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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

31.12.21

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Cada década, desde o início do cinema moderno, tem tido uma série de filmes (quer populares, quer de culto) que se destacam acima dos demais, transcendendo o seu estatuto de simples obra cinematográfica bem conseguida para se tornarem verdadeiros eventos mediáticos. E ainda que, na última década, o advento do Multiverso Marvel tenha tornado a ocorrência deste tipo de filme mais comum do que nunca, a verdade é que, em décadas anteriores, as películas que atingiam este estatuto se contavam pelos dedos de uma mão.

Tomemos como exemplo a década que nos concerne, unanimemente considerada excelente no que toca a produção cinematográfica, mas que ao mesmo tempo ilustra o fenómeno de que aqui falamos; isto porque os anos 90 tiveram muitos BONS filmes, mas apenas uma mão-cheia desses se tornaram marcantes ao ponto de terem impacto, e até moldarem, a cultura popular da década. Deixando de parte os filmes animados, que são sempre um evento independentemente da sua qualidade ou escala, a década teve Matrix, O Dia da Independência, Sozinho em Casa, Parque Jurássico, A Lista de Schindler, O Sexto Sentido, Exterminador Implacável 2, o infame Episódio I de Star Wars, e pouco mais. Até mesmo filmes extremamente populares, como as diferentes aventuras de Batman, A MáscaraSpace Jam, Speed - Perigo a Alta Velocidade ou os dois primeiros filmes das Tartarugas Ninja não chegam ao estatuto das obras acima citadas, visto o seu impacto cultural ter tido lugar, sobretudo, à época da estreia, e progressivamente esmorecido ao longo dos anos.

No último dia da década, no entanto (há exactos vinte e dois anos) estreava em Portugal uma obra que se viria a juntar à restrita lista acima enumerada, ainda que - por razões de 'timing' - apenas na década seguinte. Falamos, é claro, de 'O Projecto Blair Witch', uma obra que, mais do que um filme, foi uma autêntica sensação mediática à época da estreia, e teve influência directa em todo um novo género de filme, que ainda hoje perdura.

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Realizado e protagonizado por perfeitos desconhecidos - opção que era, em si mesma, parte da inteligente estratégia de 'marketing' em torno do filme - 'Blair Witch' apresentava-se, num primeiro momento, como uma gravação real - no caso, das filmagens de um documentário sobre a bruxa do titulo, captadas em 'primeira pessoa' por três estudantes de cinema, e mais tarde encontradas no local do seu desaparecimento. A primeira parte do filme é, assim, constituída por cenas perfeitamente normais para este tipo de projecto, baseadas sobretudo na interacção entre os três cineastas, antes de as coisas começarem lentamente a descambar, e o terror a aumentar, culminando numa daquelas imagens que constituiu um 'meme' antes de o próprio conceito de 'meme' existir, e que foi parodiada até à exaustão em anos subsequentes.

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Um momento que, no final dos anos 90, só perdia mesmo para 'I see dead people' em termos de volume de referências e paródias mediáticas

Apesar da influência que teve no cinema do novo milénio - tendo, basicamente, ajudado a criar o género hoje conhecido como 'found footage', que 'Cloverfield' e 'Actividade Paranormal' viriam mais tarde a expandir - 'O Projecto Blair Witch' é, à luz de vinte anos no futuro, um filme que parece não merecer todo o 'hype' que teve à época. Talvez por culpa da exaustão do género, e dos 'clichés' introduzidos precisamente por este filme, a obra parece, hoje, algo previsível e até um pouco cómica, ficando a ideia de que, se estreasse hoje na Netflix, seria alvo de um absoluto arraso crítico; em 1999, no entanto, viviam-se tempos diferentes, e o factor novidade de 'Blair Witch' - aliado a uma audiência de adolescentes prontos a serem assustados - foi suficiente para incluir este filme na curta mas honrosa lista de obras transcendentes, quer da década que findava, quer da que dealbava. Razão mais que suficiente para dedicarmos a nossa última postagem do ano de 2021 à celebração do vigésimo-segundo aniversário de uma película muito 'do seu tempo', mas ao mesmo tempo, extremamente influente na História do cinema moderno como um todo.

