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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

13.04.21

A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.

E se em semanas anteriores abordámos aqui as consolas ‘best-seller’ da Sega e da Nintendo durante os anos 90, hoje, chegou a altura de falar do sistema que, vindo do nada, as destronou a ambas, e se tornou talvez a máquina de jogos mais emblemática de toda a ‘nossa’ década…

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A verdadeira 'caixinha de sonhos' para os putos da década de 90.

Sim, essa mesmo – a Sony PlayStation, também conhecida como uma das melhores consolas não só daquela época, mas da história dos videojogos. Tendo gerado, até agora, nada menos do que quatro sucessoras, a caixa cinzenta da então novata Sony constituiu talvez a mais surpreendente história de sucesso do panorama dos videojogos modernos – com Portugal a não constituir exceção nesse aspecto.

Lançada em 1995, numa época em que tudo era ainda novo e excitante e incerto no mundo dos videojogos (e da eletrónica em geral), a PlayStation original tinha a difícil missão de suplantar a Sega Saturn, cujo inovador modo de funcionamento (através de CDs) e impressionantes gráficos poligonais vinham cativando uma geração de ‘gamers’ habituada a usar os algo limitados cartuchos e a ver os jogos de lado ou de cima, num plano bi-dimensional. Jogos como ‘Virtua Fighter’ e a lendária versão de ‘Tomb Raider’ deixavam as crianças e adolescentes da época de ‘queixo caído’ com a sua sofisticação, enquanto jogos divertidos como ‘Daytona USA’, ‘Sega Rally’ ou mesmo ‘Sonic 3D’ representavam aliciantes adicionais para a compra da consola.

Foi para dentro desta arena que a Sony bravamente atirou a sua pequena máquina cinzenta, a qual, apesar das menores dimensões e falta de memória interna relativamente à rival (obrigando ao uso de cartões de memória, o qual representava um custo adicional) mostrou estar mais do que à altura do combate com a mesma – vindo mesmo, rapidamente, a derrotá-la, e a afirmar-se como A consola de 32-bits por excelência.

Os motivos para esta contundente vitória não eram difíceis de perceber. Uma combinação de gráficos ainda melhores que os da Saturn com jogos ainda melhores que os da Saturn (entre os títulos de lançamento da PS estavam jogos como ‘Crash Bandicoot’, ‘Ridge Racer’, ‘Wipeout’ ou ‘Tekken’) ajudou a estreante consola da Sony a entrar rapidamente e de rompante nos corações dos jogadores de todo o Mundo – incluindo dos portugueses – e a tornar-se o presente mais desejado dos Natais de 1995 e 1996 para jovens de todas as idades. Até mesmo a revolucionária Nintendo 64, com o dobro da potência da PlayStation, se viu e desejou para rivalizar com a consola da Sony (até pelos jogos muito mais caros, e no obsoleto formato de cartucho em vez do vigente CD) acabando por ter de contentar-se com um estatuto de culto, que mantém até hoje.

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'Wipeout', um dos jogos de lançamento da consola

Com a última adversária ‘fora de jogo’, estava aberto o caminho para o reinado da hoje chamada Playstation One. E que reinado teve a consola da Sony! A pequena caixa cinzenta – que mais tarde se tornou ainda mais pequena e branca, com o lançamento do modelo PSOne – dominou o que restava dos anos 90 e o princípio da década seguinte, resistindo, qual gaulês de Goscinny e Uderzo, à investida de 128 bits da Sega (com a revolucionária mas malograda Dreamcast, uma espécie de ‘Saturn parte II’) e ao aparecimento da nova geração de consolas portáteis de 32 bits, entre outros fenómenos tecnológicos da época.

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O modelo PSOne

A única consola que conseguiu tornar obsoleta a PlayStation One foi, portanto…a PlayStation 2, lançada em 2000 e que confortavelmente ocupou o lugar que havia sido da sua antecessora. Mesmo assim, o ciclo de vida da ‘Um’ não teve fim imediato – pelo contrário, a pioneira de 32 bits ainda se ‘aguentou’ algum tempo, tendo acabado por ‘reformar-se’ com elegância, não sem antes oferecer aos ‘gamers’ da sua geração excelentes versões 32-bits de jogos como ‘Tony Hawk’s Pro Skater 3’. Quanto ao seu legado, esse, é inegável, sendo a caixinha de surpresas da Sony tida ainda hoje - passadas quase duas décadas da sua retirada - como um dos melhores sistemas de jogos de sempre, tendo mesmo feito parte da atual série de replicas ‘Mini’ (das quais é, infelizmente, de longe a pior…)

E vocês? Tinham PlayStation? Quais os vossos jogos favoritos? Por aqui, não se tinha, mas queria-se – desesperadamente. Entretanto, ia-se jogando nas lojas e em casa de amigos…e vinte anos depois, acabar-se-ia mesmo por viver o sonho de infância, sendo que hoje em dia ‘mora’ cá por casa uma caixinha cinzenta que toca CDs pretos, e que é tão prezada como teria sido lá nos idos de 1997…

13.04.21

NOTA: Este post corresponde a Segunda-feira, 12 de Abril de 2021.

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

E hoje falamos de uma série que, apesar de dirigida a um público adulto, fez também grande sucesso entre os grupos etários mais novos quando foi transmitida em Portugal – primeiro pela RTP e depois, memoravelmente, pela TVI.

Sim, essa mesmo – a lendária 'Baywatch', conhecida em Portugal como ‘Marés Vivas’, e que marcou as tardes de muitas crianças e adolescentes durante aquela década.

Inicialmente concebida em 1989, como homenagem a um acontecimento real, a série sobre a equipa de banheiros salva-vidas mais atraente da história não viria, no entanto, a conhecer sucesso até ao início da década seguinte, tendo as audiências da primeira temporada sido bastante discretas por comparação com as dez seguintes. Ainda assim, após ter ganho tracção, a série tornou-se um verdadeiro fenómeno, sendo ainda hoje o programa de ficção mais visto da história da televisão.

