no início de cada nova época. Nesta nova rubrica, o Portugal Anos 90 propõe-se recordar as carreiras de algumas dessas Lendas do Campeonato Nacional.

E para começar, nada melhor do que recordar um nome que será lembrado com saudade ou com antagonismo (dependendo do clube do coração) pela maioria dos adeptos que ainda recordem esses tempos: Aloísio Pires Alves, 'centralão' do FC Porto conhecido por ser – a par de Jorge Costa ou Paulinho Santos - uma das principais caras daquelas equipas extremamente físicas que os 'Dragões' apresentavam no início da década, e um dos últimos resistentes das mesmas (a par do referido Jorge Costa) a sobreviver à transição para o 'novo' Porto europeu, no virar do milénio.

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O central com a camisola com que se tornou sinónimo

Nascido em Pelotas, Rio Grande do Sul, a 16 de Agosto de 1983, Aloísio iniciou a sua carreira profissional dezanove anos depois, ao serviço do Internacional de Porto Alegre, onde permaneceria seis épocas e realizaria mais de cem jogos, ajudando a equipa a conquistar três campeonatos estaduais, bem como a atingir uma inédita segunda posição na Série A brasileira (então conhecida como Copa União) em 1987.

A preponderância que assumia no seio da equipa gaúcha, bem como o elevado nível exibicional que mantinha, acabaram eventualmente por propiciar o sonho de qualquer jogador sul-americano, nomeadamente, o de se transferir para um grande clube europeu. No caso de Aloísio, foi o Barcelona quem mostrou interesse, acabando mesmo por assinar contrato com o jogador no início da época 1988/89. Surpreendentemente (ou talvez não), Aloísio conseguiu corresponder às expectativas associadas a tal transferência, encontrando o seu espaço no Barça dos anos pré-'dream team', pelo qual alinhou um total de 48 vezes ao longo de duas épocas, uma das quais na final da Taça dos Campeões Europeus (hoje, Liga dos Campeões) da época 1988/89, que terminaria com o triunfo dos 'blaugrana' frente à Sampdoria por 2-0. As suas boas exibições ao serviço dos catalães valer-lhe-iam ainda, nessa mesma época, a chamada à Selecção Nacional brasileira, pela qual realizaria seis jogos, a juntar aos quatro que já lograra ao serviço dos Sub-20, ainda nos tempos do Internacional.

Apesar de se afirmar como parte importante da equipa catalã em ambas as épocas em que alinhou com o seu escudo, no entanto, Aloísio viria mesmo a embarcar em nova aventura a tempo da época 1990/91, galgando as montanhas transmontanas para assinar pelo Futebol Clube do Porto, então em fase dominante no contexto do Campeonato Nacional da I Divisão. Do resto, reza a história: no total, foram onze épocas (mais de metade da carreira total do brasileiro) e quase quinhentos jogos oficiais ao serviço dos 'Dragões', ao longo dos quais conquistou dezanove títulos (incluindo um penta-campeonato, louvor que partilha com apenas cinco outros jogadores em toda a História do clube), formou parte integrante de uma fortíssima defesa portista nos primeiros anos da década, alinhou em pelo menos 28 dos trinta e poucos jogos do campeonato em todas as épocas à excepção da última, e conquistou um lugar como figura maior não só da 'mística' portista, como dos campeonatos da década de 90 como um todo - o que torna mais que merecida a sua inclusão na lista de Lendas do Campeonato Nacional daquela época, e a honra de inaugurar mais esta nova rubrica do nosso blog.

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Aloísio com os quatro uniformes da sua carreira

13.02.22

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.

O Futebol Clube do Porto 'conquistador' da Europa – aquela equipa treinada por José Mourinho, e da qual o mesmo levaria vários elementos consigo ao transitar para os ingleses do Chelsea – tinha na defesa um dos seus grandes esteios. A linha mais recuada do clube do Norte nesses anos de glória de inícios do século XXI contava com o histórico do clube, Jorge Costa, e ainda vários nomes que se tornariam indiscutíveis da Selecção Portuguesa pós-Geração de Ouro - Paulo Ferreira (à direita), Nuno Valente (a esquerda) e ao centro Ricardo Carvalho, todos os quais seguiriam o seu treinador rumo a Inglaterra. No meio de todas estas estrelas passadas e futuras, mais discreto mas não menos importante, alinhava um 'centralão' que, embora não tendo tido a mesma boa fortuna dos seus companheiros de defesa, conseguiu, ainda assim, tornar-se um nome histórico dos Dragões.

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Falamos de Pedro Emanuel, um produto da prolífica escola do Boavista de finais dos anos 80 e inícios de 90 – que também deu ao mundo futebolístico nomes como João Vieira Pinto, Jorge Couto, Nuno Gomes, Ricardo, Litos ou Frechaut, os três últimos colegas de equipa de Emanuel aquando do seu regresso a 'casa' – que viria a fazer carreira entre os dois clubes da Cidade Invicta, contabilizando mais de cem jogos por cada um deles (no Boavista, ficou a um jogo de completar 150) e assumindo-se como peça importante na 'fase áurea' de ambos.