30.12.21

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.

E porque na última Quinta-feira falámos aqui da importância dos brindes no contexto do bolo-rei, porque não dedicar o post de hoje a debruçarmo-nos um pouco mais a fundo sobre os mesmos?

Como quem comeu um bolo-rei na era pré-legislação europeia certamente saberá, os referidos brindes consistiam, única e invariavelmente, de um pequeno objecto em metal (sendo esta um dos principais pontos contenciosos da inclusão dos mesmos num produto alimentar, visto que os metais podem criar diversas substâncias nocivas, as quais poderiam depois ser transmitidas para o próprio bolo) com a forma de um qualquer elemento tradicional, quer da gastronomia ou cultura portuguesa (por aqui, reside bem viva a memória de uma posta de bacalhau em miniatura, obtida num qualquer bolo-rei em meados dos anos 90) quer apenas da vida quotidiana. Por vezes (embora nem sempre) o brinde incluía uma pequena argola, que permitia a sua acoplagem a um porta-chaves ou ao fecho de uma típica mochila escolar, acentuando o potencial destes objectos como 'quinquilharias' infantis.

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Exemplos de brindes do bolo-rei

E a verdade é que, embora não fossem residentes permanentes de bolsos, estojos e bolsas de mochila, estes objectos tinham o seu pequeno lugar ao sol, logo a seguir ao Ano Novo, quando o seu interesse ainda não se havia esmorecido ao ponto de os relegar para o fundo de uma qualquer gaveta de casa; e embora esse período não se prolongasse, normalmente, além da primeira semana de aulas, não deixava de ser com um sorriso que, meses mais tarde e com a época das Festas já muito distante, se tornava a encontrar o brinde do ano anterior no fundo da referida gaveta, voltando o mesmo a ser motivo de interesse, ainda que por poucos minutos. Razão mais que suficiente para que, nesta quadra que caminha a passos largos para o fim, dediquemos estas poucas linhas a este elemento clássico e tradicional das Festas portuguesas dos anos 90, entretanto extinto para sempre, mas que perdura nas nossas memórias daquele tempo.

29.12.21

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Os filmes da Disney têm sido, quase desde a sua popularização, sucessos absolutos entre a população infanto-juvenil, seja nas salas de cinema ou no circuito 'home video'; assim, não é de surpreender que rapidamente tenham surgido variações e alternativas a estes mesmos filmes, a maioria das quais oriunda do seio da própria Walt Disney. De adaptações áudio (das quais paulatinamente falaremos) a jogos e programas de computador alusivos aos diferentes filmes, foram muitos os produtos adjacentes lançados pela companhia entre o final da década de 80 e o início do novo milénio - e, de entre estes, um dos filões mais explorados foi precisamente a adaptação em banda desenhada dos filmes e séries animados lançados pela companhia.

A esse propósito, já aqui falámos da colecção ´Álbuns Disney´, que reunia histórias paralelas protagonizadas por alguns dos mais populares personagens áudio-visuais da companhia, publicadas na americana 'Disney Adventures' e subsequentemente traduzidas para português; no entanto, em finais da década a que este blog diz respeito, um dos principais diários portugueses expandiu ainda mais este conceito, apresentando uma colecção de adaptações directas e integrais de cada um dos filmes até então lançados pela Walt Disney Company, que tinham como principal particularidade o facto de serem bilingues, com cada conjunto de duas páginas a conter exactamente as mesmas ilustrações, diferindo apenas o idioma em que o texto estava redigido - de um lado em Português, do outro, em Inglês.