Como não podia deixar de ser, esse sucesso acabaria, eventualmente, por ‘dar à costa’ em Portugal (sem que houvesse qualquer equipa de esculturais salva-vidas pronta a prestar socorro) alguns anos depois de ter conhecido sucesso nos EUA – como, aliás, costumava acontecer com a maioria dos produtos de ‘media’ daquele tempo. Talvez conhecedora do sucesso que o programa fazia do outro lado do Atlântico, a RTP comprou os direitos de transmissão, tornando-se a primeira estação a exibir as aventuras de Mitch Buchannon e companhia em território nacional. O proveito, no entanto, ficaria para a TVI, pois seria sob a alçada da estação de Queluz que a série viveria o seu momento de maior popularidade entre os espectadores portugueses. Ao todo, foram cinco anos, de 1992 a 1997, em que o grupo de nadadores-salvadores de Malibu se tornou companhia fiel de miúdos e graúdos, tornando a série num dos mais memoráveis êxitos da televisão portuguesa nos anos 90.

A razão para este sucesso, essa, é bem conhecida…

 

Sim, a famosa ‘corrida em câmara lenta’, a principal imagem de marca de ‘Marés Vivas’, é famosa ao ponto de se ter tornado meme na Internet...antes mesmo de existir o conceito de meme. Concebida com o fito único de realçar os atributos físicos do elenco, acontecia no mínimo uma vez por episódio, e era o momento favorito da maioria dos espectadores, até aqueles que viam a série pelas histórias. Isto porque os ‘corredores’ constituíam um verdadeiro desfilar de corpos esculturais, com destaque para Pamela Anderson Lee (dona, à época, das curvas mais conhecidas do Mundo) mas entre os quais também se contavam nomes como Carmen Electra e Yasmin Bleeth (do lado das mulheres), ou os 'três Davids' - David Chokachi, David Charvet e o próprio Hasselhoff - do lado dos homens, todos presenças assíduas nas revistas de 'teen idols' da época. No cômputo geral, havia muito que admirar, fazendo com que valesse a pena ver os episódios, até quando as histórias eram mais ‘fraquinhas’…

Que não se pense, no entanto, que as tais cenas em ‘slow-motion’ eram tudo o que Marés Vivas tinha para oferecer; pelo contrário, no auge da sua popularidade, o programa contou com ‘cross-overs’ com a companhia de luta-livre americana WCW, entre outros atrativos de peso para o público jovem. Isto sem esquecer Hobie o filho de Mitch, um personagem adolescente destinado a servir de ‘elo’ com o público, e que era relativamente bem-sucedido nessa missão. No entanto, não vale a pena tentar negar que, sem as mulheres em fato de banho e os homens em tronco nu a correr na praia, tudo isto teria sido, mais ou menos, em vão…

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Em suma, ‘Marés Vivas’ era exatamente aquilo que ambicionava ser – uma série ‘levezinha’, declaradamente ‘popcorn’, de escapismo puro (veja-se o elenco…) e que se alinhava perfeitamente com outros produtos televisivos da época que aqui abordaremos paulatinamente, como ‘Beverly Hills 90210.’ O legado e estatuto de que hoje goza devem-se, sobretudo, à paixão da Internet pela nostalgia da infância, para a qual estamos, neste preciso momento, a contribuir. Ainda assim, o seu sucesso foi suficiente para justificar não uma, mas DUAS séries ‘spin-off’, ‘Baywatch Nights’ e ‘Baywatch Hawaii’, esta com Jason Momoa com um dos membros da equipa.

É claro que nenhuma das duas sequer ameaçou atingir os níveis de sucesso do original, e o ‘franchise’ viria mesmo a desaparecer da memória colectiva da sociedade em geral…até 2017, em que a febre dos ‘remakes’ de tudo e mais alguma coisa levou a uma tentativa de ressuscitar ‘Baywatch’, sob a forma de um filme com The Rock e Zac Efron nos principais papéis, e uma toada mais declaradamente cómica.

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Poster do filme de 2016

Apesar da recepção afável de que gozou, no entanto, o filme não deixou totalmente satisfeitos nem os fãs da série – que não gostaram do tom de paródia – nem aqueles que esperavam uma abordagem mais sarcástica, para os quais o filme se afirmou demasiado sério. Assim, e até ver, a dita longa-metragem terá mesmo sido o último prego no caixão deste ‘franchise’ que marcou tantas crianças e adolescentes durante os seus anos áureos – não sendo Portugal exceção a essa regra.

E vocês? Viam? Gostavam? Qual o vosso salva-vidas-modelo favorito? Por aqui, a então jovem Carmen Electra ganhava (e ainda ganha…) à plástica Pamela… Concordam? Discordam? Façam-se ouvir nos comentários!

11.04.21

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.

E que melhor maneira de dar seguimento a esta rubrica do que falando da melhor equipa  de que a Seleção Nacional portuguesa alguma vez desfrutou, e que teve o seu auge precisamente durante os anos 90?

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Dois dos expoentes máximos do futebol português das décadas de 90 e 2000

Sim, hoje vamos falar da mítica ‘Geração de Ouro’, o grupo de jogadores que se sagrou bi-campeão nacional de sub-21, e mais tarde guiou a Seleção das Quinas a algumas das suas melhores prestações de sempre em campeonatos internacionais, culminando naquela célebre e amarga final do Euro 2004, em pleno Estádio da Luz, depois de mais uma enorme campanha.

Mas comecemos por onde se deve, ou seja, pelo início. Início esse que se deu em Riade, Arábia Saudita, palco do Campeonato Mundial de Juniores de 1989. Foi nesse local, durante o verão do último ano da década de 80, que Luís Figo, Rui Costa, João Vieira Pinto, Paulo Sousa, Jorge Costa, Paulo Madeira e Fernando Couto jogariam pela primeira vez juntos, ao lado de nomes menos conhecidos ou ‘esquecidos’ como Cao, Valido, Gil ou Toni. E o resultado desta junção de talentos não podia ter sido melhor – o grupo não só conquistou o campeonato naquele ano, como viria a revalidar a façanha dois anos depois, em território nacional, e com a equipa já acrescida de nomes como Abel Xavier ou Rui Bento. Bicampeões mundiais antes dos 21 anos, portanto – uma façanha de que apenas as melhores equipas do Mundo (e de sempre) se podem gabar.

