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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

21.03.21

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(NOTA: Este post é referente a Sábado, 20 de Março de 2021.)

Aos Sábados, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais excitantes locais para se visitar naquela época.

E nada melhor para começar esta rubrica do que falar num conceito que – pelo menos em Portugal – teve início em meados dos anos 80, e que revolucionou para muitas famílias o conceito de ‘ir às compras’: os hipermercados, um conceito já existente em muitos países estrangeiros, mas que apenas se popularizou no nosso país em finais do século passado, com o Continente na linha da frente, tanto no Norte (o Continente de Matosinhos, inaugurado em 1985, foi o pioneiro deste conceito no nosso país) como mais a Sul, onde o Continente da Amadora, aberto em 1987, se afirmou como o primeiro espaço deste tipo na capital.

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O Continente de Matosinhos, o primeiro hipermercado em Portugal, inaugurado em 1985.

Hoje em dia, este tipo de superfície é comum ao ponto de constituir só mais uma parte da vida quotidiana dos portugueses; nos anos 90, no entanto, não era assim. À época, os supermercados (a grande maioria de pequena dimensão, e localizados nos próprios bairros residenciais) eram lojas como quaisquer outras - sítios até algo aborrecidos, uma espécie de mercearia da esquina em ponto grande, onde a melhor perspetiva que uma criança tinha era a de ir para casa com uma caixa dos seus cereais favoritos, ou quanto muito, uma BD ou um chupa-chupa comprados na caixa.

Os hipermercados vieram mudar tudo isso, oferecendo não só um local para fazer as compras, como toda uma experiência, que passou a atrair milhares de famílias todos os fins-de-semana, criando uma nova espécie de ‘ritual’ para os Sábados e Domingos. Tanto assim é que, aquando da sua abertura, o Continente de Matosinhos chegou a dar azo a excursões organizadas, apenas para conhecer o espaço!

Escusado será dizer que, se os adultos não ficavam incólumes aos encantos destas superfícies, as crianças ainda menos lhes resistiam. Ir ao hipermercado, sobretudo na altura do Natal ou dos anos, correspondia a ter todo um mundo de possibilidades ao alcance da mão (e do dinheiro dos pais), desde t-shirts ou ténis a discos, vídeos, livros, brinquedos, aparelhos eletrónicos e até bicicletas – tudo isto num espaço suficientemente grande para tornar até a compra do tal pacote de cereais numa experiência memorável e excitante, e que obrigava a atenção redobrada para nunca perder de vista a família.

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Aproximação mais ou menos fiel da experiência de uma criança dos anos 90 ao entrar num hipermercado.

Como se isto não bastasse, os hipermercados de maior dimensão tinham, à sua volta, uma espécie de mini-centro-comercial, o que – numa época em que os ‘shoppings’ propriamente ditos eram também eles locais quase mitológicos – tornava ainda mais atrativa aquela ‘romaria’ às compras, e dava às crianças ainda mais que ver e antecipar. No entanto, mesmo que estas lojas extra não existissem, a experiência de visitar um hipermercado não seria, para um ‘puto’ dos 90s, muito menos excitante; pelo contrário, o simples ato de subir a escada rolante já causava um ‘frisson’ de antecipação para aquilo que aí vinha, justificando plenamente a inclusão destes espaços como primeira Saída de Sábado deste blog.

E vocês? Que memórias têm de ir ao hipermercado naquela época? Deste lado, fica a memória de ter visto, pela primeira vez, uma Sega Saturn (e respetivo jogo Virtua Fighter) na ‘praceta’ do Carrefour de Telheiras, ali em meados da década, e de ficar ‘especado’ a babar nos gráficos 3D, rudimentares pelos padrões de hoje em dia mas, à época, revolucionários. Têm alguma experiência semelhante, ou igualmente marcante? Partilhem-na nos comentários!

19.03.21

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Façam de conta que os títulos estão em português...

