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Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

Portugal Anos 90

Uma viagem nostálgica pelo universo infanto-juvenil português dos anos 90, em todas as suas vertentes.

21.01.22

Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.

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A Pony é apenas uma das muitas marcas de roupa desportiva dos anos 90 que se encontram, hoje em dia, 'desaparecidas' da cultura popular

Sanjo. Pony. Fila. Le Coq Sportif. Kappa. Todos as conhecemos. Todos as vestimos. Marcas que, não sendo 'topo de gama' do vestuário casual-desportivo dos anos 90, não ficavam ainda assim mal vistas junto das mais conhecidas Adidas, Reebok, Nike ou Puma. Marcas que, infelizmente, se encontram hoje em dia extintas ou em extinção (pelo menos de uma perspectiva sócio-cultural), vivendo portanto, sobretudo, na memória de quem era menos 'mainstream' (ou tinha menos dinheiro) no tocante a comprar roupa de desporto em finais do século XX.

Numa altura em que a variedade dentro do mercado de vestuário pseudo-desportivo é tão pouca que se torna quase aborrecido entrar numa loja do género – porque sabemos que vamos ver Adidas, Nike, New Balance, com sorte ou um outro Converse, e pouco mais – pode parecer difícil acreditar que, há menos de uma geração atrás, as crianças e jovens (em Portugal e não só) tinham uma enorme gama de marcas por onde escolher no momento de adquirir ténis, t-shirts, bonés e outros artigos indispensáveis ao estilo casual-juvenil; e embora, como mencionámos anteriormente, nem todos estes nomes tivessem o mesmo peso, o mais importante era mesmo a marca ser reconhecível, e o artigo ser (ou, pelo menos, passar por) genuíno - ou não fossem os anos 90 a era de ouro do vestuário de contrafacção; reunidas estas condições, e salvo raras e honrosas excepções, a maioria das marcas seria bem aceite junto de um grupo de determinada idade.

No entanto, à medida que os anos avançavam, e o segundo milénio dava lugar ao terceiro, a maioria destas marcas foram, lentamente, desaparecendo da consciência popular, juntando-se a nomes de outros quadrantes, como a No Fear e a Quebramar, no grande e constantemente renovado cemitério das 'cenas da infância' - mesmo quando, como no caso da Pony, continuavam a constituir uma referência dentro de um determinado nicho (no caso, o basquetebol profissional.) Cabe, portanto, hoje a blogs como o nosso a missão de manter viva a memória destas marcas 'menores', mas que todos tínhamos no armário naqueles tempos já distantes...

20.01.22

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

 

Uma das principais características da maioria das crianças e jovens – seja qual for a época em que nascem e crescem – é o gosto pelo coleccionismo. Há algo na perspectiva de acumular todas as variantes disponíveis de alguma coisa que desperta o interesse inato do ser humano em fase formativa, sendo essa predisposição intangível o principal factor por detrás do sucesso de fenómenos como as colecções de cromos, jogos como os Tazos, o Magic the Gathering e conceitos como o do 'franchise' Pokémon.

No entanto, e ainda que todos os produtos atrás enumerados convidem ao coleccionismo parametrizado (no caso, pelo número de cromos, Tazos, cartas ou até monstrinhos virtuais à disposição do utilizador) existe – ou pelo menos existiu – uma vertente bem mais espontânea e anárquica deste passatempo, traduzida no coleccionismo de um determinado tipo de produto ou objecto, independentemente da sua proveniência e sem estar restrito aos moldes artificialmente criados por uma determinada empresa.

Esta vertente do 'hobby' de coleccionar, que encontra raízes em décadas mais ou menos remotas da sociedade ocidental, estava ainda bem viva nos anos 90, sendo que muitas crianças e jovens desse tempo tinham, ainda, o hábito de coleccionar 'quinquilharias', fossem elas selos, autocolantes, seixos da praia, postais, caricas, fotografias de artistas, ou até algo mais inusitado, como Credifones.

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Os porta-chaves eram apenas um dos muitos objectos quotidianos potencialmente coleccionáveis para um jovem dos anos 90

Dependendo da seriedade de cada indivíduo, estas colecções podiam chegar a durar anos, e – pela sua organização e armazenamento tão anárquicos quanto o próprio método de colecção – corriam sério risco de serem deitadas fora, oferecidas a terceiros ou (na melhor das hipóteses) vendidas quando se tornasse necessário desocupar espaço nos armários, juntar dinheiro, ou proceder a uma alteração no estilo de vida. Melhor sorte tinham as que ficavam guardadas na garagem depois de o seu dono perder o interesse, à espera de serem encontradas e nostalgicamente recordadas algumas décadas depois.