Mas a beleza da história da Geração de Ouro é que, conforme indicámos no parágrafo anterior, este duplo triunfo constituiria apenas o início da sua caminhada. Durante os 15 anos seguintes, este mesmo grupo de jogadores daria mais ao país do que qualquer outro da era pré-Cristiano Ronaldo, e faria história tanto em competições internacionais como de clubes. Pelo caminho, alguns nomes ficariam para trás – João Oliveira Pinto, Paulo Torres, Bizarro – e outros se juntariam ao grupo-base, casos de Vítor Baía, Dimas, Rui Jorge, Pauleta, Deco ou o próprio CR7. A base, no entanto, não se alteraria, tendo todos ou alguns dos nomes citados acima estado presentes em todas as convocatórias da Seleção Nacional entre o Mundial de 94 e o Campeonato Europeu realizado em Portugal dez anos depois.

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A equipa portuguesa no Mundial de 2002

Nesse espaço de sensivelmente uma década, este mesmo grupo iria do melhor (aquela campanha do Euro 2000, fadada a acabar num golpe de azar depois de um esforço hercúleo de todo o grupo, ou a do Euro 2004, gorada por duas desatenções defensivas) ao pior (a vergonhosa campanha de 2002, na Coreia e Japão, ‘coroada’ pelo famoso murro desferido por João Vieira Pinto ao árbitro da partida com a Coreia do Sul), sempre com os níveis de apoio dos adeptos bem em alta. Aquela era, de facto, uma Seleção Nacional que valia a pena apoiar, e que dava gosto ver jogar, ficando na memória dos adeptos mais jovens durante a década de 90 as eliminatórias de grupos sempre muito fáceis e relaxadas, marcadas por ‘cabazes’ regulares ao Liechtenstein (o nosso ‘saco de treino’ preferido), Luxemburgo e outras seleções a que, hoje em dia, a equipa se vê e deseja para ganhar. Nessa época, menos que 4-0 a esse tipo de seleções era derrota, e normalmente os jogos acabavam com resultados mais perto dos dez golos de diferença do que do um ou dois normais em confrontos internacionais.

Já contra equipas do mesmo nível ou acima, os jogos eram, previsivelmente, bastante mais renhidos, mas mesmo assim, a equipa fazia boa figura, ficando na memória a reviravolta contra a Inglaterra, no jogo de abertura do grupo A do Euro 2000, ou os malfadados quartos-de-final contra a França, em que uma mão de Abel Xavier no prolongamento ditou o adeus - isto já para não falar do Ricardo a defender penalties de Beckham e companhia sem luvas, em 2004. Estes momentos de triunfal brilhantismo quase ajudam a esquecer ‘borrões’ como os de 2002 – em que Portugal fez uma fase de grupos paupérrima contra adversários mais do que acessíveis – ou de 1996, em que um golo do benfiquista Poborsky, mais tarde do Manchester United, ditaria o afastamento nos quartos de final. Qualquer que fosse o resultado, no entanto, uma coisa era certa – qualquer campanha de Portugal constituía uma verdadeira ‘montanha-russa’ emocional, o que tornava os jogos da equipa ainda mais entusiasmantes.

21 anos depois, ainda emociona...

Claro que haverá quem diga que a equipa de 2016 era melhor – até porque conseguiu o que a Geração de Ouro nunca chegou a conseguir. No entanto, para quem prefere os ‘quases’ com espetáculo do que as conquistas com sorte e serviços mínimos, aquele grupo de jogadores continua a ser irrepetível – uma espécie de ‘dream team’ do Manchester United, mas em versão internacional. E que saudades deixam aqueles ‘passeios’ de 8-0 consecutivos nas fases de apuramento, em vez do constante ‘suar’ (e somar, no sentido de fazer contas) das trajetórias actuais…

E vocês? Que memórias retêm da Geração de Ouro do futebol português? Quem era o vosso jogador favorito? Aqui por casa, e apesar da afiliação clubística ‘contrária’, a preferência sempre foi para o ‘génio’ baixote, João Vieira Pinto… Concordam? Discordam? Façam-se ouvir nos comentários. E até lá, gritem Portugal!

10.04.21

Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos e acessórios de exterior disponíveis naquela década.

E se no primeiro episódio desta rubrica falámos dos patins em linha, hoje vamos falar de outro equipamento, não menos popular entre as crianças da época: a bicicleta BMX.

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Os anos 90 – não só em Portugal como em outros países, como o Brasil – foram uma época estranha para estas bicicletas de rodas pequenas e guiador alto. Isto porque, enquanto que em outras décadas este tipo de veículo ficava mais ou menos restrito ao mundo dos desportos radicais, durante os anos 90, o mesmo tornou-se quase o padrão de bicicleta para crianças de uma certa idade – nomeadamente, aquelas que já eram muito grandes para bicicletas infantis, e não eram ainda grandes o suficiente para ‘biclas’ de montanha, as chamadas BTT. Enquanto que hoje em dia vemos crianças em idade de instrução primária ou preparatória já montadas em bicicletas quase maiores do que elas, naquele tempo, a bicicleta BMX servia como uma espécie de etapa ou degrau intermédio, que ganhava pontos extra entre a miudagem por ter uma aura desejável e ‘fixe’ - à conta da referida associação aos desportos radicais, que estavam na altura em alta entre os jovens portugueses, mas também dos seus designs atraentes e cores arrojadas. Assim, onde hoje se vêm BTTs, viam-se, na altura, muitas BMX, a maioria pilotada por crianças e adolescentes entre os 8 e os 14-15 anos.

