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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

28.02.22

NOTA: Para celebrar a estreia, esta sexta-feira, do novo filme de Batman, todos os 'posts' desta semana serão dedicados ao Homem-Morcego.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Numa era em que o Universo Marvel gera consensos críticos positivos e bate recordes de bilheteira duas vezes por ano, pode parecer difícil de acreditar que, em tempos, qualquer propriedade intelectual associada aos heróis da Marvel e DC que extravasasse o universo das revistas aos quadradinhos tinha tantas hipóteses de ser razoável como de não corresponder às (baixas) expectativas geradas. E, no entanto, foi precisamente esse o paradigma até à ponta final do século XX, altura em que as produções audio-visuais e multimédia alusivas a super-heróis de banda desenhada conseguiram, finalmente, aringir o nível que os fãs de 'comics' há tanto desejavam; e se, no caso do cinema, a 'viragem' se deu já no dealbar do século XXI, com o na altura considerado excelente 'X-Men', de Bryan Singer, no que toca à animação, o estigma já tinha sido eliminado alguns anos antes, por uma produção não menos icónica, influente ou importante – a série animada de Batman produzida pela Warner Brothers.

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Emitida nos seus EUA natal entre 1993 e 1995, e transmitida em Portugal pela RTP 2, alguns anos mais tarde, a simplesmente intitulada 'Batman: The Animated Series' conseguiu o impensável ao afirmar-se como o primeiro produto audio-visual relacionado com super-heróis a ser bem recebida pela sempre exigente crítica especializada. Muita desta boa-vontade advinha do seu guião cuidado e de qualidade, que não poupava esforços na tentativa de desfazer a má impressão deixada por 'coisas' como 'The Super Friends', a série animada produzida pela DC nos anos 70 e que, desde então, passou a simbolizar tudo o que de errado se passava com a abordagem televisiva ao mundo dos super-poderes.

Talvez tenha sido precisamente essa má reputação a motivar os criadores de 'Batman: The Animated Series' a seguirem na direcção exactamente oposta: às mascotes 'fofinhas', piadas 'secas', histórias politicamente correctas e positividade forçadas do seu antecessor, a nova série respondia com uma Gotham City declaradamente escura e opressiva com toques de 'noir' e 'pulp' (inspirada na criada por Tim Burton na sua interpretação cinematográfica do herói), guiões coesos e que levavam o público-alvo a sério, uma narrativa estruturada e personagens que, grosso modo, se mantinham fiéis às personalidades para eles criadas, ao longo das décadas, pelas diversas equipas criativas encarregadas de trabalhar na BD. Bruce Wayne, Dick Grayson, o mordomo Alfred, o comissário Gordon e a sua filha Barbara eram precisamente as mesmas pessoas que os leitores conheciam da BD, o mesmo se passando com a clássica galeria de vilões do Morcego, da qual todos os principais nomes marcavam presença, acrescidos de algumas novas adições – entre elas uma personagem tão bem sucedida que viria a fazer o percurso inverso, transitando do ecrã onde nascera para as páginas dos 'comics', e daí para o grande ecrã. O seu nome? Harley Quinn.

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Sim, foi aqui que nasceu a hoje idolatrada parceira profissional e (por vezes) amorosa do Joker, uma criação do argumentista Paul Dini com trabalho vocal a cargo da mulher deste, Arleen Sorkin, cuja interpretação teve um papel fulcral no sucesso obtido pela personagem, e ajudou a moldar e definir de forma permanente a sua personalidade. Ainda longe da loucura sensual de Margot Robbie, a Harley Quinn de Sorkin pauta-se pela sua personalidade exageradamente extrovertida, animada, 'desbocada' e hiperactiva, bem como pelos toques masoquistas e psicóticos e paixão assolapada pelo seu chefe (aqui, ao contrário do que acontece na versão cinematográfica, não correspondida) que partilha com a revisão posterior de Robbie; é, precisamente, esta complexidade dicotómica que transforma aquilo que poderia ser apenas a habitual personagem cómica vagamente irritante, dirigida às crianças, numa das mais populares criações de sempre da DC, e presença, hoje, quase que excessivamente constante no seu universo mediático.

Foi exactamente esta mentalidade – extensível também aos outros personagens da série – que ajudou a fazer de 'Batman: The Animated Series' um dos programas mais importantes de sempre, não só para a causa dos super-heróis nos 'mass media', como também para o próprio panorama da animação nos anos 90; isto porque o sucesso da série não só ajudou a lançar todo um universo animado da DC, sempre encabeçado pelos criadores Paul Dini e Bruce Timm, como também inspirou muitas criações posteriores a seguirem o seu exemplo, contribuindo assim para alterar positivamente o paradigma das séries de aventuras para crianças; por outras palavras, se a geração seguinte teve muitos e bons programas deste género por onde escolher, ao 'Batman' dos anos 90 o deve.

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Um desses programas foi, precisamente, uma espécie de 'sequela' para a série original, intitulada 'Batman do Futuro' (no original, 'Batman Beyond') e que seguia as aventuras do sucessor de Bruce Wayne no fato do Homem-Mercego. Apesar de estreada originalmente em 1999, no entanto, essa série apenas chegaria a Portugal já no século XXI, ficando assim fora do âmbito deste blog; ficamo-nos, por isso, pela original – que, convenhamos, está longe de ser a pior maneira de abrir uma semana de homenagem ao Homem-Morcego...