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A colecção integral

Veiculada em conjunto com o Diário ou Jornal de Notícias (embora, conforme era hábito com as colecções e suplementos dos jornais da época, também pudesse ser adquirido separadamente, mediante pagamento de uma quantia fixa) a série de clássicos Disney em banda desenhada bilingue teve ao todo treze volumes, os quais englobavam uma selecção algo anárquica de filmes entre os que haviam sido lançados pela companhia à época, sem lugar a quaisquer considerações cronológicas ou de completismo; para se ter uma ideia, a colecção começava com 'Toy Story - Os Rivais' (o filme mais recente dos incluídos na série), aparecendo 'Branca de Neve e os Sete Anões' (o primeiro filme Disney de sempre) e 'Pinóquio' (o segundo) apenas no terceiro e quarto números, já depois de '101 Dálmatas'. Os restantes volumes seguiam a mesma toada, com 'Aladino' entre 'Peter Pan' e 'Bambi' e 'Pocahontas' antes de 'O Rei Leão', que encerrava a série.

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A lista incluída no verso de cada volume ilustrava bem a ordenação anárquica da colecção

Nada, no entanto, que beliscasse a qualidade da série, que apresentava desenhos ao estilo 'Disney Adventures' e textos que adaptavam fielmente (ainda que por vezes com menos diálogos) os guiões dos filmes em causa. Quando combinados com um grafismo cuidado e encadernação mais próxima dos álbuns franco-belgas do que do habitual formato 'gibi' favorecido pela Editora Abril, estes elementos faziam com que valesse bem a pena investir nesta colecção, especialmente para quem quisesse aprender ou ensinar inglês a um público infanto-juvenil de forma divertida e interessante. De facto, o sucesso desta série poderá ter estado na génese de uma outra empreitada pelo ensino de línguas com chancela Disney, da qual falaremos aqui muito em breve; para já, aqui fica a merecida homenagem a uma excelente colecção de livros infantis, de uma altura em que as colecções oferecidas como brinde pelos jornais eram, por vezes, quase mais interessantes do que os próprios conteúdos dos mesmos...

28.12.21

NOTA: Devido à relevância temporal específica do tema abordado no post de hoje, iremos excepcionalmente trocar a ordem das Terças Tecnológicas e Terças de TV. Os posts sobre tecnologia regressam no novo ano - para já, desfrutem deste post sobre um dos programas de passagem de ano mais marcantes dos anos 90.

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Quem passou 'reveillons' e noites de passagem de ano em casa durante os anos 90 e 2000 (fosse por escolha ou por motivos de idade ou falta de pecúlio monetário), certamente se habituou a passá-las na companhia de Herman José. O humorista, que à época gozava de estatuto de figura maior no campo do entretenimento televisivo 'made in Portugal', conseguiu que a sua imagem ficasse, também, associada à produção televisiva específica para esta noite especial.

Esta associação,cimentada em anos subsequentes por espectáculos especiais das mais diversas índoles, teve a sua génese logo no início da década, altura em que Herman e a sua 'entourage' habitual (que ainda hoje mantém) lançaram aquele que é talvez a mais memorável de todas as produções de Ano Novo elaboradas pelo grupo: o inesquecível Especial de Ano Novo conhecido como Hermanias.

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Com génese no programa semanal do mesmo nome, exibido em meados dos anos 80 mas já de há muito extinto à época desta transmissão em particular, o Hermanias Especial de Ano Novo (que completa nesta noite de fim de ano exactos 30 anos) reviveu o nome por apenas uma noite, associando-o a um programa de humor ao estilo 'sketch' bem característico do que Herman e companhia vinham apresentado à época, e apresentariam ao longo da década seguinte.

Utilizando um espectáculo de Tony Silva (o famoso personagem de 'entertainer' latino do humorista) como elo de ligação entre os diferentes 'sketches', que não partilham de outro modo qualquer contexto, Hermanias Especial de Ano Novo apresenta todos os personagens mais famosos criados por Herman até à data, como José Severino ou José Estebes, e continha muitos momentos memoráveis, como a rábula da poetisa (com Rosa Lobato de Faria a troçar de si própria de forma magnífica) ou um falso anúncio tão convincente que pôs este que vos escreve, do alto dos seus seis anos, a pedir para ir ver o suposto espectáculo anunciado, aparentemente dirigido a crianças mas na verdade...de strip-tease! Entre todos estes momentos, do calibre a que Herman e companhia haviam habituado os seus espectadores da época, as horas até à passagem de ano 'voaram', e foi quase com pesar que os referidos espectadores viram terminar aquele que foi um dos mais memoráveis espectáculos de fim de ano da década - e, para dizer a verdade, também desde então.