Fosse qual fosse o seu fado, no entanto, a verdade é que as colecções eram, nos anos 90, levadas muito a sério pela faixa mais jovem da população – ao ponto de, nas habituais secções de correspondência que eram parte integrante de qualquer revista para jovens da época, aparecerem muitas vezes anúncios relativos à troca de elementos de colecção, fossem essas trocas directas – selos por selos, por exemplo – ou entre elementos de dois tipos distintos (como um coleccionador de caricas que trocasse tampas raras por postais ou autocolantes potencialmente interessantes, por exemplo.) A natureza necessariamente postal destas interacções fazia ainda com que, muitas vezes, aquilo que começava como um 'negócio' de interesse puro e duro se transformasse em algo mais, por força do volume de cartas e encomendas trocadas entre ambas as partes – decerto terá havido muitas amizades a ter início na secção de Trocas do Correio do Leitor de uma qualquer revista dirigida ao público juvenil...

Tal como muitos outros fenómenos de que falamos nestas páginas, no entanto, também o coleccionismo acabou por cair em desuso. Embora o sucesso da série de jogos de 'Pokémon' demonstre que a atracção quase obsessiva pelo coleccionismo não desapareceu por completo entre a demografia mais jovem, os membros da mesma parecem mais interessados em coleccionar seguidores no YouTube ou Instagram do que em juntar paciente e dedicadamente produtos físicos semelhantes ao longo de vários anos; uma pena, pois – além de divertido – o coleccionismo fomenta conceitos tão valiosos quanto as supracitadas dedicação e paciência, a perserverança, o desenvolver de interesses próprios ou o sentido de organização e responsabilidade. Ainda não é, no entanto, demasiado tarde – talvez a última geração a ter crescido a coleccionar 'bricabraques' em caixas e frascos mantidos na prateleira do quarto ainda consiga mostrar à que lhes sucedeu o porquê de este passatempo ter sido, em tempos, a tal ponto popular...

19.01.22

NOTA: As imagens deste post foram retiradas do 'site' pessoal de António Jorge Gonçalves, em http://www.antoniojorgegoncalves.com/livros-books.

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Hoje em dia, há pouco quem duvide de que um meio como a banda desenhada também pode representar arte e cultura; de facto, são cada vez mais numerosos os volumes de banda desenhada dirigidos a um público jovem-adulto, à semelhança do sucedido nos anos 60 e 70 no seio do movimento franco-belga, e mais tarde no Japão, com as tradicionais 'mangas'.

Nos anos 90, no entanto, vivia-se o auge da era oposta – a era em que a banda desenhada (a par de meios audio-visuais análogos, como os jogos de vídeo) eram considerados estritamente para crianças, e tidos como a forma de leitura menos inteligente disponível no mercado – isto apesar de mesmo as BD's declaradamente para crianças terem laivos de sarcasmo e humor mais sofisticado por entre todo o 'nonsense' e animação. A tal não ajudava o facto de algumas destas publicações nada mais serem do que uma tentativa declarada de amealhar mais uns 'cobres' às 'costas' de um produto mediático da moda, com um ciclo de vida propositalmente curto e, portanto, sem grandes preocupações com a qualidade do material.

Terá, talvez, sido com o intuito de alterar esta situação, e a percepção que tanto graúdos como miudos tinham da banda desenhada, que, em 1993, o pelouro da Cultura da Câmara Municipal idealizou e distribuiu gratuitamente nas escolas do Primeiro Ciclo do concelho, uma publicação que, embora não se tratando de uma BD no sentido lato da palavra, se pode ainda assim inserir nesta categoria.

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Falamos de 'Lisboa Às Cores', um projecto que juntava desenhos do aclamado ilustrador António Jorge Gonçalves (então no auge de carreira, vindo a ser vencedor do prémio de Melhor Álbum Português no Festival de BD da Amadora desse mesmo ano, com a obra 'ANA') com textos de Nuno Júdice, num conceito que ficava ali a meio caminho entre a banda desenhada de cariz mais abstracto e artístico e os livros ilustrados tipicamente lidos pelas crianças daquela faixa etária, dando sempre maior primazia aos desenhos do que ao texto. No fundo, o livro servia quase como uma daquelas colecções de arte que normalmente se põem na mesa da sala de estar, sendo o tema, neste caso, a cidade de Lisboa, e as emoções e sentimentos que a mesma inspira – um conceito, talvez, um pouco 'adulto' demais para o público a que se destinava, mas cuja execução, de uma perspectiva adulta, não pode ser considerada menos do que excelente.

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Exemplo da arte do livro

De facto, basta olhar de relance para os desenhos de Gonçalves para perceber a razão de o mesmo ser um praticante aclamado da arte da ilustração, enquanto a prosa vagamente poética de Júdice encaixa bem no que o seu 'parceiro de crime' vai criando, resultando numa leitura agradável para entusiastas de BD de todas as idades. O facto de um livro com este grau de detalhe e cuidado ter sido distribuído gratuitamente é motivo para elogios ao pelouro da Cultura da CML em 1993, pois haveria muito boa gente (embora não necessariamente entre os 5 e os 10 anos de idade...) que pagaria de bom grado para poder ler este livro.