27.02.22

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.

Em geral, a carreira de um jogador português de sucesso segue um percurso determinado: 'descoberta' num qualquer clube regional, formação num 'grande', um ou outro empréstimo, eventual afirmação nesse mesmo 'grande' ou num dos diversos emblemas históricos de estatura ligeiramente menor que estes (como Braga, Guimarães ou Marítimo) e, potencialmente, uma saída para um clube estrangeiro, normalmente já depois de esse mesmo jogador ter captado a atenção dos adeptos e, muitas vezes, dos seleccionadores nacionais dos diversos escalões.

No entanto, apesar de comum, esta fórmula não é imutável; muito pontualmente, aparece um jogador que se desvia desta norma, sem por isso deixar de conseguir fazer um percurso de sucesso dentro da sua profissão de eleição. É precisamente esse o caso do homem de quem falamos hoje, um jogador cujos feitos são por demais conhecidos – bateu, por exemplo, o recorde de Eusébio de golos internacionais por Portugal, que manteve até Cristiano Ronaldo o superar, e foi o primeiro português a marcar em duas fases finais de Mundiais – e que se afirmou como uma das mais importantes figuras da turma das Quinas da fase pós-Geração de Ouro...sem nunca ter jogado ao mais alto nível em Portugal.

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De facto, aquando da sua primeira chamada à Selecção (para um jogo contra a Arménia, em 1997) Pedro Miguel Carreiro Resendes – conhecido para o futebol pela alcunha que atravessou gerações na sua família, Pauleta – jogava já no Salamanca, aonde chegara vindo directamente da Segunda Divisão de Honra portuguesa, onde chamara a atenção dos espanhóis enquanto goleador dos 'canarinhos' do Estoril. Nessa época (apenas a sua segunda enquanto jogador profissional), Pauleta apontara uns estonteantes dezoito golos em 29 partidas, demonstrando a veia finalizadora que, mais tarde, viria a pôr não só ao serviço da Selecção Nacional, como também de emblemas bem maiores.

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O Estoril da época 1996-97

Antes da fama e glória internacional ao serviço do Salamanca, La Coruña, Bordéus e Paris Saint-Germain, e da humilde 'reforma' no minúsculo São Roque, no entanto (antes mesmo da época de revelação no Estoril) já Pauleta vinha demonstrando o seu 'faro' de golo ao serviço de emblemas dos seus Açores natais, primeiro como amador ao serviço do Santa Clara (ainda longe da estatura de que goza hoje em dia), Operário e Angrense, e mais tarde no União Micaelense, emblema com quem assinou o primeiro contrato profissional e por quem viria a contribuir com onze golos em 23 partidas, nos primeiros passos do que viria a ser uma carreira lendária. Para trás ficava, ainda, um breve período como formando no FC Porto, por quem assinara no seu último ano de júnior, antes de as saudades de casa o levarem de volta às ilhas – uma circunstância que não deixa de fazer pensar como teria sido a carreira do goleador português se tivesse despontado a Norte, e num dos maiores clubes lusitanos, em vez de no contexto insular e de divisões inferiores em que na verdade se revelou.

Tal como se desenrolou, no entanto, a carreira do 'Milhafre dos Açores' continua a afirmar-se como talvez a mais inusitada de sempre para um jogador de Selecção, e a colocá-lo em lugar de destaque no panteão dos craques de verde e vermelho vestidos; nada mau para um açoriano que nunca chegou a jogar na Primeira Divisão nacional...

26.02.22

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.

Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos e acessórios de exterior disponíveis naquela década.

Sim, leram bem – o 'post' de hoje é uma combinação estilo '2-em-1' dos nossos dois tipos de posts de Sábado. Isto porque a festa que se celebra deste fim-de-semana até à próxima quarta-feira – o Carnaval – envolve tanto Saídas (para que o Mundo possa ver a nossa bela fatiota de máscara) e Saltos (ou não fosse esta, em anos 'normais', uma semana de férias da escola, em que o tempo parece interminável.) Falemos, pois, do modo característico como esta festa era celebrada em Portugal nos anos 90, e de tudo aquilo que, em criança, lhe tendia a estar associado.

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E começamos, precisamente, pelo factor mais comummente associado ao Carnaval – as máscaras. Enquanto que hoje estas se cingem quase exclusivamente a propriedades intelectuais populares – não se pode ser 'apenas' uma princesa, tem de se ser uma princesa DISNEY, de preferência a Elsa – nos anos 90, havia ainda uma mistura saudável entre este tipo de fatos (com destaque para as Tartarugas Ninja, Homem-Aranha, Super-Homem e Power Rangers) e os mais 'clássicos' disfarces de cowboy, princesa, palhaço, monstro, ou o que mais se conseguisse imaginar sem ter que gastar muito dinheiro.

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O disfarce de Tartaruga Ninja era um dos mais populares nos anos 90

No entanto, mesmo com esta vasta gama de disfarces à disposição, havia um que suplantava todos os outros, senão em popularidade, pelo menos em frequência: o de Zorro. Não havia, à época, praticamente nenhum Carnaval em que não se vissem pelo menos uns dois ou três Zorros, fosse na rua, na escola ou no clube desportivo. A popularidade do herói mascarado era tão indisputável quanto inexplicável, já que o mesmo estava ainda a alguns anos do seu 'renascimento' às mãos de Antonio Banderas, e era apenas vagamente conhecido da maioria das crianças; a verdade, no entanto, é que – vá-se lá saber porquê... - a sua característica roupagem era mesmo uma das escolhas mais populares no que tocava a fatos de máscara.