O que muitos adeptos talvez não saibam é que – à semelhança dos colegas de equipa Deco e Nuno Valente – Pedro Emanuel passou várias épocas a 'pagar dividendos' nas divisões inferiores antes de 'dar o salto' para a ribalta; no caso, foram três os clubes 'menores' representados em outras tantas épocas, curiosamente sempre com números extremamente semelhantes – cerca de 30 jogos (29 no Marco, 31 na Ovarense e 28 no Penafiel) e exactamente dois golos por cada uma das equipas.

Talvez tenha sido esta consistência que levou os olheiros do Boavista, numa jogada que faria corar o Sporting da era moderna, a repararem novamente no jovem que haviam dispensado da sua academia anos antes, voltando Emanuel a ser contratado pelos axadrezados no início da época 1996/97, quando ainda contava apenas vinte e um anos, e, como tal, apresentava ainda enorme margem de progressão, que acabaria mesmo por demonstrar – a restante carreira do atleta foi já descrita em parágrafos anteriores.

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O jogador durante o seu período no Boavista

Quando se retirou do futebol competitivo para se dedicar à função de treinador, Pedro Emanuel era (justamente) considerado uma 'lenda' do Futebol Clube do Porto; um nome, talvez, ofuscado pela 'constelação' que o rodeava, mas que não deixou, ainda assim, de ter papel preponderante nos triunfos e conquistas de um dos melhores períodos da História do clube nortenho – algo com que talvez nem sonhasse quando, ainda adolescente, envergava briosamente os emblemas de uma série de clubes das divisões amadoras...

30.01.22

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.

Ao folhear a caderneta de cromos oficial do Sporting Clube de Portugal, lançada  a tempo do início da época 1994-95, lá estava ele; um jovem lateral-esquerdo de 19 anos, de sorriso tímido e cabelo até por baixo das orelhas, no então típico penteado 'à jogador da bola'. No topo da página, o nome - Nuno Valente.

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A página de cromos que deu a conhecer Nuno Valente (crédito da imagem: Armazém Leonino)

Foi desta forma inusitada – através de uma não menos inusitada, e nunca mais repetida, caderneta de cromos – que os pequenos 'leões' dos anos 90 tiveram o primeiro contacto com aquele que se viria a tornar um dos maiores laterais-esquerdos portugueses de sempre...ao serviço de um dos clubes rivais daquele que o viu 'nascer' para a bola.

Natural de Lisboa, seria no Norte que Nuno Jorge Pereira da Silva Valente viria a conhecer o sabor do sucesso, já no novo milénio, depois de nos anos 90 ter feito o habitual 'périplo' dos empréstimos comum a tantos jovens futebolistas, ao fim do qual foi dispensado pelo clube onde fizera (quase) toda a sua formação. Em seis anos, foram dois empréstimos – a Portimonense e Marítimo, tendo conseguido estabelecer-se em ambos – e menos de quarenta participações com a camisola do Sporting, nunca tendo, claramente, representado uma opção para qualquer dos diferentes treinadores dos 'leões', apesar da sua valorosa participação na campanha que culminou com a conquista da Taça de Portugal 1994-95.

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Valente passou quase despercebido nas suas seis épocas no Sporting

Assim, foi com naturalidade que, em 1999, os adeptos 'verdes e brancos' o viram sair, em final de contrato, para o União de Leiria - outra presença constante no meio da tabela do campeonato português dos anos 90, à época orientado por um jovem treinador de enorme valor chamado...José Mourinho – e continuar uma carreira que se previa do tipo 'honroso, mas sem brilho'.

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Cromo que mostra Nuno Valente enquanto jogador do Leiria

As coisas não viriam, no entanto, a revelar-se tão previsíveis quanto isso para Nuno Valente; as boas exibições ao serviço do Leiria, onde mais uma vez 'pegou de estaca', permitiram-lhe seguir Mourinho e o colega de equipa Derlei do clube do Lis para o Futebol Clube do Porto, ao qual chegava em 2003 com a chancela de um dos melhores laterais do campeonato.

O resto da história é bem conhecido: participação activa no período hegemónico e imperial do FC Porto na Europa, pedra basilar da Selecção Nacional do período pós-Geração de Ouro, transferência para o Everton, onde continuou a brilhar, e, finalmente, a retirada em alta do futebol profissional, aos 35 anos e com um palmarés invejável, para se tornar olheiro do Everton em Portugal e, mais tarde, treinador. E ainda que essa experiência não tenha corrido tão bem como seria desejável – foram apenas seis meses ao comando do Trofense antes de ser substituído – terá, certamente, sido mais do que aquele jovem de penteado questionável que lutava para se afirmar na equipa do Sporting alguma vez terá sonhado...

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