Hoje em dia, como tantos outros tópicos de que aqui falamos, 'Lisboa Às Cores' encontra-se um pouco Esquecido Pela Net – excepção feita, claro está, ao seu próprio criador. No entanto, para uma criança em 1993 (especialmente uma que já gostasse de livros, e de ler) este álbum terá constituído uma oferta plena de acerto – ainda que talvez tenha demorado alguns anos até as mesmas se aperceberem disso...

 

18.01.22

A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.

No início da década de 90, o termo 'televisão' em Portugal designava, quase exclusivamente, os dois canais estatais, as RTP 1 e 2, que se veriam acrescidos, alguns anos mais tarde, dos dois canais privados, a SIC (surgida em 1992) e a TVI (que aparecia no ano seguinte); quem quisesse ter mais canais, poderia recorrer à futurística tecnologia da TV por satélite, que permitia captar emissões tão excitantes como as da RTP Madeira, TVE, e – com sorte – um Eurosport desta vida, provavelmente com imagem tremida (ou com a famosa 'areia') e som a condizer. Pouca gente imaginava que o conceito de 'TV por cabo' pudesse, no contexto português, alguma vez vir a ser mais do que uma daquelas coisas que aparecem nos filmes e séries norte-americanos, e que estão tão longe da realidade lusitana que se tornam de difícil compreensão.

A verdade, no entanto, é que esta tecnologia estava mais próxima do que se pensava – no cômputo geral, não se passaria mais do que meia década até a TV Cabo se encontrar implementada em Portugal, com várias operadoras a oferecer serviços de fibra óptica de Norte a Sul do País. Corria ainda o ano de 1994 quando a Portugal Telecom, através da subdivisão PT Multimédia, introduzia o serviço em Portugal Continental, mudando para sempre as vidas de milhões de cidadãos, entre eles muitas crianças e jovens.

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Logotipo original do serviço

Curiosamente, no entanto, a TV Cabo perfila-se como um exemplo de uma tecnologia que não entrou em Portugal por via da capital, ou mesmo da outra grande cidade, o Porto; numa inversão do habitual fluxo dos acontecimentos, o primeiro território a adoptar os novos cabos de fibra óptica seria a Região Autónoma da Madeira, que iniciaria a transmissão de programas por cabo ainda em 1993, largos meses antes de esta inovação chegar ao espaço continental, em Maio de 1994, já acompanhada de uma mascote, a toupeira Fibras.

Uma vez apresentado ao grande público, no entanto, este serviço gozou de uma adesão sempre crescente, muito graças ao número perfeitamente alucinante de canais que oferecia. Espectadores habituados a quatro canais, com – quanto muito – mais um punhado obtido via satélite, tinham agora a oportunidade de escolher de entre uma variedade de canais generalistas e especializados, tanto nacionais como estrangeiros – ainda que, no caso da maioria destes últimos, sem recurso a legendas. Para as crianças e jovens, em particular – habituados a que a proposta para a sua faixa etária se resumisse a blocos específicos – a ideia de ter não um, mas DOIS canais totalmente dedicados à programação infantil (um dos quais, o Canal Panda, com conteúdos dobrados e legendados em português) era nada menos do que entusiasmante, sendo que o acesso a esses canais viria a moldar as memórias televisivas de infância de toda uma geração – basta referir que, sem a existência do Canal Panda e do Cartoon Network, nunca teríamos podido ver as icónicas dobragens espanholas de Doraemon e Captain Tsubasa, nem tão-pouco criações originais do canal norte-americano, como Johnny Bravo, Dexter's Laboratory, Cow and Chicken ou as Powerpuff Girls.

Mais – desses inícios já de si auspiciosos, a TV Cabo apenas viria a consolidar o seu crescimento, aumentando e ampliando cada vez mais a sua oferta, e adicionando canais 'premium' apenas acessíveis mediante subscrição, como era o caso da Sport TV ou dos famosos 'Telecines', que ofereciam ainda mais opções e escolha a quem estivesse disposto a pagar por eles; e mesmo quem não queria incorrer em custos extra continuava a ter muito que ver, sendo que o serviço oferecido pela TV Cabo nesses primeiros anos não só justificava o preço mensal de adesão ao serviço como contribuía para o volume crescente fidelização entre os clientes, que, ao longo dos anos, foram abandonando progressivamente a TV por satélite para se mudarem de 'armas e bagagens' para o novo serviço.

O resto da história é por demais conhecido: a longo prazo, a TV por cabo tornar-se-ia o 'standard' dos lares portugueses, sendo cada vez mais raros aqueles que continuavam apenas com os 'velhos' quatro canais – uma situação que se exacerbou já no final da década, quando os pacotes de Cabo passaram, também, a incluir Internet sem fios. Estava eliminada a última desculpa para não ter o serviço, e quebrada a resistência da maioria dos portugueses, permitindo à PT (hoje NOS) assumir a hegemonia de mercado e implementar nos lares portugueses aquilo com que, menos de dez anos antes, a maioria deles apenas sonhava: a televisão por cabo, tal como esta era entendida em países como os Estados Unidos. Lá diz o velho ditado, 'mais vale tarde do que nunca'.