Os fatos completos não eram, no entanto, a única opção no tocante a disfarces de Carnaval; pelo contrário, a maioria das crianças via-se mesmo restrita às chamadas 'caraças', aquelas máscaras de cara completa, com elástico, que se podiam comprar em qualquer drogaria, loja de brinquedos ou até dos trezentos, por um preço relativamente acessível – o que ajudava, talvez, a explicar a popularidade. Curiosamente, estas máscaras eram perfeitamente bem aceites entre o normalmente hiper-crítico público infantil, e embora um fato fosse mais admirado e invejado, a criança que se disfarçava apenas com uma máscara não seria alvo da chacota dos colegas, como se poderia talvez pensar, tornando-as uma boa alternativa para quem tinha menos dinheiro.

Nem só de máscaras e disfarces, no entanto, vivia o Carnaval – e, aqui, há que falar da enorme panóplia de acessórios associados à celebração desta festa pelas crianças e jovens, que ajudava a dar vigência à expressão 'BRINCAR ao Carnaval'. À época, a gama de diversões de Carnaval ia das mais inócuas - como as serpentinas que se penduravam das grades da janela ou varanda e que acabavam invariavelmente na rua, a dar trabalho aos lixeiros – às irritantes (como os martelinhos, as pistolas de água ou os balões de água atirados de andares altos para quem passava cá em baixo) ou activamente perigosas, como os inenarráveis estalinhos ou as sempre populares pistolas de fulminantes. Alguns destes acessórios tinham uma ligação mais óbvia ao Carnaval que outros, mas a verdade é que todos eles fizeram parte da infância de qualquer português que tenha celebrado esta festa nos anos 90 – senão a título próprio, pelo menos manuseados por alguém nas proximidades.

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Alguns dos mais populares brinquedos do Carnaval português dos anos 90

No cômputo geral, todos estes elementos – as máscaras, as partidas, os brinquedos, até mesmo as férias da escola - contribuíam para moldar a experiência do Carnaval português dos anos 90; e embora, hoje, as regras mais apertadas de segurança tenham tornado esta festa significativamente diferente, quem a viveu nos anos 90 certamente nunca vai esquecer as emoções, sensações e brincadeiras daquela última semana de Fevereiro. Feliz Carnaval!

25.02.22

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Nas Olimpíadas de Inverno de 1988, disputadas em Calgary, no Canadá, uma equipa de um país totalmente improvável protagonizou uma daquelas histórias de 'sangue, suor, lágrimas e triunfo' que normalmente só se vêem nos filmes; cinco anos depois, essa mesma história teve direito ao inevitável tratamento 'Hollywoodesco', que transformava a saga puramente 'underdog' da equipa jamaicana de 'bobsledding' (e que estranho é pensar que algo assim existiu MESMO, e não apenas na mente de um argumentista sob o efeito de drogas) numa daquelas comédias infantis coloridas e barulhentas típicas dessa época do cinema infantil. O que talvez não fosse de esperar seria que dessa manobra potencialmente cínica resultasse um filme que (no fim-de-semana em que se celebram exactos vinte e oito anos da sua estreia em Portugal, a 26 de Fevereiro de 1994) continua a ser um dos melhores representantes do seu estilo de cinema, e a agregar novos fãs a cada geração.

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Vendo bem as coisas, talvez isso não seja assim TÃO surpreendente – afinal, 'Jamaica Abaixo de Zero' (o horrendo título lusófono para 'Cool Runnings', o filme de que aqui se fala) teve a chancela da Walt Disney Pictures, ela que já havia sido responsável, um ano antes, por outro clássico do género, 'A Hora dos Campeões' (no original, 'The Mighty Ducks'), cuja sequela, lançada um ano depois de 'Cool Runnings', continua ainda hoje, a constituir o 'standard' máximo para as comédias desportivas infanto-juvenis. Uma companhia que percebia da 'poda', portanto, e que utilizou as suas décadas de experiência no ramo do cinema para crianças para assegurar que o filme sobre os jamaicanos a andar de trenó obedecia aos seus padrões de qualidade.- uma missão que não se pode considerar nada menos do que um retumbante sucesso.

De facto, 'Jamaica Abaixo de Zero' é aquele raro filme que consegue ter piada sem sacrificar o âmago da história – no caso, a luta dos quatro protagonistas (jamaicanos, mas interpretados por quatro actores nova-iorquinos...) para conseguirem a 'missão impossível' de qualificar pela primeira vez o seu país para as Olimpíadas de Inverno, com a ajuda de um treinador caído em desgraça, interpretado pelo malogrado John Candy.