Um facto curioso em relação a estas bicicletas, e potencial motivo de orgulho para os ‘putos’ portugueses daquele tempo, prende-se com o facto de vários dos mais populares modelos de BMX serem feitas no nosso país. As marcas Esmaltina e Orbita, duas das mais populares entre os miúdos dos 90s, eram de fabrico cem por cento nacional, tendo ambas as marcas um elevado padrão de qualidade que as colocava entre as melhores disponíveis no setor na época. O facto de estas marcas estarem disponíveis não só em lojas de bicicletas, mas também em hipermercados e grandes superfícies – sendo mesmo a presença deste tipo de produtos uma das principais e mais excitantes novidades desse tipo de espaços – também assegurava que estas bicicletas de alta qualidade mas preço mais ou menos acessível estava facilmente disponível a quase todas as crianças portuguesas, garantindo assim vendas e popularidade para ambos os fabricantes.

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Um dos modelos da Órbita da época

Conforme referido acima, com o passar dos anos, a popularidade das bicicletas tipo BMX foi decaindo, ao ponto de hoje em dia as mesmas se encontrarem, novamente, restritas ao nicho de praticantes de desportos radicais. No entanto, durante um breve período em finais do século XX e inícios do XXI, este tipo de veículos foi parte integrante da infância de muitas crianças, não só em Portugal como um pouco por todo o Mundo, tendo mesmo chegado a inspirar o lançamento de videojogos baseados no seu uso. Justifica-se, portanto, a sua presença nas páginas deste blog, ao lado de outros ‘fads’ de exterior daquele tempo, como os referidos patins em linha ou ainda os carros elétricos, de que também falaremos aqui paulatinamente.

Para já, no entanto, a praça é vossa – venham de lá essas memórias sobre a ‘bicla’ da infância, ou sobre aquela que queriam ter e nunca tiveram. Da nossa parte, fica a memória de muitas e boas horas passadas ao selim do modelo cá de casa, uma Orbita vermelha e amarela, que ainda existe, e que por cá continua, à espera de novos ‘vôos’…

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Não era esta, mas quase... (crédito da imagem: Ciclovintage)

 

09.04.21

Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.

E hoje vamos falar de um item que todos tivemos, e vimos os adultos à nossa volta terem naquela saudosa década – o belo do fato de treino.

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Quem não teve, que se acuse...

Pois é, antes de serem parte indispensável do estilo ‘street/urbanwear’, e mais tarde voltarem a ser conotados com a sua função original – o desporto - os fatos de treino eram uma espécie de ‘fashion statement’ das massas, algo que estava inexplicavelmente na moda e cujo uso era massificado, não só entre as crianças e jovens mas um pouco por toda a sociedade.

E dizemos ‘inexplicavelmente’ porque o típico fato de treino de inícios dos anos 90 era o chamado ‘shell-suit’, um conceito herdado da década anterior e, como tal, cheio dos principais ‘tiques’ da mesma - nomeadamente o uso simultâneo de várias cores e tons berrantes e contrastantes, que produzia coisas como esta:

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Menos, malta do design...menos.

Mais tarde, sensivelmente a meio da década, alguém com algum bom-gosto decidiu que os fatos de treino deveriam ter cores mais neutras, de preferência escuras, e deixar os brancos e cores vivas apenas para os detalhes. Este estilo marcou a segunda vaga de fatos-de-treino a invadir Portugal durante os anos 90, a maioria dos quais incluía as famosas riscas verticais nas pernas popularizadas pela Adidas, em conjunto com um padrão que unia uma cor escura de base (tipicamente o preto ou azul-escuro) com um segundo tom, normalmente usado para a parte da frente e ombros do casaco. 

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Exemplo de um fato-de-treino de meados dos anos 90.

Entretanto, em paralelo a estes dois tipos de fatos-de-treino ‘fashion’, havia outro, mais tipicamente usado pelas crianças em idade de instrução primária ou preparatória, mas também popular entre as mulheres. Este tipo de fato-de-treino era normalmente feito de algodão e com um motivo bordado na camisola, indo do elegante e clássico ao berrante e ‘over-the-top’, mas sem nunca chegarem ao nível dos pesadelos de cores que podiam ser os fatos-de-treino para adultos.

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Exemplo contemporâneo de um fato-de-treino de criança ao estilo dos anos 90.

Estes três tipos de fatos-de-treino – ou só o casaco, ou só as calças – serviam, nos anos 90, para quase tudo, desde fazer desporto ou brincar na rua (o uso mais ‘natural’ deste tipo de peça) até ir para a escola, ao café, ao jardim ou até ao hipermercado. As únicas alturas em que não eram usados eram no escritório (no caso dos adultos) em festas, em visitas a familiares e em locais como a igreja. De resto, eram fiéis companheiros de muitos portugueses e portuguesas, de todas as idades, durante aqueles anos 90.

E vocês? Quando e onde usavam o fato de treino? De que tipo eram os vossos? (Não vamos perguntar se tiveram, porque CLARO que tiveram….) Deixem as vossas memórias nos comentários!

08.04.21

Todas as crianças gostam de comer (desde que não seja peixe nem vegetais), e os anos 90 foram uma das melhores épocas para se crescer no que toca a comidas apelativas para crianças e jovens. Em quintas-feiras alternadas, recordamos aqui alguns dos mais memoráveis ‘snacks’ daquela época.

E se numa outra quinta-feira falámos aqui dos Tazos (e em futuras quintas-feiras falaremos dos Matutolas, Pega-Monstros, Caveiras Luminosas e outras promoções memoráveis), hoje falamos da gama de ‘snacks’ nos quais estes e outros brindes podiam ser adquiridos: as batatas fritas Matutano.

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Antes de mais nada, sim – temos plena consciência de que (quase) todas as batatas fritas de que falaremos neste post ainda existem. Mas também não há como negar que estas ‘bombas’ salgadas marcaram a infância de qualquer criança dos anos 90, e que foi também nessa década que a Matutano engendrou algumas das suas melhores promoções de sempre; com isso em mente, um post em homenagem a estes ‘snacks’ afigura-se mais que merecido.