17.01.22

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Grande parte do humor é intemporal. Apesar de a definição do que tem ou não piada tender a divergir de geração para geração e de cultura para cultura, há coisas que nunca deixam de ter graça – um jovem dos dias de hoje pode, por exemplo, derivar tanto prazer de um episódio de Mr. Bean ou Tom e Jerry como os seus pais ou avós quando eram da mesma idade. Assim, não é de estranhar que, de quando em vez, alguém decida recuperar um destes conceitos perpetuamente divertidos e apresentá-lo a todo um novo público, na esperança de que o legado desse material se perpetue ainda por mais uma geração.

Foi precisamente isso que a RTP fez quando, há pouco mais de um quarto de século, no Verão de 1996, decidiu recuperar a obra humorística de José de Oliveira Cosme, criada e transmitida na rádio sessenta anos antes, e adaptá-la para a televisão estatal de meados da década de 90. O resultado foi uma série que ainda hoje faz sorrir quem era da idade certa para lhe achar piada na altura, e que merece certamente ombrear com a obra de Herman José no panteão de séries humorísticas nacionais de finais do século XX.

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De facto, e apesar de expandir consideravelmente sobre o conceito original, a versão 'anos 90' de 'As Lições do Tonecas' não perde a sua essência, continuando a centrar-se na relação entre um aluno da instrução primária cábula, gozão e de 'inteligência saloia', embora de bom coração – o titular Tonecas – e o seu agastado professor, a quem a simples missão de leccionar uma aula com Tonecas na sala deixa sempre à beira de um ataque de nervos. Uma premissa simples, mas que já rendeu dividendos em obras como 'O Menino Nicolau', de Sempé e Goscinny, e que o torna a fazer aqui – mesmo que, na adaptação para televisão, o aluno tenha uma idade algo avançada (em várias décadas...) para ainda andar na instrução primária (se bem que, tratando-se de Tonecas, é perfeitamente possível que tenha simplesmente reprovado uma quantidade infinita de vezes...)

E por falar no aluno, é na interpretação de Luís Aleluia – e, diga-se de passagem, do seu coadjuvante, o 'professor' Morais e Castro – que está um dos grandes trunfos do 'Tonecas' televisivo. O comediante está em grande forma, soltando com gosto as suas piadas de humor brejeiro e, por vees, físico (muitas delas tiradas dos textos originais de Cosme, embora obviamente não todas), e exibindo grande química com o seu parceiro 'straight-man', que leva a muitos momentos divertidos; e, quanto mais não seja, Aleluia tem mérito por conseguir que o seu Tonecas obviamente adulto (mas sempre vestido como um típico 'puto' da escola) não seja, em nenhum momento, estranho ou perturbante – como o Chaves sul-americano, este era um 'miúdo graúdo' que a própria faixa etária alvo aceitava sem reservas, facto que ajuda, em parte, a explicar o enorme sucesso do programa.

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As interacções entre o Tonecas de Luís Aleluia e o professor de Morais e Castro estavam na base do sucesso da série

É claro que, sendo uma produção da RTP na década áurea da publicidade e 'marketing', o 'Tonecas' moderno não se mostra averso à expansão para lá do material original, nomeadamente no que toca a conceitos como os convidados especiais. De facto, embora a maioria dos episódios se desenrolassem apenas com os personagens principais e alguns alunos coadjuvantes (estes, verdadeiramente com idade para ainda andarem no ensino básico) surgiam de vez em quando algumas presenças externas para perturbar ainda mais as aulas; alguns destes eram apenas novos personagens representados por actores convidados (como a 'tia' Pureza Bucelas, de Ana Bola), mas outros apareciam a interpretar-se a si mesmos, como naquele episódio em que, sem razão aparente e sem qualquer pré-aviso ou antecipação, os Excesso entram pela sala de Tonecas adentro e se preparam para assistir à aula!

Um daqueles segmentos que definem a expressão 'ver para crer'

É claro que estes 'crossovers' se destinavam, pura e simplesmente, a publicitar os artistas e convidados em causa – não fossem os Excesso a sensação do momento da música portuguesa em 1997-98 – mas o facto é que a ousadia em arriscar este tipo de manobras, numa série que se pretendia fiel à obra de humor clássico que lhe estava na base, pode também ter tido um papel importante na longevidade de 'Tonecas', que se manteria no ar até praticamente ao fim do milénio, tornando-se presença assídua e constante nos televisores das crianças e jovens portuguesas da época.

Todos os truques publicitários do Mundo são em vão, no entanto, se o produto que tentam promover não tiver qualidade; felizmente, mesmo sem estas 'artimanhas', 'Tonecas' revelava-se uma série bem escrita – dentro dos seus parâmetros de humor simples e directo – magnificamente interpretada, e que, no cômputo geral, ainda se aguenta bem nos dias de hoje, mesmo depois das significativas mudanças sociais e culturais que um período de um quarto de século inevitavelmente acarreta. Um bom exemplo, pois, do tal humor intemporal de que se falava no início deste texto, e que tende a ser tão difícil de executar...