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Os quatro protagonistas do filme

Um enredo que facilmente seria transformável numa sucessão de quedas supostamente 'humorísticas', mas que na verdade, deriva muito do seu humor e momentos mais memoráveis das interacções entre os personagens, cinco personalidades muito diferentes (e, por vezes, diametralmente opostas) que se vêem forçados a aprender a conviver em prol do bem comum; sim, há algumas quedas (a esmagadoria maioria protagonizadas pelo personagem de Doug E. Doug, Sanka Coffie, suscitando, inevitavelmente, o memorável bordão 'Sanka, morreste?') mas mesmo essas são bem contextualizadas pelos treinos e dificuldades da equipa em se adaptar a um desporto totalmente novo, nunca parecendo gratuitas ou forçadas.

E depois, claro, há o final, em que a Disney, numa atitude de louvar, decidiu preservar a verdade dos factos, em vez de optar pelo tradicional final feliz, que retiraria algum do impacto; tal como acaba, o filme suscita uma mistura de sentimentos perfeitamente deliciosa, que dificilmente se esperaria de um filme deste tipo. Um dos poucos casos em que o eterno 'cliché' do aplauso lento que vai aumentando de intensidade é bem merecido.

Grande parte destas decisões talvez derivem do facto de, na sua génese, 'Jamaica Abaixo de Zero' ter sido pensado como um filme totalmente sério, uma autobiografia ficcionada daquela equipa heróica, cuja história superava qualquer guião. Dificuldades na criação desta versão do filme ditaram, no entanto, a mudança de tom e toada, e a verdade é que – como sucederia com 'Pacha e o Imperador', do mesmo estúdio, alguns anos mais tarde – o filme não ficou a perder; antes pelo contrário, 'Cool Runnings' continua (conforme mencionado no início deste texto) a ser muitíssimo bem cotado por membros da 'geração X' e seguintes, tendo sobrevivido às enormes mudanças vividas pelo mundo do cinema nos últimos trinta anos. Como a equipa que retrata, o filme afirma-se como um 'sobrevivente', conseguindo manter-se à tona de sucessivas 'mudanças de maré', como que desafiando a que alguém pergunte: 'filme, morreste?', para que possa triunfalmente responder 'ná, meu...'

24.02.22

Todas as crianças gostam de comer (desde que não seja peixe nem vegetais), e os anos 90 foram uma das melhores épocas para se crescer no que toca a comidas apelativas para crianças e jovens. Em quintas-feiras alternadas, recordamos aqui alguns dos mais memoráveis ‘snacks’ daquela época.

Hoje em dia, a prática de fumar tabaco é activamente desencorajada na grande maioria da sociedade ocidental, com medidas cada vez mais restritivas e alternativas cada vez mais viáveis a serem implementadas como forma de reduzir o número de afectados por este vício. No século passado, no entanto, não era exactamente este o paradigma; pelo contrário, até à última década do Segundo Milénio, o tabaco era uitas vezes visto como um símbolo de 'status' social, tanto por alguns adultos, como pela maioria das crianças e jovens - o que, em perspectiva, torna os esforços para erradicar esta substância da vida quotidiana das mesmas nada menos do que louváveis.

A não ajudar nada a este 'estado da arte' estava um produto bastante popular entre o público mais jovem, e que, pela sua natureza, se tornou naturalmente um dos primeiros e mais óbvios 'alvos' da guerra ao tabaco: os cigarros de chocolate.

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Muitas vezes com caixas a fazer lembrar (ou mesmo a imitar quase integralmente) os maços que os pais da demografia-alvo traziam no bolso, estes doces – que não faziam parte da categoria dos que se tinham em casa em permanência, sendo sobretudo um complemento a ocasiões especiais, como idas ao estádio para ver o futebol – revelavam também grande atenção ao detalhe no tocante ao interior do próprio pacote; isto porque não só o número de rolinhos de chocolate dentro do mesmo era mais ou menos equivalente ao número de cigarros num maço, mas cada um deles se encontrava envolto numa folha de papel de seda, que (pelo menos à primeira vista) criava um efeito muito semelhante ao da mortalha de um cigarro de verdade, Quando combinados com as caixas também bastante cuidadas, estes elementos ajudavam a criar uma ilusão que, embora na prática desfeita assim que o 'cigarro' era desembrulhado e se transformava 'apenas' em chocolate, permanecia na imaginação das crianças durante o tempo suficiente para se acabar de comer os doces em causa – ou antes, de os segurar entre os dedos e fingir tirar 'bafos', que eventualmente se transformavam em trincas.

Este aspecto – o de constituir não só um doce, como também um veículo para uma brincadeira de 'faz-de-conta' – era mesmo o principal atractivo dos cigarros de chocolate, cujo gosto, por si só, nunca os teria tornado tão populares como o foram. De facto, embora muitas vezes comercializados por companhias de renome na indústria do chocolate – como a francesa Jacquot ou a brasileira Garoto – aqueles rolinhos tinham um gosto muito característico, que só quem comeu saberá evocar; a consistência era, ao mesmo tempo, crocante e arenosa (quase como a de um salame de chocolate, por exemplo) enquanto o paladar ficava marcado pelo excesso desnecessário de açúcar, ficando ao nível daqueles 'sucedâneos' de chocolate vendidos em barra, e também bastante populares à época. Enfim, um chocolate 'barato' (objectivamente, nem ao nível daqueles chocolates em forma de bolas de Natal chegava) que alicerçava toda a sua estratégia de 'marketing' e vendas no aspecto e abordagem diferenciados – os quais, felizmente, acabavam por resultar favoravelmente.