A gama de ‘snacks’ à base de batata da Matutano dividia-se em cinco grandes categorias:

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- As batatas Ruffles eram as mais populares, pelo menos entre os mais novos. Com um característico visual ‘encarquilhado’ e maior teor de sal do que as batatas da gama Lay’s, estes deliciosos mas muito pouco saudáveis fritos eram disponibilizados em vários sabores, do qual o ‘normal’ era o mais frequentemente consumido pela maioria das crianças. Outros havia que escolhiam um dos sabores de carne – e APENAS um – como o seu favorito, não tendo a noção (ou a coragem de admitir) que todos eles sabiam, mais ou menos, ao mesmo, tendo todos um também característico travo picante. Fosse qual fosse o sabor favorito, o certo é que a preferência da miudagem ia mesmo para as Ruffles, que seriam talvez um dos items mais vendidos em cafés e bares de escolas e clubes por esse Portugal fora.

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- Lisas e sem tanta ‘piada’ (talvez por terem menos sal) as Lay’s eram vistas como a batata mais ‘para adultos’, por comparação com as Ruffles. Isto apesar de, em 1998, terem gerado um dos anúncios mais ‘meméticos’ de sempre em Portugal, numa altura em que o termo ‘meme’ ainda nem existia.

                     

'O que é que se diz à senhora...?'

Mesmo com este veículo de exposição ao sempre volúvel público mais novo, no entanto, as Lay’s sempre foram a ‘segunda escolha’ da miudagem no que toca a ‘snacks’ de batata, aqueles que se comiam apenas se não houvesse mais nenhum de que se gostasse - e se neste ‘ranking’ se incluirem também os de milho, a situação fica ainda mais desnivelada.

E por falar em snacks de milho…

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- Com uma das mascotes mais reconhecíveis do início dos anos 90, os Cheetos fizeram um sucesso estrondoso entre a criançada, levando a Matutano a lançar mais e mais sabores e variantes no mercado nacional – das quais a mais memorável talvez fossem as ‘Futebolas’, em formato de bolas de futebol. Com o tradicional gosto a milho ‘processado’ e a cobertura alaranjada que ficava nos dedos (e em tudo o mais em que se tocasse), estes ‘snacks’ eram feitos à medida para deliciar as crianças e irritar os pais, que tinham que limpar cada superfície em que a criança tocasse enquanto os comia – ou até depois de os comer. Um previsível sucesso de vendas, portanto.

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- Os Doritos apareceram mais tarde no mercado, mas ainda foram a tempo de fazer sucesso, com o seu sabor próximo das ‘tortilla chips’ americanas. Como bonus, neste caso, as variantes tinham MESMO sabores distintos…

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Destes, nem existem imagens 'de época', pelo menos de Portugal e sem marca de água...

- Os ‘outros’. Fritos e 3D’s não se encaixavam exactamente em nenhuma das ‘gamas’ da marca, sendo ‘lobos solitários’ no catálogo da Matutano da época. Ambos eram (e são) deliciosos, embora os ‘putos’ fossem mais atraídos pelo visual único dos 3D’s do que pelas mais tradicionais tiras dos Fritos.

Como dissemos no início do post, todas estas gamas se encontram ainda disponíveis, e algumas até expandidas em relação àqueles tempos; no entanto, sem as promoções e brindes apelativos, e o contexto sócio-cultural e temporal de ser criança e fazer esse tipo de coleccionismo, tudo o que fica são uns aperitivos industriais processados, com sal a mais, e maus para a saúde. O que não constitui necessariamente, bem entendido, um fator impeditivo à sua compra; só é pena que a ‘magia’ e antecipação que derivavam de comprar um pacote aos dez anos não se mantenha até à vida adulta. Enfim, restará sempre a nostalgia…

E por falar em nostalgia, sentem-na em relação às batatas Matutano? Continuam a comê-las hoje? Qual a vossa favorita? Partilhem as vossas opiniões nos comentários!

07.04.21

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog...

…como é o caso da literatura juvenil.

Não, não estamos a falar de banda desenhada; neste post, falamos de livros ‘à séria’, daqueles com capítulos e enredos, só que especificamente criados para agradar a um público infanto-juvenil - aquilo a que nos EUA se chama ‘middle-grade literature’. E os anos 90 foram, sem dúvida, pródigos em exemplos deste tipo de livro, muitos deles orgulhosamente ‘made in Portugal’, e cuja leitura nenhuma criança com alguma propensão para a palavra escrita dispensava.  É precisamente dessas séries de produção inteiramente nacional que este post vai tratar, ficando a próxima Quarta de Quase Tudo reservada para os representantes estrangeiros e traduzidos do género.

No que toca a séries infanto-juvenis concebidas e escritas por autores portugueses, destacam-se de imediato duas, ambas dirigidas ao tal público ‘middle-grade’ (compreendido, sensivelmente, entre o final da escolaridade primária e o final do 3º ciclo do ensino básico) e que fizeram, em maior ou menor grau, parte da infância de qualquer ‘puto’ com queda para a leitura.

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Alguns dos títulos da colecção Uma Aventura

Começando pelos produtos nacionais, não poderíamos escrever um post sobre literatura infanto-juvenil em Portugal e deixar de fora o seu expoente máximo. Concebida e iniciada ainda em inícios dos anos 80, a colecção Uma Aventura continua a ser publicada até aos dias de hoje, contando já com 62 volumes (estando o 63º previsto para sair neste ano de 2021) e prestes a completar quarenta anos de presença constante nos escaparates – e nas estantes das crianças portuguesas. E isto sem nunca ter sido redesenhada a nível do grafismo, ou cedido a quaisquer modismos desse género!

A razão do sucesso de Uma Aventura – que já foi adaptada para televisão e cinema, sempre com boa recepção – não é difícil de perceber. Tal como todas as melhores obras infanto-juvenis, a prosa trata os leitores como seres inteligentes, e perfeitamente capazes de perceber e apreciar livros escritos em linguagem simples, mas não simplista, e com enredos bem pensados e adaptados à sua realidade. Junte-se a isso um ‘cast’ de personagens memorável (incluindo os dois cães) e ilustrações cuidadas e com um estilo distinto e imediatamente reconhecível (da autoria de Arlindo Fagundes, colaborador das autoras desde o primeiro volume da colecção), e está concebida uma série intemporal, e pronta a agradar a gerações de crianças – como, aliás, vem sendo o caso.