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

E que melhor maneira de começar uma retrospetiva de cinema infantil dos anos 90 do que com a líder destacada nesse campo há quase exatamente um século? Ainda para mais quando foi precisamente nos anos 90 que essa mesma companhia produziu e lançou alguns dos seus melhores e mais memoráveis filmes de sempre?

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Sim, hoje vamos falar da Walt Disney Pictures, e do seu famoso período de ‘renascença’ (‘Renaissance’) que abrangeu quase toda a década a que se dedica este blog. Uma era que praticamente não teve filmes maus, e que, em conjunto com as concorrentes Amblin, Warner e mais tarde Dreamworks, contribuiu para que toda uma geração de crianças usufruisse de cinema de qualidade, em media, duas vezes por ano – isto sem contar, claro, com as posteriores reedições desses mesmos filmes em formato VHS ou DVD.

Para perceber a importância deste período da história da Disney para o desenvolvimento cinematográfico de toda uma geração, basta elencar a lista de filmes de animação que a companhia lançou durante a década de 90. São eles: A Pequena Sereia (tecnicamente ainda de 89, mas parte integrante deste lote), DuckTales: O Filme, Bernardo e Bianca na Cangurulândia, A Bela e o Monstro, Aladdin, O Rei Leão, Pateta: O Filme, Pocahontas, O Corcunda de Notre-Dame, James e o Pêssego Gigante, Hércules, Mulan e Tarzan. Isto ainda sem contar com a Pixar, que contribui para esta lista com os dois primeiros capítulos da sua série principal, Toy Story, bem como com o menos bem conseguido, mas ainda divertido, Uma Vida de Inseto.Para além destes clássicos animados, houve ainda um frutífero contingente ‘live action’, mais ou menos bem representado por Abracadabra, Jamaica Abaixo de Zero, as séries Mighty Ducks e Santa Cláusula ou o remake de ‘carne e osso’ dos 101 Dálmatas, entre outros.

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Alguns dos filmes 'live-action' da Disney lançados nos anos 90

Não restam dúvidas, no entanto, de que os filmes animados eram as ‘estrelas da companhia’, sendo que, à exceção de um ou outro filme menor, quase todos os mencionados no parágrafo anterior dariam um artigo por si só. Combinando grandes histórias com uma vertente técnica cuidadíssima e, muitas vezes, revolucionária, estes filmes conseguiam a proeza de apelar, verdadeiramente, a todas as idades, sendo mesmo a única concessão de muitos adolescentes aos filmes ditos ‘para crianças’. E escusado será dizer que, agora que essas mesmas crianças e adolescentes se tornaram adultos, muitas delas contam com pelo menos um destes filmes entre os seus melhores de sempre – embora QUAL varie muito de pessoa para pessoa, e dê mesmo azo a acirrados debates entre amigos ou colegas de trabalho.

Seja qual for a preferência, no entanto, uma coisa é certa – os filmes da ‘Disney Renaissance’ continuam a contar-se entre os melhores de sempre do cinema infantil, ombreando com os clássicos produzidos pela propria Disney em décadas anteriores, e tornando ainda menos válida a justificação de que as atualizações em CGI destes clássicos se devem aos originais já estarem ‘datados’. Não só não estão datados – pelo contrário, ver o Aladdin, O Rei Leão ou o Corcunda hoje em dia demonstra que a animação destes filmes envelheceu magnificamente – como continuam a marcar pontos pelos riscos que tomam e pelo espírito inovador que apresentam. São precisamente estas características intemporais - uma reação direta à crise que o estúdio havia vivido durante as duas décadas anteriores, em que as caríssimas produções em que investiam não tinham a receção nem o retorno desejados - que fazem com que estes filmes marquem gerações sucessivas de crianças, sem nunca perderem a qualidade - e é a ausência das mesmas nos novos 'remakes' que os torna tão frustrantes para quem vivenciou os originais.