Infelizmente, e apesar de Herman José (conforme referido acima) ter apresentado vários outros espectáculos de 'reveillon' ao longo da época, o momento criado por 'Hermanias' não mais se viria a repetir - pelo contrário, Herman permaneceria afastado da escrita humorística durante grande parte da década, antes de efectuar um dos regressos mais memoráveis e marcantes da televisão portuguesa. Desse, no entanto, falaremos noutra ocasião; para já, fiquem com algumas amostras daquilo de que os espectadores puderam disfrutar na passagem de ano de 1991 para 1992...

27.12.21

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Quem conheceu, já deve estar a cantarolar...

Tal como acontece tantas e tantas vezes nas páginas deste blog, também este vai ser um daqueles posts que começam com o genérico de abertura da série em causa; isto porque, para grande parte do seu público-alvo à época da transmissão, este foi mesmo um dos, senão O elemento mais marcante do programa, cuja letra ainda permanecerá embutida nas suas sinapses, pronta a ser debitada 'de cor' à mínima oportunidade.

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'Navegante da Lua' (no original, 'Sailor Moon') foi mais um dos vários clássicos da programação infantil introduzidos no nosso país por Ana Malhoa, Boi-re-ré, Vaca-re-ré, Croco, Hadrianno e o restante elenco do não menos clássico 'Buereré', um dos programas infanto-juvenis por excelência durante a 'nossa' década; no caso, corria o ano de 1995 quando Serena, Rita, Bunny e as restantes Navegantes surgiam pela primeira vez nos ecrãs de lares de Norte a Sul do país, dobradas em bom português (numa daquelas adaptações livres e cheias de improvisação habituais à época, semelhante à popularizada por 'Dragon Ball Z') e de tiaras apontadas directamente ao coração das raparigas pré-adolescentes (como 'Ursinhos Carinhosos' e 'Meu Pequeno Pónei', 'Sailor Moon' era daquelas séries que não se podia ver se se pertencesse à metade da espécie com cromossomas Y).

E a verdade é que o efeito sobre o público-alvo foi quase imediato - a partir desse ponto, e até ao final da década, as colegiais super-poderosas não mais perderiam a sua influência sobre a juventude portuguesa, para quem era difícil manter-se indiferente à mesma: dependendo do sexo, ou se amava, ou se odiava o programa; quem amava, citava as personagens principais, o charmoso Mascarado e a referida música de abertura como os principais atractivos, enquanto que quem não gostava listava precisamente esses mesmos elementos como factores de irritação em relação à série.

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O Mascarado era o interesse romântico da protagonista Serena

Amasse-se ou odiasse-se, a verdade é que 'Navegantes da Lua' fez tal sucesso aquando do seu aparecimento na SIC, que justificou uma nova transmissão cinco anos depois, agora na TVI, como parte da grelha do outro grande programa infantil das décadas de 90 e 2000, o 'Batatoon', e novamente em 2002, no Canal Panda. Este ressurgimento veio, no entanto, acompanhado de uma controvérsia, no caso ligado a algumas mudanças supérfluas e desnecessárias ao nível da dobragem dos episódios transmitidos no Panda, nomeadamente a troca de sexos entre os gatos das protagonistas, Luna e Artemis, passando Luna a ser um gato macho e Artemis (agora Artemisa) uma fêmea, ao contrário do que sucedia quer no original, quer na primeira tentativa de dobragem para português. Nada, no entanto, que afectasse a popularidade da série, que voltou a encontrar um público entusiástico e àvido de conteúdos de teor aventuroso dirigido a raparigas, numa época em que os programas infantis femininos tinham invariavelmente mais a ver com os supramencionados ´Ursinhos Carinhosos' ou 'Meu Pequeno Pónei'.