Hoje em dia - e apesar de uma caixa de cigarros de chocolate não ser avistada numa prateleira de café ou supermercado há pelo menos um quarto de século – estes doces podem ainda ser adquiridos nessa 'caixinha de tesouros' e surpresas chamada Internet; no entanto, com a 'mística' em torno do tabaco drasticamente diminuída pelas medidas referidas no início deste texto (e a pouca qualidade do produto em si) é de duvidar que os mesmos voltem a ser populares entre o público jovem, como o foram no início dos anos 90. Posts como este, e outros facilmente acessíveis mediante uma rápida pesquisa, provam que o valor dos cigarros de chocolate é, hoje em dia, puramente nostálgico - e ainda bem, já que existem nos escaparates opções bem melhores pelas quais arriscar cáries e quilos a mais...

23.02.22

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog...

...como é o caso dos carros.

Apesar de a maioria dos leitores deste blog não ter ainda, nos anos 90, idade para conduzir, os carros não deixavam, ainda assim, de exercer um certo fascínio sobre muitos dos membro daquela geração, sobretudo os do sexo masculino. E ainda que muita da atenção fosse, obviamente, para os supercarros desportivos ou de Fórmula 1, houve, em 1993, um pequeno e humilde veículo que se conseguiu intrometer por entre os 'monstros' de alta cilindrada, e cativar muitos jovens pela razão precisamente inversa: por parecer, praticamente, uma versão real dos carros eléctricos ou carrinhos de brincar com que muitos deles haviam crescido.

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Como muitos miúdos imaginavam que seria conduzir, ou ser passageiro, num destes veículos

Falamos do Renault Twingo – nome derivado da junção dos nomes de três danças, Twist, Swing e Tango - que, apesar de hoje ser 'apenas' mais um carro igual a tantos outros, marcou verdadeiramente época aquando do seu lançamento, e terá potencialmente servido de inspiração para o surgimento, uma ou duas décadas mais tarde, do popular Smart, seu 'sucessor espiritual' na categoria dos carros que parecem 'de brincar'.

As semelhanças entre os dois não se ficam, aliás, pelo aspecto: tal como o Smart, o Twingo pretendia ser um carro para quem não gostava de carros, na sua acepção convencional, e preferia ser visto ao volante de algo que ficava a meio caminho entre uma criação de desenho animado e os referidos veículos eléctricos para crianças pequenas. Tendo na forma arredondada a sua principal característica visual, e disponível numa série de cores vivas (sendo a mais comum à época o roxo, retratado na imagem acima) o Twingo parecia quase ter sido feito com as crianças e jovens em mente, não sendo, de todo, de estranhar, que muitos desejassem tê-lo como carro familiar; afinal, se algum veículo alguma vez se pôde apelidar de 'fofo', foi definitivamente o Twingo.

Não era, no entanto, apenas o aspecto deste carro que apelava a um público mais jovem e aos iniciantes da condução; a própria potência do carro, cujas pequenas dimensões requeriam um motor de baixa cilindrada, impedia grandes 'aventuras', tornando este veículo ideal para principiantes, como primeiro carro, apenas para 'dar umas voltas' – algo que se tornaria ainda mais evidente com o lançamento da variante semiautomática Easy, que permitia a condução sem o pedal de embraiagem, um dos principais pontos fracos de quem ainda tem pouca experiência.

Daí em diante, seriam inúmeras as 'edições especiais', alterações, adições e revisões ao modelo inicial, que seria acrescido de aspectos tão indispensáveis como air-bags, novos faróis e pára-choques e motores mais potentes, além de extras mais supérfluos, como interiores em pele e rádio com CD (ambos exclusivos à edição especial Initiale Paris, de 1998.) Aquele carro que empatara com o Citroen Xania como Carro do Ano em Espanha, em 1994, e que conquistara os corações de tantos jovens no país vizinho, tornava-se cada vez melhor e mais seguro – mas, infelizmente, também cada vez mais um carro normal.

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Um Twingo moderno

De facto, as sucessivas revisões fizeram tanto para melhorar o Twingo como para lhe retirar alguma da 'magia' e novidade que o seu modelo inicial conseguira implementar – a qual, mais tarde, o Smart viria a utilizar para se estabelecer no mercado. Hoje em dia, o Twingo já nem sequer se pode gabar de ser, precisamente, um carro 'pequeno', especialmente comparado com modelos como o Lancia Y (na altura, um dos seus principais competidores), Fiat Cinquecento e Seicento, Mini, ou os próprios Smart; ainda assim, quem assistiu ao aparecimento daquele carro 'da Carochinha', e desejou ardentemente ter um, certamente concordará que, no que toca a carros 'normais' de todos os dias, o Twingo talvez tenha mesmo sido dos mais originais e marcantes a surgir em toda a década de 90...

22.02.22

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Depois de há duas semanas termos falado dos dois LP's de músicas alusivas ao programa Arca de Noé (e, devido a uma mudança de planos de última hora, termos tido de adiar o presente post outro tanto) chega finalmente a altura de falarmos de um dos mais populares concursos, e programas infantis em geral, da primeira metade dos anos 90. E porque só há uma maneira de introduzir um artigo sobre este programa, comecemos, desde já, da maneira correcta – com o absolutamente lendário tema de abertura, um dos melhores de sempre da televisão portuguesa, e que qualquer criança ou jovem da época ainda será capaz de cantar quase de cor (e cuja letra, saliente-se, também servia na perfeição como insulto de recreio...)