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As reações de muitos fãs aos inúmeros 'remakes' dos seus clássicos favoritos em CGI.

Infelizmente, este 'Renascimento' não viria a ter continuidade na década seguinte. Antes pelo contrário -  o ‘output’ animado da Walt Disney Pictures durante este período foi a tal ponto irregular em termos qualitativos, que os seus responsáveis acabaram mesmo por optar pelo encerramento do  departamento de animação tradicional; tal como da primeira vez, no entanto, este cenário resultaria num novo fôlego para a companhia, que voltaria à primeira linha da animação para toda a família com filmes como Zootrópolis, Moana, e o fenómeno de popularidade que foi Frozen, talvez o filme 'mais Disney' da Disney desde A Bela e o Monstro, e que reavivou (e em grande!) o conceito e a 'marca' Princesas Disney.

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Os principais representantes do 'segundo renascer' da Disney, nos anos 2010.

Mas isso já é avançar muito no tempo – por agora, fiquemo-nos pela primeira ‘renascença’ da Walt Disney Pictures, e pela imortal série de filmes animados que a mesma gerou. E como sempre, chegou a hora de serem vocês a partilhar as vossas opiniões – nomeadamente, sobre qual é o melhor filme da ‘Disney Renaissance’ dos anos 90, e porque é que é O Rei Leão. Portanto, força nisso – vamos aos debate!

18.03.21

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Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.

E mais uma vez, o ponto de partida para este tema é óbvio – existe um brinde que é, quase de imediato, citado por qualquer ‘90s kid’ a quem se fale do tema. Um brinde que era também um jogo, e que virou ‘febre’ nos recreios portugueses. ESTE brinde:

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Se esta imagem não vos transportar ao recreio do 5º ano e fizer sentir o gosto a Matutano Ruffles na boca, estão no blog errado.

Sim, os Tazos – aqueles círculos de papelão que se tornaram o principal motivo para comer batatas fritas ali em meados dos anos 90, e que também permitiram a muitas crianças descobrir até onde estavam dispostas a ir na ânsia de aumentar a sua colecção.

O princípio dos Tazos – conhecidos além-mar como ‘pogs’ – era simples. Punha-se os tais discos num montinho – cada jogador apostava os que quisesse – e lançava-se um outro disco, maior, de plástico sólido (uma espécie de versão Tazo do berlinde abafador) contra eles. Aqueles que se virassem tornavam-se pertença do jogador que tivesse feito o lançamento. Ou antes, estas eram as regras OFICIAIS do jogo – no recreio, claro, inventavam-se outras, sendo permitido, por exemplo, usar Tazos normais como lançadores (e quem nunca alinhou a borda do Tazo lançador com a do primeiro Tazo da pilha e fez pressão para o virar, ao estilo pizza/panqueca, que lance a primeira pedra…) Oficialmente, havia também um sistema de pontos dependendo do tipo de Tazo, mas a maioria das partidas disputadas nos recreios por esse Portugal fora resumiam-se a isto: ganhar mais Tazos do que o adversário, não importando quantos pontos os mesmos valiam. Um jogo simples (e ainda mais simplificado pelas tipicamente básicas regras infantis) e viciante o suficiente para virar fenómeno nos recreios portugueses durante pelo menos um ano.

Inicialmente disponíveis apenas nas batatas fritas da Matutano - daí o nome oficial de Matutazos - e com motivos da Warner Bros. e Barbie (sim, desta ‘moda’ as meninas também gostavam), os Tazos fizeram tal furor que rapidamente começaram a ser disponibilizadas séries alusivas a outras propriedades, como O Rei Leão - à época ainda recente o suficiente para ter interesse para a meninada - e Power Rangers, outro dos grandes fenómenos daquele tempo. No entanto, a esmagadora maioria destas outras séries (tanto disponíveis em ‘snacks’ concorrentes da Matutano como compráveis em ‘packs’, semelhantes aos dos cromos e cartas coleccionáveis) eram consideradas ‘falsas’, e nem todos os adversários ou parceiros de troca os aceitavam, ao contrário do que acontecia com os da Matutano – o que era uma pena, porque alguns tinham motivos tão ou mais interessantes do que estes, como a série Mad Caps, que trazia desenhos mais abstractos e radicais, ao estilo dos usados para decorar os ‘skates’ da altura, mas que por não vir nas batatas fritas, foi ignorada por 99.9% da juventude lusitana.