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O elenco de uma das adaptações televisivas da série

A receita aparentemente simples desta colecção – basicamente ‘Os Cinco’ adaptados à realidade portuguesa de finais do século XX – continua a revelar-se surpreendentemente versátil e ‘elástica’, e é de imaginar que enquanto a dupla de autoras Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada tiver inspiração e público-alvo, a colecção não deixe de somar números. Qualquer que seja o seu futuro, no entanto, a verdade é que Uma Aventura já faz parte da malha cultural portuguesa, e que os anos 90 foram responsáveis por uma boa parcela do seu sucesso.

Ao mesmo tempo que Pedro, Chico, João e as Gémeas defrontavam malfeitores nos mais diversos lugares, um outro grupo de personagens disputava com eles o coração dos leitores entre os 7 e os 14 anos. Tratava-se do Clube das Chaves, uma série mais voltada para o mistério em detrimento da aventura, mas que partilhava com a sua principal ‘concorrente’ a escrita sofisticada, os enredos inteligentes e envolventes, e as ilustrações apelativas.

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As capas originais d''O Clube das Chaves', com as excelentes ilustrações de Luís Anglin

De facto, as ilustrações de Luís Anglin eram tão sinónimas com a série como as de Arlindo Fagundes com Uma Aventura, e se possível, ainda melhores que as da série da Caminho, com um estilo arredondado e ‘cartoony’ que traduziria muito bem para um formato de BD ou animado. Infelizmente, a série nunca fez sucesso que justificasse qualquer destes veículos, embora, como Uma Aventura, tivesse sido adaptada para TV, cinco anos após a publicação do último livro da série.

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O elenco da adaptação televisiva d''O Clube das Chaves', de 2005

A principal diferença da série de Maria Teresa Maia Gonzalez e Maria do Rosário Pedreira em relação a Uma Aventura, além do tom menos aventuroso e mais detectivesco, foi o facto de a mesma ter tido uma conclusão definida e, tudo indica, planeada. No total, a colecção teve 21 volumes, espalhados ao longo de exatos dez anos, o último dos quais fechou com ‘chave de ouro’ – passe o trocadilho – a epopeia dos irmãos Pedro e Anica, dos seus primos Guida, André e Vasco e do amigo Frederico para decifrar os mistérios das chaves do avô Cosme. No final da série - e um pouco ao contrário dos personagens algo ‘parados no tempo’ da série rival - todos os jovens eram fisicamente mais velhos, e por consequência mais maduros e com personalidades mais moldadas, oferecendo assim uma perspetiva muito realista do processo de crescimento e da adolescência.

Além destas duas séries, que constituíam leituras ‘por prazer’ para muitos jovens portugueses dos anos 90, destaque ainda para uma autora algo mais ‘mal-amada’ por aquele setor, sobretudo pelo facto de lhes ser ‘impingida’ na escola. Falamos, é claro, de Sophia de Mello Breyner Andresen, cujas obras ‘A Menina do Mar’ e ‘O Cavaleiro da Dinamarca’ foram parte inescapável da disciplina de Língua Portuguesa para muitas crianças do 3º ciclo durante aqueles anos (e, muito provavelmente, ainda hoje.)

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Uma capa memorável para a maioria das crianças portuguesas dos anos 90 - pelas melhores ou piores razões...

Embora seja inegavelmente uma das grandes escritoras portuguesas contemporâneas, e a sua morte tenha significado uma perda considerável para a literatura nacional, Sophia é (ou era) bem menos consensual entre as crianças do 7º, 8º e 9º anos naquela década de 90. Apesar de praticar um estilo simples, as suas histórias apresentavam-se algo ‘pesadas’, não captando o interesse da maioria dos alunos forçados a passar um par de horas com elas, duas a três vezes por semana. Ainda assim, seria uma omissão de monta falar em literatura infantil nacional nos anos 90 sem mencionar estas obras, que – uns anos depois, e em retrospectiva – se afiguravam bem escritas e até algo envolventes.

Antes de darmos este post como concluído, espaço, ainda, para recordar outras séries de algum sucesso entre o público infanto-juvenil da época, como o Detective Maravilhas (de Maria do Rosário Pedreira, co-autora do Clube das Chaves, e com ilustrações novamente a cargo de Luís Anglin) ou O Bando dos Quatro, de João Aguiar, e baseada numa série televisiva. Embora nenhuma destas colecções tenha tido o sucesso de Uma Aventura ou O Clube das Chaves, ambas forneceram às crianças portuguesas de finais da década de 90 bom material de leitura, justificando a sua inclusão neste artigo.

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As séries 'Detective Maravilhas' e 'O Clube dos Quatro'

Como mencionado no início do post, em termos de Parte I, ficamos por aqui; a segunda parte deste tema será publicada daqui a 15 dias. Até lá, a sala é vossa – liam estas séries, ou outras? Qual a vossa favorita? Faltou-nos falar de alguma? Deixem as vossas opiniões nos comentários!

 

06.04.21

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

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Está no ar

O Batatoon

A alegria já está para chegar

Chegou o Batatinha, sempre a sorrir

E o Companhia para atrapalhar…!

Pois é, depois de na semana passada termos falado do ‘rei’ dos programa infantis durante a década de 90, hoje, chegou o momento de falarmos do principal rival – ou antes, sucessor – de Ana Malhoa nos corações das crianças portuguesas: o palhaço Batatinha, e o seu inesquecível e inimitável Batatoon.

No ar a partir de 1998, na ‘outra’ estação independente da televisão portuguesa, o Batatoon desfrutou – pensadamente ou não – do ‘timing’ perfeito para se tornar campeão das audiências infantis. Isto porque foi, precisamente, em 1998 que o Buereré deixou de lado o formato de auditório, para se tornar apenas mais um bloco de desenhos animados no horário pós-escolar das tardes de semana. O caminho estava, assim, aberto para que António Branco e Paulo Guilherme – mais conhecidos pelas suas identidades artísticas como a dupla de palhaços Batatinha e Companhia – apanhassem a ‘bola’ largada por Ana Malhoa e, no canal rival, erguessem um programa muito semelhante, e com tanto (ou mais) sucesso.