16.01.22

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.

Um dos maiores paradoxos do futebol, quer actualmente quer em décadas transactas, prende-se com o facto de, por vezes, jogadores que se revelam como talentos invulgares terem de passar incontáveis temporadas em situação de empréstimo durante os seus anos formativos. É claro que, por vezes, existem nomes que contrariam esta tendência, principalmente desde o dealbar do futebol moderno – basta lembrarmo-nos de Luís Figo, João Moutinho, Renato Sanches, Francisco Conceição ou, claro, Cristiano Ronaldo – mas, para cada um destes exemplos, continua a haver um sem-fim de nomes que deixam os adeptos a pensar em como é possível que os clubes não tenham visto, de imediato, o potencial dos jogadores – nomes como Deco, Miguel Veloso, João Palhinha, ou o homem de que falamos hoje, Rui Costa.

Produto das escolinhas do Benfica, e considerado pela lenda Eusébio como grande promessa para o futuro, Rui Manuel César Costa parecia, à entrada para a sua primeira época como sénior, no dealbar da década de 90, uma escolha natural para a promoção ao plantel principal do clube onde crescera para o futebol – especialmente tendo em conta que o médio tinha feito parte da Selecção portuguesa que havia conquistado o título de campeão mundial de sub-20, em Riade, no ano transacto. Terá, portanto, sido com alguma surpresa que os adeptos benfiquistas viram a jovem promessa de 18 anos rumar ao Grupo Desportivo de Fafe, num dos tais empréstimos por uma época que indicam que, apesar de o clube principal ainda contar com o jogador para o futuro, existem primeiro algumas arestas a lapidar.

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Foto de arquivo que mostra Rui Costa integrado no plantel do Fafe, aqui em treino (Crédito da foto: MaisFutebol)

E o mínimo que se pode dizer é que Rui Costa alisou definitivamente quaisquer 'cantos' pontiagudos que ainda pudessem existir durante a sua temporada na equipa nortenha em 1990-91, tendo-se afirmado como parte indiscutível da equipa (entre aulas de código e visitar ao clube de vídeo, foram 38 jogos, tendo o médio ainda contribuído com seis golos) e crescido o suficiente como futebolista para, aquando do seu regresso à casa-mãe (já com o título de Campeão Mundial de Sub-21, obtido novamente em Riade e no qual Rui Costa teve papel decisivo, ao marcar o 'penalty' que decidiu a final) ser integrado nos trabalhos da equipa principal, da qual apenas sairia para protagonizar uma das primeiras grandes transferências do futebol português moderno, ao rumar à Fiorentina, de Itália, em contra de 1 milhão e 200 mil escudos, o equivalente actual a seis milhões de euros. Pelo caminho ficavam uma Taça de Portugal, ganha ao Boavista por 5-2 em 1992/93, o título máximo de campeão nacional, obtido na época seguinte, sob o comando do não menos lendário Toni, e uma dupla de meio-campo ainda hoje tida pelos adeptos benfiquistas como uma das melhores de sempre, ao lado de João Vieira Pinto.

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De Fafe, Rui Costa 'voaria' para a ribalta do futebol mundial (Crédito da foto: FotoArte/MaisFutebol)

No futuro estava, claro, mais de uma década em Itália, ao serviço da Fiorentina e AC Milão, que lhe valeria a alcunha de 'Il Maestro', outros tantos anos como 'motor' de uma Selecção Portuguesa 'movida' a Geração de Ouro, e, finalmente, um regresso ao Benfica, que acolheu de braços abertos o seu filho pródigo e, após o término natural da carreira deste, o integrou nos quadros do clube que o formara para o futebol, onde ainda hoje milita. Prova concreta de que a previsão de Eusébio, quase quatro décadas antes, estava correcta, e de que Rui Costa era mesmo um dos 'especiais' do futebol moderno – mesmo que esse talento tenha, por uma época pelo menos, andado perdido nos 'batatais' da Segunda Divisão nacional de inícios dos anos 90...

15.01.22

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.

Os anos 80 viram nascer aquele que se viria a tornar um dos mais bem-sucedidos e revolucionários aparelhos tecnológicos da História, o leitor de videocassettes. Ao contrário do que se passava até então – em que um qualquer filme tinha de ser visto enquanto estivesse em cena, caso contrário havia que esperar por uma eventual repetição – graças ao leitor de vídeo, qualquer cinéfilo podia, agora, ver o seu filme preferido no conforto da sua casa, quantas vezes quisesse e sempre que quisesse.