Claro que, para além do seu estatuto ‘não-oficial’, estas outras colecções tinham outra desvantagem em relação à da Matutano – nomeadamente, o facto de não disporem de uma caderneta/dossier ‘à maneira’ para serem guardadas.

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Se antes já não estavam outra vez no 5º ano, agora estão de certeza...

Tal como todos os fenómenos de recreio, os Tazos tiveram uma vida relativamente curta. Ao contrário de outros países, onde o fenómeno continuou, com série após série, os ‘putos’ portugueses perderam o interesse quando a Matutano deixou de oferecer os pequenos discos nos seus pacotes. A verdade, no entanto, é que a própria marca também nunca conseguiu repetir o sucesso deste brinde, apesar de várias tentativas, algumas bem meritórias, de o fazer (e sim, atempadamente, falaremos aqui de todas elas.) Quanto aos Tazos, apesar de terem passado de moda relativamente rapidamente, tornaram-se uma das mais vívidas memórias de infância para toda uma geração de crianças hoje a caminho das quatro décadas de vida. E pelo que uma pesquisa rápida no Google revela, uma segunda volta desta promoção encontraria, ainda, uma faixa substancial de público interessado – fica a dica, Matutano…

Entretanto, enquanto os ‘bigshots’ das batatas não me confirmam a ‘call’ no Zoom para falar disto, digam vocês de vossa justiça – que memórias têm dos Tazos? Qual era o vosso preferido? Por aqui, era o da Elmyra, e o abafador verde, que era muito mais ‘fixe’ que o azul… Concordam? Discordam? Como sempre, ‘let me know’!

 

 

18.03.21

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A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Neste post inaugural, traçaremos o percurso da mais bem-sucedida tentativa de publicar comics americanos em terras lusas – as icónicas séries da Marvel e DC publicadas pela Editora Abril Controljornal em meados da década de 90.

Embora atravessassem, à época, mais um dos seus frequentes períodos áureos, as BDs de super-heróis não eram algo com tradição em Portugal. A maioria dos títulos disponíveis chegava às bancas diretamente do Brasil – mesma origem de outras ‘revistinhas’ icónicas, como as da Turma da Mônica – e apesar das tentativas regulares, por parte de diferentes editoras, de criar publicações deste tipo 100% nacionais, nunca nenhuma conseguiu o nível de sucesso de que gozavam as suas congéneres importadas.

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Uma das muitas revistas de super-heróis importadas do Brasil à época

Esta situação viria a alterar-se por volta do ano de 1995, quando a Abril Controljornal (antes Abril Morumbi) decide mais uma vez arriscar na criação de revistas de BD de super-heróis 100% nacionais. Seguindo a máxima que diz que ‘em equipa que ganha não se mexe’, a editora optou, sensatamente, por não arriscar demasiado no formato ou conteúdo destes novos comics, mantendo o mesmo formato pequeno das edições sul-americanas (o chamado ‘formatinho’) e limitando-se a ‘aportuguesar’ os textos para eliminar os ‘brasileirismos’. Esta táctica, que permitia reduzir o custo das revistas de modo a que fossem acessíveis a bolsos mais jovens, rapidamente começou a surtir efeito, com as BDs portuguesas a ‘expulsarem’ as brasileiras das bancas quase por completo, iniciando um período de aproximadamente três anos de hegemonia da Abril no mercado dos super-heróis.