Quem resistir a cantar isto, é mais forte do que nós...

Ultrapassada esta inevitável formalidade, falemos agora do concurso propriamente dito. Estreado logo no dealbar da década, e transmitido primeiro na RTP2 e, mais tarde, no então Canal 1, 'Arca de Noé´ adaptava um formato japonês, criado duas décadas antes, e que rapidamente atingiu sucesso mundial. Gravado no antigo Cinema Europa, em Lisboa, o programa tinha por base um formato muito simples e com uma estrutura clássica: quatro concorrentes – dos quais um era sempre uma figura pública - eram sujeitos a várias rondas de perguntas sobre animais, a maioria das quais baseadas num apoio visual, normalmente um vídeo pausado na altura certa, tendo os concorrentes que adivinhar qual o comportamento que o animal em causa adoptaria a seguir. O concorrente que mais perguntas acertasse ganharia o grande prémio de 250.000 escudos (cerca de 1250 euros), sendo que se o vencedor fosse a figura pública convidada, este valor reverteria na totalidade para uma instituição de apoio aos animais ou à vida selvagem (na verdade, a maioria dos participantes doava parte da sua bolsa a uma entidade deste âmbito, quase sempre o Jardim Zoológico de Lisboa.) Para além do conflito central, o programa ficava também marcado por segmentos de entrevista a tratadores e especialistas em animais (normalmente acompanhados dos mesmos, para gáudio das crianças em estúdio e a assistir em casa) e números musicais, interpretados ao vivo pelo responsável pela música do programa (e também favorito das crianças), Carlos Alberto Moniz, ou por um convidado especial.

Deste formato, adoptado durante as primeiras três temporadas do programa, é quase sinónima a carismática apresentação de Fialho Gouveia, um daqueles anfitriões da velha escola que sabia falar a um público jovem sem nunca ser condescendente – uma qualidade que partilhava com outras 'lendas' infanto-juvenis da época, como Júlio Isidro, ou o próprio Moniz, o qual viria, mais tarde, a tomar o seu lugar para a última temporada do programa. A seu lado, a também icónica e carismática Maria Arlene, a tradicional assistente comum a tantos concursos da mesma época, e que neste caso era responsável por marcar a pontuação dos concorrentes com bonecos das mascotes do programa – primeiro o Vitinho, da Milupa, e mais tarde os Orelhudos, então 'caras' dos iogurtes Mimosa.

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Os carismáticos anfitriões (e mascote) do programa

Foi assim até 1994, ano em que teria lugar uma mudança de formato, assinalada também por uma mudança na apresentação, que passava a caber a uma mulher, Ana do Carmo; nesta nova fase, os concorrentes eram três pares de um adulto e uma criança, já sem a presença de quaisquer figuras públicas, mantendo-se as regras e o restante ambiente basicamente inalterados. Já a quinta e última temporada era palco de nova mudança, com o programa a render-se finalmente e totalmente ao seu público-alvo: o cenário 'infantilizava-se', com cores mais vibrantes e adereços a imitar um barco (ou Arca), as equipas passavam a ser constituídas exclusivamente por crianças entre os 8 e os 12 anos, e a apresentação ficava a cargo de Carlos Alberto Moniz, que acumulava assim funções e se tornava a figura central do programa, apenas alguns meses antes de 'emigrar' para uma 'Casa' nos arredores de Lisboa, onde continuaria a conquistar o coração das crianças durante mais alguns anos.

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Uma emissão com Ana do Carmo como apresentadora

Quando saiu finalmente do ar, em Setembro de 1995, a 'Arca de Noé' havia marcado toda uma geração de crianças portuguesas, sendo parcial ou totalmente responsável pelo interesse generalizado que a miudagem da época desenvolveu por animais. E com bom motivo – o programa soube pegar num tema que, já de si, interessava ao seu público-alvo, e introduzi-lo num contexto igualmente apelativo para essa demografia (o da competição televisiva) criando uma receita praticamente perfeita para um programa de televisão infanto-juvenil, que, até hoje (mais de trinta anos após a estreia do concurso) poucas outras propostas souberam igualar, e ainda menos superar. E, convenhamos, AQUELE tema de abertura também ajudava.... 'VAMOS FAZER AMIIIIGOS, ENTRE OS A-NI-MAAAIS...!'

21.02.22

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

A música cómica ou humorística constituía, nos anos 90, um dos principais géneros na cena 'mainstream' portuguesa. Normalmente considerada mais 'de nicho', esta categoria de produção musical viveu, durante a referida década, um crescimento quase tão rápido como o 'pimba' ou o pop-rock, os dois principais géneros em que se tendia a inserir. Dos veteranos e pioneiros Ena Pá 2000 a artistas como os Mercurioucromos, José Figueiras e Fúria do Açúcar, passando por 'humoristas acidentais' como Zé Cabra, e mesmo algumas importações lusófonas, como Salsicha e Mário Jorge ou os Mamonas Assassinas, eram muitos os artistas que procuravam, de alguma forma, atingir o sucesso através da paródia mais ou menos explícita, parecendo, a dada altura, que não passava um Verão sem que mais uma destas músicas invadisse os 'tops' nacionais.