Esta premissa apenas tinha um problema – nomeadamente que, como qualquer tecnologia recém-criada, tanto os próprios leitores de VHS e Betamax como as cassettes com eles compatíveis eram proibitivamente caros para a carteira média da época; mesmo dez anos mais tarde, já depois de a tecnologia se ter popularizado, e de o VHS ter ganho a batalha dos formatos e tornado obsoleto o seu 'irmão mais velho', continuava a não ser barato alimentar o 'vício' por filmes em casa. Não foi, pois, de surpreender que o sempre oportunista mundo dos negócios tenha 'inventado' toda uma nova forma de lucrar com este paradigma e, ao mesmo tempo, permitir ao cidadão médio ver filmes em videocassette sem ter que abrir os cordões à bolsa.

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Surgidos ainda nos anos 80, precisamente como resposta ao problema acima delineado, os videoclubes não tardaram a popularizar-se, primeiro nos dois extremos do continente americano, e mais tarde um pouco por todo o Mundo – incluindo Portugal. O seu conceito era simples: a inscrição como sócio de um destes serviços permitia a qualquer pessoa alugar filmes por um período de uma a cinco noites, tendo cada modalidade um preço fixo – uma solução que, apesar de temporária, caiu no gosto da tal percentagem da sociedade ocidental que não tinha meios para comprar vídeos de forma permanente. Graças aos clubes de vídeo, a prática de juntar toda a família frente a um filme numa Sexta ou Sábado à noite tornou-se prática corrente, e muita gente deixou de ter desculpa para ainda não ter visto tal ou tal filme.

Com o seu aspecto e atmosfera característicos – em Portugal, a maioria eram pequenas 'lojecas' de bairro, longe do 'glamour' de uma Blockbuster – e o óbvio atractivo de oferecer filmes de todos os tipos, desde os maiores 'blockbusters' aos filmes de série B mais 'chungas' – os clubes de vídeo tinham, para as crianças dos anos 80, 90 e 2000, uma atracção muito especial, que apenas aumentava no caso dos videoclubes que permitiam alugar jogos de vídeo. Ir ao clube de vídeo alugar um filme, ou até devolvê-lo, era uma parte marcante da semana de qualquer criança ou jovem da época, e terá sido nestes espaços que muitos deles terão descoberto alguns dos seus filmes favoritos - uma situação que não se alteraria durante as duas décadas seguintes, mesmo depois de o VHS sofrer o mesmo destino que inflingira ao Betamax, e ser tornado obsoleto pelo formato DVD.

Não, a 'morte' dos clubes de vídeo viria a dar-se, como é tantas vezes o caso com os produtos e conceitos que abordamos neste blog, com o dealbar da era digital 2.0, com as suas plataformas de vídeo e streaming, que tornariam obsoletos não só este tipo de estabelecimentos, como o próprio conceito de formatos físicos para gravação e reprodução de filmes. Após o aparecimento de serviços como o YouTube, não tardaria muito até aqueles carismáticos 'buracos' escuros e esconsos, cheios de uma ponta à outra com estantes repletas de filmes de todos os tipos, estilos e géneros, fecharem portas para sempre, e para o próprio conceito que representavam desaparecer da consciência popular da sociedade ocidental. Os mais velhos, no entanto – aqueles que se lembram da sensação de ir, sozinho ou acompanhado, buscar os 'filmes da semana' ao videoclube mais próximo – não deixarão morrer a memória destes espaços, tão icónicos e indissociáveis da cultura jovem da época como as lojas de discos, os cinemas de bairro, os salões de jogos 'manhosos' ou as discotecas de cave de centro comercial.

14.01.22

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Na última edição desta rubrica, em relação a 'O Projecto Blair Witch', observámos como cada década cinematográfica apenas tem uma mão-cheia de filmes que verdadeiramente transcendem o seu estatuto como obras de entretenimento e se tornam parte da cultura popular: e se aquele filme tinha definitivamente lugar em qualquer lista deste tipo criada para os anos 2000 (dado ter estreado precisamente no último dia da década, século e milénio) o filme de que hoje falamos é um sólido candidato ao primeiro lugar da lista equivalente para os anos 90, visto que até o cinéfilo mais distraído ou o mais veemente opositor de filmes de acção violentos saberá o que é, e do que trata.

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À época a produção mais cara da História de Hollywood, com um orçamento em torno dos cem milhões de dólares, 'O Exterminador Implacável 2: O Dia do Julgamento' foi o maior sucesso de bilheteira de 1991 e é, ainda hoje, considerado homónimo com a série 'Exterminador' como um todo (praticamente eclipsando o seu já bem-sucedido antecessor, de 1984) além de elogiado como um dos melhores filmes de ficção científica de sempre, e como um prodígio técnico para a época; nada, aliás, a que o realizador James Cameron fosse alheio, ele que já havia realizado o igualmente inovador 'Aliens' alguns anos antes, e que viria a bater o seu próprio recorde de custos não uma, mas duas vezes em anos subsequentes – primeiro com 'Titanic' (um dos principais concorrentes de 'Exterminador 2' ao trono cultural dos anos 90, a par de 'Matrix') e, mais tarde, com outro espectáculo audio-visual topo de gama, com o nome de 'Avatar'.