Durante estes anos (sensivelmente de 1995 até 1998) a editora investiu numa selecção dos mais populares títulos americanos, publicando indiscriminadamente as principais propriedades da Marvel (Homem-Aranha, X-Men e Wolverine) e da DC (Super-Homem, Batman e Liga da Justiça.)  A receção extremamente positiva que estes títulos receberam permitiu, até, que a Abril expandisse o seu raio de ação a publicações de cariz temático ou especial - como ‘Origens dos Super-Heróis Marvel’, que republicava histórias da chamada silver age - ou a séries menos conhecidas ou populares, como o universo 2099 da Marvel ou o impagável Superboy, da DC. Foi, até, criada uma revista totalmente dedicada a este tipo de lançamentos, a criativamente intitulada 'Heróis' - uma espécie de parente (muito) pobre da referência norte-americana (e brasileira) Wizard, de conteúdo muito mais básico e virado a um público muito mais jovem. Ainda assim, o título conseguiu algum sucesso enquanto durou, sobretudo devido ao preço 'simpático' para os bolsos do público-alvo.

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Número inaugural da revista 'Heróis'

As razões para este sucesso são fáceis de explicar – apesar de algumas falhas (como a permanência de formas gramaticais ‘abrasileiradas’ em quase todos os números de quase todas as revistas), a Abril teve a sorte de conseguir material da última grande fase dos comics americanos à época. Da Marvel foram publicadas, por exemplo, as sagas Venom e Carnage do Homem-Aranha e a fase original da X-Force; da DC, surgiram, entre outras, a ‘storyline’ em que Bruce Wayne é paralisado por Bane e substituído por um Batman mais jovem e futurista, e a mítica e icónica saga da morte (e retorno) do Super-Homem. Mesmo com as supramencionadas falhas – na tradução e não só – este material era suficientemente forte para atrair o público-alvo, gerando vendas consistentemente altas para a editora durante os primeiros dois anos de publicação das revistas.

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Dois dos especiais da saga 'A Morte e o Regresso do Super-Homem'

O ano de 1998 não foi, no entanto, tão prolífico para a editora, que viu o interesse nos seus comics diminuir consideravelmente – e, com ele, as vendas. Assim, ainda nesse mesmo ano, aquele que havia sido o argonauta dos ‘quadradinhos’ de super-heróis portugueses suspendia a publicação de todas as suas revistas, voltando a deixar os fanboys lusitanos à mercê de importações americanas proibitivamente caras e difíceis de encontrar, ou na melhor das hipóteses, números antigos comprados a alfarrabistas. Voltavam os ‘anos negros’…

Demoraria apenas um ano, no entanto, até esta situação se voltar a alterar, e os heróis americanos (embora apenas os da Marvel) voltarem às bancas portuguesas - desta vez pela mão de uma editora com muito melhor reputação entre os geeks, e cujo trabalho foi, objetivamente, muito melhor e mais cuidado que o da Abril - e gerarem uma nova vaga de interesse nos comics americanos em Portugal. Mas dessa falaremos noutra ocasião – até porque a verdade é que, mesmo com todos os seus defeitos, as revistas aos quadradinhos da Marvel e DC publicadas pela Abril marcaram uma época, e constituíram o primeiro contacto de muitos futuros fanboys com os icónicos heróis e vilões da BD norte-americana. E vocês? Contavam-se entre este número? Se sim, qual o vosso herói favorito? (Daqui, sempre foi e sempre será o inimitável Homem-Aranha.) Digam de vossa justiça nos comentários!

18.03.21

A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.

E se falamos em ‘gadgets’ memoráveis no Portugal dos anos 90, temos de começar por aquela que, ali em meados da década, encabeçava a lista de Natal de qualquer fã de vídeo-jogos – a lendária Mega Drive.