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A dupla de apresentadores do programa

Por comparação com o Buereré, o Batatoon afirmava-se como um programa menos ‘foleiro’ e ‘over-the-top’, mais centrado nas rábulas dos dois palhaços e nos desenhos animados em si, e menos em convidados ou grandes números musicais coreografados – o que não impedia que o genérico inicial e final fossem acompanhados de coreografias próprias, das quais a mais conhecida e memorável é o inesquecível esbracejar ao som de ‘Ba-Bata-Batatooooooon!’

No entanto, tirando esses dois momentos, e o ocasional aniversário de um participante (também com música e danças a condizer), o programa deixava de parte o lado musical em favor das vinhetas em estilo ‘pastelão’ dos dois apresentadores, cujos vários anos de trabalho em conjunto – primeiro no ‘Circo Alegria’ da RTP, e mais tarde no ‘Vamos ao Circo’ da SIC – lhes outorgavam uma química invejável, que resultava em muitos e bons momentos de humor, sempre concluídos com o Companhia a levar um chuto em direção à mítica ‘portinha’ (que se presume fosse a propria porta de saída do estúdio, embora isso ficasse a cargo da imaginação dos espectadores.) O restante tempo era, para além dos próprios desenhos animados, preenchido por jogos e passatempos, tanto com a participação das crianças convidadas a assistir em estúdio como de participantes externos, através do telefone. A estes, o Batatinha fazia sempre questão de enviar um ‘presentão’ através do telefone, normalmente um produto licenciado do próprio programa.

E já que falamos em produtos licenciados, o Batatoon teve-os em número e variedade surpreendentes. Dos tradicionais puzzles e jogos a CDs de música, uma revista oficial, e até objetos mais insólitos como gabardines e guarda-chuvas, Batatinha e Companhia deram a cara – literalmente ou em versão ilustrada – a muito ‘merchandise’ durante aqueles anos, sempre com boa aceitação e vendas.

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Exemplo de um produto licenciado algo insólito, neste caso decorado com as versões ilustradas dos apresentadores do programa

No entanto, como é óbvio, este sucesso não se devia apenas ao carisma dos apresentadores e aos bons guiões do programa; tal como o Buereré, o Batatoon devia grande parte da sua audiência e popularidade aos desenhos animados que a estação de Queluz comprava e exibia. E, neste aspeto, o programa de Batatinha nada ficava a dever ao seu ‘rival’ de Carnaxide – pois se o Buereré havia tido os ‘Power Rangers’ e viria a ter as primeiras temporadas de ‘Pokémon’, o Batatoon tinha ‘Samurai X’ – ‘só’ o segundo anime mais popular da década em Portugal – ‘Alvin e os Esquilos’ e a série original de ‘Digimon Adventure’, além do também bem aceite ‘Sonic Underground’, e ainda séries como ‘Homens de Negro’ e ‘Godzilla’. Foi esta invejável selecção de ‘cartoons’ que levou tantas crianças a sintonizarem o quarto canal de TV, nas tardes de semana, entre 1998 e 2002. Como dizem os anglófonos, ‘they came for the cartoons and they stayed for the clowns’.

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Provavelmente a série de maior sucesso da televisão portuguesa em 1998-99

Mas, como tudo o que é bom e faz sucesso, também o Batatoon encontrou, inevitavelmente, o seu fim. Fim esse que, rezam as lendas, se deveu a um arrufo, ao vivo e no ar, entre os dois apresentadores e parceiros criativos por trás do programa, que teria terminado à ‘batatada’ – ou seria à ‘Batatinha’ – e desfeito a ‘Companhia’… No entanto, uma rápida pesquisa na Internet revela que esta versão dos acontecimentos poderá não ser mais do que um mito urbano – dos quais aqueles anos estavam absolutamente pejados…

Ainda assim, para a história ficam quatro anos de enorme sucesso – metade dos do Buereré, mas a um nível talvez mais intenso no que toca a exposição mediática – e muitas séries que, sem Batatinha e Companhia, as crianças portuguesas talvez nunca tivessem visto. Por isso, deixem nos comentários as vossas homenagens a este marco da televisão infantil portuguesa, e para terminarmos este post em beleza, já sabem o que têm a fazer.

             

 

 

05.04.21

NOTA: Por lapso, este post e o da passada sexta-feira foram publicados na ordem inversa. Retomaremos a ordem correta das rubricas no próximo ciclo.

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas (ou às vezes às segundas, quando nos confundimos com a ordem do calendário) recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

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E se no primeiro post desta série falámos de desenhos animados, hoje, rumamos no sentido quase exatamente oposto, e examinamos uma das outras grande ‘trends’ cinematográficas entre os miúdos daquela década, sobretudo os rapazes: os filmes de ação do tipo ‘explosivo’.

Todos (ou pelo menos todos os que gostavam do género) nos recordamos deles – os grandes épicos de ‘porrada’, tiros e explosões, protagonizados por machões com talento artístico inversamente proporcional ao tamanho dos seus músculos, nominalmente para adultos, mas (graças ao milagre do VHS e a grelhas televisivas algo previsíveis) vorazmente consumidos por toda uma geração ali a partir dos 7, 8 anos de idade.

Com expansão nos anos 80, e com génese nos filmes ‘exploitation’ da década anterior, estes filmes continuaram a estrear com regularidade, ao ritmo de dois ou três por ano, até pelo menos a meados da década de 90, com toda uma ‘segunda linha’ de série B a aparecer nos videoclubes em formato ‘direct-to-video’. Estes últimos eram, normalmente, protagonizados por ‘estrelas’ do calibre de Mark Dacascos, Don ‘The Dragon’ Wilson, ou a ‘Sonya Blade da vida real’, Cynthia Rothrock; no entanto, as produções maiores e mais caras apresentavam, normalmente, um de cinco ‘durões’ no papel principal:

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Schwarzenegger em 'O Último Grande Herói'

- Arnold Schwarzenegger. O futuro ‘Governator of California’ transformaria o estrondoso sucesso de ‘Total Recall’ e ‘Exterminador Implacável 2’ em mais uma década na ‘ribalta’, com filmes típicos do seu naipe, como ‘Eraser’ e ‘True Lies – A Verdade da Mentira’, e outros mais atípicos e voltados para a comédia, como ‘Junior’ ou o grande ‘Um Polícia no Jardim-Escola’. No entanto, muito do seu legado era devido à tecnologia VHS e à propria televisão, através dos quais as crianças ficavam a conhecer antigos sucessos como ‘Comando’. Eram dele, sobretudo, os filmes de tiros e explosões, embora, como mencionado, também tivesse revelado uma surpreendente veia cómica.