Nesse aspecto, o Verão de 1995 não foi excepção, tendo o inevitável 'hit' cómico desse ano pertencido a uns tais de Lunáticos, hoje um dos mais esquecidos (e, simultaneamente, puros e duros) 'one-hit wonders' do pop noventista português.

Apesar de o referido único hit, 'Estou na Lua' (porque eles eram Os Lunáticos, percebem?) ter posto crianças e jovens de Norte a Sul do País a cantar letras muito pouco próprias para a sua idade – à semelhança do que, na mesma altura, fariam os brasileiros Mamonas Assassinas – hoje em dia, é praticamente impossível encontrar informações sobre o pseudo-grupo centrado em torno do teclista e DJ leiriense Alex Santos.

E dizemos 'pseudo' porque, além do referido fundador (também produtor do material gravado) os únicos outros integrantes do grupo eram dois vocalistas, Miguel Dionísio e Manuel Pereira; os restante sons e instrumentos que se ouviam eram puramente sintetizados, numa manobra bem típica de certo pop da altura (e, verdade seja dita, ainda de hoje em dia) no qual estes Lunáticos se inserem.

Efectivamente, o som do 'grupo', pelo menos na sua música mais conhecida, salda-se naquele 'popzinho' leve e sem grandes pretensões artísticas, fadado a passar cem vezes por dia na rádio, a ser cantado na TV por futuras estrelas do 'stand-up' português, à laia de 'inside joke' e a suscitar cantorias do banco traseiro sempre que toca no carro a caminho da escola; e, nesse contexto, 'Estou na Lua' resulta maravilhosamente, sendo que há, ainda hoje, toda uma geração de portugueses que consegue cantar 'de cor' o refrão do tema, sem maiores 'ajudas' do que uma menção do título. Se ouvido na idade certa, este era daqueles temas que se entranhava nas sinapses, e lá ficava, adormecido, à espera de ser recordado – e cantarolado – a propósito de nada, literalmente décadas depois.

Infelizmente, o restante material dos Lunáticos não surtiu o mesmo efeito; se a relação entre o nome da música e da banda não for indicação suficiente (parece uma daquelas situações em que um grupo consegue que uma música 'estoure' sem sequer ter ainda nome, e tem que arranjar à pressa um que os associe ao seu tema-estandarte) os Lunáticos não pareciam, propriamente, ser um projecto a longo prazo, ou sequer destinado a passar de um único 'single'. Ainda assim, a crer no Google, o colectivo conseguiu, ainda, lançar quatro discos, dos quais o óbvio destaque vai para 'Muito À Frente', de onde é retirado o tema que os tornou, no Verão de 1995, um dos maiores fenómenos da música feita em Portugal.

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Capa de 'Não É Fácil', o profeticamente intitulado segundo álbum do grupo

Curiosamente, numa altura em que as vendas de música se contabilizam por temas individuais mais do que por álbuns, é difícil não pensar em como os Os Lunáticos poderiam ter beneficiado deste sistema, que lhes permitia ser um 'one-hit wonder' declarado, e manteria a sua música na consciência popular por um período mais alargado; no entanto, o som datado e meio 'fatela' do grupo assegura que o mesmo fique confinado apenas aos anos 90 – pelo menos até algum revivalista da nossa geração se lembrar de tentar trazer a música 'de volta', talvez num qualquer vídeo de TikTok, e puser mais uma geração de pré-adolescentes a cantar sobre mulheres nuinhas só com véu...

20.02.22

Ser criança é gostar de se divertir, e por isso, em Domingos alternados, o Anos 90 relembra algumas das diversões que não cabem em qualquer outra rubrica deste blog.

No vocabulário de hoje em dia, a expressão 'jogo de tabuleiro' evoca imagens de jovens reunidos numa qualquer loja de cave, em torno de uma mesa apinhada de miniaturas de Warhammer 40.000 ou algum outro jogo semelhante, Nos anos 90, no entanto, esse termo tinha conotações bem mais simples, muitas das quais se vêm rapidamente perdendo; nada melhor, portanto, do que dedicar um post a preservar a memória daquela que foi uma das épocas áureas dos jogos de mesa para toda a família,

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De facto, quem queria passar uma tarde chuvosa a divertir-se em família tinha, entre os anos 80 e o início do novo milénio, uma panóplia de opções à escolha, de clássicos intemporais como o Monopólio (um dos poucos a sobreviver à transição para a era digital), o Trivial Pursuit, o Jogo da Glória, o Jogo do Ganso ou o Ludo, até jogos mais elaborados e ilustrativos do momento cultural de finais do século XX, como o eterno e lendário Quem É Quem (hoje ainda no mercado, mas praticamente irreconhecível), o Labirinto Mágico, o excelente Piloto Piruetas, ou ainda títulos criados especificamente para facturar com a ligação a uma qualquer propriedade intelectual popular, como o algo peculiar jogo da série Dinossauros.

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Sim, isto existia.

Os esforços, durante estes anos, de companhias como a nacional Majora ou a internacionalmente famosa MB (distribuída no nosso país pela inevitável Concentra) garantiam a diversão de famílias de Norte a Sul do País, e era raro o aniversário ou, principalmente, Natal que não contasse pelo menos um destes jogos entre a sua selecção de presentes.