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Lançada em 1989 nos Estados Unidos, onde é conhecida como Genesis, a Mega Drive sofreu o habitual (à época) atraso tecnológico, chegando a Portugal no início dos anos 90, quando já ia na sua segunda versão, criativamente designada Mega Drive II, e cujo design se acabaria por tornar sinónimo com a consola até aos dias de hoje. No entanto, mesmo com este atraso, a mais famosa de todas as consolas da Sega ainda foi a tempo de se tornar o desejo máximo de qualquer ‘puto’ – ao mesmo nível de uns patins em linha, um Walkman ou do Game Boy, o sucesso portátil lançado pela rival Nintendo. Basicamente, quem tinha, gabava-se; quem não tinha, queria ter.

As razões para este estatuto eram óbvias – e não, não tinham nada a ver com a hoje muito satirizada (e à época muito apregoada) tecnologia ‘blast processing’. O público-alvo da máquina tinha uma média de idades de 10 anos, e não fazia ideia (nem queria saber) do que era ‘blast processing’. Apesar da inovação tecnológica de ser a primeira máquina de 16 bit (anos antes da equivalente da rival Nintendo, e de outras como a Neo Geo), o sucesso da Mega Drive tinha raízes muito mais simples e óbvias – pura e simplesmente, a consola tinha a melhor selecção de jogos disponível no mercado pré-Super Nintendo. A máquina 16-bit da Sega tinha Sonic (que, para cúmulo, vinha de oferta com a consola!) Tinha Super Hang-On. Tinha Shinobi, primeiro em versão Super e mais tarde em modo de vingança. Tinha Street Fighter II, e Columns, e NBA Jam, e Golden Axe, e Desert Strike, e Mortal Kombat igual aos dos salões de jogos, e a melhor versão do jogo oficial de O Rei Leão alguma vez lançada. ´

Só esta pequena lista decerto já fez alguém querer ir buscar a sua Mega Drive ao armário - e isto sem sequer se ter falado em jogos tecnologicamente revolucionários como Virtua Fighter 2 (sim, existiu para 16 bits), Toy Story (cujos gráficos tentavam imitar o 3D do filme em ambientes 2D típicos da época), Sonic 3D (que, apesar do título, se desenrolava numa perspectiva isométrica) ou VR Racing, este sim um dos primeiros jogos em 3D de sempre. Era muita qualidade numa só caixinha preta, o que contribuiu para fazer da consola uma das mais vendidas de sempre em todo o Mundo – incluindo em Portugal.

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Vejam bem esta selecção de jogos...

Tal como todos os aparelhos tecnológicos, também a Mega Drive acabou por se ver desatualizada, obsoleta, e destronada (ali sensivelmente a meio da década) por uma nova geração de consolas, com o dobro ou até o quádruplo dos bits, e ostentando gráficos de encher o olho. A PlayStation, a Nintendo 64, e a própria sucessora da Mega Drive – a Sega Saturn – passavam a tomar o lugar da pequena máquina do ouriço azul nos corações e listas de Natal das crianças, com a consola da Sony, em particular, a conseguir mesmo, eventualmente, quebrar os recordes estabelecidos por esta. No entanto, para toda uma geração de ‘putos’ vidrados em vídeo-jogos, esta continua a ser A consola – aquela que lhes proporcionou os melhores momentos de comando na mão, depois da escola ou aos fins-de-semana.

E vocês? Tiveram a Mega Drive, ou ficaram-se pelo querer? E qual era o vosso jogo favorito? Deste lado, era – e ainda é – o Sonic original, com O Rei Leão, Sonic 2 e VR Racing a servir de ‘guarda de honra’. Concordam? Discordam? Façam-se ouvir nos comentários!