Sucesso esse, aliás, que se mantém até hoje, continuando as diversas séries de 'Sailor Moon' a ser transmitidas nos 'novos' canais infantis entretanto surgidos, como o Biggs, que em 2015 incorporava uma dobragem de 'Sailor Moon Crystal' à sua grelha de programação, inicialmente em formato censurado, e a partir de 2017 na sua versão integral, em tudo semelhante à original japonesa; mais uma prova, caso tal fosse necessário, da popularidade de que as meninas com poderes planetários continuam a gozar em Portugal, mesmo em meio à forte concorrência de programas como 'Miraculous Ladybug' e a nova série dos Pequenos Póneis. De facto, ao que parece, se depender do nosso público infantil feminino, Serena e as suas companheiras continuarão a castigar malfeitores em nome da Lua durante muitos e bons anos...

24.12.21

Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.

Assim que o frio começa a apertar - e normalmente, em Dezembro, já há muito que apertou - sabe bem ter um agasalho mais grosso e impermeável, dentro do qual se possam enfrentar as intempéries que o Inverno normalmente reserva. E, para a juventude da segunda metade dos anos 90, um agasalho deste tipo que não tivesse no peito um bordado redondo com um ganso em vôo praticamente 'não contava'.

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Foi sensivelmente em meados da década que os famosos blusões de penas Duffy adentraram a consciência colectiva de toda uma demografia. Ao contrário de outras 'modas' de que aqui vimos falando, estas peças de roupa não têm, nem nunca tiveram, um ponto de origem definido; simplesmente 'passaram a existir', de um ano para o outro, e dentro de pouco tempo, toda a gente de uma certa idade parecia ter (ou querer ter) o seu.

Também ao contrário de alguns dos outros temas abordados nas páginas deste blog, não é difícil perceber por que razão os blusões da Duffy se tornaram tão populares, quando outros 'kispos' deste tipo eram muitas vezes vistos como sendo 'fatelas', especialmente a partir de uma certa idade; para além do óbvio factor 'todos-têm-também-quero', os artigos da marca do ganso apresentavam qualidade condicente com o seu preço (mesmo muito) elevado, tendendo um só blusão a chegar para várias épocas, tipicamente até deixar de servir ao dono ou dona. Os 'anoraks' Duffy eram, assim, dos poucos artigos de marcas populares a verdadeiramente justificarem o investimento.

Tal como ocorria com tudo o que ganhasse alguma popularidade entre os jovens, no entanto, nem todos os supostos blusões Duffy vistos nos pátios de escolas e clubes por esse Portugal fora eram verdadeiramente da marca; como era hábito à época (e hoje em dia, embora menos) proliferavam no mercado as imitações baratas, que passavam por autênticas à primeira vista, mas não resistiam a um escrutínio mais de perto. Como também era hábito, qualquer criança ou jovem cujo blusão fosse identificado como 'falso' era, de imediato, alvo do escárnio dos colegas - muitos deles, ironicamente, também provavelmente vestidos com blusões de imitação.

Hoje em dia, a Duffy ainda existe, tendo inclusivamente tentado reviver os seus icónicos blusões para os tempos modernos; no entanto, e apesar destes esforços, a iconografia do blusão de penas com 'patch' de um ganso a voar fica mesmo (pelo menos em Portugal) indelevelmente ligada aos anos 90, em que esta peça de roupa mais utilitária que 'estilosa' chegava a ter estatuto de presente desejado debaixo do sapatinho nesta época do ano...

23.12.21

Todas as crianças gostam de comer (desde que não seja peixe nem vegetais), e os anos 90 foram uma das melhores épocas para se crescer no que toca a comidas apelativas para crianças e jovens. Em quintas-feiras alternadas, recordamos aqui alguns dos mais memoráveis ‘snacks’ daquela época.