Mais ainda do que Cameron, no entanto, 'Exterminador 2' é sinónimo, na consciência popular, de dois nomes, ambos de actores que ocupavam papéis principais: por um lado, o jovem Edward Furlong, que viria a evoluir do seu papel como John Connor para outros papéis marcantes em filmes como 'América Proibida', e por outro, o de Arnold Schwarzenegger, para quem este filme cimentou o estatuto como principal herói de acção da década, e aniquilou de vez a possibilidade de o voltar a ver em filmes do calibre de 'Hércules em Nova Iorque'. Juntamente com o aterrorizante T-1000 de Robert Patrick (de quem o agora heróico T-101 tem de proteger John e a mãe, Sarah) os dois são responsáveis pela maioria dos elementos mais memoráveis do filme, com Arnie, em particular, a adicionar mais alguns exemplos à sua longa lista de 'frases feitas', prontos a serem referenciados e parodiados até à exaustão nas três décadas seguintes.

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Uma imagem icónica dos dois não menos icónicos protagonistas do filme

De facto, 'Exterminador 2' está tão indelevelmente enraizado na cultura popular que se torna quase redundante explanar sobre o seu sucesso, o seu impacto cultural, ou a sua importância para o género da ficção científica nas três décadas subsequentes; basta referir que, além das honras já mencionadas no início deste texto, o filme é, ainda hoje, o mais bem-sucedido da carreira de Arnold Schwarzenegger, e parcialmente responsável por iniciar o 'franchise' Terminator, que nas décadas seguintes veria surgirem novas séries de televisão, jogos de computador, e toda uma nova série de filmes centrados em torno do universo aqui retratado. E se esses mesmos filmes não são de forma alguma obras-primas do cinema, sendo controversos até mesmo entre os fãs do 'franchise', já 'Exterminador 2' é indiscutível como um dos maiores filmes dos anos 90, uma das maiores obras de ficção científica de sempre, e um marco cultural bem digno de ser celebrado – até porque, poucos meses depois de se ter celebrado a preceito o seu trigésimo aniversário, com um relançamento em 3D, continua a ser um filme tão impressionante, relevante e importante como sempre.

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Cartaz promocional da edição especial em 3D, recentemente lançada

13.01.22

Todas as crianças gostam de comer (desde que não seja peixe nem vegetais), e os anos 90 foram uma das melhores épocas para se crescer no que toca a comidas apelativas para crianças e jovens. Em quintas-feiras alternadas, recordamos aqui alguns dos mais memoráveis ‘snacks’ daquela época.

Para as crianças dos anos 90, o conceito de 'douradinhos' estava indelevelmente associado, ao ponto de ser quase sinónimo, com uma só marca – a Iglo, vertente europeia da anglófona Bird´s Eye – e respectiva mascote homónima – o Capitão Iglo (originalmente Captain Bird's Eye), um 'lobo do mar' da velha guarda cuja principal preocupação era garantir que, durante as suas expedições de pesca nos mares do Norte, os seus marujos apanhavam sempre o peixe mais fresco com o qual produzir os palitos de peixe panado ultra-congelados que tanto sucesso faziam entre a miudagem.

Este monopólio de mercado não impediu, no entanto, uma das principais rivais da Iglo de, em meados da década, tentar a sua sorte na comercialização deste tipo de produtos, sob a denominação Croustibat.

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Embalagem francesa do produto, que continua a ser comercializado no seu país natal

Originalmente idealizado em França (o próprio nome do produto parece, aliás, ser um 'portmanteau' de 'croustillants batôns', ou 'pauzinhos crocantes', o que acaba por ser uma descrição praticamente literal do que é um douradinho) e trazido para Portugal pela mão da Findus o conceito Croustibat 'amarava' em terras lusas pronto a comercializar, com grafismo, campanhas de marketing e até mascote própria, um peixe de chapéu de marinheiro e músculos à Popeye, pronto a enfrentar cara-a-cara o Capitão Iglo e acabar com a sua hegemonia. O investimento na penetração de mercado desta marca foi tal que chegou a ser feito um jogo de computador - uma adaptação gráfica de um dos jogos da série 'Gobliiiins!' com a mascote da gama como protagonista, que é hoje mais lembrado do que o próprio produto em si - uma honra a que, em Portugal, apenas o bem mais reconhecível Coelho Quicky havia, até então, almejado.

 

Vídeo integral do jogo de Croustibat, com direito até ao memorável anúncio da marca no início

Infelizmente, todos estes esforços se provaram ser em vão, já que os douradinhos Croustibat não duraram mais do que um par de anos nas prateleiras portuguesas, acabando por desaparecer das prateleiras de forma discreta, e sem nunca terem representado real ameaça ao domínio absoluto do Capitão Iglo sobre a arca dos congelados de peixe – o exacto oposto, certamente, do que a Pescanova pretendia ao importar para Portugal o conceito.