18.03.21

 

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Que melhor maneira de dar início a um blog sobre os anos 90 em Portugal do que com A febre – provavelmente a maior febre que os recreios portugueses da era pré-TikTok e YouTube alguma vez conheceram? Um fenómeno tão popular que fazia parar aulas e jogos de bola, e chegou ao ponto de gerar ‘mercados negros’ de imagens fotocopiadas, geridos com grande sentido comercial por mini-empreendedores do 6º ano?

Falamos, claro, de Dragon Ball Z, talvez a série animada mais popular de sempre em Portugal. Transmitida no nosso país pela SIC a partir de Novembro de 1996, o ‘anime’ criado sete anos antes por Akira Toriyama tornou-se um daqueles fenómenos que suscitavam a pergunta: ‘onde é que estavas no dia da estreia do Dragon Ball Z?’

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Nem o Son Goku percebe a razão da 'febre'...

Se não tiverem estado lá em pessoa, tentem imaginar um típico dia de semana em Novembro de 1996, ali por volta das 17h30, hora de muitas crianças regressarem da escola e se sentarem com o seu ‘lanchinho’ a ver qualquer dos programas infantis da tarde. Nesta tarde em particular, no entanto, os outros canais são quase totalmente negligenciados, sobretudo pelos rapazes, que sintonizam quase unanimemente a televisão para a SIC. A razão? Após algumas semanas de anúncios e ‘spots’ televisivos para criar ‘hype’, está finalmente prestes a estrear uma nova série cheia de acção e aventura, mesmo à medida de quem ainda não é adolescente, ou mesmo de quem já é mais velho, mas não tem vergonha de ver desenhos animados.

Alguns minutos depois de televisores de Norte a Sul do país terem sintonizado o canal de Carnaxide, o genérico da nova série irrompe pelas casas de milhões de crianças e jovens, no que seria a primeira de muitas vezes – mais do que alguém ousaria imaginar. Alguns momentos depois, a cabeça de um veado emerge de fora do ecrã, ouve-se a voz de uma personagem feminina a chamar ‘Son Gohaaaaaannn!’…e estava lançado o fenómeno.

Durante os dois a três anos seguintes, Dragon Ball Z seria presença assídua na vida das crianças e adolescentes portugueses, quer através da transmissão diária de episódios, quer da compra de ‘merchandise’  - t-shirts, a caderneta de cromos da Panini, vídeos dos filmes longa-metragem da série ou do Dragon Ball original, os famosos bonecos articulados, ou até um CD de músicas Europop de origem tão duvidosa como a sua qualidade sonora - ou mesmo de meios menos esperados ou ortodoxos, como a referida ‘pirataria’ de imagens fotocopiadas, tiradas da Internet e vendidas no recreio a 5 ou 10 escudos cada, dependendo da qualidade e interesse (um ou outro mais afoito até tentava cobrar 20 escudos por uma suposta imagem de ‘hentai’ da série, saindo-lhe o plano furado apenas por conta da fraca qualidade das impressoras da época, que transformaram a suposta cena para maiores de 18 entre Bulma e Son Goku num borrão indecifrável.) Enfim, uma febre como poucas tinhas havido até então para aquela geração nascida em finais dos anos 80, e como poucas voltaria a haver nos anos subsequentes.

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Capa de um dos vídeos lançados à época, com direito a 'gralha' no título e ilustração estilo 'carrossel da Feira Popular'

O mais engraçado é que o antecessor de DBZ, o Dragon Ball original, não tinha conhecido nem metade do sucesso da sua continuação. Havia quem visse, claro – eram até muitos – e a canção do genérico era icónica q.b., mas a série original nunca levou ninguém a tentar desenhar a sua própria cena de Son Goku para vender no recreio, a interromper um jogo de futebol com os amigos ou até uma aula da Universidade (!!) para ver o episódio desse dia, ou a aceder aos incipientes recursos cibernéticos da época para encontrar ‘spoilers’ sobre o que se iria passar a seguir. Era simplesmente mais um desenho animado ‘fixe’ – um estatuto que DBZ largamente transcendeu, e que a continuação, o muito esperado ‘Dragon Ball GT’, nunca sequer esteve perto de atingir.