A doçaria regional portuguesa é conhecida pela sua grande variedade de opções para todas as ocasiões, e o Natal não é excepção; mas entre as azevias, os coscorões e as lampreias de ovos, há um doce que se destaca acima de todos, e que simboliza, para muitos portugueses, a culinária da quadra.

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Falamos, claro, do bolo-rei, aquela deliciosa confecção encimada com frutos secos e frutas cristalizadas (ou, no caso da variante 'rainha', apenas com os primeiros) e que rivaliza favoravelmente com as especialidades natalícias de qualquer outro país do Mundo - incluindo congéneres como o 'stollen' alemão ou o 'fruitcake' norte-americano. Melhor - tirando a maior industrialização (antigamente, dificilmente se encontrava este bolo em supermercados) o bolo-rei sofreu muito poucas alterações na sua essência, continuando a ser (quase) exactamente aquilo que sempre foi, desde a sua introdução e popularização em Portugal, em inícios do século XIX.

É no 'quase', no entanto, que reside o cerne deste post; isto porque quem tem idade para se recordar dos assuntos falados neste blog certamente sentirá, ano após ano, falta de dois elementos já de há muito retirados do bolo-rei, mas que ainda marcaram muitos Natais e dias de Ano Novo da nossa infância: o brinde e a fava.

Tradicional brindes oferecidos nos Bolo Rei portug

 

Ambas intimamente ligadas à tradição do bolo-rei (quem encontrasse o brinde podia considerar-se sortudo, enquanto que quem tivesse na sua fatia a fava tinha de pagar o bolo seguinte - daí a expressão 'sair a fava' como sinónimo de 'ter azar') as duas 'surpresas' anteriormente contidas neste bolo foram retiradas, precisamente em 1999, após a aprovação de uma lei europeia que proibia a comercialização de géneros alimentícios com brindes misturados; apesar de o bolo-rei ter inicialmente sido considerado excepção, pelo significado cultural do seu brinde e da fava, o mesmo acabou mesmo por se ver despojado dos seus elementos tradicionais quando a referida lei foi revista, dois anos mais tarde.

Até hoje, apesar de não ser exactamente proibido vender o bolo com brinde e fava, é essa a percepção geral, sendo o mesmo comercializado sem qualquer dos dois elementos já desde o inicio do século. Uma pena, visto que eram precisamente estas duas 'surpresas' que davam o carácter ao bolo-rei, e tornavam a experiência de o comer ainda mais memorável; sem eles, resta um bolo ainda (e sempre) delicioso, mas já sem aquele pequeno 'extra' que tanto nos deliciava nas nossas infâncias. Ainda assim, a compra (e posterior partilha) de um bolo-rei é uma daquelas experiências sem as quais nenhum Natal luso podia passar - fosse nos anos 90, ou nos dias de hoje. Com ou sem 'surpresas' adicionais...

22.12.21

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

Na era pré-telemóveis, a única maneira de recordar e guardar datas e contactos importantes era registá-los nuns livrinhos especialmente criados para o assunto, em que cada página correspondia a um dia, e continha linhas especiais para anotar todas estas informações.

Isso mesmo - as agendas, um daqueles produtos que, a certo ponto durante os anos 80 e 90, representava um dos marcos da passagem à vida adulta, em que havia a necessidade de manter registos sobre coisas sérias. Talvez por isso tantas crianças quisessem ter o seu próprio exemplar, e talvez por isso a alternativa especificamente dirigida a esta demografia - lançada anualmente pela editorial O Livro, em parceria com a RTP, de meados da década de 80 até aos primeiros anos do novo milénio, e novamente em 2010, numa edição especial alusiva ao programa 'Caderneta de Cromos', apresentado por Nuno Markl - tenha feito tanto sucesso à época do lançamento.