Quanto mais não seja, no entanto, a experiência Croustibat terá servido como caso de estudo, já que, nas três décadas subsequentes, nenhuma marca se atreveu a repetir a 'gracinha' de tentar fazer frente à Iglo no tocante a douradinhos, sendo que a única concorrência aos mesmos existente nos dias de hoje continua a vir das 'barrinhas de pescada' da Pescanova (que não quer, concerteza, incorrer em violação de uma marca e nome registados...) edos também já clássicos Peskitos, a alternativa aos douradinhos da Pescanova que ganha pontos por moldar os seus fritos em forma de peixe, mas perde por não te um nome ou mascote reconhecíveis -que ocupam um confortável segundo lugar como alternativa ao mais conhecido produto da Iglo. Quanto ao nome Croustibat em si, o mesmo acabou por ficar imortalizado, já no novo milénio, como denominação de uma banda integrante do movimento punk/hardcore português – mas isso seria já assunto para outra secção deste blog; para já, fica aqui a recordação desta história de David e Golias que, ao contrário da tradicional fábula, não se traduziu num triunfo do mais fraco, antes pelo contrário...

 

12.01.22

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

A veia competitiva é uma das características integrantes de qualquer ser vivo. Todos queremos sair vencedores de alguma coisa, nem que seja uma vez; e enquanto a maioria das outras espécies lida com este ímpeto de forma primitiva (através de lutas ou brincadeiras simples), o Homem encontrou as mais diversas formas de lhe dar vazão, dos diferentes tipos de jogos e desportos ao debate intelectual, passando pela que inspira o tema de hoje, e que certamente trará memórias agridoces à maioria das crianças dos anos 90: os concursos e promoções que davam prémios.

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(Crédito da imagem: Enciclopédia de Cromos)

Todos nos lembramos deles – ou antes, das suas publicidades, que prometiam mil e um prémios mirabolantes simplesmente por responder a uma questão, ou inventar uma frase. Demasiado bom para ser verdade? Talvez, a menos que se fosse o 'sortudo' que ganhava a bicicleta, a prancha de 'surf', o computador ou a consola - os equivalentes infanto-juvenis ao carro, apartamento, férias exóticas e electrodomésticos dos concursos para adultos.

Claro que, para sequer almejar a entrar na 'corrida' por qualquer destes prémios, era normalmente necessário gastar muito, muito dinheiro – embora nem sempre de forma semelhante. Nos concursos mais 'simpáticos' e legítimos (normalmente patrocinados por uma qualquer marca ou produto) o investimento surgia da necessidade de juntar pontos, ou as famosas 'provas de compra', as quais só podiam ser obtidas comprando os produtos da marca em causa (e normalmente, o número de pontos ou provas de compra necessário obrigava a consumos repetidos).

Já as companhias mais falhas de escrúpulos associavam os seus concursos a números de valor acrescentado, os quais, nove vezes em cada dez, se encontravam impedidos – e se, por algum milagre, se conseguisse conexão, ainda era preciso ouvir uma explicação das regras e condições lida M U I T O L E N T A M E N T E, por forma a 'chupar' o máximo de dinheiro possível da conta telefónica de quem participava... Escusado será dizer que, em ambos os casos, as hipóteses de ganhar eram extremamente remotas – o que,no entanto, não impedia as crianças da época de tentar a sua sorte...porque era mesmo disso que dependia, da sorte.

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Exemplo de uma das famosas linhas de valor acrescentado (Crédito da imagem: Nostalgia Lusa)

Quem quisesse hipóteses melhor delineadas e uma deliberação mais legítima podia sempre recorrer àquele tipo de concursos – normalmente veiculados por uma publicação ou programa de televisão – que envolviam, não apenas sorte, mas também engenho, nomeadamente para a produção de um desenho ou texto, que era depois avaliado por comparação com os seus pares para decidir o vencedor; aqui, pelo menos, eram os melhores que ganhavam (ou aqueles que o júri julgava serem os melhores, o que, claro dava sempre margem para discordar) e não apenas os mais sortudos ou com mais dinheiro para gastar.

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Exemplo de um concurso baseado no talento, veiculado pela Danone durante as Olimpíadas de 1992 (Crédito da imagem: Enciclopédia de Cromos)

Fossem quais fossem os moldes, no entanto, os concursos e promoções que envolviam prémios são parte integrante da vivência da geração que nasceu e cresceu entre os anos 70 e 2000. E embora hoje em dia este tipo de iniciativa continue a ter lugar, a mesma tende a desenrolar-se, invariavelmente, nas redes sociais, mediante um clique num ícone num ecrã, ou o preenchimento de um formulário 'online', o que lhe retira um pouco daquela mística inerente ao envio de uma carta para a Panrico ou Longa Vida, ou de pegar no velho telefone fixo, marcar um daqueles números começados por 506 ou 0670 para tentar ganhar uma Mega Drive, e esperar que os pais não se importassem...

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