Mas como diria George Harrison, ‘all things must pass’ – e o fenómeno Dragon Ball Z, embora mais duradouro que muitos outros surgidos naqueles anos 90, acabou mesmo por esmorecer. Muita da responsabilidade pode ser atribuída à própria SIC, que comprou um número limitado de episódios da série e, quando milhões de crianças salivavam pela continuação da saga Cell, e pela introdução do novo vilão Bubu (Buu)…re-iniciou a exibição a partir do primeiro episódio! Sem paciência para verem novamente os quarenta mil episódios para ‘encher chouriços’ da saga Freezer (aqueles que começavam e acabavam com um herói e um vilão frente a frente, a trocar ameaças, ficando o confronto sempre para o famoso ‘próximo episódio’), a criançada tratou de arranjar outros focos de interesse, fazendo esfriar consideravelmente a ‘febre’ que se verificara até então. A SIC ainda tentou corrigir o seu erro, transmitindo os novos episódios ao Sábado de manhã para um público ainda bastante interessado, mas a loucura, tal como ela havia sido poucos meses antes, não se voltaria a verificar.

Mesmo assim, a transmissão portuguesa de Dragon Ball Z constitui, ainda hoje, uma memória indelével para toda uma geração, que acompanhou sofregamente cada novo episódio (incluindo os referidos ‘fillers’), comprou o merchandise (oficial ou, mais frequentemente, pirata) e fez daquele ‘anime’ descomprometido um verdadeiro culto da sua infância e adolescência. Fosse pelo inesquecível tema-título (que alguém de certeza já está por aí a cantar), pela dobragem cheia de referências específicas da época, e em grande parte improvisada por apenas uma mão-cheia de atores (aquilo a hoje se chamaria uma ‘gag dub’) ou simplesmente pelo fator ‘cool’ que emanava, as aventuras de Son Goku e amigos são, ainda hoje, uma das primeiras coisas que qualquer ‘90s kid’, sobretudo do sexo masculino, recordará quando chamado a relembrar a sua infância.

                   

Vá, cantem lá. Vocês sabem que querem.

E vocês? Qual a vossa melhor memória desta mítica série ‘anime’? Deixem as vossas recordações nos comentários!

18.03.21

                                                                   

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Ser criança ou adolescente durante os anos 90 foi - como qualquer '90s kid' prontamente admitirá - uma experiência especial. Com as devidas ressalvas - nomeadamente, de que qualquer década em que se cresça será sempre a mais especial - os anos finais do século XX foram, verdadeiramente, um tempo único, que combinou a mudança social, cultural e tecnológica de uma forma que não poderia deixar de ter impacto sobre aqueles cuja idade era suficientemente reduzida para por ela serem influenciados.
 

Portugal não foi exceção neste aspeto. Numa altura em que a globalização e a sociedade digital em rede fazem com que muitas das referências aos anos 90 venham de quadrantes estrangeiros - nomeadamente do Reino Unido ou dos EUA - muita gente acaba por descurar o facto de que este nosso 'cantinho à beira-mar plantado' teve, também, um conjunto de referências muito próprias, e absolutamente inesquecíveis para qualquer 'puto' daquela época.

São precisamente essas referências - quer culturais, quer tecnológicas, ou até sociais - que este blog pretende resgatar e relembrar. Dos brinquedos às séries de televisão, dos videojogos aos artistas musicais, sem esquecer o desporto e os grandes acontecimentos mediáticos (ou, pelo menos, aqueles que tinham interesse para gente com menos de duas décadas de vida), o Portugal Anos 90 propõe-se fazer uma viagem pelo melhor, pior e mais 'tipicamente anos 90' da vida de um jovem em Portugal durante aquela época irrepetível. A aventura começa...agora!

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