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Capas das edições relativas aos anos de 1994 e 96

De facto, no período a que este blog diz respeito, 'A Minha Agenda', a agenda infantil da RTP - que além dos espaços para registo de informação, continha curiosidades, jogos, receitas e outros artigos de interesse para o público-alvo - tornou-se um verdadeiro marco da época natalícia portuguesa, sobretudo graças ao seu anúncio televisivo, cujo 'jingle' era tão ou mais 'pegajoso' que o actual do Pingo Doce, e terá decerto vindo à cabeça de pelo menos alguns dos nossos leitores assim que foi mencionado.

Por aqui, anda-se há dias a cantarolar isto...

Esse anúncio era, aliás, responsável pela criação de grande parte do desejo pel''A Minha Agenda', que no restante, não passava precisamente disso - de uma agenda, ainda que 'apimentada' pelos referidos conteúdos extra. Aliás, na mesma época, existia pelo menos uma opção tão boa ou melhor do que a publicação da RTP, no caso a Agenda Disney, que aliava um conceito semelhante ao d''A Minha Agenda' ao atractivo extra da licença oficial para uso das personagens Disney (lá por casa, era esta que se tinha, e nunca houve qualquer desejo pela troca).

No entanto, tal como no caso do 'Um Bongo', aqui explorado há algumas semanas, 'A Minha Agenda' era (foi, é) um produto cuja estratégia de vendas assentava, sobretudo, na força do seu 'jingle', que lhe dava uma vantagem em relação à concorrência, por muito forte que ela fosse; que o diga quem ficou quase imediatamente a desejar receber um destes volumes no sapatinho após ter sido sujeito ao anúncio num qualquer intervalo dos desenhos animados...

21.12.21

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Por muitas décadas que passem, o Natal português continua a pautar-se por uma série de tradições que parecem, por esta altura, serem já imutáveis: vai-se, por exemplo, ouvir 'A Todos Um Bom Natal', vai haver um anúncio da Popota ou da Leopoldina (ou de ambos), vai passar na televisão o 'Sozinho em Casa' (e provavelmente a 'Música no Coração' também) e a RTP vai exibir um programa de várias horas em que cantores e outras personalidades sociais de destaque se exibem por uma causa de caridade.

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Esta última tradição, em particular, avança a passos rápidos para o seu octogésimo aniversário (embora nem sempre tenha ocorrido de forma regular) com uma fórmula pouco ou nada alterada (só mudam mesmo a hora e duração da emissão e o nome dos artistas participantes), tendo-se já tornado sinónima com o Natal em Portugal. Trata-se, claro, de 'O Natal dos Hospitais', criação conjunta da RTP, do Diário de Noticias e da marca Phillips, que desde o final dos anos 50 se tornou um marco basilar da programação da emissora nacional durante a quadra natalícia, embora tenha estado esporadicamente ausente da mesma ao longo dos anos (o programa não teve, por exemplo, lugar nos dois primeiros anos da década de 90, tendo apenas sido transmitido a partir de 1992.)

Normalmente gravado em directo a partir dos hospitais de São João, no Porto, e de Alcoitão (com festas separadas e simultâneas na Madeira e Açores), o programa teve, no entanto, ocasionais investidas para fora do ambiente hospitalar, tendo chegado a ser transmitido a partir do Casino Estoril ou do Coliseu dos Recreios. Mais recentemente, já no novo milénio, a emissão expandiu-se, também, a outros hospitais, mas mantendo a mesma fórmula de sempre, com convidados 'famosos - normalmente ligados à RTP - e números musicais, a maioria dos quais de índole popular ou folclórica. 

Exemplos dos números musicais e teatrais típicos da emissão, neste caso retirados das transmissões de 1992 e 93, respectivamente.

Um formato que se presta a muito poucas alterações, e que o próprio público-alvo - na sua maioria envelhecido e pouco dado a inovações - dificilmente permitiria que fosse mudado. Lá diz a velha máxima que 'em equipa que ganha, não se mexe' - e a julgar pela amostra conjunta (o programa fez, até à data, parte da vida de pelo menos quatro gerações de portugueses, incluindo a que cresceu nos anos 90), no caso do 'Natal dos Hospitais', tal táctica tem mesmo rendido dividendos...

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