Como tudo, no entanto, também os jogos de tabuleiro foram obrigados a adaptar-se com o passar do tempo, a fim de conseguirem fazer frente às muitas alternativas digitais que a era informática trouxe – especialmente dado que, graças à Internet 2.0, era agora possível jogar, não apenas com a família em torno da mesa da sala, mas com milhões de outros seres humanos, espalhados pelos quatro cantos do globo. Assim, não foi de todo surpreendente ver desaparecer a grande maioria dos jogos tradicionais de tabuleiro – hoje em dia, muitos dos exemplos deste tipo de jogo disponíveis nas lojas são de cariz mais educativo, sendo o seu público-alvo, precisamente, quem procura uma alternativa aos Candy Crush e Roblox – e os restantes adaptarem-se ao que as novas gerações procuravam (actualmente, são poucas as edições do Monopólio ou Trivial Pursuit que NÃO são alusivas a qualquer tipo de instituição ou tema.)

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Exemplo de uma edição moderna, temática, do clássico Trivial Pursuit

No entanto, apesar destes poucos títulos continuarem, qual aldeia gaulesa do Astérix, a resistir ainda e sempre ao invasor, é justo dizer que a era dos jogos de tabuleiro clássicos como meio de preencher 'tempos mortos' na companhia de familiares e amigos havia, infelizmente, passado; mas é também justo teorizar que, numa altura em que a geração que viveu essa mesma era se vem tornando responsável pela seguinte, é possível que haja um esforço de sensibilização da mesma para as diversões que entretinham os seus pais em fins-de-semana preguiçosos de Inverno. Se a mesma surtirá algum tipo de efeito, há que esperar para ver: mas, como sucede com a maioria dos produtos do 'nosso tempo' de que aqui falamos, a perspectiva de uma 'era Renascentista' dos jogos de tabuleiro não é, de todo, descabida...

19.02.22

Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos e acessórios de exterior disponíveis naquela década.

Os anos 90 foram pródigos em 'febres' no que toca a brincadeiras de exterior. De várias delas, já aqui falámos, como foi o caso com as bicicletas BMX, o skate, os patins em linha ou o 'diabolo'; no entanto, existiu durante essa década outra moda que, embora mais discreta e menos declaradamente 'datada' do que as acima mencionadas, não deixa de estar ligada ao período em causa: o pingue-pongue.

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O 'kit' essencial do entusiasta de pingue-pongue dos anos 90

Sim, os anos 90 foram a época em que muitas crianças e jovens de Norte a Sul de Portugal descobriram a beleza desse jogo simples, mas que se pode tornar estupidamente competitivo, chamado ténis de mesa – e em que, encorajados pela difusão em larga escala dos acessórios necessários, se dedicaram à prática do mesmo, sobretudo nos intervalos das aulas. Aproveitando o facto de a maioria das escolas básicas e secundárias do País terem qualquer tipo de instalação ou equipamento para a prática do pingue-pongue, os referidos jovens (na sua maioria, do sexo masculino) trataram de adicionar uma ou duas raquetes e outras tantas bolas à sua lista de 'materiais indispensáveis' a colocar na mochila todas as manhãs.

Escusado será dizer que, como acontece com a maioria dos outros produtos de que aqui falamos, também as raquetes de pingue-pongue tinham a sua 'hierarquia' própria, havendo uma linha qualitativa definida entre as compradas nas lojas de desporto (mais pesadas, e com revestimento normalmente liso de um dos lados) e as disponíveis nas comuns lojas de brinquedos, ou até dos 'trezentos' (as quais eram significativamente mais leves, e tinham um revestimento rugoso em ambas as faces.) No entanto, sendo essas diferenças menos imediatamente aparentes do que em outros casos, tendia a não haver tanto o estigma do 'falso' entre os praticantes de pingue-pongue – até porque, melhores ou piores, todas as raquetes sofriam o mesmo fim, acabando invariavelmente desprovidas de 'capas' em pelo menos um dos lados, e provavelmente com a capa do outro já a 'pingar', a ameaçar destino idêntico dentro em breve. Não, no jogo de pingue-pongue, o facto de se ter ou não uma raquete de qualidade apenas afectava o próprio jogador, já que quanto mais pesada a raquete, mais precisão se conseguia ter no contacto com a bola.

E por falar em bolas, também estas variavam em qualidade, embora não tanto como as raquetes. As universalmente consideradas melhores entre a juventude da época eram cor-de-laranja vivo, enquanto que, entre as brancas, a qualidade era determinada pelo peso e pela facilidade com que 'amolgavam' (e se prestavam às subsequentes tentativas de 'desamolgar'.); ainda assim, por muita qualidade que as suas bolas de pingue-pongue tivessem, o jogador médio podia esperar perder, pelo menos, uma por semana, dependendo da frequência com que disputasse partidas.

Como a maioria das modas de que falamos nestas páginas, também a febre do pingue-pongue acabou por passar, ainda que este desporto continue a ser um passatempo extremamente popular nos intervalos das aulas, sobretudo entre crianças de uma certa idade; quem viveu a 'época áurea' nos anos 90, no entanto, e se recordar das multidões de 'mirones' que uma partida bem disputada atraía, certamente concordará que – ao contrário do imortal futebol de recreio e de rua – o ténis de mesa já não é o que foi durante esses anos...

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