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Stallone em 'Demolition Man'

- Sylvester Stallone. Qualquer realizador que precisasse de um brutamontes de poucas palavras e perpétua cara de mau tinha no ‘Italian Stallion’ a sua estrela de eleição. Com ‘Rocky’ já no retrovisor mas ‘Rambo’ ainda em grande (sobretudo, novamente, devido ao VHS), Stallone apresentava-se à nova geração através de ‘thrillers’ como ‘Cliffhanger’ e filmes de ficção científica como 'Demolition Man' ou 'Judge Dredd', enquanto arriscava, como Schwarzenegger, em alguns papéis mais cómicos. No entanto, neste aspeto, ficava bem atrás do austríaco, e os poucos filmes que tentou nesta veia rapidamente caíram no esquecimento. O que o público queria, verdadeiramente, era vê-lo a dar tiros e socos aos mauzões – e foi isso que rapidamente voltou a fazer.

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JCVD na pose que o tornou famoso

- Jean-Claude Van Damme. Com este, não havia espaço para comédias - o ‘Muscles from Brussels’ derrotava mauzões a pontapés de karaté, e ponto final. Um dos atores mais lendariamente limitados da história do cinema de ação, o belga era, ainda assim, um ídolo entre os mais novos, muito graças a papéis em clássicos como ‘Kickboxer’ e ‘Força Destruidora’, além dos então recentes ‘Duplo Impacto’ e ‘Knock-Off – Embate’, este de John Woo. Haveria, ainda, tempo para JVCD deixar a sua marca naquele que é considerado um dos piores filmes de sempre, o mítico ‘Street Fighter – O Filme’, que vê o belga (com sotaque a condizer) interpretar o estereotipadamente americano Coronel Guile. Ainda assim, o ‘star power’ de JCVD era tanto que nem este papel descarrilou a sua carreira – pelo contrário, o filme foi um sucesso entre as crianças dos 90…

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Bruce Willis em 'Assalto Ao Arranha-Céus'

- Bruce Willis. ‘Die Hard’. ‘Nuff said. Embora menos popular entre a miudagem portuguesa que os restantes atores nesta lista, o eterno John McClane fazia ainda assim sucesso junto dos mesmos, com os seus filmes de ação brutos, diretos e cheios de explosões – com o bónus de, ao contrário dos outros, ser verdadeiramente bom ator.

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Steven Seagal nos anos 90, ainda elegante

- Steven Seagal. E por falar em filmes de ação brutos, diretos e cheios de explosões, eis o rei dos mesmos. Antes de se tornar uma auto-caricatura anafada, Seagal era um artista marcial de cinema ao nível de Jean-Claude Van Damme, e a única razão porque era menos conhecido da miudagem portuguesa é que os seus filmes passavam menos por cá.

A par de outros nomes lendários, mas já em declínio (como Chuck Norris, Dolph Lundgren ou Patrick Swayze), eram estes os ‘role models’ cinematográficos dos rapazes dos anos 90, aos quais, no decorrer da década, se juntaria um sexto nome:

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Keanu em 'Speed - Velocidade Sem Limites'

- Keanu Reeves. Revelado enquanto ator de ação pelo filme ‘Speed’, de 1994, o ex-ídolo romântico adolescente passaria o resto da década a fazer cinema ali na fronteira entre o ‘blockbuster’ e a série B até, em 1999, obter o papel principal num certo filme de ficção científica, e se tornar (ou voltar a ser) ídolo de toda uma geração. A reputação como ator de ação, mantém-na até hoje, graças a filmes como 'John Wick'.

Na segunda metade dos anos 90, este panorama alterar-se-ia um pouco, com o ocaso de Arnie e Stallone e as derrocadas de JCVD e Seagal, e com o aparecimento, nos seus lugares, de nomes como Wesley Snipes e Jason Statham, sem esquecer o contigente asiático, muito bem representado por Jet Li e Jackie Chan.

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Li e Chan nos anos 90

Ainda assim, durante três-quartos da década de 90, este tipo de filme revelou-se tão popular que até atores de géneros completamente ‘à parte’, como Will Smith ou Tom Cruise, tentaram a sua sorte – e com algum sucesso! Com o dealbar do novo milénio, a progressão natural do cinema – incluindo do cinema de ação – ditou a morte gradual deste tipo de filme; no entanto, qualquer ‘90s kid’ que veja – por exemplo – um dos filmes das séries ‘Missão Impossível’, ‘Velocidade Furiosa’ ou ‘Os Mercenários’ certamente se recordará daqueles tempos em que Van Damme ou Stallone representavam o píncaro da masculinidade, e em que vê-los dar ‘coças’ a vilões e seus capangas era suficiente para justificar um bilhete de cinema…

E vocês? Eram fãs deste tipo de filme? Qual o vosso ‘leading man’ favorito? Por aqui, era-se ‘team JCVD 4 lyfe’. Deixem os vossos testemunhos nos comentários!

04.04.21

É Domingo de Páscoa, e apesar de as tradições portuguesas não terem mudado muito desde aquela época - continuam a existir as amêndoas, os ovos e a caça aos mesmos, as missas e as interrupções letivas - porque não recordar um tempo em que na escola se passavam os últimos dias do período a pintar desenhos de coelhinhos, e em que receber um brinquedo extra-grande num ovo de Páscoa da Kinder era motivo de júbilo?

Boa Páscoa a todos!

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